quarta-feira, 1 de julho de 2009

Quem vê cara não vê coração

fatima = volpi fatima   galeno


Uma representação abstrata de Nossa Senhora de Fátima está a gerar uma enorme polêmica entre os fiéis da Igreja Nossa Senhora de Fátima (a Igrejinha, como é carinhosamente conhecida pelos habitantes de Brasília), que veem na obra do artista plástico Francisco Galeno um "desrespeito à tradição católica". Pobres almas cegas e fanáticas.

Projetada por Oscar Niemeyer, a Igrejinha foi construída em 1958 e levava uma pintura do ítalo-brasileiro Alfredo Volpi, composto por uma Nossa Senhora com o menino Jesus no colo (os dois sem rosto). Por considerá-la “profana”, a imagem original foi barbaramente destruída, anos depois, por vândalos que de diziam defensores dos “bons princípios” cristãos, como se fossem portadores de uma procuração Divina pra fazer e desfazer o que bem entendem.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico brasileiro tentou recuperar a pintura original, mas devido a impossibilidade técnica convidou o artista Francisco Galeno para fazer novos painéis. Assim como Volpi, Geleno manteve a imagem da santa sem rosto. Ela tem uma pipa (papagaio) no lugar das mãos. O rosário é representado por um carretel de linha e a coroa é decorada com flores. Segundo o pintor, pipas e flores foram criadas para representar a alegria das crianças que viram a Virgem Maria - Lúcia, Francisco e Jacinta. Mais.

Para Pina Bausch



Pina Bausch já não dança.
Desde a primeira apresentação em Portugal nos Encontros ACARTE já no final dos anos 80, em que o público, embasbacado, seguia as criações de dança/teatro (na altura não sabíamos bem explicar o que era), que tenho muitas vezes presente imagens do seu universo artístico.
As peças foram-se sucedendo sempre num registo de dança, expressão corporal, teatro, em espaços desolados, em ambientes de não-permanência, em situações de ruptura.
Depois Pina Bausch foi ao Brasil. Voltou feliz. Trouxe ao CCB o bailado «Água», solto, fluido, de fruição. Disseram que tinha ficado institucional.
Eu também gostava dela assim.

Pina Bausch (1940-2009), mestre da dança contemporânea

Faleceu ontem uma das grandes coreógrafas da actualidade, a alemã Pina Bausch, vítima de doença prolongada.

Bausch começou a estudar dança em 1940 e apresentou a sua primeira coreografia, «Fragment» em 1968, com música de Béla Bartók, depois duma estadia na escola norte-americana Julliard. Foi a fundadora da companhia teatral Tanztheater Wuppertal, que dirigiu desde 1973. Uma das suas peças mais conhecidas, «Café Müller», teve estreia mundial na Lisboa 94 - Capital Europeia da Cultura.

Mais informação neste obituário, fotogaleria da autora aqui.

Nb: na imagem, Pina Bausch na peça «Café Müller».

terça-feira, 30 de junho de 2009

...e os motins da banlieue (2005) foram há tanto tempo que já ninguém se lembra.

Um estudo publicado recentemente mostra que um negro em França (ou pelo menos em Paris) tem quase 8 (OITO!) vezes mais de probabilidade de ser interpelado pela polícia do que um branco, e um árabe 6 (SEIS!) vezes mais. Embora as interpelações presenciadas pelos investigadores (mais de 500) tenham decorrido sem problemas, os membros de minorias étnicas interpelados queixaram-se do carácter repetitivo das mesmas. Ainda para mais sabe-se que interpelar com base na pertença a um grupo étnico nem sequer é eficaz na prevenção da delinquência. O que é curioso é que em França não há estatísticas oficiais que tenham em conta critérios étnicos, porque seria, note-se, uma forma de discriminação. Interpelar preferencialmente negros e árabes não é discriminação, mas fazer estatísticas que o demonstrem já o é. Faz todo o sentido. Sobretudo quando a própria polícia, em resposta a este estudo, alega "basear-se em critérios empíricos incontornáveis", sempre gostaria de conhecer esses estudos empíricos, já que as estatísticas étnicas oficiais são proibidas.
Entretanto nas banlieues os episódios de conflitos com as forças da ordem vão-se multiplicando. Claro que se se voltarem a repetir os motins seremos todos apanhados de surpresa.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

hiper realidades Jacksonianas


Marcus, Greil: Lipstick Traces

Michael Jackson (1958-2009)

Eu não ia lá muito com a cara dele. Mas, enfim, ele conseguiu deixar a sua marca no universo da música pop. Mais informações aqui.



