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quinta-feira, 29 de julho de 2010

O encerramento da Biblioteca Nacional


O encerramento da Biblioteca Nacional Portuguesa por um período de dez meses durante os quais os leitores são convidados a procurar alternativas nas outras bibliotecas do país tem provocado justas indignações, reacções parvas dos responsáveis da BN e a indiferença ou incompreensão do público em geral. Algumas das justas críticas podem ler-se, aqui, num texto de Rui Tavares, ou aqui, num texto de Fátima Bonifácio, Filomena Mónica e Paulo Silveira e Sousa. O cúmulo da reacção disparatada foi assinado por Isabel Pires de Lima, em texto publicado na secção das «cartas do leitor» do Público, a 27 de Julho, em resposta a um artigo de opinião assinado por Fátima Bonifácio e Maria Filomena Mónica. Isabel Pires de Lima tenta fazer passar uma tese absurda, que dispensa qualquer argumentação: os investigadores que protestam contra o encerramento da Biblioteca Nacional são meia-dúzia de notáveis que sentem os seus privilégios ameaçados. E por isso não tem vergonha em perder tempo e caracteres com picardias sobre a relação de intelectuais ligados ao PS com o Bloco de Esquerda e psicanalistas. É a atitude de quem não está nos cargos para servir o público, mas para defender uma imagem, a sua. Se as vozes que têm chegado ao espaço público são apenas de notáveis, é porque são essas as vozes que os meios de comunicação social filtram e amplificam. Está on-line uma petição contra o encerramento da Biblioteca Nacional que já tem 3952 assinaturas, como pode ver aqui.

Nunca é de mais reafirmar que ninguém está contra as obras de requalificação da Biblioteca Nacional. O que não se percebe é que elas impliquem um encerramento aos leitores durante dez meses. Como tem sido referido, a British Library, em Londres, ou a Bibliothèque Nationale de France, em Paris, que foram transferidas para edifícios novos, geriram a relação com os leitores fechando por partes ou por períodos muito curtos. O contra-exemplo da Biblioteca do Vaticano, que fechou por três ou quatro anos, é um caso típico de invocação da Igreja Católica em vão. Quem está em Roma pode consultar a Biblioteca Nazionale Centrale di Roma. A maior parte da bibliografia sobre o catolicismo não está concentrada na biblioteca do Vaticano, mas distribuída por bibliotecas de todo o mundo, incluindo as bem apetrechadas de algumas universidades católicas e de ordens religiosas.

Não são os investigadores consagrados, com carreira feita, que vão ser dramaticamente afectados pelo encerramento da Biblioteca Nacional, mas mestrandos, doutorandos e investigadores de projectos de investigação em curso. Ao nível de mestrados, que foram reduzidos para um ano, há dissertações que são pura e simplesmente inviabilizadas. Num período em que tanto se fala na necessidade de qualificar os portugueses, de investir em investigação e desenvolvimento e até surgem projectos de redução de feriados em nome da produtividade, não se percebe um processo que vai implicar adiamentos, interrupções ou, na hipótese mais benigna, tempo e custos acrescidos na actividade de investigação. Se quisermos abordar a questão com metáforas acerca de perturbações e tratamentos mentais não penso que bastem as imagens acerca de psicanalistas e actos falhados relacionados com percursos sinuosos. É mesmo questão de esquizofrenia e de autismo.