sábado, 31 de março de 2007

A dupla moralidade do Poder

Enquanto esta patologia continuar jamais o país sairá do seu atraso.



Aparição aos srs. engenhocas



(c) GoRRo, 2007

Posfácio c/osso (II)

"O Lobo Antunes oculta, Saramago pouco fala e eu desnudo. O quê? As rolas? As toutinegras? As milheiras? Não, o sexo em Portugal."
Manuel da Silva Ramos
(O sol da meia-noite seguido de contos para a juventude,
Lx., Pubs. D. Quixote, 2007, p. 166)

sexta-feira, 30 de março de 2007

Pois

Pour Eurostat, le taux de chômage français en février serait de 8,8 % et non 8,4 %.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Police par tout, Justice nul part (I)

A ironia de Daniel Oliveira é mais que certeira. Está bem à vista, pelo que tem acontecido nas últimas semanas, o que será a França se Sarkozy for eleito. O que foi feito em termos de integração das minorias e dos imigrantes ao longo das últimas décadas está em risco, senão mesmo já afectado. Esta é a situação que resulta de 5 anos de Nicolas Sarkozy como Ministro do Interior, que tutela a Polícia e a Imigração.

Primeiro foram os incidentes num infantário do 19° bairro de Paris, quando Polícia resolveu prender os pais de crianças escolarizadas, imigrantes em situação irregular, à saída do infantário 20 de Março passado. No caso foi uma família chinesa, ao fim do dia quando os pais vão buscar as crianças foram interpelados pela Polícia que não hesitou em usar a força, segundo os testemunhos claramente excessiva. Gerou-se uma escaramuça quando os pais das outras crianças e responsáveis do infantário vieram em auxílio dos imigrantes detidos, a Polícia utilizou então gás lacrimogéneo atingindo inclusivamente crianças. Dois dias depois a directora do infantário chegou mesmo a ser detida por várias horas, como se fosse um delinquente. Refira-se que em França um "imigrante em situação irregular" e um "imigrante clandestino" não é a mesma coisa, e em particular imigrantes com crianças escolarizadas têm um certo número de direitos a ser respeitados. A actuação da Polícia, sobre todos os pontos de vista, é claramente excessiva.

Depois foram os tumultos na Gare du Nord terça-feira. A simples ocorrência dos tumultos é já por si só uma demonstração do falhanço da actual política de segurança. Independentemente do tipo de política posto em prática o objectivo é evitar estas situações, quando ocorrem tumultos desta natureza demonstra-se que é uma política ineficaz, não funciona. Olhando com um pouco mais de atenção vê-se que esta política é parte do problema e não da solução (volto esta questão no próximo post). Tudo começa porque um passageiro é interpelado por não ter título de transporte válido, e reage violentamente. Ocorre-me a pergunta: "Como é que da interpelação de um passageiro sem bilhete e violento se passa para tumultos generalizados?". O actual ministro do interior, François Baroin, que substituiu Sarkozy na véspera (Sarkozy deixou o cargo para se dedicar à campanha eleitoral, como se não andasse já em campanha há 5 anos) vem logo dizer que se trata de um imigrante clandestino, com mais de 20 ocorrências por violência no seu cadastro. Quando ocorreram os tumultos de 2005 iniciados pela morte de Zyed e Bouna electrocutados quando fugiam à Polícia a primeira versão oficial (não sei se alguma vez desmentida) também era que se tratava de delinquentes apanhados em flagrante, era falso afinal, Zyed e Bouna regressavam a casa depois de terem ido jogar à bola. O novo ministro está em consonância com essas velhas práticas, a primeira versão oficial é falsa, o dito passageiro em infracção não é imigrante ilegal, está em situação regular e toda a sua família tem inclusivamente cidadania francesa, e embora tenha cadastro, é muito menos grave do que diz o ministro (7 ocorrências por pequenos furtos, e a maioria com mais de 10 anos). Mas mesmo que fosse verdade, em que é que isso justifica os tumultos? A questão mantém-se, como é que a interpelação de um passageiro sem bilhete degenera em tumulto?

A grande beatitude (II)

– «Não tenhas, filha, receio, / Levanta os olhos, querida;
Seja quem for, será teu: / Jurei-o por tua vida.

Seja ele ou rico ou pobre, / Seja fidalgo ou peão,
Desde já por genro o tomo, / E aqui lhe dou tua mão.»

Almeida Garrett
"O Anjo e a Princesa"

A grande beatitude

"Estava a chegar a uma grande praça cor-de-rosa vindo de uma rua de peões. Na praça o pavimento era de mármore branco e a luz que aí se reflectia dava aos transeuntes mil aspectos definitivos, como se na vida fossem molduras de quadros vivos."

Manuel da Silva Ramos
(O sol da meia-noite seguido de contos para a juventude,
Lx., Pubs. D. Quixote, 2007, p. 145)

quarta-feira, 28 de março de 2007

Filmes, filmes, filmes


A Midas lançou, entre outros títulos, as colecções Russ Meyer (a trilogia Vixens).

O lançamento vai ter direito a festa no Maxime (v. imagem).
Para quem gosta de cinema e de Pop Culture, pode também aproveitar e dar um salto à cinecittà, onde encontrará filmes, cartazes etc.. que sempre procurou e não conseguiu encontrar (as encomendas funcionam às mil maravilhas).

Multiculturalismo (II) - Os heróis que vêm da banlieue

Há quem ache que a política francesa de integração falhou, eu não. Acho que não sendo excelente foi até bastante boa, e estou a falar dos últimos 30-40 anos. A par de alguns erros, nomeadamente de urbanismo nas periferias das grandes cidades, as banlieues, a França é hoje um país multicultural e cosmopolita. Talvez por essa integração ter realmente acontecido, mesmo contra a vontade de uma parte da população conservadora e reaccionária, a extrema-direita tenha hoje algum peso político. Aliás o principal perigo de uma eventual eleição de Sarkozy é precisamente o mais que certo retrocesso nessas políticas de integração, e as tensões sociais que isso vai causar. Coincidência ou não duas das figuras públicas, ou talvez mesmo AS duas figuras públicas fora do mundo da política que mais oposição têm feito a Sarkozy nos últimos tempos (leia-se 1-2 anos) são dois exemplos de sucesso da integração, dois "heróis" saídos da Banlieue: o futebolista Lilian Thuram e o comediante Jamel Debbouze.

Lilian Thuram é "só" o jogador com mais internacionalizações da história do futebol francês, e continua aí para as curvas, depois de ser campeão mundial e europeu, ter ganho tudo na Juventus, aos 34 anos ainda joga no Barcelona e na selecção francesa. No fim-de-semana passado foi - finalmente - capitão de equipa no jogo contra Lituânia. Lilian Thuram é francês nascido nas Antilhas, mais precisamente na Guadeloupe, mas veio para a metrópole ainda com 9 anos, e começou a carreira nas camadas jovens do clube "Portugais de Fontainebleau". Mas Thuram é mais que o seu futebol, é membro do Alto Conselho para a Integração, e toma posições políticas geralmente com bastante impacto. Quando estava na ordem do dia a crise dos sans-papiers de Cachan, numa atitude simbólica ofereceu-lhes bilhetes para irem ver o jogo França - Itália (contei a história aqui), ou a seguir ao campeonato do mundo deu uma entrevista de fundo ao InRockuptibles (a provar a sua inteligência, mostra que conhece o seu público alvo) em que lançou a expressão "La Sarkoïsation des esprits", como referiu na altura o peão Hugo. Quando Thuram fala em público, Sarkozy ressente-se.

Jamel Debbouze é um comediante hilariante, é o descendente de imigrantes de sucesso, árabe nascido em Paris de família marroquina, passou até uma parte da infância em Marrocos. Começou a carreira da radio, passou para a televisão e para o cinema ("O Fabuloso destino de Amélie Poulain", "Astérix e Cleópatra", "Angel-A", etc...). O talento não é só como comediante, mas também como produtor, foi co-produtor do filme "Indigènes" nomeado para os óscares e produz vários jovens comediantes. Jamel não esquece de onde vem, e os comediantes que tem lançado vêm do mesmo meio que ele, o caldo cultural da integração francesa. O seu espectáculo mais recente "Jamel Comedy Club" é um show de "stand-up" em que participam os mais novos talentos que Jamel está a lançar, vindos das banlieues, oriundos das mais diversas origens culturais, o que o Libération chamou "Jameltting Potes" (fantástico jogo de palavras). Naturalmente a sua vivência das banlieues, e o tal caldo de cultura é um dos temas, senão o tema que mais usa para fazer humor. Outro tema é Zidane, com quem Jamel tem uma relação especial, Jamel marcou um golo no jogo contra a pobreza a passe de Zidane, e já lhe fez uma declaração de amor em cena (não é preciso perceber o que diz Jamel, veja-se a reacção do público e de Zidane). Fica aqui para amostra um vídeo em que Jamel relata um golo de Zimzou - perdão - Zizou, podem ver o referido golo no fim para comparar.


Billie Holiday - Love For Sale

Uma música que decidiu escapar ao DJ Peão para acompanhar os posts da «economia» amorosa.

