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domingo, 28 de agosto de 2011

À descoberta do arinto (para o Sérgio)

Não é fácil topar o vinho pretendido quando se procura uma casta em particular, isto em Portugal e Espanha, que noutros países não sei o que se passa. A maior parte das empresas não identifica as castas, ou as percentagens, ou então há pouca informação na imprensa especializada sobre os chamados vinhos varietais ou monocastas.
Tudo isto a propósito duma casta bem portuguesa, a Arinto, que apesar da sua distribuição nacional, é pouca usada de modo isolado. Ainda assim, algumas casas apostaram neste tipo de uva branca bem seca, cítrica e mineral. Além das que refiro nestes 2 posts de 2007, destaque ainda para o Quinta da Murta (Bucelas), Casa de Paços Reserva (Porto), o Grand'Art (Estremadura) e o Quinta do Avelar (Bucelas). Aproveito para ressalvar que o Quinta da Murta corrente é agora distribuído pelo Pão de Açucar, o reserva surgindo noutros pontos.
Dizer ainda que a Região Demarcada de Bucelas, hoje em dia o espaço por excelência dos arintos, fez recentemente 100 anos e teve uma mostra específica em espaço público (vd. imagem ao lado).
Misturada com outras castas há uma infinidade de arintos. Mas para quem quer apenas ter uma ideia do que há esta é já uma boa ajuda.

domingo, 7 de novembro de 2010

Uma festa dos sentidos

Esta tarde aproveitei para fazer uma experiência curiosa: ir a um Encontro com o Vinho, uma espécie de festa do vinho, onde os produtores se enclausuram em mini-pavilhões para mostrar orgulhosamente os seus néctares. Em redor, uma multidão efusiva, de nariz no ar, a ver onde parar ou a estender o seu cálice para provar vinhos dos mais diversos, desde verdes, brancos, tintos a espumantes e licorosos.
Este ano, o evento organizado pela Revista de Vinhos tinha a novidade de provas verticais de vinhos como o Soalheiro, mas infelizmente esta prova parece que esgotou o respectivo stock para domingo, o que foi desagradável para quem tenta degustar, há algum tempo, o Soalheiro Primeiras Vinhas. Provei um Soalheiro Dócil e não gostei nada, é daqueles que não é carne nem peixe. Também fiquei algo desiludido com o Passadouro tt reserva 2008 e o Passadouro br 2007, pois pareceram-me aquém do Passadouro tt 2007 e do Passa tt 2007, vinhos enérgicos e agradáveis. O generoso moscatel roxo Casa Agrícola Horácio Simões também não me convenceu, continuo a preferir o rival da Bacalhoa.
Tirando estes precalços e o facto de nem todo o vinho exposto estar à venda na loja à saída, é um espaço útil para se provar vinhos que nos tentam. Além disso, o Concurso "A Escolha da Imprensa" é outro chamariz, pois aí se apresentam vários vinhos premiados pela crítica especializada. Entre os que experimentei, gostei do Dona Berta tt, do Esporão tt e do Ermelinda de Freitas br. Não gostei do Loridos espumante rosé, pois sabe a framboesa, que é um sabor que não aprecio isolado no vinho, mas gosto do Loridos espumante vintage.
Aqui ficam umas notas despretensiosas, para quem também tenha interesse em conhecer novos vinhos.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Pinga seleccionada para 2010

Aproveitando a boleia dos balanços de ano, e após revisão das críticas de vinhos no sup.º Fugas do Público de 2009 (por Rui Falcão e Pedro Garcias), aqui fica uma mini-selecção possível, privilegiando a melhor relação qualidade/preço, além dalgumas preciosidades, para excepcionais ocasiões festivas. Porque os balanços também podem servir para ajudar no futuro...

1. Vinhos tintos:
>Couteiro-Mor Grande Escolha Tinto 2006 (qualidade/preço: 9 em 10; preço: 9€; Alentejo)
>Fuseiro Touriga Nacional 2003 (7,5; 6€; Douro)
>Quinta do Mouro 2005 (Alentejo)
>Quinta Seara de Ordens Colheita 2006 (9; 5,8€; Douro; castas tourigas e Tinta roriz)
>Montes Ermos Grande Reserva Tinto 2004, da Ad. Coop.ª de Freixo de Espada à Cinta (8; 9,4€; Douro; id.)
>Vinha do Monte Tinto 2007 (8,5; 4€; Alentejo)
>Vinha Paz Colheita 2007 (8; 9€; Dão)

2. Vinhos brancos:
>Altano Branco (8,5; 3€; Douro)
>Casa de Santar Branco Reserva 2008 (8; 7€; Dão; castas Encruzado, Cerceal e Bical)
>Chaminé Branco 2008 (8; 6,5€; Alentejo; castas Viognier, Antão Vaz, Verdelho e Semilão)
>Frontaria Branco 2008 (8,5; 4€; Douro; castas F. Pires, Malvasia e Códega do Larinho)
>Quinta do Escudial Branco 2008 (8; 4,3€; Dão; castas Bacelo, Rabo de ovelha e Malvasia Fina)
>Quinta dos Carvalhais Duque de Viseu Branco 2008 (9; 4,2€; Dão; castas Encruzado, Cerceal, Bical e M. Fina)
>Vila Real Grande Reserva Branco 2007, da Ad. Coop.ª de V.R. (9; 5,5€; castas F. Pires, Viosinho e M. Fina; prémio melhor branco do Conc.º Mundial de Vinhos de Brx. 2009)
>Vinha do Monte Branco 2008 (8; 3,8€; Alentejo)