Atualização:

Um espectro que a si próprio se criara (roubado daqui)

"Tudo começou no dia 16 de Maio de 1983, com um programa especial de televisão que celebrava o vigésimo-quinto aniversário da companhia Motown Records.

Aos onze anos de idade e já vocalista principal dos Jackson 5, um grupo de irmãos que combinava a energia de teenager de Frankie Lymon com a movimentada determinação de Sly and The Family Stone, Michael Jackson gravara, em 1969 e 1970, êxitos para a Motown que fizeram história; regressava agora para prestar tributo, de mãos abertas. Ágil, belo, já homem, mas com ar de criança, afro-americano a quem uma operação plástica colocara traços caucasianos, andrógino, uma espécie de replicante, capaz de comunicar a mais ténue ameaça com um movimento de ombro ou o conforto através de um sorriso e cantando uma canção do álbum Thriller, dando passos para a frente mas parecendo recuar ao mesmo tempo e ocupando o palco não como se fosse seu dono mas como se a sua simples presença o tivesse convocado para ali, ele foi um choque para a nação.

Thriller, sem dúvida uma brilhante e competente versão da música pop, começou por vender dez milhões de discos, depois vinte, trinta, quarenta milhões. Cada canção extraída do álbum e editada como single, ascendeu ao top ten dos discos mais vendidos. Um vídeo-clip com a canção-título, orçamentado em 500 mil dólares e posto à venda por 30 dólares, vendeu 750 mil unidades.

Fechado na casa dos pais, sem conviver senão com a família, os seus animais de estimação e manequins que o visitavam, recusando dar entrevistas, tornando-se um espectro que a si próprio se criara, Michael Jackson era já, de entre os mais famosos, aquele de onde emanava maior intensidade."

Greil Marcus, Marcas de Baton - uma história secreta do século vinte, frenesi, Lisboa., 2000, pp.117-118.

***

“Morfhine”


quinta-feira, 25 de junho de 2009

Música europeia já tem pelo menos 35.000 anos

flautas Parece-me que viver há mais de 35.000 anos não era tão monótono assim como imaginamos. Ao que tudo indica, os primeiros homens modernos já se divertiam ao som de música tocada com instrumentos. É o que confirma um estudo publicado na revista Nature, que descreve flautas com mais de 35 mil anos, encontradas em cavernas na Alemanha. Os cientistas analisaram um exemplar quase completo, feito de osso de abutre, além de fragmentos de outras 3 flautas de marfim.

As flautas foram encontradas em um sítio arqueológico juntamente com outras evidências, as quais é possível concluir que os primeiros representantes do homem moderno na Europa eram também culturalmente modernos. Esta nova descoberta, feita por Nicholas Conard e equipe, comprova que os primeiros humanos modernos europeus já contavam com uma tradição musical bem acentuada. Outros vestígios musicais do Neandertal haviam sido sugeridos em estudos anteriores, mas faltavam evidências palpáveis. Mais.

(Aqui os sons emitidos pela flauta)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Depois da derrota eleitoral, a derrota jurídica...

...do premiê português e do seu governo, evidentemente. Mas também é mais do que isso, num tempo de tentativas variadas de domesticação oficial do espaço público, de que é sinal mais recente a aquisição de c.1/3 da TVI por uma empresa (PT- Portugal Telecom) cuja golden share é detida pelo Estado português, Estado cujo governo actual denuncia aquela tv como estando a persegui-lo. Tal como hoje refere Daniel Oliveira no blogue Arrastão, trata-se duma vitória para a liberdade de expressão. E, adito eu, reitera-se a inalienabilidade, conferida aos cidadãos, da liberdade de escrutínio e de crítica do exercício da res publica.

