terça-feira, 31 de julho de 2007

A blogofrase da semana

"eu bem me esforço, mas as minhas mágoas sabem nadar."
Por João Gaspar, no Last Breath

A derradeira aventura de Antonioni

A seguir a Bergman é a vez do italiano Antonioni partir para o Olimpo cinematográfico.
Deixa-nos outro realizador europeu marcante, seguindo uma via talvez mais difícil. Com efeito, um dos temas dominantes da sua obra é a incomunicabilidade, como o atesta a sua tetralogia A aventura (1960), A noite (1961), O eclipse (1962) e Deserto Vermelho (1963).
São crónicas do mal estar no mundo moderno, atavés dos encontros, desencontros e ilusões de pares heterosexuais. Da solidão irremediável.
Retenho ainda Blowup (1966), Zabriskie Point (1970) e O mistério de Oberwald (1980). Tenho especial apreço por A gente do Pó (1944), ainda pontuado pelo olhar neo-realista, um filme semi-documental, tal como o foi, entre nós, Douro, faina fluvial, de Manoel de Oliveira, e Lisboa, crónica anedótica, de Leitão de Barros, ambos do início dos anos 30.
Tal como Bergman, foi um prolífico realizador. A sua filmografia pode ser vista aqui. A imagem é do filme O eclipse.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Os últimos morangos silvestres de Ingmar Bergman


Morreu hoje o cineasta sueco Ingmar Bergman, aos 89 anos. Nascido em 1917, Bergman foi um dos realizadores europeus mais influentes. Tal deveu-se não só à sua substancial produção como ao fundo filosófico, ao tipo de temáticas e à inspiração teatral (meio donde era oriundo) que imprimiu na sua cinematografia.
Num dos seus filmes mais conhecidos, Morangos Silvestres (1957), vemos um professor reformado atormentado pelas suas memórias e pelas ameaças da morte e da decrepitude. O filme inicia-se com um pesadelo desse professor, recriado com se fosse uma sequência surrealista. É das sequências mais belas de Bergman, num dos seus melhores filmes (essa sequência pode ser vista aqui; outras partes deste filme vêm aqui e aqui). Talvez haja mais sequências no YouTube, mas atenção na pesquisa: não confundir com Morangos com açúcar, ok?
Outro belíssimo filme, marcante e perturbador, é Mónica e o desejo (1953), um filme intemporal. Bergman coloca algumas das questões essenciais da vida humana, exercita-as em contextos do quotidiano comum (enfim, sobretudo de classe média), mas, no fim não nos dá respostas feitas, 'apenas' nos ajuda a reflectir mellhor sobre a existência e as opções de vida. Nesse sentido, o olhar de Mónica tem sempre uma sombra de dúvida, de incerteza, de ambiguidade, tornando-se por isso furtivo. Seja como for, as vias abertas por Bergman não são uma ajuda de somenos importância, sobretudo se pensarmos como a maioria dos restantes cineastas tem fugido disso (da reflexão, extensivo à sensibilidade, à palavra, etc.) como o diabo da cruz.
Tanto quanto sei o seu último (tele)filme foi Saraband (2003), um filme intenso embora talvez demasiado excessivo (demasiado camiliano?). Dos outros filmes que vi, retenho Sonhos de uma noite de Verão (1955, baseado na peça de Shakespeare e depois retomado por Woody Allen), Sonata de Outono (1979) e Fanny e Alexandre (1982).
Nb: as imagens são do filme Mónica e o desejo; fotogaleria aqui; obituários aqui e aqui.

De vitória em vitória...

Segundo um relatório da Oxfam e do Comité de Coordenação de ONGs no Iraque, um terço da população do Iraque, ou seja OITO MILHÕES de pessoas, necessitam de ajuda humanitária urgente (notícia aqui e aqui, relatório aqui).

Pode ler-se no resumo do relatório:

• four million people who are ‘food-insecure and in dire need of different types of humanitarian assistance’

• more than two million displaced people inside Iraq

• over two million Iraqis in neighbouring countries, mainly Syria and Jordan, making this the fastest-growing refugee crisis in the world.

Old-time surrealism - GRAFFITI

LET US LIVE
THE ETHER IS FOR SALE FOR NOTHING
LONG LIVE THE EPHEMERAL
FREE THE PASSIONS
NEVER WORK

domingo, 29 de julho de 2007

Para refrescar na canícula, um bom vinho branco Arinto

Em plena canícula, acompanhar marisco ou peixe grelhado com vinho tinto é um quanto suado, para não dizer inapropriado. É como aquela rábula antiga do restaurador Olex. Não dá mesmo.
Por isso, nada melhor que um vinho branco bem fresquinho (ou um espumante). Já falámos aqui dos vinhos brancos verdes, agora é a altura dum bom vinho branco com o máximo de frescura. Um dos que melhor encaixa neste perfil são os da casta Arinto. São vinhos brancos muito secos, frutados e cítricos.
Têm uma região especial só para eles, Bucelas, mesmo às portas da capital, embora sejam feitos um pouco por todo o país. Dos que conheço, recomendo, à cabeça, o Bucellas Arinto (Caves Velhas, c.6€) e o Prova Régia (Qt.ª da Romeira, c.5€). Outro excelente é o Vinha da Defesa, ainda que misturado com Antão Vaz e Roupeiro (Herdade do Esporão, c.7€; nos vinhos de lote, há a bom preço, c.5€, outro Caves Velhas, o Bucellas, que combina o Arinto com as castas Esgana Cão e Rabo de Ovelha). Para quem gosta de reservas há o Morgado de St.ª Catherina (onde ressalta muito a madeira, c.9€). A preços acessíveis há ainda que contar com o Quinta da Murta (distribuído pela cadeia Pingo Doce, c.4€).
Nos vinhos de colheita tardia feitos com Arinto tem que se destacar o Chão do Prado. Quem quiser pode visitar esta belíssima propriedade por alturas da Festa da Vindima, ou durante o ano, basta marcar reserva no seu restaurante, incorporado numa antiga casa rústica de apoio, entretanto recuperada.
Uma novidade recente é a feitura de vinhos espumantes com esta casta, uma boa experiência, recomenda-se vivamente a sua prova.
Nb: a 1.ª imagem é retirada daqui.; a 2.ª vem daqui.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O pungente drama da perseguição à bola-de-berlim na costa lusitana

Imbuídos do saudável espírito de quebrar barreiras, como diria o outro, resolvemos fornecer aos nossos leitores uma nova rubrica, esta de arquivo temático de textos saídos na imprensa nativa. São textos de especial calibre, marcados pela sua pertinência e urgência de última hora. Começamos por esse drama pungente que dá pelo nome de bola-de-berlim com creme vendida no estio em alguns areais cá do burgo. É que parece que anda por aí uma entidade pública embirrenta, obcecada com problemas de saúde pública e a querer impingir condições de salubridade para a venda de produtos alimentares, vá-se lá saber porquê. Então, aqui vai.
Bibliografia selecta sobre bolas-de-berlim com creme vendidas por vendedores ambulantes nos meses de estio em praias selectas, acompanhada por excertos históricos:
*Rosa Lobato Faria, "Um rasto de hortelã", JL, 4-17/VII/2007, p. 44.
"E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (as bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem)".
*Vasco Pulido Valente, "Má educação", Público, 15/VII/2007.
"As bolas têm hoje de estar em malas térmicas com uma temperatura de, pelo menos, 7 graus, têm de ser servidas com pinças (suponho que para evitar o pernicioso contacto da mão humana) e os vendedores têm, como é natural, de tirar um curso especial de "manuseamento". As multas vão até aos 3740 euros; coisa que se percebe muito bem quando se trata de combater a bactéria e a toxina e, sobretudo, de proteger a infância".
*Helena Matos, "Bola-de-berlim com creme", Público, 23/VII/2007.
"A bola-de-berlim tornou-se a gota de água que me fez perder a paciência. Descrer que algum tino ou vergonha restem entre nós. De agora em diante o meu propósito é simplesmente descobrir como sobreviver num país que persegue nas praias os vendedores de bolos, enquanto nas falésias se alinham os mais monstruosos projectos urbanísticos saídos da mente humana".
Nb: imagem retirada daqui.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Socas anti-socrático, ou o Homem-quadrado interactivo

Cartoon de GoRRo (c) 2007


Nb: para ser acompanhado pelo artigo de Helena Matos de ontem no Público: «O governo antropofóbico».

