segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Cuidado com as citações (II)

Continuando o post anterior sobre esta crónica de João Miranda no DN (a terceira na série "Sexo em Democracia"). Escrevia eu que o trabalho de Gregory Clark, em que se baseia a crónica, deve ser tomado com as maiores precauções. Já João Miranda pelo contrário cita-o sem quaisquer precauções, e leva as conclusões bem mais longe do que o autor do trabalho poderia imaginar. De facto é a forma - no mínimo pouco rigorosa - como João Miranda cita o trabalho de Clark que me merece os maiores reparos.

Começa logo na primeira frase: "Gregory Clark, professor de Economia americano, estudou a fecundidade dos ingleses entre 1250 e 1800." Esta afirmação está factualmente errada. Clark estudou a fecundidade em Inglaterra entre 1585 a 1638. Pode ler-se no artigo que referi no post anterior "Here we use a sample of more than 2,000 wills made by male testators in the years 1585 - 1638" (p.5). O que Clark faz, baseado na permissa que as condições não se alteraram significativamente, é estender as suas conclusões para o período até pelo menos 1250. Chama-se a isso uma extrapolação. Claro que dizer que foi estudado um período de 550 anos em vez de 53 anos dá mais credibilidade às suas conclusões, mas está errado. E, já agora, também não estudou a fecundidade dos ingleses, o que quereria dizer de todos os ingleses, estudou a fecundidade de alguns ingleses, aqueles - poucos - que foi possível estudar na sua amostra.

Mais adiante: "De acordo com Clark, em 1800, a sociedade inglesa era constituída pelos descendentes dos mais bem sucedidos nos séculos anteriores, os quais herdaram as características necessárias para atingir o sucesso.". A primeira parte da frase reporta-se de um cálculo que até é possível fazer com os dados disponíveis (não esquecendo as limitações do estudo, e consequentes margens de erro); toma-se as taxas de fertilidade de ricos e pobres, o intervalo de tempo em estudo, a idade média a que os ingleses tinham filhos, e calcula-se. No entanto do que li Clark esse cálculo nunca é feito, especula apenas que assim seria. Na segunda parte da frase a falta de rigor é ainda mais grave. Clark não estuda a herditeriedade de coisa nenhuma! Mal sabemos que características são essas que permitem atingir o sucesso (mas isso dá-se de barato), agora se foram ou não foram herdadas não é de todo objecto de estudo. Se Clark já tem dificuldades em saber pelos testamentos que analisou coisas tão simples como quantos filhos tinha cada homem, e quanto dinheiro lhes deixava, saber se lhes transmitia ou não as características do sucesso então nem se fala. Isso não impede Miranda de escrever uma frase bem acertiva, "a sociedade inglesa era constituída...".

Continuando "Clark defende que a História de Inglaterra desde a Idade Média à Revolução Industrial é dirigida pelos mecanismos impessoais da selecção biológica ou da selecção cultural." E aqui João Miranda ultrapassa todos os limites do rigor mínimo aceitável. A selecção cultural, de facto, ainda é algo que Clark refere vagamente (quando especula, mas pode especular-se desde que se o assuma enquanto tal). Mas Selecção Biológica? Eu gostava de saber onde o é que Gregory Clark se referiu à Selecção Biológica. Em tudo o que li a Selecção Biológica nunca é referida, nunca é abordada, nunca é mencionada, nem sequer enquanto especulação. Nada! Clark fala tanto de Selecção Biológica quanto fala de futebol (que, como é sabido, não existia na Inglaterra pré-Industrial). Não é Clark quem mete a Selecção Biológica ao barulho. É João Miranda quem, intencionalmente ou não (pouco importa), tenta fazer parecer que a sua especulação - para a qual não tem qualquer suporte científico, qualquer base empírica - é o resultado da investigação de um reputado professor de economia.

E continua logo na frase seguinte "As características das pessoas economicamente bem sucedidas foram passadas aos seus filhos através da educação ou através dos genes." A frase é uma afirmação peremptória, repare-se "foram passadas", não há lugar à duvida. Mas como já referi, se determinadas características foram ou não passadas aos descendentes é algo que não foi sequer estudado. No entanto em cima de uma especulação elabora outra especulação: as características do sucesso foram transmitidas, e foram-no pelos genes ou pela cultura. E mais uma vez a ambiguidade, não nos diz se exprime as suas ideias especulativas ou os resultados de Clark. Note-se que pouco nos é dito sobre que características possam ser essas, e evidências que elas possam ser transmitidas pelos genes então nada de nada é mencionado.

E para finalizar João Miranda insiste: "O trabalho de Clark demonstra a importância dos processos de selecção biológica e cultural." como se a repetição da ideia a tornasse mais válida. Mas onde o cronista quer chegar é à conclusão que "(...) pessoas com determinadas características são mais bem sucedidas que as outras.", e que isso é sujeito à selecção natural.

Resumindo o argumento de João Miranda é que os mais ricos são os mais bem sucedidos, e têm mais filhos do que os menos bem sucedidos. Isso faz com que a prazo os membros de uma sociedade sejam descendentes dos mais bem sucedidos, e uma vez que herdadaram as características que permitem o sucesso conduzem essa sociedade ao progresso. Terá sido o caso da revolução industrial em Inglaterra. Uma vez que isto é um processo natural (os tais mecanismos impessoais) não se deve intervir, particularmente o estado - esse grande vilão. A natureza através da selecção faz o seu trabalho, portanto não se deve intervir com políticas de natalidade e alterar o normal curso da natureza (há aqui uma crença quase mística no trabalho da natureza). Gostaria de saber se numa situação em que os pobres, i.e. os menos bem sucedidos, tenham uma maior fertilidade do que os ricos, João Miranda mantém a mesma opinião. Seguindo a sua lógica, se os pobres tiverem uma maior taxa de fertilidade então vão transmitir as características do insucesso à descendência. A prazo a sociedade será composta apenas de descendentes de pobres, e será a decadência dessa mesma sociedade (actualmente em todo o mundo ocidental são os mais pobres quem tem as taxas de fertilidade mais altas). Trata-se, no entanto, de uma questão antiga. Utilizando essa mesma lógica David Heron dizia em 1906 a propósito dos pobres "(...)higher fertility rate is shewn...to be very markedly correlated with the most undesirable social factors". David Heron era um notório eugenista, e membro fundador da British Eugenics Education Society. Sociedade essa que advogava entre outras coisas campanhas de esterilização dos mais pobres para eliminar os indesejáveis da sociedade. Na época as classes mais baixas tinham já taxas de fertilidade bastante mais elevadas que as classes altas.

Não é inocente que João Miranda meta a selecção biológica ao barulho e a misture com selecção cultural, porque é à selecção biológica que quer chegar (e o chato do Clark que só fala da selecção cultural...). Na realidade argumento de João Miranda só faz sentido se o processo de selecção for biológico. Se as tais características do sucesso que permitem a alguns serem mais bem sucedidos forem transmitidas pelos genes. Porque se não o forem nada obriga a que sejam transmitidas apenas à descendência. Se o processo de selecção for cultural, nada impede que as tais características do sucesso sejam transmitidas de um qualquer ser humano a qualquer outro ser humano (por exemplo através do sistema de ensino, e com a ajuda do estado). E nesse caso o argumento de João Miranda simplesmente não faz sentido. Curiosamente João Miranda não se apercebe, ou prefere ignorar, a diferença entre Selecção Cultural e Biológica, e trata-as como se fossem equivalentes. Parte de um estudo que sugere vagamente a importância da selecção cultural, e que não aborda de todo a selecção biológica, para construir um argumento que só faz sentido para a selecção biológica e que é inconsistente com a selecção cultural.

Resumindo, para o argumento de João Miranda fazer sentido só falta demonstrar que a selecção existe, que é biológica, que há "características do sucesso", que estas são transmitidas pelos genes, que permitem aumentar a taxa de sobrevivência e/ou fertilidade, que o processo de selecção é o motor do progresso social, e que a acção do estado lhe seria prejudicial. Enfim, falta demonstrar tudo.

Ainda assim, com todas estas reservas consideradas, ainda ficam algumas questões para discussão futura (se for caso disso)...

domingo, 16 de setembro de 2007

O salão nobre não sabe nadar, iô!

