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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Enciclopédia do boy júnior

É um trabalho de sapa aquele que este blogue tem feito para nos revelar o maravilhoso mas intrincado mundo do assessor nova geração, pró-troika mas imune à partilha de penalizações salariais (isso é para o comum dos mortais).

Perante esta tendência com algum déjá vu, há quem ache que o perigo é a «esquerda caviar» ou, na expressão mais chã de Fátima Bonifácio, a «esquerda champagne». É que esta, se fosse poder, seria a «nomenclatura da nova situação». E, temor dos temores, concretizaria a ameaça letal: «Não fariam parte [os seus amigos ricos socialistas], como eu faria, se isso acontecesse, dos lumpen intelectuais a ganhar 25 tostões para dar dez horas de aulas por dia».

Pessoas como a insigne historiadora do século XIX dizem-se há muito vacinadas contra o esquerdismo dos anos 70, em que militou cegamente. No seu armário, contudo, é só fantasmas desse período. Aqueles que assim se expressam vivem todos nesse passado, como se não tivessem vivido mais nada, como se não houvesse mais referenciais do que um certo pensamento dualista desse tempo.

Entre o real e o imaginário, há todo um campo de opções. Optar pelo cenário mais inverossímil para neutralizar o dissenso político actual (ou, simplesmente, para evitar alongar-se sobre a situação actual) não deixa de ser o mais irónico possível para alguém que se «pela» por polémicas, gosta de política e se afirma provocadora.

Nb: para ler outras pérolas vd. aqui.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um novo elefante na loja de porcelanas

Inebriado pelas sondagens e pela erosão socratista, o novo líder do PSD já só pensa no pódio. Vai daí, Passos Coelho resolveu brindar-nos finalmente com a sua verdadeira face: um neoliberalismo cego, que tudo atropela: direitos, coerência, oportunidade. A sua proposta de revisão constitucional foi o teste de partida e, a menos que o PS já esteja por tudo, será um autêntico tiro no pé. É já um dos temas de conversa comum: o ataque ao Estado social e aos direitos sociais num contexto de grave crise social e económica.

Mas não é só isso que está em causa; é também a sugestão encapotada de mais poderes presidenciais, ao arrepio da posição tradicional do seu partido e do modelo constitucional consagrado em 1982, justamente contra as tentações presidencialistas (vd. aqui). Sugestão essa que, por sinal, contradiz a proposta seguinte da possibilidade duma moção de censura parlamentar articulada com uma alternativa governativa: mais incongruência do que esta é difícil. O que faria então o PR: acataria sem nada dizer, quando teria então a possibilidade de ser ele a demitir o governo sem justificações de maior e de ter um ascendente maior sobre a formação dos governos?

Por fim, sob a capa da limpeza ideológica vem a seguir o corretor neoliberal: o Estado passa a mero distribuidor de subsídios para as empresas (é a isso que se reduz a política de emprego!), os despedimentos tornam-se mais fáceis e a economia social é chutada sem apelo nem agravo, indo na enxurrada as IPSS e outras instituições sociais gradas da direita política (vd. aqui e aqui).

Para um partido como o PSD que tem uma boa quota-parte de responsabilidade na construção dum Estado despesista e capturado por interesses clientelares, fica mal começar atacando os poucos pontos de segurança do cidadão comum. Não seria melhor dar indicações sobre como reduzir a despesa pública no sector público (já nem falo em equiparar o IRC da banca ao das pme's, suspeito que não será 'prioridade')? Por exemplo, quanto a contratos de obras e concursos públicos, despesas extraordinárias (como as de desempenho), etc., etc.. Material não falta, certamente, basta ir às recomendações do Tribunal de Contas e da Inspecção-Geral de Finanças...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Esqueletos no armário

Maioria PSD/CDS não quer Rua José Saramago no Porto

A proposta, apresentada pelo vereador da CDU, Rui Sá, foi ontem rejeitada pelos votos da maioria. O documento previa uma manifestação de pesar pela morte de José Saramago e a atribuição do nome do escritor a uma artéria da cidade. O voto de pesar ainda foi aprovado, com a abstenção de seis eleitos do PSD e do CDS e o voto contra de Sampaio Pimentel (CDS), mas a proposta de dar o nome do escritor a uma rua foi chumbada pela maioria do executivo (com os votos favoráveis de quatro vereadores do PS e de Rui Sá; o socialista Vilhena Pereira absteve-se).

quinta-feira, 27 de maio de 2010

E quem é que disse que ser radical é mau?