3. Vinhos verdes brancos:
>Casa de Paços 2008 (8; 3,8€; sub-região Cavado)

4. Vinhos rosados:
>Colecção Privada Domingos Soares Franco Moscatel Roxo (7; 11,6€)
>Muralhas Rosé 2008 (9; 3,5€ no P.D.)

5. Vinhos de colheita tardia:
>Aneto Colheita Tardia 2007 (8; 10-16€)

6. Vinhos espumantes:
>Castas de Monção Espumante 2006 (8; 6,5€ no Jumbo)
>Montanha Real Bruto Reserva 2002 (8; 15€ no Continente)

7. Vinhos generosos:
>Bacalhôa Moscatel Roxo 1999 (8,5; 17€-1/2l)
>Blandy’s Malvasia Colheita 1990 (8,5; 40€)

Do top ten da prova do New York Times a 20 vinhos tintos do Douro
(Eric Asimov e convidados, NYT, 14/X/2009):
>Altano Tinto 2006 (10; 6,7€; Douro)
>Altano Tinto 2007 (9; 2,7€; Douro)

PS: uma nota mais: em Abril passado foi criada a Região de Vinhos de Lisboa, que substitui a antiga Região da Estremadura e agrega Colares, Bucelas, Carcavelos, Óbidos, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Encostas D’Aire e Torres Vedras. São 35 mil hectares de vinha que produzem 20 milhões de garrafas, 45% delas para exportação (Angola, Bélgica, RU, Escandinávia, Canadá, EUA, Alemanha e Brasil). A mudança deveu-se a estudos de mercado terem concluído que a marca Lisboa tem maior notoriedade externa, mais fácil leitura. Também foi criada a nova Indicação Geográfica Tejo, para os vinhos regionais (fonte: «Lisboa dá nome a nova região de vinhos», Público, 2/V/2009, p.35-Fugas).

domingo, 27 de dezembro de 2009

Quando Dickens brindava com vinho do Porto (II)

- Passa-se alguma coisa com o senhor Snodgrass, senhor? - perguntou Emily, muito ansiosa.
- Não se passa nada, minha senhora - redarguiu o desconhecido. - Partida de críquete... jantar... festa de arromba.... canções fantásticas... Porto velho... clarete... muito bom, vinho belíssimo... O vinho, minha senhora, vinho...
- Não foi o vinho - murmurou o Sr. Snodgrass numa voz entrecortada. - Foi o salmão.
(Pode ser qualquer outra coisa, mas o vinho nunca é causa de nada nestas circunstâncias.)
- Não era melhor eles irem para a cama, minha senhora? - perguntou Emma. - Dois dos moços podem conduzi-los até lá acima.
- Eu cá não vou para a cama - declarou o Sr. Winkle, peremptório.

Charles Dickens, Os cadernos póstumos do Clube Pickwick,
Lisboa, tinta-da-china, 2009, p. 148 (v.o. de 1837)


domingo, 6 de dezembro de 2009

Quando Dickens brindava com vinho do Porto

O Sr. Tupman reiterou o seu desejo ardente de ir à festa; mas, não achando resposta nos olhos escurecidos do Sr. Snodgrass, nem no olhar absolutamente abstraído do Sr. Pickwick, concentrou-se com aplicação no vinho do Porto e na sobremesa que acabavam de chegar à mesa. O criado retirou-se, deixando o grupo apreciar aquele par de horas sossegadas que se sucedem ao jantar. [...]
Passaram o vinho e pediram mais. O convidado falava e os pickwickianos ouviam. O Sr. Tupman sentia cada vez mais vontade de ir ao baile. O semblante do Sr. Pickwick iluminava-se de uma expressão de filantropia universal; e o Sr. Winkle e o Sr. Snodgrass dormiam profundamente.
Lisboa, tinta-da-china, 2009, p. 52/3 (v.o. de 1837)


PS: livro da colecção Ricardo Araújo Pereira, que também o prefaciou e apresentou ao vivo e a cores!

domingo, 22 de novembro de 2009

Lá se safaram o vinho, o azeite, o tomate e a fruta, ao menos isso

«Vinho será de "excelente qualidade" este ano, diz o INE»

domingo, 20 de setembro de 2009

Dinner for one: imperdível ementa do melhor humor inglês

O sketch que segue em cima é um dos melhores pitéus do humor inglês. O seu argumento é dos anos 1920, e o actor Freddie Frinton interpretou-o pela primeira vez em 1945. Nos anos 50, adquiriu os respectivos direitos para o levar aos palcos ingleses sem ter que pagar royalties. O êxito foi tal que foi comprado para a Broadway.