O «Senhor Mais ou Menos»... (2)

Dizíamos num post anterior que Hu Shi foi o papá do «Senhor ‘cha-bu-duo’ (leia: ‘tsá-bú-dó’), isto é, do «Senhor Mais ou Menos». Mas quem era Hu Shi? E do que fala Hu Shi quando fala do «Senhor Mais ou Menos»?

Professor na Universidade de Pequim, diplomado em agricultura pela Universidade de Cornell (EUA) e doutorado em filosofia pela Universidade de Colômbia (EUA) [este percurso cosmopolita era bastante comum entre a elite chinesa de então], Hu Shi (1891-1962) foi provavelmente um dos mais influentes intelectuais chineses da primeira metade do século XX. Hoje, ele é particularmente recordado pelo seu papel de liderança em importantes movimentos culturais e políticos ocorridos logo a seguir ao colapso do velho regime imperial e à Fundação da República Chinesa em 1912, como o Movimento do Quatro de Maio ou o Movimento Nova Cultura.

A melhor maneira de ilustrar a importância destes dois movimentos reformistas [em muitos aspectos precursores da revolução Comunista de Mao] é notar que eles levariam à substituição do ‘chinês clássico’ pelo ‘chinês comum’ (isto é: o mandarim falado comum) na escrita literária, substituição essa que permitiria a qualquer falante de 'chinês comum' com uma educação básica ser capaz de ler textos literários sem grandes dificuldades. Até então, isso não era de todo possível, uma vez que o ‘chinês clássico’ (muito diferente do ‘chinês comum’) tinha de ser estudado a fundo, pelo que só era dominado por pessoas com altos níveis de educação [julgo que existem aqui alguns ecos entre estes movimentos e as ideias de pensadores liberais portugueses como Almeida Garrett].

O «Senhor Mais ou Menos» de Hu Shi surge precisamente no âmbito desta conjuntura de demandas de liberalização, e procura chamar a atenção para o facto de que mais liberdade também implica mais responsabilidade. Observando etnograficamente a realidade à sua volta (a China do início do século passado), Hu Shi nota que o dito «Senhor Mais ou Menos» - o tal que faz o seu trabalho nem bem nem mal, fá-lo mais ou menos - parece estar espalhado um pouco por todo o lado na sociedade. Hu Shi sugere mesmo que ele poderá estar profundamente enraizado na cultura popular, mas que deverá ser encarado como uma espécie de ‘doença social’ que é preciso erradicar em prole do bem comum (isto é, em prole do novo projecto chinês de modernização depois da queda do regime imperial). Para Hu Shi, esta gigantesca tarefa pedagógica deverá ser iniciada pela ‘nova’ classe intelectual e política de então, mas dependerá em última instância do trabalho sobre si próprio de cada um de nós [os paralelos com pensadores portugueses do século XIX como Adolfo Coelho são tentadores].

É provável que Hu Shi não escrevesse em 2007 o que escreveu no início do século passado pois beneficiaria do chamado ‘olhar retrospectivo sobre o passado’, um passado que inclui um século de transformações sociais radicais ao sabor de três projectos centralizados de modernização completamente diferentes: o Republicano, o Maoísta e o Pós-Maoísta. Independentemente disso, julgo que Hu Shi não me convence, nem hoje nem ontem. É que para mim o «Senhor Mais ou Menos» não é um fenómeno restrito aos ‘chineses’ ou aos ‘outros’, como Hu Shi nos faz crer, mas é um fenómeno distribuído um pouco por todos ‘nós’ seres humanos (o que me inclui a mim, a ele e a vocês). Apesar de tudo, julgo que a questão social e política que Hu Shi nos levantou no ‘longínquo início do século passado’ continua hoje a ser tão pertinente quanto perturbadora: será que devemos alimentar, vestir e adorar o «Senhor Mais ou Menos» que temos em ‘nós’, ou será que o devemos guardar para o fim de semana ou para as férias no Rio de Janeiro? Será que a decisão é mesmo só de cada um de nós? Quem paga tanto Mais-ou-Menos-ismo?

Posfácio c/osso

"O amor é passageiro, a recordação é eterna ou nebulosa, mas os restaurantes são caros.
O amor (para os Portugueses) devia ser reembolsado pela segurança social como os medicamentos mais prementes."
Manuel da Silva Ramos
(O sol da meia-noite seguido de contos para a juventude,
Lx., Pubs. D. Quixote, 2007, p. 166)

terça-feira, 27 de março de 2007

Escapes

Por motivos de força maior, tenho andado a pesquisar o cinema americano da época da Depressão. Um cinema maioritariamente escapista, que se socorre de géneros como o musical, o filme de Gangsters e a comédia screwball. O cinema era um entertenimento barato, onde as pessoas íam afogar as suas mágoas e esquecer o quotidiano.
Como não percebo nada de economia, sobretudo da época em questão, exceptuando o óbvio (Crash de 29 e o New Deal de Roosevelt, pela rama), andei a investigar um pouco de Keynes. Eis que surge, no meu horizonte, um post do Renato que remete para o post do Hugo.
Obrigada aos dois, principalmente ao Hugo, que me safou de ter que ler textos sobre macroeconomia! Ufa!

Pedagogia económica precisa-se

Interessante este post de António Ornelas n'O Canhoto. A resposta às questões colocadas no fim pode bem passar pela necessidade de as pessoas perceberem que os direitos sociais custam dinheiro. Isto não é um argumento contra a sua existência ou a sua generosidade - é um elemento de facto. E é com ele que temos que equilibrar as nossas inclinações normativas para saber até onde é razoável ir na reinvindição desses mesmos direitos num dado contexto económico.

O bolo, as fatias, e a faca

Os tempos não estão fáceis para uma política amplamente redistributiva em Portugal. Se conseguirmos que as desigualdades entre os extremos não aumentem já é capaz de não ser mau. Mas a função pública podia dar um bom exemplo. Aliás, não sei porque é que uma prática deste género não é defendida (já nem digo posta em prática) há mais tempo: em vez de os funcionários públicos verem o seu salário sofrer um aumento indexado a um mesmo valor percentual, o Governo e os sindicatos podiam perfeitamente, para o mesmo bolo, tentar chegar a um acordo para instituir um esquema progressivo. Por exemplo, em vez de serem todos aumentados em, imagine-se, 1,5%, os "pequenos" podiam ser aumentados em 2,0% e os "grandes" em 1% (como dizia o outro, depois era fazer as contas). Será que as aristocracias sindicais aguentavam semelhante radicalismo? :)
Ou, para citar o bom do G.A.Cohen, If You're an Egalitarian, How Come You're so Rich?

Os meios, os fins e as consequências (esperadas) da mudança no paradigma de políticas educativas





Tradução de um quadro retirado de:

Despite the Odds: The Contentious Politics of Education Reform, de Merilee Serrill Grindle (2004, Princeton University Press, p.6)

Devoir de regard

«O Caimão» não é (só) um filme político. Nem apenas sobre a Itália. E como se isto tudo não bastasse, é um grande filme.

Notas sobre a necessidade de uma política económica concreta

Este post de fundo do Hugo é excelente no que concerne à definição e descodificação dos dois modelos de economia dominantes no pós-guerra (o keynesiano e o neoliberal). No essencial concordo com ele e até aprendi com a sua análise. Parabéns (não é todos os dias que se aprende com um blogger)! Contudo, discordo em relação aos últimos pontos, nomeadamente este:
É por isso que a mudança vai demorar tempo, (...) temos que saber esperar pelo aumento da produtividade; e como esta depende em boa medida do aumento das qualificações, não podemos esperar fazer num par de anos o que não foi feito em vinte. A questão certa e séria, aqui, é saber se as coisas estão a correr na direcção certa.

