quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Foi você que pediu liberdade de expressão?
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Zèd
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DAQUI, DE AGORA E SEMPRE
E ALEGRE SE FEZ TRISTE
Aquela clara madrugada que
Viu lágrimas correrem do teu rosto
E alegre se fez triste como se
Chovesse de repente em pleno Agosto.
Ela só viu dedos nos teus dedos meu nome no teu nome.
E demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos
Que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
Por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada.
Poema de Manuel Alegre musicado por José Niza e cantado por Adriano em Gente Daqui e de Agora.
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Renato Carmo
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terça-feira, 16 de outubro de 2007
Booker Prize
Foi anunciado há pouco a vencedora do Booker Prize deste ano: Anne Enright com o título The gathering. Os favoritos eram Ian McEwan e Lloyd Jones, mas a escritora irlandesa, conquistou o júri com a sua história de uma família disfuncional e que segundo a própria deixará os leitores deprimidos: when people pick up a book they may want something that will cheer them up, in that case they shouldn’t really pick up my book…
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Anónimo
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Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza
Celebra-se amanhã o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, efeméride criada pela ONU em 1993. Hoje foi celebrado o Dia Mundial da Alimentação, aproveitado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para dizer ser "inaceitável" existirem hoje 854 milhões de pessoas sofrendo de fome crónica, num "mundo de abundância" (vd. aqui). Em Portugal, os dados do INE para 2005 indicam uma taxa de risco de pobreza de 19% (vd., no Público de hoje, "Pobreza aumenta entre as famílias com três ou mais crianças", por Bárbara Simões e Andreia Sanches, secção «Portugal», p. 8). A este propósito a Civitas e a Assoc. ATD- Quarto Mundo (sobre esta vd. tb. aqui) convocaram uma "iniciativa de luta contra a pobreza". Fica aqui o convite que nos chegou:Caras (os) Amigas (os)
No próximo dia 17 de Outubro, Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, a CIVITAS - Associação para a promoção dos direitos dos cidadãos e a Associação ATD- QUARTO MUNDO promovem, em conjunto, uma iniciativa de luta contra a pobreza.
Vimos convidar-vos a que se reúnam connosco e com pessoas que recusam a situação de exclusão de que são vítimas, junto à Laje em granito preto sob o Arco da Rua Augusta, em Lisboa, pelas 12 horas do dia 17 de Outubro. Esta Laje, que aí colocámos em 1994, assinala a nossa solidariedade com a luta contra a pobreza levada a efeito pela ATD/Quarto Mundo, associação fundada em 1957 pelo padre Joseph Wresinski. Como nela se lê: «Onde os homens estão condenados a viver na miséria / aí os direitos humanos estão violados. /Unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado».
Daremos a voz a pessoas que lutam contra a situação de exclusão e de pobreza e reafirmaremos a nossa determinação em continuar a luta pela dignidade e pelos direitos de todos os seres humanos. Apelamos à unidade de todos nesta luta, em espírito de fraternidade. CONTAMOS COM A SUA PRESENÇA
Associação ATD-QUARTO MUNDO"
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Daniel Melo
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segunda-feira, 15 de outubro de 2007
O que é um transgénico?
Por definição um transgénico é um organismo no qual se inseriu informação genética de outro organismo. Tome-se o milho transgénico por exemplo: o milho é sensível a uma praga que é a broca do milho, uma lagarta, mas há uma bactéria que produz uma toxina que mata a broca, vai daí isola-se o gene da toxina da bactéria para o introduzir no milho, e têm-se o milho transgénico. Há outros exemplos de transgénicos, como os ratinhos de laboratório. Virtualmente todos os estudos de genética de ratinhos - que é o modelo de laboratório mais próximo do humano, e logo aquele com mais interesse directo para a investigação relacionada com a medicina - são feitos com transgénicos. O desenvolvimento desta tecnologia deu até direito ao prémio Nobel da Medicina a três investigadores este ano.