Estas são ilações a retirar do arquivamento, pelo DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) do processo relativo à queixa-crime apresentada por José Sócrates contra João Miguel Tavares (colunista do DN): «As expressões utilizadas pelo arguido João Miguel Tavares e dirigidas ao Primeiro-Ministro, figura pública, ainda que acintosas, indelicadas, devem ser apreciadas no contexto e conjuntura em que foram publicadas, e inserem-se no exercídio do direito de crítica, insusceptíveis de causar ofensa jurídica penalmente relevante».

Verde que não te quero ver-te.

irã - futebol Verde que te quero verde/ Verde vento. Verdes ramas/ O barco vai sobre o mar e o cavalo na montanha/ Com a sombra pela cintura / ela sonha na varanda, / verde carne, tranças verdes, /
com olhos de fria prata / Verde que te quero verde (...). Aqui, a poesia completa.

É o que diz as primeiras linhas da poesia “Romance Sonâmbulo”, de Federico García Lorca. Entretanto, este é um verso que os detentores do poder no Irã não querem sequer ouvir falar, quanto mais ver algo de cores verdejantes. E foi exatamente por usarem pulseiras verdes que 4 jogadores de futebol foram banidos da seleção do país. Mais.

Mayra Andrade, a diva alada pronta pra voar e romper fronteiras

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Definitivamente, Mayra Andrade veio pra se consagrar em diva. Não será mais uma daquelas “artistas étnicas” da moda (a tal world music, armadilha preconceituosa inventada pela poderosa indústria fonográfica para capturar os mais desatentos). Ao ouvir “Stória, Stória” (o seu segundo disco – o primeiro foi “Navega”) tem-se a certeza de que a cantora e compositora cabo-verdiana, nascida em Cuba, já é um nome definitivamente esculpido no universo musical. E melhor: esculpida com asas para ir além de qualquer fronteira.

Em “Stória, Stória”, Mayra faz uma deliciosa fusão rítmica. É um disco onde seu porto de partida é a música cabo-verdiana, mas que se encontra em alto-mar com o jazz, com a música brasileira, com a cubana, com outros ritmos africanos e com alguns elementos europeus. Enfim, é uma onda calidoscópica em constante mutação. Melodicamente, o disco tem um forte sotaque brazuca, onde a sua voz ligeiramente grave, quente, versátil e envolvente se mescla perfeitamente com a riqueza melódica e os arranjos primorosos.

“Stória, Stória” foi gravado no Brasil, França e Cuba e produzido por Alê Siqueira (que trabalhou com Tom Zé e Marisa Monte, entre outros). Alguns temas têm arranjos do talentoso músico brasileiro Jacques Morelenbaum (o preferido de Caetano Veloso). Da gravação deste disco participaram músicos cabo-verdianos, portugueses, brasileiros, guineenses e angolanos.

Por fim, ninguém melhor que a própria Mayra pra definir a sua música. “É um cão bastardo. Um cão que já não tem raça. É uma música ilegítima. A música cabo-verdiana é mestiça e eu ainda por cima sou permeável. Tudo que me encanta em outras entra na minha”, diz ela.

