terça-feira, 31 de julho de 2007

A blogofrase da semana

"eu bem me esforço, mas as minhas mágoas sabem nadar."
Por João Gaspar, no Last Breath

A derradeira aventura de Antonioni

A seguir a Bergman é a vez do italiano Antonioni partir para o Olimpo cinematográfico.
Deixa-nos outro realizador europeu marcante, seguindo uma via talvez mais difícil. Com efeito, um dos temas dominantes da sua obra é a incomunicabilidade, como o atesta a sua tetralogia A aventura (1960), A noite (1961), O eclipse (1962) e Deserto Vermelho (1963).
São crónicas do mal estar no mundo moderno, atavés dos encontros, desencontros e ilusões de pares heterosexuais. Da solidão irremediável.
Retenho ainda Blowup (1966), Zabriskie Point (1970) e O mistério de Oberwald (1980). Tenho especial apreço por A gente do Pó (1944), ainda pontuado pelo olhar neo-realista, um filme semi-documental, tal como o foi, entre nós, Douro, faina fluvial, de Manoel de Oliveira, e Lisboa, crónica anedótica, de Leitão de Barros, ambos do início dos anos 30.
Tal como Bergman, foi um prolífico realizador. A sua filmografia pode ser vista aqui. A imagem é do filme O eclipse.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Os últimos morangos silvestres de Ingmar Bergman


Morreu hoje o cineasta sueco Ingmar Bergman, aos 89 anos. Nascido em 1917, Bergman foi um dos realizadores europeus mais influentes. Tal deveu-se não só à sua substancial produção como ao fundo filosófico, ao tipo de temáticas e à inspiração teatral (meio donde era oriundo) que imprimiu na sua cinematografia.
Num dos seus filmes mais conhecidos, Morangos Silvestres (1957), vemos um professor reformado atormentado pelas suas memórias e pelas ameaças da morte e da decrepitude. O filme inicia-se com um pesadelo desse professor, recriado com se fosse uma sequência surrealista. É das sequências mais belas de Bergman, num dos seus melhores filmes (essa sequência pode ser vista aqui; outras partes deste filme vêm aqui e aqui). Talvez haja mais sequências no YouTube, mas atenção na pesquisa: não confundir com Morangos com açúcar, ok?
Outro belíssimo filme, marcante e perturbador, é Mónica e o desejo (1953), um filme intemporal. Bergman coloca algumas das questões essenciais da vida humana, exercita-as em contextos do quotidiano comum (enfim, sobretudo de classe média), mas, no fim não nos dá respostas feitas, 'apenas' nos ajuda a reflectir mellhor sobre a existência e as opções de vida. Nesse sentido, o olhar de Mónica tem sempre uma sombra de dúvida, de incerteza, de ambiguidade, tornando-se por isso furtivo. Seja como for, as vias abertas por Bergman não são uma ajuda de somenos importância, sobretudo se pensarmos como a maioria dos restantes cineastas tem fugido disso (da reflexão, extensivo à sensibilidade, à palavra, etc.) como o diabo da cruz.
Tanto quanto sei o seu último (tele)filme foi Saraband (2003), um filme intenso embora talvez demasiado excessivo (demasiado camiliano?). Dos outros filmes que vi, retenho Sonhos de uma noite de Verão (1955, baseado na peça de Shakespeare e depois retomado por Woody Allen), Sonata de Outono (1979) e Fanny e Alexandre (1982).
Nb: as imagens são do filme Mónica e o desejo; fotogaleria aqui; obituários aqui e aqui.

De vitória em vitória...

Segundo um relatório da Oxfam e do Comité de Coordenação de ONGs no Iraque, um terço da população do Iraque, ou seja OITO MILHÕES de pessoas, necessitam de ajuda humanitária urgente (notícia aqui e aqui, relatório aqui).

Pode ler-se no resumo do relatório:

• four million people who are ‘food-insecure and in dire need of different types of humanitarian assistance’

• more than two million displaced people inside Iraq

• over two million Iraqis in neighbouring countries, mainly Syria and Jordan, making this the fastest-growing refugee crisis in the world.

