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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Um trio memorável

Foi memorável a série de 4 concertos que juntou Fausto, Sérgio Godinho e José Mário Branco em Lisboa e Porto no outono passado. Por várias razões: a projecção dos artistas e sua diversidade de estilos; a riqueza da selecção do repertório (combinando músicas de que cada um gostava, de si e dos outros dois, com inéditos individuais ou em parceria, além de José Afonso); a qualidade das letras, músicas e arranjos; a valia do alargado conjunto de músicos acompanhantes; o caloroso público intergeracional (pese a maior presença de cinquentões e sexagenários); a raridade deste tipo de encontro, após os momentos de comunhão revolucionária de 1974/5 (mas também do exílio parisiense, no caso de SG e JMB). E, last but not least, a pertinência da música de intervenção e da sua articulação com baladas e outras canções.
Por tudo isto, a adesão foi imediata e maciça: os concertos lotaram com antecedência; o duplo cd tornou-se, num ápice, disco de ouro e líder de vendas; a caixa cd+dvd segue de vento em popa, etc.. O registo dum desses «Três cantos» foi recentemente divulgado na RTP1, seguido do documentário Faz tudo parte, de André Godinho. Aquele permitiu perceber melhor as letras, certos detalhes, enquanto este último deu lugar às opiniões, memórias e imagens bem antigas dos cantautores.
Por tudo isto, faço votos para que os 3 se voltem a juntar. Se assim for, que em Lisboa seja noutra sala, no Coliseu, por ex.. Estive no 2.º concerto do Campo Pequeno e fiquei com a impressão de não ser um bom espaço para um concerto destes: os lugares são muito apertados, as vozes não se ouvem bem, é demasiado grande. E este voto que faço não é por saudosismo, mas sim pelo que expus acima.
Deixo-vos o alinhamento do espectáculo nas suas duas partes (repetido nos 2 cds), com links para o registo em concerto dalgumas delas (+na lista de Fernando Marques de 6/XII):
Travessia do deserto 2 Ser solidário
Como um sonho acordado 3 De não saber o que me espera
A barca dos amantes 4 Olha o fado
Mariazinha 5 Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Rosalinda 6 Foi por ela
Quatro quadras soltas 7 Que força é essa
Canto dos Torna-Viagem 8 Eu vi este povo a lutar (Confederação)
A ilha 9 Maré alta
Não canto porque sonho 10 Inquietação
O charlatão 11 Na ponta do cabo

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Da enciclopédia ao museu?

A monumental Enciclopédia da música em Portugal no século XX é hoje apresentada em Lisboa (Teatro S. Carlos, 19h), após 12 anos de trabalho duma equipa de 151 colaboradores dirigida pela Prof.ª Salwa Castelo-Branco (do Instituto de Etnomusicologia da FCSH-UNL). A obra, em 4 volumes, tem 1440 páginas, mais de 1250 entradas, 550 imagens e índices temático e onomástico. Segundo nota informativa, abrange as músicas erudita, popular, tradicional, o folclore, o pop-rock, o jazz, o fado, a canção coimbrã e a música nas comunidades migrantes. Aborda ainda «modos expressivos em que a música desempenha um papel central, como a dança, o cinema e o teatro». Por tudo isto, e pela qualidade do trabalho, é a 1.ª «grande obra de referência dedicada à música praticada em Portugal» no século passado.
Em depoimento ao DN, Salwa Castelo-Branco alertou para a necessidade de se preservar em museu próprio os registos sonoros dessa centúria: «Espero que sirva para que o Governo leve a sério a necessidade de se criar um museu. É preciso um arquivo sonoro e eu ando há muitos anos a pedi-lo. Há muito que faz falta um Museu de Música, um local que reúna a história musical dos últimos 100 ou 110 anos, desde que se inventou o gramofone».
Só o 1.º dos 4 volumes editados pelo Círculo de Leitores será hoje apresentado. Os restantes volumes chegarão em Março (letras C a L), Maio (L-P) e Julho (P-Z). Cada volume custará aos associados entre 24,9€ e 29,9€, chegando depois às livrarias do Círculo e da Temas & Debates.

