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sábado, 24 de março de 2012

Finalmente temos o Botas encapsulado

«Um vinho para testar a marca Salazar», por Graça Barbosa Ribeiro

«No mínimo, é de mau gosto, no máximo um insulto às vítimas do Estado Novo»: opinião de Filipe Ribeiro de Menezes, o historiador em voga do jornal Público

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Citações



Tenho o raro privilégio de ser citado por Manuel Loff, numa recensão que ele faz da biografia do Salazar de Ribeiro de Meneses na Análise Social, por uma frase que nunca escrevi numa recensão minha que foi publicada há meses no Público ! E logo na primeira frase do texto. Loff dá-me a paternidade do título dado à entrevista de Ribeiro Meneses feita por Maria José Oliveira.

Não vejo bem porquê tenho esta sorte e porquê o autor quer que eu tenha escrito isto. Parece-me que o Manuel Loff dá-me intenções que não penso ter. Dando-me uma frase que nunca escrevi, Loff pode assim pôr-me, parece, no réu dos culpados que participaram na, e vou citar sem tentar enganar-me, "tão boa aceitação" que obteve o livro do Ribeiro de Meneses. Bem relendo o meu texto, não me revejo nisto, mas isto pode ser debatido com verdadeiras citações.

E que não me parece oportuno iniciar um debate fazendo escrever coisas à pessoas que nunca as escreveram.

Apesar de esta falta de rigor (o que é sempre problemático para os historiadores), aqui está a continuação de um debate que deverá continuar.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Lugares fora do tempo


Imerso na bruma salazarenta, o edil de Santa Comba Dão voltou à carga, desta feita para inaugurar a «requalificação» da Praça António de Oliveira Salazar em pleno 25 de Abril. Ou seja, uma praça atada ao nome dum dos ditadores mais lapa de sempre vai ser objecto de festividades no dia dedicado à Liberdade em Portugal. Só o dito cujo acha que isto não é uma provocação gratuita, pretextando que o «Botas» é filho dilecto da terra e que já atingimos a «maturidade política».
Em 2007, deu-lhe a morbidez dum Museu Salazar. Não satisfeito com o delírio, queria ainda que a conservação dos tarecos do «Manholas» fosse à mama do Estado central.
Das duas uma: ou o exmo. edil é um oportunista procurando surfar um ensimesmado eleitorado de direita conservadora e reaccionária; ou está completamente obcecado com fantasmas.
No coração do outrora Cavaquistão, a direita continua colada ao pior de si mesma: má consciência face ao legado ditatorial; complacência (senão apoio) aos caciques, da paróquia à nação; apego aos localismos doentios; populismo cultural; falta de criatividade e de pluralismo; e, por fim, um duvidoso gosto kitsch, que liga alegremente tiranete com porco e tuna, como quem liga tremoços com trufa.
Já as aldeias-berço de Mussolini e Franco se haviam prendido a um saudosismo mórbido e fedorento (só recentemente Ferrol se livrou deste karma). Parece um fado geográfico. E histórico: diz agora que o cromo «faz parte da história»: nesse caso, revolucione-se a toponímia, há mais tiranos na caderneta. No fundo, no fundo, está tudo na imaginação dos homens. Ou melhor, na falta dela.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Novos achados reiteram bulimia papelusca de Salazar

Novos achados quase-arqueológicos vêm comprovar aquilo que já se sabia: a bulimia papelusca do ditador Oliveira Salazar. O homem podia ser poupadinho nas despesas e em arrebanhar dinheiro em proveito próprio, mas não foi nada poupadinho no respeitante ao consumo de papel. Eu que o diga, que já estive meses imerso em papelada, bicharada e pó estimuladas pela sua mania de tudo controlar e ordenar em resmas A4. A4 e não só: do papelusco minúsculo ao dossier extra-large o cromo pintalgou os tamanhos todos do papel para escrita.