A Escola de Música do Conservatório Nacional, situada no lisboeta Bairro Alto, tem o seu salão nobre em avançado estado de degradação. Neste salão, inaugurado em 1881, já tocaram alguns dos melhores músicos portugueses, como Luís de Freitas Branco, Vianna da Mota, António Rosado, Artur Pizarro, Nuno Vieira de Almeida, entre outros. A sua excelente acústica tem sido elogiada por músicos e cantores estrangeiros. O salão foi já classificado pelo IPPAR, no entanto, as obras que foram anunciadas num Diário da República de 15/XII/2005 ainda não foram sequer iniciadas! Se não fosse triste dava um bom policial...
Sobre o assunto foi enviada uma carta aberta às ministras da Educação e Cultura, publicada este domingo no jornal Público, por iniciativa do Fórum Cidadania Lisboa e de cidadãos a título individual, incluindo este vosso peão. Chama-se "Salvem o salão nobre do Conservatório Nacional" e vale a pena ler (deixo aqui o link directo para o texto, via blogue Cidadania Lx). Quanto mais apoio tiver este alerta tanto melhor. Algumas imagens do estado actual podem ser vistas no fórum de debate do site do Fórum Cidadania Lisboa (vd. aqui).
Fala-se tanto em revitalizar Lisboa, reabilitar, etc. e tal, porque não começar pelo mais óbvio? A CML também podia ajudar, indagando em que pé estão as coisas (eu sei que é uma pergunta retórica, pois já se percebeu que não estão em pé nenhum, mas, enfim, sempre dá para começar a conversa...).
Nb: para mais informações vd. tb. este post do Cidadania Lx e os blogues valkirio e Guilhermina Suggia (deste foi retirada a 1.ª imagem; a 2.ª é do site Meloteca).

Darfur: temos que fazer barulho

O dia 16 de Setembro foi escolhido, a nível internacional, como o dia de acção global pelo Darfur.
Apesar da aprovação da Resolução 1769 pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, autorizando o destacamento das forças de manutenção de paz, continuam os ataques à população civil no Darfur. Até que parem os ataques e que as forças de manutenção de paz sejam efectivamente colocadas no terreno, a comunidade internacional tem que manter o assunto na ordem do dia.
Hoje, a Campanha Por Darfur convida-nos a todos para uma concentração no largo do Camões, em Lisboa, a partir das 18 horas, “Façam barulho e não desviem o olhar: salvem o Darfur!”, para chamar a atenção dos governantes que não devem desviar os olhos do que se está a passar no Darfur. No local podemos subscrever uma petição à Presidência da União Europeia, apelando para a inclusão da situação no Darfur na agenda da Cimeira UE-África. A Amnistia Internacional está também a promover uma petição sobre a entrada das forças de manutenção de paz das Nações Unidas no Darfur. [Informação retirada daqui]
Mobilização pela Paz no Darfur na Internet. Algumas ligações úteis:
Darfur is dying

REUNIÃO NA ONU:DIRIGENTES AFRICANOS PENSANDO EM DESENVOLVIMENTO















“Caras(os) ,
Todos nós somos testemunhas daquelas sonolências monumentais que nos Congressos, Conferências e reuniões importantes, acometem até o mais diferenciado participante, congressista, o mais sisudo cientista- independentemente da sua cor, da convicção religiosa ou filosófica, e dos gostos musicais; especialmente depois da pausa para o almoço. E se o dito incluir um Tintol alentejano...
Pois é: esta foto carrega consigo alguma maldade..., ou, eventualmente, intenções cavilosas, como dizia um político local que gostava de usar o bom Português.
A foto dos nossos ilustres congressistas faz-me recordar a história de um polícia americano, num dos Estados do Sul, onde o preconceito racial ainda vigora ora quieto, ora escondido, e frequentemente de modo claro e transparente, que dizia o seguinte( anos 60/70):
"...Os Negros não fazem jogging, são é uma cambada de ladrões...". E acrescentava: "...Na dúvida, sobretudo se for ao anoitecer, disparo!..." .
Anda um tipo a seguir os conselhos e as sugestões dos médicos acerca da importância do exercício físico aeróbico e...choca com uma bala perdida; sem saber ler nem escrever.
Tudo isto, meus caros - pessoas sem preconceitos de ordem racial - é apenas para retomar o trabalho neste 2º período com um sorriso nos lábios. E sem aquela sonolência da foto...
Saudações amigas
Jerónimo Belo "

sábado, 15 de setembro de 2007

Lisboa também é chinesa

A comissária municipal para a Baixa/Chiado, Maria José Nogueira Pinto, avançou a ideia de se impor uma quota de lojas chinesas na Baixa Pombalina e de se equacionar uma «Chinatown» noutra zona de Lisboa.
Discordo da ex-vereadora do CDS-PP na capital, entretanto convidada pelo actual presidente de Câmara, António Costa, para dirigir o projecto de revitalização da Baixa-Chiado.
As medidas propostas parecem-me descabidas e contrariam uma das virtudes de Lisboa: tornou-se uma capital cosmopolita, cujo espaço público é partilhado e apropriado por pessoas de diferentes proveniências, sem a segregação ostensiva verificada noutras paragens. Casas comerciais com proprietários, empregados e produtos de diferentes origens encontram-se relativamente disseminadas pelos vários bairros da capital, da Baixa ao Lumiar e do Oriente a Belém.
Impedir o livre estabelecimento na Baixa/Chiado de lojas chinesas contraria princípios básicos de liberdade, de convivência social, de livre iniciativa e de livre concorrência (cá está uma posição de direita muito pouco liberal!). A CML faria melhor se promovesse a habitação para jovens na Baixa... Esta sim, seria uma medida sensata para ajudar a revitalizar o centro histórico de Lisboa, criando mais emprego e comércio, seja o chamado comércio tradicional ou outro...
Querer confinar o comércio de origem chinesa numa zona da cidade é remeter esse comércio para o domínio do exótico, quando ele faz parte integrante da vida da cidade. Além disso, é impor politicamente um modelo no qual os cidadãos lisboetas, mais ou menos recentes, não se revêem.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Uma excepção à regra do emigra de nunca dizer mal do país quando está longe

Só mesmo em Portugal é que se pode encontrar tanto povo para defender o gesto rufia de Scolari.

Cuidado com as citações (I)

Em pleno Verão, João Miranda publicou esta interessante crónica, a terceira na série "Sexo em Democracia". Talvez por ter saido durante o período de férias não tenha tido a devida atenção. Na minha humilde opinião foi pouco comentada na blogosfera, falou-se mas falou-se pouco. A dita crónica bem merece uma polémica. Segundo João Miranda o trabalho do economista escocês (e não americano) Gregory Clark, professor na Universidade da Califórnia em Davis, mostra que na Inglaterra anterior à Revolução Industrial os mais ricos deixaram mais descendentes. Esse fenómeno terá levado a que por volta de 1800 toda a população inglesa fosse descendente dos mais ricos. A população inglesa teria herdado as qualidades dos mais bem sucedidos o que terá sido o motor da própria Revolução Industrial. Ou seja, terá ocorrido um processo de selecção, nesse processo os descendentes dos mais ricos teriam passado as suas características à descendência, e a prevalência dessas qualidades na população levou à Revolução Industrial.

Felizmente que Gregory Clark tem uma grande parte do seu trabalho disponível on-line, para quem quiser poder lê-lo, e comparar as suas conclusões com as de João Miranda. Eu cheguei a conclusões muito diferentes, e parece-me que no mínimo João Miranda está a sobre-interpretar o trabalho de Clark. O trabalho em questão presumo seja o artigo "Survival of the Richest: The Malthusian Mechanism in Pre-Industrial England", publicado em conjuto com Gillian Hamiltan, e disponível em formato PDF no site do próprio Gregory Clark. Trata-se do estudo empírico sobre a questão da fecundidade e da riqueza na Inglaterra pré-Industrial. Trata-se portanto a fonte primária de Clark, a cujos dados depois se reporta em pelo menos mais dois artigos onde expõe as suas ideias (este e este, também em PDF).

