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quinta-feira, 14 de julho de 2011

A prova dos 9: o rural tem futuro?

Após este tour de force colectivo, torcemos por esta louvável iniciativa colectiva da Universidade do Algarve e da Fundação Viegas Guerreiro. Ainda por cima, numa aldeia que conhecemos, gostamos e onde vivem pessoas que admiramos.

E, já agora, que tem um bom restaurante, gostosos licores e uma excelente aguardente de medronho! De A Farrobinha, claro.

Nb: imagem de José Costa e Silva, retirada do seu post Querença, com um vivo debate sobre o arranjo da praça principal.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Aguardente de medronho, esse néctar dos deuses

Foi há pouco tempo que comecei a apreciar esta preciosidade, quando, em férias pela costa vicentina, a boa aguardente da casa que concluía a refeição em restaurantes da zona era quase sempre de medronho.
Este néctar tem origem num arbusto ou pequena árvore mediterrânica, o medronheiro ou ervedeiro (Arbutus unedo). Esta é uma árvore que sempre foi aproveitada para outras finalidades: para curtir peles (com os taninos das suas folhas e casca); para lenha; para curar diarreias, desinterias e infecções urinárias (medicina popular); para fazer mel, etc. (vd. aqui).
A aguardente de medronho era já comum no Portugal medievo, mas é provável que recue à presença árabe na Ibéria.
Esta aguardente é feita do seguinte modo:
"O ciclo inicia-se com a apanha do fruto, entre os meses de Setembro e Dezembro, realizada pelo produtor e família, ao que se segue um período de fermentação e a posterior destilação em local próprio. Por fim, a aguardente pode ser logo vendida ou submeter-se a envelhecimento. A fruta é fermentada em tanques de madeira ou barro. A fermentação é natural e dura entre trinta a sessenta dias [há quem diga que o limiar deve ser 15 dias, mas depende da temperatura exterior]. Os tanques devem ser cobertos com frutos esmagados para evitar o contacto com o ar. Depois de fermentado o produto deve ser guardado durante sessenta dias e bem protegido do ar. Uma boa aguardente de medronho é transparente, com o cheiro e o gosto da fruta".
É produzida sobretudo no Algarve, mas também existe no Baixo Alentejo e na Beira Baixa.
No Algarve deve ter 50º de teor alcoólico, em geral deve ter entre 40-50º (vd. aqui).
Foi um produto com relevância económica para as populações da serra algarvia e vizinhas do Baixo Alentejo, mas entrou em crise a partir dos anos 70, com a desertificação e o reforço da legislação específica. Para tentar cercear a crise, surgiu em 1985 a Assoc. dos Produtores de Aguardente de Medronho do Barlavento Algarvio (APAGARBE), reunindo c. de 150 dos 500 produtores locais e que pugna pela valorização e reconhecimento oficiais deste produto (enquanto Denominação de Origem Protegida ou Indicação Geográfica Protegida). No âmbito dum projecto de inventariação das principais áreas de intervenção para a revitalização das produções artesanais do interior algarvio (projecto ARRISCA na Serra do Caldeirão, integrado no LEADER I), foi feita uma «investigação-acção sobre a aguardente de medronho» (1993-2000), estudo conjunto da Univ. do Algarve, Dir.º Regional de Agricultura e Associação In Loco. Seguindo estas pisadas surgiu recentemente o oportuno livro Aguardentes de frutos e licores do Algarve, de Ludovina Rodrigues Galego e Valentim Ribeiro de Almeida (Lx, Colibri, 2007), donde retirei informação para este parágrafo.
Outros espaços que permitem revitalizar este produto são as feiras, encontros e acções de sensibilização.
O 4.º Festival de Gastronomia Serrana de Tavira incluiu na sua ementa este néctar, pela mão de restaurantes serranos (vd. lista aqui). Ou seja, esta aguardente remata bem repastos com pratos como estes: galo guisado, ensopado de veado, lombinhos de porco com passas e mel, cozido à moda serrana e lebre com feijão branco. Mas não só! Até há quem diga que vai bem com bolos e doces de amêndoa e mel, típicos do Algarve.
Também Almodôvar acolheu há 2 semanas a 1.ª Feira do Cogumelo e do Medronho (24-25/XI), dois dos principais produtos da zona.
Por fim, vende-se em várias feiras, como a de Artesanato de Loulé e a Medieval de Silves.
No Verão de 2006 realizaram-se as Jornadas do Mel, Medronho e Medronheira, em Pampilhosa da Serra.
Segundo o jornal Barlavento, a Associação In Loco organizou recentemente uma apanha de medronho em São Bartolomeu de Messines (a 17/XI), "com vista a recriar a tradição que marca as serras do Algarve" e contribuir "para a preservação do património natural e sócio-cultural regional".
Do que retenho, as minhas preferências vão para as seguintes aguardentes:
>A farrobinha (produtor: Carlos Faísca; Querença- Loulé);
>Aguardente de Medronho Velha (produtor: Obras do Caratão; Serra da Estrela);
>Manuel de Sousa Martins (S. Bartolomeu de Messines, que produz tb. um excelente licor de poejo);
>Medronho (produtor: Lidório da C. Jesus, de Tavira; melhora com o tempo, o que é bom sinal!);
>Mourinha (produtor: Herdeiros de José Manuel Mealha Guerreiro; Barranco do Velho, Salir, Loulé, tel.28-9846183).
Foi ainda muito apreciada a Aguardente de Medronho de José Rodrigues Cavaco (Vale de Ôdres, Cahopo, Tavira, o,5l, 45º), com foto aqui.
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Marcas do Algarve que ainda não tive o prazer de provar:
>Castelo de Silves (0,7l: €30; produtor: Baga-Mel; Monchique);
>Guia (€16,8);
>Pizões (0,75l: €30; esgotado na origem [Indústrias Cristina - Portimão], destilação especial para reserva desde 1902; Monchique);
>Sanches & C.ª Lda. (c/caramelo e 2 marcas distintas, uma com rótulo amarelo, a outra preto);
>São Barnabé (0,7l: €18
ou €24; produtor: Leonardo Cabrita; Caldeirão);
>Valverde e Lino (de José Manuel Valverde, de quem dizem que fazia o melhor néctar).
Ainda de Monchique vd. inf. para Cimalhas, Taipas e Monte da Lameira aqui.
Marcas da Beira, da parte de cima (Serra da Estrela):
>Aguardente de Medronho Velha (0,5l: €17,62; produtor: Obras do Caratão);
>Aguardente de Medronho - Obras do Caratão (0,7l: €15,38; produtor: Obras do Caratão).
Marcas da Beira, da parte de baixo (Oleiros):
>Silvapa (0,5l: €15; produzida em Madeirã, concelho de Oleiros).
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A ASAE só fiscaliza a aguardente comercializada, poupando a para consumo próprio, o que é uma boa notícia. O licenciamento das destilarias passou para as câmaras municipais desde 2002 (CM; vd. decreto-lei 238/2000). Vários restaurantes alentejanos estão a deixar de servir aguardente de medronho (da casa) por receio da ASAE :(  Mas se fosse servida como oferta aos bons clientes, já deveria ser permitido, não é?
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PS: era bom que os produtores fizessem mais uso da Internet para divulgar os seus produtos em sites e/ou blogues seus (e/ou de associações como a APAGARBE), até para facilitar a respectiva comercialização e encomenda por interessados. É que as mercearias finas e outros intermediários inflaccionam muito os preços deste tipo de produtos. Foi muito difícil encontrar informação útil na Internet, e a que existe é maioritariamente inserida por intermediários, além de pobre.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A marcha das tartarugas*