Centenário de Vasco de Carvalho, resistente antifascista e cooperativista

O resistente antifascista e cooperativista Vasco de Carvalho vai ser homenageado amanhã num colóquio especial, em Lisboa, na passagem do centenário do seu nascimento.
Dada a relevância do seu contributo político e cívico, aproveito para reproduzir o programa e notas desse evento:
«Centenário de Vasco de Carvalho - destacado resistente antifascista
Colóquio com São José Almeida (jornalista), José Hipólito dos Santos, Eugénio Mota e Isabel Rebelo (antigos companheiros de Vasco de Carvalho) e Luís Carvalho (investigador e organizador)
Quinta-feira, 25 de Junho de 200918h30
Biblioteca Museu República e Resistência (Espaço Cidade Universitária)
Natural de Alcântara, Lisboa, filho e neto de revolucionários republicanos, Vasco de Carvalho foi obrigado a passar à clandestinidade em 1934, por ter denunciado o assassinato pela polícia do operário Manuel Vieira Tomé, da Marinha Grande.
Assumiu a liderança da Secção Portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, entre 1936 e 1939, e depois do Partido Comunista Português, entre 1940 e 1942, até ser capturado pela PIDE. Esteve preso no Aljube, em Caxias e em Peniche.
Continuando a lutar contra a ditadura, apoiou as candidaturas de Norton de Matos e Humberto Delgado, esteve na direcção do Boletim Cooperativista, fundado por António Sérgio, e foi presidente do Ateneu Cooperativo/Fraternidade Operária de Lisboa, que seria encerrado pela PIDE em 1972.
Foi um dos autores do livro dirigido por António Sérgio, O cooperativismo: objectivos e modalidades.
Depois do 25 de Abril de 1974 foi presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses. Vasco de Carvalho destacou-se igualmente a nível profissional, como engenheiro electrotécnico. Participou na criação do Instituto de Soldadura e Qualidade, foi dirigente da Associação Portuguesa de Manutenção Industrial e docente na Universidade Nova de Lisboa.
Quando estava preso em Peniche, Vasco de Carvalho foi expulso do PCP, sob a falsa acusação de ser um provocador ao serviço da PIDE. Esta calúnia perseguiu-o o resto da vida e só muito tardiamente foi reconhecida como erro grave.
Vasco de Carvalho faleceu aos 97 anos de idade fiel às suas convicções, assumindo-se até ao fim como um marxista-leninista anti-estalinista».
*
Neste texto há mais detalhes sobre o empenho cívico de Vasco de Carvalho.
Vd. tb. este texto de José Pacheco Pereira sobre Vasco de Carvalho, a reconstituição da história do PCP nos anos 40 e a reabilitação da memória dum homem empenhado civicamente.

sábado, 20 de junho de 2009

O futuro dum Museu de Arte Popular

O  Museu de Arte Popular de Lisboa está em risco de desaparecer, e com ele os murais e pinturas de artistas plásticos reconhecidos, bem como o seu acervo. O pretexto é a construção dum Museu da Língua no seu lugar, sem se argumentar da validez em obliterar parte da arte popular portuguesa musealizada e da memória da Exposição do Mundo Português e da política cultural dum regime anterior, esse ditatorial.

Aliás, se mais nada ilustrasse, este caso é, lamentavelmente, um novo comprovativo da ausência de estratégia patrimonial por parte deste governo. Isto incluí a relevante vertente museológica.

Como o Estado central faz figura de «corpo presente», um movimento da sociedade civil forçou aquilo que deveria ser um pressuposto básico inicial: a existência dum debate público alargado, crítico, claro e informado. Esse movimento lançou esta petição e este blogue. Hoje fará uma apresentação pública das suas ideias junto ao  Museu de Arte Popular, em Belém, defronte ao CCB do lado do rio (e da ferrovia), pelas 16h. Esse colóquio público contará com as intervenções de Raquel Henriques da Silva, João Leal, Rui Afonso Santos, Vera Marques Alves, Alexandre Pomar, Catarina Portas, Joana Vasconcelos, Rosa Pomar, entre outros.

Para não parecer que o Estado é monolítico, convém dizer que a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou esta moção apelando à defesa do MAP por parte do órgão executivo municipal.

Nb: imagem da fachada do MAP, foto de Mário Novais. Vd. também este mural de Tom e Manuel Lapa para a sala de Entre-Douro-e-Minho do MAP.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Orçamento participativo em debate

Dadas as suas potencialidades como recurso para a democracia participativa e deliberativa, e a franca expansão que tem registado também em Portugal (e noutros países europeus, Brasil, etc.), aproveito para reproduzir informação relativo a um fórum sobre orçamentos participativos que decorre hoje e amanhã em Lisboa.