Também os alemães se interessaram por ele, e a peça foi representada ao vivo no programa dum entertainer famoso, Peter Frankenfeld, em 1963. Novo sucesso levou à sua gravação para televisão no Hamburg's Theater am Besenbinderhof, dois meses depois, sob direcção de Heinz Dunkhase (é esta versão da NDR que as tv's actualmente mais passam). Em 1972, uma tv alemã decidiu retransmitir o sketch na passagem de ano e, desde então, tornou-se uma tradição alemã dessa quadra!!! Mais tarde sucedeu o mesmo na Escandinávia, Áustria, Holanda, Austrália, etc. E esta voga deve-se, em grande medida, ao facto de ser considerado um marco do humor 'tipicamente' inglês. Curiosamente, caiu no esquecimento na própria Inglaterra, dando razão ao provérbio «santos da casa não fazem milagres».

Outro aspecto curioso é que o Frinton deste sketch, excelentemente acompanhado pela actriz May Warden, faz lembrar passagens doutros actores como Vasco Santana (em O pátio das cantigas, salvo erro) ou Jacques Tati (nos filmes do sr. Hulot). Aliás, sobre as semelhanças com Vasco Santana descobri outro sketch de Frinton, The drunk, que ainda é mais surpreendente.

A versão que aqui fica tem c. de 10 minutos e é a preto-e-branco, uma opção seguida pela maioria das tv's ainda hoje em dia. Porém, há também esta versão a cores, com um intróito dum apresentador alemão (pode-se passar adiante), mas sem a banda sonora de acompanhamento. Existe uma versão paralela da que apresento, mas com outros ângulos de filmagem e a sincronização não parece tão boa.

Ah, é verdade, e escolhi fazer este post hoje pois cabe às mil maravilhas na rubrica «vinhos ao domingo», como podereis constatar. Além de ter vinho do Porto, claro, não fosse um repasto 'tipicamente' inglês!!

Fontes: BBC; Everything2; Wikipedia; filmografia completa de Frinton aqui.

domingo, 2 de agosto de 2009

Vinhos do Algarve: chegou a hora!

Muitos vaticinaram o fim desta região vitivinícola, até porque a situação estava bem decadente, à semelhança, aliás, do que ocorreu com o Bucelas.
Porém, graças à persistência e engenho de vários empreendedores e especialistas, foi possível relançar uma região inteira.
Nesta lista inclui-se o cantor Cliff Richards, com os seus vinhos Vida Nova e Onda Nova. Mas há mais para escolha e prova: Paxá, Cabrita, Barranco Longo, João Clara, Alvor, Tapada da Torre, Fuzeta e Quinta do Francês.
A Região de Turismo tem vindo a promover este sector, produzindo o Guia de Vinhos do Algarve, lançado no passado mês de Junho. Além de notas de prova, contém uma ficha técnica para cada um dos 75 vinhos seleccionados (temperatura ideal de consumo, castas usadas, etc.), lista dos 16 produtores regionais e intróito histórico com início na presença árabe, tudo envolto num design arrojado.
Uma parte destes vinhos tem vindo a ser premiado em eventos internacionais desde 2007, pelo menos (vd. exemplo recente aqui).
A lista de vinhos que vos deixo supra é uma mini-selecção do crítico Rui Falcão, recentemente divulgada (excepto os 2 últimos), e veio mesmo a calhar (vd. «Ousar experimentar», Público, 25/VII/2009, p. 32-Fugas).
No adegga, um site social temático, pode aceder-se a notas de prova dalguns destes vinhos.
Então boa sorte e boas provas!!

domingo, 24 de maio de 2009

Nas feiras doutros tempos

«Aquando da feira [de Alcântara], o bairro ganhava outra cor, outra vida. [...] A entrada do recinto ficava reservada para as barracas consideradas pacatas e decentes (queijadarias ou cervejarias) [...]. Por estes espaços confraternizavam não só grupos de amigos, mas também famílias inteiras [...] que, por hábito, aproveitavam os domingos de feira para se reunirem [...]. Nestas tendinhas vendiam-se palitos de Oeiras, queijadas de Sintra, cavacas das Caldas, torrão de Alicante. [...]

As barracas de comidas e bebidas eram as mais concorridas e nas quais as vaidades mais se manifestavam. Importava descobrir quais as melhores sardinhas com pimentos; que pão com chouriço era mais saboroso; quais os pastéis ricos de bacalhau... e claro onde se vendia a melhor pinga... [...] na Adega do Saloio, nada melhor que o atum com batatas, a Barraca Arganilense recomendava o caldo verde à moda do Minho, o Forte sem Medo propunha a sopa à saia calção e a Saúde Engarrafada esmerava-se para ver os seus clientes saudáveis.

Comportamento habitual a que o clima de à-vontade apelava era à cantoria; cantigas ligeiras, cançonetas picantes, canções carnavalescas ou fados, todos os géneros eram cantarolados e bem-vindos».

In Mário Costa, Feiras e outros divertimentos populares de Lisboa, Lx, CML, 1950, p. 166.

