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quarta-feira, 16 de maio de 2007

O meu gráfico preferido do momento


Depois volto a isto* com mais calma para explicar o que está aqui em causa, e por que é que os países que desenvolveram robustos sistemas de educação-formação (ou seja, níveis de ensino anteriores e/ou paralelos ao ensino universitário) são aqueles onde as desigualdades económicas são mais baixas. Portugal não está neste quadro, mas se estivesse, a sua posição não seria muito diferente da dos EUA (estaria, creio, apenas um bocado mais para a direita).
O quadro é retirado deste excelente livro: Capitalism, Democracy, and Welfare, de Torben Iversen (Cambridge University Press, 2005, p.19)
P-S. - Alternativamente, podem passar pelo Véu de Ignorância 2, onde vou abordando estas temáticas de forma mais aprofundada.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Mayday: rebelião ou organização?

Hoje, no Dia Mundial do Trabalhador, há uma manifestação em Lisboa contra a precariedade, e que se dirige a muitos dos que não encontram empregos à altura das suas qualificações. Já muito se escreveu neste blogue sobre esta questão. A propósito desta concentração, hoje, de pessoas, vontades, ansiedades e energias, deixo umas notas que se pretendem construtivas.

1. "Rebelar-se" (whatever that means) talvez não leve a grande coisa nos tempos que correm. Mais organização e menos rebelião seria mais inteligente e profícuo.

2. Organizar-se significa ter mais ideias claras (e talvez menos slogans razoavelmente vazios ("apenas e só mais uma roda na engrenagem", etc.)). Ter ideias claras significa não querer uma coisa e o seu contrário. Não vale a pena estar-se (legitimamente) preocupado com o desemprego ou o subemprego e ao mesmo tempo bradar contra a "Escola-empresa, a venda do ensino, o comando do mercado nas escolhas da investigação". Quando oiço isto só apetece dizer que se a escola estivesse mais próxima das empresas e o conteúdo e prática do ensino lhes dissesse alguma coisa, e se as instituições não vivessem de costas voltadas (uma atitude que muitos professores universitários gostam de cultivar; quem se lixa, no fim da linha, claro, são os seus alunos) , então muitas pessoas estariam em situações menos complicadas e instáveis. O que não vale é desprezar - qual aristocrata - o discurso da "empregabilidade" e depois queixarem-se - qual proletário - de que não há emprego: entre a aristocracia e o proletariado, um pouco menos de esquizofrenia, por favor! ("aristocrariado" talvez assentasse melhor aos manifestantes do que "precariado" :))

3. Organizar-se significa procurar perceber em que é que a luta se pode ligar à do trabalho não-qualificado - menos no discurso e mais na policy efectiva, que as palavras são fáceis - e às práticas dos sindicatos. Os sindicatos portugueses, por vários motivos institucionais e históricos, têm uma fraca penetração no sector dos serviços, o que deixa as pessoas sozinhas perante as entidades patronais. Era muito importante que isto mudasse - e que isto mudasse também os sindicatos. Boa parte da pressão para essa mudança podia vir das pessoas que se reúnem no dia de hoje; entre o romantismo em relação aos sindicatos que vem dos mitos do passado e a aversão de muitos às suas práticas actuais; entre a lealdade em relação aos "bons velhos tempos" e a distância amarga que marca o presente, haverá um caminho intermédio feito de intervenção no sentido de uma eventual mudança nas instituições e nas práticas sindicais? Temo que a "rebelião" e o discurso "anti-conformista" fiquem sempre à porta das necessárias mudanças institucionais. Depois, claro, toca a culpar exclusivamente o Governo por isto e aquilo.

4. Organizar-se significa pensar com os sindicatos, o patronato e o Governo o que pode ser feito ao nível estrutural e institucional para melhorar a eficácia do sistema de vocational and educational training nacional que permita acomodar os interesses de todos e transformar-se num círculo gagnant-gagnant, como gosta de dizer a nossa Ségolène. Aqui, as alterações trazidas pelo regime de Bolonha fornecem uma oportunidade que não deve ser desperdiçada para aumentar a articulação entre políticas de formação e a coordenação entre parceiros sociais, de forma a criar algo que se assemelhe a encompassing institutions que permitam o diálogo entre todos e institucionalizem práticas que alimentem o investimento sustentado na formação de mão-de-obra qualificada nos sectores certos (nunca ninguém fala nisto, mas será que a pessoas com formação em economia ou engenharia têm tanta dificuldade de inserção no mercado de trabalho como os formados em antropologia ou literatura? pois uma parte do problema pode estar precisamente aqui) e a facilitem sua inserção gradual no mercado de trabalho. Mas para isso é preciso, de forma inteligente e estratégica, querer ser parceiro social - e não agitar a ideia do "conflito" e da "luta social" como a grande arma do precariado. É esta escolha que é imperioso fazer, é a resposta à eterna pergunta "o que fazer?" que estas pessoas precisam saber dar.

Eu sei que isto é mais aborrecido e menos divertido do que a rebelião. É o que se chama política.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Qualificação e desenvolvimento

Respondendo ao desafio do Hugo, considero, aliás como já disse noutra ocasião, que o desemprego qualificado não pode ser analisado dissociado do deficit de qualificações existente em Portugal. Tirar um curso superior é importante para o próprio e para o aumento da taxa de licenciados do país. Mas, por si, o aumento do número de licenciados pode não ter o impacto esperado se não se equacionar o binómio formação-actividade profissional. Não quero com isto dizer que o objectivo primordial de conseguir um diploma seja o acesso ao mercado de trabalho. Mas, convenhamos, é um aspecto decisivo!
Por este motivo, e tendo por base a experiência que adquiri ao nível da formação no ensino superior e na formação profissional, entendo que todos os cursos deveriam obrigatoriamente ter uma componente de estágio profissionalizante em organizações portuguesas ou no estrangeiro, independentemente do aluno vir a escolher a via de investigação. É muito importante o contacto com a realidade profissional. Esta via seria um meio adequado de promover as ligações (que são imprescindíveis) entre as universidades e as empresas e outras instituições públicas. Deveria valorizar-se os melhores alunos de modo a possibilitar uma continuidade profissional na organização onde desenvolveram o estágio. E, neste âmbito, o Estado teria um papel central na definição dos protocolos com as empresas.
É importante que estas últimas em conjunto com as instituições de ensino se impliquem na garantia das oportunidades profissionais dos seus formandos. Neste sentido, convinha que se incentivasse a mobilização de sinergias fundamentalmente a nível regional. Durante os anos que leccionei no Instituto Politécnico de Beja, uma das coisas que mais me preocupava era o facto de a maior parte dos alunos não vislumbrar qualquer futuro na sua região. Nesta questão é particularmente relevante o papel das cidades universitárias. Em, grande medida, esse estatuto deveria advir não só do facto de estas deterem estabelecimentos de ensino superior, mas, principalmente, por conseguirem gerar nichos de excelência a partir do envolvimento com uma série de agentes locais (públicos e privados).
Volto a frisar mais uma vez: são necessárias políticas integradoras que articulem diferentes sectores (educação, investigação, formação profissional, empresas, instituições públicas, cidades, desenvolvimento regional, etc.), que impeçam com que a qualificação caia em saco roto.

