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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Foi você que disse ideologia?

O cartaz aqui ao lado foi censurado pelo Ministério da Educação, há uns dias atrás, supostamente por fazer parte duma campanha considerada «ideológica». Uuuuh. E isso morde? Ok, dêmos de barato que é: e daí? Não vale a pena combater a homofobia também na escola? Cartazes na escola só para o rame-rame interno?

Ironicamente, o projecto foi patrocinado por outra entidade estatal, a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, como aqui se relata.

Parece que aquela ordem foi entretanto revogada, mas não encontrei confirmação.

PS: sugestão de leitura - «Blasfémia», de Andrea Peniche.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A formação contínua e o papel da UNESCO

Ainda vemos a educação de adultos como uma utopia

(Adama Ouane, director do Instituto para a Aprendizagem ao Longo da Vida da UNESCO, entrevistado por Bárbara Wong).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O segredo das boas escolas

Qual é o segredo das boas escolas?
Ter bons directores, bons professores, uma boa relação com a comunidade. Os professores é que são o sistema educativo e não o Ministério da Educação. É senso comum. Aceitamos a diversidade nos restaurantes, na arquitectura, na música. Em todo o lado procuramos a diversidade, por que não na escola? Queremos que estas sejam todas iguais, mas não são máquinas, são organismos vivos.
Se tratamos os alunos como se não fossem indivíduos, com talentos reconhecidos, eles não podem interessar-se pela escola. O sistema educativo mata a criatividade das crianças. Os políticos não compreendem e acham que a solução está em normalizar tudo.

Não sabem que não resulta?
Não está a resultar, os alunos continuam a abandonar a escola. É preciso regressar às origens, a uma educação mais pessoal, mais comprometida, onde se criam oportunidades para as pessoas desenvolverem os seus talentos, seja na matemática ou a tocar violoncelo. A experiência diz-me que se descobrirmos uma coisa em que somos bons, conseguimos ser melhor em todas as outras em que somos menos bons.
Aposta nas artes e criatividade, contra os maus exemplos
As artes têm muito pouco peso nos currículos e eu fiz campanha, em toda a Europa, a favor da criatividade. Quando Tony Blair foi eleito, a tónica era "Mais educação, mais educação". Mas quando chegou ao Governo, as políticas que levou a cabo foi: mais exames, mais inspecção, mais avaliação, pagar aos professores conforme os seus resultados... Nas escolas, cresceu um clima de medo entre os professores. Não defendo que não deve haver metas, mas sempre defendi que deveria haver uma estratégia para desenvolver a criatividade. Foi criada uma comissão para estabelecer uma política nacional sobre criatividade.
Nos EUA há mais testes, mais avaliação dos professores, as escolas são penalizadas se não conseguirem os resultados esperados, há rankings que desmoralizam os professores e os directores. O que é que se ganha com isso? Fala-se de eficiência para a educação como para a indústria automóvel e não se pode aplicar esse conceito nas escolas. Tem sido um desastre e em Portugal provavelmente também.
Ken Robinson, entrevistado por Bárbara Wong,
a propósito do lançamento do seu livro O elemento

sábado, 13 de março de 2010

Educação à bolonhesa: balanço aos 10 anos pelas próprias instituições

«Estudantes e professores pouco satisfeitos com Bolonha»

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A escola mata a criatividade?

Eis a opinião, bem inspirada e humorada, de Ken Robinson.
Para uma versão legendada em português vd. aqui e aqui (partes 1 e 2, respectivamente).

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Centro educativo para a sustentabilidade criado no Grande Porto

