Mostrar mensagens com a etiqueta eugenismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eugenismo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Vá, agora podeis ser politicamente incorrectos

Quando James Watson gerou polémica há poucos meses por defender que os Africanos eram menos inteligentes e que isso era determinado geneticamente houve na direita um movimento de solidariedade para com Watson contra o politicamente correcto. Pouco importa que James Watson não tenha avançado qualquer dado científico para sustentar as suas afirmações (e lamento muito mas dizer - cito de memória - "quem já trabalhou com negros sabe que as coisas não são bem assim" não pode ser considerado como um dado científico, é preciso um bocadinho mais). Acontece que agora há dados científicos que comparam geneticamente americanos descentes de africanos e de europeus, e os resultados são ligeiramente diferentes do que o próprio Watson esperaria (mas a esperança é a última a morrer, sobretudo para Watson). Um artigo acabadinho de sair na prestigiadíssima revista Nature mostra que os descendentes de africanos têm maior diversidade genética, mas isso são trocos, e - surprise, surprise... -, muito mais importante, os descendentes de europeus têm mais mutações deletérias. O que me chateia no jargão técnico é que um gajo no meio do climax tem que fazer uma pausa para dar explicações (e peço desculpa a quem conheça o palavrão "deletério"). Uma mutação deletéria é uma mutação que provoca deficiências graves e em geral a letalidade, ou seja uma deficiência genética. Quer isto dizer: os europeus têm mais deficiências genéticas do que os africanos (OK, reconheço que a inteligência não foi tratada neste estudo, portanto não podemos dizer nada a esse respeito). Eu pessoalmente até não acho que o artigo seja muito bom, nem interessante, nem sequer muito relevante. Não dou para esse peditório. Mas espero ansiosamente que aqueles tão voluntariosos espíritos que defenderam James Watson e as suas teses eugenistas sejam igualmente pungentes e enérgicos agora a bradar a única conclusão eugenicamente aceitável deste estudo: os africanos são geneticamente superiores aos europeus! Vá lá malta do politicamente incorrecto, repitam cem vezes e em coro: os africanos são geneticamente superiores aos europeus!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Não fui eu que escrevi, mas bem gostaria...

Perhaps no individual has had such a sweeping influence on so many facets of social and intellectual life as Charles Darwin, born on 12 February 1809. Of the other two of the great nineteenth-century triumvirate of European thinkers, Marx's ideas have been distorted beyond recognition in their political execution, and Freud's approach to the psyche no longer merits scientific recognition. Neither man had Darwin's impact on the structure of empirical knowledge.

In the past century and a half, Darwin's ideas have inspired powerful images and insights in science, humanities and the arts. Meanwhile, countless commentators ignorant of his meaning have borrowed his eloquence to plump their own chickens — from capitalism to 'evolutionary psychology'. Darwin has been invoked as the demon responsible for a variety of perceived heartless ills of society, including atheism, Nazism, communism, abortion, homosexuality, stem-cell research, same-sex marriage, and the abridgement of all our natural freedoms. One can scarcely imagine the horror that Darwin would feel at the misunderstanding, misappropriation and vilification of his ideas in the 125 years since his death.


Assim começa um ensaio de Kevin Padian, sobre Darwin no último número da revista Nature (o texto completo, infelizmente, é só para assinantes, mas vale bem a pena, sobretudo para quem conhece pouco, é um bom artigo de divulgação).

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Homossexualidade, Genética e Darwinismo

Andava a blogosfera lusa há uns meses a debater entusiasticamente o sexo anal - a estimada Patrícia Lança teve a cortesia de abrir as hostilidades (a propósito, o que é feito de Patrícia Lança?) - quando um anónimo deixou na caixa de comentários de um post do Womenage A Trois esta pérola:

Safo...... anda tudo muito anal
Estes amantes do sexo anal / homosexualidade até da a impressão que pretendem fazer crer que a homosexualidade é tão normal como a heterosexualidade. Tragédia.
Se fosse assim tão normal, 50% da população seria homossexual ou por outro lado a espécie comportava em si os genes da própria extinção.
As estatísticas desmentem esmagadoramente a perspectiva de normalidade.