«Rainha Isabel II proclama "programa radical para um governo radical"», por Ana Fonseca Pereira

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A vez do parlamento, num quadro político menos abafado

Com os resultados das eleições parlamentares de ontem, Portugal acordou com um ambiente menos abafado. Muitos resumos taxativos foram já emitidos, todos redutores, claro. Proponho um exercício diferente: a aplicação da teoria do «copo meio cheio, copo meio vazio» (que até condiz bem com a vivência destes momentos...).
Assim, na versão «copo meio cheio» todos venceram: o PS porque ficou na frente; o PSD porque teve +deputados (3), votos (c.6 mil) e percentagem (29,1%, em vez de 28,8); a CDU idem (1/ c.14 mil/ 7,9% em vez de 7,6); o CDS idem (9/ c.177 mil/ 10,5% em vez de 7,3); o BE idem (8/ c.93 mil/ 9,9% em vez de 6,4).
Na versão «copo meio vazio», o PS vence, mas por pouco (perde a maioria absoluta e meio milhão de votos e tem a 2.ª vitória mais baixa desde 1975); o PSD porque assumiu a derrota dum modo que revelava expectivas injustificadas, dada a péssima campanha (arrebanhando um dos piores resultados do seu historial); a CDU porque desce para 5.ª força; o CDS porque não consegue fazer uma coligação maioritária de direita; o BE porque não conseguiu ser a 3.ª força, nem formar maioria com PS e porque ficou aquém das expectativas íntimas de muitos.
Algures, o veredicto de cada um de nós combinará partes disto. Já o dos comentadores encartados dos media tem tendência a inclinar-se para o conservadorismo e os «srs. responsáveis», como lhes chama Rui Tavares.
Além disso, em termos factuais, a bipolarização erodiu-se bastante, e com ela o «voto útil» (embora este ainda tenha funcionado à esquerda, sobretudo quanto às expectativas existentes); a maioria eleitoral continua de esquerda, c.57% dos votos e 60% dos deputados (isto, claro, se inserirmos o PS neste segmento), ligeiramente menor mas mais à esquerda (como realça o Renato, esta teve +de 1 milhão de votos), devendo ser aí que se deveria procurar entendimentos (por muito difíceis que sejam, e devendo ser o PS a fazer convites); e a direita radicalizou-se, com o CDS a reforçar-se significativamente, permitindo-lhe ser parceiro para maioria absoluta.
Outro mito que ruiu: muitos insistiam em dizer que o sistema eleitoral português é anti-maioria absoluta. Discordo: ele é sobretudo a favor da bipolarização. Ora, vejam-se os resultados eleitorais e o modo como os partidos mais pequenos têm muitos menos deputados.
Nb: faltam apurar os resultados dos círculos da emigração, mas que não deverão alterar significativamente este panorama; a imagem é de miss red.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Prognósticos...