No âmbito do Objectivo 2015 - Campanha do Milénio das Nações Unidas, 3 associações ambientalistas e florestais portuguesas juntaram-se a diversos parceiros institucionais na promoção dum centro educativo para a sustentabilidade, que integra uma rede internacional dinamizada pela Universidade das Nações Unidas. Dado o interesse desta iniciativa, aproveito para transcrever um excerto do comunicado da Campo Aberto:
«No dia 27 de Abril de 2009, foi assinado na Casa de Serralves o protocolo para a criação do Centro Regional de Excelência em Educação para o Desenvolvimento Sustentável da Área Metropolitana do Porto (AMP), criado no âmbito do Futuro Sustentável - Plano Estratégico de Ambiente.
O CRE-Porto envolve as autarquias da AMP, a Direcção Regional de Educação, o Instituto Português da Juventude, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, a Administração da Região Hidrográfica, a Fundação de Serralves, a Universidade Católica Portuguesa, a Lipor e as associações Forestis, Fapas e Campo Aberto, as quais se juntam ao Objectivo 2015 - Campanha do Milénio das Nações Unidas (Portugal) e à Comissão Nacional da UNESCO. Este centro de excelência foi oficialmente reconhecido pela Universidade das Nações Unidas no mês passado.
A AMP tem cerca de 40 equipamentos de educação ambiental e mais de 120 entidades promotoras de 200 iniciativas e projectos nesta área, os quais recebem 400 mil visitantes por ano.
A gestão deste centro de excelência ficará a cargo da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, a qual pretende desenvolver a área da educação para a sustentabilidade, através da promoção de ecoclubes, da criação de redes de educadores e de escolas sustentáveis e do desenvolvimento de uma página na Internet, uma revista electrónica metropolitana sobre educação e desenvolvimento sustentável, assim como a Agenda Metropolitana digital. Este novo centro faz parte da rede internacional de centros regionais de excelência, constituída por 61 centros, e que têm como meta principal atingir os objectivos da década das Nações Unidas da educação para o desenvolvimento sustentável».
Para +inf. vd. Agenda 21 Local.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A gaffe autoritária

Na segunda-feira passada, os directores das escolas pré-primárias e primárias (maternelle e élémentaire) da região francesa do Haut-Rhin (Alsácia)receberam o seguinte email:

« Mesdames et Messieurs les directeurs, avez-vous connaissance de scolarisation d’élèves "sans papiers" dans votre établissement ? Dans l’affirmative, veuillez nous le faire savoir dans la journée par e-mail ou par téléphone au 03.89... En vous remerciant. »

[Senhoras e senhores directores, têm conhecimento da existência de alunos na vossa escola sem autorização de residência em França? Em caso afirmativo, façam o favor de nos contactar ao longo do dia por email ou por telefone, para o n° 03.89... Agradecendo...]

O email vinha assinado por um gabinete da inspecção da Academia que tutela o ensino público na região. Ao início da tarde, um segundo email vinha dizer que se tratava de um erro, que o primeiro email devia ser considerado como nunca tendo sido enviado e que não havia nenhuma ordem oficial no sentido veiculado pela mensagem. Face ao coro de protestos vindo das escolas nos dias seguintes, o Ministro da Educação veio lamentar o erro e convocou o inspector da Academia em questão.

Mais detalhes aqui.

Se a reacção de protesto foi tão pronta, não é só pela gravidade da gaffe. É por ela ser tão significativa. O incidente vem confirmar um receio terrível: houve um tempo em que a profissão de professor e a de polícia não se confundiam em França. Há indícios crescentes de que esse tempo está a acabar. Em março passado, com Sarkozy como ministro do Interior, houve as terríveis interpelações de clandestinos junto às escolas frequentadas pelos filhos.

Mas há também, com método mais suave e burocrático, instrumentos que revelam uma pulsão do governo para fichar a população infantil, usando para isso os funcionários públicos, no caso os directores das escolas. Por exemplo, desde setembro de 2005, entrou em aplicação um projecto de recenseamento de toda a população escolar entre os 3 e os 10 anos (chamado "base-élève") . Entre os dados que os directores das escolas devem transmitir ao ministério da educação sobre os seus alunos contam-se informações sobre a origem e a situação familiar (para além de informações sobre o nível e eventuais problemas escolares que ficarão registadas logo a partir dos três anos). Parte desta informação é de preenchimento facultativo, e ela circulará sem o nome dos alunos a partir de certo ponto — mas não até certo ponto... Não há, como parece evidente, nenhuma garantia concreta sobre o uso que lhe será dado nos vários pontos institucionais da sua circulação, desde as escolas até ao ministério.

Se é possível que um email com este conteúdo circule, é porque a mensagem está lá, em rascunho, nas instituições oficiais, pronta a que alguém carregue no send. Por engano ou não, pouco importa. Eis o caso triste de um email que, por mais que o inspector e o ministro carreguem na tecla delete, não se apaga.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Fórum Sociológico


Saiu mais um número duplo da revista Fórum Sociológico, o nº15/16 (do Instituto de Estudos e Divulgação Sociológica da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa), com um dossiê dedicado às "Realidades e Contextos Profissionais", organizado por José Resende e Luís Rodrigues. O índice pode ser encontrado aqui (e os números anteriores aqui).
Deste número duplo consta uma recensão minha, onde apresento e discuto o livro do sociólogo François Dubet, L'école des chances: Qu'est-ce qu'une école juste? (2004, Seuil, La république des idées).



quarta-feira, 18 de abril de 2007

Serviço público

Para futuros 'rounds' sobre o tema em discussão, quem estiver interessado pode passar pelo site da European Expert Network on Economics of Education (EENEE).

