quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Outros táxis part II

25th Hour de Spike Lee. Soberbo pastiche de Taxi Driver de Scorsese

Outros táxis

Are you talking to me?

Empregos



A propósito do debate mensal do Primeiro Ministro no Parlamento, em que, sobretudo, se falou do aumento do desemprego (0,4% e/ou 0,04% ?!?), e, também de algumas «conversas» aqui no Peão, lembrei-me de um livro que retrata o ambiente profissional de uma maneira brilhante. Trata-se de Uma conspiração de estúpidos de John Kennedy Toole, e relata com um humor sardónico a vida de um personagem, Ignatius J. Reilly, que em tudo é desajustado, inclusive num dos seus empregos: «Ignatius encontrava-se talvez no mais desprestigiante dos escritórios em que jamais entrara [...]. A atmosfera daquela sala lembrou a Ignatius o seu quarto [...]. Ignatius quase rezou em voz alta para que o aceitassem» (p.70-71).
Imagem: Assembling a stator, English Electric, Trafford Park Works (1960) de Maurice Broomfield

Criatividade precisa-se

Os slogans dos adolescentes em protesto na 5 de Outubro eram um bocado aborrecidos.

Nem mais!

Por falar no problema dos transportes em Lisboa, João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos) acha que a permitir à EMEL multar e rebocar carros é uma forma de fascismo. Eduardo Pitta (Da Literatura) responde, eu não podia concordar mais com o Eduardo Pitta.

P.S. - E já agora, não usem a palavra "Fascismo" a torto e direito, fica mal...

Gato Fedorento

passou no Domingo. Para quem não viu, aqui vai.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

DJ Peão: Belle and Sebastian



Versão acústica de "Sleep The Clock Around", tema originalmente do álbum "The Boy With the Arab Strap" (2000).

A spectre is haunting Europe

Ministros das Finanças da União Europeia querem rever distribuição de riqueza

Os direitos já tenho, só me faltam os deveres

Por falar no problema do imobiliário em Lisboa, AA no Arte da Fuga considera que nesta questão os direitos à propriedade são intocáveis, insurge-se contra o "comunismo habitacional" e teme a "pilhagem legal".
Pergunto a AA: Para além do direito à propriedade, não há também deveres de quem detém a propriedade? Se casas vazias fazem subir os preços do mercado, e obrigar os outros a pagar mais pela habitação, o direito à propriedade é um direito absoluto? Se casas vazias têm consequências urbanisticas, económicas, ambientais, de saúde pública e sociológicas numa cidade a propriedade não implica também responsabilidade?

É que se os direitos de propriedade são intocáveis então cada um pode fazer o que bem entende da sua propriedade. O dono de um pinhal pode deitar-lhe fogo à vontade, o pinhal é dele, e a seguir pode plantar eucaliptos, ou construir um arranha-céus, não é?

P.S. - Obrigado Hugo, pelo link.

Propostas pedestres para os marcadores

Camaradas peões,

para mostrar que, apesar de tudo, acredito na comunicação entre as pessoas, proponho que haja um maior empenho de todos no uso dos "marcadores" (os "labels for this post" em baixo à direita quando se está a escrever), que me parece um instrumento muito útil na nossa vida de servos da bloga Não é nada que dê muito trabalho. Trata-se apenas de:

1- não esquecer de pôr um ou vários marcadores quando se escreve um post.

2- ter cuidado, quando se põem vários marcadores, de os separar por vírgulas (tipo Benfica, Vitórias europeias, Futuro campeão nacional) Se puserem espaço em branco a separar ou ponto e vírgula, o programa não separa em vários itens, lê tudo como um marcador só.

3- Verificar, na lista de marcadores à direita da página do blogue, se podemos fazer coincidir o nosso marcador com algum que já tenha sido usado (isto para não multiplicar marcadores que sejam sinónimo, como Benfica ou Glorioso. Estou a brincar: tipo Europa e União Europeia)

Abraços

Ha esperança




Portugal está salvo, o Quinto Império começa agora! Lidera-nos óh Fátima!

PS O Público está mesmo feio!

Mal-entendidos

Um blogue que servisse só para esclarecer mal-entendidos serviria para alguma coisa? Em que as pessoas passassem o tempo a explicar: "mas não foi bem isso que eu quis dizer" ou "mas isso que eu disse não se referia ao que tu escreveste". Provavelmente o resultado seria uma espiral de explicação de mal-entendidos sem fim. O post seguinte diria que aquilo que eu disse não era bem aquilo que eu queria dizer e o outro a seguir diria que aquilo que eu queria dizer também não era bem aquilo que eu tinha dito que queria dizer. E ia-se acrescentando, acrescentando sem parar até (nunca, ninguém) se perceber que o que eu queria dizer é a soma daquilo que eu disse + aquilo que eu queria dizer + qualquer coisa que sempre falta e que permite alimentar a comunicação.

Por outro lado, será que o pressuposto de que na comunicação há sempre mal-entendidos seria prático? Não se criaria logo um silêncio bastante embaraçoso? Se tudo é mal-entendido, para quê falar?

Pensando bem, esse blogue seria bastante cansativo. Pensando bem, é claro que esse blogue já existe. Todos os blogues passam o tempo a explicar que aquilo que queriam dizer não era bem aquilo que disseram.

Ai Jesus!

Quero lá saber que o homem tenha o penteado mais duvidoso da Super Liga (só comparável àquele meu que toca guitarra no Maxime, esquece-me agora o nome...). Quero lá saber que o homem não tenha muito talento para dizer o que os intelectuais de esquerda acham que um treinador de futebol deveria dizer nas conferências de imprensa. O homem é um excelente treinador, põe as equipas que orienta a jogar à bola, e o resto é conversa. Senão vejamos os factos, compare-se a época passada com esta época. O ano passado com dois treinadores proto-designados candidatos ao título do "próximo Mourinho" (Carvalhal e Couceiro) o Belém começou a época candidato à UEFA e acabou a lutar para não descer de divisão, o que aliás só conseguiu graças ao inestimável contributo desse inigualável artista de variedades - que fez o destino que fosse também presidente do Gil Vicente - o sr. Fiúza (António, onde estiveres neste momento deixo-te aqui o meu sincero Obrigado!, e um grande Bem Haja!). Este ano, com Jesus, o Belenenses começou a época com o objectivo de não descer e está neste momento em sétimo lugar a lutar para a Europa, e ainda está na corrida para a Taça. Vamo-nos aproximando do topo, de onde nunca deviamos ter saido.

DJ Peão: Teddybears




O tema "Alma" do álbum "Soft Machine" (2006)

A propósito do post de Z, conheço muita gente que não aprecia muito a obra do Clint Eastwood. Considero-o um dos melhores realizadores da actualidade e da história do cinema. Realização clássica, argumentos simples e um grande humanismo. E ainda há quem não goste de cinema americano! Quando é bom, o cinema americano é o melhor do mundo.
No outro dia revi, em DVD com uma amiga, o road movie de Wim Wenders, Paris, Texas. Chegámos à conclusão de que o filme é tão bom, que até parece ter sido realizado por um americano. Wim Wenders, realiza esta sua obra prima totalmente assente na realidade americana: Uma história americana, um espaço americano e sonhos americanos, à mistura com toda uma Pop Culture americana.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Peões por Lisboa - Propostas concretas (III)

Enquanto o Carmona anda no cai-não-cai, continua o debate sobre Lisboa aqui no Peão. Um outro problema que me parece particularmente grave em Lisboa é a questão do imobiliário, particularmente o preço da habitação e o número de casas devolutas. Há zonas de Lisboa que estão desertas e necessitam urgentemente de uma injecção de novos moradores, principalmente no centro, na proximidade do eixo Baixa - Avenidas Novas, mas talvez noutras zonas também. Para começar o problema do preço da habitação não é exclusivo de Lisboa, nem uma solução satisfatória do problema não está ao alcance da CML. É necessário nomeadamente a sempre adiada reforma da lei das rendas, o que depende da Assembleia da República e do Governo. Isso não quer dizer que a CML não possa fazer algo para, pelo menos, minorar o problema. Há duas coisas que podem ser feitas.