Clark conclui que os mais ricos conseguem deixar mais descendência do que os mais pobres. Não quer dizer necessariamente que tenham mais filhos, mas que mais filhos sobrevivem até à idade adulta e conseguindo eles próprios deixar descendentes. Como qualquer trabalho científico, o artigo de Clark tem algumas limitações. Como é fácil de imaginar não há propriamente dados exaustivos sobre a riqueza, o número de filhos, os óbitos, etc..., da Inglaterra da Idade Média ou pré-Industrial. Clark baseia-se numa amostra de testamentos deixados por homens da época nalgumas paróquias inglesas, e partir dai infere os seus dados. É portanto um processo de amostragem e inferência. A informação que se retira dos testamentos não é propriamente a mesma que se encontra num Censo. Ainda assim pode inferir-se as posses, e o número de herdeiros e informações relativamente ao óbito. A primeira questão será a de saber se os testamentos permitem uma amostragem representativa da população. O próprio Clark afirma "Wills were also not made by a random sample of the population, but instead made by those who had property to bequeath" (p.6) e algumas linhas mais à frente "higher income individuals were undoubtedtly more likely to make wills". Ou seja a amostra não é representativa, só deixa testamentos quem tem bens para legar, os mais ricos ou talvez os remediados. Se os mais pobres dos mais pobres, que não deixam testamentos por não terem bens para legar, deixaram mais descendentes do que os ricos, as conclusões do estudo são erradas. O erro é tanto maior quanto maior for a proporção da população que era demasiado pobre para deixar testamento. Não é possível estimar essa proporção, mas supõe-se que não fosse pequena. Outro aspecto é a questão de herdeiros vs descendentes, não é bem a mesma coisa. O próprio Clark novamente refere que ocorria nas famílias com menos riqueza filhos serem omitidos do testamento porque não havendo muitos bens a legar, esses bens eram herdados apenas por um ou alguns dos filhos, preferencialmente homens (p.8-10). Não é possível estimar rigorosamente quantos filhos são omitidos nos testamentos, mas o que se conclui é que seguramente o cálculo da fertilidade dos mais pobres baseada nos testamentos é feito por defeito. Mais uma vez se os mais pobres têm uma taxa de fertilidade superior à calculada os resultados do estudo estão errados. Finalmente, foram efectuados outros estudos sobre o mesmo assunto e a mesma época, versando outros países da Europa e o Japão, e nunca foi encontrada relação alguma entre a fertilidade e o nível de riqueza (p.2). Não deixa de ser curioso que este fenómeno se passa apenas em Inglaterra, quando durante a Idade Média outras sociedades europeias eram muito semelhantes à inglesa.

As conclusões deste trabalho devem portanto ser tomadas com muita precaução, já que a metodologia apresenta limitações muito importantes. Note-se contudo o rigor intelectual de Gregory Clark que nos enuncia ele próprio as fraquezas do seu estudo.

Já o rigor de João Miranda deixa muito a desejar, mas isso fica para o próximo post, que este já vai longo.

Continua portanto...

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ramadão

E começou hoje o Ramadão, mês em que foi revelado o Corão e terminou a Ignorância. À chamada nocturna (v. Dj Peão), inicia-se o jejum ritual, a abstinência, a caridade e a oração.
É um tempo sagrado, de especial união entre os muçulmanos, já que o Mal se encontrará enfraquecido: «Quando Ramadão começa, os portões do Inferno ficam trancados, e os demónios nele acorrentados» (Maomé). Que assim seja. Bom Ramadão.
Imagem - Deus é Belo e ama a Beleza.
Alguma informação e a imagem foram retirados do sítio do Centro de Estudos e Divulgação do Islam

Rosh Hashaná

Começou ontem o ano-novo judeu, o Rosh Hashaná. Ao toque do shofar (ver Dj Peão), iniciou-se um período de instrospecção e meditação de dez dias, porque, embora sendo um momento de aclamação, representa, também um dia de «queda»: terá sido neste dia que Adão e Eva transgrediram e que Caim terá matado Abel.
E é com estas referências atribuladas que o calendário rabínico chega ao ano de 5768. Bom Ano.

Voa canarinho....

Por falar em futebol, lembrei de um samba gravado pelo Júnior, antigo craque do Flamengo e lateral-esquerdo titular da selecção brasileira em 1982 (o nosso eterno "dream team"). O samba começava assim: "voa canarinho voa, mostra na Espanha o que eu já sei.". A propósito lembrei dos últimos vôos da equipa de Dunga. Acabo de ser que a mesma completou 20 jogos, com os dois amistosos realizados pela América do Norte (USA e México). Pois bem, nada de mais, o capitão do tetra assumiu o comando do escrete em agosto de 2006 e já conquistou uam Copa América. (Seria mesmo interessante se nuestros hermanos portenhos voltassem a jogar à bola e trazer de novo a rivalidade futebolística à América do Sul).
O que me deixa curioso na selecção de Dunga não é o facto de o mesmo só convocar jogadores de clubes europeus, mesmo que estes sejam totalmente desconhecidos dos brasileiros, ou mesmo apena atletas medianos como o guarda-redes Doni (se calhar nem era titular no modesto Botafogo de Ribeirão Preto, quando jogava no interior de São Paulo), alguns dos convocados são mesmo ilustres desconhecidos, até para quem como eu, tem algum interesse pelos noticiários desportivos (um tal de Afonso, por exemplo, que joga num clube holandês de nome esquisito).
O que me tem inquietado, e penso que a muitos brasileiros, é que a selecção canarinha não joga em gramados brasileiros desde que Dunga se tornou treinador. Antes só jogava na Europa, talvez para não cansar os jogadores com longas viajeens transatlânticas, ainda mais com a crise aéra brasileira. Agora passaram a jogar na América. Mas sempre fazem questão de jogar em campos do Primeiro Mundo. A exceção foi a Copa América, na Venezuela. Neste caso, tinham que jogar em solo sul-americano.
Enquanto não começam as eliminatórias para o Mundial de 2010, a canarinho voa longe dos brasileiros.
Pensando bem, talvez não faça tanto sentido a candidatura do país para sedear o Mundial de 2014. Quem vai querer lá jogar?

Mais uma vez a ditadura da mídia...

Já não é novidade a ditadura que a mídia tem exercido sobra a sociedade brasileira. Tudo em nome da democracia e da liberdade de informação. O direito à informação é sem dúvida alguma uma das molas mestras da democracia. Mas o seu exercício sem nenhum critério, ou tendo como critério apenas os interesses de determinados grupos não parece algo tão benéfico para uma sociedade. Os dois últimos acontecimento de maior impacto na política brasileira mostram como o "do dever de informar" se tem transformado numa verdadeira ditadura.
No primeiro caso, há duas semanas, o julgamento dos envolvidos no chamado "mensalão", pelo Supremo Tribunal Federal, um dos magistrados da suprema corte afirmou que diante da pressão execerida pela imprensa, o resultado não podia ter sido outro se não transformar os acusados em réus. Ou seja, segundo o ministro Ricardo Lewandowski "Todo mundo votou com a faca no pescoço". Em entrevista à Folha de São Paulo, no dia 30 de agosto, o mesmo magistrado afirmou: "A imprensa acuou o supremo".
Para a grande imprensa, nomeadamente o Grupo Abril, que publica Veja, e o grupo Folha, ligados à elite económica paulista, interessa antes de tudo, qualquer desgaste sofrido pela esquerda, ou a base aliada do governo Lula.
O segundo caso, passou-se ontem com a votação pelo pelnário do Senado Federal, da proposta de cassação do mandato do presidente da casa, senador Renan Calheiros. Embora nenhum processo ainda estivesse concluído, e não se tenha provado nenhuma das acusações. Ora, quem conhece a política brasileira sabe que Calheiros é uma "raposa velha", e que, como boa parte dos líderes estaduais, estende sua influência política sobre negócios que pouco tem a ver com a política. (compra de empresas, de fazendas, emissoras de rádio). Portanto não se trata de advogar a sua inocência. No entanto, a condenação prévia sem que o processo sequer seja concluído não parece adequada
O resultado da votação foi a rejeição da propoosta de perda do mandato, por 40 a 35 votos. Um facto porém chamou-me a atenção. Já houveram processos anteriores por quebra de decoro parlamentar, no senado federal. Em dois deles, envolvendo os Senadores Atónio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda, aliados do então presidente FHC, ambos renunciaram aos mandatos e escaparam à cassação, preservando assim o direito de concorrer à novas eleições. No caso do senador Calheiros , o mesmo esperou pelo julgamento dos colegas. Não saiu pela via mais fácil que era a renúncia.
E não lembro de nos casos anteriores a grande imprensa estar tão preocupada em preservar a imagem do Senado Federal.