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Compensa...

















terça-feira, 27 de março de 2007

Os meios, os fins e as consequências (esperadas) da mudança no paradigma de políticas educativas





Tradução de um quadro retirado de:

Despite the Odds: The Contentious Politics of Education Reform, de Merilee Serrill Grindle (2004, Princeton University Press, p.6)

terça-feira, 20 de março de 2007

A árvore e a floresta

"Escolas secundárias vão alugar espaços para casamentos e baptizados".

Esta notícia, que faz hoje a capa do Diário de Notícias (DN), dá um bocado vontade de rir.

Começo pelo essencial, transformado em acessório pelos jornalistas. Pour aller vite, é assim: o Ministério da Educação vai investir cerca de 940 milhões de euros na modernização das escolas secundárias e profissionais do país: 332 das 477 sofrerão obras de requalificação até ao ano de 2015 (ou 2016). O nosso parque escolar está degradado, e em inúmeras escolas em péssimas condições. Basta lembrar que 77% das escolas secundárias foram construídas depois de 1974, em regime de pré-fabricação, e com um prazo de vida a rondar os 25-30 anos. Essas escolas - atenção: 3/4 do total - estão hoje a chegar ao fim da vida. Se não houver um programa robusto de modernização, não há solução sustentada e de futuro para este problema estrutural.

Ora, o que noticia - com honras de capa! - o DN? Que as escolas secundárias vão alugar espaços para casamentos e baptizados. A notícia praticamente ignora quase por completo dados, no mínimo, relevantes: que o parque escolar nacional, em muitos locais em péssimas e inadmissíveis condições, vai ser profundamente requalificado; que o modelo de financiamento vai ser alterado (e só a sua alteração - no qual se inscreve a criação da empresa pública "Parque Escolar", mas não só - permite a modernização das escolas, porque o modelo anterior não pemitia nada disto); e que, como não há dinheiro nacional e comunitário para cobrir todo o programa, as escolas vão ter que contribuir com a sua pequena parte (15% do 940 milhões de euros estão previstos serem cobertos por acções de valorização patrimonial e desenvolvimento de unidades de negócio; mais dados aqui). É aqui que a história dos casamentos e baptizados entra.

Não está em causa, logicamente, os media serem ou não a caixa de ressonância do Governo, mas, como queria discutir há uns dias o Zèd, o 'bom' e o 'mau' jornalismo: praticamente ignorar um programa lançado a nível nacional que me parece ser tão urgente quão consensual para noticiar, em tom quase-panfletário, um pormenor do mesmo parece-me verdadeiramente cómico. É como olhar árvore e ignorar a floresta.

Enfim: quem viu o DN e quem o vê.

P.S. - Já agora: nem vejo onde possa estar a polémica; não anda toda a gente a dizer que é preciso as escolas terem autonomia? pois bem, autonomia significa também ter responsabilidade na arrecadação e gestão dos seus próprios fundos; por outras palavras, a autonomia significa também mais responsabilidade, não apenas mais liberdade - coisa de que muitos proponentes da autonomia das escolas selectivamente se esquecem.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Escola, fome e doutores