Old-time surrealism - GRAFFITI

LET US LIVE
THE ETHER IS FOR SALE FOR NOTHING
LONG LIVE THE EPHEMERAL
FREE THE PASSIONS
NEVER WORK

domingo, 29 de julho de 2007

Para refrescar na canícula, um bom vinho branco Arinto

Em plena canícula, acompanhar marisco ou peixe grelhado com vinho tinto é um quanto suado, para não dizer inapropriado. É como aquela rábula antiga do restaurador Olex. Não dá mesmo.
Por isso, nada melhor que um vinho branco bem fresquinho (ou um espumante). Já falámos aqui dos vinhos brancos verdes, agora é a altura dum bom vinho branco com o máximo de frescura. Um dos que melhor encaixa neste perfil são os da casta Arinto. São vinhos brancos muito secos, frutados e cítricos.
Têm uma região especial só para eles, Bucelas, mesmo às portas da capital, embora sejam feitos um pouco por todo o país. Dos que conheço, recomendo, à cabeça, o Bucellas Arinto (Caves Velhas, c.6€) e o Prova Régia (Qt.ª da Romeira, c.5€). Outro excelente é o Vinha da Defesa, ainda que misturado com Antão Vaz e Roupeiro (Herdade do Esporão, c.7€; nos vinhos de lote, há a bom preço, c.5€, outro Caves Velhas, o Bucellas, que combina o Arinto com as castas Esgana Cão e Rabo de Ovelha). Para quem gosta de reservas há o Morgado de St.ª Catherina (onde ressalta muito a madeira, c.9€). A preços acessíveis há ainda que contar com o Quinta da Murta (distribuído pela cadeia Pingo Doce, c.4€).
Nos vinhos de colheita tardia feitos com Arinto tem que se destacar o Chão do Prado. Quem quiser pode visitar esta belíssima propriedade por alturas da Festa da Vindima, ou durante o ano, basta marcar reserva no seu restaurante, incorporado numa antiga casa rústica de apoio, entretanto recuperada.
Uma novidade recente é a feitura de vinhos espumantes com esta casta, uma boa experiência, recomenda-se vivamente a sua prova.
Nb: a 1.ª imagem é retirada daqui.; a 2.ª vem daqui.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O pungente drama da perseguição à bola-de-berlim na costa lusitana

Imbuídos do saudável espírito de quebrar barreiras, como diria o outro, resolvemos fornecer aos nossos leitores uma nova rubrica, esta de arquivo temático de textos saídos na imprensa nativa. São textos de especial calibre, marcados pela sua pertinência e urgência de última hora. Começamos por esse drama pungente que dá pelo nome de bola-de-berlim com creme vendida no estio em alguns areais cá do burgo. É que parece que anda por aí uma entidade pública embirrenta, obcecada com problemas de saúde pública e a querer impingir condições de salubridade para a venda de produtos alimentares, vá-se lá saber porquê. Então, aqui vai.
Bibliografia selecta sobre bolas-de-berlim com creme vendidas por vendedores ambulantes nos meses de estio em praias selectas, acompanhada por excertos históricos:
*Rosa Lobato Faria, "Um rasto de hortelã", JL, 4-17/VII/2007, p. 44.
"E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (as bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem)".
*Vasco Pulido Valente, "Má educação", Público, 15/VII/2007.
"As bolas têm hoje de estar em malas térmicas com uma temperatura de, pelo menos, 7 graus, têm de ser servidas com pinças (suponho que para evitar o pernicioso contacto da mão humana) e os vendedores têm, como é natural, de tirar um curso especial de "manuseamento". As multas vão até aos 3740 euros; coisa que se percebe muito bem quando se trata de combater a bactéria e a toxina e, sobretudo, de proteger a infância".
*Helena Matos, "Bola-de-berlim com creme", Público, 23/VII/2007.
"A bola-de-berlim tornou-se a gota de água que me fez perder a paciência. Descrer que algum tino ou vergonha restem entre nós. De agora em diante o meu propósito é simplesmente descobrir como sobreviver num país que persegue nas praias os vendedores de bolos, enquanto nas falésias se alinham os mais monstruosos projectos urbanísticos saídos da mente humana".
Nb: imagem retirada daqui.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Socas anti-socrático, ou o Homem-quadrado interactivo

Cartoon de GoRRo (c) 2007


Nb: para ser acompanhado pelo artigo de Helena Matos de ontem no Público: «O governo antropofóbico».