(na realidade isto é apenas um pequeno excerto, há muito mais sumo na dita caixa de comentários)

Este tipo de argumento pseudo-científico ouve-se amiúde em conversas de Café, e vale a pena rebater. A pérola do Anónimo merece-me vários comentários:
- Ambas as palavras Homossexualidade e Heterossexualidade se escrevem com dois 'Ss'.
- Falar de Homossexualidade e sexo anal como se fossem a mesma coisa leva-me a pensar que o dito Anónimo não está muito familiarizado com a anatomia feminina. Caro Anónimo, se por mero acaso estiver a ler estas linhas aqui vai uma informação que lhe pode eventualmente ser útil: As mulheres também têm ânus, o que torna possível a prática do sexo anal heterossexual.
- Confesso que não percebi de onde saiem aqueles 50%. Quererá o anónimo dizer que tudo o que não existe em pelo menos 50% da população não é normal? Suponho que as estatísticas demonstram então que ser loiro de olhos azuis não é normal. Seguindo o raciocínio do anónimo "não venham cá dizer que ter olhos azuis e cabelos louros é tão normal como ser moreno de olhos castanhos, porque se fosse então 50% da população seria loura de olhos azuis".

Mas o mais interessante é a aquela parte "a espécie comportava em si os genes da própria extinção". Vamos por partes.
Primeiro: Qual é o problema, do ponto de vista moral, de comportar o genes da sua própria extinção? Estamos obrigados moralmente por uma razão qualquer a contribuir para o sucesso evolutivo da espécie humana? Seremos todos obrigados a ter filhos quer queriamos quer não? Se é esse o caso, então não são só os homossexuais que estão em falta, mas todos quantos decidem não se procriar, padres e freiras incluidos. Mesmo se fosse verdade que genes causadores da homossexualidade conduziriam a espécie para a extinção (já lá vou), isso não faz da homossexualidade nem mais nem menos condenável do ponto de vista moral. Uma coisa nada tem a ver com a outra.
Segundo: Apesar de não acrescentar nada, nem a favor nem contra a aceitação da homossexualidade, mas só para chatear quem usa este tipo de argumentos devo dizer que a frase "a espécie comportava em si os genes da própria extinção" do ponto de vista Darwiniano está errada. Claro que numa abordagem simplista e superficial pode parecer óbvio que genes causadores da homossexualidade deveriam ser eliminados pela selecção natural, mas aí o problema é da abordagem simplista e superficial. Ele há pessoas que se dedicam a estudar estas coisas mais aprofundadamente e chegaram à conclusão que há várias explicações possíveis para uma componente genética da homossexualidade compatíveis com a teoria darwiniana da evolução. (Pequeno à parte - Nunca é demais dizê-lo: seguramente que a homossexualidade não é determinada estritamente por factores genéticos, mas tem uma componente genética. Há indicações de que factores hereditários predispõem para a homossexualidade, tal como há evidências que factores ambientais/sociais contribuem para a homossexualidade. O mais plausível é que seja o resultado de uma conjugação dos genes e do ambiente).

E o resto do post é mesmo só para quem gosta dos detalhes técnicos. Aqui vão algumas explicações possíveis para a existência de genes da homossexualidade, compatíveis com o darwinismo:
1) Os mesmos genes que predispõe homens para a homossexualidade fazem com que as mulheres sejam mais férteis. Assim esses genes embora reduzam a fertilidade dos homens mantém-se na população porque aumentam a fertilidade das mulheres, e assim não são eliminados pela selecção natural. Este artigo apresenta evidências neste sentido. O recíproco também é válido para a homossexualidade feminina.
2) O altruísmo familiar. Se os homossexuais fizerem com que os familiares próximos, particularmente irmãos, tenham mais filhos, indirectamente favorecem a selecção dos seus próprios genes, uma vez que partilham uma grande parte dos seus genes com os familiares próximos.
3) Uma variante de um gene pode predispor para a homossexualidade quando o indivíduo é homozigótico mas aumentar a fertilidade ou sobrevivência quando é heterozigótico (homozigótico é quando um indivíduo herda duas cópias iguais do gene, uma do pai e outra da mãe, e heterozigótico quando herda dos pais variantes diferentes do mesmo gene). O exemplo clássico deste caso é o da Anemia Falciforme: os homozigóticos para o gene mutado da hemoglobina são anémicos, mas os heterozigóticos são resitentes à malária, mais do que os individuos portadores apenas da hemoglobina comum. Em regiões com forte incidência de malária os gene mutante é favorecido mesmo que seja fatal para os homozigóticos.

