quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Foi você que pediu liberdade de expressão?

DAQUI, DE AGORA E SEMPRE

Nasci em 1971 e nesse ano foi editado um dos mais belos álbuns que se compuseram antes da revolução, intitulava-se Gente Daqui e de Agora. A voz era de Adriano Correia de Oliveira e a música de José Niza. Procurei na Internet a imagem da capa do disco mas não a encontrei, era verde e tinha um desenho com traços a preto que vincavam a urgência do AGORA! Felizmente, a madrugada se fez clara em Abril de 1974. Como já parecia anunciar este poema de Manuel Alegre... Pena é que passados mais de 30 anos a gente DAQUI voltou a fazer-se tão triste como se chovesse em pleno Agosto.


E ALEGRE SE FEZ TRISTE

Aquela clara madrugada que
Viu lágrimas correrem do teu rosto
E alegre se fez triste como se
Chovesse de repente em pleno Agosto.
Ela só viu dedos nos teus dedos meu nome no teu nome.
E demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos
Que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
Por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada.

Poema de Manuel Alegre musicado por José Niza e cantado por Adriano em Gente Daqui e de Agora.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Booker Prize

Foi anunciado há pouco a vencedora do Booker Prize deste ano: Anne Enright com o título The gathering. Os favoritos eram Ian McEwan e Lloyd Jones, mas a escritora irlandesa, conquistou o júri com a sua história de uma família disfuncional e que segundo a própria deixará os leitores deprimidos: when people pick up a book they may want something that will cheer them up, in that case they shouldn’t really pick up my book…
A autora tem um livro traduzido pela Teorema, O prazer de Eliza Lynch (2002).

Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza

Celebra-se amanhã o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, efeméride criada pela ONU em 1993. Hoje foi celebrado o Dia Mundial da Alimentação, aproveitado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para dizer ser "inaceitável" existirem hoje 854 milhões de pessoas sofrendo de fome crónica, num "mundo de abundância" (vd. aqui). Em Portugal, os dados do INE para 2005 indicam uma taxa de risco de pobreza de 19% (vd., no Público de hoje, "Pobreza aumenta entre as famílias com três ou mais crianças", por Bárbara Simões e Andreia Sanches, secção «Portugal», p. 8). A este propósito a Civitas e a Assoc. ATD- Quarto Mundo (sobre esta vd. tb. aqui) convocaram uma "iniciativa de luta contra a pobreza". Fica aqui o convite que nos chegou:
"CONVITE
Caras (os) Amigas (os)
No próximo dia 17 de Outubro, Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, a CIVITAS - Associação para a promoção dos direitos dos cidadãos e a Associação ATD- QUARTO MUNDO promovem, em conjunto, uma iniciativa de luta contra a pobreza.
Vimos convidar-vos a que se reúnam connosco e com pessoas que recusam a situação de exclusão de que são vítimas, junto à Laje em granito preto sob o Arco da Rua Augusta, em Lisboa, pelas 12 horas do dia 17 de Outubro. Esta Laje, que aí colocámos em 1994, assinala a nossa solidariedade com a luta contra a pobreza levada a efeito pela ATD/Quarto Mundo, associação fundada em 1957 pelo padre Joseph Wresinski. Como nela se lê: «Onde os homens estão condenados a viver na miséria / aí os direitos humanos estão violados. /Unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado».
Daremos a voz a pessoas que lutam contra a situação de exclusão e de pobreza e reafirmaremos a nossa determinação em continuar a luta pela dignidade e pelos direitos de todos os seres humanos. Apelamos à unidade de todos nesta luta, em espírito de fraternidade. CONTAMOS COM A SUA PRESENÇA
CIVITAS – Associação para a promoção dos direitos dos cidadãos
Associação ATD-QUARTO MUNDO"
Nb: na imagem, logo da REAPN- Rede Europeia Anti-Pobreza.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O que é um transgénico?