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Por culpa de Fidel

Je suis tombé par terre, c’est la faute à Voltaire
Le nez dans le ruisseau, c’est la faute à Rousseau
Je ne suis pas notaire, c’est la faute à Voltaire
Je suis petit oiseau, c’est la faute à Rousseau

No meio do deserto fílmico que é o Verão, há, pelo menos, um filme bastante interessante: Por culpa de Fidel de Julie Gavras. O título foi herdado de uma canção entoada por Gavroche durante as barricadas de Os miseráveis, a capacidade de filmar terá sido herdada do pai Costa-Gavras e a vivência política herdada da sua própria infância. E é exactamente neste equilíbrio «hereditário» que a realizadora nos mostra de um modo bastante sensível o choque de uma criança que vê o seu mundo burguês, (colégio de freiras, avós com vinhedos, casa com jardim), ser abalado com a adesão dos pais ao comunismo. A história passa-se nos anos 70, e a cruzada paterna centra-se no apoio a Allende no Chile e na luta contra o franquismo.
Quase vinte anos depois de Costa-Gavras nos ter colocado uma enorme interrogação e dúvida filial em O enigma da caixa de música, uma filha que descobre o passado nazi do pai e que o denuncia, Julie Gavras, embora numa situação menos dramática, devolve-nos a pergunta, desta vez de uma forma invertida, e fá-lo de um modo muito próprio e original.

terça-feira, 24 de julho de 2007

O cartoon da semana, por Sergio Langer

Sergio Langer é um cartoonista argentino reconhecido internacionalmente faz algum tempo. Desde 1991 que tem contrato com o Cartoonist & Writers Syndicate (de N. Iorque), o que lhe permite ter os seus desenhos de política internacional em vários dos grandes jornais norte-americanos, argentinos, brasileiros, mexicanos, espanhóis, etc..
Nascido em Buenos Aires em 1959, publicou os seus primeiros desenhos aos 20 anos de idade. É também arquitecto e ilustrador.
O seu traço é corrosivo e certeiro, abordando amiúde temas difíceis, como a ganância e outros abusos de poder, mas não omitindo os pôdres das próprias elites locais sul-americanas e africanas. Nesse aspecto, parece-me ter afinidades com um autor como o exilado chileno Palomo (n.1943, tem publicado entre nós O quarto Reich). Mas também poderíamos falar do caricaturista francês Plantu ou de algumas coisas do seu compatriota Quino.
Como o próprio Langer assume, a "injustiça revolta-me". A resistência à opressão, a qualquer tipo de opressão, é a sua palavra de ordem:
Nb: alguns cartoons de Langer sobre futebol estão aqui, incluindo o de cima; uma boa série dos seus cartoons pode ser vista aqui (não insiro nenhum desta série por não saber se é necessário autorização especial).