Para mais sobre o assunto ler este e este artigos (infelizmente o texto completo é só para assinantes).

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Em democracia o disparate é livre, James Watson faz bom uso!

Nesta polémica sobre o James Watson e as suas declarações racistas, o mais patético é de facto defender-se que é uma questão de liberdade de expressão. Que eu saiba ninguém emitiu um mandato de captura sobre o senhor, ninguém o amordaçou, ninguém o impediu de se justificar nas páginas de jornais de grande circulação internacional, num comunicado difundido pela Associated Press. Ninguém o impediu de pedir desculpas e no mesmo passo repetir, ainda que eufemisticamente, os mesmos argumentos eugenistas, ninguém o impediu de criticar o "wishful thinking" na Ciência e escrever um texto que é "wishful thinking" de alto a baixo. Politicamente correcto ou não há uma diferença entre criticar ou discordar de alguém e limitar a sua liberdade de expressão (nem acredito que estou a escrever coisa tão óbvia). James Watson diz o que lhe apetece, quem discorda dele tem o direito de expressar igualmente a sua opinião, foi o que aconteceu até agora. Aliás só quem nunca ouviu falar de Watson, ou quem tem andado distraido, pode achar que alguma a sua liberdade de expressão tenha sido desrespeitada. Se há uma pessoa que ao longo dos anos tem podido fazer comentários racistas, misóginos ou homofóbicos sem que ninguém lhe corte a palavra, esse alguém é James Watson. Foi ele quem disse que um mundo onde a engenheria genética tratasse de fazer todas as raparigas bonitas seria um mundo maravilhoso, foi Watson quem disse que os negros têm uma líbido superior à dos outros (sem qualquer base científica), foi Watson que disse que uma mulher a quem fosse diagnosticado geneticamente que o seu filho seria homossexual deveria ter o direito de abortar. Nunca lhe cortaram a palavra e ainda bem, em democracia o disparate é livre.
Ah, mas há os que se preocupam com o cancelamento das conferências que estavam programadas. Permitam-me que utilize um argumento que os liberais de direita não vão desdenhar: O Museu de História Natural de Londres, e as outras instituições, são livres de convidar e desconvidar quem bem entendem. Não é qualquer Joe Shmoe que tem o direito de apresentar conferências em instituições académicas. Apenas quem estas convidam, e convidam geralmente com base em critérios de excelência científica e intelectual. Se os convidados revelarem que o seu mérito não está afinal à altura da excelência exigida nada mais natural do que serem desconvidados. Será isto a censura posta em prática pela tirania do politicamente correcto? Eu próprio, sabe-se lá porquê, nunca fui sequer convidado para dar uma palestra no Museu de História Natural de Londres, muito menos desconvidado, serei eu vítima da censura do politicamente correcto? Não me parece...

Adendas:
1) Quem quiser ler sobre o real contributo de James Watson para a descoberta da Dupla Hélice, vale a pena ler este post do maradona (na sua nova casa), ou melhor ainda este de Greg Laden (obrigado Rui, pelo link).
2) O prémio do melhor post da semana na categoria "Importa-se de concluir o seu raciocínio s.f.f.?" vai para este post de Victor Cunha (descoberto através do post do maradona).