- Obras coercivas. Há várias zonas em Lisboa com muitos prédios vazios, ou quase vazios, e que estão a deteriorar-se, ao mesmo tempo essas casas não estando no mercado os preços aumentam. A CML pode, e já foi feito ocasionalmente, obrigar os proprietários de imóveis em mau estado de conservação a fazer obras coercivas, isto deveria ser feito sistematicamente, em larga escala em todos os prédios com apartamentos devolutos e que estejam degradados. Seria "apenas" uma questão logística de mobilizar mais meios para este aspecto. Esta medida poderia pôr pressão em muitos dos proprietários, que para financiar as obras no imediato teriam que pôr as casas no mercado. Programas de financiamento, como o Recria que já existe há bem mais de dez anos deveriam ser marginais, para financiar aqueles que não têm realmente meio de financiar as obras de outro modo.

- Limitação de licenças. Na Baixa, particularmente, o problema da falta de residentes parece-me ligado à concorrência com os escritórios e comércio que praticam preços incomportáveis para a habitação. Para que o comércio ou escritórios ocupem um apartamento necessitam de uma licença da Câmara. A CML deveria estabelecer um limite as essas licenças - por exemplo não se dão licenças de exploração acima do primeiro andar - assim criaria imediatamente mercados distintos para a habitação e comércio. Claro que as licenças já atribuídas não podem ser retiradas (ou podem?), mas licenças novas podem não ser atribuídas quando um escritório ou uma loja abandona um local. Pelo menos gradualmente poder-se-ia ir atraindo novos residentes. Esta medida provocaria também uma dispersão por Lisboa dos escritórios e comércio, o que também não seria mau (digo eu...).

- Moratória à construção. Pelos que se tem passado recentemente em Lisboa, vê-se bem que a construção é um problema. O património imobiliário que já existe parece-me suficiente para as necessidades de Lisboa. Pelo menos por uns tempos não se devia pura e simplesmente construir em Lisboa.

And the oscar goes to.....













Desconfio que Clint Eastwood é um grande....sobretudo quando nos faz perceber que todos somos cruéis na nossa humanidade.

A vez do táxi

Como contraponto ao racismo ordinário dos taxistas de que se falava há uns dias aqui no peão, eu tinha duas histórias de taxistas portugueses para contar. Um, em Lisboa, onde acabava de aterrar

(esta história de ser peão não podia ser mais contrária à vida real das minhas viagens este ano, em que, num esforço de síntese, já vejo comboios a entrar em autocarros que entram em pistas de aeroporto)

e outro em Massy-TGV (estação de comboios perto do aeroporto de Orly).

Em resumo: eram dois emigrantes portugueses simpáticos; um libertou-me da antipatia de um cliente ordinário, o outro quebrou-me a monotonia do trânsito em Lisboa com uma conversa sobre como tinha emigrado clandestinamente para França em 1967 ou 68.

(Há muitas histórias de imigrantes assim, muitos são taxistas, e eu estou com esta conversa não para dizer bem dos taxistas em geral, mas para dizer bem dos emigrantes portugueses de que nunca ninguém diz bem. Cada vez mais os vejo, àqueles que vieram, à distância destes 30 ou 40 anos, como determinados, valentes, épicos, todos os adjectivos que dariam grandes portugueses. Com o seu lado ordinário, racista, às vezes, certamente.)

Estive entretanto em Itália, onde o governo caiu e entretanto se está a tentar recompor, embora, infelizmente, pareça estar condenado a prazo e com ele a esperança que levantou. Apanhei um táxi na estação de Pisa, porque havia greve de comboios e não havia esperança já de apanhar o comboio que havia de me levar ao avião da easyJet.

(Os tipos da easyJet acham que são espirituosos e mandam o pessoal de bordo dizer umas piadas. Ontem disseram que estávamos a chegar a Paris em inglês e que Paris era uma "city of love, life and glamour". O pessoal parisiense que ia no avião olhou uns para os outros com aquele ar arrogantemente adequado à situação. Não é que não haja love, life e glamour, mas o pessoal vive em Paris como toda a gente, quer dizer, anda de metro, apanha com o patrão chato e a burocracia todos os dias, não sei se estão a ver.)

Em suma: na estação de comboios de Pisa havia um táxi novo modelo. É o carro normal, guiado por um imigrante, que se transforma em táxi quando a bicha para os táxis está demasiado grande e algumas pessoas se arriscam a perder o avião.

Foi caro, não deu para grandes conversas, mas foi muito útil. Uma profissão de futuro, muito europeia dos nossos dias.

(desculpem o desordenado do discurso, mas tenho andado em trânsito e isso afecta-me de uma maneira qualquer)

O sindicalismo suicida

O presidente do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado (STE) manifestou-se hoje preocupado com a possibilidade de o Ministério das Finanças reter os salários dos funcionários públicos com dívidas ao fisco, considerando que a proposta é mais um "ataque à função pública". "É preocupante porque se está a tratar uma vez mais os funcionários públicos como um grupo à parte, um grupo alvo a atacar e a abater", disse à Lusa Bettencourt Picanço, em reacção à notícia de hoje do PÚBLICO.

Quando são os trabalhadores do sector privado com dívidas fiscais, está em causa, afirma-se - e bem -, o incumprimento das obrigações perante o Estado e a falta de civismo elementar. Quando são os funcionários públicos, então já não há nenhum problema em particular - e uma medida como esta é vista como um ataque à função pública. Começa a faltar a paciência para tanta vitimização.
Bettencourt Picanço não compreende que os funcionários públicos são, efectivamente, um grupo à parte: são os únicos cujos salários são pagos pelo Estado - mais concretamente, pelos impostos gerados pelas transacções efectuadas pelos trabalhadores do sector privado (já para não falar das melhores condições contratuais, salariais e outras que muitos funcionários públicos gozam em comparação aos do privado, mas isso fica para outra posta). Nenhum trabalhador, do sector público ou privado, tem mais legitimidade para ter dívidas fiscais; simplesmente, o Estado pode agir sobre os seus funcionários de uma forma - como se propõe agora - que não pode sobre os funcionários do privado, sobre os quais necessita de utilizar outros instrumentos de coacção.

Um bocadinho mais de humildade, respeito e solidariedade por parte dos que falam em nome do sector público não ficava nada mal.

Le monde à l'envers

“A situação é hoje catastrófica”, disse o candidato a cerca de dois mil militantes da Frente Nacional, denunciando um “capitalismo predador”


Perdão, foto errada. Agora sim:

Sobre educação


A revista francesa "Sciences Humaines" tem disponível on-line um dossier muito interessante sobre políticas educativas. Ainda sobre educação, a revista havia lançado há um par de meses um número hors-série que desenvolve muitas das questões polémicas que hoje preocupam as escolas, os seus profissionais, bem como pais e alunos.
Um tema inevitável ao qual havemos de voltar.




DJ Peão: The Divine Comedy



O tema "A Lady of a Certain Age", do álbum "Victory for the Comic Muse" (2006).

"(...) You had to marry someone very very rich
So that you might be kept in the style to which
You had all of your life been accustomed to
But that the socialists had taxed away from you (...)"

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Gore 2008



Daqui a algumas horas, Davis Guggenheim poderá subir ao palco do Kodak Theatre para receber o óscar para melhor filme documentário pelo "An Inconvenient Truth". Provavelmente, receberá uma ovação implicitamente dirigida a Al Gore. Se assim acontecer, há quem, nos próximos dias, voltará a falar no último para a corrida à Casa Branca.

Em 2002, Al e Tipper Gore publicaram uma compilação de fotografias de fotógrafos norte-americanos sobre o "espírito da família". Quando comprei o livro, comentei com a minha mulher que se Al Gore tivesse ganho as presidenciais em 2000, não teríamos tido oportunidade de ver a maior parte daquelas excelentes imagens. Em vez disso, estaríamos a assistir a uma presidência diferente. E nas prateleiras das livrarias, no lugar deste livro, não estaria, certamente, nenhum outro assinado por George e Laura Bush. E isso faz muita diferença. Uma diferença do tamanho da decência, da seriedade, e do respeito.

"Solidariedade social, sim, mas com os que são como nós"

O post da Cláudia fez-me lembrar algo sobre o qual há muito estava para escrever (no "Véu da Ignorância") mas que acabei por nunca fazer; não lhe posso dar a devida atenção agora, mas fica a ideia essencial. Ao longo dos anos, muitos estudos têm dado forte solidez empírica à conclusão de que a heterogeneidade étnica é má para a aceitação pública de políticas redistributivas. Por outras palavras, as pessoas de um dado país aceitam tanto mais um Estado social generoso quanto mais os que são o seu público-alvo preferencial se assemelham a elas. Em lógica de soundbyte: "Solidariedade social, sim, mas com os que são como nós". A conclusão não é particularmente simpática para a esquerda, mas ajuda a explicar porque é que os países nórdicos - dos mais etnicamente homogéneos do mundo - tiveram uma expansão impressionante do Estado social ao longo do século XX, enquanto que os EUA se mantiveram como welfare laggard até hoje: o eleitor médio americano sempre soube perfeitamente quem era/é o mais provável beneficiário das políticas sociais federais e/ou estatais – a população negra.