«III ENCONTRO NACIONAL SOBRE ORÇAMENTO PARTICIPATIVO
19 e 20 de Junho de 2009
Fórum Lisboa, Lisboa
Em menos de duas décadas, as experiências de Orçamento Participativo (OP) adquiriram uma importância significativa no cenário internacional. Desde a classe política de muitos países, a organizações como as Nações Unidas, a diferentes sectores da academia, bem como inúmeras organizações da sociedade civil, muitos são os que têm manifestado um grande interesse por este novo experimentalismo democrático. Disso é, aliás, reflexo a espantosa disseminação do OP a nível mundial, à qual Portugal não ficou alheio.
Desde o ano 2000 até à actualidade emergiram no nosso país mais de vinte experiências autárquicas de OP, sendo de esperar um crescimento significativo deste número nos próximos anos.
Perante este cenário, a parceria responsável pelo
Projecto Orçamento Participativo Portugal, apoiado pela Iniciativa Comunitária EQUAL, tem vindo a desenvolver uma oferta significativa de actividades em todo o país, merecendo especial destaque as acções de formação e workshops regionais, a consultoria gratuita, os encontros nacionais sobre o tema, a edição portuguesa do Manual das Nações Unidas "72 Perguntas Frequentes sobre Orçamento Participativo", assim como a criação de uma aplicação informática concebida para apoiar a concepção, gestão e avaliação deste tipo de práticas autárquicas (inf! oOP).
Depois de São Brás de Alportel, em 2007, e de Palmela em 2008, é agora a vez de Lisboa acolher a terceira edição do Encontro Nacional sobre Orçamento Participativo, prevista para os próximos dias 19 e 20 de Junho de 2009, no Fórum Lisboa, numa organização conjunta da parceria responsável pelo Projecto e da Câmara Municipal de Lisboa.
INSCRIÇÕES ABERTAS
ONLINE
PROGRAMA PRELIMINAR».

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Incha, incha, é o zé que paga


cartoon de GoRRo (c) 2009

Vd. informação sobre o fenómeno aqui, aqui e aqui.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Lady Gaga - esta coisa é uma merda (ou será o resultado duma investigação genética feita com Madonna, Marilyn Manson, Britney Spears e 3 Barbie?)


Recebi este lixo por e-mail de alguém que se diz amiga. Ah, essas minhas más companhias.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Israel e Palestina: o caminho da paz é difícil mas não inacessível

BandeirasIsraelPalestina Com os recentes acontecimentos no Irã, pouco ou quase nada se tem falado sobre as declarações do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, admitindo a possibilidade da criação de um Estado palestino. Esta foi a primeira vez que Netanyahu falou oficialmente sobre a questão. O premiê também destacou que a solução para o atual conflito se baseia no “reconhecimento sincero” por parte dos palestinos de que Israel é "um Estado nacional judeu". E assim, solicitou ao mundo árabe que colabore no sentido de se encontrar soluções de paz para a região e acrescentou estar disposto a negociar em qualquer lugar: seja em Beirute, em Damasco e também em Jerusalém.

Por seu lado, a Autoridade Nacional Palestina (ANP) considerou que o primeiro-ministro israelense “bombardeou” os esforços de paz no Oriente Médio com o discurso que fez, onde colocou várias condições à criação de um Estado palestino. “Este discurso “bombardeia” todas as iniciativas de paz na região. Coloca entraves aos esforços que visam salvar o processo de paz num desafio claro à administração norte-americana”, disse o porta-voz da ANP, Nabil Abou Rudeina, que também criticou o fato de Netanyahu não ter excluído o congelamento dos colonos nos territórios palestinos. Enfim, membros do alto escalão do governo palestino disseram que a imposição de determinadas condições significa fechar as portas às negociações. Mas não descartam a abertura de conversações.

Já o Hamas, que até ontem se opunha frontalmente a abertura de diálogo parece ter mudado um pouco de ideia e se diz disposto a negociar. Claro que impondo condições. Em seu encontro com ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, o chefe de governo do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh, afirmou que “se existe um projeto realista para resolver a causa palestina com o estabelecimento de um estado nos territórios ocupados em 1967 (Guerra dos Seis Dias) e com plena soberania, nós o apoiaremos”. O problema é que Netanyahu não aceita sentar-se à mesa de negociação com representantes do Hamas.

Em síntese, vejamos o que quer cada uma das partes.

Israel:

- Um Estado nacional judeu.

- Jerusalém como capital indivisível de Israel.

- Reconhecimento de Israel como um Estado judaico

- A questão dos refugiados deve ser negociada fora das fronteiras de Israel

- Um Estado palestino desmilitarizado.

- Não será admitido qualquer pacto militar com o Hezbollah e com o Irã.

Autoridade Nacional Palestina:

- Retorno de Israel às fronteiras pré-1967.

- Divisão de Jerusalém entre os 2 Estados.

- Desmantelamento dos assentamentos.

- Uma solução para os refugiados.

Hamas:

- Exige sem pré-condição a volta de todos os refugiados.

- E aceita uma trégua com Israel por apenas 10 anos se os israelenses retornarem para as fronteiras pré-1967.