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Por culpa de Fidel

Je suis tombé par terre, c’est la faute à Voltaire
Le nez dans le ruisseau, c’est la faute à Rousseau
Je ne suis pas notaire, c’est la faute à Voltaire
Je suis petit oiseau, c’est la faute à Rousseau

No meio do deserto fílmico que é o Verão, há, pelo menos, um filme bastante interessante: Por culpa de Fidel de Julie Gavras. O título foi herdado de uma canção entoada por Gavroche durante as barricadas de Os miseráveis, a capacidade de filmar terá sido herdada do pai Costa-Gavras e a vivência política herdada da sua própria infância. E é exactamente neste equilíbrio «hereditário» que a realizadora nos mostra de um modo bastante sensível o choque de uma criança que vê o seu mundo burguês, (colégio de freiras, avós com vinhedos, casa com jardim), ser abalado com a adesão dos pais ao comunismo. A história passa-se nos anos 70, e a cruzada paterna centra-se no apoio a Allende no Chile e na luta contra o franquismo.
Quase vinte anos depois de Costa-Gavras nos ter colocado uma enorme interrogação e dúvida filial em O enigma da caixa de música, uma filha que descobre o passado nazi do pai e que o denuncia, Julie Gavras, embora numa situação menos dramática, devolve-nos a pergunta, desta vez de uma forma invertida, e fá-lo de um modo muito próprio e original.

terça-feira, 24 de julho de 2007

O cartoon da semana, por Sergio Langer

Sergio Langer é um cartoonista argentino reconhecido internacionalmente faz algum tempo. Desde 1991 que tem contrato com o Cartoonist & Writers Syndicate (de N. Iorque), o que lhe permite ter os seus desenhos de política internacional em vários dos grandes jornais norte-americanos, argentinos, brasileiros, mexicanos, espanhóis, etc..
Nascido em Buenos Aires em 1959, publicou os seus primeiros desenhos aos 20 anos de idade. É também arquitecto e ilustrador.
O seu traço é corrosivo e certeiro, abordando amiúde temas difíceis, como a ganância e outros abusos de poder, mas não omitindo os pôdres das próprias elites locais sul-americanas e africanas. Nesse aspecto, parece-me ter afinidades com um autor como o exilado chileno Palomo (n.1943, tem publicado entre nós O quarto Reich). Mas também poderíamos falar do caricaturista francês Plantu ou de algumas coisas do seu compatriota Quino.
Como o próprio Langer assume, a "injustiça revolta-me". A resistência à opressão, a qualquer tipo de opressão, é a sua palavra de ordem:
Nb: alguns cartoons de Langer sobre futebol estão aqui, incluindo o de cima; uma boa série dos seus cartoons pode ser vista aqui (não insiro nenhum desta série por não saber se é necessário autorização especial).

Os meus votos de época nova

A propósito da nova época futebolística que vai começar. O que eu gostaria mesmo - eu sei que sou optimista, e que estou a pedir demasiado - era esta época não ouvir aquela conversa "A nossa equipa jogou melhor, merecia ganhar". Esta frase é uma contradição nos termos, se o objectivo é marcar mais golos do que o adversário, a equipa que marca mais golos é a que joga melhor, é a que merecer ganhar, e é a que ganha efectivamente. Coroloário: A menos que factores estranhos ao futebol intervenham no resultado a equipa que ganha é a que merecer ganhar e vice-versa (Nota: entendem-se por factores estranhos ao futebol, extra-terrestres que consigam telecomandar a bola, fenómenos paranormais não explicados pela ciência como o ocorrido na final do Euro 2004, ou a circunstância do árbitro ter passado a noite da véspera num bar de alterne em Rio Tinto). O objectivo do futebol não ter mais posse de bola do que o adversário, ter mais posse de bola não é razão suficiente para merecer ganhar. O objectivo do futebol também não é ter mais ocasiões de golo do que o adversário, é concretizá-las. Uma equipa que tem oportunidades de golo do que o avresário e que não marca é uma equipa que falha golos, logo merece perder. O objectivo do futebol não é pressionar mais, nem ser mais rápido, nem atacar mais, nem fazer mais remates, nem mais centros, nem ter mais cantos a seu favor. O objoctivo é marcar mais golos, e uma equipa que faz tudo o que mencionei acima e não ganha o jogo é uma equipa de jogadores que erraram na vocação, logo merece perder.
O objectivo também não é jogar mais bonito do que o adversário (e vale a pena demorar-me um pouco mais neste aspecto). Se fosse então devia abolir-se as balizas, e criar um júri como na Ginástica Ritmica Desportiva que atribui pontos às equipas no fim do jogo. Aliás essa patranha do "futebol-espectáculo" é apenas uma bela desculpa para transformar cepos em fenómenos mediáticos (e.g. Beckam) e vender o futebol - ex-desporto do povo - às grandes multinacionais (e.g. Nike, Adidas, Coca-Cola, FIFA, etc...). O futebol é um espéctaculo por um simples processo de tentativa e erro. Há milhares de desportos diferentes, praticados de todas as maneiras e feitios. Sucede que um desporto jogado onze contra onze com uma bola de pouco mais de um quilo num terreno relvado de aproximadamente um hectar em que o objectivo é introduzir a bola na baliza do adversário não podendo tocar a bola com os membros superiores é intrinsecamente mais espectacular, mais belo, do que por exemplo um desporto praticado sobre o gelo em que um jogador desliza na pista enquanto lança um calhau polido vagarosamente e dois empregados da limpeza esfregam freneticamente o piso. E dá-se ainda a feliz circunstância de muito frequentemente as equipas que jogam bonito ou espectacular são as equipas que merecem ganhar (e que ganham efectivamente, o que como já expliquei é o mesmo). Isto não impõe às equipas qualquer dever moral ou ético de submeter à componente estética a alma competitiva inerente a qualquer desporto. O jogar bonito não é uma obrigação é apenas um sub-produto de uma circunstância feliz que torna o futebol um desporto superior aos demais.
Por exemplo, veja-se o Liverpool que perdeu a final da Liga dos Campeões este ano. O Liverpool não estava na final para ganhar, estava lá para sair de cabeça erguida. Estava lá para correr, para se esgadanhar, para lutar até à última gota de sangue, e no fim poder dizer que estiveram quase. Não por acaso só marcaram um golo quando o jogo esta já perdido, mas sempre lhes permitiu continuar a lutar até ao fim. Perderam e mereceram perder. Aliás a re-edição da final de 2005 foi uma invitabilidade cósmica, para repôr a verdade desportiva. O Liverpool mereceu ganhar em 2005, mas por engano, marcaram o terceiro golo porque se tinham esquecido que já tinham marcado dois antes. Este ano repôs-se apenas a ordem natural das coisas e ganhou a única equipa que entrou em campo para ganhar, o Milan AC.
Outro exemplo, a equipa do Brazil de 1982, supostamente a melhor equipa que nunca ganhou o campeonato do mundo. Na realidade é, não melhor, mas sim a que jogou mais bonito sem conseguir ganhar o campeonato do mundo (título já de si duvidoso), e não merecia ganhar. A sua derrota não foi um cumprimento de desígnio superior que apenas demonstra a supremacia olímpica da estética sobre sobre a mundana vitória, como se uma e outra fossem incompativeis (veja-se o Brasil de 1970). A derrota de 82 foi apenas a punição merecida a quem narcisisticamente se deslumbrou com a sua própria beleza e pensou que a beleza em si, e não a vitória, era o objectivo último.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Público & notório

"A evolução da sociedade portuguesa nos últimos 30 anos não foi acompanhada pela adaptação dos partidos políticos, que se mantiveram formalmente fiéis a códigos ideológicos que fizeram parte do seu momento genético, aliás em regra para mais facilmente os tripudiarem no dia-a-dia. Para agravar as coisas, o PS chegou-se ao centro com Guterres, continuou a fazê-lo com Sócrates e está a evoluir no sentido de um partido pós-social-democrata (tema a que dedicarei qualquer dia uma destas crónicas), numa linha de «liberalismo avançado» que, há mais de 25 anos, teorizei como a estrutura central do pensamento político de Sá Carneiro."
José Miguel Júdice,
mandatário de António Costa à presidência da CML
(in "Pensamentos heréticos sobre a direita", Público, 20/VII/2007)

"Em relação à reforma da despesa pública, para além dos cortes no investimento e as medidas nas pensões e reformas, os resultados práticos brilham pela sua ausência. Acabámos de saber que as receitas dos impostos são melhores do que o esperado, mas o compromisso de fechar as contas do Estado em 2007 abaixo dos 3,3% fica adiado porque a despesa corrente não está a correr como o planeado. Fico preocupado, porque a crise orçamental deixada pelo PSD-CDS deveria ser aproveitada para a reforma da despesa e esta parece ficar para depois das eleições de 2009. Como nessa altura a pressão orçamental será menor, podemos pensar que nada mais será verdadeiramente realizado. Os cortes horizontais e cegos, alguns ainda recentes, não resolvem o problema, premeiam as instituições com gorduras, que os podem acomodar, e penalizam as que tinham uma gestão financeira apertada, que podem ficar paralisadas. [...] Tudo o que não devia ser feito. Quem teima em não querer conhecer a história, está condenado a repeti-la, infelizmente."
Luís Campos e Cunha,
ex-ministro das Finanças de Sócrates
(in "Mais vida para além do défice?", Público, 20/VII/2007)

Fontes: cartoon de José Miguel Júdice daqui; foto de Luís Campos e Cunha daqui.

domingo, 22 de julho de 2007

Revisitações retemperadoras

Os degraus estão uma lástima, há mesmo um troço algo perigoso, mas os momentos lá em baixo compensam tudo. Então, com um mar calmo como nunca, um sol gostoso, uma brisa suave, e umas redondas ameijôas à Bulhão Pato, com um molhinho bem no ponto, a finalizar o dia, que mais se pode querer?
Qual é a praia, qual é?