Queer Lisboa 11



Queer Lisboa 11 - Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa

14 a 22 de Setembro de 2007 no Cinema S. Jorge

Toda a informação aqui

Mania das grandezas

Ó pequeno Portugal
deu-te agora p'rás grandezas
Trocas o Tibete sofredor
pelo Mugabe ditador
Fica a rir o Dragão
como dita a tradição

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Regresso às aulas ou dies irae?

A imagem escolhida (com alguma malícia?) pelo Público para ilustrar o início do ano lectivo deixa-me bastante apreensiva, pois o momento parece ser da mais absoluta contrição: o luto é carregado, a ministra de olhar vítreo, enquanto o Primeiro Ministro se persigna com solenidade e o sacerdote, administra, circunspecto e resignado, a extrema unção.
A Prayer/Hym Dias Irae
That day of wrath,
that dreadful day,
shall heaven and earth in ashes lay,
as David and the Sybil say.
What horror must invade the mind
when the approaching Judge shall find
and sift the deeds of all mankind! [...]

Meteorologia







terça-feira, 11 de setembro de 2007

Gatos a sério

Caros amigos, tendo em conta que hoje (já) é quarta-feira, venho revelar-vos mais um pedacinho da minha investigação em curso. Como toda a gente sabe, as minhas pesquisas cumprem rigorosamente dois critérios essenciais: em primeiro lugar, estamos a falar de investigação fundamental, isto é, temas estruturantes que afectam o futuro da nossa sociedade; em segundo, têm como objectivo instruir os seus leitores com conhecimento útil. Útil em que sentido?, perguntam-se vocês...

Bom, mas prometido é devido. Hoje venho apresentar os resultados do meu mais recente estudo: grupos musicais com referências a felinos no seu nome.

1) Começo com aquele que é, na minha opinião, o maior músico cabo-verdiano de sempre: Orlando Pantera. Autor de um repertório fascinante de músicas (hoje popularizadas por cantoras conhecidas como Lura e Mayra Andrade), Orlando Pantera deixou-nos sem sequer ter editado um disco. Uma pancreatite aguda levou-o pouco antes de partir para Portugal e para o Brasil para entrar em estúdio.

Se não o conhecem, basta ver o documentário "Mais Alma" de Catarina Alves Costa para saber do que estou a falar.







Mayra Andrade: "Tunuca" (autoria de Orlando Pantera)


2) Quem não se lembra daquele grupo de rapazes americanos rockabilly dos anos oitenta chamados Stray Cats? Muita gente, obviamente. Eu quase que me esquecia deles, até porque nunca fui um fã acérrimo deles. No entanto, não sei porquê sempre achei piada à estética do revivalismo rock'n'roll (cujo cânone foi estabelecido por aquela fita clássica do cinema mundial, Grease, que determinou que usar calças apertadas ao ponto de parar a circulação sanguínea era cool). E também porque tenho um amigo que toca contrabaixo.



Stray Cats: "Rock this Town"


3) O mítico Gato Estevão (Cat Stevens). Compôs um tema caseiro com o título sinistro de "I Love My Dog" que o levou a assinar um contrato com a Decca Records e assim iniciar uma carreira de quarenta anos a com a guitarra acústica às costas. Mas grande, grande é o tema que o popularizou: «uuuh bebé bebé, é um mundo selvagem...»



Cat Stevens: "Wild World"


4) Mas nada se compara ao que vem a seguir. José León (ou seja, Zé Leão) é um artista latino muito, muito conhecido, nomeadamente na casa dele e arredores. Podemos dizer que é o "next big thing" da indústria musical latino-americana. Dele sabemos o seguinte: é de Puerto Rico (para não dizer puerto-riquenho, que soa bastante ridículo), vive no Bronx de Nova Iorque e aparentemente é um abstémio sexual disposto a mudar a sua condição com carácter de urgência, pelo menos a julgar pelo vídeo:



José León: "Casar Contigo"


Meus amigos, a investigação continua. The truth is out there.

Vírgulas negras

"C'est pourtant d'une expression, de quelques mots qu'aura finalement surgi l'image la plus forte de cette période troublée. Cette image, c'est celle des «virgules noires», formulée par James Whitney, courtier en Bourse qui a assisté, médusé, de sa fenêtre, à l'attentat du World Trade Center. Les «virgules noires», ce sont les individus qui sautaient des tours, paniqués à l'idée de brûler vif. (...) tout se passe comme si ces deux mots cristallisaient à eux seuls la dimension humaine de la catastrophe, que tous les cris de panique ou de fureur enserrés dans la rhétorique télévisuelle de l´horreur ne sauraient curieusement égaler. Car cette image née des mots porte en elle une dimension immémoriale que la télévision et son ressassement ne connaissent pas. Elle seule peut déjouer la dictature du temps réel dont nous sommes tous intoxiqués. Elle seule donne enfin la dimension figurative qui nous manquait pour concevoir que l'impossible a été possible. (...)"

Thierry Jousse, "New York, 11 Septembre, l'envers du spectacle". Cahiers Du Cinéma [Paris] nº 561 (Octobre 2001): 10-11.

Una storia deliziosa


Conheci este ano em Wageningen um senhor italiano magnífico. Um belíssimo contador de estórias, estilo Nanni Moretti. Em italiano e tudo. Uma das estórias que Antonio me contou é assolutamente deliziosa. Contou-me ele que em 1974, logo a seguir ao 25 de Abril, o
movimento lotta continua fretava voos charter para que os jovens italianos pudessem vir a Portugal 'ver' a revolução.
E eles lá vinham, lá viam e lá regressavam a Itália.
Alguns aprendiam as canções de intervenção portuguesas. Outros, a maioria, levavam na bagagem um poster de um senhor que ninguém parecia saber quem era. Aliás, o Antonio esbracejando muito dizia-me, no meio da sua estória, que perguntava a torto e a direito aos seus amigos regressados de 'ver a revolução': ma chi è quest'uomo? Ma chi è quest'uomo?

A minha curiosidade crescia, enquanto Antonio me explicava que o dito poster do dito uomo figurava no quarto de todos os jovens italianos militantes do lotta continua, ao lado de figuras como Che Guevara... e que nenhum deles parecia saber de quem se tratava...

Si... chi era quest'uomo?

Hoje o Antonio, da sua Firenze natale, enviou-me o tal poster. Il uomo era questo:



Por que raio estou eu a ver esta merda?

Eu às vezes fico histérica. Mas é quase sempre com a minha vidinha. De resto, apenas me indigno. Às vezes refilo.
Eu por vezes leio nos jornais que desaparecem e/ou são traficadas, anualmente, cerca de um milhão de crianças.
Eu às vezes fico em frente da televisão a pensar por que raio estou eu a ver esta merda?* Mas sigo vendo. Porque há ali coisas que me interessam. Coisas que quero saber. Nem sei porquê ou para quê. Mas há.
Eu sei que, no nosso mundo, as pessoas brancas, sobretudo se forem loiras e tiverem os olhos verdes ou azuis, valem mais do que as pessoas pretas ou as muito morenas ou ainda as amarelas. Mesmo que sejam loiras.
Eu sei que os meios de comunicação social constroem e destroem personagens e acontecimentos.
Eu sei que nós construímos e destruímos personagens e acontecimentos. Sobretudo se tivermos acesso facilitado aos meios de comunicação. Mas mesmo que não o tenhamos é da nossa prática quotidiana tal construção e desconstrução.
Eu sei que há várias estratégias (em cada um de nós) para lidar com as desgraças que estão directamente dependentes da natureza das próprias e do momento em que nos encontramos (entre uma série de muitos outros factores).
Eu sei que gostamos de nos alimentar das desgraças alheias. E sei que por vezes nos solidarizamos com elas.
Eu sei que somos maus. Maquiavélicos. Tortuosos. E que gostamos de atirar pedras (raramente pedradas. Quase nunca nos charcos).
Eu sei que não é bastante formular hipóteses. Que é preciso recolher evidência empírica. Cruzar dados. Produzir resultados fiáveis.
Por isso. Desde o princípio de toda esta operação mediática extraordinária nunca me apeteceu atirar pedras. Ou deitar lágrimas. Estou na mesma.