Nb: imagem da Feira de Alcântara, no dia 8/V/1905 (in Ilustração Portuguesa), retirada daqui. Deixo-vos ainda duas outras imagens do mesmo espaço (situado defronte à estação ferroviária de Alcântara-Mar), c.1900 (I e II). Sobre as feiras livres vd. este estudo de Gilmar Mascarenhas e Miriam Dolzani.

domingo, 23 de novembro de 2008

Vinhos de colheita tardia, uma doce tentação

Esta é uma variedade de vinhos pouco conhecida, mas que vale a pena provar. Os vinhos de colheita tardia surgiram na Hungria, em meados de seiscentos, revela-nos Rui Falcão no Fugas de 15/XI.
Como o nome sugere, provêm duma vindima posterior à normal, com a uva já muito madura, parte em estado de podridão, contendo por isso uma grande proporção de açúcar. A uva é apanhada bago a bago, tornando este vinho raro e caro. Daqui resultam vinhos gulosos, e que podem durar muito tempo.
Poucas castas e regiões são aptas para a sua feitura. As castas mais usadas são a Furmint, Riesling, Sémillon e Chenin Blanc. As regiões eleitas ficam na Alemanha, Áustria, Hungria e França. Em Portugal é difícil a sua produção, mas não impossível, como o comprovam alguns bons exemplos. Rui Falcão refere o Late Harvest Grandjó 2006 (da Real C.ª Velha, Douro) e o Casal Figueira Vindima Tardia 2007 (Estremadura). O 1.º é feito da casta Sémillon, o 2.º da Petit Manseng. A estes eu aditaria o Bucelas Chão do Prado Colheita Tardia, em Bucelas, que figura na imagem (é a garrafa mais estreita, de o,5l). A casta predominante é a Arinto (85%), a rainha da região. A Chão do Prado tem aí uma quinta com ampla vista sobre as videiras e a serra, servindo refeições no seu acolhedor restaurante.

domingo, 7 de setembro de 2008

E viva o rosé!

Ainda aqui não tínhamos falado dos vinhos rosé e a ocasião não podia ser mais propícia. É que tive a sorte de provar um rosé da Corsega este fim-de-semana, e que bem me soube.

Chama-se Domaine de la Figarella, e foi criado em 1961, por François Acquaviva, pai do actual proprietário. Contém 2 castas, Nielluccio (10%) e Sciaccarello (90%). Trata-se dum rosado que não encaixa naquele perfil mais previsível de vinho adocicado. Nada disso, é bem seco, aliás os próprios autores o referem, aditando que no nariz se sente o cheiro de uvas frescas e pêssego jovem, terminando redondo na boca. Cairam bem com uns pâtés corsos, bem apimentados, os Charles Antona. A denominação de origem deste vinho é Vin de Corse-Calvi. O ano que me calhou em sorte foi o de 2006.
Para quem ficou com água na boca com estas notas soltas e vive para os lados de Paris está com sorte: vão estar presentes no Salon des Vignerons Indépendants, de 27/XI a 1/XII, na Porte de Versailles, stand A10.
Também por cá há bons rosados, como o Vinha da Defesa e o Casa de Sarmento, que é a adega do afamado restaurante Meta dos Leitões, na Mealhada, e que faz Sarmentinhos para todos os gostos: tintos, brancos e rosés. Com o leitãozinho, todos ficam bem, talvez o rosado até seja o que fica melhor. Em Lisboa, estas preciosidades estão à venda nos centro Comerciais Vasco da Gama e Colombo. Quem se der a esse trabalho, não pode deixar de comprar o tinto Touriga Nacional.
Também vai bem com marisco o Mateus Rosé, ah, pois, estavam à espera de quê? Que dissesse mal deste só porque os turistas gostam? Pois se tem qualidade, porque é que não haviam de gostar? É tudo uma questão de gostos. E de clichés...