Desta feita, foram recuperadas pela Torre do Tombo c. de 100 caixas com documentação da eufemística Presidência do Conselho de Ministros (PCM), referentes ao período entre 1938 e 1957. O Público exulta à moda de Indiana Jones: "É um dos mais importantes achados dos últimos anos". Resta dizer que, quanto aos arquivos da PCM e Oliveira Salazar (uma distrinça um tanto ou quanto bizantina durante a ditadura, mas enfim), já há mais duma década que estão acessíveis ao público alguns milhares de caixas. Ainda é cedo para se saber o que poderão revelar as ressuscitadas carcaças poeirentas que já não se saiba, mas é sempre bom haver alguém que diga que vão mudar a face da nossa história. É que isto anda tão mortiço...

Seja como for, ainda bem que esta documentação vai ser tratada e que a sua disponibilização pública está já marcada para este Verão.

terça-feira, 31 de março de 2009

A passerelle do centralismo

O novo Museu dos Coches tornou-se no caso do ano na Cultura, por 2 razões interligadas: a ausência duma política cultural com visão e o laxismo na gestão do erário público.
No sector museológico português, os museus que deviam estar no topo das prioridades são os de Arte Antiga, do Chiado/arte contemporânea e de Arqueologia. São estes que, pelo seu valor patrimonial/ cultural e as graves carências que têm, mereciam ser o alvo prioritário duma política cultural pública. O 1.º precisa de alargamento e mais recursos (ou mesmo, dum museu de raiz); o 2.º espera há anos por uma expansão para o espaço ocupado pela PSP; o 3.º deveria ser expandido nos Jerónimos, onde está há 100 anos (ou ter direito a um museu de raiz). Isto mesmo é dito por vários peritos em museologia (daí a petição lançada para se repensar este processo), inclusivé pelo actual dir. do Instituto de Museus e Conservação ("Bairrão Oleiro acha que não há outro museu que justifique um edifício de raiz, mas há outros que precisam de uma ampliação, como o Museu do Chiado, o Museu de Arqueologia e o da Música"). A isto, João Neto (pres. da Associação Portuguesa de Museologia e subscritor dessa petição) aditou o seguinte: "Aquilo de que necessitamos é de um espaço destinado a grandes e boas exposições temporárias temáticas, feitas pelos museus portugueses, num trabalho de coordenação, e que possam ser exportadas da mesma maneira que nós importamos grandes exposições". Para nada disto servirá o novo museu: não foi pensado para o efeito, nem a sua direcção está interessada, como assumiu Silvana Bessone.
Entretanto, foi lançada uma contra-petição, assaz corporativa (iniciativa da Ordem dos Arquitectos e inicialmente subscrita quase só por arquitectos), em desagravo da proposta do novo Museu dos Coches. Há aqui um grande equívoco: ninguém questionou a validade dessa obra arquitectónica (2.ª versão, sem silo automóvel) do arq.º brasileiro Paulo Mendes da Rocha (dadas as suas credenciais, a maqueta e as avaliações entretanto surgidas, e pese não ter havido concurso público internacional). Já descabida é a ideia de que tal obra será "se calhar, sobretudo, um projecto urbano numa área da cidade que está expectante e degradada". Mas qual área "expectante e degradada"?! Aquela zona é a coqueluche do turismo cultural no país! É a passerelle do poder central desde os tempos da expansão ultramarina, e, sobretudo, desde que o Estado Novo a adoptou para a sua estetização da política e exaltação imperial. Foi nos idos de 1940, e, entretanto, até o regime democrático quis deixar lá a sua marca: foi o CCB de Cavaco Silva e do tempo das vacas gordas, em que as «derrapagens» nas obras públicas se tornaram moda. Foi ainda com Cavaco Silva e Santana Lopes como responsável pela pasta da Cultura que surgiu a ideia dum novo Museu dos Coches... Cavaco Silva, agora PR, nada diz sobre o assunto, apesar da audiência com os autores da 1.ª petição...
Entretanto, dois dos promotores da 1.ª petição, com provas dadas na política cultural, lançaram uma ideia de compromisso que deveria ser reflectida pelos decisores políticos: o arqueólogo Luís Raposo (director do Museu Nacional de Arqueologia) e Raquel Henriques da Silva (historiadora de arte e ex-dir. IPM) propõem a reformulação funcional dos 2 edifícios do projecto de Mendes da Rocha: o principal poderia ser adaptado a um Museu da Viagem (evocativo da "diáspora portuguesa em toda a sua extensão temporal"); o 2.º edifício, mais pequeno, seria afecto ao Museu dos Coches para "ampliação dos espaços expositivos", mas mantendo-se "o conjunto mais emblemático" no antigo Picadeiro Real. Ademais, sugerem um levantamento do parque museológico e monumental da zona de Belém, com vista a um "plano integrado de valorização de cada peça e do seu conjunto" (p.e., para potenciar circuitos integrados, via "percursos pedonais, bilheteiras comuns, navette de ligação gratuita" para portadores de ingressos nos museus ou monumentos). Instam ainda à "reabertura do Museu de Arte Popular no seu lugar próprio"; à inserção do Museu Nacional de Etnologia na "rede"; à extensão do da Marinha a poente e para a Cordoaria Nacional; e à ampliação do de Arqueologia nos Jerónimos (vd. aqui).
Haja sensatez para reflectir nos argumentos dos críticos. O interesse público sairia a ganhar. A tradição sobranceira do poder, porém, não dá muita esperança. Como se viu com mais este caso, o poder central gosta de se exibir, e quanto mais espampanante e expedita for a solução, melhor. É a lei não escrita do umbiguismo do poder, do fausto, que por cá tem uma larga tradição...
PS: 5 prós e contras das 2 posições podem ser vistos aqui; cartoon de GoRRo (c) 2007-9.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Caprichos e desastres de João Abel Manta

