quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Como o povo amava os seus reis....

...amava-os tanto que até fizeram uma revolta republicana, há precisamente 117 anos. Assaltaram o antigo edifício da Câmara Municipal do Porto ao som da Portuguesa, subiram à sua varanda e saudaram a população que entretanto aí se tinha juntado. De seguida, foram suavemente reprimidos: alguém lhes terá feito saber, de forma civilizada como é apanágio das monarquias liberais (tradução: com canhoada, prisões e fecho de centros republicanos), que nestas reinava a ordem perfeita, com breves acidentes de percurso devidos à insanidade de uns quantos lunáticos, mas sempre no bom caminho - raramente duvidando e nunca se enganando.
Como esta intentona não saiu vitoriosa, os malandros voltaram a reincidir, em 1908 e em 1910. Tiveram o desplante de se insurgir, entre outras coisas, contra um decreto do ditador João Franco (colocado no poder pelo mimoso D. Carlos I) que lhe conferia poderes de excepção, permitindo-lhe perseguir, prender e deportar (sem processo judicial) qualquer pessoa suspeita de republicanismo activo ou de mera insubmissão ao regime e ao governo. E não é que, da última vez, conseguiram vencer, co'a breca? Pior, desfizeram-se dos monarcas, que tanto carinho e rebuçados dispensavam ao povoléu, parece impossível. Pobres e mal agradecidos, é o que é.
Mais informações sobre este dia venturoso nos blogues Largo da Memória e Ponte Europa, e no site República e Laicidade.
Na imagem, reprodução de gravura da revista Ilustração (retirada do blogue Ante & Post).
PS: afinal, parece que já não há fanfarra do Exército nas novas festas monárquicas (vd. aqui). Salvem-se as peles e as lantejoulas, ao menos isso...
PS-II: o PR, esse não muda de rumo e foi inaugurar uma estátua do D. Carlos I-homem-dos-oceanos/da-pintura/benfeitor-incompreendido, lá para os lados da linha, com as tias e tios da marina. Aproveitem o Aníbal, enfiem-lhe um escafandro e enviem-no para o alto mar, que ele tem sempre o rumo certo.

Depois da esquerda caviar, a direita cassoulet

Decididamente os humoristas franceses estão a apanhar a onda do romance de Sarkozy com Carla Bruni (sim, afinal serviu para alguma coisa, para fazer humor). Desta vez é a muito politicamente incorrecta Anne Roumanoff (mais um nome tipicamente francês), no limite do mau gosto...



Eu sei, eu sei, é em francês, e tem imensas referências à actualidade francesa. Deixo aqui uns destaques (tradução minha, peço desculpa pelo incómodo).

"Miterrand teve não sei quantas amantes e não se sabia de nada, com Sarkozy seguimos tudo dia-a-dia (...) Miterrand tinha o culto do segredo, Sarkozy não tem o segredo do CUlto"
"Para adormecer à noite, ele [Sarkozy] contar o ex's dela [Bruni]"
"Imaginem que Hillary Clinton é eleita presidente, Sarkozy vai visitá-la, e durante as reuniões fantoche os respectivos esposos fazem companhia um ao outro... Conhecendo o temperamento de Bill e Carla... é capaz de criar tensões nas relações franco-americanas"
"Mitterand era fascinado pela história de França, pela Literatura. Chirac era enamorado da Ásia, das artes primeiras. Pois Sarkozy gosta é dos Rolex e da EuroDisney. Temos o presidente que merecemos."
"Enfim, para resumir, antigamente tinhamos a esquerda caviar, agora temos a direita cassoulet: uma pequena salsicha com montes de folha à volta"

Pequenos seres, grandes verdades II

Pourquoi ce sont toujours les grands qui ont raison?...ça me donne mal à la tête.

Não é só Carnaval. É arte acima de tudo.


O Carnaval brasileiro tem sua origem no Entrudo português, onde, entre os s
éculos 15 e 16, as pessoas encontraram uma maneira muito estranha de se divertirem. Depois de se empanturrarem de comida e bebida, jogavam umas nas outras água, ovos e farinha. Os mais agressivos e de mentes diabólicas, no entanto, iam mais além: injetavam no interior de laranjas e limões substâncias mau-cheirosas e as utilizavam como verdadeiro arsenal de “guerracontra os mais incautos. E foi exatamente este Entrudo, com influência das festas carnavalescas da Itália e França, que desembarcou em Terras Brasilis quase dois séculos depois.

No final do século 19 e início do 20, começam aparecer no Brasil os primeiros blocos carnavalescos [1], cordões [2] e os corsos. Este último se tornou mais popular em 1907 e foi o que deu origem aos carros alegóricos dos desfiles de Carnaval. Ao contrário dos componentes dos blocos e cordões, os participantes dos corsos eram da elite econômica carioca que desfilavam em seus automóveis jogando confetes, serpentinas e esguichadas de lança-perfume (proibido na década de 1960 por ser considerado entorpecente) nos pobres mortais, que tinham como única diversão o direito de serem meros espectadores das excentricidades burguesas da época. Foi justamente deste contraste que nasce a primeira Escola de Samba [3], criada pelo sambista carioca Ismael Silva (1905 - 1978), em 1928 – a Deixa Falar, que anos mais tarde leva o nome de Estácio de Sá. A partir dai, o Carnaval de rua brasileiro começa a ter um novo formato. Surgem novas escolas no Rio de Janeiro e em São Paulo. E é este o tema de meu post. O desfile das Escolas de Samba, não como um evento festivo, mas, acima de tudo, como manifestação artística, criada a partir da cultura popular.

