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domingo, 4 de abril de 2010

Dos caminhos ínvios das fontes e da memória colectiva

«Os biógrafos (e os historiadores) um dia irão aos arquivos das associações, de instituições particulares, oficiais ou oficializadas, socorrer-se-ão de testemunhos pessoais, dos arquivos da PIDE/DGS (se ainda existirem), devassarão múltiplas fontes. Irão, sobretudo, à Imprensa na busca de intervenções, artigos, entrevistas, reportagens sobre determinados acontecimentos sociais, públicos, políticos, culturais, relatos de conferências, colóquios. Pois bem. Os biógrafos quando pretenderem lançar mão dessas fontes ficarão desapontados com a rasura do nome de Carlos de Oliveira. E, no entanto, se em Portugal houve escritores empenhados na vida cultural, literária e política do país, um deles foi precisamente Carlos de Oliveira. Só que a sua actuação se desenvolveu quase silenciosamente. Diluía-se, corria de manso. Sem alardes ou ostentação. Não por medo, nem razão havia, em muitos casos, para isso. Um certo pudor, uma espécie de anti-evidência. Negava-se a entrevistas (duas em sua vida?); escusava-se a colóquios; escassíssimos os artigos que escreveu. E sempre que podia furtava-se ao contacto público, a menos que a sua presença fosse entendida como indispensável.
A forma do seu empenhamento cívico corria sob o disfarce da discreção
».
 (Manuel Ferreira,
«Um firme empenhamento cívico»,
Vértice, n.º 450/1, 1982, p.596/7)
Soneto
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
(Carlos de Oliveira, Trabalho poético1945,
reed. de 2002 pela Caminho e de 2003 pela Assírio & Alvim)
Nb: a acompanhar pelo poema «Colagem», de 1968.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Um trio memorável

Foi memorável a série de 4 concertos que juntou Fausto, Sérgio Godinho e José Mário Branco em Lisboa e Porto no outono passado. Por várias razões: a projecção dos artistas e sua diversidade de estilos; a riqueza da selecção do repertório (combinando músicas de que cada um gostava, de si e dos outros dois, com inéditos individuais ou em parceria, além de José Afonso); a qualidade das letras, músicas e arranjos; a valia do alargado conjunto de músicos acompanhantes; o caloroso público intergeracional (pese a maior presença de cinquentões e sexagenários); a raridade deste tipo de encontro, após os momentos de comunhão revolucionária de 1974/5 (mas também do exílio parisiense, no caso de SG e JMB). E, last but not least, a pertinência da música de intervenção e da sua articulação com baladas e outras canções.
Por tudo isto, a adesão foi imediata e maciça: os concertos lotaram com antecedência; o duplo cd tornou-se, num ápice, disco de ouro e líder de vendas; a caixa cd+dvd segue de vento em popa, etc.. O registo dum desses «Três cantos» foi recentemente divulgado na RTP1, seguido do documentário Faz tudo parte, de André Godinho. Aquele permitiu perceber melhor as letras, certos detalhes, enquanto este último deu lugar às opiniões, memórias e imagens bem antigas dos cantautores.
Por tudo isto, faço votos para que os 3 se voltem a juntar. Se assim for, que em Lisboa seja noutra sala, no Coliseu, por ex.. Estive no 2.º concerto do Campo Pequeno e fiquei com a impressão de não ser um bom espaço para um concerto destes: os lugares são muito apertados, as vozes não se ouvem bem, é demasiado grande. E este voto que faço não é por saudosismo, mas sim pelo que expus acima.
Deixo-vos o alinhamento do espectáculo nas suas duas partes (repetido nos 2 cds), com links para o registo em concerto dalgumas delas (+na lista de Fernando Marques de 6/XII):
Travessia do deserto 2 Ser solidário
Como um sonho acordado 3 De não saber o que me espera
A barca dos amantes 4 Olha o fado
Mariazinha 5 Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Rosalinda 6 Foi por ela
Quatro quadras soltas 7 Que força é essa
Canto dos Torna-Viagem 8 Eu vi este povo a lutar (Confederação)
A ilha 9 Maré alta
Não canto porque sonho 10 Inquietação
O charlatão 11 Na ponta do cabo

