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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Os guardiões dos sonhos


O livro Os guardiões dos sonhos, de Cristina Montalvão Sarmento, é hoje apresentado por Adelino Maltez e João Luís Lisboa, no Centro Nacional de Cultura (ao Chiado, Lisboa), às 21h.
Como refere o seu subtítulo, trata-se dum estudo sobre as Teorias e páticas políticas dos anos 60, o período de todas as utopias e acções, que contribuiram para o alargarmento do espaço público, o aprofundamento da democracia e para novas formas de fazer política.

sábado, 31 de maio de 2008

O Maio de 67

O mês Maio de 1967 foi marcado por uma enorme contestação nas ruas, contra o poder francês, na época de De Gaulle. Não em Paris, mas nas Antilhas Francesas, em particular em Pointre-à-Pitre, na Guadeloupe. As razões do protesto eram um misto de reivindicações políticas relacionadas com a autonomia, de reivindicações laborais em particular dos trabalhadores da construção e de revolta contra vários episódios de discriminação racial. As Antilhas francesas eram e são constituídas por uma população quase totalmente negra ou mestiça, descendente de escravos. Mas eram na época recorrentes práticas dignas do Apatheid. Contrariamente ao que se passou em França em 1968, os manifestantes Guadeloupeanos tiveram direito a repressão com fogo real, e intervenção do exército. Houve vários mortos.

Fica aqui o segundo episódio, de oito (todos disponíveis no Dailymotion), de um documentário sobre o Maio de 67 (Mé de 67, em crioulo)


quarta-feira, 7 de maio de 2008

Não houve um Maio de 68, houve uma data deles

Depois de me armar em engraçadinho e lançar aqui uma provocação, lá tenho que vir aqui com a rábula do "não estava a falar a sério, era só uma provocação" (embora estivesse a falar a sério). As réplicas que tive à minha provocação, na caixa dos comentários, e em posts, deram boa resposta à minha questão "o que fez o Maio de 68 de importante para a esquerda?". Devo dizer em minha defesa (ou em busca de lenha para me queimar) que conheço muito pouco do Maio de 68, ou pelo menos, não tanto quanto gostaria.

Houve muitos Maios de 68, e por vezes concorrentes ou mesmo contraditórios. Como diz a Maria João Pires "Nem só de Maio e de França se fez 68. Em resposta à minha provocação Joana Lopes escreveu um excelente post, retenho a influência que o Maio de 68 teve em Portugal, ainda antes do 25 de Abril (era ainda a época marcelista e da Guerra Colonial). Retenho também a dimensão pessoal, afectiva mesmo, de quem viveu o Maio de 68, e fez aí uma parte importante da sua formação política. Rui Bebiano fala também desta dimensão, e não pensem que desvalorizo ou subestimo essa dimensão. Mais, respeito profundamente.

No entanto, eu referia-me, e refiro-me, ao caso francês. Pequeno truque de retórica, falar apenas de uma parte da questão. Mas mesmo no caso francês houve muitos Maios de 68. Houve o da Sorbonne e de Cohn-Bendit (ainda hoje uma figura muito interessante), que me parece, por acaso, ter sido bastante bem sucedido. Tenho a sensação que se fala pouco do quanto a França de De Gaulle vivia, em questões de costumes, segundo uma moral completamente anacrónica. Enquanto os jovens Anglo-Saxónicos andavam numa de "Sex, drugs and Rock&Roll", em França as raparigas não podiam usar mini-saias. A revolta da Sorbonne surge, em grande parte, como uma luta por mais liberdades sexuais e de costumes. O estudantes queriam afinal uma modernidade que lhes passava ao lado. E as mudanças em termos de costumes vieram rapidamente.

Depois houve o Maio de 68 político, o da esquerda, especialmente de comunistas e sindicalistas. Mais uma vez por reacção à figura opressiva e sufocante de De Gaulle (um reaccionário autoritário na linha de outros que a França já produziu, tais que le Roi Soleil ou o Bonaparte). Era uma esquerda cujo peso político não correspondia à força que representavam na sociedade francesa, por força do sistema eleitoral forjado por De Gaulle para a V República. O Maio de 68 surgiu como a oportunidade de sair para a rua e demonstrar o real peso da esquerda. Ocorreram greves e ocupações de fábricas. Nem sempre estes movimentos e os estudantes estavam em sintonia. Na minha opinião este Maio de 68 falhou. O objectivo era, ou devia ter sido, o da construção de um projecto político mobilizador, capaz de criar uma força eleitoral com possibilidade de chegar ao poder. Alguns acordos assinados por sindicatos com concessões do poder em favor dos trabalhadores acaba por ser apenas um prémio de consolação. Em vez de um projecto mobilizador surgiu uma fragmentação da esquerda, que ainda hoje fala de diversidade mas não sabe viver com ela (o que me faz lembrar o primeiro post que escrevi no Peão).