Os meus votos de época nova

A propósito da nova época futebolística que vai começar. O que eu gostaria mesmo - eu sei que sou optimista, e que estou a pedir demasiado - era esta época não ouvir aquela conversa "A nossa equipa jogou melhor, merecia ganhar". Esta frase é uma contradição nos termos, se o objectivo é marcar mais golos do que o adversário, a equipa que marca mais golos é a que joga melhor, é a que merecer ganhar, e é a que ganha efectivamente. Coroloário: A menos que factores estranhos ao futebol intervenham no resultado a equipa que ganha é a que merecer ganhar e vice-versa (Nota: entendem-se por factores estranhos ao futebol, extra-terrestres que consigam telecomandar a bola, fenómenos paranormais não explicados pela ciência como o ocorrido na final do Euro 2004, ou a circunstância do árbitro ter passado a noite da véspera num bar de alterne em Rio Tinto). O objectivo do futebol não ter mais posse de bola do que o adversário, ter mais posse de bola não é razão suficiente para merecer ganhar. O objectivo do futebol também não é ter mais ocasiões de golo do que o adversário, é concretizá-las. Uma equipa que tem oportunidades de golo do que o avresário e que não marca é uma equipa que falha golos, logo merece perder. O objectivo do futebol não é pressionar mais, nem ser mais rápido, nem atacar mais, nem fazer mais remates, nem mais centros, nem ter mais cantos a seu favor. O objoctivo é marcar mais golos, e uma equipa que faz tudo o que mencionei acima e não ganha o jogo é uma equipa de jogadores que erraram na vocação, logo merece perder.
O objectivo também não é jogar mais bonito do que o adversário (e vale a pena demorar-me um pouco mais neste aspecto). Se fosse então devia abolir-se as balizas, e criar um júri como na Ginástica Ritmica Desportiva que atribui pontos às equipas no fim do jogo. Aliás essa patranha do "futebol-espectáculo" é apenas uma bela desculpa para transformar cepos em fenómenos mediáticos (e.g. Beckam) e vender o futebol - ex-desporto do povo - às grandes multinacionais (e.g. Nike, Adidas, Coca-Cola, FIFA, etc...). O futebol é um espéctaculo por um simples processo de tentativa e erro. Há milhares de desportos diferentes, praticados de todas as maneiras e feitios. Sucede que um desporto jogado onze contra onze com uma bola de pouco mais de um quilo num terreno relvado de aproximadamente um hectar em que o objectivo é introduzir a bola na baliza do adversário não podendo tocar a bola com os membros superiores é intrinsecamente mais espectacular, mais belo, do que por exemplo um desporto praticado sobre o gelo em que um jogador desliza na pista enquanto lança um calhau polido vagarosamente e dois empregados da limpeza esfregam freneticamente o piso. E dá-se ainda a feliz circunstância de muito frequentemente as equipas que jogam bonito ou espectacular são as equipas que merecem ganhar (e que ganham efectivamente, o que como já expliquei é o mesmo). Isto não impõe às equipas qualquer dever moral ou ético de submeter à componente estética a alma competitiva inerente a qualquer desporto. O jogar bonito não é uma obrigação é apenas um sub-produto de uma circunstância feliz que torna o futebol um desporto superior aos demais.
Por exemplo, veja-se o Liverpool que perdeu a final da Liga dos Campeões este ano. O Liverpool não estava na final para ganhar, estava lá para sair de cabeça erguida. Estava lá para correr, para se esgadanhar, para lutar até à última gota de sangue, e no fim poder dizer que estiveram quase. Não por acaso só marcaram um golo quando o jogo esta já perdido, mas sempre lhes permitiu continuar a lutar até ao fim. Perderam e mereceram perder. Aliás a re-edição da final de 2005 foi uma invitabilidade cósmica, para repôr a verdade desportiva. O Liverpool mereceu ganhar em 2005, mas por engano, marcaram o terceiro golo porque se tinham esquecido que já tinham marcado dois antes. Este ano repôs-se apenas a ordem natural das coisas e ganhou a única equipa que entrou em campo para ganhar, o Milan AC.
Outro exemplo, a equipa do Brazil de 1982, supostamente a melhor equipa que nunca ganhou o campeonato do mundo. Na realidade é, não melhor, mas sim a que jogou mais bonito sem conseguir ganhar o campeonato do mundo (título já de si duvidoso), e não merecia ganhar. A sua derrota não foi um cumprimento de desígnio superior que apenas demonstra a supremacia olímpica da estética sobre sobre a mundana vitória, como se uma e outra fossem incompativeis (veja-se o Brasil de 1970). A derrota de 82 foi apenas a punição merecida a quem narcisisticamente se deslumbrou com a sua própria beleza e pensou que a beleza em si, e não a vitória, era o objectivo último.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Público & notório

"A evolução da sociedade portuguesa nos últimos 30 anos não foi acompanhada pela adaptação dos partidos políticos, que se mantiveram formalmente fiéis a códigos ideológicos que fizeram parte do seu momento genético, aliás em regra para mais facilmente os tripudiarem no dia-a-dia. Para agravar as coisas, o PS chegou-se ao centro com Guterres, continuou a fazê-lo com Sócrates e está a evoluir no sentido de um partido pós-social-democrata (tema a que dedicarei qualquer dia uma destas crónicas), numa linha de «liberalismo avançado» que, há mais de 25 anos, teorizei como a estrutura central do pensamento político de Sá Carneiro."
José Miguel Júdice,
mandatário de António Costa à presidência da CML
(in "Pensamentos heréticos sobre a direita", Público, 20/VII/2007)