Só mais um brilhante contributo

Nuno Pacheco hoje no "Público":
"Além do que já foi dito e redito sobre a mísera ideia de que há horríveis profissões inferiores e temos que ser salvos delas para abraçar as superiores que a glória universitária nos dá, existe nesta campanha outra intenção. Tipo: frequentar universidades é dar o pão a uns largos milhares de portugueses. Porque, coitadas, têm cada vez menos clientela. Só entre 1997 e 2005, as universidades portuguesas terão perdido 15 mil alunos. Terão perdido também outras coisas, como algum orgulho, eficácia, seriedade e até vergonha, mas disso a propaganda não reza. É preciso que a universidade, mesmo má, resista! Daí a tal campanha, género "tirem um diplomazinho, pelo amor de Deus". O problema é que muitos milhares tiraram o tal diplomazinho e andam por aí a fazer coisas que nada têm a ver com a almejada profissão: vender bugigangas, pizzas ao domicílio, uma temporada num call-center, outra num bar ou restaurante. Licenciados, todos eles, cumpridores da regra "sem-diploma-não-és-ninguém", todos a tentarem ser alguém apesar do diploma. Seria assim o cartaz: Asdrúbal, licenciado, vendedor de quinquilharia, a fazer o mesmo que faria se não tivesse acabado os estudos."
Mais um brilhante contributo para a discussão pública de um dos membros da actual direcção desse jornal sério que é "Público". Um dos problemas do país é ter falta de pessoas qualificadas. Muito jornalismo, aparentemente, sofre também desse síndroma. Caso contrário, seriam ditas menos asneiras, daquelas que podem ser desfeitas num par de minutos olhando para algumas estatísticas. Mas confesso que começo a ficar habituado à incríveis semelhanças de nível intelectual entre as opiniões dos membros da direcção do Público e as conversa de "taxista". São estes que passam a vida a acusar os outros - o "Governo", os "portugueses", o "país", etc. - de incompetência, preguiça, mediocridade e outros pecados com muitos séculos, não é?

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Será assim tão dificil?

No início da semana eu ficava irritado. Agora acho que fico simplesmente triste. Triste por ver pessoas inteligentes escrever coisas como o Miguel Vale de Almeida, que insiste no discurso que esta "vergonhosa" campanha é "elitista", que se baseia na "ideologia dos doutores" e que quer promover a "ideologia capitalista do sucesso".

Miguel, vamos lá deixar os palavrões caros de lado: para quê tanto exagero quando falha tão redondamente o alvo? Não vê que não está em causa transformar ninguém em "doutor" (e se estivesse, qual era o problema?)? Apenas se pretende que o/as miúdo/as adquiram, pelo menos, a escolaridade mínima...Não vê que não se pretende catapultar ninguém para a estratosfera do turbocapitalismo de sucesso? Apenas se pretende garantir os recursos mínimos para o futuro de pessoas que sem eles ficarão entregues ao emprego precário ou ao desemprego crónico...Será que é assim tão difícil compreender este esforço? Será que não compreende o valor de uma certificação quando não se tem nenhuma? Será que não compreende a importância de transmitir a estes jovens a ideia precisamente de que eles podem e devem ambicionar ter algum sucesso na vida, para contrariar o fatalismo crónico que transportam de casa para a escola, e da escola para casa, que marca a sua existência quotidiana, que lhes limita fatalmente os horizontes desde criança?...

Sim, Miguel, estes jovens precisam mais do que ninguém de uma certificação e mais do que ninguém da confiança mínima que podem ter algum sucesso na vida. É disso mesmo que eles precisam. Porque tudo o resto na existência deles os puxa para baixo. Achar o contrário, achar que isso do "doutor" é um luxo, é apenas e só projectar a sua visão do mundo na "análise" (?) deste problema; e achar que isto é conversa delirante do "elitismo" e da "autocracia socialista" é a mais completa indiferença mascarada de preocupação por estas pessoas.

Há alturas em que eu perco esperança na lucidez das pessoas, na razão humana. Isto, felizmente, passa.

Eu gostava de ter escrito isto

«(...) Na verdade, suspeito que por detrás dessa conversa de "todas as profissões são dignas" (quando ninguém diz o contrário) muitas vezes se esconde o desejo das pessoas que têm trabalhos interessantes terem outras pessoas dispostas a fazer (felizes e contentes) os trabalhos "chatos" para elas.»

Ler o post integral do Miguel Madeira aqui.

A tale of two posters


Eu sei que a fotografia não é famosa, mas se clicarem na foto e olharem com atenção q.b. percebem o que quero mostrar no gráfico. No eixo das abcissas (vertical), temos o nível de salário/qualificações; no eixo das ordenadas (horizontal) temos a distribuição da população. O que interessa verdadeiramente para o caso é a curva da distribuição dos salários/qualificações. Ela permite-nos ver a quem se dirigem as campanhas do Governo - a sombreado, praticamente metade da população - e do BE - uma pequena franja, também sombreada, de um sector altamente qualificado.
Uma imagem que vale mais que vários manifestos.

E isto não é um insulto para os empregados de mesa?

O Daniel Oliveira considera a campanha do programa Novas Oportunidades é "ofensiva para quem trabalha em profissões tão dignas como quaisquer outras e que se esforça para cumprir os seus deveres profissionais". O que pensará agora desta campanha do BE? Não é ela igualmente ofensiva para as mesmas profissões, pelas mesmíssimas razões?