Esta questão é central hoje, quando todos pensam o que fazer com o “modelo social europeu”. As incertezas aqui não radicam apenas na sustentabilidade económica dos diferentes regimes de protecção europeus (falar de um “modelo social europeu” já é em si falacioso, porque, empiricamente falado, há vários), mas também no modo como a simultaneamente justa – em nome do cosmopolitismo (e não do “multiculturalismo”!) – e inevitável – por questões demográficas e de crescimento económico – entrada de populações não-europeias no espaço da UE vai impactar na percepção das europeus no que toca à justiça e desejabilidade de um modelo social realmente generoso. Não sei se há dados (recentes) sobre Portugal sobre esta questão em particular; era interessante saber se o que pensam as pessoas sobre a justiça e desejabilidade dos mecanismos de protecção social se altera quando o seu público-alvo começar a contar com uma presença mais clara de ucranianos, romenos ou brasileiros.

A maçã branqueada


Há poucos dias fui confrontada com a estética da Macintosh para os anos 00 aplicada num grande espaço: ainda a maçã, mas sem cor; superfícies metalizadas e muitos vidros. Os anos 00, portanto.
Pensei, com nostalgia, no antigo logo, a que atribuia o significado dado pela autora Sadie Plant no livro Zeroes and Ones, em que a maçã rainbow seria uma homenagem a Alan Turing.
Este cientista inglês (1912-1954), é considerado o pai da computação, desenvolveu estudos na área da inteligência artificial e, durante a II Guerra Mundial, conseguiu decifrar códigos alemães. Era, também, homosexual e, em consequência da sua orientação sexual, sofreu grandes pressões, tendo mesmo de se submeter a terapias hormonais. Em 1954, este homem suicidou-se ao comer uma maçã envenenada com cianeto.
Gostava de pensar que um dos logos mais famosos do mundo lhe prestava homenagem, que um símbolo emblemático da sociedade de consumo pudesse conter uma afirmação tão notável.






Não sou daqui mas gosto de aqui estar

Julgo que a música tem um papel muito importante a desempenhar no combate ao racismo e à xenofobia e na promoção do pluralismo e da inclusão. O último trabalho de Amélia Muge, que sigo com muito prazer há uns doze anos, tem um tema, Não sou daqui, que fala do desejo de ter todos os lugares neste lugar e que este lugar seja o lugar de todos. Diz a cantora: "Aprender no lugar do outro a me encontrar...".
Como colectivo, os portugueses têm ainda muito que aprender nesta matéria. Eles que durante as últimas décadas do Estado Novo foram 'bombardeados' com uma propaganda nacionalista que enaltecia o carácter integrador, universalista e ecuménico do nacionalismo português, em oposição aos 'maus' nacionalismos, fechados, etnocêntricos e xenófobos. Tudo indica que os portugueses apenas interiorizaram a norma anti-racista para efeitos de discurso autojustificativo, não a reproduziram na prática pessoal e social quotidiana.
Na semana passada, o Público divulgou um estudo sobre as identidades na Europa e os modos como estas influenciam, nomeadamente, a atitude face à imigração. O estudo, elaborado no âmbito do European Social Survey, inquiriu polacos, portugueses e suíços. Em traços largos, relativamente aos portugueses, chegou-se à seguinte conclusão: opõem-se mais à entrada de imigrantes no seu país do que os polacos ou os suíços, embora sejam menos nacionalistas do que aqueles. Como refere Jorge Vala, coordenador do estudo em Portugal, "Quanto maior é a identificação com o país, mais se valoriza a tradição, o conformismo, a segurança. Pelo contrário, quanto maior a identificação com a Europa, mais se está orientado para valores de abertura à mudança, de realização pessoal, com maior capacidade de integrar situações de incerteza e valorizando o prazer e a gratificação". Em Portugal prevalecem os indivíduos que se identificam simultaneamente com o país e com a Europa. Isto significa que a maioria não está muito aberta à mudança, nem essencialmente virada para a tradição. Apesar de serem menos nacionalistas do que os polacos ou os suiços (18% contra 42% na Polónia e 38% na Suíça), os portugueses, devido ao seu perfil de identificação "misto" ou "ambíguo", têm em média uma atitude mais restritiva em relação à imigração.
A 28 deste mês, realiza-se no ICS-UL um Seminário de Apresentação de Resultados - Identidade Nacional 2003, dedicado ao tema «Nação, Nacionalismo e Exclusão». É organizado por Jorge Vala e José Manuel Sobral, coordenadores do módulo sobre Identidade Nacional no projecto «International Social Survey Programme».
Desconheço os resultados relativos a 2003, mas lembro-me que estudos anteriores mostraram que o espaço de afirmação identitária da maioria dos portugueses não se confinava a Portugal e à Europa; estendia-se à África, ao Oriente, ao Brasil… ao mundo, como outrora ao império.
Pensando na letra «Não sou daqui», parece que os portugueses gostam dos lugares dos outros e dos outros noutros lugares distantes, mas têm alguma dificuldade em partilhar o seu lugar com os outros e em reconhecer neste lugar o lugar de todos.

DJ Peão: Si Belle, Cibelle


Dos novos talentos da música brasileira surgidos nos últimos anos Cibelle é sem dúvida minha favorita. Mistura Samba-Rock e Samba-Reaggae com música electrónica, e é claro Bossa-Nova. Tem uma excelente voz, é fantástica ao vivo, e é diferente do tudo o resto. Faz parte também dos artistas que usam a internet, e outras "modernices" para contruir a sua imagem, veja-se o seu site. Em cima fica o vídeo de "Explendor", meu tema preferido do álbum "The Shine of Dried Electric Leaves", mas é de certo modo atípico, é tocado exclusivamente em acústico. Para quem quiser mais Cibelle pode ver este vídeo no YouTube em que Cibelle canta "London London" de Caetano Veloso em dueto com Devendra Banhart (em trajos vitorianos), ou ainda o tema "Só sei viver no Samba" do álbum "Cibelle" que fica aqui em baixo.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Aqui está uma...

...coisa que gostava de ter sido eu a escrever.

Literatura para a juventude

Ei-lo de volta e em discurso directo:
"Manuel da Silva Ramos vai lançar novo livro no dia 28 na Galeria Zé dos Bois, ao Bairro Alto. Esta novela escrita com a mestria deste que é sem dúvida um dos melhores escritores que temos no nosso país, vem no seguimento da sua ebuliente criatividade e capacidades narrativas. Infelizmente ou não, o escritor tem passado despercebido a muita gente. Abri pois os olhos para este novo livro. «O Sol da meia-noite» seguido de «Contos para a Juventude»."
Manuel da Silva Ramos

Duas dicas importantes: a Galeria ZDB - Zé dos Bois fica na R. da Barroca 59; o lançamento começa às 21h30, e será acompanhado pelo bom vinho beirão Quinta dos Termos...

Sobre a obra deste escritor fantástico vd. aqui.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

DJ Peão: Catpower



Uma versão do velhinho tema "Wonderwall".

Já temos o nosso Offshore

É isso mesmo, a partir de hoje o Peão disponibiliza o seu território virtual, limpinho de impostos, a todos os projectos e iniciativas interessantes que necessitem de um empurrãozinho para vingar nesse sistema selvagem que é o capitalismo global (ver na margem direita, logo a seguir ao nome dos peões). Começamos com uma empresa liderada por duas grandes aventureiras (embora pequeninas no tamanho ;-)) que decidiram mandar o patronato às urtigas e iniciar um projecto próprio na área do design de comunicação (e não só). São elas as autoras do nosso magnífico cabeçalho! A empresa chama-se EvaTrai (nome bastante sugestivo) e podem ter acesso aos seus produtos e actividades AQUI.

Agora: José Afonso

Agora a vinha é doce
Em vinha d´alhos
Agora a frívola foi-se
O matutino
Agora a vírgula vai-se
A virgindade
Agora a quinta descanta
A mocidade
Agora a pérola não
Se vai embora
Agora vai a filha
E vai a sogra
Agora não cheirava
A rosmaninho
Agora o Bento está
Mesmo sozinho
Agora pinta a chuva
Na goteira
Agora a filha já
Não tem papeira
Agora rima o novo
Rumo ao velho
Agora sabe bem
Este sossego

EcoPop


Hoje nas bancas com o Jornal Público.
Alerta: os exemplares não são muitos, pode esgotar!