Ao entardecer, inaugura-se a exposição «Caprichos e desastres» do grande cartoonista e artista plástico João Abel Manta, no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa. A mostra, com mais de 90 peças, retrata o "Portugal pitoresco" e o "Portugal assombrado" dos anos 60 a 80, segundo revelou o seu comissário, João Paulo Cotrim (vd. aqui e aqui). Cotrim, entretanto, editou o livro João Abel Manta - caprichos e desastres (vd. tb. aqui).
Neste ano, o autor celebra 80 anos, como aqui referi em detalhe. A efeméride foi recentemente relembrada no Festival BD Amadora, numa mostra que reuniu trabalhos de homenagem.
João Abel Manta é considerado por muitos o maior cartoonista português vivo, dando seguimento a nomes como Rafael Bordalo Pinheiro, Leal da Câmara e Stuart Carvalhais.
ADENDA: o jornal Público associou-se entretanto à homenagem com esta galeria de imagens contendo uma selecção das caricaturas da exposição.

domingo, 6 de julho de 2008

A oposição católica ao Estado Novo

Na próxima 3.ª feira, pelas 18h30, realiza-se um colóquio sobre o livro «A oposição católica ao Estado Novo (1958-1974)», tendo como participantes Fernando Rosas, Guilherme d'Oliveira Martins e o autor da obra, João Miguel Almeida.
O evento, organizado pelo Centro de Reflexão Cristã, decorrerá na Galeria Fernando Pessoa do Centro Nacional de Cultura (Lx., Lg. do Picadeiro, 10-1.º; metro Baixa-Chiado).
Este livro, recém-editado, é uma versão revista da tese de mestrado de João Miguel Almeida, sendo já uma obra de referência sobre a temática.
Existe mais informação sobre o mesmo e sobre o ex-Peão aqui, aqui e aqui.
Parabéns ao autor e que a obra seja debatida e divulgada como merece.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Parabéns a João Abel Manta