Volto ao debate sobre os transgénicos aqui no Peão, dando sequência a um outro post do Manolo. Este post, correndo o risco de ser uma seca, pretende ser um pouco mais técnico. Fala-se muito (debate-se pouco) de transgénicos ou Organismos Genticamente Modificados (OGM). A primeira questão que me parece importante discutir, e que me parece muito confusa para muita gente é: O que é um transgénico?
Por definição um transgénico é um organismo no qual se inseriu informação genética de outro organismo. Tome-se o milho transgénico por exemplo: o milho é sensível a uma praga que é a broca do milho, uma lagarta, mas há uma bactéria que produz uma toxina que mata a broca, vai daí isola-se o gene da toxina da bactéria para o introduzir no milho, e têm-se o milho transgénico. Há outros exemplos de transgénicos, como os ratinhos de laboratório. Virtualmente todos os estudos de genética de ratinhos - que é o modelo de laboratório mais próximo do humano, e logo aquele com mais interesse directo para a investigação relacionada com a medicina - são feitos com transgénicos. O desenvolvimento desta tecnologia deu até direito ao prémio Nobel da Medicina a três investigadores este ano.

Qual é então o problema dos transgénicos? Haverá algum problema intrínseco à criação de transgénicos? Alguns dirão que será uma forma de criar monstros genéticos, que estamos a brincar com as leis da natureza. Parece-me que é o caso dos Verdes Eufémios, e é seguramente o caso de quem faz campanhas usando como sloogan as supostas "Frankenfoods". Isso é uma argumentação que fica algures o místico e o religioso. Não tenho nada contra os místicos, ou os religiosos, mas num estado laico não podem impôr essa visão aos outros, nem muito menos ao quadro legal. O que é a Ciência afinal, senão brincar com as leis da natureza?

No caso da agricultura não há nada de fundamentalmente novo na utilização dos transgénicos que não existisse já, excepto que o progresso é muito mais rápido. Pelos métodos tradicionais também se poderia produzir estirpes resistentes à broca. A diferença é que pelos métodos tradicionais de cultivo e selecção ter-se-ia que esperar que o acaso produzisse o tal milho resistente, o que demoraria provavelmente séculos. Usando os transgénicos podemos conceber e produzir esse milho nós mesmos. Se temos o conhecimento científico que nos permite fazê-lo porque não benificiar dele? Poder-se-á dizer que é diferente porque se está a introduzir no milho um gene novo de que ele não dispõe. No entanto pelo processo de selecção tradicional acontece exactamente o mesmo. Simplesmente o novo gene ou genes são gerados por mutações aleatórias, e por isso demora muito mais tempo, mas pode até dar-se o caso de no fim se obter um milho que produz uma toxina que o torna resitente à broca, como se fosse um OGM. Para além da perda de tempo, não vejo qual seja a diferença. Os OGMs podem ser até, em teoria, uma maneira de viabilizar cultivares tradicionais que hoje são pouco rentáveis economicamente. Os transgénicos têm o potencial para diversificar as variedades que se utilizam hoje em dia na agricultura.

E se introduzir genes é um processo pouco "natural" o que dizer das enxertias, ou dos fertilizantes químicos, ou dos pesticidas? Claro que podemos recear que um milho que produz uma toxina contra a broca possa ser nocivo para o consumo humano. Obviamente que é uma receio mais que legítimo, mas o problema aí não é do tansgénico em si, mas de cada transgénico em particular. E cada OGM terá que ser avaliado, numa base caso-a-caso, para determinar se constitui um risco para a saúde. Os regulamentos já existem, e são draconianos (o que tem efeitos perversos, mas isso fica para outro post). Tal como no caso dos pesticidas ou fertilizantes, a resposta é a mesma: regulamentação e fiscalização. Outro receio que existe é o da poluição genética, é um receio potencial, mas até hoje, e que eu saiba apenas teórico, não há evidências de que a poluição genética ocorra de facto. E não me parece nada surpreendente, basta lembrar que é no interesse dos produtores de sementes transgénicas (grandes multinacionais) que os OGMs sejam completamente estéreis, para obrigar os agricultores a comprar sementes todos os anos.

Não me parece que haja nada de fundamentalmente errado com os OGMs, algo que seja intrínseco à natureza do próprio transgénico. O que há, isso sim, são muitos problemas, no que respeita ao uso de transgénicos na agricultura, que são o resultado de uma má utilização de uma tecnologia com o potencial de ser benéfica. É um pouco como os medicamentos: à partida servem para curar doenças, e no entanto as farmacêuticas, para proteger os seus monopólios, processam os países do terceiro mundo que produzem genéricos. Não me parece que isso seja uma boa razão para os Verdes Eufémios começarem a destruir indiscriminadamente fábricas de medicamentos.

O problema não é dos transgénicos em si, mas do mau uso que se faz deles. A solução como para muitos casos, é a regulamentação e a fiscalização, é necessário sobretudo que o poder político não se demita do seu dever, e não deixe tudo no poder do mercado.