Esperar que os níveis de qualificação subam generalizadamente para só aí introduzir as verdadeiras reformas que nos levarão à subida da produtividade, ao aumento dos salários e da riqueza nacional, parece-me insuficiente. O Hugo concebe a reforma política como uma espécie de sementeira cuja colheita levará tempo a ser colhida. Parece-me que para além deste tipo de reformas se podem apontar outras que tenham em conta a especificidade da nossa economia. Considero que se do ponto de vista paradigmático faz sentido posicionarmos perante os dois modelos económicos, já ao nível da política concreta estes tornam-se um pouco redutores e excessivamente dicotómicos. Há uma margem de intervenção política que me parece estar a ser descurada pelo Hugo.
A base produtiva da economia nacional assenta em grande medida nas PME’s. O que representa uma desvantagem em termos, por exemplo, de economia de escala, mas também pode significar uma vantagem. Na verdade, no contexto de capitalismo informacional o modelo PME pode ser muito competitivo, na medida em que as empresas são mais flexíveis e mais aptas à mudança. O problema é que a maioria das nossas empresas são retrógradas. No entanto, parte poderá incorporar algum potencial desde que enquadradas por políticas públicas nas quais o Estado pode deter um papel de mediador. O que é que o Estado pode fazer para incentivar o investimento privado particularmente nas PME’s?
1) Mais tarde ou mais cedo o governo terá que de descer os impostos, não há outra maneira de incentivar o investimento. É muito difícil as empresas competirem com as respectivas congéneres internacionais com o IVA e o IRC tão elevados.
2) É fundamental apostar na formação direccionada para as necessidades destas empresas. Aqui o governo tem um papel activo enquanto agente mediador entre a oferta dos centros e das empresas de formação e as PME’s. Em muitos casos estas estão de costas voltadas, há um verdadeiro curto-circuito entre oferta e procura.
3) É imprescindível criar parcerias efectivas entre as empresas mais modernas e as universidades de modo gerar factores competitivos de inovação. No actual estado de coisas nem as empresas, nem as universidades tomarão a iniciativa de implementar essas parcerias. É necessário proporcionar o ambiente material e institucional capaz de gerar tais sinergias de forma generalizada.
4) Muitas das políticas públicas deverão ser capazes de imergir na realidade concreta (aquilo que certo pensamento económico tem designado por embeddedness) e deter um papel potenciador ao nível da produtividade de maneira a criar condições para o bom investimento, para a formação aplicada ao contexto e para a inovação gerada pela sinergia entre diferentes parceiros organizacionais.
Tendo por base estes pontos, talvez o Hugo responda dizendo que isto já está a ser feito, ou que é intenção do governo fazê-lo, ou que é tudo uma questão de articulação e cosmética política. Mas concretamente acho que o governo ainda não foi capaz de incorporar esse papel de mediador (que é mais do que regulador), como não produziu os canais e os instrumentos necessários para o fazer devidamente. É esta perspectiva de um Estado próximo do concreto e do terreno, dando, no entanto, espaço necessário para os agentes funcionarem em autonomia, que falta à visão do Hugo. O Estado não deve só lançar as boas sementes e gerir os mínimos (sobretudo através do controlo orçamental) até que estas dêem frutos. Na minha perspectiva, o Estado deve imergir-se na economia concreta e fazer algumas enxertias de modo a que as árvores cresçam mais rapidamente e autonomamente. Estes são os traços fundamentais para uma política económica de esquerda.

Marx on love

O post anterior do Daniel fez-me recordar saudosas linhas...

"Assume man to be man and his relationship to the world to be a human one: then you can exchange love only for love, trust for trust, etc. If you want to enjoy art, you must be an artistically cultivated person; if you want to exercise influence over other people, you must be a person with a stimulating and encouraging effect on other people. Every one of your relations to man and to nature must be a specific expression, corresponding to the object of your will, of your real individual life. If you love without evoking love in return — that is, if your loving as loving does not produce reciprocal love; if through a living expression of yourself as a loving person you do not make yourself a beloved one, then your love is impotent — a misfortune."

Karl Marx, Economic and Philosophical Manuscripts of 1844, "The Power of Money" (parágrafo final)

O preço do amor, com pompa e circunstância

Fonte: origem desconhecida.

Dia Mundial do Teatro


Neste dia, duas peças em cartaz, que hoje serão gratuitas: A dúvida, no Teatro Maria Matos (faz hoje 1 ano a sua renovada abertura, Parabéns!) e A Filha Rebelde, no D. Maria. Bom Teatro.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Famílias digitais

O meu comentário ao post de CLeone (a quem aproveito para dar as boas-vindas) e à segunda parte do post da Sofia.


Matthew Pillsbury, "Penelope Umbrico com as suas filhas, 2.ª feira, 3 de Fevereiro de 2003, 19-19.30H".

Esta imagem pode ser vista na Exposição INGenuidades: Fotografia e Engenharia 1846-2006, na Fundação Gulbenkian, até 29 de Abril.

Flipside

Coisas como o Hi5, o MySpace e a subalternização da leitura em papel à leitura em suportes digitais foram como que o prenúncio do Second Life, entretanto já muito parecido com a «primeira vida». Mas a segunda vida é que, afinal, acaba por ser a primeira: evoluções tão lógicas como a do Google para o Gmail (já nem falo do Google Earth, etc.), destes para a junção ao Blogger e, mais recentemente, a compra do YouTube, só confirmam a primazia do digital na vida banal, como o maior interesse no email do que no snailmail já anunciava.
É um sistema, e mesmo quem não confunda a sua existência com o aparato técnico e tecnológico em torno dela não deixará de o reconhecer. Mesmo não gostando muito e atrasando a adesão, o «mundo da vida» é cada vez mais este.

Escolha de causas

Durante um percurso pelas nossas estradas nacionais fui surpreendida pela exposição de algumas «causas».
À entrada de Santarém, deparei-me com um gigantesco outdoor a apelar ao voto dos escalabitanos em D. Afonso Henriques que, segundo as letras garrafais do cartaz, tinha feito muito pela cidade. Interroguei-me sobre o propósito daquele apelo: que sentido faz mobilizar uma população em torno de uma patetice de raiz televisiva e, mais grave ainda, quem teria custeado a campanha? (a Câmara? Se alguém souber que me responda, por favor).
Já à chegada ao santuário de Fátima fui recebida com enormes fotografias e citções bíblicas das causas que a Igreja parece ter adoptado: imagens de um feto e de um bebé, provando o «milagre da vida»; de um casal heterosexual perfeitamente «canónico»; de um doente terminal a agonizar serenamente... Esta abordagem demonstra uma visão redutora e moralista de algumas questões actuais que devem, antes, ser debatidas, fundamentadas e, por fim, apresentadas em toda a sua complexidade.
Todas estas causas, contra qualquer-coisa, mais não geram do que exclusão e afixá-la à laia de boas-vindas é muito questionável. Não terá a Igreja outras «bandeiras», como a solidariedade, o ecumenismo e, sobretudo, o amor incondicional por todos, para desfraldar?
P.S. - Para uma visão «iluminada» da maneira como a Igreja deve enfrentar os temas da actualidade temos as obras de Timothy Radcliffe O.P. , como Frei Bento Domingues.

O Senhor Mais ou Menos...

É muito provável que já tenham ouvido falar do Senhor Mais ou Menos. Estou mesmo convencido que já o poderão ter encontrado bastantes vezes nas vossas lutas quotidianas pela ‘sobrevivência’.

Já contratou um electricista que não aparafusou devidamente as tomadas na parede mas pediu o dinheiro pelo serviço completo? E um taxista que o transporta para um local X na sua cidade como quem lhe faz um favor, apesar de estar a ser pago com tarifa de taxímetro? Se não anda de taxi e nunca precisou de electricistas, que tal o senhor que leva o cão a passear na sua rua mas se esquece de apanhar a caca deste requintado animal com um saco de plástico? E por que não o vendedor que está no balcão a ler o jornal e demora uns poucos (longos) minutos para o atender de forma bruta e mal-educada? Poderia também falar do colega de trabalho que se compromete com toda a certeza para uma sessão de trabalho na segunda-feira pelas 15h sem sequer saber se vai estar livre nessa altura?

Todos estes casos são transfigurações quotidianas do famoso Senhor Mais ou Menos, o tal que faz o seu trabalho nem bem nem mal, fá-lo mais ou menos. Mas para não pensarem que eu acho que esta figura só se encontra lá em baixo ‘nos rochedos onde as ondas batem bem forte’, que tal o sofisticado diplomata que parte em viagem de trabalho para o Oriente mas se esquece de planear a balança de custos e benefícios da sua viagem através da cuidadosa elaboração de uma estratégia diplomática? Um outro exemplo ‘chique’, desconfio que um pouco menos óbvio para alguns, é o do ‘super professor universitário’ que acumula quatro ou cinco lugares de ensino em várias instituições diferentes e nos quer convencer que o seu «génio» é grande o suficiente para dar conta de tanto trabalho ao mesmo tempo. Sem querer duvidar da alegada ‘genialidade’ destes ‘super’ profissionais, pergunto-me se não será este precisamente um dos casos ‘chiques’ mais ‘super’ do Senhor Mais ou Menos? É que não podendo prestar a atenção devida (os dias só têm 24 horas!) a cada um dos seus quatro ou cinco trabalhos, estes ‘super professores universitários’ acabam por se comportar um pouco como os electricistas do começo, i.e., ‘não têm tempo para aparafusar devidamente as tomadas na parede mas pedem o dinheiro pelo serviço completo’.

É possível que estejam a pensar que este é mais um texto cheio de ‘pessimismo destrutivo’, mas a verdade é que essa não é de todo a minha intenção. O que quero dizer poderá mesmo ser encarado como uma boa nova (uma espécie de mensagem de ‘absolvição’, caso enfie a carapuça como eu). É que tudo indica que esta personagem é menos um fenómeno nacional do que um fenómeno global. Mais: que se trata de um daqueles 'fenómenos globais de longa data' que os antropólogos (estes são aqueles que estudam os seres humanos no seu todo) dirão ser bem característicos da espécie humana. Na China, por exemplo, a sua existência já é conhecida desde há muitos séculos, senão mesmo desde há alguns milénios, mas ele só seria imortalizado literariamente no início do século passado pelo famoso filósofo e ensaísta Hu Shi (1891-1962), num pequeno texto cujo título está precisamente por detrás do nome da vedeta deste post: «O Senhor ‘cha-bu-duo’ (leia: ‘tsá-bú-dó’) ou «O Senhor Mais ou Menos» - trata-se de um daqueles textos cuja perspicácia, brevidade e clareza os transporta muito rapidamente para os livros da escola secundária onde são apresentados como modelos literários e vectores de mensagens morais (foi aliás num destes livros que eu me confrontei pela primeira vez com este texto). Quem é Hu Shi? E do que fala Hu Shi quando se refere ao Senhor Mais ou Menos?

