sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Solidariedade para com o Abrupto

Seguindo o repto do Arrastão e do Zero de Conduta, quero aqui demonstrar a minha solidariedade para com o Abrupto, e o seu autor, Pacheco Pereira.
O Abrupto é um blogue que não leio, e do que não leio não gosto. Parece-me um blogue monótono, repetitivo e, sobretudo, previsível. Não fala do mundo, a não ser do mundo pessoal de Pacheco Pereira, que é o que menos me interessa. Se eu lesse o Abrupto regularmente não teria apenas uma vaga opinião, teria uma certeza, mas não vale o esforço. Não obstante quero aqui insurgir-me contra os falsos blogues pornográficos e toda a espécie de truques utilizados com o único intuito de impedir o Abrupto de ser o primeiro blogue nos rankings nacionais e (quiça?) internacionais. Fica portanto aqui o link ao Abrupto como testemunho da minha solidariedade.

cerveja Tagus

Descobri no 0 de conduta que a cerveja Tagus tem uma nova campanha: http://www.orgulhohetero.com/
Descobri, ainda, que os Panteras Rosas fizeram uma campanha alternativa, a ver com atenção.

Despedida da Ginginha

É no dia 26 de Novembro pelas 18.30h a despedida da Ginginha do Rossio, outra vítima da ASAE. Ver aqui.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A ler

No blog "contrejournal", que faz parte do Libération, um depoimento do historiador Gérard Noiriel sobre como o discurso anti-racista não está a ser capaz de contrariar a lógica identitária (com traços racistas) do presidente-governo francês na política de imigração.

O que é afinal a Democracia?

Ora aí está um debate realmente interessante. Não é um debate propriamente novo, mas a propósito de Hugo Chávez e da Venezuela, Daniel Oliveira no Arrastão e Pedro Magalhães no Margens de Erro têm-se dedicado a uma muito interessante troca de posts (prova que a blogosfera serve para que hajam bons debates). O Daniel Oliveira começou com este post, Pedro Magalhães respondeu, Daniel Oliveira replicou, e Pedro Magalhães respondeu novamente. Para resumir o debate, Daniel Oliveira acha que deve ser levada em conta a opinião dos próprios venezuelanos para avaliar a democraticidade do regime de Chávez. Pedro Magalhães considera que uma análise objectiva não deve levar em conta a avaliação subjectiva, e muitas vezes contraditória, que os próprios venezuelanos fazem da sua democracia. Essa avaliação deve ser feita com base em critérios estabelecidos a priori.

"Se eu tiver uma definição de "democracia" - como o Daniel pelos vistos tem ("eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes") - eu posso dizer se a Venezuela é ou não uma "democracia" independentemente daquilo que saiba sobre as opiniões subjectivas dos cidadãos venezuelanos."

Concordo com Pedro Magalhães que por uma questão de rigor analítico não se deve misturar realidades diferentes. Discordo sobre qual é a realidade relevante para avaliar a democraticidade de um regime. Na minha opinião a democraticidade avalia-se por um critério ainda mais minimalista do que o do Daniel Oliveira, mas é o critério que resulta da própria definição de Democracia: um regime é democrático se o exercício do poder pelo estado resulta da vontade livremente expressa dos eleitores. O principal elemento a ter em conta nessa avaliação é a opinião desses eleitores, com toda a subjectividade e contradições que isso possa acarretar. Convém aqui fazer uma separação clara. Se eu fosse um cidadão venezuelano a quem se perguntasse numa sondagem se estava contente com a democracia, eu levaria em conta para a minha resposta todos os elementos que Daniel Oliveira enunciou (eleições livres, liberdade de associação, de expressão e de imprensa) e mais algumas. A minha resposta seria um redondo "Não". Mas se me puser na pele do analista político que avalia exteriormente a democraticidade do regime venezuelano os critérios são outros. Se para os eleitores venezuelanos consideram que as medidas económicas e sociais são mais importantes do que aquelas liberdades, e se é por isso que escolhem o governo de Chávez, podemos estar em desacordo, mas não podemos dizer que não é democrático.

Pedro Magalhães refere que pode aferir-se a democraticidade pelos traços autoritários de um regime. Discordo. Se o autoritarismo é o resultado de uma escolha livre dos eleitores, então é democrático. Faço aqui uma distinção (semântica?) entre um regime autoritário e uma ditadura. A ditadura é quando o poder é exercido sem a consulta da vontade dos eleitores, logo nunca é democrática. Um regime autoritário pode, em teoria, ser o resultado de um processo democrático. Definir a priori quais são os valores fundamentais que regem uma democracia independentemente do que pensam os cidadãos é um raciocínio que pode legitimar o despotismo iluminado. Quem é que decide quais são os valores fundamentais da Democracia? E com que legitimidade?