Um triste aniversário

Faz hoje 5 (cinco!) anos que Ingrid Betancourt, então candidata à presidência da república da Colombia pelo partido ecologista, e a sua colaboradora Clara Rojas, foram tomadas como reféns pelas FARC. A últimas imagens recolhidas de ambas são de um vídeo feito pelas FARC em Maio 2003, desde então não há notícias confirmadas sobre a sua condição.
As FARC mantêm prisioneiros qualquer coisa como 3000 reféns.

Quem é que anda aí a abandalhar isto?

Sim, quem é o espertalhão que anda prái a inserir links para blogues neo-liberais na nossa lista de blogues?! Ãhn? Quem é o safardanas, hum? Ai, ai, o menino. Ainda por cima, misturados com blogues para papás babados, de cidades, de ambiente (vejam só a futilidade!), de bric-a-brack, rock'n'roll, souvenirs e outras coisas esquisitas. Parece impossível!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

De táxi ou a pé? (II)


Só para acresentar outra pequena história racista ao post da Cláudia.

Lisboa. 2007-02. O taxista do aeroporto vai a resmungar toda a viagem, com certeza pelos clientes não serem estrangeiros com hotel no Estoril! Quando chega ao local pretendido, começa a tirar as malas da bagageira, mas como uma das portas do táxi ainda está aberta, exclama: «A porta está aberta! Devem querer que os pretos entrem no meu carro!».

Depois disto, não estou bem certa de querer saber o perfil ideológico, ou qualquer outro, dos taxistas.

DJ Peão: The Cardigans



O tema "I Need Some Fine Wine And You You Need To Be Nicer", do álbum "Super Extra Gravity" (2005).

Peões por Lisboa - Propostas concretas (II)

Este debate sobe a questao dos transportes está interessante. O Zed avançou com algumas propostas concretas, uma delas razoavelmente polémica, que seria uma espécie de portagem à entrada de Lisboa para desencorajar o uso de carros. Isto já existe em Londres, e chama-se "congestion charge" (introduzida em Fevereiro de 2003, reduziu após 2 anos depois o volume de tráfego na cidade na ordem dos 30%, mas é ainda controversa junto de muitos). Eu não sei se isto funcionaria em Lisboa, que é uma cidade bem mais pequena que Londres, e com transportes públicos cuja qualidade deixam provavelmente muito a desejar - senão para os que viajam dentro da cidade, pelo menos para os que fazem todos os dias um trajecto de e para fora da cidade de Lisboa para os arredores. Suponho que a diferença de qualidade se deva em boa parte ao facto de os operadores em Londres serem privados e terem incentivos para melhorar o serviço (falo dos autocarros e comboios; o metro é ainda propriedade pública). O Estado age como regulador.

Sem querer entrar numa polémica estéril sobre a questão do "Estado vs. mercado", parece-me lógico que, qualquer que seja a solução - e elas serão sempre várias -, ela passará pela abertura de novos mercados, e pela parceria entre o sector público e privado sem que isso signifique privatização no sentido restrito da palavra. O que deve ser aqui a prioridade é a qualidade do serviço e a liberdade de escolha que ele oferece ao consumidor médio, por um lado, e ao consumidor com menos recursos, por outro. Se o mercado tomará em princípio conta do primeiro, o Estado deverá olhar pelo segundo. Isto significa que o Estado deve regular a competição e financiar certos sectores sem ter que possuir e pagar autocarros e comboios, mais os salários de gestores e restantes trabalhadores. Há quem fique muito preocupado com a entrega destas coisas ao mercado; eu gostava era que ficassem realmente preocupados com coisas destas.

Dito isto, não há panaceias para resolver este problema, e as medidas terão que ser sempre parciais e bem articuladas. Há esquemas interessantes que valeria a pena explorar. Por exemplo, vi em Lyon (que é uma cidade sensivelmente da mesma dimensão de Lisboa, com cerca de meio milhão de habitantes intra-muros, e praticamente 2 milhoes na área metropolitana) em Setembro do ano passado uma solução interessante, apesar de não ter tido ocasião para conhecer por dentro o seu funcionamento. Provavelmente é um sistema que existe em outras cidades e não prima necessariamente pela originalidade (quem conhecer esquemas semelhantes noutras cidades, diga), mas pareceu-me ser engenhoso. Era uma espécie de serviço público de aluguer de bicicletas (e digo "público" pela amplitude de pessoas que serve, não pela questão da propriedade - ao contrário do que provavelmente pensa o Renato, eu acho que nestas coisas dos serviços a regulação é crescentemente a questão central, não a propriedade - uma discussão para aprofundar noutra altura); as pessoas tinham um passe que lhes permitia levantar uma bicicleta num dado parque público, levá-la para outro ponto da cidade, e parqueá-la noutro espaço. Depois de ir à sua vida, outra pessoa podia usar a mesma bicicleta, e assim sucessivamente. Não sei exactamente como era pago o serviço; se o critério era o numero de quilómetros percorridos, se a quilometragem era irrelvante e se se pagava o passe ao mês, etc. Não sei, e se calhar até há varios critérios.

Agora, imagine-se isto para os carros. Já há, li algures, em vários países o que chamam "club-sharing cars", muitas vezes associados a novos desenvolvimentos residenciais. Estes clubes alugam carros a preços muito mais baixos do que os do costume (que são basicamente para turismo, e por isso sao caríssimos) e fornecem uma alternativa a pessoas que têm carro mas apeas o usam de vez em quando ou usam-no apenas porque o têm. Se tivessem uma alternativa interessante, podiam efectivamente dispensá-lo. As pessoas compram um "season ticket" e usam o carro quando lhes apetece. Os estudos que existem sobre isto afirmam que este tipo de soluções têm um welfare effect positivo na vida urbana, e tudo depende da sua escala. Neste formato, porém, isto ainda sao "club goods": ou seja, são serviços que sao prestados a quem paga por eles, num clube fechado. Se o Estado pegar nesta ideia e fizer como o serviço das bicicletas (mas não precisa de ser o Estado a produzir o serviço, pode adjudicá-lo a uma empresa privada se for mais eficaz - e muitas vezes é-o), poderia, aos poucos, generizar esta solução para os carros e transformar isto num "public good". Para maximizar o seu impacto, poderiam, por exemplo, ser criados incentivos a que quem levasse mais do que 1 ou 2 pessoas nos carros, acumulasse pontos que descontassem na tarifa mensal/anual. Assim teríamos menos carros na cidade e mais pessoas por carro; e no futuro, as pessoas até podiam chegar à conclusão que comprar carro é inútil, e o efeito agregado ao longo do tempo seria que talvez menos carros fosse vendidos, com uma baixa do número de carros por habitante.

Interessante, talvez digam. Agora contem estes planos à indústria automóvel e vão ver a resposta que levam.