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Cuidado com as citações (II)

Continuando o post anterior sobre esta crónica de João Miranda no DN (a terceira na série "Sexo em Democracia"). Escrevia eu que o trabalho de Gregory Clark, em que se baseia a crónica, deve ser tomado com as maiores precauções. Já João Miranda pelo contrário cita-o sem quaisquer precauções, e leva as conclusões bem mais longe do que o autor do trabalho poderia imaginar. De facto é a forma - no mínimo pouco rigorosa - como João Miranda cita o trabalho de Clark que me merece os maiores reparos.

Começa logo na primeira frase: "Gregory Clark, professor de Economia americano, estudou a fecundidade dos ingleses entre 1250 e 1800." Esta afirmação está factualmente errada. Clark estudou a fecundidade em Inglaterra entre 1585 a 1638. Pode ler-se no artigo que referi no post anterior "Here we use a sample of more than 2,000 wills made by male testators in the years 1585 - 1638" (p.5). O que Clark faz, baseado na permissa que as condições não se alteraram significativamente, é estender as suas conclusões para o período até pelo menos 1250. Chama-se a isso uma extrapolação. Claro que dizer que foi estudado um período de 550 anos em vez de 53 anos dá mais credibilidade às suas conclusões, mas está errado. E, já agora, também não estudou a fecundidade dos ingleses, o que quereria dizer de todos os ingleses, estudou a fecundidade de alguns ingleses, aqueles - poucos - que foi possível estudar na sua amostra.

Mais adiante: "De acordo com Clark, em 1800, a sociedade inglesa era constituída pelos descendentes dos mais bem sucedidos nos séculos anteriores, os quais herdaram as características necessárias para atingir o sucesso.". A primeira parte da frase reporta-se de um cálculo que até é possível fazer com os dados disponíveis (não esquecendo as limitações do estudo, e consequentes margens de erro); toma-se as taxas de fertilidade de ricos e pobres, o intervalo de tempo em estudo, a idade média a que os ingleses tinham filhos, e calcula-se. No entanto do que li Clark esse cálculo nunca é feito, especula apenas que assim seria. Na segunda parte da frase a falta de rigor é ainda mais grave. Clark não estuda a herditeriedade de coisa nenhuma! Mal sabemos que características são essas que permitem atingir o sucesso (mas isso dá-se de barato), agora se foram ou não foram herdadas não é de todo objecto de estudo. Se Clark já tem dificuldades em saber pelos testamentos que analisou coisas tão simples como quantos filhos tinha cada homem, e quanto dinheiro lhes deixava, saber se lhes transmitia ou não as características do sucesso então nem se fala. Isso não impede Miranda de escrever uma frase bem acertiva, "a sociedade inglesa era constituída...".

Continuando "Clark defende que a História de Inglaterra desde a Idade Média à Revolução Industrial é dirigida pelos mecanismos impessoais da selecção biológica ou da selecção cultural." E aqui João Miranda ultrapassa todos os limites do rigor mínimo aceitável. A selecção cultural, de facto, ainda é algo que Clark refere vagamente (quando especula, mas pode especular-se desde que se o assuma enquanto tal). Mas Selecção Biológica? Eu gostava de saber onde o é que Gregory Clark se referiu à Selecção Biológica. Em tudo o que li a Selecção Biológica nunca é referida, nunca é abordada, nunca é mencionada, nem sequer enquanto especulação. Nada! Clark fala tanto de Selecção Biológica quanto fala de futebol (que, como é sabido, não existia na Inglaterra pré-Industrial). Não é Clark quem mete a Selecção Biológica ao barulho. É João Miranda quem, intencionalmente ou não (pouco importa), tenta fazer parecer que a sua especulação - para a qual não tem qualquer suporte científico, qualquer base empírica - é o resultado da investigação de um reputado professor de economia.