Uma notícia que corria ontem na comunicação social relatava o problema da fome nas escolas. Para alguns alunos, sobretudo os das zonas mais periféricas (não me refiro somente ao interior do país), a única refeição condigna que tomam durante o dia é fornecida pela escola. Pode questionar-se a qualidade do serviço prestado por muitas escolas, e a responsabilidade de algumas autarquias que não têm tido como prioridade política a alimentação e nutrição infantil. No entanto, não é esse o objectivo deste post. Estas notícias revelam que nos sectores mais pobres da sociedade portuguesa a escola tem uma função básica que está para além da sua função primordial. Questiono-me se os índices de abandono escolar não seriam ainda mais volumosos e precoces se as escolas não garantissem estes serviços básicos à população estudantil. Obviamente que não se pode pedir às escolas que resolvam o problema da pobreza e da subnutrição das crianças. Como também não se pode exigir à escola que ela resolva só por si o problema do abandono escolar. Em zonas consideráveis do país o abandono escolar não resulta somente da ineficácia pedagógica e representa muito mais do que um problema (já de si grave) de sub-qualificação.
A nossa sociedade é das mais assimétricas da Europa e, por isso, requer respostas políticas diferenciadoras. Por exemplo, analisar o problema do abandono escolar em alternativa à questão do desperdício de capital humano qualificado, não me parece fazer muito sentido. São problemas muito distintos e que extravasam em larga medida o âmbito das medidas de qualificação. Mas são dois problemas graves! Portugal precisa de pessoas mais qualificadas ao nível do ensino secundário e ensino médio, mas também necessita de rendibilizar todos os recursos humanos altamente qualificados que tem à disposição. Precisa de apostar na democratização do ensino de modo a torná-lo cada vez mais independente da origem de classe dos alunos. Mas também necessita de apostar em nichos de excelência que valorizem o mérito, a criatividade e a atitude crítica. Para tal são imprescindíveis políticas a diferentes velocidades, como já referi noutro post. E, sobretudo, são fundamentais medidas transversais que, por exemplo, não encarem a escola e as condições de formação que esta presta (desde o básico até ao superior) como, simultaneamente, a causa e a consequência de quase tudo o que tem a ver com a falta ou com o excesso de qualificação.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Educação e liberdade

Por falar em apostas - eu pago um copo a quem me disser quem escreveu estas linhas:

"A educação ou a aprendizagem não são aqueles métodos organizados (...) que obrigam os jovens ao seu conhecimento durante umas horas determinadas, sentados em carteiras alinhadas (...). Este tipo de educação, dominante em todo o mundo, constitui um sistema contrário à liberdade. O ensino obrigatório de que se vangloriam os países cada vez que o podem aplicar é um dos métodos de opressão e privação de liberdade, uma anulação imposta às capacidades do Homem, e (...) contra as opções do mesmo. É uma acção ditatorial, que mata a liberdade, que limita o seu livre arbítrio, a sua [capacidade de] reacção e o seu aperfeiçoamento. Obrigar um ser humano a aprender um programa escolar não é outra coisa senão uma acção ditatorial. Impor determinadas matérias de aprendizagem é o mesmo que impor um método ditatorial".

a) Martin Luther King, Jr.;
b) Ivan Illich;
c) Muammar Khadafi;
d) Raoul Vaneigem.

Vá lá, não vale abusar da cábula da Wikipédia. Respostas aqui mesmo, na caixa de comentários.

sábado, 10 de março de 2007

Num mundo perfeito

Num mundo perfeito não haveria bons selvagens, nem bons nem maus, não haveria selvagens. Num mundo perfeito a escola não seria centrada no aluno, não seria centrada em coisa nenhuma, num mundo perfeito nem sequer se colocaria a questão de saber em que é centrada a escola. Num mundo perfeito os alunos iriam à escola, iriam apenas à escola, saberiam o significado das palavras "disciplina" e "autoridade", e receberiam por isso as suas recompensas. Num mundo perfeito perfeito não haveria mestres em "ciências pedagógicas", essas teorias que conduzem apenas e só à criação de crianças-monstros de mimos e egoísmo. Num mundo perfeito não haveria técnicos do ministério da educação com apenas uma vaga "recordação teórica" da escola, não haveria técnicos no ministério da educação de todo. Haveria apenas uma hierarquia e uma cadeia de comando. Num mundo perfeito a média de agressões nas escolas não seria baixa, seria zero. Num mundo perfeito os alunos seriam todos bem comportados, e alunos bem comportados não agridem os professores, num mundo perfeito os professores também não agrediriam os alunos, porque a isso se chamaria "castigos corporais" e não "agressão" (e de qualquer modo, sendo todos os alunos bem comportados, não seria necessário). Num mundo perfeito os alunos bem comportados iriam à escola para absorver os conhecimentos debitados pelos professores, os programas seriam ditados pela cadeia de comandos do ministério da educação. Num mundo perfeito um ou dois sábios - não mais - por encomenda do ministério da educação elaborariam os programas escolares, que os professores debitariam para os alunos bem comportados, estes conscientes do seu papel de receptáculo de matérias aceitá-lo-iam sem questionar. Num mundo perfeito perguntar-se-ia a Vasco Graça Moura qual a terminologia linguística a adoptar, este do alto da sua sapiência diria de sua justiça e a sua terminologia seria adoptada como a única gramática possível, seria assim "A" gramática simplesmente, e seria "A" gramática que os alunos bem-comportados absorveriam educadamente nas escolas. Num mundo perfeito não haveria debates, muito menos polémicas sobre a TLEBS, ou sobre qualquer outro assunto, a cadeia de comando do ministério da educação trataria de informar os professores sobre as verdades a debitar aos alunos, não haveria debates, muito menos polémicas sobre quaisquer conteúdos dos programas, isso seria uma inútil perda de tempo. Num mundo perfeito, de alunos bem comportados, não haveriam várias verdades, verdades relativas, mas uma só verdade, absoluta. Num mundo perfeito os alunos bem comportados sairiam assim da escola preparados para a vida, cheios das verdades que depois lhes permitiriam executar competemente as suas tarefas profissionais.