O impagável Outono lisboeta...

Retomo aqui as apaixonadas impressões de Lisboa feitas pelo médico Jorge ao seu amigo republicano João Chagas, então em Paris, agora relativas ao dia de hoje há 94 anos atrás. É claro que agora já ninguém regressa da praia por esta altura, as toilettes são outras (mas parece que vamos voltar ao preto-e-branco na próxima Primavera-Verão, hélas..), etc. e tal. Enfim, vale a pena descobrir as diferenças:
"Por cá temos tido dias lindíssimos: o impagável Outono lisboeta. Regressa-se à cidade com as faces queimadas e um ar retemperado. As crianças das Juntas de Paróquia param com os banhos. Ouvem-se as últimas Sementeiras. Aparecem as primeiras toilettes de Paris. A arcada anima-se. Há um ligeiro perfume de Ambaca".
João Chagas
(Correspondência literária e política,
Lx., Empresa Nacional de Publicidade, 1958, vol. II, p.179)

Nb: imagem de corrida de cavalos no hipódromo de Lisboa, por Joshua Benoliel (1913, não sei se é em Outubro, mas foi o mais condizente que encontrei para ilustrar o texto).

Qual será o prato principal servido no Senado?

Depois de uma bem-sucedida pescaria no pouco do que resta da Mata Atlântica paulista, onde a inspiradora fritada de cherovias (*) sugerida pelo Daniel foi a grande vedete dos comilões-pescadores, volto à civilização e, assim de supetão, recebo a notícia de que o São Renan Calheiros (PMDB – AL) descolou finalmente a sua bunda arrogante da cadeira de presidente do Senado. Explico: santo porque ele não se cansa de afirmar que está vivendo o seu maior martírio” e “calvário”. Logo...

Apesar de ser apenas uma licença de 45 dias, a movimentação de alguns políticos na Ilha da Fantasia de Brasília indica que a “fritura” do santo-senador começou. Por exemplo, Aloízio Mercadante (PT-SP) declarou com todas as letras que “Renan Calheiros não tem mais condições de continuar na presidência do Senado”. Em outras palavras, o petista insinuou o seguinte: ou ele renuncia definitivamente ao cargo ou perde o mandato parlamentar por decisão do Plenário. Resta saber, portanto, se o PT terá azeite suficiente no tacho pra fritá-lo ou se fará um belo acordo pra tudo terminar em pizza.

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(*) Não sei se cometi alguma heresia com a receita original, pois substitui a água por cerveja no preparo do polme. Justifico: é que fritas assim as cherovias (conhecidas em São Paulo como pastinacas) ficam mais sequinhas e estaladiças.

Nb. Não estou pirado não. Como a cherovia é bem mais saudável e mais simpática, optei por postar a sua foto em vez do rosto de santinho-do-pau-oco de Renan Calheiros. Que o reino vegetal me perdoe.

Clique aqui pra entender as acusações contra Renan Calheiros. E aqui pra sua trajetória política.

domingo, 14 de outubro de 2007

O que seria deste país sem as uvas


Oh!, quem me dera ser um camponês, como que uma emanação da paisagem que o meu olhar abraça daqui, e bem forte, bem novo, bem fulvo, recolhendo ao anoitecer dos matos com o meu feixe de lenha à cabeça, a carreta do vindimador chiando por algum côrrego pitoresco e um cordeiro que balisse adiante, na língua dos antigos deuses foragidos, a elegia violeta do morrer do Sol! E de roda de mim, por cima de mim, ouvindo tristes gotinhas de água a cair, com o seu 'ting-ling' de fonte amorável, coração dos musgos romanescos... Evoé, padre Baco!

Dentro de pouco chegarão as vindimas, festa de abundância nesses lugarejos pobres, em que os terrenos delgados não parecem felizes para qualquer outra cultura.

Enquanto o Meio-Dia e o Sul colhem e pisam a pés de homem os cachos rúbios e opados, no lagar onde o mosto ferve, como num mistério dionisíaco, ao norte, pelas encostas do Douro, sobranceiras ao rio, já se não oferece como outrora o espectáculo da verdura hilariando em vários tons esmeraldinos e os esquisitos recortes das parras, dando a ilusão de pequenas faianças de esmalte maravilhoso.

Fialho de Almeida, O País das Uvas.

Imagem: Fialho de Almeida visto por Vasco.