Em final de campanha, o corropio de palpites domina o espaço público. Há-os para todos os gostos. Evitemos os mais hipotéticos, porque só temos um post para isto (não, não é racionamento, é economia pessoal).
Os cenários mais prováveis são: 1) governo minoritário PS, com acordos pontuais; 2) Bloco central; 3) governo de direita. Tudo o resto é delírio ocioso, atendendo ao contexto.
Como o primeiro será o mais provável, aqui vai: Guterres I (1995-99) em versão reloaded. Ou seja, com acordos aqui e ali, mais à direita do que à esquerda (foi isso que então ocorreu, e repetiu-se em Sócrates I, mesmo tendo maioria absoluta), mas durando uma legislatura inteira e tendo obtido ganhos relevantes nas políticas social e cultural. Por muito que doa a Vital Moreira, que veio na 3.ª feira* anunciar o apocalipse no Público que o PS tanto incensa, é o melhor que lhe sairá na rifa (entretanto refez o sermão: é conforme o freguês e a quebra de lucidez).
Como inesperadas transferências de voto são pólvora rara (e, por estes tempos, estoirada nas europeias), a única certeza é que murchou de vez o Marquês de Pombal recauchutado. Na próxima reencarnação, quando muito, teremos um Intendente Pina Manique reloaded. E já não é mau, que o homem parece que também tinha uma costela benemérita... É o que há, por ora...
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*Vital Moreira, para a posteridade próxima: «embora seja possível a formação inicial de governos minoritários, a sua sustentabilidade é escassa [...] trata-se de governos enfraquecidos, sempre na iminência de serem desfeiteados no Parlamento e, até, de serem obrigados a executar políticas aprovadas pela oposição contra si. [...] Os únicos governos que garantem a estabilidades e consistência governativa são os governos monopartidários dotados de maioria parlamentar. Nenhuma outra solução governativa pode dar garantias iguais ou aproximadas. Ou são governos efémeros, ou governos fracos, ou ambas as coisas».

domingo, 7 de junho de 2009

Manolo acertou nas Europeias, a direita mantém-se

É isso aí, Manolo Piriz acertou no vaticínio que fez aqui há umas semanas atrás: a direita voltou a ganhar as eleições europeias, infelizmente.

Para quem tem uma posição de esquerda, e embora não seja certo que o eleitorado europeu tenha votado sobretudo pela divisão esquerda/ direita, tudo indica que os resultados destas eleições abarcando um território com 375 milhões de habitantes, tenham sido algo decepcionantes. Durão Barroso lá se manterá à frente da Comissão Europeia, o que é mau para uma reforma progressista das estruturas da UE e da sua governação. Esse é o efeito negativo mais directo. Mas antes disso, o parlamento europeu continuará a ter como corrente liderante o PPE, que é o representante da direita/ centro-direita. Ou os eleitores europeus acharam que a culpa da crise económico-social não era das políticas que esses partidos preconizaram, ou acham que estão a tentar resolver os problemas do melhor modo. Ambas as opções são, porém, para reflexão séria. Quer dizer que os partidos socialistas europeus não são vistos na Europa como materializando uma escolha válida.

Os partidos de centro-direita que lideram nos principais países europeus mantiveram-se na frente (Alemanha, França, Itália, etc.), enquanto noutros países com governos de centro-esquerda, estes tiveram derrotas significativas: são o caso do Reino Unido, Espanha e Portugal.

Em Portugal, a coisa vai ser dura para o partido no governo, o PS, pois o centro-direita (PSD) conseguiu um resultado liderante forte, o socratismo foi muito penalizado e os anti-Bloco central (partidos de esquerda e direita: BE, PCP e CDS) obtiveram quase 1/3 dos votos.

O PS de Sócrates vai penar muito nos próximos meses: primeiro, porque a performance de Paulo Rangel arrebanhou uma dinâmica de vitória que coloca o PSD na pole position para as eleições legislativas a ocorrerem já daqui a 3 meses. Depois, porque essa dinâmica se reforçará nas locais de entremezes, pois os «laranjinhas» são campeões autárquicos.

A votação do BE e PCP é auspiciosa e reforça a ideia de que a esquerda pode ser uma alternativa de médio prazo (em aliança pós-eleitoral ou liderando mesmo), caso a esquerda do PS tenha a ousadia de se juntar numa coligação de verdadeira alternativa ao rotativismo sem saída que imperou nas últimas décadas em Portugal.

Oxalá também aí se consiga criar uma dinâmica de convergência capaz de ser uma opção de poder e governação, e já não só de oposição séria e combatente. Que supere as inevitáveis prudências de Alegre e da sua corrente da esquerda socialista, atendendo à campanha presidencial de esquerda para que trabalha desde o milhão e cem mil votantes que obteve nas presidenciais de 2005.

PS: para quem quiser ver resultados globais e por país vale a pena ir ao site do Euronews, onde um mapa permite fazer as várias pesquisas.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O rei-momo do populismo luso está de volta!

É verdade, meus amigos, o Flopes regressou e em força!

