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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Entre as cidades e a serra: um seminário que conclui um projecto

O seminário - cujo nome completo ajuda a perceber do que se vai falar (Entre as Cidades e a Serra: Mobilidade, Capital Social e Associativismo no Interior Algarvio) - é organizado pelo CIES-IUL e decorre durante a tarde de 14/XII (14h-18h, sala C103, Ed. II, ISCTE-IUL).

Este seminário conclui um projecto de investigação dirigido pelo Renato Carmo e em que também colaborei, calcorreando montes e barrocais, entrevistando associativistas e analisando centenas de folhas de transcrições, entre outras coisas.

Os resultados serão apresentados por nós e por Manuela Mendes e Sofia Santos, e depois comentados por António Firmino da Costa e João Ferrão.

Mais informações no site do projecto, Fórum Local- Associativismo e desenvolvimento local.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Vozes da revolução


O Colóquio «Vozes da Revolução» tem início esta tarde, no ISCTE, e prolonga-se até à próxima sexta-feira.
Nele participarão vários dos intervenientes na revolução portuguesa de 1974/75.
A organização cabe a uma parceria entre o Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa, o Centro em Rede de Investigação em Antropologia, o Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL e a Associação 25 de Abril.
Para os interessados vd. programação aqui. Notícia aqui.

domingo, 8 de junho de 2008

A cultura imaterial como recurso para o desenvolvimento local

Está em preparação uma rede de conteúdos em 9 concelhos alentejanos visando a salvaguarda do património cultural imaterial da região. A iniciativa é da Direcção Regional de Cultura do Alentejo, terá uma entidade central de concentração das memórias sociais e prevê a criação dos seguintes espaços:
>Casa da décima e do verso improvisado (Alcácer do Sal, dedicado à poesia popular/tradicional e ao improviso);
>centro do tapete (Arraiolos, vocacionado para o estudo dos têxteis do Alentejo);
>núcleo museológico dos modos de construir e da arquitectura tradicional (Avis);
>Casa da Fala (Barrancos, para preservar o dialecto barranquenho e à dialectologia);
>arquivo de história oral (Baleizão, dedicado à memória social);
>Casa do Teatro Tradicional (Borba);
>Casa da Viola Campaniça e do Baldão (Ourique, dedicada ao tradicional canto de improviso local e ao único instrumento de cordas alentejano);
>Casa do Cante (Serpa/Cuba, dedicado a este canto coral tradicional);
>Jardim do Mundo (Portel, que permitirá o conhecimento do território, das paisagens e das identidades do Alentejo).
A ideia é que cada uma daquelas unidades possa depois criar uma rede sectorial, para dinamizar e potenciar outras tradições, técnicas e produtos da região, como no caso da Casa do Tapete, que deverá articular uma rede que inclua os bordados de Nisa, as tapeçarias de Portalegre, as rendas de nós da Trindade e as mantas de Reguengos de Monsaraz e Mértola.
O coordenador deste projecto é Paulo Lima, que publicou recentemente o livro O fado operário no Alentejo - séculos XIX e XX. Esta rede primária estará conectada a um Centro de Articulação de Conteúdos (o Centro Michel Giacometti, a instalar em local a definir do Alentejo Central), o qual terá como funções a articulação de conteúdos, a gestão do Centro de Documentação Digital e a sensibilização para uma boa prática de conservação de arquivos do património imaterial.
Ainda segundo Paulo Lima, está previsto o desenvolvimento duma rede de encontros científicos, a articular com um conjunto de festivais temáticos (Monsaraz, Marvão, etc.) ou pequenos projectos emergentes, como é o caso dos cantos iberoamericanos de improviso em Alcácer do Sal, que "podem ter relevância para o turismo cultural". Outros projectos almejados são a construção de conteúdos multimédia para sítios e monumentos de interesse patrimonial (caso dos castelos de Amieira do Tejo e Campo Maior, da Torre do Salvador e do Castro da Cola), para a culinária do Alentejo, para os produtos agro-florestais e a paisagem.
Esta iniciativa baseia-se na Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, adoptada em X/2003 (32.ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO), que foi aprovada pelo Estado português em I/2008. Nela ficou consagrado a promoção do Património Cultural Imaterial, entendido como "um conhecimento que é recreado constantemente pelas comunidades e grupos em função do contexto em que vivem, da sua interacção com a natureza e com a sua historia" e que inclui os usos, representações, expressões, conhecimentos e técnicas, instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais colectivos. Tal convenção teve como finalidade incutir um sentimento de identidade e continuidade pelo respeito da diversidade cultural e da criatividade humana.
Este é um projecto exemplar de como o desenvolvimento local e regional pode e deve contar com a consolidação duma política cultural, entendida numa perspectiva transversal, que abranja a economia, a formação, etc.
Fonte:
*ZACARIAS, Maria Antónia, "Alentejo vai cartografar e preservar o seu vasto património cultural imaterial", Público, 8/VI/2008, p.29.
Nb: imagem do Grupo Coral e Etnográfico do Ateneu Mourense retirada daqui.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Aborto e história oral

Está por fazer uma história social do aborto no Portugal contemporâneo, antes e depois do 25 de Abril de 1974. Essa história só poderá ser feita com recurso à história oral.
Sábado passado, à entrada do mercado de Benfica, numa acção de campanha pelo Sim no Referendo, ouvi algumas ‘confidências’ que me tocaram profundamente. Por momentos, antevi o desespero de mulheres trabalhadoras, sem recursos económicos nem acesso a meios contraceptivos, cujos maridos não aceitavam um «não», que, para conseguirem sustentar os filhos que já tinham, praticaram abortos sucessivos. À falta de dinheiro para irem a uma ‘curiosa’, induziam o aborto, recorrendo a métodos caseiros, com enorme risco para a própria vida. Nesses casos, o aborto foi o espaço (possível, íntimo e sofrido) de liberdade para mulheres, em tudo o resto, subjugadas ao poder discricionário dos homens. «Nós só dizemos se quisermos! Nem o marido, nem o padre, nem o juiz, ninguém consegue saber.» «Filha, o que se passa dentro de nós, é connosco»: duas falas de mulheres com mais de sessenta anos, quando lhes estendi o folheto do Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim e expliquei que era informação a favor da despenalização do aborto, por opção da mulher, até às 10 semanas, em estabelecimento de saúde autorizado.
Por defeito de vocação, parece-me urgente que os cientistas sociais portugueses se dediquem ao estudo desta temática e de outras correlativas (por exemplo, as relações de género, a sexualidade, a condição da mulher), numa perspectiva histórica. Faz falta um grande projecto de investigação multidisciplinar sobre a história do aborto em Portugal no século XX; faz falta uma recolha séria e vasta de testemunhos orais de mulheres portuguesas de diferentes origens sociais, de diferentes regiões do país, de diferentes posicionamentos políticos e credos religiosos que recorreram ao aborto nalgum momento das suas vidas.
Entre as reservas que muitos investigadores colocam à história oral destaca-se a carga subjectiva dos testemunhos. Ora esse óbice poderia ser uma mais-valia num estudo sobre o aborto, onde estão em causa vivências e emoções. As fontes documentais escritas, produzidas por entidades públicas como os Tribunais, a Polícia, os Hospitais, podem ajudar a compreender uma parte do objecto de estudo. Porém, apenas a história oral poderá introduzir-nos na história do aborto do lado do vivido na primeira pessoa.
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Imagem: Paula Rego, s/ título [série sobre o Aborto], 1997-1999.