E continua logo na frase seguinte "As características das pessoas economicamente bem sucedidas foram passadas aos seus filhos através da educação ou através dos genes." A frase é uma afirmação peremptória, repare-se "foram passadas", não há lugar à duvida. Mas como já referi, se determinadas características foram ou não passadas aos descendentes é algo que não foi sequer estudado. No entanto em cima de uma especulação elabora outra especulação: as características do sucesso foram transmitidas, e foram-no pelos genes ou pela cultura. E mais uma vez a ambiguidade, não nos diz se exprime as suas ideias especulativas ou os resultados de Clark. Note-se que pouco nos é dito sobre que características possam ser essas, e evidências que elas possam ser transmitidas pelos genes então nada de nada é mencionado.

E para finalizar João Miranda insiste: "O trabalho de Clark demonstra a importância dos processos de selecção biológica e cultural." como se a repetição da ideia a tornasse mais válida. Mas onde o cronista quer chegar é à conclusão que "(...) pessoas com determinadas características são mais bem sucedidas que as outras.", e que isso é sujeito à selecção natural.

Resumindo o argumento de João Miranda é que os mais ricos são os mais bem sucedidos, e têm mais filhos do que os menos bem sucedidos. Isso faz com que a prazo os membros de uma sociedade sejam descendentes dos mais bem sucedidos, e uma vez que herdadaram as características que permitem o sucesso conduzem essa sociedade ao progresso. Terá sido o caso da revolução industrial em Inglaterra. Uma vez que isto é um processo natural (os tais mecanismos impessoais) não se deve intervir, particularmente o estado - esse grande vilão. A natureza através da selecção faz o seu trabalho, portanto não se deve intervir com políticas de natalidade e alterar o normal curso da natureza (há aqui uma crença quase mística no trabalho da natureza). Gostaria de saber se numa situação em que os pobres, i.e. os menos bem sucedidos, tenham uma maior fertilidade do que os ricos, João Miranda mantém a mesma opinião. Seguindo a sua lógica, se os pobres tiverem uma maior taxa de fertilidade então vão transmitir as características do insucesso à descendência. A prazo a sociedade será composta apenas de descendentes de pobres, e será a decadência dessa mesma sociedade (actualmente em todo o mundo ocidental são os mais pobres quem tem as taxas de fertilidade mais altas). Trata-se, no entanto, de uma questão antiga. Utilizando essa mesma lógica David Heron dizia em 1906 a propósito dos pobres "(...)higher fertility rate is shewn...to be very markedly correlated with the most undesirable social factors". David Heron era um notório eugenista, e membro fundador da British Eugenics Education Society. Sociedade essa que advogava entre outras coisas campanhas de esterilização dos mais pobres para eliminar os indesejáveis da sociedade. Na época as classes mais baixas tinham já taxas de fertilidade bastante mais elevadas que as classes altas.

Não é inocente que João Miranda meta a selecção biológica ao barulho e a misture com selecção cultural, porque é à selecção biológica que quer chegar (e o chato do Clark que só fala da selecção cultural...). Na realidade argumento de João Miranda só faz sentido se o processo de selecção for biológico. Se as tais características do sucesso que permitem a alguns serem mais bem sucedidos forem transmitidas pelos genes. Porque se não o forem nada obriga a que sejam transmitidas apenas à descendência. Se o processo de selecção for cultural, nada impede que as tais características do sucesso sejam transmitidas de um qualquer ser humano a qualquer outro ser humano (por exemplo através do sistema de ensino, e com a ajuda do estado). E nesse caso o argumento de João Miranda simplesmente não faz sentido. Curiosamente João Miranda não se apercebe, ou prefere ignorar, a diferença entre Selecção Cultural e Biológica, e trata-as como se fossem equivalentes. Parte de um estudo que sugere vagamente a importância da selecção cultural, e que não aborda de todo a selecção biológica, para construir um argumento que só faz sentido para a selecção biológica e que é inconsistente com a selecção cultural.

Resumindo, para o argumento de João Miranda fazer sentido só falta demonstrar que a selecção existe, que é biológica, que há "características do sucesso", que estas são transmitidas pelos genes, que permitem aumentar a taxa de sobrevivência e/ou fertilidade, que o processo de selecção é o motor do progresso social, e que a acção do estado lhe seria prejudicial. Enfim, falta demonstrar tudo.

