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segunda-feira, 29 de março de 2010

Novas formas de contar a história de Lisboa

Este post serve de última chamada para uma exposição fantástica que está nos seus últimos dias. Chama-se ela «Lisboa tem histórias», enquadra-se nos 100 anos do Museu da Cidade e está patente só até ao final deste mês.

O fulcro da mostra é quase um «ovo de Colombo»: apresentação de 20 personagens de Lisboa caricaturados por João Fazenda, com um subtítulo (regra geral, a alcunha) e um conjunto de peças diversificadas directamente ou indirectamente atinentes, desde artefactos arqueológicos, loiça, fotos, etc. (videozinho promocional aqui). A Sofia já aqui tinha chamado a atenção, mas vale a pena insistir.

Além desse núcleo, a mostra incluiria ainda a exibição dum filme de Abílio Leitão, «com imagens actuais dos locais da cidade que estão associados a cada um dos 20 personagens». O problema é que, ontem (e noutros dias) não estava a ser exibido, nem mesmo a pedido dos visitantes e sem que nenhuma explicação tenha sido avançada.

O Museu da Cidade era uma das coisas mais tristes do país, parado no tempo, pequeno, e tudo o que a Sofia já aqui desvelara, para nossa vergonha... Este evento prova como pequenas ideias podem ajudar a mudar as coisas, a tirar o pó à mobília, e logo as pessoas aderem: isso mesmo o atesta a significativa audiência para o pouco tempo e a pouca publicidade feita (10 mil visitantes até recentemente). E nem é preciso ter mega-espaços (isto dito, ainda assim o museu precisa de mais espaço, um outro pólo, p.e.). A este propósito, seria bom que, após fecho da mostra e caso não fosse possível incorporar a mostra na colecção permanente, incluissem uma sua versão video em tela numa das salas do museu. Seria a melhor forma de o honrar e de dar um sinal no caminho da sua necessária renovação. Também nesse sentido vai a instalação duma colecção de cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro no jardim do museu e que a Sofia também elogiou há uns dias atrás. E as exposições temporárias, claro.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Museu da Cidade (outra vez)

aqui falei, mal, do Museu da Cidade. Aproveito, agora, para falar bem, a propósito de três exposições (todas fora do edifício, porque dentro imagino que continue tudo igual).
No Pavilhão Preto e a comemorar os 100 anos do Museu, a exposição «Lisboa tem histórias», cruza histórias de lisboetas mais ou menos anónimos e de vários tempos com o espaço da cidade. Tirar as peças do Palácio foi mesmo uma boa ideia.
O Jardim Bordallo Pinheiro, projecto de Joana Vasconcelos para o jardim de buxo murado, tem um ambiente fantástico, entre o reforço decorativo de um jardim palaciano e a mais feérica imaginação; gatos eriçados nos muros, macaquinhos nas árvores e uma indescritível fonte digna de aquário de marisqueira.
No Pavilhão Branco (e esta exposição não sei se ainda está), Vasco Araújo pega nas gravuras oitocentas que Debret fez no Brasil e, em fimo, coloca figuras dentro de «ovos fabergé», que explicitamente representam as relações de poder entre brancos e negros. As legendas pertencem a Padre António Veira, «A pior coisa que têm os maus costumes é serem costumes, ainda é pior que serem maus.»
E todas gratuitas, é só esperar por um fim de semana de sol.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Museus de Cera

Gosto muito de visitas de estudo. Considero-as momentos privilegiados de aprendizagem e fico muito desanimada quando o não são, o que acontece com alguma frequência nos nossos museus.
Destaco, aqui, dois casos particularmente sinistros do panorama museológico (voltarei ao tema quando me parecer oportuno).

Museu da cidade: logo à entrada, ficamos com a impressão de ir perturbar uma sacrossanta modorra, o que não é desmentido com a chegada da monitora que afivela uma expressão de que representamos a pior altura do seu dia... Como a visita é sobre o séc. XIX, passamos directamente a essa secção, ou seja, a três ou quatro salas que se sucedem e onde estão amontoadas, encafifadas, empilhadas as «fontes históricas» (foi o que a monitora lhes chamou): quadros da partida da família real para o Brasil (motivada, antes de mais, pelo facto de D. Maria não estar «boa da cabeça», também palavras da monitora) junto a gravuras das profissões de Lisboa; um quadro de D. Fernando acompanhado de vários mapas da cidade; tinteiros e outros objectos de escrivaninha encimados por vistas do Passeio Público, tudo num enigmático jogo de associações.
A única regra que parece existir na relação entre gravuras e vitrines, quadros e molduras parece ser a de «enquanto houver espaço...», o que num local maioritariamente visitado por escolas (o que iria outra pessoa lá fazer?!? E mesmo as escolas...) é sempre uma boa estratégia à resistência de materiais: 30 alunos vêem, ao mesmo tempo, os 12 desenhos de profissões que se encontram todos no mesmo expositor.
Acrescento que a visita teve o seu momento interactivo quando a monitora deu a ler excertos, incompreensíveis para os alunos, de obras de Eça de Queirós, em formato de fotocópia devidamente acondicionada dentro de uma mica (porque não os livros?!?).
O museu «termina» com a sala/cubículo dedicada à República, onde exibe, com orgulho, o piano em que foi composta «A Portuguesa». É evidente que o orgulho não vai ao ponto de alguém limpar o pó ao instrumento.

Museu do traje: a mesma modorra, a mesma expressão «calorosa» de boas-vindas. O pó, substituído pelas traças que parecem esvoaçar à volta dos trajes expostos, também, sem grande coerência, novamente um amontoado de manequins que «desfilam» sala, após sala.
Aqui, a jóia da coroa é um vestido de baptizado de um qualquer Bragança...

É difícil encontrar soluções para cenários tão negros. Fechar? Fundir? Dar formação? Despedir?
Proponho, então, que se comece por limpar o pó e matar as traças, por reorganizar as colecções expostas: a família real com o D. Fernando; o Passeio Público com as idas à tourada; os mapas com os mapas, até traçando percursos de acontecimentos e locais, o mais evidente começa pelos «passos» do 5 de Outubro. Seria interessante ouvirem-se os pregões e, na sala da República, «A Portuguesa»
Ter, sobretudo, a noção que não é preciso expôr tudo o que se tem, mas antes criar ambientes: a vida política, a vida social, o espaço público e o espaço privado, que podem ser mais ou menos apelativos se tiverem sons, música, imagens de época, ou até jogos interactivos, como por exemplo, experimentar uma peruca, vestir um saiote (veja-se o excelente trabalho desenvolvido no Victoria and Albert Museum).

P.S. - Agradeço ao Daniel a inspiração para escrever este post.

Imagem: National Wax Museum, Dublin. Site oficial do turismo da cidade (?!?!)