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domingo, 18 de dezembro de 2011

Cesária Évora (1941-2011): sôdade

Voz quente, pé descalço, coração de embalar.

A ouvir, sempre.

Obituários no Público e no The Guardian.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Atum fresco com batata-doce

Receita do chef santomense mais famoso do mundo, João Carlos Silva (via «Sal na língua», RTP-África)

Deitar sumo de limão, sal q.b., azeite e um pouco de cerveja sob as postas de atum. Fica a marinar um pouco.

Já na panela, fazer um refogado de azeite, coentros, cebola, tomate, alho e pimentos. A seguir, deitar o peixe e o molho. Depois, aditar cenouras às rodelas, mais tomate, 2-3 malaguetas e água e deixar ao lume, com a tampa (ou testo). Pouco depois, acrescentar algumas batatas-doces cortadas aos cubos, e mais um pouco de água.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

E a senhora Clinton aprende bem rápido as coisas

hillary clinton Até o outro dia, a secretária de Estado dos Estados Unidos quase nada sabia sobre Cabo Verde. Referia-se ao arquipélago africano apenas como “um popular posto de reabastecimento” (v. aqui). Veja só como ela aprende rapidinho as coisas de interesse norte-americano. Depois de sua visita oficial a África, Hillary saiu-se com esta observação sobre a terra do PAICV: “Em todos os países por onde passei havia aspectos positivos e outros negativos. Aqui, a lista dos positivos é maior do que a dos negativos. O que aqui ouvi é música para os meus ouvidos”, afirmou a secretária de Estado, que manifestou a intenção de voltar, dessa vez mais em jeito de passeio, com o marido, o antigo Presidente Bill Clinton. Bem, depois desses rasgados elogios, creio que a base militar de reabastecimento da NATO está agora bem mais próximas do país crioulo. Finalmente, a ilha de São Vicente poderá se tornar um imenso posto de gasolina yankee. Alguém tem dúvida? A ver vamos então.

sábado, 1 de agosto de 2009

Hillary Clinton passará por Cabo Verde. E VRUMMMM…FOM-FOM.

Cabo_verde_mapa

A uma pergunta de uma jornalista norte-americana sobre o porquê da sua passagem pelas ilhas, Hillary Clinton, actual Secretária de Estado dos Estados Unidos da América, respondeu: "Cabo Verde é um popular posto de reabastecimento. Um grupo de ilhas ao largo da costa do Senegal, os Estados Unidos vêm Cabo Verde como uma história de sucesso africano." Mais.

Via Café Margoso.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Mayra Andrade, a diva alada pronta pra voar e romper fronteiras

mayra_storia_400

Definitivamente, Mayra Andrade veio pra se consagrar em diva. Não será mais uma daquelas “artistas étnicas” da moda (a tal world music, armadilha preconceituosa inventada pela poderosa indústria fonográfica para capturar os mais desatentos). Ao ouvir “Stória, Stória” (o seu segundo disco – o primeiro foi “Navega”) tem-se a certeza de que a cantora e compositora cabo-verdiana, nascida em Cuba, já é um nome definitivamente esculpido no universo musical. E melhor: esculpida com asas para ir além de qualquer fronteira.

Em “Stória, Stória”, Mayra faz uma deliciosa fusão rítmica. É um disco onde seu porto de partida é a música cabo-verdiana, mas que se encontra em alto-mar com o jazz, com a música brasileira, com a cubana, com outros ritmos africanos e com alguns elementos europeus. Enfim, é uma onda calidoscópica em constante mutação. Melodicamente, o disco tem um forte sotaque brazuca, onde a sua voz ligeiramente grave, quente, versátil e envolvente se mescla perfeitamente com a riqueza melódica e os arranjos primorosos.

“Stória, Stória” foi gravado no Brasil, França e Cuba e produzido por Alê Siqueira (que trabalhou com Tom Zé e Marisa Monte, entre outros). Alguns temas têm arranjos do talentoso músico brasileiro Jacques Morelenbaum (o preferido de Caetano Veloso). Da gravação deste disco participaram músicos cabo-verdianos, portugueses, brasileiros, guineenses e angolanos.