Esclareço que este post não é de modo algum em defesa de Chávez (ou de qualquer outro regime, seja a Russia de Putin, ou a China comunista). O regime Chavista pode até ser democrático. Mas será que ser democrático é suficiente para nos contentarmos com um regime? A minha resposta curta é: Não. Ou, parafraseando Pedro Magalhães, é necessário mas não é suficiente.

Jorge Palma

Eu andava a tentar não escrever sobre Jorge Palma para não revelar a minha condição de fã incondicional, destituída de qualquer sentido crítico e apenas capaz de proferir afirmações sentimentais, mas depois do concerto no Coliseu já não só capaz de tanta discrição.
Cada espectáculo é uma experiência e um percurso por tantas canções que vão fazendo sentido em alturas diferentes (uma fã incondicional sabe todas as letras).
Em Lisboa, por enquanto, a experiência não se repetirá, mas, amanhã, o Porto também vai poder ouvi-lo.
É mesmo um autor que
Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar
E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão
Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir

Outras globalizações: o olhar do cartoon


Alguns dos cartoons do World Press Cartoon 2007, dedicado à globalização, estão expostos na Culturgest (Lisboa) até Dezembro.
Uma amostra de cartoons desse concurso também pode ser vista aqui.
Eu já vi o catálogo e, por isso, recomendo uma visita à Culturgest, ou aos sites acima indicados.
V
Nb: na imagem, cartoon de TD («Naughty boy», Indonesia), vencedor do Prémio Gag do WPC2007.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Herói americano

Num dos episódios mais marcantes desta última série dos Sopranos, Tony mata o seu sobrinho após um acidente de automóvel antecedido por um negócio gorado. Estamos à espera do acidente, mas não esperamos o que se segue: o assassinato brutal de Chris perpetrado por Tony a sangue frio. Tony até ía ligar para o 911, mas a mea culpa de Chris, a de ter reincidido no vício, foi-lhe fatal. O acidente é um mero pretexto para uma morte anunciada mas não premeditada. Sabíamos que mais cedo ou mais tarde, Tony se iria desembaraçar de Chris. Não sabíamos é que seria assim.
Neste mesmo episódio, surge na TV do quarto de Tony e Carmela, um programa estilo talk show com Katharine Hepburn. Aliás, em todas as temporadas da série, a alusão directa e indirecta ao cinema clássico americano são qualitativamente e quantitivamente impressionantes. Afinal os Sopranos estão imbuídos dessa característica do cinema clássico, quer na sua forma, quer no seu conteúdo. Os géneros (Gangsters, Western, Noir, Screwball, etc..) e os planos clássicos (unidade fechada e percurso linear das cenas) percorrem todos os minutos da série, e Tony é o herói americano por excelência, aquele que percorre o quotidiano on the road cruzando fronteiras no território perpassado, e que não se limitam às fronteiras territoriais do genérico.

Blogofrase da semana

A morte é o que nos faz esgalhar o carapau.

M. D., 2007 DC

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Cuidado com as generalizações abusivas...

Um editorial do Le Monde, sobre Hugo Chávez, pega numa citação de Durão Barroso "O populismo não é a solução para os problemas que há na América do Sul" e generaliza para "O populismo não é uma boa solução em lado nenhum". Ora, o Durão Barroso é um político inteligente, sensato e ponderado, se ele pôs "América Latina" na frase é por alguma razão. Não me parece que ele estivesse de acordo com aquela generalização. Bem prega Frei Tomás...

Bad news

Para terminar esta segunda-feira tristonha, ou para começar a terça cinzenta, aqui fica a nota saudosa para o encerramento de três «casas» lisboetas: o cinema Quarteto; o cinema King e a Ginjinha do Rossio.
O Quarteto estava a ficar piolhoso, mas é verdade que acompanhou a adolescência de muitos de nós, o King, um viveiro de ácaros, ainda não estudados pelos documentários da 2, mas respresentou o mesmo para a nossa juventude e a Ginjinha, que provavelmente não acompanhou nada, mas que sempre esteve lá. E não vão ser as salas de centros comerciais, agora quase em exclusivo, e o chá verde que poderão substituir estas experiências.