Ao contrário do mau gosto e aquela coisa caótica que é o Carnaval brasileiro, o desfile das Escolas de Samba é o resultado final da eficiência, da organização e da disciplina. É, sobretudo, a maravilhosa fusão de diferentes linguagens artísticas, o que lheum conceito estético bem peculiar. O desfile das Escolas de Samba se apóia no enredo e seus temas são dramatizados pelos integrantes das alas através da música (samba-enredo), dança (sambistas e passistas [4]), fantasia e carros alegóricos. Bateria, samba-enredo e harmonia são quesitos essencialmente musicais. Alegoria, fantasia e adereço pertencem à estética visual. Em outras palavras, a amálgama de todos estes elementos artísticos dão forma a um imenso teatro-visual surrealista a céu aberto. Por ser mais perceptível, o componente visual ganhou muita força no decorrer dos anos, dando à figura do carnavalesco [5] papel de relevante importância na hierarquia da escola.

Na realidade, o desfile das Escolas de Samba é uma expressão plástica tanto para quem assiste como para quem dele participa. É um turbilhão de símbolos, formas, cores e sons, que deixa fluir harmoniosamente em nosso intelecto e retinas o imaginário e o real, onde os sambistas tornam-se verdadeiras esculturas-vivas, que bailam ao ritmo da sedução e do encanto, dando aos seus corpos um intenso movimento de elegância, provocação e rara beleza. Em suma, a matéria-prima desta arte não é a tela e as tintas do pintor, nem o barro e o metal do escultor ou a palavra do poeta. A sua matéria-prima é essencialmente o ser humano. O ser humano metamórfico e efêmero que viverá em pleno êxtase por apenas 80 minutos. Depois disso, ele se desfaz.

Para entender o que é avaliado num desfile

Bateria - A bateria sustenta com sua marcação a cadência indispensável ao desenvolvimento do samba, do canto e da evolução. Cada bateria possui identidade própria e liberdade quanto ao ritmo e a distribuição dos instrumentos. Veja aqui os principais instrumentos de uma bateria, que poderá ter até 400 ritmistas. Aqui vai um vídeo.

Harmonia Harmonia em desfile de Escola de Samba é o entrosamento entre o ritmo (bateria), a melodia (canto) e a dança.

Samba-enredo - É a ilustração poético-melódica do enredo. Sua letra se refere ao enredo apresentado pela escola. Deve, portanto, haver compatibilidade entre o tema e a letra do samba. O samba-enredo possui estilo característico e versejar próprio e não deverá ser julgado como composição erudita, mas como expressão de linguagem popular. Ouça aqui um áudio.

Evolução - Aqui reside o ponto alto do conjunto e seus movimentos de dança. Devem ser observados em sua avaliação o vigor, a empolgação, a vibração, a agilidade, a precisão, a espontaneidade, a elegância e a criatividade dos sambistas das alas, que em movimentos progressivos e contínuos, produzirão a beleza do conjunto do desfile, garantindo sua unidade.

Mestre-sala e porta-bandeiraO mestre-sala e porta-bandeira têm a honra de conduzir a bandeira, o símbolo maior da agremiação. A função do mestre-sala é cortejar a porta-bandeira durante toda a apresentação, através de gestos e posturas elegantes que demonstrem a reverência a sua dama, respeitando e protegendo o pavilhão. O casal apresenta uma dança com passos e características básicas próprias, que vem sendo enriquecida em seus maneios e mesuras, através do tema.

Enredo - Enredo é o tema central de um desfile. Pode-se compará-lo a um roteiro de cinema ou teatro. A Escola de Samba desenvolve e transmite o seu enredo através de seus elementos dramáticos, musicais e visuais. A criatividade é um fator de fundamental importância neste quesito. E o tema pode ser o mais variado possível: histórico, folclórico, político, abstrato e tudo mais que a nossa imaginação permitir.

Fantasia - As fantasias devem retratar a época se o enredo girar em torno de acontecimentos históricos, ou os elementos tradicionais, regionais e etc... de acordo com o tema. O critério mais importante a ser observado neste quesito é o perfeito entrosamento ao tema e ao enredo propostos, não importando o material a ser usado e sim a criatividade, a originalidade, a graça e o belo.

Alegorias e adereços As alegorias são elementos cenográficos sobre rodas (os carros alegóricos) e os adereços são objetos carregados pelos sambistas. São recursos que devem contribuir para um melhor esclarecimento e leitura do tema, assim como as fantasias, com as quais devem estar integradas.

Comissão de frente A comissão de frente é um dos elementos tradicionais das escolas. Ela saúda os assistentes em nome da diretoria, dos componentes e pede passagem para a agremiação.

* Na média, uma Escola de Samba desfila com quatro mil componentes, dividida em 28 alas e seis carros alegóricos.
..................

[1] Grupo de foliões que durante o Carnaval dançam e cantam nas ruas ao som de bateria.
[2] Grupo de carnavalescos que saem juntos e muitas vezes com a mesma indumentária ou fantasia.
[3] Foi baseado na estrutura da Escola Normal Estácio de Sá (bairro do Rio de Janeiro) que um grupo de malandros cariocas criou o nome Escola de Samba. O compositor Ismael Silva, primeiro a usar o termo, dizia que esta é a verdadeira origem e que a expressão foi adotada por causa dos professores da escola. “Se havia uma escola com professores e normalistas, por que não poderia haver também outra de samba, com seus mestres de samba e alunos?”
[4] Pessoa que dança o samba com muita, técnica, agilidade e graça, destacando-se do conjunto dos sambistas das Escolas de Samba.
[5]
Geralmente um profissional de artes plásticas ou cenografia responsável pela concepção e desenvolvimento do enredo a ser apresentado, assim como a concepção, desenvolvimento e construção das alegorias e fantasias relacionadas ao enredo proposto.

Nb: Bem, como sou bem passional e nem um pouco imparcial com as coisas do futebol e Carnaval, as fotos (de Henrique Matos), vídeo e áudio aqui postados são da minha escola de coração: a Mocidade Independente de Padre Miguel. A única concessão feita foi a Ismael Silva. Assim, saravá, Mestre André (in memoriam). É a nossa bateria Nota 10 pedindo passagem.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O sorriso de Daniel...

