Mostrar mensagens com a etiqueta Aquilino Ribeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aquilino Ribeiro. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Lisboa contada por Aquilino

«Chegámos a Lisboa na manhã tépida, de céu ambarizado por um sol que há cinquenta anos a esta parte era raro faltar à cidade que deixou de ser de mármore e granito para ser, no seu maior dimensional, de tijolo mal cozido e cimento roubado. E, conduzidos por Costa Nunes, fomo-nos hospedar no Hotel Portugal, que fazia esquina para o Largo do Pelourinho. O meu quarto era no terceiro andar. Eu via com olhos, não pasmados, que nunca soube o que era pasmo, mas abertos à compreensão, as grandes e amarelas tartarugas dos carros eléctricos vir rolando dos lados do Terreiro do Paço, tilintantes e pletóricas de gente. Logo após vinha o carro do Chora, com o automedonte de longos bigodes retorcidos a reger de chicote vivaz o tiro de três machos pimpões, o condutor de boné de pala, e atropeladamente naquela arca de Noé peixeiras, vendedeiras de hortaliça e de coelhos mansos, operários com suas ferramentas, em suma, segundo o termo das Ordenações Manuelinas, os misquinhos duma capital. O bulício ficava muito aquém do sonhado, embora me desse uma ideia numérica de disparidade em comparação com as ruas Formosa ou Direita, de Viseu. Mas a Câmara de tão bela frontaria, o pelourinho especioso, coroado pela esfera armilar, os prédios de roqueira solidez, incutiam a noção de capital dum reino, batida pelo tempo, com a velha epopeia impressa em suas pedras e arruados. Todavia não pressenti o sumptuoso, nem o deliquescente duma urbe meridional, de que os poetas e romancistas faziam cavalo de batalha nas suas especulações cantarizadas. Antes havia nela, nos habitantes, no céu, nas coisas, uma sobriedade afável que era grata de sentir. E por isto tudo, por essa desilusão literária, e porque representava para mim um degrau montante na escala dos conhecimentos, fiquei a adorar Lisboa desde esse dia.»

Aquilino Ribeiro, Um Escritor Confessa-se, Lisboa, Bertrand Editora, 2008, pp. 46-47.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Auto-retrato de Aquilino enquanto jovem

A segunda edição revista e aumentada de Um escritor confessa-se de Aquilino Ribeiro (1885-1963) foi publicada em 2008 e lida por mim ao sabor do centenário da I República. A primeira edição deste texto autobiográfico de Aquilino Ribeiro saiu, postumamente, em Junho de 1974. A intenção original do autor era publicá-lo em 1961 mas, no contexto da perseguição que a ditadura lhe moveu por causa do romance Quando os lobos uivam, decidiu adiar a saída do texto. Em 1963 despedia-se de uma vida que deixou muito por contar.
O seu relato termina em 1908, a sair de Lisboa rumo a Paris - «com a minha “valise”, o meu monóculo a armar ao janota, tomei o trem de luxo. Em Salamanca entraram um cardeal e um grande de Espanha. Passada a fronteira, lá para Bayonne, subiram duas bonitas francesinhas. Ao Diabo a sisudez e o medo da vida!»

A «confissão» de Aquilino é o relato da transformação de um bárbaro (a expressão é dele) vindo das Beiras no homem de letras que se licenciará em Filosofia em Paris e casará com a filha de um advogado e banqueiro alemão. Um trajecto escrito com linhas muito tortas: estuda para a «carreira eclesiástica» em Viseu e no seminário de Beja, desiste de ser padre e abraça as ideias do livre-pensamento e do republicanismo, vagueando pela plebe de Lisboa e pela aldeia dos pais. Ganha a vida escrevendo traduções que não assina. Em casa dos pais, na Beira, justifica a cama e a roupa lavada dedicando-se à caça. Em Lisboa adere à Carbonária, uma organização que conspirava para derrubar a monarquia, e conhece de perto os regicidas Buíça e Alfredo Costa. Dá-se também com conspiradores revolucionários que não passarão à História pois morrem quando montam bombas no quarto alugado de Aquilino e se dá uma explosão. Ojovem proletário das letras é preso. As peripécias do julgamento e da passagem pela prisão, donde foge, são contadas com minúcia.

Aquando da transladação dos restos mortais de Aquilino para o Panteão, criou-se uma polémica, pois há quem o considere um regicida, ou pelo menos, um cúmplice do assassinato de D. Carlos I. Aquilino não se acusa e não me parece que reescreva a sua história com medo das represálias. A propósito da identificação de um homem que julga implicado no homicídio do rei escreve: «Se ainda é vivo, pode dormir a sono solto. Já lá vão 54 anos. Prescreveu.»

Apesar da metaformose do «bárbaro» em «janota» parisiense, Aquilino recusa o olhar de superioridade sobre o povo e a sociedade portuguesa, característico de tantos intelectuais do seu tempo e de todos os tempos. Antes se compraz em enriquecer o texto com vocábulos populares, em acentuar que é feito do mesmo barro que todos os outros e se escapou do atoleiro foi porque «Valeu-me sonhar que é um modo de propiciar as coisas e abrir o caminho à vontade.» As suas venturas e desventuras são contadas num tom picaresco. O «monóculo a armar ao janota» é o disfarce de um Sancho Pança erudito e inteligente.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Tesourinho deprimente

E como é que, de repente, uma reportagem sobre Aquilino Ribeiro e Casa Grande de Romarigães se transforma num sério candidato a tesourinho deprimente?
Para quem não viu, hoje, depois do Jornal 2, ainda pode ver amanhã às 12.30h e em simultâneo na RTP1, Internacional e África. Na internet, infelizmente, só pode ser visto aqui.