*Tudo isto aconteceu porque estive a ver o programa Prós e Contras. Sobre o caso Madeleine Mccann. E a fazer a mim mesma aquela pergunta. É um desabafo ou coisa que o valha. Risquem, apaguem, ignorem o que for de riscar, de apagar e de ignorar.

Exemplo maior

Aquele que olha para o seu passado
sem cansar a sua vida, sem obter
do medo uma carta fictícia de alforria
porque é árbitro das suas promessas e do seu isolamento,
e o tempo ou as quimeras não são portas do seu tumulto,
aquele que traz nas pregas da sua surpresa
ou da substância sua esse favor que se diz intermitente
e que permite cortar o destino como um queijo tenro,
um queijo que não dá volta à amargura mas adere à estupefacção
e é outro ou o mesmo, porque o fervor o distingue do terceiro espólio,
aquele que não vê esse gosto do despeito porque segue
rápido, a caminho da sobrevivência
para falar dos ázimos e benzer os pratos mais pobres,
tal a sua ciência é um ardor refutável entre limões
ou ambíguas presenças como fontes onde a doçura vigia,
fende corpos e empresta deuses para segurar pesados braços,
aquele que diz “eu não vim para triunfar,
mas para inquirir sobre o teor da persuasão,
dar à natureza uma queimadura viável
e evitar que o vinho se lembre do timbre pérfido”,
aquele que se manifesta sobre a ordem múltipla do êxito
para preservar a susceptibilidade com tâmaras veementes
e avisar a posteridade da arrogância da culpa,
aquele que conhece a sua fraqueza
e não despe com mais de duas mãos
não a ouve tão pouco mais ouvidos do que permite
a essência das coisas, a penitência assustada,
mas é de alto a baixo o inquérito sobre a alternativa,
mar rolado continuamente sobre o seixo exterminador,
ah vo-lo-dirão, enfim?
aquele que conhece bem a sua origem
é um homem que passa, leve, entre
os sinais da terra, que permite
aos seus olhos uma celebração contínua.
Ele não caminha de dia e de noite
entre a ruína das palavras e das visitações:
está parado entre duas carnes, tal a beneficência,
porque o seio do seu futuro
se apodera como uma ordenação da sua jornada
e, para lá do sábado, ele colhe e come entre juízos.
Exemplo maior (canto terceiro), Antuérpia, 1985
[excerto do poema]
Nb: com um agradecimento ao José Luís Tavares, pela lembrança.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Mais um clássico

Outra coisa divertida no final da mudança é o processo de rearrumar os livros nas estantes — com o inevitável conflito entre formas de catalogação. Temática ou por formato do livro? Escolhemos uma terceira via, a da ordem alfabética radical. Tudo por nome de autor, de A a Z, independentemente do género literário. E depois? Uma arrumação individualista, cedendo ao neoliberalismo circundante, ou colectiva, socializando as obras do espírito com quem já socializamos tantos outros domínios? Depois desta mudança acabámos por optar pelo socialismo mitigado por um núcleo fundamental indivualista-obreirista: partilha da literatura e de quase tudo o resto, arrumação separada dos livros "de trabalho". A ver se corre bem.

Para já, a colectivização de parte da biblioteca deu origem a felizes encontros entre autores clássicos. Por exemplo, na nossa estante, entre Tácito e Tito Lívio, encontramos Rui Tavares.

Mudanças: dois clássicos

Apesar da logística, o momento de retirar os livros das caixas é sempre de antologia. Permite voltar a olhar para os livros que temos no seu conjunto, os que lemos e os que não, com todas as recordações que eles evocam (e os que não lemos para mim até evocam um bocadinho mais do que os que lemos — "olha aquele livro que eu comprei e que já sabia que nunca ia ler e realmente, cá está, impecável, como se acabasse de sair da livraria..."). E digo isto sem nenhum desamor por tudo o que li daquilo que tenho, que apesar de tudo já é alguma coisa...

De entre os livros que tirámos dos caixotes, queria destacar, para já, dois: Come interpretare i sogni, la smorfia e le fasi lunari per vincere al lotto, comprado no início do ano de 2001 na livraria de Santa Margherita (Ligúria, Itália) como um antídoto para uma presença excessiva de Freud na minha estante mental. Nunca li. Mas não deixo de o recomendar ao meu caro Pedro Mexia, para o ajudar a não ser tão céptico em relação à interpretação dos sonhos. Não só tem sentido, como dá dinheiro, caro Pedro! O autor é Rolando Rossi, e a edição é de Giovani De Vecchi, editor de Milão.

O segundo livro que destaco é o excelente Sporting Clube Olhanense. 90 anos de história (1912-2002). Infelizmente, tenho só o primeiro volume, que vai até 1962, mas coincide com os tempos de glória desse glorioso avant-la-lettre. Além de redigir uma síntese histórica do clube, o autor Raminhos Bispo (a edição, ilustrada, é da tipografia Tavirense, de Abril de 2003) dá-nos uma detalhada "síntese geral de jogos e resultados" a partir da época de 1923-24 até à de 1961-62. Com ficha de jogo e relato resumido! Uma obra em que a parcialidade clubística se transforma em rigor afectivo.

(Das caixas tirei também uma t-shirt da Casa do Benfica de Olhão, que nunca pensei vestir para levar para a rua e agora aconteceu, aqui em Rennes, por razões que se prendem, lá está, com a logística da mudança.)

A mudança da rainha de Montmartre

Num gesto estúpido, um dia, e esquecendo que os blogues nunca morrem repentinamente, apaguei o meu anterior blogue individual, de que tinha desistido, a Garedelest. Nesse blogue, que agora não posso lincar como gostaria, falei a certa altura de uma personagem, soberana muito amada pelos seus súbditos, a rainha de Montmartre. Pois quero vos dizer que também a rainha de Montmartre fez a sua mudança para Rennes, acompanhada da sua comitiva, sem novidades de maior e gozando de plena saúde (só uma pequena constipação, que não afecta o geral dos seus humores, já de si contrastados). A aprendizagem do francês tem corrido muito bem, dada a natural curiosidade de Sua Majestade. A adaptação aos costumes locais, também. Mas há que dizer que a rainha não é autonomista: não só não mostra a menor intenção de aprender bretão como uma das primeiras palavras que aqui aprendeu foi la République. Temos rainha, mudada e além do mais moderna.

A mudança

Tenho passado as últimas semanas a tratar de uma complicada logística. Eu não acredito na mudança. Ou melhor: não acredito que a gente controle a mudança (também é por isso que não acredito na revolução e, pensando bem, nunca acreditei, o que não é motivo de vaidade nem de arrependimento, é só assim). Acredito, sim, que a mudança é aquilo que passa por nós, pelos outros, pelo mundo, sem que a gente a sinta imediatamente ou compreenda, sem que possamos agir sobre ela de modo consciente e ao nosso compasso. O tempo da mudança é o da mudança, não é o nosso. Claro que isto daria azo para uma grande conversa com os meus amigos e colegas historiadores do peão. Mas o que eu queria dizer é outra coisa.

Nas últimas semanas, estivemos a fazer mudanças — processo incontrolável, maior do que nós, que parece não acabar nunca, mesmo no fim, já depois da epopeia de meter tudo em caixas, carregar as caixas, tirar tudo das caixas. Mesmo depois disso, há um móvel cujos parafusos ficaram por apertar, há outro que tem de ser mudado de sítio — e dos livros por meter nas estantes nem falemos... Até ao momento em que diremos: afinal a mudança era isto, meu, a mudança foi aquilo que passou, e agora já passou, e só agora é que nos apercebemos da sua passagem.

A logística da mudança é, como disse, complicadíssima. Para não soçobrarmos sob o seu peso, o melhor mesmo é, antes de recomeçar a trabalhar, voltar rapidamente às velhas rotinas. Como preguiçar de vez em quando, um pouco pelo menos, ou mesmo muito, nem que seja na cabeça.

Os soldados não gostam de planícies II

In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved, and were loved, and now we lie
In Flanders fields.

Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.

John McCrae, Ypres, 3 de Maio de 1915

domingo, 9 de setembro de 2007

Feira da Luz

Setembro é mês da Feira da Luz, ali mesmo junto a Carnide. No séc. XIX, a feira, começou por ser de gado, passou à olaria, depois aos plásticos e agora a quase tudo. É verdade que está pior a cada ano que passa: vai ficando mais pequena e com mais CDs piratas, t-shirts Cristiano Ronaldo e malas Vuitton, mas continua a ser um bom passeio, nem que seja para provar uma fartura.