Todos ao Zénith (nem que seja só em espírito, como é o meu caso)!

Todos ao Zénith, em Paris, hoje às 18h (hora francesa)!

Não, não é para ver o Caetano Veloso (já foi na semana passada)!

É para que ninguém falte à primeira grande iniciativa popular da oposição (seja ela genética ou adquirida) ao sarkozysmo!

Já não era sem tempo!

Todos ao Zénith, nem que seja só em espírito, como é o meu caso!

Até porque já está esgotado!

Todos contra o novo dispositivo da lei francesa, já aprovado pelo parlamento e o senado, que prevê o recurso aos testes genéticos para os imigrantes que solicitam o reagrupamento familiar!

Contra o racismo fronteiriço! Contra a família definida por critérios genéticos! Tira a mão do meu DNA!

É hoje, às 18h (hora francesa)!

Com transmissão na net, aqui, aqui ou aqui!

sábado, 13 de outubro de 2007

Contra todas as expectativas

Talvez o Rugby venha finalmente a tornar-se um desporto com algum interesse. Talvez a Argentina consiga chegar à final, contra Inglaterra, e talvez ganhe com uma mãozinha de Deus. Aí sim, o Rugby merecerá a atenção devida aos grandes desportos. Até lá...

Um cheirinho pró caminho

"Outro dia - era sábado - jantei em Colares (em Colares, repare, aqui mesmo à mão) no restaurante do senhor Gil. [...] E a açorda de sável em Salvaterra? E o frango na púcara em Vila Franca? E as enguias na Outra Banda? E as caldeiradas em Sesimbra?
- Você está a fazer-me um destes apetites!"


Alexandre O'Neill
(«O da minha mulher é ímpar...», in A Capital, 6/XII/1973, rep. em Coração Acordeão, Lisboa, O Independente, 2004, p.54/5)
Nb: taberna de Lisboa c.1930, imagem de Ferreira da Cunha (AFML)

A mão invisível

Havia uma altura em que a publicidade invadia as caixas do correio lá do prédio. Era uma ventania que por ali passava, não havia tampa de portinhola que resistisse (refiro-me às tampas que resguardam as ranhuras por onde entram as cartas). Todas ficavam empinadas e atafulhadas de papel. Nesses tempos, uma certa mão invisível empreendia na tarefa de fechar as portinholas. Era uma gestão diária que se prolongava até ao fim do dia. Era trabalho árduo ainda por cima não remunerado. Só uma alma caridosa poderia se encarregar de tão desgastante tarefa. Contudo, sempre que tirava o meu próprio correio, acontecia ter a sensação de que tal mão mexia mais do que devia. Havia qualquer coisa na forma da disposição das cartas que me empertigava os neurónios mais recônditos. A mão invisível não só rondava o correio como o queria controlar. De certeza que dava a sua espreitadela e, à socapa, lá tentava pôr mão na correspondência. Desejava atribuir-lhe uma ordem. É extraordinário como a suposta invisibilidade se revela nos sinais ínfimos e nas pequenas manipulações (a invisibilidade não resiste em espreitar e em tocar). A capacidade de se esconder dava-lhe o descaramento suficiente para querer mexer. Às vezes era apanhada em flagrante mas aí demonstrava a sua outra arte: a do disfarce. É uma descarada esta mão invisível que rondava as portinholas da correspondência. Esta mão adora a ordem, fazia-lhe muita impressão as portinholas empinadas e abertas. Que infâmia! Era preciso fechar todas as ranhuras. Pois é, as mãos invisíveis não gostam que as ranhuras estejam abertas para todos. Felizmente, ainda existe uma administração do prédio, que no seu papel centralizador e autoritário, pôs cobro à invasão publicitária ao instalar uma caixa com ranhura na porta da rua com o propósito de recolher todo o esse lixo. A ranhura abriu-se à rua e a mão invisível perdeu o seu emprego. A publicidade já não passa para dentro do prédio… mas as portinholas, essas continuam a ser liminarmente fechadas.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Destinos singulares


Momentos anoréticos à parte, a publicidade consegue, por vezes, criar imagens irresistíveis. No Verão, já aqui se tinha mostrado uma campanha deveras literária. Para a rentrée, fica a nova produção da Samsonite com a bela e esfíngica Christina Ricci, pronta para partir para destinos singulares.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Islão em Lisboa

Até ao final do Ramadão, já amanhã, ainda há tempo para ir até à feira do livro islâmico na Mesquita de Lisboa. Para a semana inaugura a exposição Olhares cruzados sobre Arte e Islão, na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, a Picoas, com um programa de actividades que vai desde cursos sobre o Islão, a um workshop de cozinha libanesa e turca. Finalmente, na Faculdade de Letras de Lisboa, o III Curso Livre de História da Arte, este ano sobre Arte Islâmica e que inclui visita a Mértola.