Há contudo uma diferença entre as duas campanhas: A do Governo tem como objectivo melhorar as qualificações daqueles que se encontram numa situação desprivilegiada, para que possam melhorar a sua situação profissional e por consequência o nível de vida - i.e. menos desigualdes -, a campanha do BE faz eco das reivindicações de quem tinha a expectativa de se encontrar numa situação privilegiada mas não está - i.e. mais desigualdades.

Para que serve uma qualificação? (I)

1. O comentário que talvez mais vi difundido nos últimos dias em torno desta polémica da campanha do "Novas Oportunidades" reportava-se ao facto de que toda esta história da certificação reproduzir uma espécie de doença bem portuguesa de querer arranjar um “canudo” à força para mostrar ao vizinho, ou coisa do género.
Esta ideia é extremamente difundida, mas transpira senso comum preconceituoso, é verdadeiramente provinciana – quando pretende supostamente criticar o provincianismo… - e tem, infelizmente, a solidez argumentativa e empírica da esferovite. E digo infelizmente porque antes ela fosse real; bom seria que houvesse um stock considerável de qualificações. O que se passa é precisamente o inverso: é a não-objectivação dos saberes de uma larguíssima fatia da população que sabe muito mais – por aquilo que aprendeu, por vezes ao longo de muitos e muitos anos, no mercado de trabalho – do que o seu diploma de 4º classe ou 9.º ano diz.

2. Para ver o que esta situação envolve, imaginem uma economia onde as actividades informais fossem muito mais predominantes que as actividades formais. O resultado é que as trocas não seriam sancionadas pelo mercado, não seriam contabilizadas pelo Estado, e os salários seriam mais baixos, os impostos arrecadados também, as pensões idem, etc. Agora apliquem o mesmo raciocínio à educação: o que as pessoas está como que em estado eminentemente incorporado, tácito, não-codificado. Não apenas todas essas competências que o indivíduo acumulou pela experiência são, neste contexto, razoavelmente opacas para terceiros, como as pessoas correm o risco de verem o seu conhecimento real ser subavaliado por quem compra o direito a usar a sua força de trabalho. Existirá, então, um não-reconhecimento objectivo das competências do trabalhador – com reflexos potenciais, por exemplo, no seu salário ou possibilidades de progressão na carreira. Um trabalhador nestas condições está objectivamente desvalorizado. Do ponto de vista económico, isto gera um potencial subaproveitamento daquele capital humano. Do ponto de vista moral, isto é indigno (e isto responde à questão da suposta indignidade da campanha: é que esta questão não se resolve com elogios bonitos nos blogues ou noutros locais às tarefas árduas dos dedicados trabalhadores).

3. O “Novas Oportunidades” envolve um esforço para manter os jovens na escola e um esforço para fazer os adultos activos regressar a ela. Para os primeiros, incentiva-os a ficar na escola e, se pretenderem, seguir uma formação mais profissionalizante, à medida dos seus gostos e objectivos. Para os segundos, permitirá não apenas certificar os conhecimentos adquiridos ao longo da vida, mas também voltar à escola de modo a aperfeiçoar as competências que quiserem ou forem necessárias para a certificação. O programa envolve, por isso, uma componente de ensino e aprendizagem, em contextos diferentes, em benefício de jovens e adultos.

4. Mas agora imaginemos que o “Novas Oportunidades” não envolvia um esforço para manter os jovens na escola e um esforço para fazer os adultos activos regressar ao seu espaço. Imaginemos, então, que não existe a oportunidade efectiva de uns e outros melhorarem as suas competências; de ganharem mais confiança e eficiência no exercício das suas tarefas (presentes e/ou futuras); de se tornarem trabalhadores mais produtivos; de conhecerem outros trabalhadores e, via a concretização de interfaces entre a escola e as empresas, potenciais futuros empregadores, etc. Imaginemos, assim, na pior das hipóteses, que a certificação não envolve aprendizagem individual ou colectiva de nenhuma espécie: técnico-cognitiva, cultural, social, etc.. Seria como se, num dado guichet, entrasse o portfolio no qual o indivíduo lista as suas competências individuais e saísse, do outro lado da porta-giratória, o certificado. Mas, mesmo nesse caso limite, a certificação seria muito importante.

5. Porquê? Porque o mercado de trabalho está longe de funcionar de forma perfeita e concorrencial, estando antes repleto de incertezas e de incompletudes informacionais: um trabalhador que passou anos e anos no mercado de trabalho mas que não tem qualquer certificado dos seus conhecimentos terá dificuldade em “dizer” ao seu potencial empregador o que sabe; simetricamente, este terá sempre dificuldade em avaliar as competências do primeiro. (claro, há o CV. Mas a informação lá contida pode não reduzir muito a incerteza do potencial empregador e, na medida que funciona enquanto certificador da experiência, o CV tem limitações. Um certificado escolar é um documento muito mais universal). Para um mercado funcionar relativamente bem, tem que haver um ajuste decente entre a oferta e a procura; se o empregador A pretende comprar a força de trabalho do tipo X, e o trabalhador B só tem competência do tipo Z, então este desajuste é nefasto para os dois. É um bocado como comprar “gato-por-lebre”. No caso de A ter efectivamente contratado B apesar das dúvidas que tinha, o desajuste em causa pode provocar ineficácia desnecessária e levar mesmo a que a relação laboral seja terminada (mas isto depende das leis laborais, etc.) sem que nenhum deles tenha ganho muita coisa com o seu estabelecimento, etc.

6. Um certificado reduz a incerteza e emite um sinal do trabalhador para o empregador, diminuindo o estabelecimento de ligações laborais construídas sobre equívocos e faltas de informação. O que para o raciocínio preconceituoso não passa da “aquisição de um canudo”, para os indivíduos que certificam o seu saber trata-se de um “comportamento racional de investimento” no seu futuro, e para os empregadores uma garantia mínima dos saberes e competência na posse do trabalhador. Por isso, a existência de certificações - credíveis, claro - interessa tanto ao capital como ao trabalho.