Por fim, ninguém melhor que a própria Mayra pra definir a sua música. “É um cão bastardo. Um cão que já não tem raça. É uma música ilegítima. A música cabo-verdiana é mestiça e eu ainda por cima sou permeável. Tudo que me encanta em outras entra na minha”, diz ela.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Prémio Camões distingue o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira

A edição deste ano do Prémio Camões reconheceu a obra de Arménio Vieira, escritor nascido na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, no começo de 1941.
Sobre Arménio Vieira e a justeza desta premiação sugere-se a leitura dum texto doutro grande poeta cabo-verdiano (e português de adopção), José Luís Tavares, intitulado «Bouquet de estrelas para Arménio Vieira, dito conde, rei à nossa maneira».
*
PS: só existem 2 livros de Vieira publicados em Portugal - Poemas, África Editora, 1981; e No inferno, Editorial Caminho, 2001.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O poeta Jose Luís Tavares lança em Cabo Verde o seu “Lisbon Blue”

LisbonBlues8b O livro “Lisbon Blues”, do poeta cabo-verdiano José Luís Tavares, será lançado quinta-feira (21) em Cabo Verde (Praia). Entre outros prêmios, José Luís ganhou o de “Literatura para todos”, concedido pelo Ministério da Educação brasileiro, com a obra “Os Segredos dos Acrobatas”. Para leitura da sinopse e compra on-line (no Brasil), clique aqui. Saravá”, JL.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Magalhães, um presente de grego de Sócrates aos cabo-verdianos

GoRRo (o Magalhofa) José Sócrates chegou ontem às ilhas cabo-verdianas e levou na bagagem 12.000 Magalhães, que serão distribuídos aos alunos do ensino básico. Segundo a ministra da Educação de Cabo Verde, Vera Duarte, a oferta do governo português enquadra-se num programa denominado "Mundo Novo", que as autoridades locais pretendem ver concretizado e que consiste na distribuição de 150.000 computadores a todos os níveis de ensino. Até aí tudo bem. Só não entendo como começar um "mundo novo" com um computador caduco de segunda geração - uma vez que a terceira deverá ser lançada mais adiante (Terceira? Quem diria, hein!?) - e que “fala” uma língua muito estranha, que não é nem o português, nem o crioulo. É ou não é isso um presente de grego, pá? Com a palavra, Pinócrates.

Ilustração: GoRRo

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Exemplo maior

Aquele que olha para o seu passado
sem cansar a sua vida, sem obter
do medo uma carta fictícia de alforria
porque é árbitro das suas promessas e do seu isolamento,
e o tempo ou as quimeras não são portas do seu tumulto,
aquele que traz nas pregas da sua surpresa
ou da substância sua esse favor que se diz intermitente
e que permite cortar o destino como um queijo tenro,
um queijo que não dá volta à amargura mas adere à estupefacção
e é outro ou o mesmo, porque o fervor o distingue do terceiro espólio,
aquele que não vê esse gosto do despeito porque segue
rápido, a caminho da sobrevivência
para falar dos ázimos e benzer os pratos mais pobres,
tal a sua ciência é um ardor refutável entre limões
ou ambíguas presenças como fontes onde a doçura vigia,
fende corpos e empresta deuses para segurar pesados braços,
aquele que diz “eu não vim para triunfar,
mas para inquirir sobre o teor da persuasão,
dar à natureza uma queimadura viável
e evitar que o vinho se lembre do timbre pérfido”,
aquele que se manifesta sobre a ordem múltipla do êxito
para preservar a susceptibilidade com tâmaras veementes
e avisar a posteridade da arrogância da culpa,
aquele que conhece a sua fraqueza
e não despe com mais de duas mãos
não a ouve tão pouco mais ouvidos do que permite
a essência das coisas, a penitência assustada,
mas é de alto a baixo o inquérito sobre a alternativa,
mar rolado continuamente sobre o seixo exterminador,
ah vo-lo-dirão, enfim?
aquele que conhece bem a sua origem
é um homem que passa, leve, entre
os sinais da terra, que permite
aos seus olhos uma celebração contínua.
Ele não caminha de dia e de noite
entre a ruína das palavras e das visitações:
está parado entre duas carnes, tal a beneficência,
porque o seio do seu futuro
se apodera como uma ordenação da sua jornada
e, para lá do sábado, ele colhe e come entre juízos.
Exemplo maior (canto terceiro), Antuérpia, 1985
[excerto do poema]
Nb: com um agradecimento ao José Luís Tavares, pela lembrança.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A marcha das tartarugas*