Para mostrar que a direita a sério não descansa no feriado do 25 de Abril avançou com a artilharia pesada, em formato high-tech: tv-net, site, blogue, etc.. Mas o melhor de tudo foram as suas declarações, como de costume.

No lançamento da candidatura a edil lisboeta defendeu a suspensão do projecto de contentores do porto de Alcântara, a 3.ª ponte sobre o Tejo exclusivamente ferroviária, e opôs-se ao fim do aeroporto da Portela. Tentador para muitos, o último só para o lobbie do turismo (que o co-financiou e co-financiará) e para quem já não reside em Lisboa mas ainda aí vota. O pior foi o resto.

E o resto foi dizer que "a sua prioridade em 2002 foi a reabilitação através do repovoamento e é a ela que regressa agora, para devolver a cidade aos munícipes". Hello!, alguém acredita nisto? Então, quem teve como bandeiras a reabilitação do Parque Mayer (cujo projecto betonesco de Frank Gery ficou na gaveta) e o túnel do Marquês (para trazer mais carros para dentro da cidade e que levou Lisboa à bancarrota), jura agora que a sua prioridade foi o repovoamento?!

Disse ainda não querer "mais carros a entrar em Lisboa", daí a tal 3.ª ponte ferroviária, mas antes fez o oposto. E há uns meses atrás, propôs uma ligação Rotunda - Campo Grande exclusivamente por túneis, prometendo então fazer mais um túnel rodoviário, este debaixo da Praça Saldanha (depois da buracaria interminável do metro, mais obras na zona, porque não?). Em que ficamos?

Flopes, que encabeçará uma coligação de direita (PSD, CDS-PP, MPT e PPM), não fez só coisas erradas, claro, algo se aproveitou. Mas o balanço é claramente negativo. Será preciso recordar que foi o seu próprio partido que retirou a confiança política ao seu discípulo Carmona Rodrigues e que, por causa disso, houve eleições intercalares na capital? Já para não falar doutros legados, como o das santanetes, um aparelhismo sui generis preservado no léxico político.

Who cares? Pode ser que a memória seja curta, e, assim como assim, há sempre muito boa gente que vive dos aparelhos partidários.

Preparai-vos para a festa, vão ser uns mesitos de loucura! Ou anos, porque o cromo é bem capaz de ganhar novamente as eleições!! Segurai-vos, pois, o apito acabou de soar!!!

Nb: adaptação de cartoon de GoRRo, originalmente publicado em Fuga para a vitória.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Público & notório

"A evolução da sociedade portuguesa nos últimos 30 anos não foi acompanhada pela adaptação dos partidos políticos, que se mantiveram formalmente fiéis a códigos ideológicos que fizeram parte do seu momento genético, aliás em regra para mais facilmente os tripudiarem no dia-a-dia. Para agravar as coisas, o PS chegou-se ao centro com Guterres, continuou a fazê-lo com Sócrates e está a evoluir no sentido de um partido pós-social-democrata (tema a que dedicarei qualquer dia uma destas crónicas), numa linha de «liberalismo avançado» que, há mais de 25 anos, teorizei como a estrutura central do pensamento político de Sá Carneiro."
José Miguel Júdice,
mandatário de António Costa à presidência da CML
(in "Pensamentos heréticos sobre a direita", Público, 20/VII/2007)

"Em relação à reforma da despesa pública, para além dos cortes no investimento e as medidas nas pensões e reformas, os resultados práticos brilham pela sua ausência. Acabámos de saber que as receitas dos impostos são melhores do que o esperado, mas o compromisso de fechar as contas do Estado em 2007 abaixo dos 3,3% fica adiado porque a despesa corrente não está a correr como o planeado. Fico preocupado, porque a crise orçamental deixada pelo PSD-CDS deveria ser aproveitada para a reforma da despesa e esta parece ficar para depois das eleições de 2009. Como nessa altura a pressão orçamental será menor, podemos pensar que nada mais será verdadeiramente realizado. Os cortes horizontais e cegos, alguns ainda recentes, não resolvem o problema, premeiam as instituições com gorduras, que os podem acomodar, e penalizam as que tinham uma gestão financeira apertada, que podem ficar paralisadas. [...] Tudo o que não devia ser feito. Quem teima em não querer conhecer a história, está condenado a repeti-la, infelizmente."
Luís Campos e Cunha,
ex-ministro das Finanças de Sócrates
(in "Mais vida para além do défice?", Público, 20/VII/2007)