7. Noutro dia volto a este tema, mas de outro ângulo de análise, menos devedor da economia e mais da ciência política e da história, e aí vou necessitar de vários posts. Passo a passo, espero mostrar porque é que a construção de um sistema de produção e certificação de saberes e competências profissionais eficaz e reconhecido é essencial para conseguirmos construir uma economia não apenas mais moderna, mas sobretudo menos dualizada e inigualitária. E mostrar também porque é que o projecto da esquerda passa de forma tão crucial por aqui (e não apenas, ou nem tanto, a nível nacional, pela multiplicação de pós-pós-doc's).

quinta-feira, 19 de abril de 2007

À espera de um editor português II


Économie de l'éducation, de Marc Gurgand (2005, Editions La Découverte, 121 páginas)

E eles a insistirem nos dez milhões de Cristianos Ronaldo

O Hugo já o referiu aqui. A contra-campanha que o Bloco de Esquerda colocou nas ruas é um exercício demagógico direccionado às elites mais qualificadas, afinal o grosso dos seus eleitores.

Mas o problema nem reside aí. O obsceno, é o BE fingir não perceber - ou, na melhor das hipóteses, não perceber de facto - que o programa "Novas Oportunidades" se dirige aos menos qualificados dos portugueses: os agora adultos que abandonaram a escola muito cedo, e os jovens que se sentem pouco motivados para continuar o seu percurso escolar.

A motivação do programa é só uma: mais qualificação pode significar melhor qualidade de vida. Quem não acredita nisto, é tontinho.

Estes são aqueles que querem ser levados a sério

Eu já tinha dado, pela minha parte, a polémica como fechada. Mas o Bloco de Esquerda (BE) resolveu fazer um favor ao Governo, produzindo este cartaz. Deu ainda mais publicidade à iniciativa "Novas Oportunidades". Ao mesmo tempo, deu ainda mais provas de um impressionante oportunismo e de uma incrível demagogia.

Vou ser frontal q.b. naquilo que tenho para dizer. Eu não queria partidarizar o debate assim, mas vai ter que ser:

1. Comecemos por um elogio: o BE percebe o mínimo de sociologia e de comunicação política. É que o BE, partido que recebe os seus votos de uma fracção da classe média e média-alta qualificada, conhece bem os problemas dos seus votantes. No que toca à educação, os seus problemas não passam pelo drama de famílias cujos elementos têm menos que o 6.º ano, ou menos que o 9.º ano, ou o secundário incompleto; famílias cuja probabilidade dos seus filhos saírem das escola antes do 9º. ano ou antes do 12.º para engrossar o exército de reserva de mão-de-obra da construção civil é altíssima.
Não: o seu drama eventual é terem eventualmente filhos licenciados em variadíssimas áreas - algumas sem expressão de mercado particularmente relevante - que não encontraram um emprego à altura dos seus sonhos. Isto é um problema. Conheço várias pessoas nessas circunstâncias. Mas – e para colocar as coisas nas devidas proporções - o problema dramático do país não é esse. Já escrevi aqui que o desemprego da mão-de-obra qualificada em Portugal é mais baixo que a média na EU. Isto não é dizer que não existem milhares de casos individuais destes. Existem. Mas uma coisa é falar de problemas individuais, outra coisa é falar de problemas nacionais. O problema da nossa população é basicamente este: temos 3,5 milhões de activos com o secundário incompleto; 2,5 milhões e meio destes, têm o 9.º ano ou menos; destes, meio milhão tem menos de 24 anos. Estas pessoas, ao contrário dos (potenciais) votantes do BE, se nada for feito para inverter esta situação, vão ficar uma vida inteira desqualificadas perante um mercado de trabalho cada mais complicado para os que têm baixas qualificações. A prioridade política passa por intervir junto destas populações, as mais fragilizadas, sem recursos da mais vária ordem, não apenas hoje mas, e ainda mais, amanhã. Os que acham que estas coisas da educação e da formação profissional são intervenções menores, quiçá de pendor "tecnocrático", então é porque não são capazes de ligar pequenas medidas com a filosofia política. É que a justificação para acções deste tipo não é apenas económica (os que se podem dar ao luxo dirão "economicista"), ela é também ideológica: é a justificação rawlsiana de dar primeiro atenção aos mais desfavorecidos e de medir o bem-estar social pela elevação dos mínimos sociais. É "aqui" que é preciso agir primeiro e com mais energia, conferindo recursos e acesso a bens primeiros a estas pessoas. Ora, os (potenciais) votantes do BE não fazem parte desta população, mas acham que são igualmente "explorados". No que me parece ser por vezes a incapacidade de pensar comparativamente, e saber as limitações estruturais do país em que vivem, entra-se num discurso miserabilista que baralha as prioridades que para um Rawlsiano estão bem claras: "the underdogs first".

2. O BE é o partido que, em concorrência directa com o PCP – e quem percebe o mínimo de sociologia política sabe como isto influencia o seu instinto de sobrevivência - está sempre contra o nosso modelo de “baixos salários-baixas qualificações”. Muito bem. Estamos todos. Quando o Governo lança uma campanha de incentivo à qualificação da população e de certificação da experiência profissional, o que faz o BE? Pega nalguns exemplos do seu pequeno microcosmos (noutra época chamar-lhe-íamos “pequeno-burguês”) e transmite a mensagem de que “estudar não compensa”.
Escrevi várias vezes aqui que esta conversa de que os estudos não compensam é da mais pura irresponsabilidade. Bastava alguns senhores olharem para umas estatísticas para perceberem que praticamente em nenhum país da UE compensa tanto ter um curso universitário (ver o final do post). E bastava perceberem, se entrassem numa escola básica ou secundária, que o "discurso de que estudar não leva a lado nenhum" é por vezes banal junto daqueles onde é mais importante erradicá-lo: junto dos/as jovens que, oriundos na sua maioria de famílias com pouco capital económico e cultural, acham que não vale a pena continuar na escola porque, estudem o que estudarem, façam o que fizerem, vão acabar como electricistas, serralheiros ou mecânicos. É absolutamente central contrariar este discurso e mostrar-lhes que se ficarem na escola e prosseguirem a escolaridade, as suas hipóteses de não apenas de encontrarem um emprego no futuro, mas de esse emprego ser mais bem pago, mais estável e mais enriquecedor aumentam. O BE, que passa a vida a bradar contra a (real) reprodução das desigualdades perante e pela escola, em vez de ajudar numa campanha para puxar pelos/as miúdos/as e dar-lhes um algum alento e confiança no futuro, fez precisamente o oposto: reproduz e alimenta irresponsavelmente o mesmo discurso de muitos pais e alunos.
Que esses pais e esses alunos, cuja trajectória passada e “mundo-da-vida” presente contribuem para, lamentável e poderosamente, cercear as suas perspectivas de futuro, pensem como pensam e ajam como agem – desvalorizando os estudos, e no limite abandonando a escola – eu percebo. Que o BE reproduza o mesmo discurso só porque uma parte da sua constituency, altamente qualificada (e por isso a anos-luz do problema da falta de oportunidades da maioria da população portuguesa: era tão bom que conseguissem perceber isso, que faz toda a diferença neste problema), atravessa alguns problemas de inserção no mercado de trabalho; e que o BE transforme o problema transitório de uma pequena fracção da população portuguesa numa questão que não apenas se sobrepõe à tragédia nacional da ausência de qualificações da população e do abandono escolar, mas que dá precisamente os sinais errados a quem mais ganharia com o seu investimento em qualificações, isto, é algo não apenas de profundamente lamentável, mas uma verdadeira lição política, e que define o BE: define o seu público, a sua agenda de prioridades, e, permitam-me a frontalidade, a sua hipocrisia.
Com as suas posições elitistas viradas para quem já tem uma qualificação (a campanha é para quem ainda não a tem e corre o risco de nunca a vir a obter!), alimenta, pelo menos simbolicamente (e isto do ponto de vista moral, nestas coisas, conta), para a continuação das elevadas taxas de abandono escolar.
E no futuro, claro, virá a lenga-lenga de que o Governo não faz nada para aumentar a qualificação dos portugueses, e que por isso continuamos numa economia de “baixas qualificações-baixos salários”. Se isto não é hipocrisia, então digam-me o que é.