Está a decorrer, neste mês, uma homenagem ao arquitecto, pintor, ilustrador e cartoonista João Abel Manta. A iniciativa é da responsabilidade da Humorgrafe (Osvaldo Macedo de Sousa) e do BDjornal (J. Machado-Dias / Clara Botelho) e visa reconhecer a sua obra artística. Para o efeito, a Humorgrafe e a BDjornal lançaram um concurso de caricaturas e ilustrações, dirigido a cartoonistas, banda-desenhistas e ilustradores, a incluir numa exposição e catálogo de tributo àquele que é considerado um dos grandes cartoonistas portugueses de sempre.
O prazo de entrega dos trabalhos termina no final deste mês, por ocasião dos 80 anos de Abel Manta, que celebra hoje.
A seguir à queda da ditadura do Estado Novo, Abel Manta editou um livro de caricaturas em que satiriza causticamente o salazarismo, intitulado Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar (quem quiser aprofundar pode ler a recensão de João Paulo Cotrim, «
Generais e marialvas»). Este livro tornou-se uma obra de referência, juntamente com os desenhos e ilustrações que fez durante o período revolucionário, alusivos ao MFA e às transformações políticas e sociais que então decorreram e onde transparecem as expectativas, avanços e recuos, ilusões e desilusões duma sociedade e do próprio autor.
Em conjunto, este trabalho é um fresco impressivo sobre dois períodos fundamentais na sociedade portuguesa do século XX.
A obra de Abel Manta, porém, não se esgota nestes dois marcos. Para um conhecimento mais aprofundado da sua obra e biografia pública remeto para esta biografia, «
João Abel Manta – gráfica», de Osvaldo Macedo de Sousa.
Aqui fica um singelo reconhecimento ao trabalho de João Abel Manta.
Nb: imagem da gravura «Muito prazer em conhecer vocelências» (João Abel Manta, 1974), feito para a Campanha de Dinamização Cultural do MFA.

domingo, 25 de março de 2007

Citações para reflexão (recortes da semana)

Ora, aqui vão 2 recortes da semana, sobre alguns dos temas do tempo que passa.
O 1.º, fresquinho, é de São José Almeida e versa sobre as políticas financeiras do nosso (des)contentamento, consoante o prisma em que estejamos. Deixo aqui um excerto relevante, pois na Internet só está disponível para assinantes:
"A política financeira do Governo desiste assim da sua responsabilidade no desenvolvimento económico e abdica de princípios fundamentais do Estado social. O conhecimento básico de macroeconomia de que o desenvolvimento económico geral é influenciado pela política orçamental pública deixou de ter eco entre os socialistas, assim como esqueceram que o núcleo da política económica keynesiana é constituído pelo reforço da procura interna através da política financeira e salarial.
O saneamento do Orçamento do Estado deveria ser alcançado através da diminuição do desemprego e o reforço do crescimento económico e assim contrariar a actual lógica de sanear as contas públicas através da redução da despesa, nomeadamente nas áreas sociais.
Não há Estado social que funcione a bem dos cidadãos sem um regime fiscal que o garanta. [..]
Já agora, a título de questões a ter em conta num debate sobre política fiscal, por que razão não se aproveita o entusiasmo com as «boas contas» do défice para mudar a agulha e passar a apostar na economia e no crescimento do consumo interno e do emprego, dando mais poder de compra aos trabalhadores? Por que razão não se diminuem impostos sim, mas para os trabalhadores por contra de outrem? Por que razão não se diminui a carga de despesa da Segurança Social dinamizando o emprego? Por que razão não se criam impostos para financiar o equilíbrio do défice que incidam sobre os lucros das empresas? E já agora a banca, para quando uma taxação socialmente útil dos lucros absurdos da especulação financeira de que se alimenta?"
São José Almeida («Vacas sagradas», Público, 24/3, p. 46)
O 2.º é sobre o peso, neste país, dos títulos de srs. engs. e outros que tais, passando pelos profs. drs. doutras eras (José Leite Pereira, «O maior sacana português», JN, 23/3).

sábado, 17 de março de 2007

Falta um certo arrojo ao Arroja

Sem querer entrar em polémica com o Victor, eu acho que as teses do Arroja sobre as razões do crescimento económico do Estado Novo até são pouco arrojadas. É que não basta dizer que havia uma "grande abertura da economia [do regime] ao exterior" (ponto 9 do decálogo). É preciso acrescentar a gestão liberal que o regime sempre fez dos mercados com que estabeleceu, digamos assim, relações comerciais privilegiadas, como era o caso de Angola ou Moçambique. É que, se não se acrescenta isto, a natureza da abertura da economia do regime de que Arroja fala fica completamente sem se perceber .