domingo, 10 de agosto de 2008

Mais prémios para o vinho português

No mês passado, decorreu a 25.ª edição da maior feira mundial de vinhos, a International Wine Challenge, em Londres. Foram vários os vinhos portugueses premiados: os tintos Quinta do Portal Grande Reserva 2006, o Quinta da Fonte do Ouro Reserva 2005, o Cortes de Cima Touriga Nacional 2005, entre 10 eleitos.
Contudo, quem fez mais barulho teve mais sucesso... Refiro-me ao marketing da Portucel Soporcel, que conseguiu fazer passar, junto dos media mainstream (Público de hoje, p13-P2; Blue Wine; etc.), a sua medalha de bronze (para o tinto Herdade de Espirra - Palmela DOC, colheita de 2005*) como sendo o melhor registo luso. Sucede que houve vários vinhos portugueses melhor colocados, como se pode constatar nesta lista oficial, na qual só entram os vinhos com troféu - acima das medalhas de bronze, prata e ouro está o troféu, que é a 3.ª e última ronda de provas cegas (vd. aqui e aqui). Bem sabemos que os vinhos de Terras do Sado (ou Palmela) até já têm direito a região junto deste certame, e que têm sido bastas vezes elogiados nesta rubrica do Peão (ex.), mas convém não exagerar... (quem quiser saber todos os eleitos portugueses neste certame ao longo dos anos pode ir aqui).
Para o Peão ficar com o registo histórico completo deste ano, há que complementar este e 2 posts anteriores (um meu, outro do Manolo) com a informação de que também o vinho duriense Quinta Nova Grande Reserva 2005 foi eleito o Melhor Tinto do Velho Mundo na 12.ª edição da Expovinis Brasil (considerado o maior certame da América Latina), isto em Abril passado (vd. aqui ou em Público, 10/V, p. 13; lista aqui).
Mas, atenção, neste ano houve muitos mais prémios! Foram distinguidos ainda o Moscatel Reserva 2000 da Quinta do Portal, o branco Régia Colheita 2006 e os tintos Borges Douro Reserva 2004, Valle Pradinhos Reserva 2004, Covela, Incógnito, Touriga Nacional e Cortes de Cima (estes 3 da Cortes de Cima), Quinta do Couquinho DOC Tinto Reserva e Colheita 2005. Para mais informação remetemos o leitor interessado para a lista específica da revista Blue Wine.
*Ainda em Inglaterra, o mesmo tinto obteve a medalha Comended no Decanter World Wine Awards. A cereja no bolo foi a chegada do Espirra ao mercado brasileiro (vd. aqui; por cá já fora premiado em 2007). O enólogo responsável é Rui Reguinga.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Aquilo que faltava para um Verão perfeito!

Continuando o post de domingo, há coisas inestimáveis em que por vezes reparamos demasiado tarde...
Sim, sim. Como naqueles momentos em que convidamos alguém especial para um jantar romântico em casa, queremos servir aquele vinho branco ou champagne eleitos mas descobrimos em cima da hora que a bebida não está fresca. Ganda azari, num é?
Agora, acabaram-se os contratempos! Chegaram as «mini-boules gelées», «las bolitas heladas», ou, mais prosaicamente, «as bolinhas de gelo»!! Estas simpáticas bolitas contendo água destilada têm um invólucro de plástico, arrefecendo a sua bebida sem deixar sair a água. Incrível, não é?
Tudo graças ao desvelo desta inestimável empresa. Mais sobre esta invenção inesquecível aqui.
Fantástico, Mike! Tchim-tchim!!

domingo, 3 de agosto de 2008

Viver e aprender

Outro dia, a pretexto de já não sei bem o quê, lá fui novamente jantar ao "Le P'tit Canon" (nova morada: 36, rue Legendre, XVII arrondissement, Paris). Desta vez o grupo era maior. Vá-se lá saber porquê calhou-se a responsabilidade de escolher o vinho. Quer dizer, pensavam eles. Eu já sabia que a responsabilidade ia cair no Christian (patrão do P'tit Canon), cuja competência em matéria de vinhos só tem rival na simpatia da sócia, Isabelle. Eu ainda tentei, só por questão de manter as aparências:

(diálogo original em francês, traduzido livremente, assim mo permita a memória vaga dos acontecimentos, para português, correndo um pequeno risco de ser levemente romanceada - os links de hipertexto não constam do diálgo original)

(eu) - Então..., pode ser o Madiran.
(e ele) - Madiran, lamento mas não temos, ainda vem a caminho.
(e eu) - Ah bom?
(e ele) - Sim, mas temos um Saint-Chinian que é uma maravilha, é mesmo melhor que o Madiran.
(e eu armado em entendido) - Ah bom? E isso que cepagem é que é?
(e ele, com paciência) - É principalmente Mourvèdre, com um pouco de Syrah.
(e eu) - Ah, e tal, Mourvèdre não conheço. [e lá se foi a aura de entendido] Venha o Saint-Chiniant.
- seis garrafas mais tarde -
(eu) - Era mais uma garrafa do Saint-Chinian, svp.
(e ele) - Saint-Chinian acabou-se, vocês beberam a última garrafa*.
(e eu) - Ah bom?
(e ele) - Sim, mas tenho uma garrafa de Côtes du Marmandais, da propriedade Château de Beaulieau, 1995. É uma maravilha, digamos que é já uma divisão acima do Saint-Chinian [ou seja, estávamos já na luta pela Liga dos Campeões].
(e eu) - Côtes du Marmandais?
(e ele) - Sim é ali entre o Languedoc e Bordeaux.
(e eu) - Venha o Côtes du Marmandais.

E de momento não consigo fazer uma avaliação dos vinhos mais exacta do que o que se pode depreender do post, mais algum trabalho de campo será necessário para esse efeito. Excepto que o facto de "Côtes de Marmandais" se encontrar entre o Languedoc e Bordeaux, é muito mais, mas muito mais do que uma simples circunstância geográfica. Do que me lembro o "Château de Beaulieu" é um excelente vinho porque sem ser nem Languedoc nem Bordeaux, consegue ser Bordeaux e Languedoc ao mesmo tempo.