domingo, 11 de janeiro de 2009

A redescoberta duma relíquia de Lopes-Graça e Giacometti

Acabou de ser transmitido no programa «Cosmorama», da RDP2, uma recriação dum antigo programa radiofónico da autoria do compositor e musicólogo Fernando Lopes-Graça, dedicado à música popular tradicional. Segundo os realizadores de Cosmorama, esse antigo programa terá sido transmitido pela defunta Emissora Nacional de Radiodifusão, nos anos 60. Como não deverá haver registo dele, Alexandre Branco e Ana Telles recorreram à leitura do texto do guião do programa, escrito por Lopes-Graça, acompanhada da divulgação das canções que o mesmo guião referia, recorrendo à obra «Antologia da música regional portuguesa» (1964-71), publicada por Lopes-Graça e Michel Giacometti, reeditada em 1978 e transposta para cd em 1999. Este projecto, que o etnomusicólogo corso intitularia de Arquivos Sonoros Portugueses (ap. Sérgio Fonseca), foi idealizado após o primeiro encontro entre Lopes-Graça e Giacometti, em 1959 (vd. aqui).
Tendo analisado a temática da preservação e divulgação etnográficas sob o salazarismo*, no qual abordei aquele projecto, nada encontrei então sobre tal programa de Lopes-Graça na rádio oficial. Pelo contrário, fiquei até algo surpreendido, uma vez que este criador e intelectual antifascista era persona non grata do regime ditatorial, tendo tido muitas dificuldades para financiar aquele modelar projecto etnomusicológico (os parcos apoios oficiais vieram apenas de 2-3 juntas distritais, o resto foi financiamento particular, incluindo do Jornal do Fundão).
Seja como for, o programa foi muito interessante de seguir e poderá ser escutado brevemente aqui por quem esteja interessado. Predominaram as canções da Beira-Baixa (tanto de trabalho como de romarias), embora também tenham sido abrangidos os cancioneiros do Algarve, Alentejo, Trás-os-Montes, Douro e Minho. Esta saliência pode estar relacionada com o próprio percurso de Lopes-Graça, uma vez que o seu primeiro contacto com recolhas da tradição músical portuguesa se deu precisamente na Beira-Baixa, em 1946 (cf. aqui).
Em 2003, o Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, passou a disponibilizar o acesso digital presencial às recolhas de Giacometti (seria bom garantir também a sua acessibilidade na Internet, pelo menos de parte do acervo).
Da aldeia alentejana de Peroguarda, onde Giacometti viveu, deixo-vos «Entrai pastores» (cante tradicional por si recolhido). Quem quiser saber mais sobre o projecto deste duo pode ler esta entrevista com Giacometti: «As canções tradicionais sobrevivem na memória colectiva do povo» (de 1971).
*Vd. Salazarismo e cultura popular (1933-1958), Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2001 (v.o. de 1997), p. 264-75.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Tudo isto é fado

Felizmente que nem tudo são más notícias quanto ao panorama museográfico luso (e à CML), como o atesta a reabertura do Museu do Fado, em Lisboa, no passado dia 2 (após 7 meses de obras de requalificação).
Este museu, da responsabilidade do município alfacinha e situado em Alfama, apresenta agora um novo programa museológico, com postos de consulta que permitem o acesso digital ao seu espólio. Imagens, repertórios, registos áudio, biografias, programas de espectáculos e pautas estão assim mais facilmente acessíveis.
Até final do ano, também nele se poderá apreciar o famoso quadro «O fado», que José Malhoa pintou em 1910 e aqui reproduzido. Estão ainda presentes outros pintores, como Constantino Fernandes e Júlio Pomar.
É um museu que aproveita muito bem o espaço modesto e que faz muito sentido: o seu modelo devia ser mais seguido, pois aposta numa singularidade, num aspecto da cultura portuguesa que é único e singular, não existindo em mais nenhum país.
A sua directora anunciou ainda que em 2009 será apresentada a candidatura do fado a património da UNESCO, para que a canção lisboeta "tenha a consagração que merece".
Outras fontes: Fado.com e Público.