… não, não é o meu nem o do Lanero, mas sim o doutras duas personalidades tão ou quase importantes que nós: o do profeta, num pórtico da catedral de Santiago de Compostela, e o do influente intelectual Castelao, que enquadram uma mostra sobre a Galiza que percorre o mundo e anteontem atracou em Lisboa, estando instalada na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa (campus de Campolide).
Nela se diz que o Daniel do pórtico é o primeiro sorriso esculpido em pedra da arte medieval. A exposição é promovida pelo Conselho da Cultura Galega, organismo responsável pela projecção da cultura galega no exterior, presidida pelo famoso e incansável Prof. Ramon Villares. É uma mostra muito visual, didáctica e que apresenta reproduções de grandes obras da arte galega.
O Consello da Cultura Galega disponibiliza o visionamento dos conteúdos expositivos e do catálogo em versão integral no seu site (vd. aqui), o que permite acesso livre ao saber para todos, seja àqueles que não podem mesmo deslocar-se ao lugar seja aos simplesmente preguiçosos.
A única coisa a que não se acede no site é à parte cinematográfica, aos documentários tão em voga e que fazem parte da mostra (não estavam disponíveis no dia da inauguração, por motivos técnicos, mas já deverão estar operacionais).
Quem quiser saber mais sobre o pórtico pode ir aqui. Sobre Castelao vd. tb. o seu Museu e este portal.
Deixo-vos também o convite oficial, com informação útil:
"O Consello da Cultura Galega e a Universidade Nova de Lisboa, através do seu Centro de Estudos Galegos, vão inaugurar a 28 de Janeiro, pelas 18h00, a Exposição “O Sorriso de Daniel”. Esta exposição pretende divulgar a cultura galega e tem como fio condutor as figuras do profeta Daniel no pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela e a figura de Daniel Castelao, contribuiu para a construção da identidade cultural e política da Galiza no século XX.
Pode visitar esta exposição de 28 de Janeiro a 15 de Fevereiro, das 14h00 às 18h00, de Segunda a Sábado. (encerra no feriado de Carnaval). Entrada livre.
"

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A chamada que fez cair o ministro (versão completa)

Parabéns a João Abel Manta

Está a decorrer, neste mês, uma homenagem ao arquitecto, pintor, ilustrador e cartoonista João Abel Manta. A iniciativa é da responsabilidade da Humorgrafe (Osvaldo Macedo de Sousa) e do BDjornal (J. Machado-Dias / Clara Botelho) e visa reconhecer a sua obra artística. Para o efeito, a Humorgrafe e a BDjornal lançaram um concurso de caricaturas e ilustrações, dirigido a cartoonistas, banda-desenhistas e ilustradores, a incluir numa exposição e catálogo de tributo àquele que é considerado um dos grandes cartoonistas portugueses de sempre.
O prazo de entrega dos trabalhos termina no final deste mês, por ocasião dos 80 anos de Abel Manta, que celebra hoje.
A seguir à queda da ditadura do Estado Novo, Abel Manta editou um livro de caricaturas em que satiriza causticamente o salazarismo, intitulado Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar (quem quiser aprofundar pode ler a recensão de João Paulo Cotrim, «
Generais e marialvas»). Este livro tornou-se uma obra de referência, juntamente com os desenhos e ilustrações que fez durante o período revolucionário, alusivos ao MFA e às transformações políticas e sociais que então decorreram e onde transparecem as expectativas, avanços e recuos, ilusões e desilusões duma sociedade e do próprio autor.
Em conjunto, este trabalho é um fresco impressivo sobre dois períodos fundamentais na sociedade portuguesa do século XX.
A obra de Abel Manta, porém, não se esgota nestes dois marcos. Para um conhecimento mais aprofundado da sua obra e biografia pública remeto para esta biografia, «
João Abel Manta – gráfica», de Osvaldo Macedo de Sousa.
Aqui fica um singelo reconhecimento ao trabalho de João Abel Manta.
Nb: imagem da gravura «Muito prazer em conhecer vocelências» (João Abel Manta, 1974), feito para a Campanha de Dinamização Cultural do MFA.

domingo, 27 de janeiro de 2008

O Peão visto pelos seus leitores

O Irmão Lúcia (agora também conhecido por Pedro Vieira) acha que aqui o Peão é "eclético". Eclético é bonito, é uma daquelas palavras que gosto muito, soa muito bem, mas nem sei exactamente o que é. Deixa cá ir ver à Wikipédia... Já voltei, diz que "ecletismo pode ser simplesmente a liberdade de escolha sobre aquilo que se julga melhor, sem se a apegação a uma determinada marca, estilo ou preconceito.", ou ainda "Abordagem filosófica que consiste na apropriação das melhores teses ou elementos dos diversos sistemas quando são conciliáveis, em vez de edificar um sistema novo.". Ou seja, em linguagem corrente há portanto vários sinónimos - mais ou menos figurativos - para eclético: manta de retalhos, salganhada, albergue espanhol, caldeirada, moche [em calão dos anos 90], amálgama, ou em francês coloquial [my personal favorite] joyeux bordel. É, na minha humilde opinião, dos maiores elogios ao Peão, se não o maior, que já se escreveu por essa blogosfera. Bem haja o Irmão Lúcia, ou Pedro Vieira, ou quem seja.

Que dilema...

Irá o filho, e único herdeiro vivo, de Vladimir Nabokov queimar o manuscrito da última obra - até hoje inédita - do seu pai?

sábado, 26 de janeiro de 2008

Eles vão ter problemas



E eu que pensava que desta estória do Sarkozy com a Carla Bruni não ia sair nada de jeito... Mas afinal deu um sketch hilariante. Omar e Fred são uma parelha de cómicos saidos do multiculturalismo da banlieue, lançados por Jamel Debouzze. Têm uma rúbrica que é um sucesso (eu pessoalmente sou fã), o "Service Après Ventes", e fizeram agora um sketch a gozar descaradamente com Sarkozy e Carla Bruni (que estavam mesmo a pedir). Ainda me estou a rir. Sabendo como Sarkozy reage a este tipo de situações e sobretudo a relação que tem com os média é de esperar que Omar e Fred venham a ter problemas. Eles sabem-no bem, como se pode ver pela deixa final do sketch.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

from DC with luv


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Pequenos seres, grandes verdades I

[Euforico] - UAU! Uma Playstation, que fixe! Vou deixar de ser o único da classe que não tem uma PS2!
- Mas olha lá, isso de ser o único da classe a não ter uma Playstation é importante?
[Resposta pronta e firme] - Não, não é importante, ... [Pequena pausa a demonstrar o absoluto controlo da intensidade dramática do momento, voz colocada num tom ligeiramente mais grave e mais pausado, sobrolho franzido] mas é muito chato.