Esse será o tema do nosso próximo post.

Como não ser um pai ou uma mãe hipócrita


How Not to Be a Hypocrite: School Choice for the Morally Perplexed,

de Adam Swift (2003, London: Routledge, 189 p.)

Este é o livro que os pais de esquerda que não confiam na escola pública mas sentem escrúpulos em colocar os seus filhos no ensino privado deviam ler. À atenção de um editor português. É filosofia política aplicada no seu melhor.

Notas sobre o debate económico-político contemporâneo

No 'lado b' do Peão, espaço (também) para textos mais longos de reflexão, coloquei um post a partir do debate mantido hoje com Daniel (em particular) e com o Renato sobre a política económica do actual Governo.

Não renegue à partida uma ciência-arte que desconhece

Helica, 1999. Fonte: site Fractalus, ligado à Skeptic Magazine, publicada pela The Skeptics Society.
Ambas têm como fito "investigar propostas de cientistas, pseudocientistas e pseudohistoriadores numa ampla variedade de teorias e conjecturas". Que tal propor-lhes cenas malucas, como o desenho vanguardista do Caraças?

domingo, 25 de março de 2007

Perguntas do dia

Poderá um governo ter uma política reformista com um déficit orçamental superior a 3%?

Será possível chegar a uma situação orçamental estável (inferior a 3%) sem uma verdadeira política reformista?

Será que o déficit não se está a tornar numa espécie de bode expiatório para justificar a incapacidade reformista dos consecutivos governos nacionais?

Porque é que a maior parte das propostas económicas que vêm da esquerda são encaradas como suicidárias, e as da direita nem por isso?

Os 50 anos duma "utopia realizada"

Cartaz «Construamos a Europa juntos 1957-1997:
Tratado de Roma 40 anos de paz e cooperação» (UE, 1997, 42x29cm);
a citação é de Mário Soares (na entrevista de hoje ao P)

A saída social-democrata para a crise

"(...) [T]he decision to the engage the state in the provision of fixed investment is mostly based on supply-side policy considerations. Public investment is always conditional on balanced budgets and reasonable growth rates. More public investment is undertaken by social democratic governments only after the finances of the state have been balanced (either through higher taxes or as a consequence of an upturn in the business cycle). Large public deficits, incurred to achieve a temporary boost in consumption, are abhorred by social-democratic governments because they threaten to erode public savings and therefore the overall rate of domestic savings. Thus, in turn, affects the investment rate in a way that upsets the core of a social democratic supply-side economic strategy. A leftist strategy based on 'spending one's way out of the crisis' may occasionally happen (as indeed took place in several countries in the late 1970s) but is exceptional. Long-term economic growth, allocated in a redistributive manner, takes precedence over short-term, demand-management policies".

in Carles Boix, Political Parties, Growth and Equality: Conservative and Social Democratic Economic Strategies in the World Economy (Cambridge, Cambridge University Press, 1998, p.69)

Citações para reflexão (recortes da semana)

Ora, aqui vão 2 recortes da semana, sobre alguns dos temas do tempo que passa.
O 1.º, fresquinho, é de São José Almeida e versa sobre as políticas financeiras do nosso (des)contentamento, consoante o prisma em que estejamos. Deixo aqui um excerto relevante, pois na Internet só está disponível para assinantes:
"A política financeira do Governo desiste assim da sua responsabilidade no desenvolvimento económico e abdica de princípios fundamentais do Estado social. O conhecimento básico de macroeconomia de que o desenvolvimento económico geral é influenciado pela política orçamental pública deixou de ter eco entre os socialistas, assim como esqueceram que o núcleo da política económica keynesiana é constituído pelo reforço da procura interna através da política financeira e salarial.
O saneamento do Orçamento do Estado deveria ser alcançado através da diminuição do desemprego e o reforço do crescimento económico e assim contrariar a actual lógica de sanear as contas públicas através da redução da despesa, nomeadamente nas áreas sociais.
Não há Estado social que funcione a bem dos cidadãos sem um regime fiscal que o garanta. [..]
Já agora, a título de questões a ter em conta num debate sobre política fiscal, por que razão não se aproveita o entusiasmo com as «boas contas» do défice para mudar a agulha e passar a apostar na economia e no crescimento do consumo interno e do emprego, dando mais poder de compra aos trabalhadores? Por que razão não se diminuem impostos sim, mas para os trabalhadores por contra de outrem? Por que razão não se diminui a carga de despesa da Segurança Social dinamizando o emprego? Por que razão não se criam impostos para financiar o equilíbrio do défice que incidam sobre os lucros das empresas? E já agora a banca, para quando uma taxação socialmente útil dos lucros absurdos da especulação financeira de que se alimenta?"
São José Almeida («Vacas sagradas», Público, 24/3, p. 46)
O 2.º é sobre o peso, neste país, dos títulos de srs. engs. e outros que tais, passando pelos profs. drs. doutras eras (José Leite Pereira, «O maior sacana português», JN, 23/3).

É ou não é?

A favor dos ismos, mas em direcção a algo muito melhor: to boldly go where no one has gone before

Multiculturalismo (I)

Há ali um restaurante turco onde aqui o tuga vai amiude comer uma sanduiche grega (discutivelmente a melhor Donner "sauceblanchesaladetomateongion" de Paris), e não é apenas o tuga, também lá vão a amiga antilhesa, o vizinho argelino do supermercado e mais uma rapaziada daqui do bairro de diversas origens africanas, entre outros. O restaurante tem um empregado novo, que é do Bangladesh e fala muito pouco francês, o pouco francês que fala é o patrão (turco) que lhe vai ensinado, mas a maior parte do tempo falam em inglês.

sábado, 24 de março de 2007

"A estudantada que se desfraldou por inteiro"

Hoje comemora-se o Dia do Estudante e os 45 anos da 1.ª crise académica que abalou a ditadura.
Vale a pena ler os testemunhos recolhidos por Adelino Gomes no P2. Por uma vez, não são só depoimentos dos mesmos líderes estudantis, até inclui excertos do diário de Jorge Miranda, só faltou mesmo falar com não dirigentes (e mudar o título para "Crise de 62 contada pelos que a fizeram", e não "pelos que a dirigiram"), fica para a próxima. E bastou isso para tornar a informação mais diversificada e interessante.
Além de se ficar a par das boas relações que havia entre os dirigentes estudantis e o reitor Marcelo Caetano, e de como isso também só reforçou a revolta estudantil e a crise no interior do regime (Sampaio, Medeiros Ferreira, Eurico Figueiredo), Margarida Lucas alerta para o facto de o contexto sócioeconómico dos estudantes de Coimbra ser mais rural e conservador do que o da capital mas que foi com esses estudantes que se fez um movimento e a revolta seguinte. De como os do Porto também vinham a Lisboa e se sentiam assim parte dum "corpo colectivo", apesar de ficarem à sua sorte na capital (Alexandre Alves Costa). Manuel Lucena chama a atenção para o papel doutros estudantes activistas que não eram dirigentes mas hoje injustamente deixados na sombra, "nomes de que não se fala", quiçá porque não são vip's e não «vendem jornais», mas a quem a revolta deve tanto como aos outros.
Também é interessante reiterar a ideia de que foi um ministro da altura, o da Educação, que deu o dito por não dito, ou então foi desautorizado superiormente e não avisou os estudantes de que afinal não poderiam celebrar o seu Dia e do que lá vinha: cargas policiais e todo o tropel seguinte de greves de fome (na 2.ª imagem), prisões, torturas, expulsões e idas para a guerra colonial ou o exílio, o que vai dar no mesmo. Para se ter uma ideia do que era aquele regime. Também é importante recordar que foi o mesmo compreensivo reitor que mais tarde seria o novo ditador, mantendo todo o aparelho repressivo e acatando os desvarios dos ultras. O título do post é uma citação de Orlando da Costa, do livro Os netos de Norton, 1994.