* É a primeira vez, de que me lembre, que consigo tal proeza.

sábado, 19 de julho de 2008

Languedoc, porque há dias assim.

Andava eu à procura do Peidoque perdido (by the way o "Le P'tit Canon" está vivo e recomenda-se, como eu suspeitava mudou-se para outra freguesia, na circunstância a 17ª, mas eu dei com ele, continua autêntico como antes, e com bastante mais espaço, mas isso agora não interessa nada) - perdão - andava à procura do Pays d'Oc perdido, para descobrir que o Pays d'Oc é afinal uma designação vaga e indefinida, no que toca ao vinho pelo menos. Pensaria então que Languedoc seria ainda mais vago e indefinido, pois se Pays d'Oc quer dizer o País da Occitânia e Languedoc a Língua da Occitânia, seria de esperar que se um território ou país fosse definido pelo menos com umas fronteiras geográficas, enquanto que a língua pode ser falada em territórios e por gentes mais difíceis de delimitar. Nada mais errado. Aliás, nunca tentem perceber o que quer que se passe em França com uma abordagem lógica, simples e linear (eles não gostam). Tudo isto para dizer que, nas minhas pesquisas sobre vinho francês, me chegou ao conhecimento a existência da região demarcada do Languedoc, também denominada de Roussillon, que é bem concreta e definida. Na minha escala cartesiana de classificação dos vinhos franceses, Bourgone nas abcissas e Bordeaux nas ordenadas, ou vice-versa, o Languedoc é o vinho mais equilibrado que já encontrei, diria mesmo que leva uma pontuação de 2,5:2,5. Não é nem muito escuro nem muito claro, nem demasiado leve nem demasiado pesado, robusto que chegue, com uns aromas agradáveis, enfim... equilibrado. É assim uma espécie do vinho ideal para aqueles dias especiais que têm de especial o facto de não terem nada de especial. Há dias assim. Há dias que não sabemos se somos de esquerda ou de direita, não sabemos se queremos ver um jogo de futebol ou ler um livro erudito, não sabemos se vai chover ou fazer sol, se o trabalho ata ou desata. Principalmente não sabemos se queremos carne ou peixe para o jantar, nem se vai ser cozido ou grelhado. E nesses dias, e há dias assim, acabamos sempre numa decisão salomónica, em que nos damos à cozinha criativa e conseguimos meter um chouriço no bacalhau. O difícil é escolher o vinho que vai com o prato acabado de nascer, nesses casos porque não experimentar um Languedoc? Tem a vantagem de ir bem com tudo, contudo. Há apenas um preceito a ter em atenção, quando se bebe um Languedoc, é bom que seja à base da cepa Grenache, e menos de 80% não é aceitável. E se tiver que escolher uma denominação eu iria para o Fitou, mas lá está, eu ainda conheço muito poucas denominações do Languedoc.

domingo, 8 de junho de 2008

Um copinho de tinto diário dá saúde

Isto que era voz corrente, vox populi, foi agora confirmado por um estudo saído na reconhecida revista académica PloS ONE, já aqui referida pelo Zèd (+inf. no artigo "Um copo de vinho tinto é o segredo para manter um coração jovem", de Teresa Firmino, Público, 6/VI/2008, p.8-P2).
Vem este estudo juntar-se à famosa teoria do «paradoxo francês», do vinho como 'antídoto' das gorduras do queijo na dieta francesa.
Aproveitando a boleia desta notícia, aqui vos deixo também a dica dum portal onde se pode escolher um bom vinho português consoante a ocasião (convívio, quotidiano, "para impressionar", etc.) e o tipo refeição que tenhamos em perspectiva. É no Infovini, onde há muito mais informação útil, designadamente sobre as castas e as regiões vitivinícolas.

domingo, 1 de junho de 2008

Não tenho paciência para Amy Winehouse, Britney Spears e afins

Eu não queria, mas não resisto. Hoje é domingo e, escrevendo, deveria escrever sobre vinhos (ando para escrever sobre o Languedoc, mas vai ter que ficar para a próxima). Tratando-se de Wine-House, abre-se uma excepção, e aqui vai disto. Claro que quem vai a um concerto de Amy Winehouse deve saber ao que vai, não tem desculpa. Eu não fui, e se vier cantar aqui por estas bandas vai ser sem mim. Um CD de estúdio chega perfeitamente. A moça até tem uma voz interessante, diria mesmo uma boa voz, e tem sobretudo um repertório muito bom. Gosto bastante das músicas que canta, mas isso, mérito a quem é devido, é graças ao talento de compositores, letristas, orquestradores, produtores e músicos. Desconheço se Amy se dedica a alguma destas actividades, mas duvido. Óbvio é que a moça tem talento (como diz, e bem, o Manolo) para a auto-destruição, e para isso é que já não tenho paciência. Que se vá auto-destruir para casa, em privado. Mas pelos vistos há quem goste do espectáculo. Pior ainda, há quem idolatre a auto-destruição, e provavelmente há até quem tenha também muita peninha, que coitadinha a mocinha até sofre muito, pobrezinha. Eu não tenho paciência, mas se outros têm, enfim, paciência... assim seja.