Em todo o mundo, há só 3 lugares que as tartarugas da espécie Caretta caretta escolhem para pôrem os ovos. Em Cabo Verde, algumas praias do arquipélago recebem esses doces animais que chegam rapidamente ao areal no embalo das ondas do mar. Iludem até o facto de, em geral, fazerem tudo «a passo de tartaruga».
A revista Visão desta semana [1] refere-se a um projecto-piloto de protecção das tartarugas que envolve investigadores da Universidade do Algarve e técnicos de Cabo Verde, em parceria. Uma das medidas mais visíveis para se evitar a matança das tartarugas inclui a presença de militares com metralhadoras(!) para vigiar as praias mais procuradas pelos animais. Solitários ou em duplas, estes militares procuram conter os caçadores furtivos que insistem em interromper a lenta actividade em terra. Esta medida pretende deter a matança e garantir que o investigador da Universidade do Algarve possa estudar e filmar todo o processo até ao momento em que as tartarugas regressam sã e salvas ao mar. A missão dos militares está rodeada de obstáculos, entre os quais destaca-se a frequente proximidade (por laços de parentesco, de amizade ou de vizinhança) que os liga aos potenciais caçadores.
É fácil de compreendermos o desconforto e o conflito de um vigilante da lei, preso entre as relações sociais actuais, o dever de militar, a satisfação de proteger as tartaruguinhas e as memórias de um tempo que o fazem conhecer tão bem todos os passos que são dados para se chegar às tartarugas e aos seus ovos.
Lemos no artigo que a sensibilização das comunidades piscatórias (e não só) para que se tornem os "vigilantes da natureza" fica para o próximo ano. É de se supor que quando começar a intervenção para a mudança comportamental teremos mais um elemento para eliminar do imaginário popular: as imagens já formadas em que tartarugas aparecem automaticamente associadas a militares com metralhadoras!
Os dois técnicos cabo-verdianos envolvidos na protecção das tartarugas adoptam atitudes corajosas e abnegadas, como a de percorrer o areal e dissimular os vestígios das desovas para impedir que os ovos sejam descobertos. Além disso, e como nos dá a conhecer o artigo, todos negam gostar de carne de tartaruga.
Por todos estes factos, e porque não temos dúvidas de que as comunidades são as únicas que podem garantir a protecção das tartarugas, a longo prazo, sugestões devem ser apresentadas. Adiantamos algumas:
- convencer os gulosos (podem preservar a verdadeira identidade) que a carne da tartaruga é assim tão saborosa porque contém um dos principais elementos responsáveis por uma doença mortal contemporânea;
- descobrir quem é o responsável pela escassez crescente do atum nas águas de Cabo Verde;
- convencer os homens (com terapia, se necessário) a abandonar a crença de que a ingestão daquela parte do corpo da tartaruga traz ganhos à performance no acto sexual.
Ou, talvez, optar pela seguinte alternativa: apressar a marcha das tartarugas de volta ao mar!
Nb: para mais informações vd. WWF.
___
[1] vd. Fernando Peixoto, "A matança das tartarugas", Visão, n.º 755, 23/VIII/2007, p. 88.
*Iolanda Évora

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Festa na Cidadela*

ou Angola versus Cabo Verde no AfroBasket 2007

Hoje, Luanda é festa, na certa. Às 20:00 começa um dos jogos das meias-finais do AfroBasket[1] 2007, entre Angola e Cabo Verde. Prevê-se lotação esgotada na Cidadela, com torcida maioritária de orgulhosos angolanos ou angolanos orgulhosos (o que neste momento é a mesma coisa) porque a equipa tem correspondido ao favoritismo que lhe fora apontado desde o início. Mas já sabemos (e os angolanos também) que vamos contar com a presença significativa de torcedores da equipa de Cabo Verde, imigrantes que têm se esforçado por acompanhar e apoiar os rapazes vindos do arquipélago. Como sempre acontece, a comunidade de cabo-verdianos em Angola deu uma mãozinha aos jogadores para colmatar as deficiências de uma estadia que as autoridades desportivas do arquipélago nunca asseguram a 100% (excepto, talvez, quando se trata do futebol). Assim, entre abraços, cachupas, e funges também, é claro, os acarinhados rapazes acabaram por sentir-se em casa, em Angola, e protagonizaram duas das maiores surpresas do campeonato: estão nas meias-finais, e pelo caminho, derrotaram a Nigéria, a poderosa equipa de sempre do basquetebol em África.
O comentário geral é o de que, neste campeonato, à excepção da equipa anfitriã, as “grandes” do basquetebol masculino do continente tiveram um fraco desempenho e estão irreconhecíveis. Para a imprensa africana[2], as derrotas das grandes provam que o basquetebol em África está em crise. Mas não dizem o que provam as vitórias das pequenas, em relação à expansão da modalidade em África. Na Nigéria, os media continuam a falar da hecatombe da sua selecção (www.asemana.cv) e a imprensa que cobre o AfroBasket 2007 ainda se mostra muito mais surpreendida com a derrota da Nigéria do que com a vitória de Cabo Verde.
O que importa é que hoje tem festa na Cidadela! Angola já ganhou de Cabo Verde (por uma grande diferença de pontos) da primeira vez em que se enfrentaram neste campeonato. Para o certame de hoje, a superioridade da equipe é por demais evidente, mas depois da derrota da Nigéria/ da vitória de Cabo Verde, a prudência manda guardar para si as certezas sobre as fraquezas do adversário em campo. Hoje, os jogadores angolanos, favoritos em campo, devem temer muito mais as fraquezas que costumam derrubar os fortes como eles em pleno voo (literalmente no basquetebol) e que deixaram o gigante Nigéria pelo caminho.
Mas vamos ter festa nas bancadas porque nos 4 períodos de duração de jogo, o gigante não será ameaçado, o fraco continuará orgulhoso dos seus próprios feitos. Afinal, o semba nunca brigou com a coladeira, nem a kizomba com o funaná ou o kuduro com o batuque.
[1] A ausência da qualificação do género costuma “indicar” que se trata do campeonato masculino.
[2] A imprensa, em geral, não deve ter sido informada de que está a decorrer este campeonato.
* Iolanda Évora