domingo, 8 de junho de 2008

A cultura imaterial como recurso para o desenvolvimento local

Está em preparação uma rede de conteúdos em 9 concelhos alentejanos visando a salvaguarda do património cultural imaterial da região. A iniciativa é da Direcção Regional de Cultura do Alentejo, terá uma entidade central de concentração das memórias sociais e prevê a criação dos seguintes espaços:
>Casa da décima e do verso improvisado (Alcácer do Sal, dedicado à poesia popular/tradicional e ao improviso);
>centro do tapete (Arraiolos, vocacionado para o estudo dos têxteis do Alentejo);
>núcleo museológico dos modos de construir e da arquitectura tradicional (Avis);
>Casa da Fala (Barrancos, para preservar o dialecto barranquenho e à dialectologia);
>arquivo de história oral (Baleizão, dedicado à memória social);
>Casa do Teatro Tradicional (Borba);
>Casa da Viola Campaniça e do Baldão (Ourique, dedicada ao tradicional canto de improviso local e ao único instrumento de cordas alentejano);
>Casa do Cante (Serpa/Cuba, dedicado a este canto coral tradicional);
>Jardim do Mundo (Portel, que permitirá o conhecimento do território, das paisagens e das identidades do Alentejo).
A ideia é que cada uma daquelas unidades possa depois criar uma rede sectorial, para dinamizar e potenciar outras tradições, técnicas e produtos da região, como no caso da Casa do Tapete, que deverá articular uma rede que inclua os bordados de Nisa, as tapeçarias de Portalegre, as rendas de nós da Trindade e as mantas de Reguengos de Monsaraz e Mértola.
O coordenador deste projecto é Paulo Lima, que publicou recentemente o livro O fado operário no Alentejo - séculos XIX e XX. Esta rede primária estará conectada a um Centro de Articulação de Conteúdos (o Centro Michel Giacometti, a instalar em local a definir do Alentejo Central), o qual terá como funções a articulação de conteúdos, a gestão do Centro de Documentação Digital e a sensibilização para uma boa prática de conservação de arquivos do património imaterial.
Ainda segundo Paulo Lima, está previsto o desenvolvimento duma rede de encontros científicos, a articular com um conjunto de festivais temáticos (Monsaraz, Marvão, etc.) ou pequenos projectos emergentes, como é o caso dos cantos iberoamericanos de improviso em Alcácer do Sal, que "podem ter relevância para o turismo cultural". Outros projectos almejados são a construção de conteúdos multimédia para sítios e monumentos de interesse patrimonial (caso dos castelos de Amieira do Tejo e Campo Maior, da Torre do Salvador e do Castro da Cola), para a culinária do Alentejo, para os produtos agro-florestais e a paisagem.
Esta iniciativa baseia-se na Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, adoptada em X/2003 (32.ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO), que foi aprovada pelo Estado português em I/2008. Nela ficou consagrado a promoção do Património Cultural Imaterial, entendido como "um conhecimento que é recreado constantemente pelas comunidades e grupos em função do contexto em que vivem, da sua interacção com a natureza e com a sua historia" e que inclui os usos, representações, expressões, conhecimentos e técnicas, instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais colectivos. Tal convenção teve como finalidade incutir um sentimento de identidade e continuidade pelo respeito da diversidade cultural e da criatividade humana.
Este é um projecto exemplar de como o desenvolvimento local e regional pode e deve contar com a consolidação duma política cultural, entendida numa perspectiva transversal, que abranja a economia, a formação, etc.
Fonte:
*ZACARIAS, Maria Antónia, "Alentejo vai cartografar e preservar o seu vasto património cultural imaterial", Público, 8/VI/2008, p.29.
Nb: imagem do Grupo Coral e Etnográfico do Ateneu Mourense retirada daqui.