Qual é então o problema dos transgénicos? Haverá algum problema intrínseco à criação de transgénicos? Alguns dirão que será uma forma de criar monstros genéticos, que estamos a brincar com as leis da natureza. Parece-me que é o caso dos Verdes Eufémios, e é seguramente o caso de quem faz campanhas usando como sloogan as supostas "Frankenfoods". Isso é uma argumentação que fica algures o místico e o religioso. Não tenho nada contra os místicos, ou os religiosos, mas num estado laico não podem impôr essa visão aos outros, nem muito menos ao quadro legal. O que é a Ciência afinal, senão brincar com as leis da natureza?
No caso da agricultura não há nada de fundamentalmente novo na utilização dos transgénicos que não existisse já, excepto que o progresso é muito mais rápido. Pelos métodos tradicionais também se poderia produzir estirpes resistentes à broca. A diferença é que pelos métodos tradicionais de cultivo e selecção ter-se-ia que esperar que o acaso produzisse o tal milho resistente, o que demoraria provavelmente séculos. Usando os transgénicos podemos conceber e produzir esse milho nós mesmos. Se temos o conhecimento científico que nos permite fazê-lo porque não benificiar dele? Poder-se-á dizer que é diferente porque se está a introduzir no milho um gene novo de que ele não dispõe. No entanto pelo processo de selecção tradicional acontece exactamente o mesmo. Simplesmente o novo gene ou genes são gerados por mutações aleatórias, e por isso demora muito mais tempo, mas pode até dar-se o caso de no fim se obter um milho que produz uma toxina que o torna resitente à broca, como se fosse um OGM. Para além da perda de tempo, não vejo qual seja a diferença. Os OGMs podem ser até, em teoria, uma maneira de viabilizar cultivares tradicionais que hoje são pouco rentáveis economicamente. Os transgénicos têm o potencial para diversificar as variedades que se utilizam hoje em dia na agricultura.
E se introduzir genes é um processo pouco "natural" o que dizer das enxertias, ou dos fertilizantes químicos, ou dos pesticidas? Claro que podemos recear que um milho que produz uma toxina contra a broca possa ser nocivo para o consumo humano. Obviamente que é uma receio mais que legítimo, mas o problema aí não é do tansgénico em si, mas de cada transgénico em particular. E cada OGM terá que ser avaliado, numa base caso-a-caso, para determinar se constitui um risco para a saúde. Os regulamentos já existem, e são draconianos (o que tem efeitos perversos, mas isso fica para outro post). Tal como no caso dos pesticidas ou fertilizantes, a resposta é a mesma: regulamentação e fiscalização. Outro receio que existe é o da poluição genética, é um receio potencial, mas até hoje, e que eu saiba apenas teórico, não há evidências de que a poluição genética ocorra de facto. E não me parece nada surpreendente, basta lembrar que é no interesse dos produtores de sementes transgénicas (grandes multinacionais) que os OGMs sejam completamente estéreis, para obrigar os agricultores a comprar sementes todos os anos.
Não me parece que haja nada de fundamentalmente errado com os OGMs, algo que seja intrínseco à natureza do próprio transgénico. O que há, isso sim, são muitos problemas, no que respeita ao uso de transgénicos na agricultura, que são o resultado de uma má utilização de uma tecnologia com o potencial de ser benéfica. É um pouco como os medicamentos: à partida servem para curar doenças, e no entanto as farmacêuticas, para proteger os seus monopólios, processam os países do terceiro mundo que produzem genéricos. Não me parece que isso seja uma boa razão para os Verdes Eufémios começarem a destruir indiscriminadamente fábricas de medicamentos.
O problema não é dos transgénicos em si, mas do mau uso que se faz deles. A solução como para muitos casos, é a regulamentação e a fiscalização, é necessário sobretudo que o poder político não se demita do seu dever, e não deixe tudo no poder do mercado.
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Zèd
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Labels: OGMs, transgênicos
O impagável Outono lisboeta...