Heath Ledger (1979-2008)

Ennis Del Mar: We can get together... once in a while, way the hell out in the middle of nowhere, but...
Jack Twist: Once in a while? Every four fuckin' years?
Ennis Del Mar: If you can't fix it, Jack, you gotta stand it.
Jack Twist: For how long?
Ennis Del Mar: For as long as we can ride it. There ain't no reins on this one.

Brokeback Mountain






Um exemplo



É a única primeira-ministra e candidata presidencial independente que este país teve. A partir de hoje, o seu arquivo está disponível na Internet.
Mais informações no Peão (lado b).

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Jip en Janneke

Enquanto espero pacientemente que Janeiro termine e que Fevereiro se desenvolva a uma qualquer velocidade vertiginosa, olho para o calendário de Jip en Janneke. Vi pela primeira vez esta dupla de sombras (irmãos? amigos? colegas de escolas?) em casa de um amigo belga que me explicou pertencerem à literatura infantil neerlandesa.
As histórias foram escritas nos anos 50 por Annie M.G. Schmidt e ilustradas Fiep Westendorp, mas nunca consegui saber muito mais, porque à volta de Jip en Janneke tudo se passa em neerlandês. Gostava de acompanhar as aventuras dos dois, mas traduções francesas, nem pensar e inglesas que existiram sob outros nomes, não se encontram. Até lá, continuo a olhar para o calendário.








segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Citações fora de contexto ainda é c'm'ó outro, agora truncadas é que é mais grave...

Há o essencial e o acessório. Nesta estória do papa Ratzinger e da Universidade La Sapienza o essencial é a questão da liberdade de expressão. O Vasco Barreto, o Joao Pinto e Castro, o Daniel Oliveira e o Rui Tavares (e provavelmente outros mais) disseram o que havia dizer sobre o essencial: não foi a Universidade que retirou o convite, foi Ratzinger que recusou, se quisesse expressar as suas opiniões podia tê-lo feito. O acessório é a questão do processo de Galileu, ou melhor o discurso de Ratzinger de 1990 sobre esse processo. Também se tem escrito na blogosfera sobre o assunto mas há ainda sumo para espremer.
Foi com grande surpresa que soube estes dias que Ratzinger houvera citado Feyerabend (disclaimer: de longe o meu filósofo de ciência preferido) para legitimar a sua leitura do processo de Galileu. Não podia eu imaginar duas posições mais distantes. Como diz Rui Tavares, é o anti-relativista Ratzinger a socorrer-se das palavras do mais radical dos relativistas, Feyerabend. Graças aos bons ofícios de João Pinto e Castro encontrei o tal discurso de Ratzinger em 1990, e a sua citação de Feyerabend.

“The church at the time of Galileo was much more faithful to reason than Galileo himself, and also took into consideration the ethical and social consequences of Galileo’s doctrine. Its verdict against Gaileo was rational and just, and revisionism can be legitimized solely for motives of political opportunism.”

Esta citação soava-me a familiar. No livro "Contra o Método" (Relógio d'Água, 1993) Feyerabend usa precisamente o caso de Galileu para exemplificar as suas teorias epistemológicas. Lá fui desencantá-lo da prateleira. No início da cada capítulo o Feyerabend usa, em estilo de epígrafe, um resumo das ideias chave desse mesmo capítulo, uma ou duas frases. Encontrei isto como resumo do capítulo 13:

"A Igreja na época de Galileu não só se manteve mais próxima da razão tal como esta era ao tempo e, em parte ainda hoje é, definida: levou também em conta as consequências éticas e sociais dos pontos de vista de Galileu. A sua condenação de Galileu foi racional e só o oportunismo e a ausência de perspectiva podem reclamar a sua revisão"

A primeira coisa que salta à vista - porque eu tive o cuidado de usar o negrito e aumentar o tamanho da letra - é uma pequena discrepância entre a minha edição portuguesa do "Contra o Método" e a citação no tal discurso de Ratzinger. E faz muita diferença? Oh se faz! Naquela pequena sequência de palavras, que Ratzinger omite, Feyerabend RELATIVIZA a sua afirmação. Quando diz que a Igreja fez uso da razão e é justa, remete para o universo da Europa do século XVII quando a Inquisição fazia ainda lei. As consequências sociais que refere era precisamente destabilizar o poder da Igreja e da Inquisição. Será esse universo que Ratzinger quer tormar absoluto? Para perceber a argumentação de Feyerabend, no seu contexto, o melhor é mesmo ler o capítulo 13 do "Contra o Método" (e de caminho o resto do livro), e/ou mais este post de João Pinto e Castro (não há 2 sem 3).

E para colocar mesmo Feyeradend no seu contexto nada como o resumo da Introdução de "Contra o Método", e digam-me se ele alinha pelo mesmo diapasão que Ratzinger.

"A Ciência é um epreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teórico é mais humano e mais susceptível de encorajar o progresso do que as alternativas respeitadoras da lei e da ordem"

Mondeverde...

Como bom teoriadaconspiracionista que sou, venho aqui divulgar os últimos resultados da minha investigação como forma de denunciar um fenómeno que os governos e os media insistem em ocultar, afastando da vista da opinião pública um dos grandes dramas da nossa cultura contemporânea.