Muralhas em Lisboa: o mercado que resolva

A propósito deste post de Zèd sobre a política de transportes para Lisboa, venho expor a minha oposição à proposta de pôr portagens nos acessos à cidade, como medida para reduzir o número de automóveis. Como bem identificou Zèd, um dos problemas centrais da falta de eficácia dos transportes públicos relaciona-se com a descontinuidade das linhas e das ligações entre os vários tipos de transporte, e a falta de racionalidade na gestão dos recursos disponíveis. No entanto, considera que a plataforma existente representa uma alternativa mais do que suficiente para que as pessoas deixem de vez o carro particular. Daí que se legitime uma medida de choque - as portagens – como meio de desencorajar uso do automóvel. Sobre isto tenho várias considerações a fazer:
1. Ver o uso do automóvel somente à escala da cidade é um erro. À semelhança do que acontece com outros trajectos, como a ligação ferroviária entre as duas bandas do Tejo, o automóvel não deixa de ser usado por completo. Passa é a fazer somente parte do percurso (normalmente, da residência até à estação de comboio). Mas os carros têm de ficar em algum lado!
2. Para além da descontinuidade das linhas, verifica-se que a maior parte das estações e nódulos de intercepção entre as várias redes não têm parques de estacionamento em condições para albergar o conjunto enorme de veículos que não deveriam entrar na cidade.
3. A cidade não é só invadida durante o dia. À noite é um espaço de lazer ao qual acorrem imensas pessoas da periferia. Dado que não é economicamente viável manter a mesma oferta de transportes que existe durante o dia, como é se resolveria esta situação? Deixaria de haver portagens em horário pós-laboral? Parece-me que esta medida seria no mínimo imoral: quem quisesse ir trabalhar de carro teria de pagar, quem quisesse ir divertir-se à noite não pagaria.
4. Contudo, o argumento que mais me surpreende, para legitimar a medida, assenta no mercado. Num comentário ao post o Hugo justifica a ineficácia do serviço público “porque o mercado não se desenvolveu, dado que não há procura que o justifique; no dia em que as pessoas não tiverem a mesma facilidade para levar o carro p o interior da cidade de Lisboa, essas soluções aparecerão”. Esta afirmação não está muito longe da retórica neo-liberal cujo meio para solucionar qualquer problema passa por impor a liberalização do mercado. Aqui a ideia é outra, o mercado dará os seus frutos ao se impor uma portagem. Com a agravante de que o Estado sairia duplamente beneficiado, não teria que encontrar alternativas, pois o mercado arranjá-las-ia, ao mesmo tempo, que engordaria os bolsos ao tributar a entrada na cidade. Não estamos muito longe do modelo da cidade-estado da época medieval.
5. Entendo que as portagens poderão fazer sentido, não enquanto medida choque, mas num cenário em que o Estado e a CML tiverem proporcionado as condições necessárias para as pessoas prescindirem dos automóveis. Porque se isso não acontecer estou convencido de que a maior parte dos utentes não deixará de utilizá-lo. Veja-se o que sucede com o tráfego da Ponte 25 de Abril, apesar do aumento das portagens, do parqueamento pago em todos os passeios da cidade e do aumento dos combustíveis (o que encareceu em muito os custos), grande parte das pessoas ainda considera que é mais rentável utilizar o carro. Não serão todas irracionais, pois não?

Guantanamo visto por dentro

Se isto é o que mostram, faço ideia aquilo que escondem...


Uma reportagem de Philippe Grangereau para o Libération.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Ciências ocultas

Descobri, alarmada, que sofro dos olhos (cataratas, seguramente!) e do trapézio (?!?).

Deixo esta imagem tão útil para socialistas e outros identificarem as suas maleitas.

Cidade do mais antigo nome

1.
Solidão poeirenta — daqui do alto
do forte só o vento mensurando
os haustos. Pode fevereiro ameaçar
arco-íris, que nem o céu acredita
em tais prodígios —

aqui o reflexo da poeira
é molde que plagia
o engano do primeiro dia.
Ou isso, ou a mudez que rifa
os segredos da infância.

O suspiro dos flashes não reclama
eco nem retorno — nasce-se para
a perdição, inda aos primeiros vagidos
seja a mão de deus a amparar-nos o sexo.

Amores?! Só os que perdeste sobre outras
areias, nas trevas onde se acotovelam
deuses ébrios. Agora a melancolia é digital
— manda-me o saldo das sete vidas
quando setembro aveludar esse trilho
por onde os aguaceiros rifam
a sorte do fotógrafo.

I.
Solidon xeiu di puera — li di altu
di forti so bentu ta midi
folgu. Febreru pode miasa
arku-da-bedja, nen si séu ka ta kridita
nes kusa ki ta intxi algen di spantu —

li raflekisu di puera
é forma di kopia
inganu di purmeru dia.
Ô kel li, ô kel kála ian ki ta poi
na rifa segredu di mininênsia.

Suspiru di flaxi ka ta raklama
éku nen ratornu — nansedu pa
perdison, inda na kel purmeru txoru
mon di diós ta sugura-nu dipadianti.

Amor ?! So kel ki riba dotu ria
bu perde, na treba undi ta kutubela
kes diós inviagadu. Gósi melankolia é dijital
— manda-m saldu di kes seti bida
ora ki setenbru poi bira sima veludu kes kaminhu
pa undi kel txubinha ta poi na rifa
sorti di futógrafu.

José Luís Tavares

Está visto que os italianos gostam mesmo mesmo é de brincar às eleições

O legado de Blair


Uns bons posts atrás o Daniel levantou esta discussão, que entretanto ficou nos bastidores para ser reatada mais a sério num futuro próximo. Deixo entretanto apenas um elemento para o debate: um texto publicado por Matt Browne (antigo director do think tank próximo do New Labour, a "Policy Network") num dos mais recentes números da revista "La Vie des Idées", editada pelo grupo "République des Idées", um conjunto de académicos e intelectuais que procuram pensar as questões determinantes do nosso tempo de uma perspectiva não dogmática à esquerda. Um dia destes falo um pouco mais deste grupo, mas vale sempre a pena ir explorando o site.


O cartoon (clickar para aumentar) é do inevitável Steve Bell, do "The Guardian".

O parasita e a evolução

João Miranda considera que o estado é um parasita. Sem entrar pela discussão de saber se é ou não é, refira-se apenas que a Biologia Evolutiva demonstra que as relações parasita-hospedeiro com o tempo tendem a transformar-se em relações de simbiose (uma relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos de espécies diferentes).

Banda sonora para o debate sobre a política de transportes em Lisboa



"Passenger", de Iggy Pop

O radioblogue do DJPeão



Versão acústica do tema "Blindfold", dos Morcheeba (álbum "Big Calm", 1999)

Achegas ao adjectivar diluviano da imprensa cá da paróquia

Casmurro que nem um burro pintas picuinhas chatarrão roedor de unhas descarado tótó bufão-mor pateta bicho-carpinteiro antóniogénico manga-de-alpaca coquinhas vizinho porreiro que nos muda as lâmpadas da sala e se for preciso repara a canalização engraçadinho malcriadão mal-arranjado pão pão queijo queijo (ou só ganda pão, como dizem as adolescentes) fónix, ké ké isto, ó meu?!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Peões por Lisboa - Propostas concretas (I)

Respondendo ao repto do Renato neste post, a que se seguiu uma troca de comentários, aqui vão as minha primeiras propostas para um programa por Lisboa. As primeiras ideias que me ocorrem são na área dos Transportes. Há demasiados carros, é preciso melhorar os transportes públicos e desencorajar o uso dos carros.

- Por exemplo, os comboios das linhas de Sintra, Cascais, e da Azambuja deveriam deixar de ser administradas pela CP, e ser administradas conjuntamente com o Metro (e talvez se pudesse juntar ainda a Carris). Uma gestão conjunta seria mais eficaz, e nem que seja só em termos de imagem, fazendo parte da mesma unidade os utentes usam mais facilmente as interfaces metro/comboio. Facilitaria também a construção de novas dessas interfaces no futuro. A rede de metro e comboio passaria a ser verdadeiramente, uma rede, o que incentiva os passageiros a usá-la mais frequentemente. Esta proposta ultrapassa as competências estritas da CML, teria que envolver além da CP e do Metro, o Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações (MOPTC), a Junta Metropolitana de Lisboa, e provavelmente outras entidades, mas deveria partir de uma iniciativa da CML.

- A linha de Cascais deveria ser ligada à linha da Azambuja em Alcântara Terra, com tantos comboios a fazer Cascais - Cais do Sodré como a fazer Cascais - Azambuja. Assim seria feita uma ligação da linha de Cascais a Entrecampos, sem precisar de usar pela passagem Alcântara-Mar Alcântara-Terra, que não é lá muito conveniente. Isto implicaria fazer alguns túneis na Av. da Índia, mas a linha férrea já existe, simplesmente está reservada para usos excepcionais. Tal como a proposta anterior isto iria envolver outras entidades, mas a iniciativa deveria ser da CML.

- Limitar a entrada de carros particulares em Lisboa. Uma possibilidade é simplesmente a criação de uma portagem em todas as entradas de Lisboa, transportes públicos estariam isentos. Talvez se pudesse limitar aos dias de semana e a determinadas horas, de qualquer modo já existem alternativas de transporte que justifiquem uma medida severa para desencorajar a entrada de carros na cidade.