Ainda assim, com todas estas reservas consideradas, ainda ficam algumas questões para discussão futura (se for caso disso)...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Cuidado com as citações (I)

Em pleno Verão, João Miranda publicou esta interessante crónica, a terceira na série "Sexo em Democracia". Talvez por ter saido durante o período de férias não tenha tido a devida atenção. Na minha humilde opinião foi pouco comentada na blogosfera, falou-se mas falou-se pouco. A dita crónica bem merece uma polémica. Segundo João Miranda o trabalho do economista escocês (e não americano) Gregory Clark, professor na Universidade da Califórnia em Davis, mostra que na Inglaterra anterior à Revolução Industrial os mais ricos deixaram mais descendentes. Esse fenómeno terá levado a que por volta de 1800 toda a população inglesa fosse descendente dos mais ricos. A população inglesa teria herdado as qualidades dos mais bem sucedidos o que terá sido o motor da própria Revolução Industrial. Ou seja, terá ocorrido um processo de selecção, nesse processo os descendentes dos mais ricos teriam passado as suas características à descendência, e a prevalência dessas qualidades na população levou à Revolução Industrial.

Felizmente que Gregory Clark tem uma grande parte do seu trabalho disponível on-line, para quem quiser poder lê-lo, e comparar as suas conclusões com as de João Miranda. Eu cheguei a conclusões muito diferentes, e parece-me que no mínimo João Miranda está a sobre-interpretar o trabalho de Clark. O trabalho em questão presumo seja o artigo "Survival of the Richest: The Malthusian Mechanism in Pre-Industrial England", publicado em conjuto com Gillian Hamiltan, e disponível em formato PDF no site do próprio Gregory Clark. Trata-se do estudo empírico sobre a questão da fecundidade e da riqueza na Inglaterra pré-Industrial. Trata-se portanto a fonte primária de Clark, a cujos dados depois se reporta em pelo menos mais dois artigos onde expõe as suas ideias (este e este, também em PDF).

Clark conclui que os mais ricos conseguem deixar mais descendência do que os mais pobres. Não quer dizer necessariamente que tenham mais filhos, mas que mais filhos sobrevivem até à idade adulta e conseguindo eles próprios deixar descendentes. Como qualquer trabalho científico, o artigo de Clark tem algumas limitações. Como é fácil de imaginar não há propriamente dados exaustivos sobre a riqueza, o número de filhos, os óbitos, etc..., da Inglaterra da Idade Média ou pré-Industrial. Clark baseia-se numa amostra de testamentos deixados por homens da época nalgumas paróquias inglesas, e partir dai infere os seus dados. É portanto um processo de amostragem e inferência. A informação que se retira dos testamentos não é propriamente a mesma que se encontra num Censo. Ainda assim pode inferir-se as posses, e o número de herdeiros e informações relativamente ao óbito. A primeira questão será a de saber se os testamentos permitem uma amostragem representativa da população. O próprio Clark afirma "Wills were also not made by a random sample of the population, but instead made by those who had property to bequeath" (p.6) e algumas linhas mais à frente "higher income individuals were undoubtedtly more likely to make wills". Ou seja a amostra não é representativa, só deixa testamentos quem tem bens para legar, os mais ricos ou talvez os remediados. Se os mais pobres dos mais pobres, que não deixam testamentos por não terem bens para legar, deixaram mais descendentes do que os ricos, as conclusões do estudo são erradas. O erro é tanto maior quanto maior for a proporção da população que era demasiado pobre para deixar testamento. Não é possível estimar essa proporção, mas supõe-se que não fosse pequena. Outro aspecto é a questão de herdeiros vs descendentes, não é bem a mesma coisa. O próprio Clark novamente refere que ocorria nas famílias com menos riqueza filhos serem omitidos do testamento porque não havendo muitos bens a legar, esses bens eram herdados apenas por um ou alguns dos filhos, preferencialmente homens (p.8-10). Não é possível estimar rigorosamente quantos filhos são omitidos nos testamentos, mas o que se conclui é que seguramente o cálculo da fertilidade dos mais pobres baseada nos testamentos é feito por defeito. Mais uma vez se os mais pobres têm uma taxa de fertilidade superior à calculada os resultados do estudo estão errados. Finalmente, foram efectuados outros estudos sobre o mesmo assunto e a mesma época, versando outros países da Europa e o Japão, e nunca foi encontrada relação alguma entre a fertilidade e o nível de riqueza (p.2). Não deixa de ser curioso que este fenómeno se passa apenas em Inglaterra, quando durante a Idade Média outras sociedades europeias eram muito semelhantes à inglesa.