Retomo aqui as apaixonadas impressões de Lisboa feitas pelo médico Jorge ao seu amigo republicano João Chagas, então em Paris, agora relativas ao dia de hoje há 94 anos atrás. É claro que agora já ninguém regressa da praia por esta altura, as toilettes são outras (mas parece que vamos voltar ao preto-e-branco na próxima Primavera-Verão, hélas..), etc. e tal. Enfim, vale a pena descobrir as diferenças:"Por cá temos tido dias lindíssimos: o impagável Outono lisboeta. Regressa-se à cidade com as faces queimadas e um ar retemperado. As crianças das Juntas de Paróquia param com os banhos. Ouvem-se as últimas Sementeiras. Aparecem as primeiras toilettes de Paris. A arcada anima-se. Há um ligeiro perfume de Ambaca".
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Daniel Melo
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Qual será o prato principal servido no Senado?

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(*)
Nb.
Clique aqui pra entender as acusações contra Renan Calheiros. E aqui pra sua trajetória política.
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Sappo
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domingo, 14 de outubro de 2007
O que seria deste país sem as uvas
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Renato Carmo
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Labels: Fialho de Almeida, vindimas, vinhos ao domingo
Todos ao Zénith (nem que seja só em espírito, como é o meu caso)!
Todos ao Zénith, em Paris, hoje às 18h (hora francesa)!
Não, não é para ver o Caetano Veloso (já foi na semana passada)!
É para que ninguém falte à primeira grande iniciativa popular da oposição (seja ela genética ou adquirida) ao sarkozysmo!
Já não era sem tempo!
Todos ao Zénith, nem que seja só em espírito, como é o meu caso!
Até porque já está esgotado!
Todos contra o novo dispositivo da lei francesa, já aprovado pelo parlamento e o senado, que prevê o recurso aos testes genéticos para os imigrantes que solicitam o reagrupamento familiar!
Contra o racismo fronteiriço! Contra a família definida por critérios genéticos! Tira a mão do meu DNA!
É hoje, às 18h (hora francesa)!
Com transmissão na net, aqui, aqui ou aqui!
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andre
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sábado, 13 de outubro de 2007
Um cheirinho pró caminho
"Outro dia - era sábado - jantei em Colares (em Colares, repare, aqui mesmo à mão) no restaurante do senhor Gil. [...] E a açorda de sável em Salvaterra? E o frango na púcara em Vila Franca? E as enguias na Outra Banda? E as caldeiradas em Sesimbra?
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Daniel Melo
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Labels: Alexandre O'Neill, história da alimentação, petiscos ao domingo
A mão invisível
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Renato Carmo
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sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Destinos singulares
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Anónimo
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quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Islão em Lisboa
Até ao final do Ramadão, já amanhã, ainda há tempo para ir até à feira do livro islâmico na Mesquita de Lisboa. Para a semana inaugura a exposição Olhares cruzados sobre Arte e Islão, na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, a Picoas, com um programa de actividades que vai desde cursos sobre o Islão, a um workshop de cozinha libanesa e turca. Finalmente, na Faculdade de Letras de Lisboa, o III Curso Livre de História da Arte, este ano sobre Arte Islâmica e que inclui visita a Mértola.
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Anónimo
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12:33
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Camélias para Óscar Lopes
Começou ontem no Porto um ciclo de homenagens ao ensaísta Óscar Lopes, uma semana depois de ter feito 90 anos. O programa inclui exposições, livros, concertos e encontros. É inteiramente justo este reconhecimento.Rui Rio é que não vai em modas e não participa na homenagem, tendo recusado inclusivamente patrocinar um novo livro seu chamado Modo de ler o Porto (vd. aqui)... Está bem de ver, Óscar Lopes não é Superstar e, ainda por cima, é comunista, logo, ateu... Vade retro Satanás!
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Daniel Melo
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quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Toca a voar...
Estas linhas têm um culpado óbvio, o DJ Im-Becil, com as suas provocações uns posts abaixo.É verdade, também eu fui contaminado por esse vírus atiradiço que se chama música de dança...
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Daniel Melo
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Classificações etárias
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Anónimo
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Labels: cinema, Classificação etária, Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa, homossexualidade
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
“Uma
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Sappo
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terça-feira, 9 de outubro de 2007
Não ao fim da História
Leio nos blogues que a revista História corre o risco de fechar.