Falo de um fenómeno conhecido lá fora (isto é, no largo à frente da minha casa) como mondegreen (penso que não existe tradução portuguesa para o termo, por isso chego-me à frente: "mondeverde") e que tem afectado famílias e famílias pelo mundo fora atirando-as para a mais profunda miséria psicológica. E o que é que a UE, a ONU, UNESCO, ACNUR e outros fazem? NADA!

O que é o mondegreen? É precisamente um mondegreen de Lady Mondegreen, ou seja, "laid him on the green". Confusos? Pois, eu também. Dêem-me só um segundo...


(...)


Ok. Já está. Cá vai: que atire a primeira pedra aquele que nunca se enganou ao cantar umas letras de músicas, sejam elas portugas ou estranjas! Dou uns exemplos. Um dos mondegreens mais conhecidos é da autoria do circumspecto Jimi Hendrix, que o próprio cantava ao vivo em "Purple Haze":

" 'scuse me, while I kiss this guy" (em vez de " 'scuse me, while I kiss the sky")

Ou Bob Dylan, que muitos cantaram: "the ants are my friend, they're blowin' in the wind", em vez de "the answer, my friend, is blowin' in the wind" (em "Blowing in the Wind").

Ou Michael Stipe, cujos fans cantavam R.E.M., "Edith was troubled by a horrible ass" em vez de "Egypt was troubled by the horrible asp" (em "Man on the Moon").

Ou Mick Jagger, que cantava no fabuloso "Paint it Black" as letras "I see a red door and I want to paint it black" e não "I see a Renoir and I want to paint it black".


Podia continuar aqui pela noite fora, a dar exemplos atrás de exemplos. Devo dizer, no entanto, e pondo em risco a minha própria vida, que ao que parece foram os próprios americanos que criaram esta praga, quando começaram a cantar "José can you see..." em vez de "O say, can you see..." no seu irritante hino.




Para quando uma solução? Não faço ideia, eu limito-me a conspirar.

DJ Imbecil, at your service.

Os soldados não gostam de planícies V

Morreu ontem, aos 110 anos de idade Louis Cazenave. Era o penúltimo dos soldados franceses da I Guerra ainda vivos. Participou na batalha "Chemin des Dames" (1917) , em que terão morrido, só no primeiro dia de batalha, 30 mil soldados (era o último sobrevivente dessa batalha). Foi mobilizado aos 19 anos, tornou-se pacifista depois de desmobilizado, e toda a sua vida denunciou o absurdo da guerra. Morreu como quis, segundo a família, e recusou honras de estado para o seu funeral. Lazare Ponticelli, hoje o único soldado francês sobrevivente da I Guerra Mundial, já declarou também recusar honras de estado quando morrer "seria uma afronta aos que morreram antes de mim" (sic).

sábado, 19 de janeiro de 2008

Com os votos de rápidas melhoras

O Blasfémias, que é dos poucos blogues de direita que vale mesmo a pena acompanhar, está com uns problemas. É uma pena, porque a produção bloguística está ser afectada, e os blasfemos andam a postar menos do que é costume. É de realçar que os blasfemos tomam o problema por aquilo que ele realmente é: uma questão técnica, eventualmente devida à incomptência do Blogger. Fora o Pacheco Pereira e tinha já jorrado uma avalanche de posts com o relato minuto a minuto de mais uma inqualificável violação da liberdade de expressão (a dele, que é a única que interessa) seguramente resultado de um complot orquestrado por meio-mundo para o amordaçar. Já os blasfemos parecem dotados de bom senso. Espero que resolvam esses problemas técnicos depressa, e que voltem a postar com a regularidade que se lhes conhece.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Não, não, não! O Belenenses é um clube com ética!

Nada disso.

Zadie e Julian



De Zadie Smith, uma sólida primeira obra, Dentes Brancos, história de três famílias britânicas e jamaicanas, asiáticas, judias e católicas num multicultural bairro no norte de Londres; depois o Homem dos autógrafos (que não li) e agora Uma questão de beleza, em que novamente famílias, desta vez duas, se cruzam numa trama transatlântica em jeito de homenagem simétrica a E. M. Forster, “One may as well begin with Helen’s letters to her sister” (Howard’s End)/ “One may as well begin with Jerome’s emails to his father” (Uma questão de beleza).
É de literatura, dos clássicos ingleses que a autora fala para nos introduzir à sua escrita e à sua nacionalidade. Ou seja, Zadie Smith, nascida em Londres de uma mãe jamaicana e de um pai inglês, afirma que foi construindo as suas referências ao que é ser inglês, ou melhor à ideia do que é ser inglês, através das suas leituras e, sobretudo, da lista de leitura para a admissão em Cambridge. Descobriu, depois, que os seus colegas ingleses, brancos e privilegiados tinham ignorado a lista, que os seus favoritismos literários iam para os russos e para os franceses, ao passo que os dela, negra e suburbana, estavam no «cânone» inglês. E é neste «cânone» que Uma questão de beleza assenta.
Toda esta experiência numa das mais interessantes entrevistas a autores, recentemente publicadas no Ípisilon (07/12/07). É pelo menos original quando um escritor anglo-saxónico não refere o 11 de Setembro como decisivo na sua escrita, ou transformador na sua maneira de ver o mundo.
De Julian Barnes, já uma vasta obra, lida de forma mais ou menos intermitente, mas, aqui o ponto de ligação está no seu livro Arthur e George, uma reflexão sobre o que é ser inglês e que tem como ponto de partida um esquecido caso policial do início do séc. XX. Um solicitador inglês, mas mesmo inglês, com um estudo, trainspotter, sobre direito ferroviário e tudo, filho de um pastor indiano/parsi da Igreja de Inglaterra e de uma mãe escocesa chamado George (Edalji), é acusado de matar gado e Arthur (Conan Doyle), o próprio inventor de Sherlock Holmes, acaba por se envolver na questão. Uma questão de verdade e de autenticidade, temas caros a Julian Barnes, que até já retratou a Inglaterra em réplica e parque de diversões no seu livro Inglaterra, Inglaterra, e mais uma vez de nacionalidade.
Esta ligação também se estabelece comercialmente no site inglês da Amazon, em que quem comprou um dos livros comprou o outro. E como neste caso é, também, do sentimento de pertença que se trata, é possível comprar Zadie Smith em pacote com Ishiguro de quem já se falou aqui.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Shyza Sound Trash é uma caixa de Pandora

Depois de 3 dias com Nikita a ecoar-me pelo encéfalo, a coisa só foi lá à base de Oompa Lumpas:

E agora como é que eu me livro dos Oompa Lumpas?

