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sábado, 24 de março de 2012

Finalmente temos o Botas encapsulado

«Um vinho para testar a marca Salazar», por Graça Barbosa Ribeiro

«No mínimo, é de mau gosto, no máximo um insulto às vítimas do Estado Novo»: opinião de Filipe Ribeiro de Menezes, o historiador em voga do jornal Público

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Lugares fora do tempo


Imerso na bruma salazarenta, o edil de Santa Comba Dão voltou à carga, desta feita para inaugurar a «requalificação» da Praça António de Oliveira Salazar em pleno 25 de Abril. Ou seja, uma praça atada ao nome dum dos ditadores mais lapa de sempre vai ser objecto de festividades no dia dedicado à Liberdade em Portugal. Só o dito cujo acha que isto não é uma provocação gratuita, pretextando que o «Botas» é filho dilecto da terra e que já atingimos a «maturidade política».
Em 2007, deu-lhe a morbidez dum Museu Salazar. Não satisfeito com o delírio, queria ainda que a conservação dos tarecos do «Manholas» fosse à mama do Estado central.
Das duas uma: ou o exmo. edil é um oportunista procurando surfar um ensimesmado eleitorado de direita conservadora e reaccionária; ou está completamente obcecado com fantasmas.
No coração do outrora Cavaquistão, a direita continua colada ao pior de si mesma: má consciência face ao legado ditatorial; complacência (senão apoio) aos caciques, da paróquia à nação; apego aos localismos doentios; populismo cultural; falta de criatividade e de pluralismo; e, por fim, um duvidoso gosto kitsch, que liga alegremente tiranete com porco e tuna, como quem liga tremoços com trufa.
Já as aldeias-berço de Mussolini e Franco se haviam prendido a um saudosismo mórbido e fedorento (só recentemente Ferrol se livrou deste karma). Parece um fado geográfico. E histórico: diz agora que o cromo «faz parte da história»: nesse caso, revolucione-se a toponímia, há mais tiranos na caderneta. No fundo, no fundo, está tudo na imaginação dos homens. Ou melhor, na falta dela.