Em todo o mundo, há só 3 lugares que as tartarugas da espécie Caretta caretta escolhem para pôrem os ovos. Em Cabo Verde, algumas praias do arquipélago recebem esses doces animais que chegam rapidamente ao areal no embalo das ondas do mar. Iludem até o facto de, em geral, fazerem tudo «a passo de tartaruga».
A revista Visão desta semana [1] refere-se a um projecto-piloto de protecção das tartarugas que envolve investigadores da Universidade do Algarve e técnicos de Cabo Verde, em parceria. Uma das medidas mais visíveis para se evitar a matança das tartarugas inclui a presença de militares com metralhadoras(!) para vigiar as praias mais procuradas pelos animais. Solitários ou em duplas, estes militares procuram conter os caçadores furtivos que insistem em interromper a lenta actividade em terra. Esta medida pretende deter a matança e garantir que o investigador da Universidade do Algarve possa estudar e filmar todo o processo até ao momento em que as tartarugas regressam sã e salvas ao mar. A missão dos militares está rodeada de obstáculos, entre os quais destaca-se a frequente proximidade (por laços de parentesco, de amizade ou de vizinhança) que os liga aos potenciais caçadores.
É fácil de compreendermos o desconforto e o conflito de um vigilante da lei, preso entre as relações sociais actuais, o dever de militar, a satisfação de proteger as tartaruguinhas e as memórias de um tempo que o fazem conhecer tão bem todos os passos que são dados para se chegar às tartarugas e aos seus ovos.
Lemos no artigo que a sensibilização das comunidades piscatórias (e não só) para que se tornem os "vigilantes da natureza" fica para o próximo ano. É de se supor que quando começar a intervenção para a mudança comportamental teremos mais um elemento para eliminar do imaginário popular: as imagens já formadas em que tartarugas aparecem automaticamente associadas a militares com metralhadoras!
Os dois técnicos cabo-verdianos envolvidos na protecção das tartarugas adoptam atitudes corajosas e abnegadas, como a de percorrer o areal e dissimular os vestígios das desovas para impedir que os ovos sejam descobertos. Além disso, e como nos dá a conhecer o artigo, todos negam gostar de carne de tartaruga.
Por todos estes factos, e porque não temos dúvidas de que as comunidades são as únicas que podem garantir a protecção das tartarugas, a longo prazo, sugestões devem ser apresentadas. Adiantamos algumas:
- convencer os gulosos (podem preservar a verdadeira identidade) que a carne da tartaruga é assim tão saborosa porque contém um dos principais elementos responsáveis por uma doença mortal contemporânea;
- descobrir quem é o responsável pela escassez crescente do atum nas águas de Cabo Verde;
- convencer os homens (com terapia, se necessário) a abandonar a crença de que a ingestão daquela parte do corpo da tartaruga traz ganhos à performance no acto sexual.
Ou, talvez, optar pela seguinte alternativa: apressar a marcha das tartarugas de volta ao mar!
Nb: para mais informações vd. WWF.
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[1] vd. Fernando Peixoto, "A matança das tartarugas", Visão, n.º 755, 23/VIII/2007, p. 88.
*Iolanda Évora