Fontes: cartoon de José Miguel Júdice daqui; foto de Luís Campos e Cunha daqui.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

As eleições afinal são para todos

Eis o 4.º e último assunto do balanço de Maio: a decisão do Tribunal Constitucional sobre as eleições intercalares em Lisboa e a reconfiguração do xadrez político nacional.
Afinal, Helena Roseta sempre tinha razão em protestar contra a má aplicação dos prazos legais para as eleições na CML, pelo menos é esse o veredicto do tribunal máximo do país, que implicou o avanço do dia de votação de 1 para 15 de Julho. Era, então, uma questão de vitimização pessoal, ou algo mais grave, do género, atropelo à ponderação dos interesses legítimos em jogo? Pois é.
Nunca houve tantos candidatos ao município da capital. Desde que uma parte tenha qualidade não vem mal ao mundo. Quanto a coligações, não vale a pena fingir: na actual conjuntura era inviável. Mas estes 2 anos até às eleições municipais gerais deviam propiciar o amadurecimento de consensos. O que está em jogo agora pode ser algo mais profundo: a reconfiguração do espectro político-partidário nacional. Esqueçam as balelas do VPV e as suas sentenças sobre populismos, distribuídas a metro por todos e indistintamente; a questão é bem mais séria.
À esquerda, trata-se de afirmar um espaço de socialismo democrático que talvez nunca tenha existido dum modo sustentado neste último trinténio, pelo menos nos campos programático, social e cultural.
À direita, trata-se de autonomizar 2 áreas: a liberal e a conservadora, assumindo esta uma postura mais intervencionista. Aqui será mais complicado: onde se situará, por ex., Bagão Félix? Ou será que se trata tão-só de salvaguardar a existência duma direita (face à influência anestesiante dum centro corrosivo), personificada no populismo peronista de Santana Lopes, Filipe Meneses, Carmona e demais seguidores?
Nb: cartoon do caricaturista argentino Tute.

domingo, 13 de maio de 2007

O fim da via

Finalmente consegui dispor de tempo para esboçar alguma coisa sobre as eleições presidenciais francesas. Na verdade, não é bem sobre as eleições que quero escrever, mas sobre algumas questões que me surgiram a propósito do que foi escrito e dito. Emergiu mais uma vez a eterna divisão ideológico-identitária entre direita e esquerda. Afinal, parece que há mesmo diferenças, apesar de muitos apregoarem o fim das ideologias e que, no fundo, as diferenças são apenas ao nível do estilo. Numa eleição fortemente mediatizada como esta, admito que o estilo possa ser um elemento importante. E, admito também, que face a um estilo duro, decidido e, de certo modo, autoritário de Sarkozy, faria sentido contrapor o estilo doce, sorridente e dialogante de Ségolène. E que face a um discurso determinado e radical, faria sentido contrapor uma mensagem conciliadora e, em certo sentido, conservadora. Digo bem, conservadora, sobretudo no que concerne às políticas sociais e económicas que passam fundamentalmente pela proposta de manutenção dos direitos adquiridos e pela conservação do Estado Social.
Embora não vá concretizar muito daquilo que propôs, não há dúvida de que a imagem e a mensagem do candidato da direita foi construída em torno de uma certa tónica de radicalidade, nomeadamente, nas políticas de fechamento e controlo da imigração e de abertura e liberalização da economia. E o que é extraordinário nestas eleições, é que esse ênfase radical ganhou com maioria absoluta. Desta vez o tal ‘centrão’ não optou pelo candidato mais moderado. Sarkozy conseguiu na 1ª volta roubar votos à extrema direita e na 2ª atrair o centro político. A direita institucional não hesitou em apoiar o seu candidato mais intempestuoso, a esquerda institucional apoiou o seu candidato mais ligth e perdeu.
Este desfecho repete o que já tinha sucedido nas últimas eleições presidenciais americanas. O partido republicano radicalizou-se através da sua indumentária neo-conservadora e ganhou face ao candidato mais moderado dos democratas. Nestas duas eleições a direita ganhou radicalizando-se, a esquerda perdeu vendendo-se ao centro. Será uma mera coincidência ou uma tendência que se generalizará noutros países? Não faço ideia, mas uma coisa tenho como certa, para a esquerda a terceira via deixou de ser a via para as vitórias eleitorais. Talvez esta constatação ajude a despir alguns complexos em assumir projectos mais radicais, ou seja, projectos verdadeiramente políticos!

