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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Se o ridículo matasse...

Embalado pela campanha eleitoral, o presidente Cavaco Silva decidiu multiplicar-se em acções em prol dos pobrezinhos, indo a casamentos de sem-abrigos, lanches com idosos em lares, admoestações contra a existência de pobreza, etc.. Como o acussassem de eleitoralismo, respondeu que «a pobreza é uma preocupação sua desde o início do mandato». Sim, sim, porque os pobres também podem e devem ser competitivos, ter empreendedorismo (sobretudo os sem-abrigo, que andam dum lado para o outro todos os dias), etc. e tal.

Lembrei-me de ir ver então os seus discursos. Comecei pelo primeiro, que, a certa altura diz «Caros concidadãos»... Cá está a prova! É que concidadãos também inclui pobres e sem-abrigo. Certo?

«Penso eu de que».

domingo, 28 de novembro de 2010

Quando a causa é apelativa, o voluntariado surge

É esta a ilação que se pode retirar da forte adesão por parte dos jovens na nova campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, uma organização que recolhe alimentos para pessoas necessitadas. Tal foi a adesão que muitos jovens voluntários tiveram que ficar de fora. Afinal, o voluntariado juvenil em Portugal não é uma miragem, falta é conseguir cativá-lo. Cada vez mais este passará por causas, abraçadas por curtos períodos. No que parece ser uma tendência internacional, a confiar no que diz o investigador Bob Price para os EUA.

O Banco Alimentar é um caso português bem sucedido e já tem seguidores no estrangeiro. Isabel Jonet, a sua presidente, está de parabéns neste particular.

Também é de louvar a iniciativa prevista para 10 de Dezembro, em que as sobras alimentares dos restaurantes aderentes não serão deitadas ao lixo mas sim dadas a quem precisa. Valeu a pressão social neste sentido. Falta agora a ASAE não persistir em criar obstáculos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sustento condigno para todos

Esta é uma das ideias fortes da palestra de hoje de Peter Spink, que veio ao ISEG falar de «Trabalho, informalidade e cidadania» (em seminário do CESA), num dia marcado pela jornada europeia a favor de emprego condigno e direitos sociais para todos. Feliz coincidência.
O autor, investigador na Fundação Getúlio Vargas, acha que os conceitos de trabalho formal e informal já não são suficientes para descrever aquilo que preocupa mais as pessoas, ou seja, fazer pela vida, «se virar», buscar sustento, livelihood, na expressão inglesa. Ainda assim antipatiza com sustainable livelihood: «sustento sustentável» não será demasiado rebarbativo? E porque hão-de ser os pobres a ter que se preocupar com o ambiente quando os outros nada fazem?
Entretanto, buscando na net, deparei com 2 estudos de Spink: um chamado Parcerias e alianças com organizações não-estatais (2001, com livre acesso ao texto na ligação supra); e outro com Camarotti, sobre Parcerias e pobreza: soluções locais na implementação de políticas sociais, (2000), estudos que podem interessar a muitos leitores.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Campanha «Como salvar milhões de mães e crianças»

A ONU reúne-se este mês para debater a prorrogação dum programa, o Projecto do Milénio, que, nos últimos 10 anos, ajudou a reduzir a pobreza, miséria e mortalidade materna e infantil em muitos países subdesenvolvidos, além doutros feitos. Nesse sentido, a ONG Avaaz elaborou esta petição para se pressionar os líderes mundiais no sentido da continuação do programa. Deixo-vos um excerto desta exortação à participação cidadã:

Aos líderes globais:

Como cidadãos globais engajados, pedimos que você renove a sua promessa de combater a pobreza até 2015 na Cúpula da ONU sobre os Objetivos do Milênio. Nós pedimos, especificamente, a duplicação dos fundos para reduzir dramaticamente a mortalidade materna e infantil, e garantir que os fundos sejam enviados de forma coordenada e eficaz.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Juntos por uma sociedade para todos

Este é o Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social, por decisão do Parlamento Europeu e do Conselho da UE. O grande fito da iniciativa - «o combate à pobreza e à exclusão social continua a ser um dos compromissos políticos chave da União Europeia e dos respectivos Estados-Membros» - embora bem-intencionado, não passa disso mesmo.
Dito isto, mais vale alertar para a situação do que omitir: é que existem 78 milhões de pessoas na UE em risco de pobreza, 19 milhões das quais crianças.
Em Portugal, a representante local promete medidas de apoio ao emprego. Para informações sobre/ desta Entidade Coordenadora Nacional do Ano vd. aqui. No Público foi publicado o seu Manifesto contra a pobreza, mas não topei com ele na Internet... O título do post baseia-se na divisa da iniciativa.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O 2 em 1: combater a exclusão social e a poluição pela reciclagem do óleo