Faltar Levas: o novo super-herói das escolinhas lusas

Agora que a algazarra já passou, e o tiro relativamente corrigido (trata-se de dar uma derradeira oportunidade aos alunos faltosos, faltando apenas saber a posição da avaliação contínua), nada como nos determos nesta pérola de Antero. Quem quiser seguir o folhetim terá que ir ao blogue Anterozóide, especializado no 'humor educativo', mas não só..
Cartoon de Antero

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Cousas lindas

Ó meus amigoze,

atão agora publicam-se livros a desdizer a pátria?
Burocracia, Estado e território?! Burocracia?!
Ai, ai, vamos lá a ber isto. Aqui na baiúca só existem coisas lindas. Cousas lindas, isso.
Bamos lá a acertar na próxima ediçom, tá bem? Títalo sugerido: Cousas lindas da ditosa pátria.

domingo, 18 de novembro de 2007

Chegou o Beaujolais Nouveau

Como todos os anos, em França (e talvez noutros países como Wallis e Futuna, a Nova Caledónia ou a ilha da Reunião), a terceira quinta-feira do mês de Novembro marca o início da comercialização do Beaujolais Nouveau. Para quem não sabe o Beaujolais Noveau é um vinho francês relativamente mau. Vá-se lá saber porquê é um vinho que é posto no mercado logo que se completa a vinificação (há rumores de que o Beaujolais Nouveau é um vinho que não se aguenta lá muito, e a verdadeira razão para tão rápida colocação no mercado é simplesmente pragmática, mais tarde seria tarde demais). Mais misterioso ainda é o sucesso comercial do Beaujolais Nouveau. A terceira quinta-feira de Novembro em França é apenas comparável ao dia de S. Valentim nos EUA. Compreende-se que no EUA seja difícil encotrar um parceiro/a decente e que por isso o S. Valentim gere tanta expectativa, já em França não é assim tão difícil encontrar um bom vinho. O facto é que desde o princípio de Novembro são mais os cartazes publicitários do Beaujolais Nouveau do que os que mostram mulheres semi-nuas (mesmo que alguns cartazes consigam conciliar ambos). E desde quinta-feira é impossível comprar detergentes no super-mercado sem levar com uma garrafa de Beaujolais Nouveau em promoção. A febre estende-se a restaurantes, bares e similares.
Esta coisa de Beaujolais Nouveau é uma tradição ancestral, que remonta nos seus moldes actuais a 1985, e na sua origem a 1951, e só pode ser compreendida no seu contexto étnico-cultural francês. Por um lado a modéstia endémica dos franceses leva-os a celebrar efusivamente o vinho que permite demonstrar ao mundo que nem todos os vinhos franceses são bons, o que os livra da maldição de ser vistos de fora como sendo um povo arrogante. Por outro lado existe a crença profundamente enraízada de que beber um mau vinho do ano em curso proveniente de uma determinada região vai permitir saber se todos os vinhos do país nesse mesmo ano serão bons ou não. Na realidade parece-me que a verdadeira razão pela qual se festeja a chegada do Beaujolais Nouveau é tão simplesmente porque isso quer dizer que continua a produzir-se vinho. Isso em si mesmo é uma razão mais que suficiente para uma celebração, porque pior que mau vinho é não haver vinho de todo.
O Beaujolais Nouveau propriamente dito, para quem tem curiosidade de saber, tem paladar que faz lembrar a áqua pé (sem qualquer desprezo pela água pé, que - como todos sabemos - não é vinho), se for bebido imediatamente após resrolhar a garrafa. Se se deixar respirar umas horas já se tem algo que se assemelha vagamente a vinho (se se deixar respirar uns dias tem um vinagre bastante suave de um paladar muito agradável, apropriado sobretudo para saladas).

sábado, 17 de novembro de 2007

A gripe pneumónica: porquê o silêncio?