Não sei muito bem se é este o mundo perfeito que desejaria Francisco José Viegas, já que das suas posições vagas e ambíguas, levemente demagógicas não se percebe se tem algumas propostas concretas, mas do pouco que se vê é essa a sensação que (me) fica. Só que a puta da realidade teima em dizer-nos que o mundo não é perfeito, é uma chatice de facto, mas é assim mesmo... E pior ainda, há quem já tenha tentado por este mundo perfeito em prática, e ao que parece os resultados não foram lá muito bons.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Ainda a violência na escola

O Francisco José Viegas teve a simpatia de colocar no seu Origem das Espécies uma parte da posta que eu havia escrito há uns dias em comentário a um texto curto seu sobre a violência nas escolas. Fê-lo sem qualquer comentário, sob o título "Médias baixas". Talvez com isso Francisco José Viegas queira mobilizar a ironia a seu favor, mas para ilustrar o meu argumento de cariz mais quantitativo, avanço aqui com um pequeno exemplo.

Eu não tenho aqui à mão neste momento dados para fazer as contas exactas sobre a realidade portugues de modo a comparar o risco de um cidadão sofrer uma agressão na rua com o risco de um aluno ou professor ser dela vítima dentro da escola, mas deixo um número relativo à realidade francesa, e que é suficiente para nos dar uma ideia da proporção destes fenómenos*. Os dados são relativos ao "longínquo" ano de 1993, mas isso não interessa muito para o caso: nesse ano, foram recenseados 1.993 casos de agressão (o número de casos é idêntico ao ano em causa, mas as coincidências têm destas coisas) entre alunos, para cerca de uma população estudantil de cerca de 14 milhões; e 3.673 casos de agressão a professores e pessoal não-docente - embora este número esteja inflacionado, dado que são incluídos nesta categoria os actos perpetrados contra as infra-estruturas (por exemplo, roubo de material) - para um total de 1.100.000 pessoas.
Fazendo as contas, vemos que a probabilidade de um aluno ser alvo de agressão na escola é de 0.014%, e de um profissional da educação é de 0,4% (número, repito, altamente inflacionado pelo motivo atrás exposto).
Ora, qual era, nesse ano, a probabilidade de uma pessoa ser agredida fora da escola, enquanto simples transeunte? O valor comparável relativo aos delitos cometidos fora da escola era de 6,5% (naquele ano, foram contados 3.703.000 delitos numa população de 57 milhões de franceses). Podemos ver que a probabilidade de um aluno ou professor ser alvo de uma agressão ou delito fora da escola é muitíssimo superior à probabilidade de ser vítima dentro do espaço escolar.

Eu vou procurar os dados mais recentes relativos à realidade portuguesa, mas não há motivo nenhum para pensar que as ordens de grandeza sejam muito diferentes entre França e Portugal - e se existe diferença, provavelmente joga a favor das nossas escolas: o risco de ser agredido dentro de uma escola em Portugal será ainda mais baixo do que o que se passa(va) em França.