3. Eu gostava que as pessoas que têm defendido o que têm defendido nos últimos dias - e que têm um pingo de seriedade - olhassem para o seguinte quadro e lessem os seguintes parágrafos. São retirados de um estudo do Banco de Portugal, publicado no seu boletim económico em 2004, Vol.10, nº1 (pp.71-80), assinado por Pedro Portugal (que pode ser encontrado on-line: ir a www.bportugal.pt > ‘Publicações’ > ‘Boletim Económico’). Chama-se, ironicamente, “MITOS E FACTOS SOBRE O MERCADO DE TRABALHO PORTUGUÊS: A TRÁGICA FORTUNA DOS LICENCIADOS”:

«As transformações tecnológicas que ocorreram ao longo das últimas duas décadas, e que favoreceram uma procura crescente de trabalhadores qualificados, surpreendeu o mercado de trabalho português numa situação de oferta insuficiente de qualificações. Este défice de qualificações terá gerado um significativo acréscimo do prémio salarial atribuível aos trabalhadores com curso superior até ao meio da década de noventa. O hiato de salários entre os trabalhadores com e sem licenciatura ter-se-á mantido muito elevado desde esse período. Os vários estudos que estabelecem comparações internacionais dos prémios de licenciatura não divergem na conclusão de que o mercado de trabalho português apresenta prémios invulgarmente elevados. Serão, aliás, os mais elevados da União Europeia. Compreende-se que o desequilíbrio entre as competências procuradas pelos empregadores e as qualificações disponíveis no mercado de trabalho seja muito acentuada porque existe um grande desfasamento entre a proporção de licenciados em Portugal e nos restantes países da União Europeia.
(...)
Este hiato de qualificações demorará várias décadas a ser corrigido.
Neste ensaio procurou-se aprofundar a análise das condições privadas de decisão de investimento num curso superior. Concluiu-se que o benefício monetário esperado da obtenção de uma licenciatura é excepcionalmente elevado, fazendo corresponder a um custo de investimento de cerca de 25 000 euros, um valor acumulado de ganhos salariais de aproximadamente 200 000 euros. A estimativa da taxa real de rentabilidade (15 por cento) excede claramente o retorno esperado de outras aplicações financeiras.

(...)
O investimento em educação gera também benefícios sociais significativos pelas externalidades positivas que desencadeia. Uma economia dotada de uma força de trabalho mais educada é também mais produtiva. De acordo com um trabalho recente da OCDE o défice de qualificações académicas em Portugal será responsável por uma quebra anual de 1.2 do produto interno bruto. Ter companheiros de trabalho qualificados também tende a aumentar a produtividade (e os salários) devido à presença de benefícios sociais da educação nas empresas.

Não se ignora que os jovens recém-licenciados defrontam presentemente dificuldades em assegurar um posto de trabalho desencadeadas pela recessão económica e pelas restrições orçamentais. Mas esta é uma situação conjuntural que não dissipa as vantagens estruturais associadas à detenção dum curso superior. Mesmo em conjunturas económicas desfavoráveis essas vantagens persistem. Em particular, os licenciados continuam a deter uma maior probabilidade de encontrar um posto de trabalho adequado, em comparação com os jovens com menos habilitações académicas».


Estas letras estão em tamanho gigante para ver se a mensagem, finalmente, passa.

P.S.1 - Podem encontrar mais dados esclarecedores aqui.

P.S.2 - Lê-se aqui que «Francisco Louçã afirmou que o BE vai «durante as próximas semanas» promover «colóquios e intervenções públicas» em defesa da qualificação e do emprego e desafiou o primeiro-ministro, José Sócrates, a debater o tema no Parlamento.
«Desafiamos mais uma vez o primeiro-ministro para que no debate mensal da próxima semana debata no Parlamento a questão das qualificações e do emprego», disse, acrescentando que o BE pretende confrontar o Governo com «a inconsistência e a insensibilidade social
. "Insensibilidade social"???? O BE põe um cartaz que sobrepõe o problema de alguns milhares de privilegiados - lamento colocar as coisas assim, mas num país como o nosso ser licenciado é um privilégio (relativo, claro, como todos os privilégios) - ao problema de milhões de portugueses e vem falar de "insensibilidade social" do Governo?
Mas que lata!


quarta-feira, 18 de abril de 2007

Ainda sobre os dez milhões de Cristianos Ronaldo

Veja-se um infantário: uma sala, dez crianças, uma educadora e uma auxiliar. Tipicamente, a educadora tem pouco mais de 30 anos, habilitações académicas superiores e iniciou a sua carreira há menos de 10 anos. A auxiliar, por seu lado, não frequentou um curso superior, tem 50 anos e há quase 20 que todas as manhãs muda fraldas. Os críticos do programa "Novas Oportunidades" - da direita à esquerda - não reconhecem à segunda a ambição de ser como a primeira.

Serviço público

Para futuros 'rounds' sobre o tema em discussão, quem estiver interessado pode passar pelo site da European Expert Network on Economics of Education (EENEE).