As conclusões deste trabalho devem portanto ser tomadas com muita precaução, já que a metodologia apresenta limitações muito importantes. Note-se contudo o rigor intelectual de Gregory Clark que nos enuncia ele próprio as fraquezas do seu estudo.

Já o rigor de João Miranda deixa muito a desejar, mas isso fica para o próximo post, que este já vai longo.

Continua portanto...

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Quem é o James Watson, anyway?

Como tinha prometido, aqui vai um post a dizer o que penso de James Watson. James Watson é um Dantas! James Watson é meio Dantas! James Watson permite-se dizer todo o tipo de barbaridades porque foi o descobridor da Dupla Hélice do ADN. James Watson pensa que foi o descobridor da Dupla Hélice do ADN. James Watson era um rapazito de 22 anos quando chegou a Cambridge para se juntar ao projecto em que Francis Crick, e Rosalind Franklin e Maurice Wilkins já trabalhavam há anos (a estrutura do ADN). James Watson mandou uns bitaites e apanhou boleia para o prémio Nobel. Para corroborar o que digo basta ler o livro "A Dupla Hélice" do insuspeito James Watson (o próprio). James Watson não produz nada de cientificamente relevante desde os seus 25 anos. James Watson é racista, James Watson é misógino. A James Watson permite-se que diga todo o tipo de disparates porque James Watson ganhou o prémio Nobel, por ter co-descoberto a estrutura em Dupla Hélice do ADN.

O que nos leva a uma questão porventura mais interessante: Qual é a importância da descoberta da Dupla Hélice? James Watson tem a chancela da autoridade científica por ter feito uma grande descoberta, mas ninguém sabe dizer o que tem de tão especial essa descoberta. É um excelente exemplo de como funciona a mediatização. Toda a gente sabe que é importante mas ninguém sabe porquê. Eu por acaso até acho que o modelo da Dupla Hélice está longe de ser a descoberta mais importante da Biologia Molecular (expliquei porquê aqui, aqui e aqui). A Dupla Hélice é famosa porque é uma imagem bonita, e isso faz de James Watson uma vedeta. Uma vedeta com ideias esquisitas que gosta de atrair os holofotes.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Para quem acha que está tudo nos genes

O James Watson, por exemplo, acha que está tudo nos genes, e que a esquerda não gosta da Genética porque assim a culpa já não é do capitalismo (talvez em breve eu escreva um post a dizer o que acho do James Watson).
Para quem pensa como o Watson vale a pena ler as letras miúdas de três artigos publicados recentemente. Dois deles apresentam a descoberta de um gene responsável pela obesidade, o outro descreve um gene associado com a uma patologia cardíaca da coronária. Todos os três têm imensos autores, estudam amostras enormes (o que eu acho muito bem) para chegar a conclusões espantosas. Vejamos...
O primeiro artigo (pode ler-se o resumo aqui) mostra que os portadores de uma mutação no gene FTO (que quer dizer fat mass and obesity associated), que são 16% da amostra, têm em média cerca 3 quilos a mais que os restantes (TRÊS QUILOS). Ficamos a saber de onde vêm três dos quilos que temos a mais, para os anafadinhos resta saber de onde vem o resto. O segundo artigo (resumo aqui) diz que os portadores de mutações no mesmo gene FTO têm um risco de 22% de serem obesos. Isto quer dizer que têm 22% de probabilidade A MAIS do que os restantes de serem obesos. Se a população em geral tem uma taxa de, digamos, 10% de obesidade então os portadores do FTO terão 12,2%. Estão a ver a diferença que faz o gene? Finalmente o terceiro artigo (resumo aqui) mostra que para um tipo muito particular de doença coronária, os portadores de uma mutação num determinado gene (ainda não completamente identificado) têm um risco de 30 a 40% A MAIS do que o resto da população de ter a dita doença. Novamente, se a população tiver, digamos, um risco de 5%, quem tem esta mutação terá um risco de 7 ou 8%.
Sem dúvida, está tudo nos genes. Pois, pois...