"Em relação à reforma da despesa pública, para além dos cortes no investimento e as medidas nas pensões e reformas, os resultados práticos brilham pela sua ausência. Acabámos de saber que as receitas dos impostos são melhores do que o esperado, mas o compromisso de fechar as contas do Estado em 2007 abaixo dos 3,3% fica adiado porque a despesa corrente não está a correr como o planeado. Fico preocupado, porque a crise orçamental deixada pelo PSD-CDS deveria ser aproveitada para a reforma da despesa e esta parece ficar para depois das eleições de 2009. Como nessa altura a pressão orçamental será menor, podemos pensar que nada mais será verdadeiramente realizado. Os cortes horizontais e cegos, alguns ainda recentes, não resolvem o problema, premeiam as instituições com gorduras, que os podem acomodar, e penalizam as que tinham uma gestão financeira apertada, que podem ficar paralisadas. [...] Tudo o que não devia ser feito. Quem teima em não querer conhecer a história, está condenado a repeti-la, infelizmente."
Luís Campos e Cunha,
ex-ministro das Finanças de Sócrates
(in "Mais vida para além do défice?", Público, 20/VII/2007)

Fontes: cartoon de José Miguel Júdice daqui; foto de Luís Campos e Cunha daqui.

domingo, 22 de julho de 2007

Revisitações retemperadoras

Os degraus estão uma lástima, há mesmo um troço algo perigoso, mas os momentos lá em baixo compensam tudo. Então, com um mar calmo como nunca, um sol gostoso, uma brisa suave, e umas redondas ameijôas à Bulhão Pato, com um molhinho bem no ponto, a finalizar o dia, que mais se pode querer?
Qual é a praia, qual é?

A grelha de classificação (ou como a ideologia me fez descobrir novos vinhos)