Qualificação e mérito

Quanto a esta polémica sobre a campanha em torno do programa ‘Novas Oportunidades’, estou basicamente de acordo com o Hugo. De facto, o importante de toda esta história é que os níveis de qualificação aumentem generalizadamente na população e, sobretudo, nos estratos mais desfavorecidos. No entanto, convém sublinhar um ponto que para mim é o mais problemático desta questão. E formulo-o desta forma: haverá uma correspondência linear e directa entre o aumento de qualificação e o acesso a melhores oportunidades que se reflicta numa efectiva mobilidade social ascendente?
Numa sociedade, com a nossa, em que a cultura do mérito não é devidamente valorizada (penso que isto é relativamente consensual ou, pelo menos, há a noção generalizada de que é assim), o resultado de um elevado investimento na qualificação pode sofrer um forte enviesamento e gerar enormes frustrações pessoais (na medida em que o que na realidade acaba por valer é a posição social de origem do indivíduo e não o seu efectivo mérito), que poderão repercutir-se em conflito social. No fundo, o que quero dizer é muito simples: considero importante que se invista na qualificação apontando para um objectivo preciso (melhores empregos, melhores condições de vida…), mas entendo que se esta medida não for devidamente acompanhada por uma mudança profunda nos procedimentos de avaliação, reconhecimento e certificação do mérito, corremos o risco de criar um hiato entre as expectativas legítimas e a concretização dos resultados.
Ou seja, corre-se o risco de criar mais uma ilusão. Portanto, a mensagem da campanha não deveria só incidir na qualificação mas no esforço e na capacidade que se deposita na actividade profissional (i.e. no mérito), que, por seu turno, deverá ser devidamente reconhecida (socialmente e institucionalmente).

E quantos Cristianos Ronaldos não ficaram pelo caminho?

Já que há muita gente que só consegue discutir estas questões baseando-se em "casos da vida real", vou pegar no post do João Caetano ali abaixo e virar a questão ao contrário. Dá-se por aí o exemplo do Cristiano Ronaldo que abandonou os estudos* e vai tornar-se em breve num dos jogadores mais bem pagos do mundo, um exemplo de sucesso portanto. Procure-se então o contra-exemplo, quantos rapazes deixaram a escola para se dedicar ao futebol na esperança de ser um profissional bem pago e não conseguiram singrar? Quantos ex-jogadores de futebol juvenil não estarão hoje a trabalhar em bombas de gasolina a respirar octano e a receber pouco mais que o salário mínimo? Ou numa linha de montagem, ou outro qualquer emprego mal pago? E se tivessem continuado os estudos, que empregos teriam hoje esses rapazes? Quanto estariam a receber de ordenado ao fim do mês?

*Em rigor não me parece que o Cristiano Ronaldo tenha realmente abandonado os estudos, a escola oficial sim, mas não os estudos. Dedicou-se (leia-se: especializou-se) desde cedo no estudo de uma actividade profissional para a qual é especialmente dotado, e foi para a Academia de Alvalade. Consta até que continua a empenhar-se obsessivamente no aperfeiçoamento das suas competências, treina compulsivamente.

Para o Tribunal Constitucional, já!

«...Continua a discussão sobre a campanha "este é o não-sei-quantos que não acabou os estudos". Ainda ninguém sugeriu que ela deveria pura e simplesmente ser retirada e apresentado um pedido de desculpas pelos responsáveis. Que eu saiba o classismo - e então oficial! - também está implicitamente proibido no artº 13º da Constituição. E já algum jornal confrontou os responsáveis?»

Miguel Vale de Almeida, n'Os Tempos que Correm

O Zèd dizia, lá atrás, que à distância, esta polémica lhe parecia surreal. Eu confesso que, depois do que tenho visto, já nada me espanta. Mas esta ideia de que a campanha do 'Novas Oportunidades' é "inconstitucional" está, para já, no topo das coisas inacreditáveis que para aí tenho lido (e falo de pessoas por quem tenho estima intelectual).
O 'classismo' de todos os dias, reproduzido no mercado de trabalho, tão brutal como invisível, esse, não interessa. O que interessa mesmo é que, quando alguém alerta para o problema para melhor lutar contra ele, ah, aí não, o 'classismo' tem de ser encoberto, escondido...

Não sei se o Zèd concorda com esta co-optação, mas o que ele escreveu é bom demais para ficar ali escondido na caixa de comentários:

"Que o discurso do pobre mas honrado venha de uma direita reaccionária não me espanta, mas que venha da esquerda que se quer igualitária é que já me surpreende mais. Esse romantismo "da gente que trabalha uma vida inteira" é apenas um equívoco, é contra isso que a esquerda deveria lutar. Qual é a dignidade ou a honra de se trabalhar uma vida inteira, mal pago, sem sequer ter usufruido de um dos direitos fundamentais que assiste a um cidadão: o direito à educação? O que é que deve ser valorizado pela esquerda?"

Desta - do Miguel Vale de Almeida - e doutras contribuições para o debate, eu retenho pelo menos duas coisas:
- que o síndroma do "politicamente correcto" está longe de se resumir às questões "culturais".
- que os gostam de protestar tantas vezes contra a indiferença da "esquerda caviar" são os que mais desvalorizam o que de mais valioso os trabalhadores não-qualificados podem adquirir e fazer toda a diferença no seu percurso profissional. Ai, uma qualificação, um diploma, que coisa tão 'rasteira'!

P.S. - Já agora gostava de saber se as pessoas se apercebem que dizer que tudo se resume a "arranjar o canudo" revela um reaccionarismo não apenas impressionante como, sobretudo, perigoso, porque mascarado de radicalismo progressista; e gostava de fazer um estudo para ver a correlação entre os que reproduzem este discurso e o seu grau de escolaridade. Talvez se concluísse que os que devem o seu estatuto profissional e/ou social, em grande medida, à posse do dito gostam particularmente de fazer uso do argumento do "canudo".

terça-feira, 17 de abril de 2007

Dez milhões de Cristianos Ronaldo (*)

Não é uma ideia peregrina, pelo contrário. Mas não deixa de ser fantástico constatar que há quem pense, de facto, que o percurso de sucesso do Cristiano Ronaldo é multiplicável por dez milhões. Assim, como que por osmose. É a chamada "geração espontânea de sucesso" e a Real Academia Sueca já se prepara para lhe atribuir o Nobel da Economia.