A fórmula é inovadora e temos todos a ganhar com esta iniciativa louvável da AMI. Aproveito para aqui deixar o texto de divulgação da AMI:
"Talvez não saiba, mas o óleo alimentar que já não serve para si pode ainda ajudar muita gente. Em vez de o deitar fora, entregue-o nos restaurantes aderentes para que este seja recolhido. Além de diminuir a poluição do planeta, cada litro de óleo será transformado num donativo para ajudar a AMI na luta contra a exclusão social. Dê, vai ver que não dói nada.
Para participar neste projecto da AMI:
- junte o óleo alimentar que usa na sua cozinha numa garrafa de plástico e entregue-a quando estiver cheia num dos restaurantes aderentes. Os restaurantes estão identificados e a lista completa está disponível em
www.ami.org.pt [http://www.ami.org.pt/media/pdf/oleos_aderentes0608.pdf];
- afixe cartazes no comércio da sua localidade e distribua folhetos nas caixas de correio. Solicite materiais, enviando um e-mail para
reciclagem@ami.org.pt;
- divulgue esta informação no seu site ou blog;
- encaminhe este e-mail para a sua lista de contactos.
Press release:
Pela primeira vez, vai passar a existir em Portugal, uma resposta de âmbito nacional para o destino dos óleos alimentares usados. A partir de dia 15 de Julho, a AMI lança ao público este projecto que conta já com a participação de milhares de restaurantes, hotéis, cantinas, escolas, Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais.
A AMI dá com este projecto continuidade à sua aposta no sector do ambiente, como forma de actuar preventivamente sobre a degradação ambiental e sobre as alterações climáticas, responsáveis pelo aumento das catástrofes humanitárias e pela morte de 13 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.
Os cidadãos que queiram entregar os óleos alimentares usados, poderão fazê-lo a partir de agora. Para tal, poderão fazer a entrega numa garrafa fechada, dirigindo-se a um dos restaurantes aderentes, que se encontram identificados e cuja listagem poderá ser consultada no site
www.ami.org.pt.
Os estabelecimentos que pretendam aderir, recebendo recipientes próprios para a deposição dos óleos alimentares usados, deverão telefonar gratuitamente para o número 800 299 300.
Este novo projecto ambiental da AMI permitirá evitar a contaminação das águas residuais, que acontece quando o resíduo é despejado na rede pública de esgotos, e a deposição do óleo em aterro. Os óleos alimentares usados poderão assim ser transformados em biodiesel, fornecendo uma alternativa ecológica aos combustíveis fósseis, e contribuindo desta forma para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE). Ao contrário do que por vezes acontece com o biodiesel de produção agrícola, esta forma de produção não implica a desflorestação nem a afectação de terrenos, nem concorre com o mercado da alimentação.
São produzidos todos os anos em Portugal, 120 milhões de litros de óleos alimentares usados, quantidade suficiente para fabricar 170 milhões de litros de biodiesel. Este valor corresponde ao gasóleo produzido com 60 milhões de litros de petróleo, ou seja, o equivalente a cerca de 0,5% do total das importações anuais portuguesas deste combustível fóssil. A AMI dá assim a sua contribuição para favorecer a independência energética do país, conseguindo atingir este objectivo de forma sustentável e com uma visão de longo prazo, não comprometendo outros recursos igualmente fundamentais para o desenvolvimento da sociedade e para o bem-estar da população.
Segundo a União Europeia, o futuro do sector energético deverá passar pela redução de 20% das emissões de GEE até 2020, assim como por uma meta de 20% para a utilização de energias renováveis. Refere ainda uma aposta clara na utilização dos biocombustíveis, que deverão representar no mínimo 10% dos combustíveis utilizados.
A UE determina ainda que os Estados-Membros deverão assegurar a incorporação de 5,75% de biocombustíveis em toda a gasolina e gasóleo utilizados nos transportes até final de 2010 e o Governo anunciou, em Janeiro de 2007, uma meta de 10% de incorporação de biocombustíveis na gasolina e gasóleo, para 2010.
As receitas angariadas pela AMI com a valorização dos óleos alimentares usados serão aplicadas no financiamento das Equipas de Rua que fazem acompanhamento social e psicológico aos sem-abrigo, visando a melhoria da sua qualidade de vida
."
Fundação AMI
Rua José do Patrocínio, 49
1949-008 Lisboa
Tel.: 218 362 100
Fax: 218 362 199
Internet: www.ami.org.pt

segunda-feira, 9 de junho de 2008

É a bondade do mercado a funcionar II

Passamos a vida a levar com campanhas de "sensibilização" alertando para a importância de uma alimentação saudável. Talvez o problema não seja falta de sensibilidade. Uma alimentação saudável custa caro, e cada vez mais caro (pelo menos em França a fruta e os legumes são os que mais têm encarecido). O poder de compra, esse está em baixa, e a correlação entre a má nutrição e a pobreza é fortíssima.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza