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Cidade triste e alegre

Ao fim de 50 anos, um olvidado livro de fotografia de autores portugueses está novamente no prelo. Trata-se de Lisboa, cidade triste e alegre, de Victor Palla e Costa Martins, e é o único álbum luso do género a figurar no prestigiado The photobook: a history.
Sendo de referência internacional desde 2004, tardava a sua reedição. A iniciativa coube à Guide Edições Gráficas, pela mão doutra dupla de fotógrafos, José Pedro Cortes e André Príncipe.
Dele falei há uns anos atrás, quando ainda mal tinha começado a espalhar-se esta onda positiva. Um feliz acaso. Uma recuperação sem seguimento ocorrera em 1982, pela galeria Ether e por António Sena.
Outros textos para ler e ver imagens do livro: «Victor Palla (Lisboa, 1922-2006)» e «Lisboa, cidade triste e alegre». Para questões de mercado ver este texto da Photo Histories. Para estórias tristes do quão esquecido foi este livro vd. aqui.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Evocação breve de António Aleixo

Passaram anteontem 60 anos sobre a morte do poeta algarvio António Aleixo. Para evocar a efeméride e remover "certos preconceitos sobre a sua obra", a RTP transmitiu o documentário «António Aleixo, na terra acho, na terra deixo». Achei-o interessante, mas na parte que vi não houve espaço para a apresentação dessa mesma obra e era bem fácil fazê-lo, já que parte dela são quadras e versos ao jeito popular.
É verdade que este poeta nunca granjeou grande crédito junto de parte dos críticos e estudiosos da literatura lusa, o que é extensivo aos restantes poetas populares. Folheando-se a 13.ª ed. da História da literatura portuguesa (de António José Saraiva e Óscar Lopes), apenas se topará com uma fugaz alusão, e dentro duma ficha dedicada a outro poeta algarvio, João de Deus. Mas também é verdade que, desde 1974, a sua obra começou a ter a gradual atenção de vários estudiosos (breve lista de estudos na secção de «bibliografia» desta biografia).
Seja como for, vale a pena atentar no seu estilo directo, assertivo e irónico, plasmado em notas existencialistas avant la lettre, numas vezes, ou num olhar de crítica social, noutras, mesmo durante a ditadura, quando era bem difícil este tipo de expressão. Até por isso, pela raridade desta combinação e destes olhares, vale a pena revisitá-lo.
A sua vida, rica e tormentosa, é pendão de experiência para esse caleidoscópio de reflexões e impressões. Homem de várias profissões, cauteleiro, pastor, tecelão, polícia e servente de pedreiro, foi também cantor popular de feira em feira e emigrante em França. Morreu de tuberculose, aos 50 anos, após internamento de 7 anos no Sanatório dos Covões.
Embora tivesse tido uma alfabetização rudimentar, escreveu vários livros, o primeiro deles Quando começo a cantar…, recolha de quadras cuja venda se iniciou em 1943, por iniciativa do Circulo Cultural do Algarve. Seguiram-se-lhe Intencionais (1945), Auto da vida e da morte (1948), Auto do curandeiro (1949), Este livro que vos deixo (1969, obra completa) e Inéditos (1978). A sua obra foi redescoberta a partir dos anos 60, pelo trabalho de divulgação do dr. Joaquim Magalhães. Incompleto ficou o Auto do Ti Jaquim.
Em nome das suas preocupações sociais surgiu, em 1995, a Fundação António Aleixo, sediada em Loulé, onde viveu e faleceu. Actualmente esta entidade colabora em diversos projectos de desenvolvimento social, em múltiplas parcerias, com instituições públicas e particulares (vd. aqui).
Em homenagem ao poeta, o município de Loulé erigiu-lhe uma estátua defronte ao Café Calcinha, espaço outrora por si frequentado. Também o antigo Liceu de Portimão foi renomeado Escola Secundária Poeta António Aleixo e, no Liceu Católico de São Paulo, surgiu a Escola Poeta António Aleixo (vd. lista de homenagens nesta biografia).
Deixo-vos com um dos seus poemas (outros há, com análise crítica, aqui):
Co'o mundo pouco te importas
porque julgas ver direito.
Como há-de ver coisas tortas
quem só vê o seu proveito?

À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra.

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
q'rer um mundo novo a sério.

Nb: imagem retirada daqui.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cravos Vermelhos

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Bocas rubras de chama a palpitar
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar
Esse perfume capitoso e bom?!

Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d' esculturais sorrisos?!

… Bem sei vosso segredo ... Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores-do-mal,
Disse-me agora: “Uma manhã, o sol

O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga... “