Retomando a pneumónica de 1918/19, o silêncio que sobre ela se abateu em todo o mundo (tanto por parte dos seus contemporâneos como por estudiosos) foi uma perplexidade recorrente no colóquio específico ontem findo.
José Sobral preconizou que as suas vítimas teriam sido remetidas para o espaço da memória familiar, enquanto as vítimas da I Grande Mundial teriam sido lembradas pelos Estados (dias comemorativos, monumentos, placas, etc.), por se tratar do reconhecimento pela participação num esforço colectivo de índole nacional. David Killingray aludiu a outros silenciados pela academia até há pouco tempo: os pobres, as mulheres, os negros, etc.. Estas são linhas explicativas pertinentes.
Quanto ao caso português, na minha comunicação procurei alertar para o contexto político, social, cultural e científico, em particular para a conturbada conjuntura político-social então vivida. Aquelas limitaram grandemente a reflexão e combate à epidemia. A situação económico-social dos desfavorecidos era então grave: elevada subnutrição e más condições de vida facilitaram muito a difusão do vírus e o seu efeito mortal. É verdade que este tipo de doença teria um alcance interclassista, mas as assimétricas condições de vida ter-lhe-ão conferido um efeito classista. Não há muitos dados sobre isto, mas da minha pesquisa em dezenas de livros de memórias e de estudo, e na Internet, apenas consegui detectar algumas vítimas das classes médias e alta. Esta situação terá sido extensiva a outros contextos em que a maioria da população vivia em piores condições de vida: p. e., Espanha, América Latina, África do Sul, Índia e China.
Na altura, o deficiente sistema de saúde pública pouco pôde fazer. Eram poucos os hospitais, médicos e enfermeiros, não havia vacina (ainda não há...); a maioria das pessoas faleceram em suas casas, incluindo pessoas como o pintor Amadeu de Sousa Cardoso (que ainda mudou de casa, mas sem sorte). Era uma morte privada, distante dos outros e evitada por estes. A situação agravou-se com o não fecho atempado de fronteiras (a doença veio para Portugal via Espanha) e a desmobilização de milhares de soldados para as suas terras (ao arrepio das directivas da Direcção Geral de Saúde), espalhando a doença por todo o país. O governo sidonista aumentou os preços dos produtos agrícolas, agravando o acesso a bens de 1.ª necessidade. A partir daqui pouco se pôde fazer, a não ser informar sobre medidas preventivas, que nem chegavam a todo o lado, e algum auxílio social (reforço oficial da «sopa dos pobres», apoio da sociedade civil). A impotência foi, por isso, a nota dominante.
Por outro lado, a doença foi limitada no tempo e com breves picos fulminantes, tendo em Portugal atingido picos em Outubro/ Novembro e, com menor impacto, em Janeiro e Abril/ Maio. Ora, esta efemeridade dificultou a sua assimilação.
A própria imprensa foi condicionada pela censura política (instaurada pelo Presidente da República Sidónio Pais em Abril de 1918) e pela actividade do reputado epidemologista Ricardo Jorge que, em regulares notas informativas emanadas da Direcção Geral de Saúde, relativizava a situação ("surto conhecido e transitório"; ainda assim foram 14 meses e c.100 mil mortes). Ademais, a imprensa de referência era então dominada pela agenda político-partidária do establishment e pouco sensível à agenda social. A doença afectou sobretudo a população entre os 15 e os 40 anos: o sistema político e intelectual gerontocrático não foi afectado.
A impotência (dos médicos, políticos e da população), a relativa efemeridade da doença, a gerontocracia, a conjugação com a epidemia do tifo, a grande conflitualidade política e social (com repressão da oposição republicana anti-sidonista e do sindicalismo, as greves e o assassinato de Sidónio), o recolhimento junto da Igreja, a resignação e o avanço de ideias messiânicas (que Sidónio encarnou), a selecção histórica feita posteriormente pela ditadura (valorizando Sidónio e um certo país político, mas olvidando o país social e o resto), foram terreno fértil para o esquecimento, primeiro, e o silenciamento, depois. Eis um quadro que aqui deixo para reflexão. Pode não explicar tudo, mas ajuda a compreender o contexto.
Nb: imagem de mendigo pedindo esmola na beira da estrada (s.d., fotógrafo não identificado, AFML).