E talvez até no plano político o Maio de 68 tenha tido algumas (tímidas) consequências positivas. Apesar da vitória eleitoral, a quente, em Junho de 68, o Gaullismo tinha os dias contados. Veio primeiro Pompidou, da mesma família política de De Gaulle, em 1969. Mas em 1974 os franceses escolheram, talvez não por acaso, o mais jovem presidente da V República, um político com ares de modernidade e fama de competência tecnocrática, Valéry Giscard d'Estaing. Ainda assim, um presidente de centro-direita, embora uma ruptura com o Gaullismo. Foi na presidência de Giscard d'Estaing que Simone Veil legalizou o aborto. Consequências do Maio de 68?

E no entanto sinto ainda uma estranha necessidade justificar a minha provocação. Só pelas respostas que tive valeu a pena. Talvez por ser um iconoclasta tímido, não gosto de comemorações. Parece-me que o Maio de 68 corre um sério risco de mistificação, se calhar já aconteceu, é porventura inevitável. Comemorando as imagens, ou melhor, APENAS as imagens, o Maio de 68 reduz-se aos seus ícones, e esquece-se o conteúdo. Pessoalmente, por belos que fossem os cartazes, e eram, as razões que tinham por trás são mais importantes. E a mistificação trás os risco da satisfação com a revolta. A revolta era, é sempre, um meio para atingir um fim, e não um fim em si mesma. Alguns fins foram alcançados, outros, muitos, não. É bom que não nos contentemos com a revolta pelo simples facto de nos termos revoltado. Não esqueçamos os objectivos que não foram conseguidos, que ainda perseguimos. Mas, claro, celebre-se aquilo que foi conseguido. Eu não estava lá, não consegui nada, conseguiram-no vocês. Eu agradeço-vos!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Maio de 68 em película

Começa hoje, no Instituto Franco-Português, o ciclo de cinema dedicado ao Maio de 68. O filme de abertura é «Loin du Vietnam», do colectivo SLON. A acompanhar, como prato de jantar, temos «L'imagination prend le pouvoir». A restante programação pode ser consultada aqui.

domingo, 4 de maio de 2008

Pequena provocação, au passage

Estamos em Maio, e comemoramos os 40° aniversário do de 68. Parece que há um grande consenso à equerda que o Maio de 68 foi muito importante, e tal. Pode até ser verdade, mas se há coisa que mas faz cominhão são os consensos. A Maria João (a.k.a. shyznogud) começou já há uns tempos, a Joana Lopes também fala do assunto, agora é o Daniel Oliveira, e até mesmo o Peão Manolo já postou. Há ciclos de conferências e tudo. Correndo o risco de ser comparado ao Vasco Pulido Valente, e por arrastamento aos Monty Python, deixo aqui a pergunta: o que é que o Maio de 68 fez de importante e duradouro para a esquerda?

O Maio de 68 foi um acontecimento que teve lugar em França, mais precisamente em Paris, mais precisamente no Quartier Latin, mais precisamente nas ruas ali à volta da Sorbonne. Durou um mês, mês e pouco. Foi espacialmente e temporalmente tão limitado e fala-se ainda hoje tanto. Será que é pelas grandes manifs? Fui procurar, e de facto a maior manif de sempre jamais realizada em França (diz que) foi em Maio de 68, a 30 de Maio mais precisamente. Hélas foi uma manif de direita, nos Champs Elysées, contra o estudantes que manifestavam no Quartier Latin (ver vídeo). Terá sido uma grande vitória política? Em Junho de 68, na sequência dos acontecimentos de Maio, de Gaulle convocou eleições que se saldaram por uma vitória clara da direita, subindo largamente a votação em relação às eleições anteriores. Terá sido uma vitória política a longo prazo? O único presidente francês de esquerda, depois de 68, foi François Mitterand, que não é propriamente o preferido dos soixantehuitards, enquanto que presidentes de direita foram cinco. Quanto aos governos o panorama não foi muito diferente. Terá sido o nascimento de um novo projecto político? Um não, uma data deles, a fragmentação da esquerda, sobretudo à esquerda do PSF, começou com o Maio de 68, com fenómenos tipo Arletre Laguiler e similares, e continua até hoje. Entre outras proezas conseguiram levar Le Pen à segunda volta das presidenciais de 2002 (curiosamente a Frente Nacional só é fundada em 1972). Terá sido o nascimento de uma nova consciência política? Talvez a daquela esquerda que não gosta do poder, que esperam fazer oposição até que os governos de direita (eleitos) ponham em prática uma política de esquerda. Até Sarkozy na campanha eleitoral do ano passado culpou a geração do Maio de 68 pelos males da França (espantoso, já que a dita geração nunca esteve no poder) e conseguiu ainda assim ganhar as eleições.