Porque hoje é o dia do Senhor, Sr. Baco evidentemente, aqui no Peão escreve-se sobre vinhos, e hoje é a minha vez. Nisto dos vinhos não sou propriamente um conhecedor, sou um apreciador mas não um conhecedor. A minha escrita vai ser portanto algo diletante, sobre o processo de aprendizagem e descoberta dos vinhos franceses (e, meus amigos, se há matéria para explorar!). Aviso prévio: regra geral só falo de vinhos tintos, sumo de uva não faz tanto o meu género.
Por defeito de formação, se não mesmo congénito, gosto de sistematizar as coisas de uma forma lógica (o que é uma grande mentira, mas é conveninte para o propósito deste post). Este meu primeiro post dos vinhos ao domingo vai ser sobre a minha sistematização dos vinhos fanceses, e não tanto sobre um vinho em particular. Descobri que os vinhos franceses podem ser classificados com a ajuda de um referencial cartesiano, lá está Descartes era francês e provavelmente inspirou-se no vinho. Nesse referencial temos Bordeaux nas abcissas e Bourgogne nas ordenadas.
O Bordeaux é tipicamente mais encorpado, de cor mais escura e mais alcoólico (por isso fica no eixo horizontal, não é por acaso). As principais castas de Bordeaux são o Cabernet Savignon, o Cabernet Franc e o Merlot. O Bourgogne é mais rico em aromas (porventura subtis), de cor mais clara e menos alcoólico. As principais castas são o Pinot Noir (a mais importante e tradicional) e o Pinot Gris (e para quem interessarem os brancos, o Chardonnay). Os outros vinhos franceses situam-se, neste referencial, algures entre estes dois extremos. Os mais aromáticos e delicados são a atirar para o Bourgogne e os mais robustos e fortes são a dar para o Bordeaux. Convém ter sempre presente a noção de que tudo é relativo, quando digo encorpado estou medir na escala francesa, porque se fosse encorpado como o mais pujante dos Borbas, lá ia a grelha de classificação para o hiper-espaço. Devo admitir que sendo eu um gajo de esquerda minha inclinação natural é para os vinhos mais encorpados (essa estória dos aromas subtis parece-me até uma treta um bocado burguesa), gosto dos vinhos de degustação longa a acompanhar repastos demorados como nos falava o Renato domingo passado. Logo o meu preconceito vai mais para o lado dos Bordeaux, e já bebi uns quantos de muio boa qualidade.
Nisto vi um documentário, o Mondovino (sobre o qual o peão Daniel Melo escreveu nos tempos do Fuga para a Vitória). O documentário Mondovino mostra impecavelmente como um grupo empresarial forte, no caso a americana Mondavi, consegue com o seu poderio económico, e através de ramificações com a imprensa especializada e influência de críticos do vinho, impôr no mercado internacional um padrão do "bom gosto". O tal padrão de "bom gosto" é o vinho de cor escura, encorpado e com elevado teor alcoólico. Um dos parceiros da Mondavi, François Roland, é um consultor em vinhos que vende uma tecnologia, a micro-oxigenação, basicamente faz com a fermentação seja completa, o que leva a que o vinho seja escuro, encorpado e alcoolizado. Quem passa a trabalhar com Michel Roland vê logo as vendas subirem. Quem mais benificia são os vinhos californianos e o Bordeaux (e sobretudo a Mondavi). Quem perde é o consumidor que procura a diversidade de vinhas e casta, e quem se dedica a produzir outros vinhos fora do "padrão".
No documentário Bourgogne aparece como os antipodas do Bordeaux também na virtude e na pureza do cultivo da vinha. Em defesa do Bourgogne há um vitivinicultor da região que diz que os vinhos de hoje, referindo-se tal "padrão de bom gosto" são vinhos transversais, enquanto os Bourgogne, e outros vinhos tradicionais são longitudinais. Quer ele com isto dizer que nos vinhos transversais o sabor está todo lá desde o primeiro gole, é como chocar contra uma parede, vem tudo de uma vez e dali não sai mais nada. Nos vinhos longitudinais, pelo contrário, os sabores vão-se desenvolvendo ao longo do tempo, com a degustação há aromas que vão aparecendo progressivamente. Nisto tenho que dar razão ao apreciador dos vinhos longitudinais, afinal essa é uma, senão a, caracteristica do vinho que o torna único como bebida e que cativa os apreciadores. O meu esquerdismo levou-me assim a descobrir o Bourgogne e a abandonar o Bordeaux.
Não quero no entanto acabar este post sem deixar um par de sugestões de garrafas. O melhor Bourgogone que já bebi, graças aos bons ofícios de um amigo, foi um Fixin 2001 Domaine de la Croix de Bois (não é bem o que está na foto mas quase), dificil de encontrar em super-mercados. Como convém foi consumido a acompanhar um Boeuf Bourgignon - estufado de vaca ele próprio cozinhado num Bourgogne. Do que se encontra em super-mercados o Domaine du Pavillon 2001, Pinot Noir, não é nada mau e fica por 7,50 euros.
Mas ainda assim, o Bourgogne não é o vinho que me enche completamente as medidas, apesar de tudo continua ser demasiado franzino para o meu gosto. E provavelmente é a região que mais sucesso de vendas tem, a seguir a Bordeaux, outros há que sofrem mais do que Bourgogne com a globalização no mercado do vinho. Estas constatações obrigaram-me a procurar outros vinhos noutras paragens, mas isso fica para uma próxima oportunidade, um outro domingo aqui no Peão.

sábado, 21 de julho de 2007

filme de terror


O pesadelo de Fernando Santos é um filme de terror para os adeptos: Sem Simão, e sem alternativa para este, o treinador tem pesadelos. Agradecíamos que Fernando Santos deixasse de sonhar e perdesse umas noites a resolver estas questões.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A imprensa e o governo Lula