DJ Peão, versão (sóbria de) Carnaval



"All is Full of Love", da Björk

Como às vezes apetece não ter que pensar

Um dos melhores cartoonistas de sempre tinha que nos vir fazer companhia. Eis Mel Calman, o mais terno e lúcido de todos nós.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Peões por Lisboa

A polémica gerada em torno destes posts teve, quanto a mim, uma consequência importante que resumo na seguinte constatação: é preciso ocupar o espaço que os partidos não estão muito interessados em ocupar. Ou seja, é necessário construir um projecto inovador para Lisboa. Penso que o Peão tem condições para dar um contributo interessante. Até já temos candidato (não é Hugo?). É isso mesmo, acho que o Peão devia lançar a sua própria candidatura. Proponho que se utilize o espaço virtual deste blogue e, sobretudo, do Lado B para se elaborar um programa de ideias e de projectos para Lisboa. Um programa com a participação de bloggers, de comentaristas ou de simples leitores que tenham interesse em deixar o seu contributo. O Hugo é, na minha opinião, a pessoa indicada para coordenar este processo e dinamizar o debate. Que me dizes, pá?
Proponho que o Lado B seja uma espécie de âncora para as propostas estruturantes. A ideia seria formalizar um programa eleitoral constituído pelos temas e pontos que sejam considerados mais pertinentes. Vamos a isto?

Pelo reforço democrático da política científica europeia

Recentemente, a Comissão Europeia realizou uma grande conferência para debater as medidas necessárias ao fomento da divulgação dos resultados científicos na área da investigação europeia (+inf. aqui). Tal reforço dos recursos de conhecimento da sociedade europeia – a grande meta da Estratégia de Lisboa, lembram-se? – passa inevitavelmente pelo livre acesso à informação e conhecimento científicos, implicando o livre acesso às publicações científicas.
Antes disso, houve todo um movimento da sociedade civil exortando por medidas e um debate neste sentido. No seguimento da publicação do relatório «EU Study on the Economic and Technical Evolution of the Scientific Publication Markets of Europe», um consórcio de organizações ligadas à área da comunicação académica patrocinaram uma petição de apoio à divulgação publicamente suportada da produção científica e às recomendações que constam neste relatório, petição essa a ser enviada à Comissão Europeia. Outras influentes organizações transnacionais europeias tomaram também posição (p.e., o European Research Council) e a petição ainda circula. Também um relevante organismo da UE (o European Research Advisory Board) já dera o seu apoio.
Os peões deram igualmente o seu contributo ao disponibilizar no lado b deste blogue um conjunto estruturado de recursos científicos em livre acesso.
PS: este movimento de open acess tem também um representante para os arquivos (vd. OAI).

Presidenciais francesas: Queres ser meu padrinho? (II)

Vou desenterrar aqui uma polémica (que não chegou a sê-lo) com um outro peão, o André Belo. Foi a propósito de Le Pen poder não se candidatar às presidenciais por não conseguir reunir padrinhos suficientes (conforme o post ali mais abaixo). Escrevi há tempos um post numa altura em que o Le Pen andava a estrebuchar um bocado sobre essa história dos apadrinhamentos, e fazendo-se de vítima, colocava o ónus sobre o sistema eleitoral dizendo que não era normal que um candidato que em 2002 foi à segunda volta não pudesse apresentar-se este ano por causa de uma questão processual. Na minha opinião, o que não é normal é que Le Pen não consiga arranjar os 500 apadrinhamentos necessários. Sem estar a defender este sistema eleitoral, se Le Pen não o conseguir é antes demais uma enorme derrota política para si próprio e para a Frente Nacional, e diz bem do que são um e outro, recolhem muitos votos de protesto mas ninguém os leva a sério. O André respondeu (em francês) que essa seria receita para o desastre. E porque razão a polémica não chegou a sê-lo? Porque eu estou de acordo com o André, não obstante o que já escrevi, o que eu gostaria mesmo era de ver Le Pen derrotado nas urnas, e não na secretaria. Diga-se ainda que mais recentemente Le Pen não só não se tem queixado do sistema eleitoral como faz sigilo absoluto sobre a recolha de padrinhos, e é claro que tentar interpretar esta alteração de estratégia é especulativo mas quer-me parecer que vai conseguir apresentar-se mais uma vez às eleições.

Se Le Pen tem dificuldades em reunir apadrinhamentos, outros naturalmente têm ainda mais. A tal profusão de esquerdistas, de Arlette Larguiller (essa que corre para a sua sexta candidatura) a José Bové vão ter problemas para conseguir formalizar as suas candidaturas. Isto para já cria logo um problema: que leitura fazer das sondagens? (a propósito, quem quiser informações detalhadas sobre sondagens, o Le Monde tem um excelente site com resultados de vários institutos, dos últimos 4 ou 5 meses) Apesar de tudo os "pequenos candidatos" somam no seu conjunto qualquer coisa como 15% das intenções de voto, e Le Pen outros tantos. Se estes candidatos não estiverem no boletim de voto, quem vai beneficiar com isso? É uma quantidade apreciável de eleitores e pode alterar bastante o equilíbrio de forças entre os candidatos dos grandes partidos. Eu vejo duas possibilidades diametralmente opostas. No quadro mais simples beneficia o candidato do grande partido da mesma área política, Sarkozy à direita e Ségolène à esquerda. Provavelmente o PSF e a UMP estão a contar com este cenário, mas parece-me demasiado fácil, se os votos nos "pequenos" candidatos são votos de protesto dificilmente podem beneficiar os grandes partidos, em particular numa primeira volta. Se estes votos são genuinamente votos de protesto, então é possível que se transformem em abstenção, o que objectivamente beneficia o campo político contrário, a Sarkozy beneficia da abstenção à esquerda como Ségolène beneficia da abstenção à direita. À esquerda pode ainda um ou dois dos esquerdistas conseguirem apresentar-se e recolher os votos de todos quantos não o conseguiram. A escolha do esquerdista preferido torna-se muito fácil, e pode até gerar uma surpresa nos resultados. Há ainda um factor - não sendo especialista não sei se tem algum suporte empírico - mas pelo menos em teoria pode revelar-se um tiro no pé para Ségolène e/ou Sarkozy. Passo a explicar: se os "pequenos" candidatos não se apresentarem à primeira volta, e daí resultar a abstenção dos que neles pretendiam votar, o que acontece a esses votos na segunda volta? Dito de outra maneira, será que quem se absteve na primeira volta terá maior probabilidade de se abster? E será que quem optou por um voto de protesto na primeira volta opta por um voto realista na segunda? Se for este o caso, então a Sarkozy e Ségolène, interessar-lhes-ia viabilizar as "pequenas" candidaturas da sua área política para beneficiar do seu apoio à segunda volta, mas não é isso que estão a fazer.

Adenda: Le Pen admitiu hoje que ainda não ter os apdrinhamentos necessários para concorrer às eleições, e lançou um "apelo solene" (sic) aos eleitos para que o apoiem.

O motivo pelo qual eu gostava de ocupar...

...o Rivoli até o dia 5 de Março.

Mote reaccionário da semana

«Um Estado que não tem os meios da sua reforma não tem os meios da sua conservação»

Edmund Burke

Arte para os peões deste tempo

cada vez gosto mais de graffitis. está lá tudo: a poesia, a beleza, o rumor do mundo, o tempo, a marca.
deixo-vos uma boleia por este mundo pela mão do art crimes (vêm lá também várias cidades e autores lusos) e do in-cubo.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

De táxi ou a pé?

Paris. 2006-05. Dois passageiros portugueses entram num táxis dirigido por um taxista português. Conversa puxa conversa, o taxista queixa-se da arrogância dos franceses, diz que são xenófobos e racistas, tratam mal os imigrantes, etc., etc. Depois, decide perguntar como vai Portugal. Os passageiros preparam-se para responder, mas o taxista atalha como um comentário definitivo: "o país vai de mal a pior, os pretos estão por todo o lado [...]"

Roma. 2007-02. Uma família portuguesa entra num táxi dirigido por um taxista italiano. Sem aviso prévio, a viagem assemelha-se a um circuito turístico pelos locais emblemáticos do nazi-fascismo. O taxista faz questão de apontar: daquela varanda discursava Mussolini, aqui teve lugar a parada militar em honra do Führer, aquela estação foi construída para receber Hitler [...]

Estas pequenas histórias dão pano para mangas em termos de reflexão e discussão de carácter científico. Dado o adiantado da minha hora, direi apenas: como gosto de andar a pé!
(Prometo voltar aos temas do racismo e do fascismo com tempo e alguma profundidade. Desconheço qualquer estudo sobre o perfil ideológico dos taxistas, mas agradeço referências.)

The Devastations



Banda australiana que toca amanhã no Santiago Alquimista. Aqui o tema "What's the Saddest Sound a Man Can Make",
gravado no concerto dado na passada quinta-feira em Barcelona. Os fãs de Nick Cave (mas sem os Bad Seeds!) não devem perder. O vídeo de um outro tema pode ser visto aqui.