New blog in town

O Francisco Frazão escreve textos que são uma maravilha.
Tem um blogue novo, em jeito de lonesone cowboy, com tons de cinzentos e azuis lindos que fazem lembrar os seus olhos.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Do pacifismo, para a mudança social

Juro que não se tratou de 'provoquismo', antes, como dizia o Renato, de tentar animar a malta. Dado o adiantado da hora, já não deu para fazer texto prenunciador, que só vem agora, mea culpa. Entretanto, isto ficou bem animado, valha-nos isso.
A corrente mais ‘visível’ do pacifismo tem uma génese concreta: o pós-II Guerra Mundial, quando emergiu um movimento pacifista que, anos depois, e dado o contexto da Guerra Fria, lançaria campanhas mediáticas pelo desarmamento/ não proliferação de armas. O eixo principal era o anti-nuclear, mas não se ficava por aí: a corrida aos mísseis e às minas anti-pessoais, a proliferação de armas em geral. A imagem do post é o símbolo original para o Direct Action Committee Against Nuclear War, de 1958 (vd. aqui; a outra imagem colorida, que se eclipsou, é uma variante recente, há dezenas delas).
Algumas das mais importantes ONG’s na área dos direitos humanos e cívicos surgiram neste contexto: Peace Action e a Amnistia Internacional. Algumas das mais importantes convenções internacionais foram criadas por pressão da opinião pública organizada.
O pacifismo tem várias correntes, algumas bem antigas, como a moral judaico-cristã do “não matarás”, dando origens a vários seguidores (anabaptistas e Amish, etc.); o jainismo de matriz indiana; etc..
No século XIX, dentre as várias correntes internacionalistas firmou-se a da defesa da paz: vd. o International Peace Bureau (f.1891, Prémio Nobel da Paz em 1910), que tinha ligações com outros movimentos emancipadores. Filantropos como o norte-americano Andrew Carnegie tentaram reforçar a paz com leis e organizações internacionais (em 1910 fundou a prestigiosa Carnegie Endowment for International Peace).
Mais recentemente, Gandhi preconizava que não havia uma via para a paz, a paz é que era a via ela mesma. A mudança e a luta são os fundamentos da boa acção humana, e ele foi um bom exemplo disso. A acção directa é, pois, um dever ético, político e social, devendo ser uma acção orientada para melhorar as condições dos desfavorecidos e para salvaguardar a segurança e sustentabilidade de todos.
No pós-II Guerra Mundial surgiram outras ONG’s relevantes, como a Pax Christi International (f.1945), a Physicians for Social Responsibility (f.1961, Prémio Nobel da Paz em 1981), etc..
Há correntes que concebem a paz com programas de desenvolvimento e cooperação comunitários, que podem ir até ao nível nacional (ex. da Foundation for P.E.A.C.E., f.1979) ou mesmo internacional (ex. da Foundation for Self-Sufficiency in Central América), ou através de fundações como a de Carter ou as ligadas a instituições universitárias, como a Joan B. Kroc Institute for International Peace Studies (f.1986), integrada na Univ. Notre-Dame/ Paris, o MA-Peacestudies da Univ. Innsbruck, ou o United States Institute of Peace.
A auto-defesa e o recurso à violência para defesa em situações extremas de grande conflitualidade são aceitáveis, mas isso não quer dizer que a principal preocupação não seja tentarmos neutralizar as causas dessa violência: a intolerância, as ideologias da violência, os ultranacionalismos e fundamentalismos, a ausência de condições condignas de vida, etc..
O pretexto foi a guerra no Iraque, mas ultrapassa claramente essa questão: o Iraque foi ocupado supostamente por ter armas de destruição maciça (quando a via devia ter sido as inspecções e o mandato da ONU); hoje, o Irão e a Coreia do Norte estão à beira de terem armas nucleares e a comunidade internacional preocupa-se legitimamente com isso. O Paquistão já as tem e é uma ditadura, etc., etc.. É a ONU e mediadores respeitados que devem ser apoiados com vista à resolução de graves conflitos, e não os agentes mais belicistas.
Enquanto pacifista estou ao lado dos que denunciaram a mortandade devastadora das Guerras Napoleónicas (sim, já vem daí esta história), a «carne para canhão» da I Guerra Mundial, a ameaça nazi a que os Aliados não ligaram até terem a serpente a entrar-lhes casa adentro (foram dos 1.ºs a fazer esta denúncia); ao lado dos que denunciaram a Guerra Fria e a sua vertigem belicista; ao lado dos que denunciam hoje a nova corrida armamentista, com os EUA de novo a querer gastar rios de dinheiro para criar escudos anti-não sei o quê no espaço, a China e o Japão a aumentarem brutalmente o arsenal bélico, etc.. Estou ao lado da ONU e de todas as ONG’s e iniciativas que pretendem conciliar, ir para as negociações, pressionar para conversações.
A ONU tem uma University for Peace, na Costa Rica, e instituiu o Dia Internacional da Paz, que calha a 21 de Setembro. Até lá teremos muito tempo para debater.
Nb: para mais informação vd. historial internacionalista ap. IPB, Nonviolence.org e Wikipedia.
PS: não vejo ligação entre pacifismo e multiculturalismo e o lamentável caso referido pelo Hugo é sinal de ultraconservadorismo, mais do que de multiculturalismo: já por cá tb. ocorreram casos similares, bem recentes até, do marido agressor ‘poder’ bater na mulher porque era tradição, era costume, era o chefe de família e não consta que Portugal seja um país multiculturalista, é mais multimarialvista. Já a interculturalidade parece-me um conceito mais interessante para se debater, não achas Hugo?

Disseram "multiculturalismo"?

Na capa de "Público" de hoje:

"Uma mulher de origem marroquina mas com passaporte alemão, com 26 anos e dois filhos, pediu ao tribunal de família de Frankfurt autorização para se divorciar rapidamente do marido, que lhe batia e ameaçava matá-la. A juíza que apreciou o caso considerou que não havia pressa, porque o casal é de cultura muçulmana e o Corão autoriza os maridos a castigar as mulheres."

P.S. - Isto é para antecipar o emblema que deve estar aí para vir de que o blogue é "multicultural" :)))

E por falar em vazio de ideias

Debatia-se há pouco tempo aqui no Peão a falta de ideias, no caso do governo português, e chegou-se ao consenso - pareceu-me - que o problema não era tanto o vazio de ideias, mas ausência de debate. Parece-me agora que em França, com François Bayrou - a tal supresa das sondagens que entretanto deixou de o ser - estamos perante um genuino vazio de ideias. Continua a não se conhecer a Bayrou um programa político digno desse nome, das poucas vezes que apresenta propostas concretas é uma cravo outra na ferradura. Tentando apresentar-se como centrista tenta agradar ao mesmo tempo à direita e à esquerda, ao patornato e aos trabalhadores. Mas a melhor maneira de se manter ao centro é não se comprometer nem com a direita nem com a esquerda, não se comprometer com nada nem com ninguém e dizer apenas vacuidades agradáveis ao ouvido. Por exemplo quando Jacques Chirac anunciou que não se recandidatava François Bayrou foi convidado para estar em directo no telejornal para uma reacção à decisão de Chirac. Quando interpelado sobre o seu próprio programa político Bayrou começa por dizer que "Não gosta de política de geometria variável" e continuou por ali a fora a dizendo defende a coerência, e mais, que está na vida política por valores e princípios. A jornalista não achou pertinente perguntar-lhe que valores e princípios eram esses, mas se o tivesse feito advinha-se que teria seguramente evocado os princípios da democracia e da república francesa. Outro qualquer candidato teria dito a mesma coisa e ficariamos sem saber em que é François Bayrou diferente dos outros, antes assim. Mais recentemente na sua visita ao forum dos estudantes Bayrou avançou com a ideia de criar um ministério específico para lidar com as expectativas da sociedade francesa, é uma excelente maneira de não apresentar as suas propostas para ir de encontro a essas expectativas, mas fico na intrigado sobre qual seria o nome a dar a esse ministério; Ministéria das Expectativas da Socidade Francesa?, Ministério da Escuta dos Anseios da Sociedade Francesa?, ou Minisitério do Diz-me o Que Queres Mas De Momento Não Tenho Nenhuma Proposta Concreta Para Resolver o Teu Problema Mas Vou Pensar no Teu Caso? Seria realmente uma inovação no sistema político.
Pessoalmente também acho que a intenção de voto em François Bayrou é volátil, aliás nas ultimas sondagens já começou a descer (pelo menos nas sondagens de quatro institutos: IFOP, IPSOS, BVA e CSA - ver no excelente site de sondagens do Le Monde). Parece-me perfeitamente natural que os eleitores indecisos neste momento confundam ainda Bayrou com a sua indecisão, tem tudo a ver. Mais ainda quando as há uma forte polarização das duas principais candidaturas, Nicolas Sarkozy à direita e Ségolène Royal à esquerda, abre-se caminho para indecisos ao centro. Mas é natural que conforme diminuirem os indecisos de diminua também a votação em Bayrou. Por outro lado, se por ventura François Bayrou passa à segunda volta, seja com Nicolas Sarkozy seja com Ségolène Royal, provavelmente ganha, é a vantagem de estar ao centro.

P.S. - E é bom não esquecer que a UDF, partido de Bayrou, na Assembleia tem apoiado sitematicamente o governo da maioria de direita, na prática a UDF de centrista tem muito pouco.

Colorida só a Primavera

Este blogue tem andado muito calminho para meu gosto. Parece que já aderimos ao espírito primaveril e ansiamos ardentemente pelas férias e pelas guloseimas da Páscoa. Vem isto a propósito daquele autocolante todo colorido (entretanto eclipsado), ali na banda direita do nosso blogue. As cores do arco-íris embandeiram o símbolo que supostamente representa o pacifismo. Tenho alguma dificuldade em reconhecer-me em tanto colorido e, sobretudo, em proclamar-me pacifista. É claro que visto deste cantinho sossegado, no qual vivemos a pacatez pequeno-burguesa do nosso esclarecido quotidiano, é fácil proclamarmos o pacifismo e darmos a outra face. Visto de cá, facilmente encarnamos os mandamentos mais laicos de um certo cristianismo em versão Superstar.
Contudo, o mundo não é colorido. Ou, pelo menos, as suas cores não são bem aquelas com as quais nós gostaríamos de o pintar. Olhando para algumas zonas e histórias do mundo, tenho alguma dificuldade em imaginar-me pacifista. Na verdade, se eu fosse palestiniano dificilmente me imagino pacifista, ou iraquiano, ou timorense (antes da independência), ou angolano ou moçambicano (em pleno período colonial). Se eu fosse um negro nos Estados Unidos nos anos 50 e 60, ou na Africa do Sul durante o Apartheid, provavelmente não seria pacifista.
Alguns destes e de outros movimentos conquistaram a paz porque resistiram, lutaram e pegaram em armas. Conseguiram a paz precisamente porque não foram pacifistas! Por isso, tenho uma certa dificuldade em conciliar o pacifismo com a revolta legítima contra, por exemplo, o imperialismo ou o fascismo (venha ele donde vier).