E espero não estar a acordar tarde demais.
Assinem a petição online para sensibilizar instituições e particulares, e manter esta revista de divulgação de temas históricos, a única que o faz em Portugal, e com qualidade. Para quem ensina sobre temas relacionados com Portugal no estrangeiro, como é o meu caso, a revista História é um instrumento de trabalho muito útil, com texto acessível e ilustração de qualidade.
E uma pessoa só se apercebe bem disso nestes momentos — quando se fala do fim.
(a petição vai quase em mil assinaturas e, ao que leio, por exemplo aqui, 10 mil euros é o suficiente para impedir o fecho. Ora, mil peticionários a 10 euros cada um não me parece uma utopia assim muito grande)
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andre
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08:49
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Trabalhos e paixões de Benito Prada
Para Benito Prada, o protagonista galego deste romance, a política é algo em que tenta não envolver-se publicamente, preferindo concentrar-se no negócio da venda de tecidos e vestuário. Em vão, pois a política neste tempo conturbado não deixa ninguém indiferente (acabará por assumir a sua inclinação para posições progressistas e democráticas, mesmo diante da polícia política salazarista).
A este propósito, Assis Pacheco relata o episódio verídico duma revolta militar contra o presidente Sidónio Pais, na Coimbra de 1918, que é aonde vive o nosso Benito na altura desta intentona ocorrida em várias cidades.
Ora, Benito, como qualquer ser humano, é curioso e, para mal dos seus pecados, também audaz. Vai daí resolve inteirar-se sobre aqueles tiros que "ecoavam ao longe, na cidade alta". No Café Montanha, da Baixa coimbrã, tem esta resposta audaciosa à interpelação dum amigo:
"«Vai ver a batalha?»
«Já agora porque não?», disse Benito. «Mais foguetes tem o San Bartolomé em Casdemundo [sua terra natal].»
O lente gabou-lhe a boa disposição, pensando para si que o que falta a este mundo maligno são os inocentes."
"Viu, não viu, imaginou tão só, quando entrou na Alexandre Herculano uma rajada de metralhadora varreu a rua, ele esgueirou-se para a primeira porta, respirou fundo, ajeitou o chapéu, subiu três degraus encerados, era um colégio […]
Na meia hora que se seguiu a esta travessia da revolta de Outubro não houve tiros e Benito equivocou-se decidindo que algum dos lados ganhara, o que estava longe de suceder. […] Ao aproximar-se [dos Arcos do Jardim] um obus rebentou a empena de um prédio. Deitou de novo a fugir, rezando uma oração esquecida para que os estilhaços o poupassem e jurando que aquela era a última vez que se confundida com os assuntos da tropa. Na cerca do hospital estava montada uma posição de metralhadora. O sargento veio revistá-lo, e ao ouvir um senhor tão bem posto gaguejando em ourensano selvagem riu-se e abriu os braços:
«Um correspondente de guerra! Que mais há-de acontecer?»
Benito resolveu ficar com os soldados, que eram do Grupo de Subsistências. […] O sargento sondou-o:
«Está com quem, o cavalheiro?»
Benito podia ter respondido sinceramente que não estava com ninguém, que já lhe bastava o prodígio de galgar da Baixa à Alta sem um chumbo no cadáver, indubitavelmente salvo pelos anjos de gesso da igreja de Casdemundo. Mas o sargento puxava-o pela gravata, e ele disse num fio de voz:
«Estou com os homens de boa vontade.»
«Está com a malta!», rejubilou o sargento.
Ao cair da noite vieram ordens para a posição de metralhadora recuar. […]
«E você deu à sola.» [pergunta dum amigo de Benito que ouve já o relato da sua aventura]
«Deixei-os lá a discutir, meti à Rua Larga e já não havia ninguém fardado, só civis. Perguntavam-me o Sidónio ganhou, a Artilharia ganhou? Eu, pela cara, respondia ganhou o Sidónio, ganhou a Artilharia, ganhámos todos."
(Trabalhos e paixões de Benito Prada, 1.ª ed., Porto, Asa, 1993, p. 137-41)
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Daniel Melo
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