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terça-feira, 11 de setembro de 2007

Exemplo maior

Aquele que olha para o seu passado
sem cansar a sua vida, sem obter
do medo uma carta fictícia de alforria
porque é árbitro das suas promessas e do seu isolamento,
e o tempo ou as quimeras não são portas do seu tumulto,
aquele que traz nas pregas da sua surpresa
ou da substância sua esse favor que se diz intermitente
e que permite cortar o destino como um queijo tenro,
um queijo que não dá volta à amargura mas adere à estupefacção
e é outro ou o mesmo, porque o fervor o distingue do terceiro espólio,
aquele que não vê esse gosto do despeito porque segue
rápido, a caminho da sobrevivência
para falar dos ázimos e benzer os pratos mais pobres,
tal a sua ciência é um ardor refutável entre limões
ou ambíguas presenças como fontes onde a doçura vigia,
fende corpos e empresta deuses para segurar pesados braços,
aquele que diz “eu não vim para triunfar,
mas para inquirir sobre o teor da persuasão,
dar à natureza uma queimadura viável
e evitar que o vinho se lembre do timbre pérfido”,
aquele que se manifesta sobre a ordem múltipla do êxito
para preservar a susceptibilidade com tâmaras veementes
e avisar a posteridade da arrogância da culpa,
aquele que conhece a sua fraqueza
e não despe com mais de duas mãos
não a ouve tão pouco mais ouvidos do que permite
a essência das coisas, a penitência assustada,
mas é de alto a baixo o inquérito sobre a alternativa,
mar rolado continuamente sobre o seixo exterminador,
ah vo-lo-dirão, enfim?
aquele que conhece bem a sua origem
é um homem que passa, leve, entre
os sinais da terra, que permite
aos seus olhos uma celebração contínua.
Ele não caminha de dia e de noite
entre a ruína das palavras e das visitações:
está parado entre duas carnes, tal a beneficência,
porque o seio do seu futuro
se apodera como uma ordenação da sua jornada
e, para lá do sábado, ele colhe e come entre juízos.
Exemplo maior (canto terceiro), Antuérpia, 1985
[excerto do poema]
Nb: com um agradecimento ao José Luís Tavares, pela lembrança.

domingo, 19 de agosto de 2007

João Vário (1937-2007)

Faleceu a semana passada um dos maiores poetas cabo-verdianos de sempre, João Vário. De seu nome verdadeiro João Manuel Varela, nasceu na Cidade do Mindelo (S. Vicente) há 70 anos atrás, tendo estudado Medicina em Coimbra, Lisboa e Antuérpia, nesta última para se doutorar.
Radicou-se na Bélgica, onde desenvolveu uma bem sucedida carreira de investigador nas áreas da neuropatologia e neurobiologia, sendo sua a descoberta dum circuito cerebral ligado à formação do cancro (vd. síndrome de Varela). Após a jubilação, regressou ao seu Mindelo natal.
Embora com uma obra poética reconhecida por pares e críticos literários (José Luís Tavares diz mesmo que ele é o maior poeta cabo-verdiano de sempre), nunca teve muito eco, nem junto dos circuitos de reconhecimento simbólico nem junto do público.
A sua profícua produção está integrada nos seguintes livros:
Exemplos 1-9 (reunindo as obras Exemplo Geral, Exemplo Relativo, Exemplo Dúbio e Exemplo Próprio), O primeiro e o segundo livro de Notcha (com o seu outro pseudónimo Timóteo Tio Tiofe), Contos da Macaronésia e O estado impenitente da fragilidade.
Mais informação bio-bibliográfica e mais poemas do autor estão na memória de áfrica. Ficam aqui outros obituários: os de José Luís Tavares (que inclui um poema seu de homenagem), Alexandra Lucas Coelho, Rui Bebiano e José Francisco Viegas. Outro poema, «Canto Terceiro», de 1966, pode ser lido aqui. Imagem original daqui.
Aqui fica um excerto precioso do poema Canto Primeiro, do livro Exemplo coevo:
"E aqui tratamos de favores inclusivos e fados determinados.
Tal o poeta a língua deixa atravessada
no meio do caminho dos deuses
para que nela tropecem
e se fale de biografia. E de tal intensidade vivemos.
[...]
É um tempo de vastas corrupções e de grandes crises.
E as coisas aguardam a chegada da besta apocalíptica.
Era o limiar dessa guerra devastadora, segunda,
seu amargo prefácio, tal Guernica.
E nela jazíamos qual a semente
no seio da terra: como saber
se morrerá ou com que água
arrastará a imortalidade?"