Seja como for, é possível agora ver uma luz no final do túnel no processo de paz para palestinos e israelenses. Claro que as negociações poderão ser tenazes por parte dos envolvidos, cada qual defendendo seus interesses. Mas não impossível. O importante é que sejam dados os primeiros passos ao encontro de soluções consensuais para a coexistência pacífica e duradora entre esses 2 povos. Se usarem do bom senso, esta possibilidade não será mais uma miragem no desertol. O campo será sempre fecundo pra quem sabe conviver harmoniosamente com as diferenças e delas fazer uma coexistência edificante.

Para quem estava a reclamar do silêncio de Obama, aí vai: "Seria um erro de minha parte permanecer calado com o que estamos vendo na TV nos últimos dias".

obama Foi o que declarou o presidente dos EUA depois de se reunir na Casa Branca com o primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi, “a coisa” - segundo Saramago (com a qual eu concordo plenamente). Obama salientou ainda que não há forma de saber se os resultados foram válidos, já que não houve observadores internacionais. Além de tais declarações, Obama deixou bem claro que depende dos iranianos decidirem quem serão os líderes do país, e se mostrou preocupado com as revoltas registradas após a vitória do atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad. Por isso, considerou necessário que haja uma investigação cujo resultado "não acabe em um banho de sangue".

Em suma, Obama agiu como um verdadeiro estadista. Não só em suas declarações como em sua postura de saber esperar, se informar e só depois se manifestar. Ele melhor que ninguém sabe que o pedido de anulação das eleições proposto pela oposição tem poucas possibilidades de êxito. E “comprar” a deia de fraude eleitoral sem qualquer vestígio que comprove o fato é o mesmo que dar murro em ponta de faca e, pior, poderia comprometer uma tentativa de aproximação, neste momento o seu principal objetivo. Mais.

Foto AFP

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um post (ligeiramente) contra-corrente, para relativizar

No seguimento dos dois posts anteriores do Manolo, ocorre-me uma questão: Será realmente impossível Ahmadinejad ter ganho as eleições no Irão com mais de 60%? Será que a única explicação possível para este resultado é uma gigantesca fraude eleitoral? Ou será que estamos (nós no ocidente) a projectar os nossos desejos no eleitorado iraniano? Essa é pelo menos a ideia defendida neste texto (escrito logo no sábado), que, concorde-se ou não, vale a pena ler.
O facto é que não vi em lado nenhum provas convincentes de que houve fraude. O facto é que as prisões de opositores e a proibição das manifestações demonstram que Ahmadinejad, e o resto do poder, não gosta de contestação, mas não demonstra que a houve fraude eleitoral. O facto é que no ocidente (quase) todos desejamos que Ahmadinejad não seja re-eleito, mas isso não prova que a maioria dos iranianos pensa o mesmo. O facto é que há enormes manifestações em Teerão, mas número de manifestantes e número de votantes não são a mesma coisa. O facto é que não somos nós no ocidente quem escolhe o presidente do Irão, pelo menos no caso de ser uma eleição democrática, e seja qual for a decisão do povo iraniano teremos que viver com ela. Dito isto, e porque continuo sem saber quem ganhou realmente as eleições no Irão, desejo sinceramente que tenha sido Mousavi, ou melhor, que não tenha sido Ahmadinejad, e que tendo sido essa a vontade expressa dos iranianos, que ela seja respeitada. Nunca esquecendo que entre o que eu desejo, e o que deseja o povo iraniano há uns quantos milhões de votos de diferença.

“Protesto no Irã é demonstração de quem perdeu”

É o que diz o presidente brazuca, Luiz Inácio Lula da Silva. Lula preferiu não comentar as alegações de fraude no Irã, mas insinuou que a votação do presidente Mahmoud Ahmadinejad seria suficiente para o eleger.

Segundo Washington Post resultado da eleição iraniana foi legítimo

iran_protest_ap1 Ao que parece, os resultados eleitorais no Iran parecem refletir a vontade do povo iraniano. É o que diz uma sondagem feita 3 semanas antes das eleições e publicadas hoje pelo Washington Post. De qualquer forma, o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, ordenou uma investigação sobre as acusações de fraude eleitoral supostamente cometida. A ação será julgada dentro de 10 dias. Mais.

Foto AP