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

As coisas que os cientistas descobrem

Um grupo de investigadores de Cleveland, Ohio, nos EUA, produziu uma estirpe ratinho transgénico com uma capacidade física fora do comum, conforme o artigo que publicaram a 9 de Novembro no Journal of Biological Chemistry (a imagem ao lado é a capa do número da respeitada revista científica em que o artigo foi publicado). O dito transgénico, como é normal, tem um nome esquisito: PEPCK-Cmus. O PEPCK-Cmus contém nos seus músculos níveis muito mais elevados do que o normal de uma enzima envolvida na produção do açucar glucose (a Fosfoenolpiruvato Carboxiquinase, ou PEPCK para os amigos). Neste caso essa produção de glucose é feita essencialmente transformando gordura em açucar, que depois pode ser utilizado como fonte de energia. O resultado é que os ratinhos PEPCK-Cmus tem uma actividade muito superior aos animais controlo (sete vezes mais activos), conseguem correr distâncias até 6km, quando os controlos correm 200m (ver o filme abaixo), comem 60% mais embora tenham metade da massa corporal e um décimo da gordura. Até aqui, embora a performance seja impresssionante, não é propriamente inesperado que aumentando a respiração celular nos músculos, devido à maior abundância de açucares, aumente a capacidade física. Bastante mais supreendente é a descoberta que estes transgénicos têm também uma longevidade bastante superior aos controlos. Até aqui toda a investigação em envelhecimento indica que quanto maior e mais intensa for a actividade, quanto mais calorias forem queimadas, mais rápido é o envelhecimento. Vai ser interessante ver as consequências destes resultados na estudo do envelhecimento. Outro aspecto surpreendente (ou nem tanto) é o sentido do humor dos investigadores, como se pode ver não só na capa da revista mas também no vídeo que foi colocado on-line juntamente com o artigo.


quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Asa, o pequeno falcão ioruba

Nascida em Paris e criada em Lagos,
Nigéria, Asa (pronuncia-se Asha em
ioruba e significa pequeno falcão)
lançou o seu primeiro disco no final do
mês passado, na França. Com delicado
suingue na voz e uma mistura bem dosada
de vários ritmos, seu pop tem um

sabor bem particular, onde o acústico e
o elétrico se fundem sutilmente.
Sem mais comentários,
veja aqui.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

As outras globalizações: a gripe pneumónica de 1918/19

Em 1918 eclodiu uma devastadora gripe pneumónica, que rapidamente se tornou planetária. Esta pandemia foi das piores da História da humanidade: em 14 meses tirou a vida a c. de 40 milhões de pessoas, mais do dobro dos vitimados da I Guerra Mundial e c. de 1/3 da mortandade causada pela peste em 6 séculos. O médico Ricardo Jorge chamou-lhe então o "maior flagelo epidémico dos tempos modernos". Em Portugal levou entre 70 a 100 mil vidas.
No entanto, esta gripe permaneceu grandemente esquecida, tanto pelos seus contemporâneos como pelos estudiosos.
Agora esse olvido está sendo resgatado, e para isso irá contribuir o Colóquio Internacional «Olhares sobre a Pneumónica», uma iniciativa conjunta ICS e ISCTE que decorre amanhã e depois na sala polivalente do ICS-UL. Vão lá estar historiadores, antropólogos, sociólogos, médicos, etc.. Toda a informação sobre o evento está disponível aqui. Eu também falarei, amanhã de manhã. Aproveitem!
Nb: na imagem, brigada da Cruz Vermelha Portuguesa no terreno, [1918] (Arq.º Histórico da CVP).

terça-feira, 13 de novembro de 2007

1001 posts

Só para dizer que o post anterior, do Manolo, foi o milésimo post publicado aqui no Peão.

Por que te callas, Hugo Chávez?

Um assunto bastante recorrente nestes últimos dias é o bate-boca entre o rei da Espanha, Juan Carlos, e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, durante a 17ª Cimeira Ibero-americana, encerrada sábado passado em Santiago, Chile. Não vou aqui me deter sobre a polêmica em questão, pois tudo foi dito (prós e contras) sobre o sonoropor que no te callas” do rei espanhol. Que Chávez se faz de fanfarrão e personifica a imagem do político latino falastrão também não é novidade pra ninguém. O que me intriga de fato é o que o “teórico” do “socialismo do século 21” (???) não diz.

Antes de se tornar o presidente da Venezuela pelo voto direto, em 1998 (se bem que a sua primeira tentativa foi através de um golpe frustrado, em 1992), Chávez era tenente-coronel reformado do Exército, patente que conquistou por ser um soldado disciplinado, dedicado e ordeiro, requisitos básicos pra quem quer avançar na carreira militar. E como militar de alta patente também sabe o que pode e que não pode dizer aos subordinados no campo de batalha para levantar-lhes o moral.

Durante a 4ª Cimeira das Américas, realizada em Mar del Plata, Argentina, em novembro de 2005, enquanto Chávez sepultava a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) com discursos inflamados e sob o slogan “Alca, Alca, al carajo", o seu ministro da Energia e o presidente da estatal PDVSA (Petróleos da Venezuela S/A) negociavam com empresários norte-americanos a compra de 80% da produção de petróleo venezuelano. Apesar de ter mandado a Alca para o caralho, lucrou naquela altura bilhares de dólares com o desespero dos diablitos yankees [1]. Em outras palavras: ele pode negociar com os EUA, mas os demais países da América Latina não.