Salvos pelo "Gordo" II


Os anónimos, o capital social, e outros défices

Lembro-me que pouco tempo depois de abrir com o Pedro Alcântara da Silva o Véu da Ignorância (hoje em hibernação), há cerca de um ano, havia umas discussões interessantes na blogosfera em torno do significado dos comentários anónimos. Como a minha entrada neste mundo virtual era, à altura, recentíssima, só podia ter uma opinião teórica sobre o assunto; uma das teses que mais me ficou na retina (e guardo apenas uma memória vaga da controvérsia, é provável que houvesse outras opiniões interessantes e válidas) foi exposta pelo sociólogo e ex-ministro da Educação, David Justino, que interpretava a prática dos comentários anónimos ocos, insultuosos e sem nenhum outro objectivo que não fosse o do ataque pessoal (que obviamente, e sublinho, não esgota o universo dos comentários anónimos, dado que muitos são razoavelmente inofensivos - embora a sua acumulação possa ser particularmente annoying) como mais um indicador do défice de capital social e de capacidade de discussão de uma sociedade como a portuguesa, mergulhada tanto tempo na censura e no conformismo intelectual, onde muitos se refugiam por detrás do anonimato para simplesmente destruir ou achincalhar as opiniões de poucos - os que, para mal ou para bem, tomam posições em debates públicos, sejam eles mais ou menos sérios.

Obviamente, esta atitude também converge com a opinião de que a política é um mero affair de tachos. Ter uma opinião ou posição política só pode, obviamente, representar uma candidatura a um "tacho" - algo facilmente explicável por outra característica da sociedade portuguesa que os sociólogos gostam de destacar: a enorme distância dos indivíduos em relação ao poder político institucional, que tende a gerar ressentimento e desprezo por quem sobre ela opina ou nela investe profissionalmente (ou gostaria de investir, se houvesse espaço e/ou oportunidade para tal). Como bem saberão, esta atitude encontra-se bem distribuída pela esquerda, seja a "proletária" ou a "caviar", e é facilmente defendida como sinal de "radicalismo" e "purismo".

Escrevo isto para justificar, perante todos, a minha proposta de que, daqui para a frente, os comentários anónimos sejam proibidos neste blogue; apenas aqueles com uma conta no blogger poderiam escrever comentários às postas dos outros.

Assim, passaria a haver apenas tachos para aqueles que metessem as mãos um bocadinho mais perto do fogo. Chamam-lhe a lógica da acção colectiva.

O ano do Porco


Começou o ano lunar do porco. Isto há uns anos não interessava nada a ninguém mas agora que a China está a bombar e que as crenças tradicionais estão em crise é absolutamente essencial para a humanidade. O porco é um animal fascinante e seria preciso um blog especializado para conseguir explorar todas as suas maravilhas. No cruzamento entre o sentido estritamente astrológico da questão e o futuro de Portugal uma questão se coloca de imediato. Será o ano do porco o da descolagem económica do rectângulo, por mares nunca dantes navegados? Provalvelmente não.

Hoje até as almas engordam


Após o Sábado Filhoeiro vem o Domingo Gordo. É o dia da fartura. Em Tourém os pastores levam lacão ou pernil de porco, cozido e vinho. Juntam o gado na veiga e comem e bebem alegremente, junto do gado. Em todo o Barroso este é o dia dos pastores. Têm comida melhorada e festa. Nas igrejas este é o dia das carnes que todos os devotos levam ao santinho da sua devoção para arrematar. Na maioria das vezes oferecem orelheiras ou parte delas a Santo António, para guardar os outros porcos de doenças mortais. Por vezes oferecem um leitão de mês, chouriças, frangos, bicas e broas de pão de centeio e milho. As almas também são presenteadas nesse dia e outros ao longo do ano.


António Fontes, Etnografia Transmontana.

O revisionismo dos Monty Phyton



A prova, fornecida pela historiografia subtil e rigorosa dos Monty Phyton, de que Hitler, Himmler e von Ribbentrop viviam, afinal de contas, em solo britânico.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

À atenção de peões, proto-peões e outras peças de tabuleiro


Apesar de metade do blogue se encontrar além-fronteiras, o Daniel e a Cláudia acharam por bem marcar uma assembleia-geral oficiosa para hoje à noite....

Salvar Lisboa!

Este post suscitou alguma efervescência e brincadeira aqui no Peão. Mas o assunto é muito sério! O país não pode correr o risco de continuar com a sua capital à deriva. Lisboa é demasiadamente valiosa para Portugal. Esta não pode continuar a enlear-se por querelas políticas sem fim à vista. Por isso, a esquerda deveria dar o exemplo. Todos os partidos estão cautelosos, exceptuando talvez o BE, porque temem as eleições intercalares e o horizonte de apenas dois anos de mandato até às próximas eleições autárquicas. Por este motivo, estas eleições intercalares poderão ser encaradas como uma oportunidade para políticos que querem renascer (como João Soares) ou que pretendem deter algum protagonismo para outros voos (como José Seguro). A CML está num tal estado lastimoso que não pode ser utilizada como trampolim político para quem quer que seja.
E dar o exemplo é constituir uma plataforma de entendimento em torno de um projecto concreto e de um líder forte, mas sem ambições de querer ser general de uma ala qualquer de um grande partido. Evidentemente que, no campo da esquerda, este só poderá vir da área do PS (independente ou não). Entendo que Ferro Rodrigues seja talvez o único político em condições de conseguir um entendimento entre os vários partidos de esquerda com o objectivo de construir obra na capital. Mas, independentemente dos nomes, acho que não se pode perder mais uma vez esta oportunidade. É fundamental gerar um movimento unificador entre as várias esquerdas para SALVAR LISBOA!

The good ol' days



Há uma eternidade blogosférica - dois anos solares, mais coisa menos coisa -, os blogues nunca partiam para fim-de-semana sem uma fotografia de uma mulher bonita.

O circo Fontão chegou à cidade


Não dá para acreditar mas é isso mesmo, amiguinhos, chegou o Circo Fontão a Lisboa, é Carnaval antecipado. O ex-vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fontão de Carvalho, suspendeu o seu mandato por 3 meses (após um número fantástico de ilusionismo) e o presidente, que dizia que se demitia caso o vice fosse indiciado judicialmente, diz agora que se mantém (outro número supremo, este de contorcionismo). Perceberam todos? Sim!!!
Quem apanha lapas no Verão sabe bem o que isto quer dizer. Essa é que é essa. Olarilas.
Nb: programa completo aqui, versão chili aqui.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Presidenciais francesas: Queres ser meu padrinho? (I)

No que resta deste mês de Fevereiro a atenção de quem segue as presidenciais aqui em França vai estar voltada para formalização das candidaturas, podem estar guardas algumas surpresas. Isto porque o sistema eleitoral francês tem uma particularidade muito sui generis, para além da recolha de assinaturas de cidadãos, é necessário aos candidatos recolherem 500 parainages - literalmente: apadrinhamentos - ou seja assinaturas 500 eleitos, que são todos os detentores de qualquer cargo político obtido por eleição directa, desde senadores a deputados à assembleia municipal, e existem 48000 em França. Mas não podem ser quaisquer 500 eleitos, têm que estar distribuídos pelo país segundo uma série de regras algo complicadas. Esta exigência favorece, surpresa das surpresas, os candidatos apoiados pelos grandes partidos. Mesmo num universo de 48000 eleitos muito poucos partidos têm 500 distribuídos pelo país segundo as regras. Até hoje este sistema não impediu que se tivessem apresentado às eleições inúmeros candidatos de pequenos partidos (Jospin que o diga), normalmente os candidatos de pequenos partidos socorrem-se de "apadrinhamentos" de eleitos dos grandes partidos que permanecem sob sigilo. Este ano essa prática acabou, para a ajudar à festa a lista de "padrinhos" de cada candidato será tornada pública. No plano dos princípios, esta prática faz todo o sentido, se uma das competências atribuídas aos eleitos pelo quadro legal e constitucional francês é a de apadrinhar candidatos à presidência da república, os eleitores têm o direito de saber quem é que os seus eleitos apadrinham. Mas palpita-em que a principal motivação desta alteração não é uma questão de princípios, mas sim um puro pragmatismo político. A partir do momento em que os eleitos são responsabilizados pelo seu apadrinhamento vão pensar duas vezes antes do fazerem, e acresce ainda que tanto na UMP como no PSF foram dadas instruções pelas direcções dos partidos para que os seus eleitos não apoiassem candidatos de outros partidos. Resumindo e concluindo, para além de Nicolas Sarkozy (UMP), Ségolène Royal (PSF), François Bayrou (UDF) e Marie-George Buffet (PCF, candidata comunista a quem as sondagens não dão mais de 3%) não há certezas sobre quem se vai efectivamente apresentar-se às eleições. Repararam que Le Pen não faz parte da short list? Fica para outro post. Do outro lado do espectro quem está na dúvida quanto à escolha do seu esquerdista favorito também não sabe muito bem com que linhas se vai coser.

curta: Ségolène Royal fez há uma semana uma série de promessas que ninguém sabe muito bem quem as vai pagar caso seja eleita, como vai sendo hábito Sarkozy não se quis ficar atrás.