Noto a mesma falta de rigor no ponto 5. A expressão "padrões muito elevados no sistema de educação", se lida apressadamente por um leitor mais maldoso, pode fazer pensar que o autor se estava a referir aos padrões elevados de analfabetismo da população em geral. E não está: como todos sabemos, ele estava só a pensar nas boas famílias.

No mesmo ponto, é incompreensível a ausência de uma referência à política de mobilidade e internacionalização dos professores portugueses promovida pelo regime. Quantos foram os professores dos liceus e das universidades que foram, então, gentilmente convidados a combater o seu imobilismo provinciano e a sair para o estrangeiro? Se não se diz isto, o argumento de Arroja, que é bom e é subtil, resulta incompleto.

Por fim, parece-me que falta ao decálogo um 11° ponto fundamental (mas deixaria de ser um decálogo se Arroja o incluísse, pelo que aqui tem desculpa a falta de arrojo): então e a prudente política de informação desenvolvida pelo regime de Salazar? Uma política que como é sabido, foi marcada por uma tal determinação em servir o interesse nacional que, e apenas quando tal se revelava estritamente necessário, chegava ao ponto de silenciar as vozes da imprensa e da oposição? O senhor Arroja talvez respondesse a isto que a política de informação do Estado Novo nada tem a ver com o seu crescimento económico. Talvez. Mas aqui deveria entrar um argumento contra-factual: imagine-se o Estado Novo sem a política de informação coerente que adoptou (eu sei que é difícil, mas tente-se, em benefício do argumento). Haveria o perigo de as sábias políticas económicas do regime serem discutidas democraticamente, o que, possivelmente (mas eu de economia não percebo nada), seria prejudicial ao crescimento económico. Mais grave ainda seriam os efeitos sobre a memória do regime salazarista: o professor Arroja, por exemplo, que aparentemente só guardou a visão do regime que vem nos manuais de leitura da Terceira Classe, talvez ficasse a saber um pouco mais sobre o assunto.