A grelha de classificação (ou como a ideologia me fez descobrir novos vinhos)

Porque hoje é o dia do Senhor, Sr. Baco evidentemente, aqui no Peão escreve-se sobre vinhos, e hoje é a minha vez. Nisto dos vinhos não sou propriamente um conhecedor, sou um apreciador mas não um conhecedor. A minha escrita vai ser portanto algo diletante, sobre o processo de aprendizagem e descoberta dos vinhos franceses (e, meus amigos, se há matéria para explorar!). Aviso prévio: regra geral só falo de vinhos tintos, sumo de uva não faz tanto o meu género.
Por defeito de formação, se não mesmo congénito, gosto de sistematizar as coisas de uma forma lógica (o que é uma grande mentira, mas é conveninte para o propósito deste post). Este meu primeiro post dos vinhos ao domingo vai ser sobre a minha sistematização dos vinhos fanceses, e não tanto sobre um vinho em particular. Descobri que os vinhos franceses podem ser classificados com a ajuda de um referencial cartesiano, lá está Descartes era francês e provavelmente inspirou-se no vinho. Nesse referencial temos Bordeaux nas abcissas e Bourgogne nas ordenadas.
O Bordeaux é tipicamente mais encorpado, de cor mais escura e mais alcoólico (por isso fica no eixo horizontal, não é por acaso). As principais castas de Bordeaux são o Cabernet Savignon, o Cabernet Franc e o Merlot. O Bourgogne é mais rico em aromas (porventura subtis), de cor mais clara e menos alcoólico. As principais castas são o Pinot Noir (a mais importante e tradicional) e o Pinot Gris (e para quem interessarem os brancos, o Chardonnay). Os outros vinhos franceses situam-se, neste referencial, algures entre estes dois extremos. Os mais aromáticos e delicados são a atirar para o Bourgogne e os mais robustos e fortes são a dar para o Bordeaux. Convém ter sempre presente a noção de que tudo é relativo, quando digo encorpado estou medir na escala francesa, porque se fosse encorpado como o mais pujante dos Borbas, lá ia a grelha de classificação para o hiper-espaço. Devo admitir que sendo eu um gajo de esquerda minha inclinação natural é para os vinhos mais encorpados (essa estória dos aromas subtis parece-me até uma treta um bocado burguesa), gosto dos vinhos de degustação longa a acompanhar repastos demorados como nos falava o Renato domingo passado. Logo o meu preconceito vai mais para o lado dos Bordeaux, e já bebi uns quantos de muio boa qualidade.
Nisto vi um documentário, o Mondovino (sobre o qual o peão Daniel Melo escreveu nos tempos do Fuga para a Vitória). O documentário Mondovino mostra impecavelmente como um grupo empresarial forte, no caso a americana Mondavi, consegue com o seu poderio económico, e através de ramificações com a imprensa especializada e influência de críticos do vinho, impôr no mercado internacional um padrão do "bom gosto". O tal padrão de "bom gosto" é o vinho de cor escura, encorpado e com elevado teor alcoólico. Um dos parceiros da Mondavi, François Roland, é um consultor em vinhos que vende uma tecnologia, a micro-oxigenação, basicamente faz com a fermentação seja completa, o que leva a que o vinho seja escuro, encorpado e alcoolizado. Quem passa a trabalhar com Michel Roland vê logo as vendas subirem. Quem mais benificia são os vinhos californianos e o Bordeaux (e sobretudo a Mondavi). Quem perde é o consumidor que procura a diversidade de vinhas e casta, e quem se dedica a produzir outros vinhos fora do "padrão".
No documentário Bourgogne aparece como os antipodas do Bordeaux também na virtude e na pureza do cultivo da vinha. Em defesa do Bourgogne há um vitivinicultor da região que diz que os vinhos de hoje, referindo-se tal "padrão de bom gosto" são vinhos transversais, enquanto os Bourgogne, e outros vinhos tradicionais são longitudinais. Quer ele com isto dizer que nos vinhos transversais o sabor está todo lá desde o primeiro gole, é como chocar contra uma parede, vem tudo de uma vez e dali não sai mais nada. Nos vinhos longitudinais, pelo contrário, os sabores vão-se desenvolvendo ao longo do tempo, com a degustação há aromas que vão aparecendo progressivamente. Nisto tenho que dar razão ao apreciador dos vinhos longitudinais, afinal essa é uma, senão a, caracteristica do vinho que o torna único como bebida e que cativa os apreciadores. O meu esquerdismo levou-me assim a descobrir o Bourgogne e a abandonar o Bordeaux.
Não quero no entanto acabar este post sem deixar um par de sugestões de garrafas. O melhor Bourgogone que já bebi, graças aos bons ofícios de um amigo, foi um Fixin 2001 Domaine de la Croix de Bois (não é bem o que está na foto mas quase), dificil de encontrar em super-mercados. Como convém foi consumido a acompanhar um Boeuf Bourgignon - estufado de vaca ele próprio cozinhado num Bourgogne. Do que se encontra em super-mercados o Domaine du Pavillon 2001, Pinot Noir, não é nada mau e fica por 7,50 euros.
Mas ainda assim, o Bourgogne não é o vinho que me enche completamente as medidas, apesar de tudo continua ser demasiado franzino para o meu gosto. E provavelmente é a região que mais sucesso de vendas tem, a seguir a Bordeaux, outros há que sofrem mais do que Bourgogne com a globalização no mercado do vinho. Estas constatações obrigaram-me a procurar outros vinhos noutras paragens, mas isso fica para uma próxima oportunidade, um outro domingo aqui no Peão.

sábado, 21 de julho de 2007

filme de terror


O pesadelo de Fernando Santos é um filme de terror para os adeptos: Sem Simão, e sem alternativa para este, o treinador tem pesadelos. Agradecíamos que Fernando Santos deixasse de sonhar e perdesse umas noites a resolver estas questões.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A imprensa e o governo Lula

A ascensão do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República do Brasil, produziu alterações significativas na forma com que a imprensa brasileira trata as questões relativas ao Palácio do Planalto. Nunca houvera antes, tanta voracidade da comunicação social em tentar de todas as formas, condenar antecipadamente um governo e as pessoas a ele ligadas. Não é exagerado dizer que, a imprensa direitista e subserviente aos magnatas da Avenida Paulista, inverteu um princípio do direito. Aquele que diz assegura que todo cidadão é inocente até que se prove o contrário. Pois bem, com o governo Lula, acontece exactamente o inverso. Pelo menos para as inteligências da Folha, do estadão, d'O Globo (e da Globo), e da famigerada Veja. Ou seja, quando se trata do governo Lula, do PT, ou de qualquer dos seus aliados, para estes órgãos de imprensa, são sempre culpados, até provar o conttrário. Infelizmente, a condenaçaõ sumária e antecipada do governo foi levada a cabo mais uma vez, na recente tragédia que pode ser caracterizada como o maior desastre da aviação civil brasileira. O acidente com o Airbus 320 da TAM, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Antes mesmo de ser iniciada qualquer investigação, os principais meios de comunicação do país já apontavam como responsável pela tragédis, o Palácio do Planalto. É verdade, que o sistema aeoportuário do país vive problemas estruturais bastante sérios. Mas, o que de mais grave tem acontecido como cosequência do "apagão aéreo" (a imprensa verde-amarela é pródiga em inventar termos assim), são longas esperas nos aeroportos.
A própria companhia aérea informou que a aeronave estava com um problema mecânico desde do dia 13 de julho. O reversor direito não estava a funcionar, e portanto podia dificultaria a aterragem. O que a companhia não explicou foi o motivo de colocar em operação uma aeronave com um defeito que poderia comprometer a segurança dos passageiros. Após a divulgação deste facto, o Estadão, sabiamente afirmou que "a falta do reversor podia não causar problema em uma pista mais longa". Logo, insinua que mesmo que os aviões possam voar sem todos os equipamentos de segurança, a culpa sempre será do governo (no caso desse governo ser o do Lula, obviamente). O mesmo aconteceu no ano passado, quando, faltando um mês para a eleição presidencial, um jato de fabricação da Embraer, numa irresponsável brincadeira de seus pilotos norte-americanos, abateu um avião da Gol, ceifando a vida de mais de uma centena de pessoas.
Infelizmente o país está de luto pelas mais de 200 vítimas do acidente. Mas, o facto que mais tem chamado a atenção da imprensa não é somente a dimensão do acidente. O que mais tem preocupado os meios de comunicação é encontrar a forma mais rápida de atribuir a culpa ao Planalto.
Há 188 dias, um túnel mal escavado em uma obra do metro de São Paulo desabou, abrindo uma cratera e matando sete pessoas. A obra era de responsabilidade do governo paulista, do tucano José Serra. A cobertura de Veja foi a que já se esperava. O subtítulo da reportagem era: "Antes de procurar culpados, o mais importante é observar as condições de segurança das obras públicas". O governo era do PSDB e procurar culpados era supostamente atribuir a culpa aos candidatos apoiados pela revista.
Lamentavelmente, tem sido esse o comportamento da imprensa brasileira. Qando se trata do governo federal, não é necessário julgamento, a condenação é já antecipada. Quando se trata de govenos ligados às elites económicas, nada de procurar culpados.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Começa assim...