P.S. - Por favor não me digam que foi uma vitória moral, que se conseguiu chamar a atenção, que foi giro, etc...

quinta-feira, 1 de maio de 2008





quinta-feira, 24 de abril de 2008

Lisboa efervescente

É verdade, a cidade branca está cheia de genica, agora que se abeira a quadra mais libertária do ano.
Após a inauguração do memorial às vítimas da matança da Pascoela de 1506 (vd. tx. de Rui Tavares aqui), vêm aí mais motivos para evocações, agora da revolução dos cravos, do Maio de 68 e de Saramago.
A revolução é evocada na Malaposta (Olival Basto), no ciclo «Cinema e História - o 25 de Abril nos filmes». Dos 'clássicos' (Bom povo português; Torre Bela; Os índios da meia praia..) aos mais recentes (Retornados ou os restos do Império; Processo-crime 141/53 - enfermeiras no Estado Novo; Natal 71; Outro país; Amílcar Cabral..), há lá de tudo um pouco.
Quanto ao Maio de 68, e depois do colóquio internacional, é a vez do Instituto Franco-Português passar para o ciclo «Maio de 68 no cinema». É uma selecção de ouro, que decorrerá a 5-9 de Maio e será comentada por críticos como A. M. Seabra e Luís Miguel Oliveira. Terá ainda detalhes como refeições à la Mai 68.
Também arranca hoje a 5.ª edição do Indie Lisboa, alternando ficção e documentário, novo cinema romeno, José Luis Guerín, Johnnie To, etc. (até 4 de Maio, nos cinemas S. Jorge, Maria Matos e Londres).
Já Saramago tem direito a mega-exposição no Palácio da Ajuda, descrita pelo organizador como um novo conceito expositivo. Chama-se «A consistência dos sonhos» e fica até 27/7. Enquanto isso, prepara novo livro, A viagem de um elefante, para não deixar Lobo Antunes a escrever sozinho.
Além disto tudo, há a noite, os concertos (destaque para «Canções revolucionárias» e «20 canções para Zeca Afonso», respectivamente no Music Box e CCB), o teatro, os desfiles ensolarados, a praia, etc...
Aproveitem e divirtam-se, enquanto é tempo!

Nb: imagem de cartoon único do famoso cartoonista francês Siné, que se destacou no Maio de 68 com a sua revista L'enragé, mostrando um soldado português muito bem enfeitado :P

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Maio em Abril

O Colóquio Internacional «Maio '68. Política, Teoria, História» começa hoje e acaba amanhã. Decorre no Instituto Franco-Português (Lx.), numa parceria com o Diplô e o IHC-UNL.
O programa completo vem aqui, deixo-vos com a respectiva apresentação:
«Maio de 1968. Em Paris anuncia-se o início de uma luta prolongada. Quatro décadas depois, este colóquio internacional reúne um conjunto de reputados intelectuais cujas investigações permitiram voltar a olhar para 1968 nas suas mais variadas dimensões. Levando o debate mais além das repetidas alusões ao cariz geracional e estudantil da revolta, mapeando 1968 para lá das fronteiras da França, o colóquio confronta a importância de 1968 na emergência de novas subjectividades políticas, analisa a dimensão de luta de classes que atravessa o período e discute a persistência de Maio’68 nos conflitos políticos contemporâneos.»
Coordenadores:
Bruno Peixe (NÚMENA), Luís Trindade (IHC), José Neves (ICS-UL), Ricardo Noronha (IHC).