Pela paz no Iraque (agenda)

O 4.º ano da ocupação do Iraque vai ser lembrado esta noite com o concerto «Canções pelo Iraque», no cinema São Jorge, às 21h30.
O concerto terá a participação de Fausto, Camané, Jorge Palma, José Mário Branco, Rui Veloso, Luís Represas, Pacman, Paulo de Carvalho e Pedro Abrunhosa (entrada a 10€).
Já no sáb.º, há debate com Carlos Carvalho, António Louçã, Manuel Raposo, Rui Namorado Rosa e Silas Cerqueira, na Casa do Alentejo, às 18h30.
No Porto a coisa também promete: a CasaViva e o Tribunal do Iraque Porto lançam o ciclo de cinema «4 anos de ocupação, 4 anos de resistência», que decorrerá de 23 de Março a 11 de Maio (entrada livre). Eis o programa para esta 6.ª feira:
22h30: «Faluja – O Massacre Oculto», de Sigfrido Ranucci (RAI News), 22'06'';
23h15: «Testimonios de Faluya», de Hamodi Jasim, 48'11''.
Para os restantes filmes é favor ver o cartaz aqui ou no blogue casaviva, pois o ciclo decorre na sede desta, à Praça Mq. de Pombal, sempre às 6.ªs ou 5.ªs de cada semana.
Entretanto, as iniciativas são mais que muitas, o problema é não haver um meio de comunicação que as centralize e divulgue. Que o Indymedia Portugal possa regressar o mais depressa possível.

Solidariedades

O filme A vida dos Outros com argumento e realização excelentes para uma primeira obra de vulto, de Florian Henckel von Donnersmarck, não é uma visão totalmente one-sided da história da RDA. Claro que a RDA pode ter proporcionado algumas coisas boas aos seus habitantes, como o serviço nacional de saúde gratuito, mas de que serve ter um bom serviço de saúde quando não se tem liberdade?
Antes de Florian Henckel von Donnersmarck se ter lançado no cinema, já Almodóvar tinha realizado em 1997 o filme Em Carne Viva, dos raros filmes deste realizador espanhol, onde explicitamente, parte da acção decorre durante o franquismo. A solidariedade perante estranhos que vemos no filme alemão por parte de Gerd Wiesler, surge frequentemente nos filmes de Almodóvar, particulamente no filme Tudo sobre a minha mãe. Em Almodóvar a solidariedade é quase sempre uma virtude feminina:
Obrigada, seja quem fores. Toda a vida dependi da gentileza de estranhos (Huma para Manuela em Tudo sobre a minha mãe). Mas no filme, Em Carne Viva, Almodóvar abre uma excepção, e Victor, o protagonista, no meio do trânsito com a sua mulher que vai dar à luz, diz carinhosamente para o seu filho prestes a nascer: Sei perfeitamente como te sentes. Há 26 anos encontrei-me na mesma situação qu tu. Mas tens mais sorte do que eu, grande estupor, não calculas como tudo mudou. Olha o passeio, cheio de gente. Quando eu nasci não havia ninguém nas ruas, as pessoas estavam todas trancadas em casa, cheias de medo. Por sorte tua, meu filho, há muito que em Espanha nós perdemos o medo.
Almodóvar e o seu cinema são, acima de tudo, símbolos e espaços de liberdade que realçam a ruptura com o regime ditatorial de Franco, e que, ao mesmo tempo, ajudaram também a construir a cultura espanhola contemporânea. Espero que Florian Henckel von Donnersmarck enverede numa boa carreira como cineasta.

quinta-feira, 22 de março de 2007

O arquivo que nunca existiu

Declarações do reitor da Universidade Independente ao Público:
"As fichas de cada aluno já ninguém sabe delas. Nos primeiros anos, a nota final é acompanhada com fundamento, depois é deitada fora."
[Sobre o registo de pagamento de propinas] "Ao fim de cinco anos, vai tudo para o maneta."
Assim são tratados documentos com valor de prova, necessários à averiguação de actos, transacções e direitos. Ao arrepio de princípios básicos de gestão documental e de transparência de procedimentos, os vestígios da memória organizacional da UnI têm sido sistematicamente apagados, com a conivência do seu dirigente máximo. Uma instituição que destrói o seu arquivo é uma instituição sem passado e sem futuro.

Rio acima, Rio abaixo

Algo de muito engraçado sucedeu esta 2.ª feira: enquanto o DN informava sobre a última tropelia de Rui Rio na sua política cultural (sim, porque o edil tem uma, parecendo que não), o Público contrapunha uma notícia sobre a sua mudança para uma posição proto-pró-regionalização (é mesmo assim), fruto dos laboriosos anos de experiência como autarca. Ou seja, um texto de «má imprensa», o outro de «boa».
Mas vamos aos detalhes, pois ambos os artigos são importantes: só se obtém um retrato completo do personagem unindo as duas facetas.
Comecemos pela «má imprensa»: "CDU quer privados na organização das corridas da Boavista" (de Francisco Mangas, p. 33, lamentavelmente sem arquivo electrónico).
É verdade, inverteram-se os papéis: agora é a CDU a pedir privados para tomarem conta duma corrida de carros, pois custará 2 milhões de euros aos cofres municipais e tem exactamente os mesmos 6% de receitas de bilheteira que tinha a extinta Culturporto. A gincana tem um pomposo nome: Grande Prémio Histórico do Porto, e faz lembrar os recentes despautérios terceiro-mundistas com o Lisboa-Dakar.
Em suma, temos então uma política cultural portuense reduzida a fogo-de-artifício, gincanas automóveis e lantejoulas de La Féria. Fantástico, Mike!
O texto do P intitula-se "Rio diz que as regiões podem ser «solução»" e nele Filomena Fontes revela-nos o que levou o edil a repensar melhor a questão: "«há situações em que, se as decisões forem tomadas localmente, são mais vantajosas do que se continuarem dependentes da administração central»"; "valerá a pena pensar num modelo de governação que «utilize melhor e com mais cuidado» os dinheiros públicos. A saúde e a educação foram duas das áreas que apontou". E, já a finalizar o seu discurso público perante militantes do PSD de Torres Novas, confessa: "«face à minha experiência, hoje estou aberto para ver se há uma solução equilibrada para a situação presente»".
Ou seja, Rui adoptou um dos argumentos centrais dos defensores da regionalização. Mais vale tarde do que nunca.
Nb: a imagem do modelo mini é daqui; a outra tb. é dum site brasileiro, villalobos qualquer coisa..

quarta-feira, 21 de março de 2007

Boas notícias do futuro

Vem hoje no Público, pela pena de São José Almeida: os imigrantes que vivem em Portugal, seja qual for a sua nacionalidade, vão poder exercer o seu direito de voto para os órgãos de soberania portugueses. Só temos que esperar por 2009 (tanto?!), data a partir da qual a Constituição da República Portuguesa pode ser novamente revista para acolher esta desejável mudança.

Dia Mundial da Poesia

Uma Pequenina Luz
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da
estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber:
brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma
treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou
não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.
25/9/1949
Fidelidade [1958], “Obras de Jorge de Sena Antologia Poética”,
Asa Editores, Junho, 2001

E agora uma ideia ingénua para combater a pobreza

O microcrédito, para além de merecer o prémio Nobel da Paz, parece dar bons resultados. Daí surge-me uma ideia: Como parte de uma política de combate à pobreza, e como alternativa, ou - melhor dizendo - como complemento de políticas de rendimento mínimo e subsídio de desemprego, porque não ser o próprio estado a atribuir microcéditos?

terça-feira, 20 de março de 2007

La France Invisible


Quando em 1993 Pierre Bourdieu e uma vasta equipa de sociólogos lançaram La Misère du Monde, a tão francesa "questão social", ligada aos fenómenos da velha e, hoje, da 'nova' pobreza, regressou por uns tempos à consciência mediática hexagonal. Por sinal, em 1995 Jacques Chirac foi eleito presidente da República na onda de uma campanha onde a fracture sociale tinha um lugar especial.

14 anos depois, ela continua lá, apenas mais velha e profunda. E a incapacidade dos sucessivos governos - a par de sindicatos e representantes patronais cada vez mais radicais nas suas atitudes - para diminuir o desemprego e evitar o aumento da pobreza também.

Há uns meses, uma equipa de sociólogos, em associação com jornalistas, produziu um documento com menos pretensões científicas que o trabalho de Bourdieu, mas com uma semelhante riqueza de testemunhos, retratos e análises da pobreza, precaridade e discriminação social, racial e de género. Chama-se La France Invisible. A edição é de Stéphane Beaud, de Joseph Confavreux, e de Jade Lindgaard, Paris: Seuil, 2006.