Poucos meses depois de eleitos, aqui em França, o presidente Sarkozy e a maioria de direita na Assembleia Nacional (com o governo de François Fillon), e a meio de Julho quando muita gente esta em férias, o Senado começa a discutir e a votar a nova lei dos serviços mínimos. Na prática é uma lei que limita o direito de greve. É uma lei assente na retóricada da "liberdade do trabalho", da "liberdade do comércio e da indústria", da "liberdade do ir e vir" (sic) e do "acesso aos serviços públicos" feita para criar mais constrangimentos à possibilidade de se fazer greve. Por exemplo todo o trabalhador que tenha intenção de fazer greve terá de dar conhecimento ao patrão com 48 horas de antecedência, sob risco de sanção disciplinar (artigo 5°, já aprovado no Senado). Ou ainda o pré-aviso de greve de um sindicato só pode ser depositado após uma fase de negociação com a entidade patronal. Os serviços mínimos obrigatórios a cumprir em caso de greve vão ser seguramente alargados. Tudo como seria de prever, ninguém pode dizer que não estava à espera este tipo de medidas.
Diga-se contudo que estas medidas não serão neste momento particularmente impopulares. O uso imprudente, para não dizer irresponsável, do direito à greve por parte dos sindicatos nos últimos anos (talvez nos últimos 40 anos, ou coisa do género), e em particular em sectores como os transportes que causam incómodo à população, criou um clima propício à aceitação deste tipo de medidas (o que foi aliás utilizado durante a campanha eleitoral). Esperemos que os sindicatos retirem daí as suas ilacções. Duvido. Sarkozy agradece.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Pelo empréstimo público gratuito nas bibliotecas portuguesas

No lado b do Peão transcrevi o Manifesto em defesa do empréstimo público gratuito nas bibliotecas portuguesas, que me enviou a Luísa Alvim. O que se está a passar é muito grave: em 1992, a Comunidade Europeia aprovou uma directiva que impõe às bibliotecas, centros de documentação e outras instituições privadas sem fins lucrativos o pagamento pelo empréstimo público dos seus documentos abrangidos por direitos de autor. Portugal (tal como a Espanha e a Itália), que isentou todas as categorias de estabelecimentos que praticam o comodato público da obrigação de pagar aos autores, foi condenado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia e terá que passar a aplicar aquela directiva. Na prática, a UE obriga os Estados-membros a contrariar o conceito de leitura pública inscrito no Manifesto da UNESCO sobre Bibliotecas Públicas.
Parece-me que mais importante que os direitos de autor (assegurados através da venda dos livros nas livrarias) é assegurar o acesso de todos (ricos e carenciados) à informação e ao conhecimento. Além disso, as bibliotecas são dos principais compradores de livros. Logo, já pagam direitos de autor!
Para mais informações, veja-se o blogue Entre Estantes, de Bruno Duarte Eiras.

Emprego científico

Nesta semana está em foco a política para o ensino superior. Além da votação na especialidade do novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, ontem iniciada (vd. aqui), a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica marcou para hoje uma concentração nacional frente ao MCTES, a fim de entregar a sua proposta de alteração ao Estatuto de Bolseiros de Investigação, estatuto esse cuja reforma está em preparação no ministério.
Essa proposta regula-se pelos seguintes princípios:
"-garantir que todo o pessoal de investigação científica veja reconhecido o trabalho que desenvolve e dignificada a sua condição, beneficiando de um conjunto de direitos sociais básicos;
-acolher na legislação nacional as recomendações constantes da Carta Europeia do Investigador;
-travar e inflectir a tendência para uma diminuição da atractividade das carreiras científicas;
-garantir uma maior responsabilização das chamadas instituições de acolhimento;
-permitir uma adequada articulação com o conjunto do edifício legislativo que enquadra e regula a actividade da generalidade dos trabalhadores científicos;
-prever uma adaptação às modificações introduzidas no sistema científico e tecnológico nacional pela implementação do Tratado de Bolonha
".
No ponto 1 inclui-se a assinatura de contratos de média duração (5 anos) em substituição dalgumas bolsas (as 'pós-doc' e outras que asseguram necessidades básicas do sistema ou das instituições), a passagem dos bolseiros para o regime geral de segurança social (saindo do actual regime que os penaliza), sendo tal questão bem mais prioritária do que a actualização das prestações, apesar de estar inalterada há 5 anos. É que a segurança social prende-se com a valorização socioprofissional do trabalho levado a cabo pelos bolseiros de investigação científica, os quais, embora responsáveis por uma fatia relevante da produção científica nacional, não vêem reconhecido um mínimo condigno de condições socioprofissionais nem um plano de emprego científico para a renovação séria dos quadros de investigação e docência do ensino superior e centros de investigação.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Frágil 25

O bar Frágil celebra este ano as suas 25 velas, já fez a festa e hoje é dia de lançamento ao vivo do Projecto Lisboa, um álbum em que participam algumas dos fautores da música moderna portuguesa e que lança a editoria Lisboa.

Parabéns e continuação de boas festas!
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Lembrei-me do Frágil ao ler um texto no P2 e por causa do portuense Maus Hábitos, um bar/ centro cultural em grande estilo, que é já um dos ex-libris da noite lusa e onde há pouco tempo pude ver o verdadeiro artista Lello Minsk com o seu Quarteto 4444 em grande!

Universidades no estado gasoso

Cartoon de GoRRo (c) 2007

Conversas de cocó

A partir do momento em que somos pais uma matéria passa a fazer parte das nossas vidas: o cocó da criança. Desde os primeiros meses assistimos à evolução das diversas formas desta substância. O tom quase incolor dos tempos de bebé cede lugar a uma substância poderosa em todos os sentidos: visuais, olfactivos e também ao nível do tacto (algumas vezes lá desliza a nossa mão na fralda e “trás” enterramos os dedos na matéria). Quando o cocó é consistente de formato cilíndrico ficamos aliviados: o rabinho pouco se suja e a fralda enrola-se logo e atira-se directamente para o lixo. Mas quando a substância é pastosa ou quase liquida, não temos outro remédio senão reter a respiração nasal e mãos à obra.O cocó passa a ser assunto habitual de conversa entre os pais nos locais mais inapropriados. Como nos restaurantes depois de uma mudança de fralda atribulada naquelas pequenas casas de banho dos fundos, que mal espaço têm para uma só pessoa:
- Então viste o cocó?
- O que é que achas!
- Continua com aquele tom verde?
- Não, já está mais acastanhado e menos líquido.
- E o cheiro?
- Ainda é um pouco azedo.
- Que chatice, temos de continuar a dar-lhe arroz.

Persépolis

Persépolis, aí está um filme que vale a pena ver. Adaptação para o cinema de uma banda desenhada com o mesmo nome. A adaptação é feita pela própria autora da banda desenhada, Marjane Satrapi, mas desta vez em parceria Vincent Paronnaud (prémio do Júri do festival de Cannes). O filme, e a banda desenhada são autobiográficos, contam a experiência de Marjane Satrapi no Irão desde a queda do Xá, no fim dos anos 1970, quando era ainda criança, até à saida definitiva do país nos anos 90, já adulta. Sendo uma autobiografia é inevitavelmente parcial, nem pretende ser outra coisa. Mas a autobiografia tem a vantagem de nos dar um relato da vida do dia-a-dia, uma visão quotidiana do que é viver sob o regime da República Islâmica do Irão. A Marjane (refiro-me à personagem) vem de uma família progressita laica, de opositores de esquerda ao regime do Xá, que passam a opositores do regime dos Ayatolas, e o filme é feito nessa perspectiva. Ainda assim, é na boca do mais idealista dos personagens, o tio de Marjane, que sai a frase que muitos gostariam(os) de ignorar, a República Islâmica do Irão foi escolhida democraticamente pelo povo iraniano em referendo, com uma votação massiva, mais de 80%. Com o optimismo dos condenados diz-nos que é uma fase passageira. É o ponto de vista daqueles que pensavam de depois do Xá nada podia ser pior, e vêem desaparecer os direitos e o estilo de vida que davam como adquiridos.
A animação é excelente, os ambientes que o preto e branco sem cinzentos criam funciona belissimamente. Mas o melhor para mim foi a sensibilidade com que o filme é feito, que se revela sobretudo na evolução da perspectiva do narrador ao longo do filme. O narrador é a própria Marjane, que começa como criança, e conta a estória como uma criança, e ao longo do filme vai evoluindo para adolescente inconsciente com crises de rebeldia, estudante emigrada, jovem idealista e mulher adulta. A narrativa acompanha na perfeição essa narrativa. A relação de Marjane com a avó, que atravessa todo o filme, é tocante.
Adenda: Esqueci-me de referir que na versão francesa as vozes de Marjane e da avó são emprestadas por Chiara Mastroiani e Catherine Deneuve respectivamente. Vão muito bem.

RELER AL BERTO

AL BERTO morreu em 1997, em Lisboa. Nos dez anos da sua morte, a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas recomenda a leitura da obra do poeta. No seu sítio na Internet, a DGLB disponibiliza uma biografia de Al Berto, bibliografia, bibliografia passiva, lista das traduções das suas obras, alguns excertos e ligações a outros sítios, nomeadamente ao do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea (BN), onde está depositado o seu espólio.
Associamo-nos à homenagem, com um poema do Horto de Incêndio.
Lisboa
(1)
por trás dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios – cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas

da escrita dos inumeráveis povos quase
nada resta – deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa

mais além – para os lados do corpo – permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos – o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro

plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem olha contra um céu desesperado – jardim
de íris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul – Lisboa

lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres

e morres
carregado de tristezas e de mistérios – morres
algures
sentado numa praceta de bairro – o olhar fixo
no inferno marítimo das aves

Al Berto, Horto de Incêndio, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, p. 41-42.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

A ponte submersa

Manuel da Silva Ramos vai lançar o seu novo romance, A ponte submersa, na próxima 5.ª feira, 19 de Julho, às 18.30H, na Livraria Bulhosa (metro de Entrecampos, Lisboa). O romance será apresentado por Miguel Real.
Nas palavras do autor: "Esta é a incrível história de um homem que destruiu a vida de três jovens cheias de sonhos promissores, arrastando no mesmo golpe a cidade que o viu nascer para o opróbrio e a lama e dando vergonha aos seus habitantes ainda não esquecidos de um nome de um conterrâneo ilustre que meteu Portugal na lama da História durante muitos e obscuros anos. Este romance é um feroz requisitório contra os homens portugueses que tentam condicionar o destino de muitas mulheres e uma crítica severa a uma instituição arcaica, prepotente e privilegiada. Enfim, e não é a menor das coisas, oferece um inexplorado caminho de esperança dando lucidamente a mão aos defensores da natureza e do humanismo."
O enredo deste romance baseia-se num caso verídico (os alegados homicídios imputados a um ex-cabo da GNR de Santa Comba Dão), que está neste momento em julgamento.
Lá estaremos, Manel!