*Estes números estão citados no artigo de Éric Debarbieux, "La violence à l'école", publicado em L'École. L'État des Savoirs, dirigido por Agnès Van Zanten, Paris: La Découverte & Syros, 2000, pp.399-406.

segunda-feira, 5 de março de 2007

O bom demagogo

Francisco José Viegas pertence àquele grupo de pessoas que acha que a culpa da violência na escola é das "ciências da educação" e das suas "novas pedagogias", e em particular da ideia de "escola centrada no aluno". Devo dizer desde já que não sou nem porte-parole das primeiras nem fã (dos excessos) das segundas. Mas atribuir o problema da indisciplina e da violência - que são coisas diferentes, atenção - às alterações na pedagogia releva da mais profunda demagogia e do mais simples desconhecimento do inevitável impacto das mutações trazidas pelo crescimento da população escolar nas relações pedagógicas.
Não é preciso ser empenhado militante da causa para perceber que a "escola centrada no aluno" é uma inevitável e necessária banalidade: significa que deixou de se ver o aluno como um depositário passivo dos conteúdos de aprendizagem e que é preciso motivá-lo - e necessariamente atender às suas prévias motivações, ou falta delas - para aprender. A escola dos "bons velhos tempos" de Francisco José Viegas era - para fazer uma pequena trocar de esterótipos - frequentada pelos héritiers ou pelos boursiers, cuja cumplicidade apriorística com o saber escolar permitia-lhes aprender, passe o exagero, quase por osmose. Hoje, essa escola desapareceu. Não se inculca "«disciplina», «autoridade» e «recompensa»" porque "sim", como se a relação pedagógica não fosse isso mesmo, uma relação, que depende do comportamento dos dois lados, e independentemente das consequências do exercício da autoridade, em particular para o percurso escolar do aluno. Achar que podemos simplesmente voltar ao autoritarismo do antigamente é uma ideia tão oca como demagoga. Gostemos ou não das "novas pedagogias", elas são provavelmente "estratégias de sobrevivência" de um corpo docente procurando encontrar formas de lidar com populações que não valorizam e não aceitam a escola como os colegas de carteira de Francisco José Viegas. Essas "estratégias de sobrevivência" são suficientemente boas para o ensino e para a aprendizagem? Se calhar não, e não duvido que possa haver muito a melhorar neste aspecto. Mas continuar a enredar o debate sobre educação em torno das pedagogias é chover no molhado e completamente inútil, seja à esquerda ou à direita. O que pode fazer hoje a diferença não é uma enésima reforma pedagógica, mas a mudança de filosofia ao nível dos objectivos da educação e das regras de gestão das escolas e das carreiras. Isto já é polémico que chegue. A conversa do "bom selvagem" ou do "mau selvagem" não serve aqui senão para criar ruído.

P.S. - Francisco José Viegas evoca a "média (oficial) de duas agressões por dia nas escolas portuguesas", como, sem dizê-lo assumidamente, se este fosse um número alto. Este é outra questão onde a demagogia abunda. Imaginemos que este número oficial peca por escasso. Se quiserem, multipliquem-no por 3, 5, ou 10. Continuará a ser um número baixo. Baixo se tivermos em conta a quantidade de pessoas que interage na escola todos os dias: somando os quase 1.700.000 estudantes (do nível pré-escolar ao ensino secundário, considerando os ensinos público e privado) aos cerca de 160 mil professores e 80 mil funcionários, são quase 2 milhões de pessoas, praticamente um quinto da população nacional, que convive nas cerca de 12.500 escolas do país -, o número de actos de violência por ano é surpreendentemente baixo. E é baixo quando comparado com os números de actos violentos cometidos fora da escolas, que funcionam de facto como dispositivos institucionais bastante eficazes de gestão de massas populacionais muito heterogéneas do ponto de vista etário, estatutário, socio-económico, e em algumas situações, étnico.

sexta-feira, 2 de março de 2007

O oportunismo sem limites

O PSD vai apresentar hoje no Parlamento uma proposta que acaba com o princípio de progressão na carreira docente por métodos administrativos e que pretende acabar com a distinção das categorias entre professor e professor titular. Para Pedro Duarte, vice-presidente da bancada do PSD, a iniciativa "é um sinal para poder pacificar e dar outras motivações aos professores". A criação destes dois níveis foi proposta pela actual ministra da Educação, e foi um dos aspectos do novo Estatuto da Carreira Docente, aprovado no início do ano, e que causou polémica junto de sindicatos e professores.

in Público de hoje, p.12

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Criatividade precisa-se

Os slogans dos adolescentes em protesto na 5 de Outubro eram um bocado aborrecidos.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Sobre educação


A revista francesa "Sciences Humaines" tem disponível on-line um dossier muito interessante sobre políticas educativas. Ainda sobre educação, a revista havia lançado há um par de meses um número hors-série que desenvolve muitas das questões polémicas que hoje preocupam as escolas, os seus profissionais, bem como pais e alunos.
Um tema inevitável ao qual havemos de voltar.