Camélias para Óscar Lopes

Começou ontem no Porto um ciclo de homenagens ao ensaísta Óscar Lopes, uma semana depois de ter feito 90 anos. O programa inclui exposições, livros, concertos e encontros. É inteiramente justo este reconhecimento.
A organização cabe à Cooperativa Árvore, entre outros patrocinadores, incluindo o Ministério da Cultura.
Rui Rio é que não vai em modas e não participa na homenagem, tendo recusado inclusivamente patrocinar um novo livro seu chamado Modo de ler o Porto (vd. aqui)... Está bem de ver, Óscar Lopes não é Superstar e, ainda por cima, é comunista, logo, ateu... Vade retro Satanás!
As camélias na imagem ao lado evocam o gosto que tem pelo seu jardim de cameleiras na Rua dos Belos Ares.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Toca a voar...

Estas linhas têm um culpado óbvio, o DJ Im-Becil, com as suas provocações uns posts abaixo.
É verdade, também eu fui contaminado por esse vírus atiradiço que se chama música de dança...
Gosto de ouvir e de dançar esta alienação que alguns teimam em chamar música. Em doses moderadas, atenção. E com playlist bem escolhida, de preferência.
Quando retorno a casa oiço agora no rádio a Cidade FM (olha, este pirou de vez, dizeis vós). A desculpa: apanhei aí uma música de que gostei: chama-se «Rise up», é dum Yves LaRock, e não é que aquilo é hipnotizante? Não acreditais? Então, ide ouvir aqui (na rádio tem os graves mais fortes..). Aviso, desde já, que a letra não conta, embora em engarrafamentos possa ajudar a levantar voo...
Faz lembrar algumas das canções dos Propaganda, por exemplo. Enfim, gostos. Sim, os Propaganda são melhores, mas é o que há agora.

Classificações etárias

Em tempo de festivais e festas de cinema (Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa; Festa do Cinema Francês, ainda até dia 15; Ciclo de Cinema de Israel, no Campo Pequeno de 18 a 24 de Outubro; DocLisboa a partir de dia 18), interrogo-me sobre as razões que levaram a que apenas o primeiro, o Gay e Lésbico, tivesse, quer no programa, quer no site, a indicação clara que todas as sessões do programa fossem para «Maiores de 18». É certo que só vi um filme, sem sexo explícito, mas com uma trama política algo violenta (filme israelita intitulado The Bubble, em que um israelita se apaixona por um palestiniano), o que, talvez lhe valesse a classificação, mas de qualquer forma parece-me difícil de acreditar que todos os filmes e, sobretudo, os documentários, inclusive um português sobre o casal de mulheres que tentou casar-se numa conservatória nacional, se enquadrassem na designação de M/18.
Fico a pensar se um beijo hetero é para M/6, uma relação sexual para M/12 ou de 16, mas que qualquer demonstração homo seja imediatamente remetida para uma classificação de M/18. Só me resta perceber se devo atribuir este requisito à Direcção Geral de Espectáculos ou à própria Organização do Festival.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

“Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Pois bem, ressuscito o grande Tim Maia para escrever umas mal traçadas linhas sobre as eleições diretas no PT, marcadas para dezembro. Com o slogan “renovação”, o segundo maior partido da base aliada (o maior é o PMDB de Renan Calheiros, o todo-poderoso que não tira o seu bumbum arrogante da cadeira de presidente do Senado nem morto e ainda mantém o governo como seu refém) vai às urnas com sete candidatos, que deverão encarar uma maratona de 10 debates. Até aqui nãoqualquer novidade na democracia interna petista. Como também não será novidade o PT eleger o velho para comandá-lo até 2009: o candidato à reeleição, Ricardo Berzoini.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Não ao fim da História

Leio nos blogues que a revista História corre o risco de fechar.

E espero não estar a acordar tarde demais.

