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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Dez mandamentos do emigrante semibárbaro (4)

4 – Lembra-te do dia de sábado, para ires às putas.

Manuel da Silva Ramos,
Três vidas ao espelho, P. D. Quixote, 2010, p. 206.

Nb: na imagem, capa do livro Cartilha do marialva ou das negações libertinas redigida a propósito de alguns provincianismos comuns e ilustrada com exemplos reais, de José Cardoso Pires.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Cardoso Pires por Lisboa

Este mês passam 10 anos sobre a morte de José Cardoso Pires (2.10.1925-26.10.1998) e a Câmara Municipal de Lisboa presta homenagem ao escritor que, como poucos, inscreveu a cidade amada nos seus livros. Lisboa - as ruas, as pessoas, as vivências, a história contemporânea - habita a obra literária de Cardoso Pires, os seus romances, contos e crónicas.
José Cardoso Pires vem na capa da Agenda Cultural de Outubro. E lá dentro o autor de O Delfim, Balada da Praia dos Cães, Alexandra Alpha e tantos outros aparece em muitas secções: Editorial; Entrevista a Inês Pedrosa, amiga e autora da fotobiografia de Cardoso Pires; Reportagem "Vírgulas na paisagem", uma deliciosa selecção de excertos de livros de Cardoso Pires em que Lisboa é personagem central; Fazer "José Cardoso Pires: a obra e a cidade" - referência à vasta programação que a Direcção Municipal da Cultura preparou em torno do escritor (exposições, leituras de textos e conferências, ciclo de cinema, lançamento de livro, etc.); Ar livre "E agora, José?" - sobre o itinerário temático José Cardoso Pires; Monumentos "Conversas à mesa" - dedicado ao restaurante Pabe, local de eleição de Cardoso Pires, a par do British Bar ou do Procópio. Não me lembro de outra Agenda assim, que tenha conseguido acrescentar valor à programação cultural da cidade em torno de um dos seus maiores escritores do século XX.
Cardoso Pires nasceu na aldeia de São João do Peso (Castelo Branco), mas veio para Lisboa aos 5 anos e por aqui viveu, primeiro em Arroios, depois em Alvalade. Eu, que nasci em São Jorge de Arroios mas nunca lá vivi, não posso dizer: "De Arroios, pois, de Arroios / mais precisamente, da lisboníssima freguesia de São Jorge, 4º bairro fiscal, ou, mais precisamente ainda, duma janela de infância voltada para uma igreja que já não há e para um largo de bêbados dormentes, salitados por pombinhas maneirinhas. / Sou daí, desse largo e dessa janela, ficas a saber." (Lisboa - Livro de Bordo, p.13).
Entretanto, fiquem também a saber que não devem perder no próximo dia 24 de Outubro, às 18.30h, na Casa Fernando Pessoa, a apresentação do filme "Fotogramas Soltos das Lisboas de Cardoso Pires" (António Cunha e Inês Pedrosa), baseado no Lisboa, Livro de Bordo. Vários amigos de José Cardoso Pires colaboram nesta produção da Videoteca, como Lídia Jorge, Camané, Fernando Lopes ou Carlos do Carmo, entre outros. Cada um deles lê um excerto do livro e cada excerto é integrado na paisagem urbana a que diz respeito.
Não é só a CML a evocar Cardoso Pires. Na Biblioteca Nacional está patente ao público uma mostra evocativa da obra do escritor baseada em manuscritos do seu Espólio, doado à BN pelas suas herdeiras.
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A foto foi retirada daqui.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A fábula inédita de Cardoso Pires

Lavagante. Encontro desabitado. Assim se intitula o texto inédito de José Cardoso Pires que abre a colecção «Mil Horas de Leitura» das Edições Nelson de Matos. Um excerto da obra foi publicado em Dezembro de 1963 na revista O Tempo e o Modo, com uma nota indicando-o como um capítulo do próximo romance do autor. A publicação do texto em livro, 45 anos depois, excede as expectativas. Era de esperar uma escrita com a qualidade e as marcas do estilo enxuto, preciso, denso de Cardoso Pires. Mas não surpreenderia que se um autor tão consagrado em vida não chegasse a publicar uma obra fosse por a considerar inacabada. O leitor teria portanto acesso a uma narrativa fragmentada, a episódios de ligação discutível, a uma história abruptamente interrompida. Não é o caso: estamos perante uma história contada em catorze pequenos capítulos, encadeados de modo a saltar-se rapidamente do fim de um para o seguinte. Uma revisão escrupulosa deu origem a apenas três notas o que, num livro de 89 páginas, é insignificante.
Podemos especular por que é que o autor não se decidiu a publicar o livro em vida: porque o concebeu como romance e saiu-lhe um texto demasiado curto; por causa de eventuais coincidências entre ficção e vida real (hipótese induzida pelo virtuosismo do autor em “imitar a vida”); por as alusões a acontecimentos que parecem ser a crise académica de 62 implicariam a apreensão certa do livro na década de 60 e tornavam-no desactualizado após o 25 de Abril. A certeza é que estamos perante uma história à qual poderá ter faltado uma última revisão, mas não um desfecho.
Os sinais de um tempo muito particular da História portuguesa caracterizam, situam as personagens e o enredo, sem as fechar no passado, pois é da natureza humana que aqui se trata, tratando-a com técnicas narrativas sofisticadas e com uma das mais antigas artes do mundo: a de contar histórias, melhor, a de contar fábulas. O lavagante alimenta o safio na toca até ficar tão gordo que já não consegue sair e se torna presa das suas garras afiadas. E por isso torna-se arquétipo de um perfil humano, como o delfim, o dinossauro excelentíssimo, o sapo, o galo. Mas o homem não é apenas um animal, e por isso é mais animalesco do que os bichos, pois faz por perversidade o que num animal é apenas instinto: «Neste caso foi o safio que se libertou pela mão do lavagante. Questão de táctica, pura questão de táctica. Para ganhar uma presa é necessário às vezes soltar a outra. Todos os bichos sabem isso, e o lavagante também» (1).
(1) José Cardoso Pires, Lavagante. Encontro Desabitado, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008, p. 83.

Lavagante

«O terceiro indivíduo já lá estava quando Cecília chegou ao snack-bar.
A rapariga sentou-se ao balcão e olhou o espelho que havia por cima da frasqueira. Descobriu dois olhos grossos e uma boquilha. Era ele, o terceiro indivíduo. Tinha chapéu de abas largas e samarra, ar de amigo de patuscadas e de toureiros retirados.
Cecília bebeu o primeiro café, bebeu o segundo. No espelho, o homem tirava fumaças e fazia-lhe olhos doces, os olhos do velho galo conquistador.
Curvada sob o peso daquela presença, a rapariga abriu uma revista – o último número dos Cahiers du Cinema, se por acaso se lembrou de o comprar e se, comprando-o, o tivesse trazido com ela – abriu o Cahiers e tentou ler. As mãos suavam-lhe terrivelmente. Ela sabia o que isso queria dizer e foi lavá-las com carinho, compadecida e vagarosa para ganhar tempo. Depois voltou para o lugar. Daniel acabava de aparecer.»
PIRES, José Cardoso, Lavagante. Encontro desabitado, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008, pp. 71-72