A ascensão do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República do Brasil, produziu alterações significativas na forma com que a imprensa brasileira trata as questões relativas ao Palácio do Planalto. Nunca houvera antes, tanta voracidade da comunicação social em tentar de todas as formas, condenar antecipadamente um governo e as pessoas a ele ligadas. Não é exagerado dizer que, a imprensa direitista e subserviente aos magnatas da Avenida Paulista, inverteu um princípio do direito. Aquele que diz assegura que todo cidadão é inocente até que se prove o contrário. Pois bem, com o governo Lula, acontece exactamente o inverso. Pelo menos para as inteligências da Folha, do estadão, d'O Globo (e da Globo), e da famigerada Veja. Ou seja, quando se trata do governo Lula, do PT, ou de qualquer dos seus aliados, para estes órgãos de imprensa, são sempre culpados, até provar o conttrário. Infelizmente, a condenaçaõ sumária e antecipada do governo foi levada a cabo mais uma vez, na recente tragédia que pode ser caracterizada como o maior desastre da aviação civil brasileira. O acidente com o Airbus 320 da TAM, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Antes mesmo de ser iniciada qualquer investigação, os principais meios de comunicação do país já apontavam como responsável pela tragédis, o Palácio do Planalto. É verdade, que o sistema aeoportuário do país vive problemas estruturais bastante sérios. Mas, o que de mais grave tem acontecido como cosequência do "apagão aéreo" (a imprensa verde-amarela é pródiga em inventar termos assim), são longas esperas nos aeroportos.
A própria companhia aérea informou que a aeronave estava com um problema mecânico desde do dia 13 de julho. O reversor direito não estava a funcionar, e portanto podia dificultaria a aterragem. O que a companhia não explicou foi o motivo de colocar em operação uma aeronave com um defeito que poderia comprometer a segurança dos passageiros. Após a divulgação deste facto, o Estadão, sabiamente afirmou que "a falta do reversor podia não causar problema em uma pista mais longa". Logo, insinua que mesmo que os aviões possam voar sem todos os equipamentos de segurança, a culpa sempre será do governo (no caso desse governo ser o do Lula, obviamente). O mesmo aconteceu no ano passado, quando, faltando um mês para a eleição presidencial, um jato de fabricação da Embraer, numa irresponsável brincadeira de seus pilotos norte-americanos, abateu um avião da Gol, ceifando a vida de mais de uma centena de pessoas.
Infelizmente o país está de luto pelas mais de 200 vítimas do acidente. Mas, o facto que mais tem chamado a atenção da imprensa não é somente a dimensão do acidente. O que mais tem preocupado os meios de comunicação é encontrar a forma mais rápida de atribuir a culpa ao Planalto.
Há 188 dias, um túnel mal escavado em uma obra do metro de São Paulo desabou, abrindo uma cratera e matando sete pessoas. A obra era de responsabilidade do governo paulista, do tucano José Serra. A cobertura de Veja foi a que já se esperava. O subtítulo da reportagem era: "Antes de procurar culpados, o mais importante é observar as condições de segurança das obras públicas". O governo era do PSDB e procurar culpados era supostamente atribuir a culpa aos candidatos apoiados pela revista.
Lamentavelmente, tem sido esse o comportamento da imprensa brasileira. Qando se trata do governo federal, não é necessário julgamento, a condenação é já antecipada. Quando se trata de govenos ligados às elites económicas, nada de procurar culpados.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Começa assim...

Poucos meses depois de eleitos, aqui em França, o presidente Sarkozy e a maioria de direita na Assembleia Nacional (com o governo de François Fillon), e a meio de Julho quando muita gente esta em férias, o Senado começa a discutir e a votar a nova lei dos serviços mínimos. Na prática é uma lei que limita o direito de greve. É uma lei assente na retóricada da "liberdade do trabalho", da "liberdade do comércio e da indústria", da "liberdade do ir e vir" (sic) e do "acesso aos serviços públicos" feita para criar mais constrangimentos à possibilidade de se fazer greve. Por exemplo todo o trabalhador que tenha intenção de fazer greve terá de dar conhecimento ao patrão com 48 horas de antecedência, sob risco de sanção disciplinar (artigo 5°, já aprovado no Senado). Ou ainda o pré-aviso de greve de um sindicato só pode ser depositado após uma fase de negociação com a entidade patronal. Os serviços mínimos obrigatórios a cumprir em caso de greve vão ser seguramente alargados. Tudo como seria de prever, ninguém pode dizer que não estava à espera este tipo de medidas.
Diga-se contudo que estas medidas não serão neste momento particularmente impopulares. O uso imprudente, para não dizer irresponsável, do direito à greve por parte dos sindicatos nos últimos anos (talvez nos últimos 40 anos, ou coisa do género), e em particular em sectores como os transportes que causam incómodo à população, criou um clima propício à aceitação deste tipo de medidas (o que foi aliás utilizado durante a campanha eleitoral). Esperemos que os sindicatos retirem daí as suas ilacções. Duvido. Sarkozy agradece.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Pelo empréstimo público gratuito nas bibliotecas portuguesas