Adeus tristeza, até depois…

É triste verificar que há pessoas que não aguentam conviver com a diferença. Recusam-se a partilhar o mesmo espaço virtual com quem pensa, expõe e defende outras ideias. É o caso de CLeone. E sejamos claros, o adeus de CLeone ficou a dever-se à sua partidarite em último grau, que o impede de aceitar que cada peão lisboeta vota como bem entender (no PS ou noutro partido ou noutro movimento).
O mesmo CLeone que diz que neste blogue até se defendeu a censura, porque um dos peões decidiu e assumiu não incluir um link para a candidatura do PNR às eleições intercalares para a CML, percebeu agora que a nossa companhia não lhe convém porque teme ser censurado por alguém mais intolerante no seu círculo partidário. Importa referir que o blogue Costa do Castelo (de apoio a António Costa) incluiu ligações aos sites das outras candidaturas, mas não à de extrema-direita. Terá sido censura pela calada?! A mim parece-me uma atitude legítima e, no Peão, essa opção foi amplamente debatida com transparência e frontalidade.
Ora, a grande virtude do Peão tem sido acolher contributos heterogéneos (que não se confinam à política), sem negar a ninguém o direito à liberdade de expressão (e, felizmente, à liberdade de voto). Todos os que têm participado com espírito crítico, vontade de ouvir, capacidade de argumentar, independência, respeito pelos outros peões e visitantes, sentido de humor, poder de encaixe, foram e são bem-vindos. Talvez não seja por acaso que a maioria continua a escrever, concordando ou não com o post precedente ou com o que virá a seguir. Sem calculismos nem falsos moralismos.

Sem mais

É uma pena ver as piores expectativas confirmadas, mas nem posso dizer que me espanto (neste blog até já se defendeu a censura). Depois da participação na tentativa de queimar Sócrates com a UnI, depois da descarada desculpabilização do comportamento no 25 de Abril das brigadas juvenis do BE, e sintomaticamente depois de o Hugo sair e de Daniel Oliveira elogiar o Peão, a «análise» ao resultado da eleição de ontem nem espanta. Pena ter sido Daniel Melo, que me convidou para aqui escrever (e vejo hoje como as minhas resistências se justificavam), sempre podia ter sido Renato Carmo, tão rápido ele foi a anunciar mais uma derrota de Sócrates através de uma foto de Helena Roseta (tudo sem partidarizar, claro).
A vitória de António Costa, ontem, não foi apenas completa (o PS ganhou em todas as freguesias, o que deve dar algo para pensar quer à oposição quer à AM). Foi também uma derrota completa para todos os outros. Perderam para o único candidato que queria (e tinha legitimidade para tanto) colocar as contas em ordem, tal como o governo tem feito no país. Perderam depois das sucessivas insinuações e boatos torpes à Direita e à Esquerda (neste particular, a questão em torno de Júdice parece grave e foi mal conduzida). Perderam em percentagem de votos mesmo quando mantiveram o mesmo número de vereadores. Sim, o PS, na altura mais complicada da sua governação nacional, foi o único partido a crescer, em percentagem e em vereadores, sozinho, com uma abstenção gigante e uma cisão - a grande democrata Roseta, que depois de fazer campanha contra o partido pelo qual qual quis ser nomeada pelo chefe, já anuncia estar à disposição.
Estão, aliás, todos à disposição. Jerónimo, com a CDU a ser a quinta mais votada, anuncia a grande derrota do PS e a CDU como a terceira força política da capital, mas Ruben lá negociará pontualmente. Tal como Roseta, claro, e os «socialistas de esquerda» do Bloco (mais uma pérola do Chico). A desvergonha que todos exibem nada deve à do vereador Carmona. Mas António Costa tem ideias próprias, uma equipa escolhida por ele (há quanto tempo o PS Lisboa e o seu tenebroso aparelho desapareceram das notícias?) e a experiência necessária para aturar a retórica dos «vencedores» de ontem. Sócrates, por seu turno, nem se deu a trabalho de falar, ficou a assistir…
Eu, que assisti a esta campanha à distância e nada tenho a mudar ao que escrevi no Esplanar há já bastante tempo, já não tenho disposição para aturar esta sistemática, completa, despudorada, irresponsável falta de honestidade intelectual – e moral. Adeus.

Lisboa ficou a ganhar

Olhando a quente para os resultados destas eleições, Lisboa ficou a ganhar (ao contrário do que disse Carmona em tom demagógico). Neste caso, por a esquerda estar melhor representada, é inegável.
Costa subiu a votação de Carrilho, mas não muito, c.3%, obtendo apenas mais um vereador. Para quem foi levado ao colo como edil pré-ungido, dá que pensar, não é? No seu discurso inicial, Costa começou a elencar o que iria fazer. Na tal lista omitiu-se o que causa maior gula a certos interesses: os controversos projectos urbanísticos atrás do biombo... Todavia, a cidade tem agora melhor capacidade de fiscalização, valha-nos isso. Costa deu ainda a entender que iria governar sem coligações pós-eleitorais. É melhor assim. Esperemos só que não se alie a Carmona (ou a Negrão) para fazer passar certas medidas… É que também consegue ter maioria à esquerda, com Roseta, Ruben e/ou Sá Fernandes. A ver vamos.
Para os liberais portugueses que tanto gostam de se mostrar apologistas do checks and balances, não se percebe a sua repulsa face à actuação de Sá Fernandes nestes 2 últimos anos e, prevê-se, de Roseta. É que isso é o coração da democracia no modelo anglo-saxónico. Enfim, idiossincrasias.
Roseta consegue ficar em 4.º lugar (com uns bons 10%) e obter 2 vereadores, logo atrás dos PSD’s, o mendista e o populista, o que é um feito. Fez o melhor discurso de hoje: abertura, responsabilidade e esperança.
Ruben e o PCP seguraram os 2 vereadores, mas descem. Julgo que, em parte, por culpa própria: quem era o 3.º candidato a vereador do PCP, alguém se lembra? Pois é.
O que é extensivo ao Bloco de Esquerda, aqui ainda mais flagrante. É que o BE só tinha um vereador, devia ter apresentado com mais força o 2.º. Fica a perder o BE, a esquerda e Lisboa, pois um 2.º vereador do BE (Pedro Soares, salvo erro) teria todas as condições para diversificar e aprofundar uma intervenção que teve de se ater em demasia, por força das circunstâncias, à questão da fiscalização nestes 2 anos, prejudicando um maior trabalho de contacto junto das comunidades e associações e de divulgação e debate das propostas concretas incluídas no seu extenso e alternativo programa político.
Nos 2 anos que medeiam até às próximas eleições autárquicas, haverá tempo para ponderar consensos programáticos e para trabalhar melhor as eventuais pontes à esquerda. Isto tanto no caso do mandato de Costa decorrer bem, como no caso de haver um balanço insuficiente e, portanto, de se revelar necessário uma coligação (pré ou pós-eleitoral) da restante esquerda.
Resta Marques Mendes, que marcou uns pontos: falou bem, com correcção e acerto, ao convocar um encontro extraordinário para clarificar se o seu partido lhe mantém a confiança política.
Para o fim, o melhor pedaço: vejam o post em baixo…

domingo, 15 de julho de 2007

Obrigado, lisboetas do Alandroal e Cabeceiras de Basto…

Já na recta final dos discursos pós-eleitorais, eis que o nosso PM assoma à varanda do Lux, perdão, do Hotel Altis, para dizer o seguinte:
[resumindo, e no tom m-a-r-t-e-l-a-d-o que pretensamente dá postura estatista] «Esta é uma grande vitória do Partido Socialista» (aludindo a um score de 29,5%, ou seja, o seu ex-braço direito teve apenas mais 3% do que o ostracizado Carrilho), «agradeço ao povo presente de Lisboa o vosso apoio entusiástico», etc. e tal. Péra aí. Parem a projecção. Quem era o vibrante povo lisboeta presente? Bom, meia dúzia de gatos pingados, onde talvez figurasse o porteiro do Largo do Rato… Já expilico melhor.
A seguir vem Costa, no seu segundo discurso da noite:
«Obrigado, lisboetas, pela vossa confiança». Muito poético, lindo de morrer, mas vamos lá verificar: quem eram os 43 figurantes desamparados no alcatrão desolador defronte ao Hotel Altis? Resposta [segundo as tv's]: apoiantes do PS oriundos das metrópoles minhota de Cabeceiras de Basto e alentejana do Alandroal, que vieram de camioneta em romaria até à capital, aproveitando para gozar um tour turístico e um bem fornecido repasto, ora bem!
É caso para dizer: então e a malta cá do burgo, não tem direito a nada? Tá mal!

Poesia por Lisboa

"Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
[...]
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo –,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma”

Excerto de "Lisbon Revisited (1926)", in Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos




(Imagem: Teresa Teixeira)

Outra vez te desejo – Desassossego e sonho e tudo.