(*) Obrigado, Hugo, pelo excelente post.

Caro Rui,

Li o teu artigo no "Público" de hoje. Fico desiludido que à esquerda as pessoas tenham estas opiniões e aproveitem pequenas coisas que possam merecer discórdia legítima (quem está no cartaz, em que posição, em que sítio) para atacar o núcleo de uma medida que é absolutamente necessária para o país.

Reconhecendo apesar de tudo a "boa vontade" que subjaz à realização da campanha, escreves que "a campanha tem um fundo pernicioso que vale a pena comentar". Qual é ele?
"Poderia começar-se por considerar que ela é contaminada por uma cultura que usa a celebridade como medida de todas as coisas. Nessa cultura, os estudos aparecem como meramente instrumentais na obtenção do "sucesso", como para as crianças a sopa é apenas a provação a que são forçadas pelos pais para poder chegar à sobremesa. O pior, como sabe qualquer pai ou mãe, é que as crianças são rápidas a arranjar contra-exemplos. Então que tal o Cristiano Ronaldo que não acabou os estudos (e vai ser o jogador de futebol mais bem pago do mundo)? E o José Saramago que não acabou os estudos (e é só o Prémio Nobel da Literatura)?"

Rui, tu criticas a estratégia de comunicação mas, agora sinceramente: achas que se fosse alguém não conhecido alguém olhava para o cartaz? Imagina que era um trabalhador anónimo, e um slogan do género “Não desistas, fica na escola” (ou outro do género). Achas que a campanha tinha algum impacto? A resposta parece-me óbvia. O Pedro Abrunhosa está lá porque todos o conhecem, e é o facto de ser uma celebridade que pode emprestar força à mensagem. É só isso. Não vale a pena extrapolar e começar com moralismos do género que a celebridade é “a medida de todas as coisas”. Quanto aos contra-exemplos, eles existem claro. Mas é precisamente por isso que a campanha existe – já chega o que as crianças pensam e dizem sobre os Cristianos Ronaldo deste mundo. É preciso mostrar-lhes que esses casos são excepções. E era mais interessante e útil que as pessoas que sabem que eles não passam de excepções – como tu sabes – sublinhassem essa mensagem.

Escreves ainda que: "No nosso tempo e no nosso país o que não falta é gente que acabou os estudos e que desempenha trabalhos mal pagos e mal considerados. Há-os às dezenas em cada call-center, essa espécie de manjedouras onde são despejados depois da universidade e trabalham à comissão pela venda de cartões de crédito. Inevitavelmente, esta falsa promessa de sucesso através dos estudos é para eles uma memória amarga".

Talvez seja verdade para alguns, mas então o que fazer? Teria sido melhor que eles tivessem abandonado a escola antes para trabalhar em empregos porventura mais exigentes fisicamente (eu sou daqueles que considera um avanço "civilizacional" ter que pegar num telefone num call center em vez de carregar pedregulhos de 40 quilos na construção civil)? Ou, mesmo que fosse para fazer o mesmo emprego, para ficar toda a vida sem um nível de escolaridade que lhes permitisse ter outros horizontes, concretizáveis se calhar não no par de anos a seguir a terminar o 12.º, mas no futuro próximo? Atenção: tu dás o exemplo relativo às pessoas que acabaram a universidade e trabalham num call-center, mas o público desta medida não é esse (admito que te tenhas enganado, mas esse lapso pode mostrar o teu preconceito subliminar quanto à relativa irrelevância da melhoria das qualificações em geral, falemos de que nível de ensino for). Como já escrevi várias vezes neste blogue, as nossas elites (da qual eu e tu fazemos parte) preocupam-se com o desemprego (ou sub-emprego) qualificado como se fosse uma tragédia nacional - quando a verdadeira tragédia nacional é o abandono escolar em vários momentos precoces do ensino secundário. A modernização progressiva da economia será capaz de absorver muitos que hoje trabalham em call-centers, porque as suas qualificações permitem-lhes ter outros horizontes. Não hoje, não amanhã, mas num futuro próximo. E falo da maioria, não de todos (e tu sabes como é fácil fazer reportagens sobre esta questão a partir de um grupo de pessoas que não representa a maioria). Isto não é wishful thinking; é o que se passa, com um grau elevado de probabilidade, em qualquer economia moderna. Se olhares mais para as estatísticas e menos para os casos que conhecerás pessoalmente, verás que tenho razão. Inversamente, a modernização progressiva da economia deixará para trás os que não têm o 9.º ou o 12.º. Eles ficarão muito mais expostos ao desemprego, e os seus salários sofrerão uma pressão enorme. A precariedade, que eu sei que te preocupa, encontrará neles os primeiros alvos. A mensagem que passas, apoiando-se em alguns factos reais hoje (e todas as teses erradas têm um elemento de verdade, precisamos é de saber avaliar a sua relevância, empírica e normativamente), é a errada para o futuro. Era isso que era preciso que as pessoas percebessem e interiozassem. Dizer ou passar a imagem implícita que estudar não compensa é dar o sinal errado, porque é contribuir para que as pessoas não valorizem o elemento mais valioso na construção do seu percurso profissional. Eu gostava que reflectisses sobre isso.

Terminas escrevendo que: "Ao apresentar o estudo como mero instrumento da profissão, a profissão como mero instrumento do sucesso, e o sucesso medido pela cultura de celebridade, acabamos a degradar tanto o conhecimento como o trabalho e a realização pessoal".
Mas, Rui, essas pessoas não são o público dessa campanha. As que gostam de estudar e se realizam pelo brio e pelo drive intelectual-profissional não precisam dela. Ainda bem que eles existem. Mas o público desta campanha é aquele que acha que não vale a pena estar na escola porque, acham eles, estudar não vale a pena, porque aconteça o que acontecer, eles vão acabar como serralheiros, mecânicos, seguranças, ou empregados da construção civil. A campanha pretende mostrar que eles podem fugir a esse quase-destino sociológico se souberem valorizar aquilo que deve ser valorizado. E se o fizerem, se tiverem qualificações que lhes permitam ter outros horizontes e oportunidades profissionais, mais probabilidades têm de fazer algo que gostam - ou que possam vir a gostar.

Que esses jovens, a partir das fronteiras do seu "mundo-da-vida", não compreendam isso, eu percebo. Que pessoas inteligentes que passaram a vida a estudar e que devem em larguíssima medida o que são hoje a esse capital acumulado não percebam, isso já me deixa deveras espantado.