(Isto transformou-se num concurso de ver quem desce mais baixo. Não substimem a capacidade do ser humano de descer sempre mais baixo)

O direito à tristeza

Já repararam que o amor, quando não correspondido, se torna um interdito, quase um tabu, uma vergonha a esconder (para quem o sente, bem entendido)? No entanto, nem sempre foi assim e não o é em todo o lado.

Grande parte da literatura universal criou-se à luz de amores desamados e autores há que engalanam até em arco por causa deles. Sociedades há em que do pranto se faz arte e até profissão. No nosso tempo e espaço de hedonismo é que sofrer - por amor ou outra causa - se tornou obsceno, quase pecaminoso, um atentado às nossas obrigações.

A felicidade a todo o custo - e o consumo generalizado de ansiolíticos e anti-depressivos: um belo par de irmãos siameses. Ao que parece, não nos podemos permitir a tristeza, a angústia, a mágoa. A realização dos sonhos tem que ser hoje, já - o que se compreende, tantos anos passados a fazer do futuro um dia cada vez mais incerto.

O meu pleito é que esta regra não escrita que nos proíbe a tristeza, a angústia e a mágoa seja como todas as outras, ou seja, para ser quebrada. Ainda que o mundo acabe amanhã, permitam-nos a nossa tristeza hoje.

(não ponho tags que não me entendo com uso que deles por aqui se faz)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Uma ideia ingénua para o debate à esquerda (III)

Sendo que 1) as desigualdades estão a aumentar, quando os lucros das grandes empresas também (e mesmo que não aumentassem); 2) os lucros são também (sobretudo?, apenas?) o resultado da produtividade dos trabalhadores.
Não deveria fazer parte de um programa político de esquerda uma obrigatoriedade das empresas, a partir de uma determinada margem de lucro, repartirem os lucros por todos os assalariados? E não seria isso apenas uma questão de justiça, recompensar a produtividade de todos os que produzem?

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Enquanto não estreia...

...a história das mais famosas empadas de Londres vista por Tim Burton, suspiramos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Desinformação e falta de debate dá nisto.

Nesta última semana os transgénicos voltaram à baila aqui em França. Confesso que à partida até me parece bem tudo o que seja para chatear a Monsanto (a grande multinacional dos OGMs que detém uns quantos monopólios, sim, porque cada OGM é um monopólio). Mas quando não é pelas boas razões preocupa-me um bocado. A história é a seguinte. Os transgénicos não são muito populares em França, como em muitos lados. Aqui o icon altermundialista José Bové dedica-se a destruir campos de transgénicos, ou então a fazer greve de fome. Não sei se a generalidade das pessoas sabe muito bem o que é um OGM, suponho que tenham uma visão da coisa mais influenciada pelos mitos do Frankenstein ou do Admirável Mundo Novo do que por artigos de jornais ou documentários. Por um lado talvez tenham esquecido que aqueles livros são de ficção-científica, ou talvez tenham esquecido o significado da palavra ficção, por outro lado é verdade que notícias de jornais, documentários ou reportagens autenticamente informativos sobre o assunto não abundam (convenhamos que um invasão de um campo de transgénicos em directo no jornal da noite é muito mais excitante). Entretanto o presidente Sarkozy está em franca queda nas sondagens, e nem o romance com a ex-manequim o ajuda, mas isso agora não tem nada a ver. Como não tem nada a ver a proximidade das eleições autarquicas. Nem sei bem com que origem levantaram-se umas ondas a respeito de um milho transgénico MON810, da Monsanto. Vai dai nomeia-se uma Alta Autoridade Provisória (sic) para os OGM, para deliberar sobre o assunto. O presidente Sarkozy diz que se houver "dados novos" e "dúvidas sérias" sobre o MON810 se suspende a cultura. No dia seguinte o diligente porta-voz da recém-criada Alta Autoridade, Jean-François Le Grand (da UMP, partido de Sarkozy) anuncia que há "dados novos" e "dúvidas sérias" e, acto continuo, é suspensa a cultura do milho transgénico em França (a elaboração e aprovação de uma lei sobre o assunto fica para depois das eleições, mas isso também não tem nada a ver). Tudo estaria muito bem não fora logo de seguida 12 dos 15 cientistas membros da Alta Autoridade, mais dois não cientistas, se sentirem na obrigação de esclarecer publicamente que no parecer que emitiram nunca serem mencionadas "dúvidas sérias" e que os "elementos novos" nunca são qualificados como negativos.
Assim de repente parece-me que se está a instrumentalizar politicamente um assunto em que as pessoas têm receios, resultado - na minha opinião - da falta de informação e debate. De caminho, em vez de se regulamentar uma área que precisa de regulamentação e intervenção estatal, deita-se fora uma tecnologia que tem um grande potencial e na qual - diga-se de passagem - muitos governos investiram dinheiro em investigação fundamental que produziu resultados. Vai fora o bébé com a água do banho.

domingo, 13 de janeiro de 2008

A novela do milénio (compacto dos episódios anteriores)

(c) cartoon de Dj Mellow, 2008

É Pá

caraças...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Promessas leva-as o vento (II)

Este post é em resposta ao Hugo Mendes, que deixou um comentário ali em baixo no post do Daniel em relação à promessa não cumprida, por Sócrates, de referendar o novo tratado da União. O comentário do Hugo usa muitos dos argumentos de quem defende a posição de Sócrates, e por isso merece uma resposta.