Passagens para Ler Devagar

Já lá vão quase 15 anos que conheço a Cláudia. O nosso percurso científico foi quase simultâneo - licenciatura, mestrado, doutoramento - e nas mesmas instituições (primeiro na FCSH e depois no ICS). Mas foi neste último instituto, em que tive a oportunidade de ser seu colega no I curso de doutoramento, que pude conhecê-la mais de perto. Fiquei espantando com a sua tenacidade e com a capacidade de trabalho. Lembro-me da nossa sessão conjunta de apresentação dos projectos, na qual a Cláudia foi questionada pelos 'séniores' sobre a ambição do seu projecto e da extensão do horizonte temporal que este abarcava: "era uma missão quase impossível" - disseram. Face às críticas a então aluna de doutoramento não vergou e disse simplesmente que esse seria o desafio do próprio projecto. Quatro anos e tal depois (em 2005) o desafio concretizou-se (e tudo foi escrito em apenas um só ano, o último precisamente).
Toda esta conversa vem a propósito da publicação do seu mais recente livro Passagens para África: O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole (1920-1974), que corresponde a parte substancial da sua tese de doutoramento. Uma obra que já é referência e que marcará o campo de estudo da História da migração e da colonização. Não sou especialista, por isso, remeto para esta recensão escrita pelo crítico Eduardo Pitta.

O livro será lançado dia 14 de Setembro (sexta-feira), na Livraria Ler Devagar, Rua Fernando Palha, 26 (Fábrica do Braço de Prata), Lisboa. A apresentação estará a cargo do Doutor Valentim Alexandre.
Não digam nada, mas sei, de fonte segura, que haverá petiscada com sabor e aroma luso-tropicalista.

Veneza


Ang Lee ganhou, mais uma vez, o Leão de Ouro do Festival de Veneza. Desta vez, com o filme Lust, Caution.
O Leão de Prata foi para Brian De Palma pelo filme Redacted.
Todd Haynes ganhou o Prémio Especial do Júri com I'm not There, filme em que Cate Blanchett arrematou a Taça Volpi.

Todos os prémios, aqui, num post do João Lopes no Sound+Vision.

Tom Zé está constipado

Aproveitando a "febre tropical" que anda no Peão, gostaria de deixar o meu humilde testemunho: apesar de ser académico, não tenho uma grande paixão pela vertente bossa da música brasileira (como também não sou um coleccionador de jazz nem costumo trabalhar ao som de ópera - por favor, não contem a ninguém se não sou banido da comunidade científica...).

Há, no entanto, um artista que me "tira do sério": Tom Zé. Passo a enumerar duas ordens de ideias para que tal aconteça:


1) Por canções e letras como esta:



















2) Por ser visita frequente no programa do Jô (o que em si não tem, no fundo, nada de especial) e fazer questão de se esmerar na vestimenta ridícula (aqui sim, é digno de louvor):



P.S. Não sei se repararam, mas há uma epidemia de gripe no palco e na plateia do Jô.

Tropicália (parte 1)

Filme elaborado para um seminário de Antropologia. Ver segunda parte no DJPeão.

sábado, 8 de setembro de 2007

O espólio tropicalista*

Foi na paralisia da bossa nova e a alienação da jovem guarda [1] que surge em São Paulo a Tropicália (1967 - 69), movimento que agregava não só a música, mas também as artes plásticas de Hélio Oiticica, o cinema de Glauber Rocha e o teatro, com montagens dirigidas por Zé Celso Martinez. Tendo como protagonistas a musicalidade de Gilberto Gil e Caetano Veloso (mais a irreverência de Tom Zé e Os Mutantes), a poesia de Torquato Neto e José Carlos Capenam e a genialidade do maestro Rogério Duprat nos arranjos , os tropicalistas se opõem frontalmente à proposta de MPB da época, que já nascia caduca, sem imaginação e com um blablablá puramente nacionalista, que infelizmente monopolizava os discursos de cantores, compositores e outros produtores culturais.

Com uma linguagem poética alegórica e uma música que não tinha pudores em misturar o erudito, o popular brasileiro e o pop rock, o tropicalismo tenta trazer à luz as contradições próprias da sociedade brasileira, mostrando o moderno e o arcaico, o nacional e o estrangeiro, o urbano e o rural, o progresso e o atraso de um Brasil que era sufocado por uma ditadura militar e uma classe média ainda enfeitiçada pela american way of life. Por isso, pagou um preço alto: foi recusado pela esquerda, desterrado pela direita e esquecido por todos os brasileiros.

Passados quase 40 anos, a crítica européia e norte-americana parecem ter descoberto na Tropícalia uma sedutora escola de vanguarda da world music (expressão criada por coincidência com o lançamento, em 1989, de Beleza Tropical, uma coletânea de MPB produzida pela gravadora de David Byrne, ex-líder do Talking Heads). Assim, músicos como Tom Zé e Os Mutantes ganham das platéias estrangeiras o reconhecimento que nunca tiveram no Brasil, um país hoje entorpecido pelo lixo musical da axé-music, do pagode meloso e nojento e do sertanejo travestido de caubói terceiro-mundista. Em suma: a jovem guarda tupiniquim não morreu e o samba sepultou a bossa. E a Tropicália? Bem, essa foi enterrada viva sem qualquer ressentimento e seu espólio é agora disputado por alguns produtores musicais europeus e norte-americanos. E Pindorama [2] acha tudo “Divino Maravilhoso” [3].
Nb: Capa do disco, gravado em 1967. Na foto aparecem em cima: Mutantes ( com o Caetano do lado da Rita Lee) e Tom Zé( à direita). Em baixo: Rogerio Duprat (segurando o penico) , Gal Costa e Capenan. Em primeiro plano, Gil, com uma foto de Torquato Neto.
_____
[1] A jovem guarda brasileira foi um movimento musical e comercial (mais comercial que artístico), liderado por Roberto Carlos, que surge em 1965 (portanto, logo depois do golpe militar), cujo maior objetivo não era a música propriamente dita, mas divulgar programas de televisão, revistas, filmes, bijuterias, vestuário, gírias produzidas nas agências de publicidade e todos os subprodutos correlatos. Musicalmente, o estilo "jovem guarda", também chamado de "iê-iê-iê" por influência do "yeah, yeah, yeah" dos Beatles, pode ser resumido como uma mistura de qualidade duvidosa do pop rock europeu, twist, bossa nova e até marchinha. Ou seja, não tem nada que se aproxime da frase de Vladimir Lênin, em seu discurso quando da tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia : "O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada".

[2]Em tupi, também significa “Terras das Palmeiras” e era o nome dado ao Brasil pelos índios tupis.

[3]Música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com produção musical de Rogério Duprat, gravada pela Gal Costa, em 1969. “Atenção ao dobrar uma esquina/ Uma alegria, atenção menina/ Você vem, quantos anos você tem?/ Atenção, precisa ter olhos firmes/ Pra este sol, para esta escuridão/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte/ Atenção para a estrofe e pro refrão/ Pro palavrão, para a palavra de ordem/ Atenção para o samba exaltação/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte/ Atenção para as janelas no alto/ Atenção ao pisar o asfalto, o mangue/ Atenção para o sangue sobre o chão/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte”.

*Manolo Piriz

Amsterdam

Os soldados não gostavam de atracar em portos distantes e, muitos deles, nem sabiam nadar.

OUVIDOS UNI-VOS







Recebo o CD "Ouvidos Uni-vos" o mais recente trabalho de Luiz Tatit.
Este músico paulista mora ali pelos lados da Vila Ida, muito perto da Vila Madalena, a “Vila Madá”, bairro boémio da cidade muito frequentado pelos universitários.