Agora, que venham comparar Amy Winehouse a Nina Simone, ou Billie Holliday, isso é que já é um ultraje. Nem é preciso comparar biografias (talvez Simone e Holliday tenham tido vidas muito mais duras, e verdadeiros dramas pessoais que possam justificar o sofrimento, mas nunca fizeram do sofrimento um espectáculo, mesmo que faça hoje parte da lenda, mas não vamos por aí). Atente-se à música: quando Amy Winehouse fizer metade do que fizeram Nina Simone ou Billie Holliday - i.e. quando gravar metade da discografia, com metade da qualidade, e que exerça metade da influência sobre as gerações de músicos futuras - então aceito a comparação, e podemos conversar. Enquanto esperamos, e vamos esperar muito, porque afinal a carreira de Amy Winehouse está apenas no começo (embora esteja provavelmente já no fim), fica uma faixa de Nina Simone ao vivo, para amostra. A música é boa, mas Nina Simone habituou-nos a melhor, a qualidade da gravação é sofrível, mas dá para ver o que era Nina Simone ao vivo. Oiçam, e julguem por vós.



Mas o pior, o que me tira do sério mesmo é chavões do tipo "Genialidade sem excesso? Não temos". Claro que quando se procura o excesso, e se idolatra o excesso, e se confunde excesso com génio, é normal pensar que não há génio sem excesso. Puro engano. Dou apenas o meu exemplo preferido: Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O Jazz moderno tal como o conhecemos hoje é o resultado da revolução formal que foi o BeBop, e o BeBop foi 90% o resultado da parceria entre Gillespie e Parker. Parker é muito mais conhecido do que Gillespie (para os que não se lembram é o trompetista das bochechas enormes). Parker morreu novo, com excesso de álcool, excesso de drogas, batia na mulher, e mais uma série de excessos. Dir-se-ia que o excesso faz parte do génio. Mas que tem tudo isso a ver com música? Rigorosamente nada. E pouco importa que tenha sido Gillespie o teórico do BeBop, quem desenvolveu os novos formalismos, progressões de acordes, relações acorde-escala, e outras miudezas (essas sim, relacionadas com música). Gillespie não foi propriamente um homem de excessos, e teve uma carreira que durou uns cinquentas anos, coisa pouca afinal. Os excessos de Parker serão sempre o Ícone. Chama-se a isso confundir o essencial com o acessório.

P.S. - Razão tem o Luís Rainha.
P.P.S. - Sobre Gillespie já escrevi aqui e aqui.

domingo, 20 de abril de 2008

Melhor tinto do mundo é português

O Syrah 2005 da Casa Ermelinda Freitas foi eleito o melhor vinho tinto do mundo, na prova cega do concurso Vinailes Internacionales - 2008, realizado mês passado em Paris. O tinto português foi selecionado entre três mil vinhos, oriundos de 36 países. Parece-me que o preço da garrafa custa 32 euros (ou pelos menos custava). Como não sou especialista em vinhos, deixo para o Daniel a árdua missão da pesquisa empírica pra confirmar ou não a escolha francesa.

domingo, 13 de abril de 2008

Ele há vinhos do Carvalho!

Este post da série Vinhos ao Domingo (é uma série de posts que resulta episodicamente na publicação de posts sobre Vinho aqui no Peão, geralmente ao Domingo) não é para falar de um Vinho em particular mas de um fenómeno que me preocupa de sobremaneira. É que algo de desagradável me acontece de quando em vez quando ando nas minhas pesquisas de novos vinhos. Pode ser má vontade minha mas acho que a epidemia começou com os vinhos de Bordeaux, e contagiou outros vinhos um pouco por todo o lado. Não, não estou a falar do Cabernet Sauvignon, embora me pareça haver uma forte correlação (o Cabernet Sauvignon é uma cepagem infestante que anda a invadir vinhas de onde não é autóctone um pouco por todo o lado). O fenómeno que me atormenta é a serradura de Carvalho no vinho. Alguma coisa está errada quando se tenta degustar um copo de vinho e é mais fácil identificar a qualidade do Carvalho cuja serradura foi utilizada para o "aromatizar" do que a cepagem de que foi feito esse vinho. Não me interpretem mal, eu sei que o casco de Carvalho é bom para o vinho, mas há limites. Sistematizemos da maneira mais clara possível: Envelhecer vinho em barris de casco de Carvalho é bom, fermentar vinhos em cubas de aço inoxidável com serradura de Carvalho lá para dentro é que já é mais duvidoso. E não é que eu seja um desses conservadores que é contra as modernices da tecnologia (acho que os meus posts sobre transgénicos o demonstram*). Acho muito bem que se utilize todo o tipo de tecnologias possíveis na produção do vinho, como no resto. Apenas exijo uma condição: que o produto final seja de melhor qualidade e/ou mais barato (na pior da hipóteses apenas a segunda, e sempre sem prejuízo da primeira). Vinho com serradura de Carvalho não é de melhor qualidade que um vinho tradicional envelhecido em cascos de Carvalho, pelo contrário. Lanço aqui um apelo aos produtores de vinho que abusam da serradura: Deixem-se dessas merdas, pá!