Chávez é propositadamente um chefe de Estado ambíguo. Depois de acabar com a Alca, começou a defender em seus discursos-efervescentes o fortalecimento dos blocos econômicos da América Latina. Chegou até formalizar o pedido de inclusão de seu país no Mercosul, na véspera do início da 16ª Cimeira Ibero-americana, realizada ano passado, em Montevidéu, no Uruguai. Pedido que foi acolhido por todos os chefes de Estados dos países-membros (mas que precisaria ser ratificado pelos respectivos Parlamentos). No dia seguinte, enquanto dava tapinhas de bom amigo nas costas do “compañero” Lula, os seus ministros de Estado se reuniam na calada da noite (bem ao estiloquinta coluna”) com o espanhol Zapatero para negociar a aquisição pela Venezuela de 20 jatinhos. Detalhe: os aviões espanhóis são mais caros e bem inferiores tecnologicamente aos produzidos pela Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica). E nessa, o Brasil ficou a ver navios .

Outra coisa que não consigo compreender em Hugo Chávez é a rapidez e o silêncio com que ele vem se armando. Tudo começou com a compra de 100 mil fuzis de assalto Kalashnikov AK-103 e AK-104, de fabricação russa. A partir daí, Chávez tem recorrido ao mercado global bélico com um apetite voraz (mas sem muito falar). Acertou com a Espanha (do rei do cala-boca) a compra de oito navios de guerra e armas leves. Da China comprou radares móveis. O pacote bélico de Chávez inclui ainda helicópteros, submarinos, mísseis terraar. A aquisição mais valiosa foi feita em meados do ano passado, quando comprou 24 caças russos Sukhoi, os aviões mais poderosos que qualquer outro hoje existente na América do Sul. Segundo o último relatório (2006) do Instituto Internacional de Pesquisas sobre a Paz de Estocolmo (Sipri), a Venezuela foi pelo segundo ano consecutivo o país da América do Sul que mais aumentou o seu gasto militar: 20% em termos reais, ou seja, recursos que ultrapassam a casa dos US$ 4 bilhões. Chávez não se cansa de repetir que quer uma América do Sul unida e forte, mas faz tudo isoladamente e às escondidas das principais lideranças do continente. Pior, tumultua todas as reuniões pra que decisões políticas importantes e pertinentes não sejam tomadas. O que ele quer na verdade (mas não diz) é trazer pra si a hegemonia regional.

Como reflexo, alguns países da América do Sul falam em reforçar os recursos para a compra de armas. São os casos específicos do Brasil e do Chile. A presidenta chilena, a socialista Michelle Bachelet, fala em passar de 3% pra 5% do PIB o seu investimento militar Por outro lado, o governo brasileiro anunciou no mês passado medidas para aumentar o potencial bélico do país (como, por exemplo, dar sequência à construção do submarino nuclear pela Marinha). O presidente Lula passou também a considerar prioritária a retomada do programa FX de compra de 12 caças modernos para a Força Aérea. Além disso, ele estuda a alocação de cerca de US$ 2 bilhões para reforçar o potencial de fogo nacional. Como se , Hugo Chávez, em nome do seusocialismo do século 21” (???), está levando a América do Sul a uma corrida armamentista sem precedentes, quando mais de 50 milhões de pessoas teimam em se manterem vivas, sem, sequer, terem acesso à água potável para as suas necessidades mais básicas. Será que este dinheiro gasto com armas não resolveria muitos problemas sociais dos latinos-americanos? Que coño, hombre! Por que te callas quando sabes bem que quem não tem petróleo está trocando comida, educação e investimentos em infra-estrutura por chumbo nesta insana corrida bélica disparada por ti. As superpotências produtoras de armas agradecem. Principalmente el diablón Bush.
..........

[1] Com o acirramento da crise diplomática entre os dois países nestes dois últimos anos, as exportações de petróleo venezuelano ao mercado americano passaram agora para 45% do total vendido ao exterior. Isto porque Hugo Chávez está tentando de todas as maneiras uma aproximação com a China, pra onde está exportando cerca de 500 mil barris diários.

Nb. Na imagem, o símbolo do Memorial da América Latina de São Paulo projetado por Oscar Niemeyer