Nada mais paulista do que a capa do CD, uma colagem de vários rostos anónimos. Ou o refrão de uma das músicas que nos lembra a Marginal do Tietê e a poluição, a grande marca da paisagem urbana e da vida dos paulistas:
(…)
Vi nas asinhas
De um pernilongo
Lama do rio
Rio do mal
Nem bem entrou na cidade
Virou marginal
(…)
Rio Tietê,
Nosso E.T.
Cadê?
Melhor esconder
(…)
[1]

O músico continua a brindar-nos com o seu gostinho especial em juntar o tom do universo infantil às coisas que também tocam os adultos:
Eu ando tão dodói
Mas tão dodói
Que quando ando dói
Quando não ando dói
Meu corpo todo dói
Tendão dói
Dedão dói
Pomo-de-adão dói
Ouvido dói
Libido dói
Fígado dói
Até meu dom dói
Pois quando canto
Não importa o tom dói
[2]

Além da parceria, Luiz Tatit também presta homenagem a Itamar Assumpção (1949-2003), o músico da poesia urbana de São Paulo que trouxe o “som do porão da cidade”:
Bem mais que um tipo de rock
pura assunção de Sampop
(…)
Rock de breque, rock de breque
Toque de mestre Assumpção
Tente entender numa boa
Sol de São Paulo é garoa
Cara em São Paulo é coroa
Praia é balcão
(…)
Nobre missão de Sampop
Entra em acção desentope
Ouvidos uni-vos
Num grande orelhão
[3]
Escutem a senha
Que vem lá da Penha
Com breque de pé e de mão
[4].

O ritmo nordestino da maior cidade brasileira está presente n´ “O Baião do Tomás”[5] e o “Baião de Quatro Toques”[6].
Também oiço a voz límpida, de passarinho, da Ná Ozetti em “Minta”[7]. Diz o próprio Tatit que ela é a “voz que não pode faltar”.

Ouvidos oiçai.

[1] "Tietê", de Luiz Tatit.
[2] “Dodói”, de Luiz Tatit e Itamar Assumpção
[3] No Brasil, em geral, as cabines telefónicas têm o engraçado formato de uma orelha humana.
[4] "Rock de Breque", de Luiz Tatit
[5] "Baião do Tomás", de Chico Saraiva e Luiz Tatit
[6] "Baião de Quatro Toques", de Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit
[7] "Minta", de Ricardo Breim/Luiz Tatit

Os soldados não gostam de planícies


A Bélgica é plana, mas a Holanda é excessivamente plana. Tão plana que entedia e nos provoca sonolência. Bicicletas, prados, vacas e água - tanta água de canais, rios, poças, chuva. Sentimo-nos sub-aquáticos, entre os diques, a afundar na lama, no pântano, numa planície lodosa de insectos de espécies várias (não no glamoroso fundo do mar).
Depois, ao fim do dia, para quebrar a monotonia da paisagem, existe a Heineken, a Palm, a Grolsch, e nada mais. Os holandeses bebem muito, não admira.
A Bélgica é plana, é verdade. Mas depois de estar na Holanda, as planícies Belgas surgem quase sinuosas. Qualquer acidente do terreno se torna belo, desperta-nos os sentidos para bebidas mais sofisticadas, como a Duvel, a Leffe, a Chimay, a Kriek, que acompanham pratos como moules ou steak au poivre, ou ainda, steak au roquefort. E depois existem as Ardenas. Bosques, florestas, vales. Rodeadas de quilómetros de planícies sem fim, as Ardenas lá estão a dizer que não. Não somos apenas planície, somos também terreno acidentado, que sobe e desce, e sobretudo, que esconde. Emociona tanto que até dói. Foi lá que se travou uma das batalhas mais sangrentas da II Guerra Mundial. Quem por lá passa, visualiza a batalha, instante a instante. Está lá tudo, é como um filme. A cada curva, a cada lomba, a cada árvore, surge um soldado, um fox hole, um bunker de metralhadora, um tanque. Se olharmos para o céu conseguimos rever os aviões em vôo picado, metralhando a estrada através das asas.
Estão lá os cemitérios e os memoriais para nos lembrarem que os soldados não gostam de planícies.

Dia Internacional da Literacia

Hoje é o Dia Internacional da Literacia, efeméride instituída pela UNESCO em 1998 para combater a iliteracia e para sensibilizar a opinião pública e os governos a favor de acções que promovam a aquisição de competências individuais e comunitárias nesta área (vd. +inf. aqui).
O tema deste ano é a ligação entre literacia e saúde, no sentido em que a primeira reforça as capacidades dos indivíduos para obterem melhor acesso a cuidados de saúde e conhecimentos sobre saúde pública (vd. aqui).
Para o efeito, associaram-se uma série de escritores em todo o mundo: Nadine Gordimer, N. Scott Momaday, Philippe Claudel, Fatou Diome, Gisèle Pineau e Abdourahman Waberi. Os seus textos podem ser lidos na revista The UNESCO Courier.
Foi também produzido um livro intitulado Antologia da esperança, com textos de Paul Auster, Albert Manguel, entre outros, alguns estando disponíveis aqui.
A 10 deste mês serão conhecidos os 5 contemplados com o 2007 UNESCO Literacy Prizes, por ocasião da African Regional Conference in Support of Global Literacy (Bamako, Mali). Encontros anteriores decorreram em Doha (Qatar) e Pequim (China).

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

As utopias a Sul do peão

No último n.º do Diplô, acabadinho de sair, destaca-se a colaboração do excelso peão Renato, com um texto de fôlego sobre «A aldeia urbana: uma pequena utopia para o Alentejo».
É verdade que a viagem por terras do Sul é de carrinpana (e não pedonal), mas nem por isso perde o seu encanto, pois é muito cinematográfica, intimista e luminosa. No fim, avança com uma ideia forte: "O desenvolvimento do Alentejo não se concretiza somente nas grandes obras públicas ou na rentabilização da paisagem. A boa relação gerada entre as cidades e as aldeias é um pilar essencial e incontornável para o futuro da região e das suas populações, que não pode ser ignorado". Tudo isto a propósito das suas revisitações à aldeia de Albernoa.
O n.º tem ainda um forte dossiê português sobre as «Novas precariedades em Portugal». E uma recensão deste vosso peão sobre o livro Miguel Torga e a PIDE, de Renato Nunes. Mais informações aqui. Então, boas leituras!

Início de época

De regresso de férias e com o início da época bloguistica o Peão traz novidades. Novas contratações foram acordadas nos últimos dias. Sendo assim, entrou para o team o já conhecido DJ Im-becil que esteve a estagiar no blogue irmão DJpeão e que depois de nos ter brindado com postadas de primeira categoria encontra-se apto para assumir a sua posição na equipa principal. Entrou também a Iolanda Évora que teve uma passagem fugaz pelo inactivo Fuga para a Vitória e que se prepara para contar muitos mistérios escondidos debaixo do mar, destes e de outros oceanos imaginados. Finalmente, a aquisição de uma autêntica estrela da blogosfera a Elisa que já é veterana nestas andanças e que conta no currículo vários blogues dos quais destaco o belíssimo Bebedeiras de Jazz, que cruza a arte destes sons (os de jazz, claro) com todas as outras artes. Sejam bem-vindos! E agora toca a escrever que já se faz tarde...

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O lazer é sempre flexível, num é?

"Mais de metade dos seguranças da noite de Lisboa trabalham ilegalmente" (frase duma fonte policial citada pelo Público de anteontem).
Traduzindo por miúdos, afinal sempre há flexibilidade no trabalho, uau!
Agora num tom sério, alguém é capaz de me explicar este tom de desabafo entre o angélico, o impotente e o acusa-cristos por parte de representantes duma entidade que era suposto estar a trabalhar para (vá lá) reduzir esta situação para valores menos vergonhosos? Mais de 50%?!
Não sei o que espanta mais: se a informação que nos fazem chegar, do estilo à espera de apoio para a indignação retórica, se o descaramento da informação vir sem um ai de vergonha por a situação ter chegado a tal ponto. Não acreditais? Então, fazei o favor de ler mais este pedaço de prosa surrealista:
Espera aí, agora que cogitei um pouco mais, julgo que atingi: isto é um contributo filantrópico dos nossos agentes da autoridade para alimentar aquelas secções dos jornais que dão pelo nome de «Diz-se», «Falou-se», «Público & notório», etc. & tal. Verdade?