É que esta é a teoria do "eu faço o que me apetece e os outros que se lixem"! Isto não é base para construção europeia nenhuma (aliás, para construção colectiva nenhuma, mesmo entre duas pessoas, quanto mais entre 27 países; so much for solidarity!).

Isto é uma visão no mínimo muito redutora do que deve ser a solidariedade entre estados membros, para não dizer levemente demagógica. A solidariedade não quer dizer que TODOS concordem sempre com TUDO aquilo que TODOS os outros dizem, isso seria ou a paralisia ou a ditadura dos mais fortes (o que na prática vai acontecendo). Há áreas em que tem que haver solideriedade - as decisões que emanam das instituições europeias e a que todos os estados membros estão formalmente vinculados - como há, ou deveria haver domínios que são da exclusiva responsabilidade de cada um, como são as políticas internas. Saber como é que cada país vai ratificar o tratado é do domínio interno. Há um país em que a Constituição obriga a fazer um referendo, há países em que o compromisso eleitoral foi o de NÃO fazer referendo (foi o caso de Sarkozy em França) e há países em que o compromisso eleitoral foi o de FAZER um referendo (Sócrates). Cada um está vinculado aos seus compromissos. Não percebo porque razão o referendo na Irlanda não "entala" ninguém, e o português "entala" toda a gente. Para o caso, ser a constituição ou um compromisso eleitoral que o obrigue não faz diferença. A decisão de um governo fazer um referendo não vincula os outros governos dos outros países. Se nos outros países a opinião pública exigir o referendo, então é porque ele deveria provavelmente ser feito. Mas por exemplo em França, independetemente do que aconteça em Portugal, Sarkozy tem toda a legitimidade para não fazer referendo nenhum. Com todas as incoerência que se lhe possam apontar, disse claramente durante a campanha que não faria referendo e ganhou as eleições.

Mais vale assumir que não queremos Europa, porque assim - sem solidariedade, cooperação e negociação - não vamos lá.
Novamente levemente demagógico. Isto não é o princípio do terceiro excluido. Porque que raio é que tem que ser esta Europa ou nada? Não há outras maneiras possíveis de ser contruir a União Europeia? Sei lá..., que tal uma construção europeia mais democrática, mais transparente e mais próxima dos cidadãos?

A Europa sempre avançou até aqui, e é o que é, sem recurso a referendos a nível nacional. Esta é a resposta à tua pergunta do 'longo prazo' e 'estabilidade': já lá vão 50 anos.
A Europa avançou até aqui, e é o que é, com recurso permanente a guerras e conflitos: e já lá vão 3000 anos. Claro que este argumento é absurdo (o meu) por uma simples razão: as coisas mudam, a Europa evoluiu. A construção europeia começou como uma organizão de meia-dúzia de países com objectivos meramente comerciais. Chamou-se durante muito tempo Comunidade ECONÓMICA Europeia. Hoje são 27 países e tem por objectivo uma união política, muito para além da economia (daí a necessidade de um tratado constitucuinal). E mais, talvez também a consciência política na Europa tenha evoluido, e os cidadão exijam ser cinsultados para matérias que não exigiam há 50 anos atrás, isso chega para fazer hoje um referendo que não teria sido feito noutra época.

Desculpa lá colocar as coisas assim, mas há argumentos que só mesmo a irresponsabilidade política consegue explicar.
Irresponsabilidade política na minha opinião é: 1) não manter os compromissos eleitorais assumidos, 2) construir a Europa no secretismo dos gabinetes e bastidores, nas costas dos cidadãos, a curto, médio e longo prazo vai gerar desconfiança e antipatia dos cidadão relativamente ao próprio projecto europeu, depois queixem-se que perdem referendos.
Eu acho muito bem que em política se use realismo e pragmatismo, conquanto se respeitem os princípios.

E não acredito que este seja o único tratado possível, que foram negociações complicadas e que era impossível outro compromisso. Este é simplesmente o tratado que os actuais governos europeus quiseram. Há outras maneiras mais democráticas de se fazer um tratado, por exemplo uma assembleia constituinte com conselheiros eleitos especificamente para redigir o tratado. Teria legitimidade democrática logo à partida. E faria um tratado simplificado baseado apenas no denominador comum, porque há uma série de princípios consensuais com base nos quais se pode chegar a um acordo, e aposto que passaria em qualquer referendo.

À consideração


Não vos parece que este autocolante já merecia um lugar de destaque no canto superior direito do nosso blog?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Essência das essências

Adoro a América (mesmo). Interesso-me imenso por tudo o que lá se passa.
Para já, Enquanto Burros e elefantes saem do zoo, para se defrontarem dentro da mesma espécie, mais tarde defrontar-se-ão as duas espécies entre elas.
Ainda não vi nenhuma que tentasse sequer captar a essência do que é ser americano. Essência, essa, que raramente é captada de forma tão sublime como no cinema, por Peter Bogdanovich em The Last Picture Show (1971), apenas para dar um pequeno exemplo, e na música, pelo Boss (outro pequeno exemplo).
Ao escrever letras, como só ele consegue, Springsteen não só captou a essência do que é ser americano como também o pragmatismo para agir de acordo com a mesma.
É impressionante a intemporalidade do filme de Bogdanovich e destes versos de Bruce Springsteen:









Born to run

In the day we sweat it out in the streets of a runaway American dream
At night we ride through mansions of glory in suicide machines
Sprung from cages out on highway 9,
Chrome wheeled, fuel injectedand
steppin' out over the line
Baby this town rips the bones from your back
It's a death trap, it's a suicide rap
We gotta get out while we're young'
Cause tramps like us, baby we were born to run
Wendy let me in I wanna be your friend
I want to guard your dreams and visions
Just wrap your legs 'round these velvet rims
and strap your hands across my engines
Together we could break this trap
We'll run till we drop, baby we'll never go back
Will you walk with me out on the wire
'Cause baby I'm just a scared and lonely rider
But I gotta find out how it feels
I want to know if love is wild
girl I want to know if love is real
Beyond the Palace hemi-powered drones scream down the boulevard
The girls comb their hair in rearview mirrors
And the boys try to look so hard
The amusement park rises bold and stark
Kids are huddled on the beach in a mist
I wanna die with you Wendy on the streets tonight
In an everlasting kiss
The highway's jammed with broken heroes on a last chance power drive
Everybody's out on the run tonight
but there's no place left to hide
Together Wendy we'll live with the sadness
I'll love you with all the madness in my soul
Someday girl I don't know when
we're gonna get to that place
Where we really want to go
and we'll walk in the sun
But till then tramps like us
baby we were born to run


