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segunda-feira, 19 de abril de 2010

A ficção made in EUA como antecipação da mundividência mundial (ou Gramsci e Althusser reactualizados por Paulo Varela Gomes)

nos anos 1960 e 1970, já se sabia nessas redes comunicacionais, muito antes de se saber na realidade, que o comunismo era o Mal absoluto, os Estados Unidos o melhor país do mundo e o modo de vida americano o nec plus ultra.
De facto, estas redes não se limitam a reflectir a realidade: fazem-na acontecer, propõem um mundo.
Resta saber se Gramsci combina a 100% com Althusser (parece-me que o peso da conjuntura e do contingente é bem maior em Gramsci), e se a fixação na ficção não será excessivo num mundo onde em que os comportamentos de relevantes segmentos sociais se guiam pela crescente multiplicação e combinação entre diferentes media e tipos de mensagens: tlm, sms, twitter, internet, blogues, sites, redes sociais, e, claro, tv, cinema, rádio, video, músicas etc..
Isto para dizer que se recomenda a leitura da crónica «Exagero?», de Paulo Varela Gomes (Público, 20/III, p.3-P2).

quinta-feira, 25 de março de 2010

Wallerstein: o capitalismo colapsa e duas alternativas confrontam-se

A conferência que o cientista social Immanuel Wallerstein deu ontem em Lisboa (e aqui anunciada) já está disponível em linha, para quem esteja interessado em ouvir este grande pensador dissertar sobre a evolução do sistema-mundo desde 1945, o ocaso em curso do capitalismo e as duas saídas possíveis e antagónicas que presentemente se digladiam.
PS: resumo da aula magistral aqui.

terça-feira, 23 de março de 2010

Crisis, what crisis? - Immanuel Wallerstein em Lisboa

É já amanhã que o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein (Yale University) conferencia em Lisboa sobre «Crisis, what crisis?» (FCSH-UNL, Av. de Berna, 26C, aud.º 2, 18h).

Para além da actualidade do tema, a relevância desta reflexão remete para a sua perspectiva de estudo alargado do capitalismo, tanto em termos espaciais como temporais, de que resultou a sua monumental obra O sistema mundial moderno (1974-89)*. Não bastasse este contributo, Wallerstein abordou também outros temas relevantes, como a relação entre ideologia e poder em European universalism (2006, recenseado aqui), ou entre ciência e poder em The uncertainties of knowledge (2004, introdução e cap. 1 aqui). Apresentou ainda as suas propostas políticas, duma sociedade igualitária baseada em organizações não lucrativas, em Utopistics: or historical choices of the twenty-first century (1998).

Um cheirinho da conferência pode ser lido em «Crise grega, eurotrapalhada, bagunça nas nações ocidentais, desordem mundial?» (v. o. aqui). Outra tradução afim, dada a conexão entre guerra e crise global, é «O declínio do império americano», resumo dum seu livro homónimo de 2003.

A conferência insere-se no âmbito do Seminário Vitorino Magalhães Godinho de Sociologia Histórica Comparada, o que não é uma coincidência: tanto Godinho como Wallerstein são discípulos dum historiador francês de referência, Fernand Braudel. De resto, a este último foi dedicado o Fernand Braudel Center for the Study of Economies, Historical Systems, and Civilizations, co-fundado por Wallerstein em 1976 e em cujo site se podem ler mais textos do autor.

*este estudo foi posteriormente condensado no livro Historical capitalism, with capitalist civilization (1995), com versão em português de 2001 (vd. aqui).

terça-feira, 21 de outubro de 2008

E na Europa?

Para quem cresceu no mito de que os EUA eram a pátria dos conservadores de direita, reaccionários e racistas, a situação actual pode parecer paradoxal senão mesmo inverosímil. Os EUA estão perto de eleger para presidente um afro-americano, de esquerda*. O terramoto político da semana foi esse afro-americano ter recebido o apoio de um outro afro-americano, de direita, ex-comandante das forças armadas, e ex-'Secretary of State'. Olho para a Europa liderada por Sarkozys, Berlusconis e Kaczyńskis, e pergunto-me em que país do velho continente será possível um dia aquilo que hoje é possível nos EUA.
* - por comparação com o panorama político europeu actual.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Paris em Agosto (ideologia de bac-à-sable)

Se o objectivo era pôr a miúda a falar francês, as primeiras incursões no maravilhoso mundo dos bac-à-sable parisenses (as caixas com areia dos parques infantis) foram um bocado falhadas. Primeiro, no jardim da Avenue Junot (Duc d'Abrantès, como se lê na placa da rua), demos com três mocinhas, qual delas a mais bonita, de Alfândega da Fé (Trás-os-Montes). Hoje, no parc de la Turlure, mais uma família veraneante portuguesa. Ontem, um Michelangelo bilingue franco-italiano com a camisola do Totti. Hoje, um Dario bilingue franco-inglês. Os parisienses franco-franceses foram-se todos embora de férias ou o multilinguismo invadiu de vez os castelos fortificados de areia deste país? Não dá para fazer uma sociologia do bac-à-sable.

Mas uma ideologia, sim. O bac-à-sable é o lugar onde se refugiou a ideia de fraternidade universal, a utopia de que todos seremos de novo felizes e perfectíveis juntos. Tudo é de novo possível no bac-à-sable, infância das relações entre as pessoas, mediada pelas crianças e estendendo-se aos pais sorridentes. O bac-à-sable é o contrário do metro em hora de ponta. A desconfiança e a inveja, o empurrão, o insulto, a ameaça de confronto físico, tudo são ali coisas de criança que se combatem com suaves sermões. Reina a tolerância, o sorriso amável, a pedagogia do bem comum em harmonia com a vontade individual. Não é um oásis, entenda-se, é um lugar primordial que existe e onde se está bem. Quem volta do bac-à-sable, volta um bocadinho Proudhon, volta um bocadinho Rousseau (embora eu duvide que o Rousseau fizesse castelos de areia tão bem como o Michelangelo).