O bacalhau está em vias de extinção

A noite de dia 24 de Dezembro foi diferente. Na mesa, um guisado de ostras, receita de família. A milhares de kilómetros de Lisboa, tinhamos aceite o convite. Afinal, este era o primeiro natal com o nosso filho. Na sala, com vista sobre o lago Monona - ainda sem estar gelado, imagine-se! -, partilham-se histórias. O anfitrião, americano do Wisconsin, foi, em tempos, membro do partido comunista. A cunhada, judia, é alérgica ao glúten e trouxe uma salada deliciosa. Nós falamos sobre o nosso filho, claro; ele é a nossa história dos últimos sete meses. Quase a nascer, está a neta do dono da casa. A futura mãe, egípcia, fala de como está preparada para dar à luz sem a ajuda de sedativos - Ui!. O marido, orgulhoso, elabora sobre a origem dos nomes na cultura ocidental e islâmica. Ele, que durante dois anos andou pela américa do norte em vagões de carga na companhia de um cão, converteu-se ao islão quando foi estudar para a American University, no Cairo. Diz-me o pai que é muito ortodoxo; mais do que a mulher, com quem se casou por arranjo. Mesmo assim, são felizes, sublinha. De regresso a casa, comentamos que tivémos muita sorte por ter passado uma noite assim.

Porque conto esta história? Porque segundo alguns leitores deste blogue, eu não teria escrito este post se, nessa noite, tivesse comido bacalhau na companhia de portugueses católicos. O que faz de mim um xenófabo, intolerante e elitista.

Heroi da semana de um DJ Peão



Maurice Ravel e a sua Sonata para violino e violoncelo tal como a Sonata para violino e piano.

Incontinência verbal

O presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, afirmou ontem à noite que os portugueses "não têm testículos" para dizer que o referendo à despenalização do aborto não é vinculativo.

A minha esfera, a tua esfera

Naquele dia, a porta, por regra aberta, estava fechada. Lá dentro, a um canto, um rapaz ajoelhado com a cabeça em direcção à parede. Ao lado, uma mochila volumosa. Não parece sentir a minha presença, nem quando esboço um, dois, três "excuse me". Calo-me. Percebo que está a orar. A aula começa dentro de instantes e eu preciso de preparar o seu início. Que fazer?

- Esperar que acabe;
- Interferir, lembrando que aquela é uma sala de aulas;
- Fugir. Afinal, dizem-nos quase todos os dias, um muçulmano a rezar ao lado de uma mochila não pode ser um estudante universitário.

Acaba por sentir a minha presença e sai apressado, pedindo desculpa.

Os acordes do debate ideológico

Para já, decorrente do estado da discussão relativa à campanha, avanço com dois alicerces ideológicos alternativos, traduzida em diferentes músicas. Um mais hardcore, com uma mensagem dura, tão dura como os sons dos galeses Manic Street Preachers, com "The Masses Against the Classes". Este é um grande sounbyte; resta saber se estamos do lado das massas ou das classes.



A outra hipótese é uma via mais alternativa, numa lógica de fusão, multicultural, representada aqui pelos franco-argentinos Gotan Project, com "El Capitalismo Foraneo". Se os Manics representam a esquerda mais ortodoxa, os Gotan representam uma esquerda de "lounge", mais pós-moderna.



Mas a lista não está fechada!

proposta de video da campanha para as salas de chuto





1960s LSD Propaganda Film

Proposta de hino de campanha



Em resposta ao repto da Vallera, proponho o tema "First we take Manhattan" (then we take Berlin, ups, Lisbon) de Leonard Cohen, do álbum "I'm Your Man" (1994)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Writing


A man who keeps a diary, pays
Due toll to many tedious days;
But life becomes eventful--then
His busy hand forgets the pen.
Most books, indeed, are records less
Of fulness than of emptiness.

William Allingham (1824 - 1889)

Carnaval

Ideias (pouco) saudáveis

Deixo-vos a festejar o Carnaval, mas sem esquecer os sábios conselhos do nosso Presidente da República atleta (há até quem o ache muito elegante :-). Nesta época de folia e libações há que manter a vida saudável que o Presidente tanto preconiza, embora saibamos, também, que Cavaco Silva tem um embirração especial à data. Por isso, caros peões e outros leitores festejemos com iogurtes líquidos, talos de couve e maçãs verdes. Bom Carnaval!

Mr.Cohen no baú do DJ Peão



Tema "Famous Blue Raincout" de Leonard Cohen, tocado ao vivo em Munique, em 1979.


It's four in the morning, the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening.
I hear that you're building your little house deep in the desert

You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind
of record.

Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?

Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station to meet every train
And you came home without Lili Marlene

And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody's wife.

Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see Jane's awake --

She sends her regards.

And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.

If you ever come by here, for Jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.

Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.

And Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear.

O candidato que Lisboa merece...

...e a esquerda também!

Vem aí mais uma campanha, essa é que é essa

Vem no Público on line de agora, baseado neste artigo do Expresso on line, inserido às 18h30.
É oficial, já o era, mas terão iludido a opinião pública para evitar o inevitável: a queda do governo camarário em Lisboa. Como o eng. Carmona não quer largar o lugar, será a deterioração crescente diante de todos. O mais certo, porém, é haver eleições intercalares, pois a situação é insustentável.
Nb: imagem do AFML.

Paradoxo vinculativo

Depois de ter escrito este post, e pensando um pouco mais no assunto dei-me conta que esta regra de um referendo necessitar de 50% de participação para ser vinculativo é na realidade um paradoxo: a abstenção vale mais do que o voto na opção derrotada.
Pegue-se no exemplo do último referendo: Se 600 000 das pessoas que se abstiveram tivessem votado NÃO, com o mesmo número de votos no SIM, o referendo teria sido vinculativo com uma vitória do SIM por 51%, uma margem bem magrinha. Na realidade o que tivemos foi uma maioria muito mais clara, mas que não foi vinculativa. Ou seja, aqueles hipotéticos 600 000 votos no NÃO teriam ajudado a uma vitória do SIM juridicamente vinculativa, seriam votos no NÃO a dar a vitória ao SIM. Isto é um paradoxo, e vale para qualquer referendo, não apenas para o do aborto. Do ponto de vista que quem pretende votar na opção que perde, mais vale abster-se, ao menos estará a contribuir para que o referendo não seja vinculativo. Este sistema incentiva objectivamente o abstencionismo, ao atribuir à abstenção um valor superior ao voto na opção derrotada. O problema é particularmente acentuado quando as sondagens derem uma vitória clara a uma das opções.
Como é que se sai deste absurdo? Uma opção será simplesmente não estabelecer um limiar de votação para que seja vinculativo. Eu pessoalmente não concordo com a ideia de um referendo em que votam meia-dúzia de gatos pingados possa ser vinculativo. Se os eleitores não se mobilizam, é muito provável que a realização de um referendo tenha sido um erro. Outra opção que me parece fazer mais sentido é estabelecer um limiar não para a participação no referendo mas para o número de votos obtidos pela opção mais votada. Tomando como referência o limiar actual de 50% de participação, poder-se-ia determinar que a opção mais votada necessitaria de um número de votos equivalente a mais de 25% do número de eleitores inscritos. Esse já é o número mínimo necessário para uma vitória num referendo que seja vinculativo com a lei actual (isto é, mais de metade dos votos com mais de metade de participação dá 50% de 50%, que é 25%). Neste caso uma abstenção seria realmente uma abstenção, não teria um valor atribuído, a única maneira de votar contra a opção vencedora seria votar efectivamente. E continuaria a haver um limiar para que o referendo fosse vinculativo. Se fosse este o critério a vitória do SIM no referendo do aborto teria sido vinculativa, e deveria ter sido.