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quinta-feira, 5 de março de 2009

Revisionismo histórico agrava-se na Rússia de Putin

Após a aprovação de manuais escolares dando apenas o lado positivo do estalinismo, e sugestões públicas de Putin no mesmo sentido, chegou a vez da censura ao pluralismo através do cerco à edição comercial e aos arquivos das ONG's.
A denúncia partiu do historiador britânico e russólogo Orlando Figes, após o processo de cancelamento da edição da sua última obra na Rússia, The whisperers: private life in Stalin's Russia, alegadamente por coacção política. A documentação de suporte ao livro depositada nos escritórios de São Petersburgo da organização internacional de direitos humanos Memorial Society foi entretanto confiscada por agentes "armados e encapuzados" do Comité de Investigações do gabinete do procurador-geral russo. "O raide à Memorial é parte de uma maior luta ideológica pelo controlo do que é publicado e ensinado sobre História na Rússia, e seguramente esse raide deve ter influenciado a decisão do editor russo em cancelar o contrato do meu livro"- denunciou Figes ao The Guardian, em Dezembro passado.
É verdade que o seu premiado livro A people's tragedy, sobre a revolução russa e o estalinismo inicial, é muito crítico daquela revolução, mas o eventual contraditório (vd., p.e., críticas ao uso das narrativas individuais como prova generalizável e à perspectiva adoptada aqui) e debate de ideias não passa obviamente pela rasura do pluralismo. E, lamentavelmente, é isso que está a ocorrer na Rússia de Putin, em vários campos da vida social. A tradição autoritária e nacionalista russa não olha a regimes.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A gaffe autoritária

Na segunda-feira passada, os directores das escolas pré-primárias e primárias (maternelle e élémentaire) da região francesa do Haut-Rhin (Alsácia)receberam o seguinte email:

« Mesdames et Messieurs les directeurs, avez-vous connaissance de scolarisation d’élèves "sans papiers" dans votre établissement ? Dans l’affirmative, veuillez nous le faire savoir dans la journée par e-mail ou par téléphone au 03.89... En vous remerciant. »

[Senhoras e senhores directores, têm conhecimento da existência de alunos na vossa escola sem autorização de residência em França? Em caso afirmativo, façam o favor de nos contactar ao longo do dia por email ou por telefone, para o n° 03.89... Agradecendo...]

O email vinha assinado por um gabinete da inspecção da Academia que tutela o ensino público na região. Ao início da tarde, um segundo email vinha dizer que se tratava de um erro, que o primeiro email devia ser considerado como nunca tendo sido enviado e que não havia nenhuma ordem oficial no sentido veiculado pela mensagem. Face ao coro de protestos vindo das escolas nos dias seguintes, o Ministro da Educação veio lamentar o erro e convocou o inspector da Academia em questão.

Mais detalhes aqui.

Se a reacção de protesto foi tão pronta, não é só pela gravidade da gaffe. É por ela ser tão significativa. O incidente vem confirmar um receio terrível: houve um tempo em que a profissão de professor e a de polícia não se confundiam em França. Há indícios crescentes de que esse tempo está a acabar. Em março passado, com Sarkozy como ministro do Interior, houve as terríveis interpelações de clandestinos junto às escolas frequentadas pelos filhos.

Mas há também, com método mais suave e burocrático, instrumentos que revelam uma pulsão do governo para fichar a população infantil, usando para isso os funcionários públicos, no caso os directores das escolas. Por exemplo, desde setembro de 2005, entrou em aplicação um projecto de recenseamento de toda a população escolar entre os 3 e os 10 anos (chamado "base-élève") . Entre os dados que os directores das escolas devem transmitir ao ministério da educação sobre os seus alunos contam-se informações sobre a origem e a situação familiar (para além de informações sobre o nível e eventuais problemas escolares que ficarão registadas logo a partir dos três anos). Parte desta informação é de preenchimento facultativo, e ela circulará sem o nome dos alunos a partir de certo ponto — mas não até certo ponto... Não há, como parece evidente, nenhuma garantia concreta sobre o uso que lhe será dado nos vários pontos institucionais da sua circulação, desde as escolas até ao ministério.

Se é possível que um email com este conteúdo circule, é porque a mensagem está lá, em rascunho, nas instituições oficiais, pronta a que alguém carregue no send. Por engano ou não, pouco importa. Eis o caso triste de um email que, por mais que o inspector e o ministro carreguem na tecla delete, não se apaga.