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Nicolas - how far can you go? - Sarkozy

Acreditem que até faço um esforço para não escreveu muito sobre Sarkozy, mas não é fácil, ele consegue sempre ir um bocadinho mais longe. Desta vez o homem decidiu falar sobre Genética, eu não podia deixar de escrever aqui qualquer coisa (disclaimer: sou geneticista de profissão). Acreditem também que não considero Sarkozy como fascista ou sequer próximo da extrema-direita. De direita, sim, uma direita autoritária, nacionalista, e que por estratégia eleitoral decidiu conquistar o eleitorado de Le Pen, mas isso não faz dele fascista. Talvez por isso, esta recente gafe da Genética seja bastante preocupante.
Numa longa entrevista dada ao filósofo Michel Onfray, para a revista "Philosophie Magazine", Sarkozy afirmou que a pedofilia é inata, e que os suicídios de jovens se devem a uma fragilidade genética (pode ler-se o excerto relevante da entrevista aqui). Claro que é algo dito no meio de uma conversa (algo crispada, conforme Onfray conta no seu próprio blog), talvez até retirada do seu contexto, mas é por isso mesmo muito reveladora. Não sendo uma tomada de posição política, refectida e programada, é uma gafe que certamente não estava nos apenas nos planos, mas por ser assim "expontânea", "natural" é mais que provavelmente aquilo que Sarkozy realmente pensa. Na sua visão das coisas o ser humano está geneticamente predestinado, determinado, condenado a ser pedófilo ou suicida, logo à nascença, está nos genes. Levanta-se logo a questão de saber o que mais acha Sarkozy ser determinado geneticamente; a agressividade?, a delinquência?, a criminalidade?, a inteligência?, e achará Sarkozy que esses determinantes genéticos são diferentes em "raças" diferentes?
A discordância não é, da minha parte, ideológica, é científica. Não recuso a priori que uma qualquer característica humana tenha uma forte componente genética por convicção ideológica. Simplesmente não há evidência científica nenhuma de que o suicídio ou a pedofilia sejam determinados geneticamente, pelo contrário tudo indica que o ambiente seja muito mais determinante. Se e quando houver alguma evidência em favor das causas genéticas a discussão pode e deve existir, no plano científico. Como seria de esperar as declarações de Sarkozy foram condenadas por diversos cientistas. Quando um candidato à presidência faz uma afirmação destas, está a trazer para o plano político uma questão que nem sequer foi resolvida no plano científico. Quando o faz sem qualquer suporte científico (bem pelo contrário), apenas por pura profissão de fé, está a revelar apenas uma coisa: preconceito.
Nunca esquecendo que foi Sarkozy quem lançou um projecto de lei que entre outras coisas preconizou a detecção de potenciais delinquentes a partir dos três anos (!), nunca esquecendo que Sarkozy tem uma visão racial dos problemas da banlieue - terá confidenciado a Thuram (ainda ele) que quem provoca disturbios nas banlieues são os negros e os árabes -, e é agora Sarkozy quem defende o determinismo genético, começa a traçar-se uma imagem muito inquietante do candidato à presidência.
Hoje em dia as novas teorias eugénicas já não se manifestam pela defesa da pureza e superioridade da raça (energúmenos neo-nazis à parte), mas por uma permanente justificação genética para todas as diferenças entre os individuos, sob uma capa pseudo-científica mais refinada. No fundo, a diferença não é assim tão grande.