Assinem a petição online para sensibilizar instituições e particulares, e manter esta revista de divulgação de temas históricos, a única que o faz em Portugal, e com qualidade. Para quem ensina sobre temas relacionados com Portugal no estrangeiro, como é o meu caso, a revista História é um instrumento de trabalho muito útil, com texto acessível e ilustração de qualidade.

E uma pessoa só se apercebe bem disso nestes momentos — quando se fala do fim.

(a petição vai quase em mil assinaturas e, ao que leio, por exemplo aqui, 10 mil euros é o suficiente para impedir o fecho. Ora, mil peticionários a 10 euros cada um não me parece uma utopia assim muito grande)

Trabalhos e paixões de Benito Prada

Ao Lanero, por estes dias em terras nordestinas

Li há uns dias atrás um romance de que gostei muito. Chama-se Trabalhos e paixões de Benito Prada, foi escrito por Fernando Assis Pacheco e relata as andanças dum galego raiano emigrado no Portugal republicano, que vai subindo a pulso na vida.
Para Benito Prada, o protagonista galego deste romance, a política é algo em que tenta não envolver-se publicamente, preferindo concentrar-se no negócio da venda de tecidos e vestuário. Em vão, pois a política neste tempo conturbado não deixa ninguém indiferente (acabará por assumir a sua inclinação para posições progressistas e democráticas, mesmo diante da polícia política salazarista).
A este propósito, Assis Pacheco relata o episódio verídico duma revolta militar contra o presidente Sidónio Pais, na Coimbra de 1918, que é aonde vive o nosso Benito na altura desta intentona ocorrida em várias cidades.
Ora, Benito, como qualquer ser humano, é curioso e, para mal dos seus pecados, também audaz. Vai daí resolve inteirar-se sobre aqueles tiros que "ecoavam ao longe, na cidade alta". No Café Montanha, da Baixa coimbrã, tem esta resposta audaciosa à interpelação dum amigo:
"«Vai ver a batalha?»
«Já agora porque não?», disse Benito. «Mais foguetes tem o San Bartolomé em Casdemundo [sua terra natal].»
O lente gabou-lhe a boa disposição, pensando para si que o que falta a este mundo maligno são os inocentes.
"
Nem o pobre homem sabia no que se metia. Seguem-se várias linhas de puro gozo literário. Aproveito para vos deixar um cheirinho bem gostoso:
"Viu, não viu, imaginou tão só, quando entrou na Alexandre Herculano uma rajada de metralhadora varreu a rua, ele esgueirou-se para a primeira porta, respirou fundo, ajeitou o chapéu, subiu três degraus encerados, era um colégio […]
Na meia hora que se seguiu a esta travessia da revolta de Outubro não houve tiros e Benito equivocou-se decidindo que algum dos lados ganhara, o que estava longe de suceder. […] Ao aproximar-se [dos Arcos do Jardim] um obus rebentou a empena de um prédio. Deitou de novo a fugir, rezando uma oração esquecida para que os estilhaços o poupassem e jurando que aquela era a última vez que se confundida com os assuntos da tropa. Na cerca do hospital estava montada uma posição de metralhadora. O sargento veio revistá-lo, e ao ouvir um senhor tão bem posto gaguejando em ourensano selvagem riu-se e abriu os braços:
«Um correspondente de guerra! Que mais há-de acontecer?»
Benito resolveu ficar com os soldados, que eram do Grupo de Subsistências. […] O sargento sondou-o:
«Está com quem, o cavalheiro?»
Benito podia ter respondido sinceramente que não estava com ninguém, que já lhe bastava o prodígio de galgar da Baixa à Alta sem um chumbo no cadáver, indubitavelmente salvo pelos anjos de gesso da igreja de Casdemundo. Mas o sargento puxava-o pela gravata, e ele disse num fio de voz:
«Estou com os homens de boa vontade.»
«Está com a malta!», rejubilou o sargento.
Ao cair da noite vieram ordens para a posição de metralhadora recuar.
[…]
«E você deu à sola.»
[pergunta dum amigo de Benito que ouve já o relato da sua aventura]
«Deixei-os lá a discutir, meti à Rua Larga e já não havia ninguém fardado, só civis. Perguntavam-me o Sidónio ganhou, a Artilharia ganhou? Eu, pela cara, respondia ganhou o Sidónio, ganhou a Artilharia, ganhámos todos.
"
Fernando Assis Pacheco
(Trabalhos e paixões de Benito Prada, 1.ª ed., Porto, Asa, 1993, p. 137-41)