P.S. - Se é que isto explica alguma coisa: este é o género de trabalho que o Baudrillard não faria. É "social" a mais para ele - o mesmo que entretanto havia desaparecido uns anos antes.

A vida das imagens ou a última exposição

Desde que vi pela primeira vez a reprodução da fotografia de Daniel Blaukfus, que me senti tocada pela sua composição. A imagem foi-se «instalando» e, comecei a atribuir-lhe signficados vários, mas, sobretudo, relacionados com ambientes profissionais. Percebi, depois, que se tratava de um retrato de uma sala do campo de concentração Theresienstadt (tenho que rever a minha concepção de ambiente profissional...). Acabei por ir ver a exposição e, de facto, a fotografia é belíssima: ao mesmo tempo rigorosa e evocativa.
Apercebi-me, também, que estava a ver a última exposição do CCB, espaço que, a partir de agora, ficará reduzido à colecção Berardo e à «obra» fashion da entrada que tanto se adequa à porta de um museu, dentro de uma discoteca, ou como decoração de restaurante (e tudo isto em verdadeiro sentido literal).

A árvore e a floresta

"Escolas secundárias vão alugar espaços para casamentos e baptizados".

Esta notícia, que faz hoje a capa do Diário de Notícias (DN), dá um bocado vontade de rir.

Começo pelo essencial, transformado em acessório pelos jornalistas. Pour aller vite, é assim: o Ministério da Educação vai investir cerca de 940 milhões de euros na modernização das escolas secundárias e profissionais do país: 332 das 477 sofrerão obras de requalificação até ao ano de 2015 (ou 2016). O nosso parque escolar está degradado, e em inúmeras escolas em péssimas condições. Basta lembrar que 77% das escolas secundárias foram construídas depois de 1974, em regime de pré-fabricação, e com um prazo de vida a rondar os 25-30 anos. Essas escolas - atenção: 3/4 do total - estão hoje a chegar ao fim da vida. Se não houver um programa robusto de modernização, não há solução sustentada e de futuro para este problema estrutural.

Ora, o que noticia - com honras de capa! - o DN? Que as escolas secundárias vão alugar espaços para casamentos e baptizados. A notícia praticamente ignora quase por completo dados, no mínimo, relevantes: que o parque escolar nacional, em muitos locais em péssimas e inadmissíveis condições, vai ser profundamente requalificado; que o modelo de financiamento vai ser alterado (e só a sua alteração - no qual se inscreve a criação da empresa pública "Parque Escolar", mas não só - permite a modernização das escolas, porque o modelo anterior não pemitia nada disto); e que, como não há dinheiro nacional e comunitário para cobrir todo o programa, as escolas vão ter que contribuir com a sua pequena parte (15% do 940 milhões de euros estão previstos serem cobertos por acções de valorização patrimonial e desenvolvimento de unidades de negócio; mais dados aqui). É aqui que a história dos casamentos e baptizados entra.

Não está em causa, logicamente, os media serem ou não a caixa de ressonância do Governo, mas, como queria discutir há uns dias o Zèd, o 'bom' e o 'mau' jornalismo: praticamente ignorar um programa lançado a nível nacional que me parece ser tão urgente quão consensual para noticiar, em tom quase-panfletário, um pormenor do mesmo parece-me verdadeiramente cómico. É como olhar árvore e ignorar a floresta.

Enfim: quem viu o DN e quem o vê.

P.S. - Já agora: nem vejo onde possa estar a polémica; não anda toda a gente a dizer que é preciso as escolas terem autonomia? pois bem, autonomia significa também ter responsabilidade na arrecadação e gestão dos seus próprios fundos; por outras palavras, a autonomia significa também mais responsabilidade, não apenas mais liberdade - coisa de que muitos proponentes da autonomia das escolas selectivamente se esquecem.

Fomos convocados

Continuação do debate sobre o SNS a seguir aqui.

Aguardamos a resposta, impacientes...

A pergunta é perfeitamente pertinente (feita ali): "E, afinal, Hugo, o que é que a sociologia francesa já nos deu?". Eu bem gostaria de saber. Refira-se que quem fez a pergunta acha isto.
Ora ultimamente escreveu-se muito sobre Baudrillard, que eu na minha ignorância desconhecia por completo, mas quando vejo este vídeo (postado aqui) fico inquieto. É que pela amostra junta fico com a ideia - perdoe-se-me a provocação desnecessária e gratuita, e ainda para mais o senhor morreu há tão pouco tempo, mas hoje estou um nadinha pr'o iconoclasta - que se trata do campo da Filosofia (e quem diz Filosofia diz Sociologia, ou Antropologia, ou Ciências Sociais, ou as Ciências simplesmente) que eu menos aprecio: a masturbação intelectual.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Allgarve, Poortugal

Leio no site da TSF que a nova campanha do governo para promover o Algarve como destino turístico está a provocar a indignação de autarcas, políticos e hoteleiros algarvios.

Eu não sabia, mas na nova campanha o Algarve aparece assim:

Perante isto, o blogger emigrado, descendente de algarvia, com uma infância e adolescência bafejada da luz do Sotavento e da Ria Formosa, tem duas hipóteses:

a) ou escreve pontos de exclamação até lá abaixo, ao fim da página (técnica pouco eficaz porque ninguém lê um blogue até ao fim da página e porque só o partir do écrã do computador poderia traduzir fielmente a indignação sentida ao ler a notícia)

b) ou goza com o assunto e junta-se à nobre tradição clássica dos cínicos (vamos por esta segunda hipótese, porque o computador saiu caro).

VALHA-ME SÃO DIÓGENES!!!!

O QUE DIZ EM DEFESA DA CAMPANHA O SECRETÁRIO DE ESTADO DO TURISMO, BERNARDO TRINDADE, TAMBÉM É GIRO: "UM DOS PONTOS A MELHORAR É A INEXISTÊNCIA DE UMA ANIMAÇÃO COM GLAMOUR NO ALGARVE".

(Ponham maminhas, senhores governantes, maminhas verdadeiras à mostra à passagem em Alljezur. Ponham maminhas em Allcantarilha, em Allbufeira, em São Brás de Allportel. Ponham maminhas nas estações de serviço e nos apeadeiros, do Allentejo ao Allgarve. E ponham rabos de rapazes jeitosos, também, que o glamour hoje é para todos.)

O pior desta história é que os autharcs, hotellers e politicallers allgarvios, estando desta vez carregados de razão, são cúmplices. Cúmplices por estarem ligados, há anos e anos, a uma gestão da região unicamente como objecto turístico. E, como objecto turístico, um puro objecto mercantil. A prova é que hoje a sua defesa do "bom nome" do Algarve, por mais honrosa que possa parecer, é só a defesa do bom nome de uma marca. Como diz o presidente da Associação dos Hoteleiros Algarvios, Elidérico Viegas, «Isto é no mínimo ofensivo, não só para os algarvios mas também para as mais elementares regras do marketing político. O Algarve é das marcas mais consolidadas a nível internacional, e isto revela uma incompetência técnica quase a 100 por cento».

Digam-me que não tenho razão, por favor.

Mas o Algarve é uma região reduzida a uma marca. No fundo, é como a Coca-Cola passar a chamar-se "Corca-Cola" e ficarmos escandalizados por isso. O Ministério da Economia (e da Inovação, pour cause) limita-se a seguir os ventos publicitários.

Valha-me, valha-me Santa Bárbara de Nexe.

19 de Março


Hoje é dia do pai, tal como as outras datas esta representa um bom pretexto para falarmos das experiências que vivemos e, que muitas vezes, se esmorecem do falatório dominante no espaço público. Já sou pai há quase seis anos e tem sido uma experiência indescritível. Não é fácil ser pai nos dias de hoje. Mas também penso que actualmente se vive a paternidade em Portugal como até agora nenhuma outra geração o tinha experimentado. Com o nascimento de um filho a nossa vida muda. Toda a gente sabe isso. Mas se antes o homem se mantinha relativamente distante de algumas tarefas, responsabilidades e capacidades, actualmente implica-se até à medula dos ossos. E isso é muito bom! Contudo, é também por isso que se geram novas questões, conflitos e negociações no seio do casal, da família e dos amigos. O homem passou a ter opinião sobre quase tudo: desde a roupa a comprar, passando pela melhor forma de dar banho e de vestir o bebé, até à confecção das refeições. Passámos a assumir um papel activo.

Há uns tempos atrás um dos nossos ‘peões’ perguntou-me que impulso senti para querer ser pai. Fiquei a pensar e não dei uma reposta imediata. Penso que ser pai é mais uma descoberta do que um desejo à priori. As mulheres sentem-se logo mães quando se gera o feto: é uma sensação física e psicológica muito forte. Eu diria mesmo que elas já se vão sentindo mães assim que o casal decide ter uma criança. No caso dos homens não existe esse impulso arrebatador, mas um desejo que gradualmente vai crescendo e que se torna muito forte no momento em que a criança vem ao mundo. É uma paixão que vamos descobrindo e que nos consome a partir do momento em que ele(a) nasce. Por isso, é difícil racionalizar os motivos que nos levaram a ser pais. São sentimentos muito diversificados que fogem ao lado racional das palavras.