sexta-feira, 2 de março de 2007

E a próxima reencarnação é?

CDS-Partido Liberal

domingo, 28 de janeiro de 2007

A dimensão oculta

A propósito da discussão à volta de um post anterior, parece-me que convém salientar alguns pontos essenciais sobre as divisões da esquerda. Na verdade, perante a mobilização em torno de um programa comum, a esquerda parece que acaba sempre por se desmembrar no apoio a uma série de candidaturas e de figuras políticas. Esta situação não é específica de França. Por exemplo, nas últimas eleições presidenciais realizadas em Portugal verificou-se algo de semelhante. A direita conseguiu unificar-se em torno de um candidato, enquanto a esquerda se dividiu em quatro candidaturas, duas das quais oriundas do mesmo partido. Esta irracionalidade teve como consequência a vitória da direita logo na 1ª volta. Ainda não se reflectiu o suficiente sobre as causas destas divisões, mas estou plenamente convencido de que se as eleições se repetissem hoje elas voltariam a suceder.
O que leva a esquerda a não se entender e a não conseguir mobilizar-se em nome de programas e de candidatos únicos? Não tenho uma resposta clara, mas acho que esta reincidência passa por uma incapacidade em definir um mínimo denominador comum capaz de congregar diferentes posições. Este facto não se deve a um excesso de ideologia que esmiúça a discussão e o debate, mas a um deficit de pragmatismo incapaz de concretizar numa efectiva estratégia de mobilização e de congregação de interesses. Como é que se justifica que um partido como o CDS não tenha dificuldade em apoiar um candidato presidencial que se intitula social-democrata, enquanto o PS nem sequer consegue avançar com um candidato único?
Na verdade, perante a perspectiva de obtenção de resultados eleitorais a direita consegue pôr de lado as diferenças e realçar as aproximações. Fá-lo, não por ser mais pobre de ideologia, mas porque se esforça por anular as divisões em nome de um programa comum. Curiosamente, a esquerda que comunga de uma visão mais colectivizante da sociedade, deixa-se esfumar por idiossincrasias individuais e egoístas sempre que tenta empreender uma aliança entre partidos e programas. E falha quase sempre! Entra-se numa toada esquizofrénica em que as pequenas rivalidades parecem valer mais do que as grandes vitórias. É um fenómeno estranho, que provavelmente só pode ser verdadeiramente descodificado à luz da 5ª dimensão.

domingo, 14 de janeiro de 2007

A direita repugnante

O projecto liberal da direita é fundamentalmente de natureza económica. Neste sentido, ao apregoar-se a desregulação de todo o tipo de proteccionismos transforma-se o Estado no alvo principal de contestação. No entender da direita liberal, a liberdade individual só se concretiza plenamente por intermédio de um mercado livre despido das amarras perversas do Estado social. Tendo por base uma lógica meramente racionalista, a direita tende a confiar no indivíduo como um agente que toma a opção acertada perante a oferta e a procura. Por feitiços de uma tal 'mão invisível' as opções individuais são encaradas como o garante necessário para a auto-regulação do mercado.
Contudo, perante os valores, os indivíduos deixam de merecer a mesma confiança. Passa-se a não reconhecer as suas opções como uma tomada de posição consciente e eminentemente racional. Curiosamente, na questão dos valores, o Estado é encarado como um agente regulador que define as regras do jogo independentemente das vontades particulares. Assim, para a direita o primado da liberdade individual é uma concepção fundamentalmente materialista. Fora da mercadoria o indivíduo é reduzido a uma entidade irracional, imatura e destituída de senso. Esta postura de desconfiança relativamente ao direito da opção individual tem determinado, ao longo destas décadas, a posição da direita na campanha pelo ‘não’ à despenalização da interrupção voluntária da gravidez.
No entanto, na presente campanha assistimos uma novidade: a utilização do argumento materialista para legitimar o voto contra. A opção em não aceitar a liberdade do outro é justificada pelo direito em não pagar a assistência médica de quem escolheu abortar. O acto de abortar é assim transformado numa mercadoria que se rege em função das mesmas leis mercantis de qualquer outro objecto. Paradoxalmente, a direita tenta impor a racionalidade materialista à liberdade de opção individual. O mercado passa a dominar tudo! Os valores (entre os quais o da liberdade) são reduzidos à simples lógica das contas. Este argumento é em si execrável e repugnante. Representa o esvaziamento de qualquer sentido de humanidade.