A eficiência da ineficiência


Esse post da Cláudia relembrou-me um debate que há nesse blogue. Um estranho liberal (porque escrever num blogue liberal e repetir a propaganda do SNI parece-me paradoxal…mas aqui não é o problema e os defensores do dogma liberal já restabeleceram a ordem) iniciou uma série de posts sobre os presumidos sucessos económicos do Estado Novo. Nem vale a pena repetir o que outros já escreveram, tirando as bases desse discurso pseudo-histórico. Só fico por uma parte do racioncínio que, parece-me mas posso enganar-me, não foi discutida : a probidade e a eficácia dos servidores de Estado naquele período (Os factores 2, 3 e 4 do « novo » decálogo do Estado Novo 2. Em parte como resultado deste exemplo, uma cultura prevalecente na sociedade em que o cumprimento dos contratos (por vezes baseados na mera palavra dada) e, geralmente de todos os compromissos, se tornava uma questão de honra pessoal. 3. Funcionamento exemplar das instituições do Estado, como a justiça e a administração fiscal. 4. Elevado sentido de Estado por parte das pessoas que serviam o Estado quer nos postos da governação quer nos principais postos da administração pública. Tratava-se, em geral, de pessoas com elevado espírito público, que visavam servir o Estado e a comunidade, e não servirem-se do Estado e da comunidade - e que frequentemente o faziam com sacrifício dos seus próprios interesses pessoais).
Se o Estado Novo inspirou confiança a alguém foi aos médios e grandes proprietários rurais, aos industriais, aos comerciantes, aos financeiros, etc., etc. A grande maioria da população, ela, viveu no medo, na desconfiança e na vontade de escapar ao Estado e aos seus protegidos (fugindo por exemplo clandestinamente para França). Donde vinha a confiança dos primeiros ? Eles podiam quebrar os contratos como queriam, deixar de pagar os empregados e, melhor, impor a inexistência de contratos deixando os assalariados (rurais ou industriais) sem protecção. Sem sindicatos, com operários reprimidos à menor desobediência, com um sistema corporativa que era uma fraude como escreveu Philippe Schmitter, com tribunais do trabalho defendendo o patronato, é verdade que os empresários podiam ter confiança no Estado. Isso não há dúvida. E com a repressão do movimento operário, sem sindicatos, com salários que aumentavam menos depressa que a produtividade dos trabalhadores (a não ser no fim dos anos 60 quando o patronato, por culpa da emigração, teve que aumentar os salários), e sem Estado Providência, o tal sucesso económico do Estado Novo não é nada de extraordinário. Eficiência económica é juntar crescimento da riqueza, democracia e bem-estar para toda a população, como aconteceu no mesmo período além-Pireneus.
Quanto à dita eficiência e exemplaridade dos servidores do Estado no regime salazarista é um mito tão falso como as proezas do Stakhanov. Com uma censura que cortava qualquer artigo que apontava uma mais pequena disfunção da administração pública (por exemplo no livro do João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha há o caso de um desastre de avião que foi censurado, isso podia ser uma fonte de desprestígio para o Estado), com uma polícia política que podia perseguir qualquer pessoa que pudesse levar à cabo uma investigação crítica sobre a administração pública, essa inefiência não era conhecida do público que só podia ler uma narrativa distorcida da situação portuguesa. Mas estudos, nomeadamente aqueles baseados em arquivos públicos ou trabalhos de antropologia, mostram como o Estado Salazarista era inefiente, lento, cheio de corrupção (como se poder ler nos trabalhos do Howard Wiarda ou do José Cutileiro).
E essa ineficácia não era uma anomalia. Era uma das chaves do poder de Salazar. Salazar não precisava dum Estado eficiente, dum sistema que funcionava correctamente. Pelo contrário. O que ele queria era manter-se no poder. E isso passava pela existência de fracções antagonistas que, combatendo-se umas contra as outras, pediam a arbitragem do presidente do Conselho que ficava assim no centro do sistema e tornava-se indispensável. Quantos ministérios ou organismos não mantinham guerrilhas administrativas e burocráticas inúteis que se traduziram por inacção, superposições de competências e, por consequência, despesas acrescidas. Quantos ministérios ou organismos preferiram não fazer nada e resolver alguns problemas para não mudar as suas rotinas burocráticas. Quantos funcionários não se serviram das posições que ocupavam para ganhar uns (muitos) tostões à custa dos Portugueses que tinham que preencher toneladas de impressos burocráticos ?

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Foi você que pediu um Grande Fantasma?

A respeito dum lamentável concurso na tv pública que anda por aí a dar que falar (infelizmente muito à boca pequena, como é hábito luso), aconselho a leitura deste post da Cláudia Castelo e um olhar por esta caricatura sanitária do Zé Dalmeida. Quanto a concursatas e outras farsas lamentáveis estamos conversados.
Agora, que andam por aí uns ventinhos saudosistas e revisionistas disso não tenho dúvidas e até já me envolvi em polémica sobre isso no Fuga para a Vitória (vd. aqui e aqui). De resto, a imagem ao lado fui buscá-la a este post do Carlos Leone, e vem dessa mesma polémica.
Grandes Fantasmas ao preço de cêntimos, veja lá isso. É que, por vezes, o barato sai caro.
v
PS: aos distraídos, convém relembrar que são todos os contribuintes que pagam esta concursata deplorável.
PS2: aos muito distraídos, o meu voto é só este: o de que a tv pública não tenha concursos que degenerem onde este degenerou.