Hoje foi um dia histórico para o movimento sindical português e para a luta laboral de uma classe socioprofissional: os PROFESSORES. Quase dois terços estiveram no Terreiro do Paço. É impressionante! Estive lá e vi professores de todas as cores políticas e, sobretudo, ouvi gente a assumir que esta tinha sido a sua primeira manifestação da vida. Este movimento ultrapassa largamente a influência e a representação dos sindicatos.
Muito se tem escrito nestes últimos dias sobre educação. Toda a gente lançou opiniões, editoriais, ‘bitaites’… Por exemplo, dois directores de jornais de referência não se inibiram de debitar uma série de disparates representativos de uma concepção que aponta para o desmantelamento da escola pública: José Manuel Fernandes do Público propõe que se utilize a medida dos rankings dos exames nacionais para avaliar directamente os professores; já Henrique Monteiro do Expresso propõe que os professores sejam avaliados directamente por um futuro gestor de escola. Estas e outras declarações para além de extraordinárias são, sobretudo, preocupantes: porque se apropriam desta conjuntura de crise para anunciar o falhanço da escola pública, salientando que esta se deve transformar numa espécie de empresa que gere empregados (os profs) e clientes (os alunos). Para estes a culpa dos maus resultados do sistema tem um nome: a maldita pedagogia. Penso que os professores deveriam pensar muito bem nas consequências da pós-manifestação. Se embarcarem num discurso que enfatiza a crise, o mal-estar, a ineficácia do sistema, correm o risco de legitimarem perspectivas como estas.
Desde há muito que digo que um dos problemas deste Ministério não tem sido os princípios que defende mas a forma como os regulamenta, descurando, muitas vezes, o que à partida parecem ser meros pequenos pormenores. O que se conclui de toda este processo é que os detalhes valem tanto como os princípios. O exercício da política não pode menosprezar o impacto das pequenas coisas na vida das pessoas. O acumular de desentendimentos, frustrações, desmotivações, cansaços, etc., propicia um ambiente de permanente conflitualidade. O caso da avaliação é sintomático. O princípio da observação de aulas é excelente: porque põe a pedagogia e a competência científica no centro da actividade educativa. Mas a sua concretização é perversa porque entre outros aspectos: a) põe professores que actualmente são titulares (não por mérito mas por mera passagem administrativa) a avaliar a competência de outros professores; b) relaciona directamente a avaliação dos profs (e a sua consequentemente progressão na carreira) com os resultados obtidos pelos alunos. Um bom princípio transforma-se assim numa política geradora de novas e profundas injustiças.
De qualquer modo, é precisamente em nome dos princípios que os professores deverão ter o discernimento adequado para perceber quem é que está mais próximo das suas reivindicações enquanto defensores da escola pública: não serão certamente os interesses que certos editorialistas embandeiram.