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Barcelona e a Utopia

Não conhecia ainda Barcelona, e suponho que após uma mísera meia-dúzia de dias continuo a não conhecer. Ainda assim no meu desconhecimento fiquei com muito boa impressão, mesmo se as expectativas já eram altas. Uma cidade onde a boa arquitectura está por toda a parte, não apenas Gaudí (mas também, obviamente). São tantos os palacetes que parece ser um direito fundamental de qualquer cidadão viver num, é a democratização da habitação em estilo. Mais ainda, é uma cidade onde o povo mora dentro da cidade e o interior da cidade é habitado. Nem há prédios devolutos a cada esquina nem as classes média e baixa são corridas para os subúrbios. No Raval convivem imigrantes com alternativos, uns e outros são parte da cidade, não uma pitoresca excepção, apenas simples residentes normais. Sem grande surpresa é onde se encontram mais movimentos criativos. E como cenário Grafittis que pintam as paredes dos prédios antigos de bairro popular, são também parte agora normal da paisagem. Ao lado as Ramblas descem até ao mar, onde a docas estão feitas para os peões, e para os vendedores clandestinos que passam a vida a fugir à frente da polícia (têm até umas trouxas já preparadas para pegar e fugir a todo o instante). A Barceloneta, que foi bairro de pescadores, acaba no areal, em plena cidade. Não é preciso ir longe para pegar uma praia. O metro parece feito para optimizar ao máximo o aproveitamento do espaço, um lanço de escadas e está-se no cais, um túnel e está feita a correspondência. Simples e eficaz, e cobre a cidade toda. Também já há bicicletas de aluguer. O porto - que é grande - não está à frente da cidade a tapar a vista para o mar, está ao lado. Está assim como quem se desvia de propósito para não incomodar.
E como seria de espera (digo eu...) numa cidade destas há gente, muita gente, há vida, há movimento. Qual Lisboa, qual Paris... Ainda alguém tem dúvidas sobre o porquê de Barcelona ser a cidada da moda?

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Petição para salvar o cineteatro Rosa Damasceno

O cineteatro Rosa Damasceno está em perigo de derrocada. O alerta foi dado por um movimento cívico encabeçado pelo estudante Pedro Filipe de Oliveira, que pôs a circular uma petição para a sua salvaguarda, intitulada «Devolvam-nos o Rosa Damasceno» (+inf. aqui). Apesar de ser considerado Imóvel de Interesse Público pelo IPPAR desde 2002, o espaço ficou ao abandono, tendo-se agravado o seu estado após o incêndio de Março passado, sobre o qual falara aqui a Sofia Rodrigues.
Face à ausência de oferta de espaços similares, a Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural de Santarém interpusera, em 2006, uma acção judicial contra o município, no sentido de manter a função teatral. Desta acção, também apoiada pela associação Ofícios do Património e da Reabilitação Urbana, aguarda-se decisão do Supremo Tribunal de Justiça. Recorde-se que o espaço fora entretanto vendido pelo Sporting de Santarém a um construtor civil local.
Eis alguma informação sobre este cineteatro escalabitano: "Construído em 1937 e considerado um exemplo destacado da arquitectura moderna e da «Art Déco» em Portugal, o edifício foi desenhado pelo arquitecto Amílcar Pinto e tem capacidade para 1.400 espectadores, um número muito superior ao outro teatro da cidade, o Sá da Bandeira, que possui apenas 203 lugares" (fonte: RTP).
É de lamentar o definhar de equipamentos culturais de referência perante a passividade das entidades públicas, sejam a autarquia local seja o poder central, ainda por cima quando não há mais nenhum espaço desta dimensão.

Um mundo sem centro

Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje, é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido, o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.

Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas.

*Foto: João Espinho (Albernoa).

Outro peão honorário, Vanessa Fernandes

Ora, aqui está outro superpeão, este campeão do mundo em triatlo, feito acabadinho de conquistar, em Hamburgo. É a portuguesa Vanessa Fernandes, que, ainda por cima, tem a sorte de representar o Benfica, esse mesmo, o SLB!
Além do mais, é filha dum grande ciclista doutros tempos, Wenceslau Fernandes.
Parabéns e boa sorte para o futuro, para os Jogos olímpicos de Pequim 2008! É que só lhe falta ser campeã olímpica...
Nb: imagem do 2007 Hamburg BG Triathlon World Championships retirada daqui.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Foi um verãozito que lhe deu, coitadito

"Verão mais frio dos últimos 20 anos

O Verão deste ano está a ser o menos quente dos últimos 20 anos e o mais chuvoso deste século, de acordo com informação do INstituto de Meteorologia (IM). As temperaturas médias registadas este Verão em Portugal são as mais baixas dos últimos 20 anos, estando 0,5 graus Celsius abaixo do normal. Se se considerar apenas este século, a diferença das temperaturas médias deste Verão é maior, e corresponde a menos 1,9 graus. O Verão de 2007, que só termina a 21 de Setembro, está a registar uma temperatura média de 20,7 graus, quando a média entre 1971 e 2000 foi de 21,2 graus."
(in Público, 2/VIII/2007, p. 10)

domingo, 2 de setembro de 2007

Só os ricos é que pagam 21% de IVA?


Não percebo porque é que para a esquerda partidária, nomeadamente para o BE, a proposta de descida de impostos é considerada demagógica. Alguém é capaz de me explicar?


Na Cuba a cantoria é outra

Este cruzamento entre vinho e reforma agrária sugeriu-me a belíssima sonoridade do cante alentejano, brilhantemente interpretado por estes rouxinóis do grupo Ceifeiros de Cuba, filmado na Taberna do Lucas em Cuba (pois então) onde se bebe o vinhito branco da "Vidiguêra" em copos de imperial. Ora, nem mais!

O nosso contributo para a redução do défice...

É uma das melhores empresas públicas cá do burgo, e ainda por cima dá sempre lucro, mas é (ainda) pouco conhecida. Falo-vos da Companhia das Lezírias, situada no Ribatejo, entre Benavente e Alcochete, próximo da Reserva Natural do Estuário do Tejo (rezemos para que não se lembrem de fazer lá a pista dos boeings..). Além de prados floridos e toda a ambiência campina, têm uma óptima gama de vinhos, tanto tintos como brancos. Para hoje ficam as novidades, 2 brancos varietais: Arinto e Fernão Pires, castas de que já aqui falámos em nota anterior. O primeiro "é uma estreia" para a CL, com 4 mil garrafas já aí disponíveis (a 5,6€ no ECI). O segundo é uma casta que a CL já conhece de algibeira e com êxito, daí apostar num up-grade, comercializando 7 mil garrafas (a 4€ cada; +info aqui). O Arinto irá ser provado amanhã, ah pois é. Com a vantagem de assim ajudarmos a reduzir o défice, ah pois é.
Já que estamos em maré de provas, também lançámos isco num vinho verde assim mais refinado, com notas a ananás e manga, o premiado Reguengo de Melgaço, também ele de cara lavada em 2006 (c.9€ no ECI). De facto, a garrafa é uma beleza, ora vejam a imagem ao lado.
Entretanto, provou-se um branco suave da Bairrada, o Blaudus (VQPRD, colheita de 2006, a 4,65€ no ECI), combinando as castas Arinto, Bical e Maria Gomes, estas duas últimas conhecidos ex-libris daquela região. Gostei, até porque aguentou a comparação com o Prova Régia deste ano, que está de facto um espanto, com o sabor a fruta cítrica e tropical a combinar magnificamente com um toque mineral.
Enfim, a culpa é do calorzito que resolveu dar um arzinho da sua graça, o malandreco...

sábado, 1 de setembro de 2007

A enxada da 'comprativa'

Este extraordinário diálogo é bem representativo de um problema que a esquerda ainda não conseguiu resolver: fazer-se entender pelo povo. A troca de palavras que preenche esta cena ajuda-nos a perceber porque é que o projecto colectivista da reforma agrária acabou em fracasso. Trata-se de um documentário excepcional, que nos conta uma história fantástica que poderia ter mudado o Alentejo (para melhor, é claro). Torre Bela de Thomas Harlan, ainda em exibição... a não perder!

Cul-tu-ra


A propósito do Dino Meira, e durante a troca de cromos com as 'moças' do womenage, surgiu a questão: afinal o que é a cultura? Pergunta que as ciências sociais, mais particularmente uma delas, anda há séculos a querer responder. Quando chegamos a este ponto lembro-me sempre de um livro que marcou o meu 10º ano escolar, mas que me deu algum trabalho a desmistificar nos primeiros anos da faculdade. Intitula-se "Introdução à Antropologia Cultural" e apresenta uma das definições mais inquestionáveis sobre o dado conceito: "cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza". Posto isto, voltemos então ao 'bailarico' que a 'muzeca' ainda agora começou.