Vinhos da margem esquerda


Actualmente proliferam dezenas de vinhos alentejanos produzidos por um sem número de herdades e quintas. Algumas estão na moda e começam a ter alguma visibilidade internacional, o caso mais conhecido é, sem dúvida, a Herdade do Esporão. No sector cooperativo a dinâmica tem sido impressionante destacando-se as de Borba, Reguengos de Monsaraz e Vidigueira. Mas não é sobre nenhum destes vinhos que vou aqui falar. Das oito zonas vitivinícolas do Alentejo existem duas que se localizam na margem esquerda (pois claro!) do Guadiana: Granja/Amareleja e Moura. São terras quentes e duras, marcadas por um relevo irregular que contraria a monotonia da planície da outra margem: a direita. São por isso vinhos fortes (13, 14 graus) e muito encorpados, que cruzam duas castas que aprecio particularmente: trincadeira e periquita. Não é vinho para se beber todos os dias e aconselha-se para acompanhar repastos prolongados, daqueles que perduram pela tarde e acabam ao final do dia envolto, se possível, por umas belas polifonias improvisadas. Gostaria de destacar a Casa Agrícola Santos Jorge que produz o vinho mais corrente Morgado da Canita vendido a um preço em conta (menos de 5 euros) e os mais apurados Santos Jorge Reserva e Colheita Seleccionada (que são um pouco mais caros). Para um dia eleitoral como o de hoje, recomenda-se uma digestão lenta e calma ao sabor destes apurados néctares que devagarinho vão abrindo os aromas únicos provenientes da outra margem (a que fica do lado esquerdo).

sábado, 14 de julho de 2007

São modas

Cartoon de GoRRo (c) 2007

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Ó ti Aurora, feche o portão que vêm aí os jacobinos, credo!

Pois é, o inefável VPV despertou hoje com um pico máximo de lucidez. E saca de mandar chumbada na libertinagem que grassa por aí, aos molhos. Então não é que há 12 candidatos a concorrer às eleições? E não é que eles têm ideias, ainda por cima ao quilo, "sobre tudo e sobre nada"?
Parece impossível. Isto só serve para deixar o "cidadão comum" ainda mais "desinteressado", "confuso", "inseguro" e "mal informado", ah pois é. Com grãos de areia, bejecas e tremoços à mistura a complicar? Desgraça das desgraças, "o «critério editorial» devia servir para evitar estas coisas".
Ai, que este país está perdido! Estava o VPV, enternecidamente, algures no século XIX e, zás, acabam com o doce rotativismo?!
Não pode ser! A culpa é desses doidivanas da comunicação social, tv, rádio e imprensa, por esta ordem. Quem lhes mandou dar cobertura aos jacobinos? Eu bem os avisei para não darem mais licenças, já cá nos bastavam os velhinhos Diário de Notícias e O Século, para quê complicar a vida, hum?
Eis a pêrola final: "Este extraordinário episódio de Lisboa enfraqueceu e desagregou os dois grandes partidos do regime. Falta saber se é um acidente ou uma tendência".
É caso para perguntar, com o coração nas mãos: e não se pode bombardear também Lisboa, para erradicar de vez estes jacobinos duma figa?

Peão levado de Arrasto!

Chega ao fim a semana, e foi aquela em que este vosso Peão foi o blogue da semana na escolha do Arrastão. Vindo do Daniel Oliveira, uma referência na blogosfera (um dos fundadores do primeiro verdadeiro blogue verdadeiramente interessante na blogosfera tuga, claro que estou a falar do Barnabé), é sempre agradável este tipo de reconhecimento. Ainda para mais depois de ter considerado o Peão uma das sete maravilhas da blogosfera (o que me parece no mínimo duvidoso, mas quem sou eu para contestar?). O Daniel Oliveira trouxe assim muitos leitores ao Peão nestas duas últimas semanas, esperemos que os leitores tenham gostado, e que voltem. Ao Daniel Oliveira fica um agradecimento: gratos pela preferência. Daniel, onde quer que estejas, se me estiveres a ler fica sabendo que és um gajo porreiro!

A vez dos lisboetas: balanço da campanha

É a hora dos balanços. Aqui fica um exame possível, a partir das leituras feitas, incluso os programas (estes um pouco na diagonal: imaginem que há programas com mais de 150 páginas!).
A má situação financeira foi admitida por todos.
Costa acenou-a amiúde como a única prioridade, quiçá para justificar a chantagem da maioria absoluta. Uma prioridade que, assim, justificaria o olvido de graves problemas como os da deterioração do parque escolar e da inacessibilidade do Arquivo Histórico Municipal, mas que, paradoxalmente, viabilizaria novas ofensivas urbanísticas, como a da frente ribeirinha de St.ª Apolónia a Pedrouços. As confusões com o arq. Manuel Salgado e a provável vereadora dos Transportes e Mobilidade fazem temer a continuação da lógica da construção e da especulação imobiliárias. Nem o Pq. Mayer se salva: onde devia ficar só o cinema Capitólio e uma ligação ao Jardim Botânico, agora tb. haverá mais edificação, contrariando o preconizado (e bem) por Carrilho. Nem a proposta dum parque verde na Portela convenceu: ninguém acredita que Costa esteja à frente da CML quando houver essa possibilidade, se houver. Não esquecer que há um diferendo entre Governo e CML quanto a quem é o detentor desse terreno, que não foi resolvido quando Costa era ministro. A propósito: todos os restantes candidatos fizeram demagogia sobre o aeroporto, excepto Quartim Graça (MPT), que pôs em 1.º lugar a qualidade de vida dos munícipes.
Negrão, embora denunciando o corte de 5% feito por Costa-ministro nas transferências para a CML, aposta tudo num cavalo controverso: o da empresarialização da governação. Tudo se resume a uma boa gestão. Sabemos onde já conduziu esse caminho, à duplicação de estruturas e ao descontrolo com a multiplicação das empresas públicas. A nota positiva é a postura contra a existência dum Porto de Lisboa atentatório dos interesses da cidade. Em contrapartida, uma “via de ciclo-turismo da Expo até Algés” parece tão truque de magia como o parque verde de Costa na Portela. Fala na “renovação do parque escolar” muito laconicamente, deixando tudo para outra mirífica parceria público-privado.
Carmona, por sua vez, insiste em esburacar Lisboa até à exaustão, agora com o túnel das Colinas (uma obra baratucha: de Alcântara a Oriente) e outros desmandos similares. É mais do mesmo.
Outros candidatos, porém, preferem pensar nos problemas dos bairros já existentes, casos de Roseta, Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e Quartin Graça.
Julgo que é aí que está o problema: não podemos continuar a sacrificar a qualidade de vida dos munícipes em prol duma concepção predadora das cidades, só a pensar na maximização do lucro com a construção, a densificação urbanísticas e o reforço de redes viárias favorecedoras do transporte particular e do êxodo populacional. Nesse sentido, recomendo o texto de Rui Tavares no Público de 3.ª feira. Não repitamos os erros das megapolis, busquemos antes ser uma capital cosmopolita de média dimensão.
Roseta tem trunfos fortes: a reabilitação do edificado (incluindo uma “via verde” para os proprietários aderentes) e a qualidade urbanística como novo paradigma; a “tarifa familiar” nos transportes; uma inovadora “rede de ruas amigas do peão”; a eficiência da aplicação do IMI; o apoio à salvaguarda de certos edifícios a que atribui valor patrimonial, como o ex-cinema Paris (Cp. Ourique) e a Qt.ª de N.ª Sr.ª da Paz (Lumiar). Em contrapartida, Roseta insistiu em aparentar equidistância com os restantes candidatos, caindo no risco de despolitizar o seu próprio programa político. Também na questão do direito ao sossego foi contraditória: apela à aplicação a sério da Lei da Ruído, mas depois é a favor da permanência do aeroporto da Portela.
Sá Fernandes tb. tem propostas valiosas: aposta nos transportes públicos, optando pela rede menos custosa, a dos eléctricos rápidos, em detrimento do metro, bem mais dispendiosa; reabilitação, mais casas para arrendar em Lisboa e maior taxação dos edifícios devolutos; reforma das empresas municipais; plano verde (com o arq. Ribeiro Telles); e o reforço da política social, nomeadamente no auxílio aos mais velhos (no que foi secundado por Telmo Correia, que propõe um passe da 3.ª idade). Se não fossem as suas acções judiciais seria menor a segurança rodoviária no túnel do Marquês e as negociatas com trocas de terrenos e especulações imobiliárias continuariam ainda mais impunes. Deu 2 tiros no pé ao dizer que ninguém quer ir viver para bairros como S. Domingos de Benfica e Cp. Ourique, dando-os como exemplos de desmazelo urbanístico. Tomara a muitos poderem viver em Cp. de Ourique. Ou mesmo em certos sítios de S. Domingos…
Ruben de Carvalho parece estar mais preocupado com os funcionários municipais, que julga terem sido desconsiderados e nos quais diz estarem as energias que poderão reanimar a cidade. Tal como Sá Fernandes, advoga a melhoria dos transportes públicos (defendendo mais mini-bus e a reordenação de percursos), defende a extinção de empresas municipais e a reforma da EPUL. Propõe combustíveis ecológicos na frota municipal e alertou contra o perigo de privatização de certas piscinas municipais (Olivais, Roma, Cp. Grande).
Pedro Quartin Graça tb. tem um programa interessante, embora muito lacónico. Portagens, deslocação do aeroporto, hortas sociais, plano verde e turismo cultural são as apostas. Não se percebe como uma candidatura destas não aproveitou para se coligar com uma força de esquerda.
Sobre a questão da valorização patrimonial e sócio-cultural de várias zonas da cidade, também o Fórum Cidadania Lisboa avançou com 16 propostas concretas. Só tenho um reparo a fazer: discordo de se nomear determinada associação para ocupar certo edifício entretanto recuperado pela CML (casos do ex-cinema Paris e da Casa Almeida Garrett). Julgo que, a ser entregue a uma associação voluntária (ou várias), deveria ser por concurso público transparente, para dar igualdade de oportunidades a todos e, assim, possibilitar mais participação e melhores soluções. Embora não estando ligado a nenhuma candidatura, estas propostas são válidas e deveriam ser estudadas pelos políticos, tal como outras entretanto lançadas na imprensa e na blogosfera (para as quais tb. contribuímos: vd. etiqueta Propostas por Lisboa).
Nb: na imagem, a proclamação da República nos paços do concelho lisboeta (foto de Joshua Beloniel, AFML).