Ciência e Arte

Tenho a impressão que desde os tempos da escola que me inculcaram a ideia, de maneira as mais das vezes subliminar, que Ciência e Arte são universos mutuamente exclusivos. A Ciência dá-nos uma descrição e uma compreensão racional da realidade tão rigorosas quanto possível, o que exige objectividade, e o uso de um método lógico. A Arte por sua vez é subjectiva, e não é racional nem lógica, e é assente na criatividade, logo não nos pode dar descrever a realidade nem permite compreendê-la. Naturalmente eu não concordo em nada com esta visão das coisas. Por um lado a Arte não é necessariamente subjectiva, nem irracional, nem ilógica, pode ou não sê-lo, conforme o desejo do artista. Por outro lado, nada nos diz que uma compreensão objectiva da realidade não pode ser bela, pelo contrário muitas vezes, quase todas, é-o. A criatividade é um elemento essencial do trabalho do investigador, e a Ciência tem geralmente uma importante componente estética. Muitas das mais importantes teorias científicas impõem-se - na minha opinião - graças, em parte, a essa componente estética. Na Relatividade de Einstein, na Geometria Euclidiana, no Referencial Cartesiano, o aspecto estritamente científico é indissociável da sua beleza. Outro exemplo que me toca mais pessoalmente, a microscopia há mais de cem anos anda a contribuir para o avanço da biologia através da procura continua da beleza nas imagens, o microscopista é na essência um fotógrafo. Tudo isto para dizer que me surpreende que haja tão pouca gente a fazer Ciência como uma forma de Arte. Mas ele há-os, como por exemplo Patrick Blanc.
Patrick Blanc é um investigador, na área da Ecologia Vegetal, interessa-se pela evolução das plantas em habitates extremos. Para além da Ciência, desde há vários anos que se tem dedicado a realizar construções a que chama "Muros Vegetais", a meio-caminho entre a escultura e a arquitectura, utilizando plantas, como o nome sugere. Mais recentemente apresentou a exposição fotográfica "Folies Végétales no espaço "Electra" (da EDF - Electricidade de França), em Paris. Podem ver-se aqui fotos da exposição. O que gostei bastante na exposição foi que a componente estética e a componente científica não foram separadas, muito pelo contrário. Na apresentação das fotografias era dado o contexto natural - leia-se ecológico - em que elas foram tiradas, como se a compreensão da realidade fosse essencial à apreciação da beleza das imagens. A organização das exposição também obedece a critérios científicos, as fotos estão agrupadas no temas: flores, frutos, folhas e raízes. A apresentação do espaço segue a mesma lógica, ao longo da exposição apresentam-se várias construções que tentam recriar os ambientes ecológicos extremos onde as fotografias foram obtidas, tentando enquadrá-las com o seu habitat original. A exposição é, a meu gosto, muito bem conseguida (mesmo se no aspecto científico eu possa ter divergências com a visão de Patrick Blanc), teve grande afluência de público, e foi inclusivamente prolongada.

Como a argumentação neo-liberal justifica a existência de um sistema nacional de saúde

"Era o que mais faltava que hospitais privados não pudessem decidir, dentro das suas portas, que intervenções médicas estão dispostos a fazer."

Adolfo Mesquita Nunes, no "Arte da Fuga".

domingo, 18 de março de 2007

Peões por Lisboa - Propostas concretas (V) - pensar a cidade

Retomo a série «Peões por Lisboa» para divulgar uma iniciativa do Fórum Cidadania Lisboa, a que se juntaram especialistas como Helena Roseta, Nuno Teotónio Pereira, Filipe Lopes (Associação Ofícios do Património e da Reabilitação Urbana), Guilherme Alves Coelho, Luís Coimbra e este vosso peão de serviço.
O governo está interessado em vender 6 espaços emblemáticos de Lisboa: Liceu Machado de Castro, Docapesca, Quartel de Infantaria 1 (Forte Conde de Lippe), Hosp. D. Estefânia, IPO e Penitenciária (EPL). O debate foi suscitado por associações e cidadãos interessados em pensar a cidade e por 3 razões imediatas: 1) a relevância desses espaços na dinâmica urbana (como diz o texto, mais que jóias, são dedos do património urbano alfacinha); 2) a necessidade de equacionar a ocupação destes espaços no quadro de planos urbanísticos pré-existentes e segundo uma lógica que articule habitação, terciário privado, com serviços públicos relevantes, espaços verdes, etc.; 3) em consequência dos 2 anteriores, a necessidade da venda de património deste teor levar o Estado central a auscultar interlocutores locais válidos e a aproveitar a discussão pública do tema.
Do debate gerado e dos contributos recolhidos pelo Fórum resultou um «Manifesto de cidadãos por Lisboa», que o Público publicou hoje com o título «Seis casos, cinco ministérios, um só destino?». É uma página inteira (Local, p.28). Que tais ideias possam ajudar a repensarmos as nossas cidades.
Nb: na imagem vê-se um cortejo republicano a Camões subindo a Rua do Carmo (AFML).

E agora uma coisa que realmente me chateia a mim também


Nos jornais franceses e até estrangeiros tomou-se o hábito de falar de Sarko e de Ségo (aos quais veio juntar-se Bayrou). Ora, isso é profundamente injusto. Dum lado, os senhores têm direito ao nome de família, enquanto a senhora, a tal que quer se presidente, fica com o diminitivo do seu nomezinho. E porque não Nico, Ségo (e François, ou para os amantes de poesia Francisco ou Paco) ? Isso não é mais um exemplo – cuidado aqui vai sair um palavrão – da dominação masculina, mesmo desenvolvida duma forma inconsciente?
Para uma análise desse fenómeno, pode se ler o artigo no Le Monde de mais um sociólogo francês, François de Singly.

sábado, 17 de março de 2007

E agora uma coisa que realmente me chateia

Reduzido à net, gosto muito de saber que o Sporting ganhou ao Porto. Mas, agora que os cronistas desportivos têm a mania que são escritores e subordinam os textos a metáforas e a teses,

(um exemplo:

"Alguém ficou surpreendido com o golo de Tello? Com a flecha venenosa que partiu da besta disparada por «Guilherme» Tello? Ao minuto 71, o Sporting regressou de corpo e alma, com propriedade, à disputa do ceptro nacional. Porque teve atitude. Porque teve classe. Porque resistiu à pressão dos grandes momentos e superou-se continuamente, frente ao um F.C. Porto progressivamente ofensivo mas nada acutilante. Enfim, tudo se resume à transcendência do espírito de sobrevivência")

talvez ganhe a literatura. Mas quando se lê a crónica do jogo não se percebe patavina do que aconteceu dentro do campo.

Falta um certo arrojo ao Arroja

Sem querer entrar em polémica com o Victor, eu acho que as teses do Arroja sobre as razões do crescimento económico do Estado Novo até são pouco arrojadas. É que não basta dizer que havia uma "grande abertura da economia [do regime] ao exterior" (ponto 9 do decálogo). É preciso acrescentar a gestão liberal que o regime sempre fez dos mercados com que estabeleceu, digamos assim, relações comerciais privilegiadas, como era o caso de Angola ou Moçambique. É que, se não se acrescenta isto, a natureza da abertura da economia do regime de que Arroja fala fica completamente sem se perceber .

Noto a mesma falta de rigor no ponto 5. A expressão "padrões muito elevados no sistema de educação", se lida apressadamente por um leitor mais maldoso, pode fazer pensar que o autor se estava a referir aos padrões elevados de analfabetismo da população em geral. E não está: como todos sabemos, ele estava só a pensar nas boas famílias.

No mesmo ponto, é incompreensível a ausência de uma referência à política de mobilidade e internacionalização dos professores portugueses promovida pelo regime. Quantos foram os professores dos liceus e das universidades que foram, então, gentilmente convidados a combater o seu imobilismo provinciano e a sair para o estrangeiro? Se não se diz isto, o argumento de Arroja, que é bom e é subtil, resulta incompleto.

Por fim, parece-me que falta ao decálogo um 11° ponto fundamental (mas deixaria de ser um decálogo se Arroja o incluísse, pelo que aqui tem desculpa a falta de arrojo): então e a prudente política de informação desenvolvida pelo regime de Salazar? Uma política que como é sabido, foi marcada por uma tal determinação em servir o interesse nacional que, e apenas quando tal se revelava estritamente necessário, chegava ao ponto de silenciar as vozes da imprensa e da oposição? O senhor Arroja talvez respondesse a isto que a política de informação do Estado Novo nada tem a ver com o seu crescimento económico. Talvez. Mas aqui deveria entrar um argumento contra-factual: imagine-se o Estado Novo sem a política de informação coerente que adoptou (eu sei que é difícil, mas tente-se, em benefício do argumento). Haveria o perigo de as sábias políticas económicas do regime serem discutidas democraticamente, o que, possivelmente (mas eu de economia não percebo nada), seria prejudicial ao crescimento económico. Mais grave ainda seriam os efeitos sobre a memória do regime salazarista: o professor Arroja, por exemplo, que aparentemente só guardou a visão do regime que vem nos manuais de leitura da Terceira Classe, talvez ficasse a saber um pouco mais sobre o assunto.