* Falando em transgénicos, espero que ninguém tenha a ideia de pôr uma cepa a expressar os genes do casco de Carvalho nas uvas... e daí talvez nem fosse assim tão mau.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Em busca do Peidoque perdido

Este post é um post relativamente triste. Quero dizer começa com o triste acontecimento, ocorrido há alguns meses, do fecho do melhor restaurante de Paris (pelo menos daqueles que conheço, que são alguns): o mítico, o lendário, o inigualável, o fantástico, o único, o etc... "Le P'tit Canon". Se o leitor nunca ouviu falar é porque não conhece Paris. O "Le P'tit Canon" ficava ali para o 14éme, mas fechou. Duvido que tenha ido à falência, aquilo estava sempre cheio e até passei pela vergonha de lá levar um amigo vindo expressamente de Portugal e não haver mesa, outra vez tive que esperar no bar até que vagasse uma mesa, e ofereceram-me um kir pela espera (gente educada é outra coisa). Provavelmente mudaram-se para outra freguesia, talvez para um quartier mais fino, um espaço mais amplo, e eu sem saber onde (solicitam-se informações sobre o novo paradeiro). O "Le P'tit Canon" era, e provavelmente ainda é, um restaurante onde se podia comer a verdadeira boa cozinha francesa. Não é cá nada dessas nouvelles cuisines tipo saladinhas-não-sei-das-quantas com molho-não-sei-que-mais, nada disso. Era um escargots de Bourgougne em entrada, depois um confit de canard, ou um cassoulet, ou um pot au feu, enfim comida a sério. E quanto ao vinho (qu'isto é um post sobre vinhos, não sei se já repararam...), pois o vinho era o melhor, uma carta excelente, imensa escolha, e até a decoração era toda feita com elementos ligados ao vinho. A carta de vinho, a bem dizer, nunca lhe pus os olhos em cima porque o patrão era um tipo com a noção das responsabilidades: a gente escolhia o que ia comer, pedia-lhe um vinho em conformidade, e ele fazia o seu trabalho. No dia seguinte a única coisa que nos lembrávamos que era mesmo muito bom (daí alguma dificuldade em lembrar-me quais são os melhores vinhos franceses que já bebi).
Quando o restaurante abriu com outra gerência, tive um acesso de irracionalidade e pensei que se calhar era só uma remodelação do décor, mas continuava a ser o "Le P'tit Canon". Mais irracional ainda, pensei que talvez o novo restaurante fosse tão bom como o "Le P'tit Canon". Fui lá jantar.
Deparei com um restaurante bonzinho, quer dizer, correcto, enfim... O décor a atirar para o pseudo-aristocrático (toda a amibiência um pouco pretenciosa), umas cadeiras versalhescas, uma alcatifa a imitar o salões de chá da rive droite, e imensos empregados. Duvido que tenha viabilidade económica. Para jantar pedi uma coisa levezita, tipo uma salda ou um peixinho, nem me lembro. Não se preocupe o leitor, aquilo foi uma coisa que me deu naquele dia, mas passou depressa, já estou completamente recomposto. E resolvi que, como vinho, um Chinon iria bem. A empregada, que era muito simpática e competente, diz-me (o diálogo foi em francês, mas eu traduzo para simplificar a coisa) "Estou a ver que quer assim uma coisa ligeira, olhe, tenho um Pays d'Oc que chegou hoje e é muito bom". A minha primeira expressão deve ter sido algo estranha. Ela não fala português, portanto não pode perceber que a sonoridade Pays d'Oc em português faz pensar em "peidoque", o que é no mínimo estranho para nome de vinho. Eu por educação e por desejo de experimentar novos vinhos disse que sim. E de facto o vinho era bom, e na gama do Chinon, ligeiro, fruité. Se não estou em erro era um Merlot. Agora o problema foi tentar encontrar mais garrafas de Pays d'Oc. Eu vi logo que aquilo dava um post de "Vinhos ao Domingo", e vai daí tentei arranjar mais uma garrafita para testar. Não tive sorte nenhuma. Até que, fazendo umas pesquisas, me apercebi que o Pays d'Oc não é uma região demarcada, produtora de vinhos, mas uma região muito mais ampla que corresponde basicamente ao sul de França (com algumas excepções, como os franceses bem gostam, só para complicar) que se chama também Occitanie, e que corresponde ao que se chama correntemente o Midi (termo geográfico vago, utilizado só para complicar ainda mais). Acontece que no Pays d'Oc há mais que muitas regiões demarcadas que produzem vinho. Resumindo, bebi um vinho que era levezito oriundo do sul de França, o que pode parecer inverosímil, mas era um bom vinho, o que é bastante mais credível, presumivelmente um Merlot. Toda esta informação pode parecer desconexa, vaga, incompleta, e eventualmente inútil para quem quiser alguma informação concreta sobre bons vinhos franceses. Pelo facto as minhas mais sinceras desculpas, eu próprio gostaria de ter informações mais precisas.