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Gajo que é gajo é Garganeiro

Diz a Laura Abreu Cravo indignada que "Quando uma miúda quer “provocar os rapazes” não cita os clássicos russos, não se dá ao trabalho de construir aforismos e não perde horas em exercícios metafóricos. Limita-se a pôr o melhor decote que encontrar no roupeiro lá de casa e um par de sapatos muito altos.", a indignação leva-nos a pensar que preferia que fosse ao contrário. Fernada Câncio - que até gosta de ler Laura Abreu Cravo - chama-lhe negacionista, o que nos leva a pensar que acha muito bem que o decote prevaleça sobre os clássicos russos.
Meninas, permitem que me intrometa? Eu parece-me que vocês não percebem muito de gajos. Ora acontece que, mais por força das circunstâncias (que é o eufemismo para dizer que tenho um cromossoma Y em cada uma das minhas célulazinhas) do que por escolha, percebo alguma coisa de gajos. Posso garantir-vos o seguinte: Gajo que é gajo é garganeiro, é lambão, quer tudo e mais umas botas. Porquê ter que optar entre o sexy e o intelecto? Quem disse que as duas são mutuamente exclusivas? Há lá coisa que dê mais tesão a um gajo do que uma gaija sendo podre de boa que cita clássicos russos (e gregos)? Uma gaija que usa metáforas e aforismos (e hipérboles, e parábolas) com um decote até ao umbigo? Porquê algodão quando se pode ter algodão e seda?
P.S. - Já os sapatos muito altos não sei...

Novas aventuras de Zé Socas: Vitorinox, o bombeiro de serviço

Cartoon de GoRRo (c) 2007

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Le Cool Lisboa é boa onda

Ainda na maré de Lisboa, aqui vai a referência a uma charmosa agenda cultural, a Le Cool Lisboa, disponível na Internet, e gentilmente fornecida por e-mail para quem assim o desejar.
Tem periodicidade semanal (a última acabou de me chegar agora), é muito diversificada, e tem hiperligações para a maioria dos eventos que noticia.
Faça um desejo e deixe-se ir na brisa suave da madrugada...

E a Memória da Cidade?

A UNESCO criou, em 1992, um programa chamado Memória do Mundo que tem como objectivos a preservação, o acesso e a divulgação global de documentos de arquivo e colecções bibliográficas com valor para a história da humanidade. A herança documental reflecte a diversidade de línguas, povos e culturas que existem no mundo, mas essa memória é frágil e perecível. Com o programa Memória do Mundo, a UNESCO procura salvaguardar o património documental de situações de catástrofe, guerra e incúria, bem como lutar contra a amnésia colectiva.
Portugal dispõe de três inscrições no Registo da Memória do Mundo: desde 2005, a Carta de Pêro Vaz de Caminha; e desde o final do mês passado, o Corpo Cronológico (colecção de manuscritos de natureza muito diversa, que abarcam o período que vai do século XII ao século XVII, destaca-se pela riqueza das suas fontes para o conhecimento da História da Europa, da África, da Ásia e da América do Sul, nomeadamente, do Brasil) e o Tratado de Tordesilhas. O património arquivístico português registado como Memória do Mundo faz parte do acervo da Torre do Tombo, o nosso Arquivo Nacional.
Para quando o programa municipal Memória da Cidade de Lisboa?
Imagem: Folha do livro, Primeiro Foral dado a esta Cidade, existente no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa (fot. Armando Serôdio, 1960, AFML).

Crónicas do Brito Aranha, um lisboeta à antiga

Apareceu, fulgurante, em 2005. Desapareceu fulminante, que nem um cometa. Reapareceu entretanto, sorrateiramente, sem dizer nada a ninguém...
É isso mesmo, falo-vos do impagável Brito Aranha e das sua crónicas infalíveis.
Com a sua erudição e eloquência de muita experiência e cogitação, Brito Aranha é único e imbatível!
O último lote contempla os seguintes temas: túnel do Marquês, regionalização e nuclear. Nada mais actual, se nos lembrarmos as crónicas veranis de Helena Matos.
Tudo num vlog próprio, o Crónicas do Brito Aranha, com óptima captação de som. Ora vão lá ver.

Parabéns à Alice @Memorex!

A blogosfera tem destas coisas. Escrevi uma vez um post sobre implantes cocleares, porque acompanhei de perto alguém que fez um implante (o implante coclear é uma tecnologia que hoje permite a muitos surdos deixarem de o ser, com uma eficácia bastante apreciável). E vai dai alguém assinando como @Memorex deixa lá um comentário: "Interessante de facto, estou a ponderar na operação do Implante Coclear... mas as incertezas turbulentas molestam a minha paz de espirito!". Entrámos em contacto, e a (Alice) @Memorex, que não ouve desde muito pequena, quis saber mais da experiência de quem passou pelo processo. A Alice @Memorex também é bloguer, e tem um lindíssimo blogue sobre o silêncio, como vê o mundo quem vive no silêncio (forçado). Entretanto dissiparam-se as dúvidas e a Alice decidiu-se a optar pelo Implante Coclear. Eu - espero não ser só eu -, que tenho uma admiração ilimitada por quem tendo verdadeiras dificuldades se desenrasca melhor que bem no nosso mundo (nosso, daqueles para quem a vida é fácil), fico contente por a Alice ter esta oportunidade de voltar a ouvir. A Alice está prestes a acabar a licenciatura, o que, como devem imaginar, para alguém que não ouviu nada nos últimos vinte anos não é propriamente fácil. A Alice tem também outro blogue para escrever sobre o implante coclear, e para divulgar "a causa", porque quer que outros surdos tenham a mesma oportunidade. A propósito, a operação foi um sucesso. Agora vai começar um longo (ou talvez nem tanto) processo de adaptação e aprendizagem, com muitas afinações, mas em que cada passo é uma melhoria. Alice, "Now this is not the end. It is not even the beginning of the end. But it is, perhaps, the end of the beginning." (Churchill)
Parabéns Alice (@Memorex)!

P.S.- Ainda para mais os implantados tem uma vantagem que invejo muito, é que se não lhes apetecer ouvir qualquer coisa podem sempre desligar o aparelho. Têm a escolha :-).

Nota: A ilustração é da autoria da própria @Memorex, roubada no "A Inspiração do Silêncio"

terça-feira, 10 de julho de 2007

A vez de Lisboa

A campanha eleitoral está de regresso às ruas de Lisboa e aos media do país. Aproveitando a boleia, deixo-vos aqui novas notas, agora num registo sério.
É que vale a pena continuar a reflectir sobre estas eleições. Desde logo, para elogiar a campanha: talvez nunca tenha havido tantas propostas e candidatos de qualidade. Só é pena terem tido pouco tempo. Mas terão 2 anos pela frente para se aperfeiçoarem umas, testarem outras, para se tentarem consensos e convergências possíveis. Lisboa e os seus habitantes merecem.
Também aqui temos vindo a avançar ideias e propostas há vários meses a esta parte. Destaco 6 ideias, pela sua importância e por recear poderem vir a cair no saco injusto dos assuntos «não prioritários».
Em 1.º lugar, a salvaguarda física dos infantários e escolas, tanto públicas como particulares: deve ser criado um programa especial único, concertado com o governo, para este tipo de equipamentos colectivos, pois o RECRIA manifestamente não serve.
Em 2.º lugar, tornar novamente acessível o Arquivo Histórico municipal, fechado há 4 anos. É uma prioridade absoluta na área cultural. Para isso, e enquanto se espera pela construção do edifício do futuro Arquivo e Biblioteca Central no Vale de St.º António (se for adiante esta opção), devia-se proceder à adaptação dum dos muitos edifícios da CML para Arquivo provisório. Apesar da relevância do tema e da existência de soluções, é com surpresa que se constata a sua ausência nos programas dos candidatos. A insistência certamente dará frutos.
Em 3.º lugar, é necessário actualizar o Museu da Cidade, cuja exposição permanente fica-se por 1910.
Em 4.º lugar, urge salvaguardar certos edifícios municipais para equipamentos públicos que possam funcionar como pólos dinamizadores a nível comunitário (por ex., o Museu da Criança e do Brinquedo na Qt.ª de N.ª Sr.ª da Paz). Também a Alta do Lumiar carece de equipamentos colectivos.
Em 5.º lugar, estabelecer modelos transparentes de contratualização com as associações sócio-culturais da cidade, com vista a desenvolverem actividades úteis à comunidade.
Em 6.º lugar, e enquanto não houver bibliotecas públicas em todos os bairros, devia-se reforçar as bibliotecas itinerantes, pois actualmente só existem 2 carrinhas.
Nunca será demais apostar nestas áreas.
Num próximo post, falarei das propostas dos candidatos.
Nb: foto do Palácio da Quinta de N.ª Sr.ª da Paz, pelo fotógrafo Arnaldo Madureira, 1961 (AFML).