Por fim, o que prova ainda esta polémica em torno da iniciativa (e da campanha) "Novas Oportunidades"? A minha hipótese é que as elites não percebem que quando se fala para jovens que estão a ponderar sair da escola no fim do segundo período e a acabar o 9.º ano sequer, os códigos e o conteúdo da mensagem tem de ser diferente. Que tu ou muitas outras pessoas que escrevem nos jornais, altamente qualificadas e habituadas a pensar, escrever, e manipular símbolos e livros todos os dias, achem a campanha ridícula, acaba por ser (infelizmente) natural. É que ela não foi feita para ti nem para os outros intelectuais do nosso país.

Seu ;),
Hugo

P.S. - "Até pode ser que o governo tenha uma imbatível estratégia de comunicação. Mas se assim for, fica por explicar como é que o próprio governo põe nas ruas uma campanha sobre a importância de acabar os estudos no auge de uma polémica sobre os estudos do Primeiro-Ministro". As campanhas, com todos os prazos e custos humanos e financeiros, demoram tempo a planear, e não podem ser suspensas assim de um dia para o outro sem razão de maior. Era o que faltava suspendê-la pelo caso em questão.

Sobre as "Novas Oportunidades" ou o síndroma do DIY Economics

A iniciativa "Novas Oportunidades" ameaça-se transformar numa comédia de erros de interpretação - por parte sobretudo de quem não precisa delas. O artigo de Vitor Malheiros hoje no "Público" é a prova de que as pessoas não percebem a raiz do problema, não percebem o que está em causa e continuam a viver, pensar e escrever a partir de histórias que ouviram em criança em vez de perder uns minutos a olhar para umas estatísticas e a perceber que o que dizem está ancorado no senso comum.
Primeiro é história do sacristão que é despedido da paróquia por não saber ler. Uma vez na cidade, consegue montar uma tabacaria e garantir alguma prosperidade económica.
Esta uma história é sem dúvida muito bonita - mas Vítor Malheiros tem formação científica suficiente para saber que as políticas públicas não se fazem de histórias que se contam às crianças antes de adormecer mas fazem-se sustentadas em estudos empíricos onde a componente quantitativa é central. A primeira pergunta que devemos fazer é: quantas pessoas tiveram a "trajectória de sucesso" do nosso sacristão? Se a sua expressão estatística for residual, então ela não serve de muito. O sucesso económico individual e nacional não se fazem de (a)casos individuais, mas de políticas e instituições credíveis e eficazes. Segunda: se o sacristão soubesse ler e escrever, não podia ter tido logo de antemão uma trajectória que lhe permitisse ter um emprego mais seguro e mais bem pago? E assim por diante.

A moral de se achar que esta história tem algum valor para orientada a tomada de decisão política é de que as pessoas - e falo de pessoas qualificadas que sabem que a política não vive propriamente de ideias que caem do céu ou que se baseiam na história do familiar de A ou do vizinho de B - não se informam mínima e devidamente antes de fazer um julgamento sério.

2. "A história tem várias morais e uma delas pode ser que nem a formação escolar é uma garantia de sucesso nem o empreendedorismo se aprende na escola."

Que sentido é que esta crítica faz quando precisamenteo o objectivo do programa é certificar as qualificações que se aprenderam FORA DA ESCOLA? Para além disso, os conhecimentos que o programa vai permitir aos alunos aprender, se necessitarem e/ou quiserem, terão um cariz eminentemente profissionalizante, facilitando a sua inserção presente e futura no mercado de trabalho.

3. Vitor Malheiros afirma ainda que "o desprezo pelo trabalho manual (que em Portugal é sempre visto como "não qualificado" ainda que o não seja), o desprezo pela manipulação material e a ideia de que a qualificação apenas existe nas profissões de "manipuladores de símbolos", a ideia de que a casta profissional a que se pertence é mais importante do que a competência que se possui no seu trabalho. São preconceitos que explicam em grande parte o atraso português".

Na medida em que é verdade que em Portugal existe um desprezo pelo trabalho manual, o que o "Novas Oportunidades" pretende é precisamente valorizar, ou mais propriamente, dar valor de mercado a esse trabalho manual. É que valorizar o trabalho manual não é dizer muito bem dele nos jornais, nas conversas de café e nas histórias para adormecer as crianças. É certificá-lo e, com isso, emitir sinais aos empregadores que aquela pessoa que possui o certificado de qualificações X, está em condições de cumprir a tarefa Y. Não estamos aqui na dimensão romântica da valorização do trabalho A ou B; estamos a tratar de questões essenciais da forma como funciona - ou não funciona - o mercado de trabalho; e quando este não funciona, os mais prejudicados são aqueles que, tendo experiência acumulada e não a tendo certificada, têm menos oportunidades para singrar no mercado de trabalho. É isto a que chamam "desvalorizar" o trabalho manual? Desvalorizado já ele está hoje na ausência da sua certificação!

4. "A campanha é, finalmente, tanto mais tonta quanto a formação escolar pouco ou nada garante em termos de emprego".

O que se pretende exactamente dizer com isto de "garantir" emprego? Se a formação escolar não "garante" emprego, ela coloca as pessoas numa posição muito mais favorável perante o mercado de trabalho. Isto é inequívoco e já mostrei isto várias vezes aqui no blogue (por exemplo, aqui).
Pelo contrário: a não formação escolar garante, essa sim, a permanência ao longo da vida em empregos mal pagos e - perante a queda do valor de mercado do trabalho não-qualificado em economias da OCDE - crescentemente instáveis. Ela aumenta a exposição dos trabalhadores ao desemprego. Esconder este facto não é apenas ignorância: é também irresponsabilidade das elites.

Dito isto, e porque as pessoas parecem não perceber para que serve uma uma qualificação, parece-me que é importante voltar ao ponto zero da discussão. Fá-lo-ei brevemente. A maioria das pessoas que pensam e escrevem coisas semelhantes às de Vitor Malheiros parece ter saltado este ponto essencial do problema. E enchido o lugar vago com o senso comum do costume, algo semelhante ao que John Kay chama de DIY (Do It Yourself) Economics: "the false propositions which people who have not studied economics know instinctively to be true".

A única coisa que me deixa tranquilo é que o (in)sucesso do programa não se medirá pela opinião que a nossa intelligentsia tem dele.