domingo, 19 de agosto de 2007

João Vário (1937-2007)

Faleceu a semana passada um dos maiores poetas cabo-verdianos de sempre, João Vário. De seu nome verdadeiro João Manuel Varela, nasceu na Cidade do Mindelo (S. Vicente) há 70 anos atrás, tendo estudado Medicina em Coimbra, Lisboa e Antuérpia, nesta última para se doutorar.
Radicou-se na Bélgica, onde desenvolveu uma bem sucedida carreira de investigador nas áreas da neuropatologia e neurobiologia, sendo sua a descoberta dum circuito cerebral ligado à formação do cancro (vd. síndrome de Varela). Após a jubilação, regressou ao seu Mindelo natal.
Embora com uma obra poética reconhecida por pares e críticos literários (José Luís Tavares diz mesmo que ele é o maior poeta cabo-verdiano de sempre), nunca teve muito eco, nem junto dos circuitos de reconhecimento simbólico nem junto do público.
A sua profícua produção está integrada nos seguintes livros:
Exemplos 1-9 (reunindo as obras Exemplo Geral, Exemplo Relativo, Exemplo Dúbio e Exemplo Próprio), O primeiro e o segundo livro de Notcha (com o seu outro pseudónimo Timóteo Tio Tiofe), Contos da Macaronésia e O estado impenitente da fragilidade.
Mais informação bio-bibliográfica e mais poemas do autor estão na memória de áfrica. Ficam aqui outros obituários: os de José Luís Tavares (que inclui um poema seu de homenagem), Alexandra Lucas Coelho, Rui Bebiano e José Francisco Viegas. Outro poema, «Canto Terceiro», de 1966, pode ser lido aqui. Imagem original daqui.
Aqui fica um excerto precioso do poema Canto Primeiro, do livro Exemplo coevo:
"E aqui tratamos de favores inclusivos e fados determinados.
Tal o poeta a língua deixa atravessada
no meio do caminho dos deuses
para que nela tropecem
e se fale de biografia. E de tal intensidade vivemos.
[...]
É um tempo de vastas corrupções e de grandes crises.
E as coisas aguardam a chegada da besta apocalíptica.
Era o limiar dessa guerra devastadora, segunda,
seu amargo prefácio, tal Guernica.
E nela jazíamos qual a semente
no seio da terra: como saber
se morrerá ou com que água
arrastará a imortalidade?"

quinta-feira, 5 de julho de 2007

E porque hoje se comemoram 32 anos da independência de Cabo Verde:

Aos amigos cabo-verdianos

São elas, as mães.
A sépia desenham-se
sobre os rios do mundo;
quando errantes asas
se acolhem ao repouso
desta página. Assim,
perto de nós, fica o eco
dos seus rostos; descendo
por um secreto desvão de nuvens.

À beira da água, rezam ainda;
perenes como a terra.
Sobre as colinas da manhã
são o mais alto nome do amor.

(in Paraíso apagado por um trovão,
2.ª ed., Cidade da Praia, Spleen Edições, 2004, p. 31)