O prodígio da Ponte da Lezíria, segundo o nosso PM

Cartoon de GoRRo (c) 2007

Um contrato para a segurança

Este debate com o Hugo sobre a flexi-segurança demonstrou em certo sentido que existem dois tempos distintos para a aplicação de cada uma das partes que compõem esta nova palavra. No que concerne à segurança o tempo é longo. Por exemplo, podemos enumerar uma série de medidas avulso: uma rede de pré-escolar generalizada com horários compatíveis com a vida moderna, a reforma para a democratização no acesso à justiça, o aumento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, a existência de um plano de actividades extracurriculares de qualidade que ocupe os alunos do básico e secundário até às 18 ou 19 horas, uma rede pública de lares e de centros-dia que se coadune com as necessidades actuais.
Estas e outras medidas estão ainda a anos-luz da realidade vivida neste presente concreto. Contudo, quando se aborda a questão da desregulamentação da contratação laboral e da flexibilização do despedimento esse futuro já nos parece mais imediato. É-nos apresentado como algo eminentemente presente. Mais, dizem-nos que dessa desregulação depende o incremento das políticas de segurança. Ou seja, para aumentar a protecção social é necessário elevar o nível da produtividade e tal só se consegue por intermédio da flexibilização do mercado de trabalho. Uma flexi-segurança a dois tempos: será essa a especificidade portuguesa? Para as populações nórdicas a segurança não era uma promessa a longo prazo mas uma concretização no imediato.
Não tenho uma visão conservadora de que tudo deve ficar na mesma. Acho que a mobilidade profissional e até residencial não é um mal em si. Pelo contrário, entendo que a cristalização nos mesmos lugares (físicos e sociais) não propicia a inovação.
Portugal precisa, por isso, de um contrato social, na sua clássica acepção. Não se trata de um mero contrato assinado no parlamento ou nos corredores da concertação. Precisa de um contrato público e participado. Que defina objectivos e metas a atingir tanto pelo Estado, como pelas empresas e cidadãos. Um contrato que não pereça ao fim da legislatura e que seja monitorizado por uma entidade independente dos governos (com condições financeiras para o fazer). Não vejo outra forma de sedimentar a confiança.

SLB, versão SÁDica


Cartoon de GoRRo (c) 2007

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Só, só, só mais um:

Garcia Pereira tem modelo PCTP-MRPP para resolver o excesso de funcionários na CML: uma cara, um candidato, sempre o mesmo funcionário, ele-próprio, o mono-volume!!!

Gira o disco e toca o mesmo...

Resumindo: dar a responsabilidade da recolha de lixo ao dr. Telmo Correia e amigos.

Manel & Karmona:

(juntos, com camisa azul e gravata encarnada):
bora lá criar os forcados vereadores de Lisboa! Olé!

Sá Fernandes arremata:

Acabar com a Bragaparques e a EMEL, abrir a Zéparques e a ZÉMEL.
Mudar o túnel do Marquês, fica Túnel do Zé.

Manel Monteiro adverte:

A importância dos táxis como transporte integrado.
Mais táxis, já, devemos saber integrar os táxis no transporte urbano da cidade.

Pedro Quartin mostra 3 gráficos fantásticos:

Por muito espantoso que isto seja...
Há capacidade de janelas na Portela! O éroporto de Lisboa nã está esgutado.
Zona ribeirinha: não à volumetria, somos defensores do grande estuário do Tejo, sobretudo da pesca. E do lavapés. Ah, e sempre contra o éroporto à beira-rio!

Garcia Pereira comicia:

Os barcos deviam aportar onde há bons ventos. O Ponta Delgada está atolado no Poço do Bispo, como o Tolan.
O caixote do lixo está no Cais do Sodré há anos.
(Apagaram-nos os murais indecentemente!)
Estão a mandar-nos os morais abaixo, assim não dá!!
É preciso dizer, com toda a clareza, k'hoje fica mais barato a um empresário trazer as mercadorias por Vigo do que por Lisboa.
Deixe-me só mais um ponto. Exprimir sobre o éroporto. Um grande éroporto internacional, dá-me licença, na margem sul, concerteza.

Karmona Rodrigues disserta:

Nós, neste mandato, fizemos acordos com entidades em que durante a semana há 5 mil lugares livres no Sporting, SLB e Gare Oriente; o passe, há mais de um ano que espera pela decisão do governo; passa por esperar pelo passe.
Há umas atitudes que não podem continuar a existir.

Ruben de Carvalho obsta o seguinte:

O relacionamento é muito importante!

Fernando Negrão anota no relatório e contas:

Isto tem que ter consequências.
Acabe-se com o IPPAR, e o Porto de Lisboa assente-se à mesa.
Corredores shopping, do Amoreiras ao Porto de Alcântara, já!

António Costa aconselha:

O Porto de Lisboa deve fazer o que sabe fazer, que é ser o melhor ibérico.
Tem que se saber utilizar bem os passageiros dos cruzeiros.
Os contentores é um elemento importante...
«A carga posta,
Adeus ó contentores,
que me vou,
p'ra outro mundo.»

Manel Monteiro dixit:

Deixem-me dizer mal do vereador Paulo Portas!

Helena Roseta admoesta:

Melhorar profundamente as coisas: as escadas rolantes tá bem, agora o elevador... [discurso interrompido pela jornalista pivot para dar a palavra a um despique sobre panificadores do CDS/PP]

Manel Monteiro apregoa:

A Panificadora do Chiado está há imensos anos à espera de fermento para recuperação.

Sá Fernandes faz falta...

... como um raminho de salsa [remoque ao seu fatinho pimpão].

Gonçalo da Câmara Pereira comenta:

Lisboa é linda, é melhor ficar tudo como está!
Tem-se qui devolveri o Tejo.

Comentários de campanha (a propósito do debate conjunto na RTP1):

Um quartilho de graça!

O cosmopolitismo começa no estômago (em jeito de adenda)

Em jeito de adenda ao meu post anterior:
O que dizer de uma Tapenada de Anchovas (receita vagamente italiana) comprada no mercado de domingo (na banca do vendedor aparentemente magrebino) à qual se junta um pouco de piment das Antilhas e se barra numa faita de Pão Saloio?

Adenda à adenda:
E o que dizer daquela Crèperie da rue Mouffetard que de bretã tem muito pouco? O patrão é sul-americano, os empregados falam todos espanhol excepto uma senegalesa. Os recheios dos crepes variam entre a Ratatouille (que sendo francesa é mediterrânica), o Salmão fumado do Mar do Norte, e o Chilecito (que do pouco que sei parece ser um guisado da Argentina). Para que o desrespeito pela tradição bretã não seja total, pode sempre beber-se uma cidra.

Flexi-exploração

A propósito das polémicas em torno da flexi-segurança, é fundamental recuperarmos um outro conceito na qual se baseia uma determinada perspectiva sobre a constituição das desigualdades sociais no sistema capitalista, refiro-me ao conceito de exploração. Já uma vez discutimos aqui no Peão a pertinência em utilizá-lo para a análise da sociedade contemporânea. Contudo, parece-me que em todo este debate sobre a necessidade de flexibilizar o emprego com mais protecção social, faz todo o sentido questionar se estas medidas não contribuirão para um acréscimo de exploração.
Em termos muito gerais o objectivo da flexi-segurança é, por uma lado, tornar a contratação laboral menos regulamentada e, por outro, aligeirar a possibilidade de poder despedir mais facilmente, ao mesmo tempo que se investe na generalização e facilitação do acesso aos diversos sistemas de protecção social. Contudo, no que concerne à aplicação dos princípios à sociedade portuguesa, o ênfase é posto sobretudo na primeira parte deste neologismo, a flexibilidade, e não tanto na segunda, a segurança.
É certo que o mercado de trabalho em Portugal é muito rígido, e que isso provoca entraves à mobilidade profissional e à renovação dos quadros das empresas. É certo que alguma precarização profissional nas gerações mais jovens deriva, em parte, dessa inflexibilidade do mercado de trabalho. No entanto, também é certo que em Portugal os vários sistemas de protecção social não só deixam muito a desejar como estão a regredir em termos da universalização dos direitos. A ‘taxação’ dos serviços, o encerramento de escolas, das urgências nos centros de saúde e das maternidades. A inexistência de uma rede de pré-escolar digna desse nome. O mau funcionamento dos transportes públicos e das respectivas ligações entre as várias redes, o tempo que se leva entre trabalho e casa. O péssimo funcionamento do sistema de justiça e o nível de desconfiança que este fomenta, etc. Todos estes exemplos e muitos outros levam a que legitimamente o cidadão desconfie da flexi-segurança.
Portugal é dos países mais desiguais da Europa. Devido a este facto, o acesso aos melhores serviços (incluindo os públicos) é muito diferenciador. Esta situação é potencialmente conflitual na medida em que os interesses que dela decorrem não resultam simplesmente daquilo que «os indivíduos têm, mas, também, daquilo que os indivíduos fazem com o que têm». Neste sentido, o conceito de exploração permite evidenciar «que os exploradores não somente têm interesse em limitar as oportunidades de vida dos explorados, mas que deles dependem para a realização dos seus próprios interesses. Esta dependência dos exploradores em relação aos explorados confere a estes últimos uma capacidade inerente de resistir» (Queiroz, 2005: p.41*). Ou seja, ao se tentar aplicar a tal flexibilidade com maior segurança num país fortemente desigual onde os indivíduos das classes menos privilegiadas se sentem discriminados e desconfiam de quase tudo o que deriva dos sistemas públicos, correr-se-á um forte risco de criar um ambiente propício para o incremento das relações de exploração.
Não ponho de lado a importância da flexi-segurança, mas a estratégia política deveria primeiro aprofundar os mecanismos de segurança e garantir que os cidadãos confiem no Estado. Aos dinamarqueses foi-lhes primeiro garantida essa confiança!

*Maria Cidália Queiroz (2005), Classes, Identidades e Transformações Sociais, Porto, Campo das Letras.