domingo, 31 de dezembro de 2006

O ponto de partida (provisório)

Surgem aqui e ali tomadas de posição sobre o que representa ser de esquerda e de direita. Considero que não só continua a ser pertinente uma clara distinção ideológica, como, a meu ver, se torna importante aprofundar os sentidos dessa oposição. Por isso, é importante retornar, em certa medida, às proposições simples, aquelas que realmente valem para definir e orientar a nossa identidade política. Sendo assim, entendo que ser de esquerda implica, antes de qualquer outra coisa, uma preocupação com o problema das desigualdades sociais.
Para a direita a desigualdade é uma inevitabilidade das sociedades e dos mercados é o custo legítimo que se tem de pagar para a criação de riqueza. Nestes termos, a atenuação da desigualdade não é uma prioridade mas uma consequência secundária resultante da capacidade das economias produzirem mais. Havendo mais riqueza as condições de vida melhorarão quase automaticamente. Neste sentido, é indiferente para a direita que a produção de riqueza assente numa base de exploração entre os homens. Para esta o conceito de exploração é uma mistificação.
A esquerda, para além de entender que nada justifica a exploração, considera que um dos factores subjacentes à desigualdade é a sua própria reprodução. Por isso, entende que, por si, a criação de riqueza leva naturalmente à acumulação e não à repartição. Isto é, se dado sistema económico se sustenta a partir de uma base acentuada de exploração, estas condições não se alterarão e continuarão a prevalecer se nada for feito em sentido inverso. Daí a importância que a esquerda atribui ao Estado e a outras instituições reguladoras. Daí a crítica à actual globalização económica que tendencialmente favorece a acumulação de capital e o agravamento das assimetrias sociais e económicas.
Para a direita o Estado representa um factor de deturpação das leis do mercado no qual os mais capazes vingarão e conquistarão as suas oportunidades. A acção estatal tende a ser vista como geradora de perversões ao gratificar os incapazes e ao prejudicar quem conquistou vantagens. E, neste sentido, a liberdade individual é posta em causa.
No caso da esquerda, o Estado é encarado como um agente que garante uma equidade de oportunidades dado que as pessoas partem de condições sócio-económicas muito diferenciadas. Nesta óptica, as vantagens de alguns indivíduos não são vistas como meras conquistas, mas como o resultado determinado em parte pela reprodução desigual das condições de partida. Só garantindo o acesso a certos direitos básicos (educação, saúde, justiça…), se consegue atenuar as assimetrias de base. E isso faz-se por intermédio de políticas públicas que quebrem parcialmente o ciclo reprodutivo. Só assim uma vantagem se transforma de facto numa conquista. Este torna-se um requisito fundamental para alcançar uma verdadeira liberdade individual.
Eu não tenho dúvidas sobre o lado que tomo. Mas considero que partir destas proposições simples se devem gerar outras mais complexas e inovadoras de modo a que o projecto da esquerda não se quede em posições teimosamente conservadoras e basicamente resistentes. É imperativo assumir sem complexos uma postura crítica e imaginativa perante os pressupostos básicos que enumerei neste post.
Publicado pela primeira vez no blogue a Fuga para a Vitória.