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segunda-feira, 26 de março de 2007

Escolha de causas

Durante um percurso pelas nossas estradas nacionais fui surpreendida pela exposição de algumas «causas».
À entrada de Santarém, deparei-me com um gigantesco outdoor a apelar ao voto dos escalabitanos em D. Afonso Henriques que, segundo as letras garrafais do cartaz, tinha feito muito pela cidade. Interroguei-me sobre o propósito daquele apelo: que sentido faz mobilizar uma população em torno de uma patetice de raiz televisiva e, mais grave ainda, quem teria custeado a campanha? (a Câmara? Se alguém souber que me responda, por favor).
Já à chegada ao santuário de Fátima fui recebida com enormes fotografias e citções bíblicas das causas que a Igreja parece ter adoptado: imagens de um feto e de um bebé, provando o «milagre da vida»; de um casal heterosexual perfeitamente «canónico»; de um doente terminal a agonizar serenamente... Esta abordagem demonstra uma visão redutora e moralista de algumas questões actuais que devem, antes, ser debatidas, fundamentadas e, por fim, apresentadas em toda a sua complexidade.
Todas estas causas, contra qualquer-coisa, mais não geram do que exclusão e afixá-la à laia de boas-vindas é muito questionável. Não terá a Igreja outras «bandeiras», como a solidariedade, o ecumenismo e, sobretudo, o amor incondicional por todos, para desfraldar?
P.S. - Para uma visão «iluminada» da maneira como a Igreja deve enfrentar os temas da actualidade temos as obras de Timothy Radcliffe O.P. , como Frei Bento Domingues.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Clarividência e frontalidade

A crónica de Frei Bento Domingues no Público deste domingo, intitulada "Por opção da mulher", integra seguramente o conjunto dos melhores textos escritos naquele jornal a propósito do referendo de 11 de Fevereiro. Vale a pena transcrever aqui algumas passagens, clarividentes e frontais sobre o que deve ser a Igreja que não se fecha na sacristia e é capaz de respeitar o pluralismo no seu interior.
"As declarações e posições pouco católicas de certos movimentos, personalidades e de alguns padres dão a impressão de quererem entregar à repressão do Estado, do Código Penal, dos tribunais, da polícia, da cadeia, as suas convicções morais - isto é, parece que não confiam na consciência das mulheres, na sua capacidade de discernimento, para percorrerem todos os caminhos necessários até chegarem a uma decisão bem informada, responsável, prudencial".
Frei Bento Domingues lembra que não se deve confundir o que é legal com o que é moral e salienta que cabe à Igreja esclarecer as consciências e não formatá-las, impor-lhes uma outra consciência, aliená-las. Defende que a resposta à pergunta do referendo não deve extravasar o âmbito da pergunta. E a pergunta é: "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, por opção da mulher, até às 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" Chamar "assassinas" às mulheres que, nas condições e prazos previstos, recorrem ao aborto é um insulto às "que sofrem os dramas que acompanham essas decisões dolorosas".
Põe o dedo na ferida ao afirmar que "a grande suspeita em relação à pergunta do referendo" está no fragmento da frase "por opção da mulher", porque "se julga que as mulheres não são de confiança". Ora, "para os cristãos" (para qualquer pessoa, independentemente das suas crenças religiosas - acrescento eu), "esta desconfiança deveria ser insuportável"!
Pois é: tanto barulho, tanto insulto, tanto preconceito, só porque caberá à mulher optar, em consciência.
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Imagem: Caravaggio (1573-1610), Marta e Maria Madalena, 1597-1598. Detroit Institut of Arts.