Celebra-se amanhã o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, efeméride criada pela ONU em 1993. Hoje foi celebrado o Dia Mundial da Alimentação, aproveitado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para dizer ser "inaceitável" existirem hoje 854 milhões de pessoas sofrendo de fome crónica, num "mundo de abundância" (vd. aqui). Em Portugal, os dados do INE para 2005 indicam uma taxa de risco de pobreza de 19% (vd., no Público de hoje, "Pobreza aumenta entre as famílias com três ou mais crianças", por Bárbara Simões e Andreia Sanches, secção «Portugal», p. 8). A este propósito a Civitas e a Assoc. ATD- Quarto Mundo (sobre esta vd. tb. aqui) convocaram uma "iniciativa de luta contra a pobreza". Fica aqui o convite que nos chegou:
"CONVITE
Caras (os) Amigas (os)
No próximo dia 17 de Outubro, Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, a CIVITAS - Associação para a promoção dos direitos dos cidadãos e a Associação ATD- QUARTO MUNDO promovem, em conjunto, uma iniciativa de luta contra a pobreza.
Vimos convidar-vos a que se reúnam connosco e com pessoas que recusam a situação de exclusão de que são vítimas, junto à Laje em granito preto sob o Arco da Rua Augusta, em Lisboa, pelas 12 horas do dia 17 de Outubro. Esta Laje, que aí colocámos em 1994, assinala a nossa solidariedade com a luta contra a pobreza levada a efeito pela ATD/Quarto Mundo, associação fundada em 1957 pelo padre Joseph Wresinski. Como nela se lê: «Onde os homens estão condenados a viver na miséria / aí os direitos humanos estão violados. /Unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado».
Daremos a voz a pessoas que lutam contra a situação de exclusão e de pobreza e reafirmaremos a nossa determinação em continuar a luta pela dignidade e pelos direitos de todos os seres humanos. Apelamos à unidade de todos nesta luta, em espírito de fraternidade. CONTAMOS COM A SUA PRESENÇA
CIVITAS – Associação para a promoção dos direitos dos cidadãos
Associação ATD-QUARTO MUNDO"
Nb: na imagem, logo da REAPN- Rede Europeia Anti-Pobreza.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A pobreza como violação dos direitos humanos

A Comissão Nacional Justiça e Paz lançou recentemente uma petição à Assembleia da República portuguesa para que esta reconheça a pobreza "como uma violação grave dos direitos humanos". A petição, divulgada desde Junho, está disponível aqui para quem a queira assinar (o prazo final era 30/IX mas deve ter sido alargado, tendo neste momento reunido mais de 1600 assinaturas). Será entregue a 17 deste mês, Dia Internacional para a Erradicação da Miséria.
Em Maio passado, esta ONG realizou uma conferência nacional sobre o tema, na qual lançou a ideia da criação de um observação de acompanhamento das políticas públicas e dos seus "impactos sobre a pobreza".

quarta-feira, 21 de março de 2007

E agora uma ideia ingénua para combater a pobreza

O microcrédito, para além de merecer o prémio Nobel da Paz, parece dar bons resultados. Daí surge-me uma ideia: Como parte de uma política de combate à pobreza, e como alternativa, ou - melhor dizendo - como complemento de políticas de rendimento mínimo e subsídio de desemprego, porque não ser o próprio estado a atribuir microcéditos?

terça-feira, 20 de março de 2007

La France Invisible


Quando em 1993 Pierre Bourdieu e uma vasta equipa de sociólogos lançaram La Misère du Monde, a tão francesa "questão social", ligada aos fenómenos da velha e, hoje, da 'nova' pobreza, regressou por uns tempos à consciência mediática hexagonal. Por sinal, em 1995 Jacques Chirac foi eleito presidente da República na onda de uma campanha onde a fracture sociale tinha um lugar especial.

14 anos depois, ela continua lá, apenas mais velha e profunda. E a incapacidade dos sucessivos governos - a par de sindicatos e representantes patronais cada vez mais radicais nas suas atitudes - para diminuir o desemprego e evitar o aumento da pobreza também.

Há uns meses, uma equipa de sociólogos, em associação com jornalistas, produziu um documento com menos pretensões científicas que o trabalho de Bourdieu, mas com uma semelhante riqueza de testemunhos, retratos e análises da pobreza, precaridade e discriminação social, racial e de género. Chama-se La France Invisible. A edição é de Stéphane Beaud, de Joseph Confavreux, e de Jade Lindgaard, Paris: Seuil, 2006.

P.S. - Se é que isto explica alguma coisa: este é o género de trabalho que o Baudrillard não faria. É "social" a mais para ele - o mesmo que entretanto havia desaparecido uns anos antes.