Thunder Road

The screen door slams
Marys dress sways
Like a vision she dances across the porch
As the radio plays
Roy orbison singing for the lonely
Hey that's me and I want you only
Dont turn me home again
I just cant face myself alone again
Dont run back inside
Darling you know just what Im here for
So youre scared and youre thinking
That maybe we aint that young anymore
Show a little faith, theres magic in the night
You aint a beauty, but hey youre alright
Oh and thats alright with me
You can hide `neath your covers
And study your pain
Make crosses from your lovers
Throw roses in the rain
Waste your summer praying in vain
For a savior to rise from these streets
Well now Im no hero
Thats understood
All the redemption I can offer, girl
Is beneath this dirty hood
With a chance to make it good somehow
Hey what else can we do now? Except roll down the window
And let the wind blowBack your hair
Well the nights busting open
These two lanes will take us anywhere
We got one last chance to make it real
To trade in these wings on some wheels
Climb in back
Heavens waiting on down the tracks
Oh-oh come take my hand
Riding out tonight to case the promised land
Oh-oh thunder road, oh thunder road oh thunder road
Lying out there like a killer in the sun
Hey I know its late we can make it if we run
Oh thunder road, sit tight take hold
Thunder road
Well I got this guitar
And I learned how to make it talk
And my cars out back
If youre ready to take that long walk
From your front porch to my front seat
The doors open but the ride it aint free
And I know youre lonely
For words that I aint spoken
But tonight well be free
All the promisesll be broken
There were ghosts in the eyes
Of all the boys you sent away
They haunt this dusty beach road
In the skeleton frames of burned out chevrolets
They scream your name at night in the street
Your graduation gown lies in rags at their feet
And in the lonely cool before dawn
You hear their engines roaring on
But when you get to the porch theyre gone
On the wind, so mary climb in
Its a town full of losers
And Im pulling out of here to win.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Promessas leva-as o vento

Outras ingenuidades

A ideia ingénua do Zèd traz-me outro pensamento ingénuo. A mim uma das coisas que mais me choca no que toca à desigualdade salarial em Portugal é que, ao que parece, os que mais beneficiam dessa desigualdade – os gestores, patrões e as várias "elites" profissionais – não merecem ganhar tanto. Eles não podem dizer como alguns grandes patrões no mundo que merecem o que eles usufruem porque criam riqueza, empregos, etc., etc.
Porque é que eu digo isso. Num dos últimos números do Público de 2007, havia um dadozinho que deve fazer pensar (e isso desde há pelos menos 40 anos). Os trabalhadores portugueses lá fora – e o Público referia-se aos Portugueses no Luxemburgo que são três vezes mais produtivos que os trabalhadores em Portugal – são muito mais produtivos que os que ficam em Portugal. Ao que se deve essa diferença brutal que permite pensar que o problema não está na mão-de-obra?
Pode-se pensar que aqueles que emigram são os mais empreendedores, os mais dinâmicos, os mais produtivos.
Talvez. Mas não me parece explicação suficiente.
É sobretudo porque em Portugal o aparelho produtivo (máquinas, etc.), a organização do trabalho, as relações de confiança (ou sobretudo de desconfiança) criadas nas empresas, os incentivos salariais e o management das carreiras são deficientes. E isso é a culpa de quem? Em grande parte, dos gestores, dos patrões, de todos aqueles que auferem vencimentos chorudos e às vezes são melhores pagos que os seus homólogos europeus.
Por isso, “chapeau” a esses privilegiados.

Mas isso só traz perguntas : o que pode fazer o Estado para atenuar as desigualdades, obrigar as empresas a melhoraram o aparelho produtivo, melhorar os vencimentos, criar confiança nas relações laborais, facilitar a mobilidade social (pelo ensino e pela formação profissional), promover a iniciativa dos trabalhadores (e a justa recompensa dessas iniciativas), incentivar os talentos e a inovação (e não manter o status quo e as posições adquiridas e protegidas pelo Estado), etc., etc.,

"Yes we can!"

Há quanto tempo não aparecia um político com o talento de orador de Obama? Seguramente que não é um talento que surge por geração expontânea, Obama deve ter passado largas horas a estudar os vídeos de grandes oradores. Martin Luther King de certeza, Kenedy, e mais uns quantos. Vale a pena ver com atenção e analisar os discursos no Iowa e em New Hampshire. Começa por dizer que conseguiu vitórias em que ninguém acreditaria, para dizer que essa vitória é a dos eleitores e não a dele, para depois dizer que para América não há impossíveis, é impossível não se encher de esperança. Em seguida avança com ideias políticas fortes, a saúde contra as seguradoras, a educação com aumento dos professores, a Guerra no Iraque e a retirada das tropas, acabar o "trabalho" com a Al-Qaeda no Afganistão, a defesa do ambiente contra as petrolíferas. Depois apela à união de modo absolutamente magistral, e aproveita para dizer (o que tem que ser dito) que o terrorismo não pode ser usado como arma de intimidação. A minha preferida é ter conseguido dizer "one people, one nation" sem dizer "under God". Vale a pena ver o discurso no New Hampshire, particularmente quando quase no fim chega à parte do "Yes we can!". Tudo é impecável, a colocação da voz, a entoação, a postura, a expressão facial. Absolutamente brilhante. Custa-me a acreditar que não venha a ser presidente dos EUA.