No lado b do Peão transcrevi o Manifesto em defesa do empréstimo público gratuito nas bibliotecas portuguesas, que me enviou a Luísa Alvim. O que se está a passar é muito grave: em 1992, a Comunidade Europeia aprovou uma directiva que impõe às bibliotecas, centros de documentação e outras instituições privadas sem fins lucrativos o pagamento pelo empréstimo público dos seus documentos abrangidos por direitos de autor. Portugal (tal como a Espanha e a Itália), que isentou todas as categorias de estabelecimentos que praticam o comodato público da obrigação de pagar aos autores, foi condenado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia e terá que passar a aplicar aquela directiva. Na prática, a UE obriga os Estados-membros a contrariar o conceito de leitura pública inscrito no Manifesto da UNESCO sobre Bibliotecas Públicas.
Parece-me que mais importante que os direitos de autor (assegurados através da venda dos livros nas livrarias) é assegurar o acesso de todos (ricos e carenciados) à informação e ao conhecimento. Além disso, as bibliotecas são dos principais compradores de livros. Logo, já pagam direitos de autor!
Para mais informações, veja-se o blogue Entre Estantes, de Bruno Duarte Eiras.

Emprego científico

Nesta semana está em foco a política para o ensino superior. Além da votação na especialidade do novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, ontem iniciada (vd. aqui), a Associação dos Bolseiros de Investigação Científica marcou para hoje uma concentração nacional frente ao MCTES, a fim de entregar a sua proposta de alteração ao Estatuto de Bolseiros de Investigação, estatuto esse cuja reforma está em preparação no ministério.
Essa proposta regula-se pelos seguintes princípios:
"-garantir que todo o pessoal de investigação científica veja reconhecido o trabalho que desenvolve e dignificada a sua condição, beneficiando de um conjunto de direitos sociais básicos;
-acolher na legislação nacional as recomendações constantes da Carta Europeia do Investigador;
-travar e inflectir a tendência para uma diminuição da atractividade das carreiras científicas;
-garantir uma maior responsabilização das chamadas instituições de acolhimento;
-permitir uma adequada articulação com o conjunto do edifício legislativo que enquadra e regula a actividade da generalidade dos trabalhadores científicos;
-prever uma adaptação às modificações introduzidas no sistema científico e tecnológico nacional pela implementação do Tratado de Bolonha
".
No ponto 1 inclui-se a assinatura de contratos de média duração (5 anos) em substituição dalgumas bolsas (as 'pós-doc' e outras que asseguram necessidades básicas do sistema ou das instituições), a passagem dos bolseiros para o regime geral de segurança social (saindo do actual regime que os penaliza), sendo tal questão bem mais prioritária do que a actualização das prestações, apesar de estar inalterada há 5 anos. É que a segurança social prende-se com a valorização socioprofissional do trabalho levado a cabo pelos bolseiros de investigação científica, os quais, embora responsáveis por uma fatia relevante da produção científica nacional, não vêem reconhecido um mínimo condigno de condições socioprofissionais nem um plano de emprego científico para a renovação séria dos quadros de investigação e docência do ensino superior e centros de investigação.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Frágil 25

O bar Frágil celebra este ano as suas 25 velas, já fez a festa e hoje é dia de lançamento ao vivo do Projecto Lisboa, um álbum em que participam algumas dos fautores da música moderna portuguesa e que lança a editoria Lisboa.

Parabéns e continuação de boas festas!
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Lembrei-me do Frágil ao ler um texto no P2 e por causa do portuense Maus Hábitos, um bar/ centro cultural em grande estilo, que é já um dos ex-libris da noite lusa e onde há pouco tempo pude ver o verdadeiro artista Lello Minsk com o seu Quarteto 4444 em grande!