domingo, 4 de maio de 2008

Pequena provocação, au passage

Estamos em Maio, e comemoramos os 40° aniversário do de 68. Parece que há um grande consenso à equerda que o Maio de 68 foi muito importante, e tal. Pode até ser verdade, mas se há coisa que mas faz cominhão são os consensos. A Maria João (a.k.a. shyznogud) começou já há uns tempos, a Joana Lopes também fala do assunto, agora é o Daniel Oliveira, e até mesmo o Peão Manolo já postou. Há ciclos de conferências e tudo. Correndo o risco de ser comparado ao Vasco Pulido Valente, e por arrastamento aos Monty Python, deixo aqui a pergunta: o que é que o Maio de 68 fez de importante e duradouro para a esquerda?

O Maio de 68 foi um acontecimento que teve lugar em França, mais precisamente em Paris, mais precisamente no Quartier Latin, mais precisamente nas ruas ali à volta da Sorbonne. Durou um mês, mês e pouco. Foi espacialmente e temporalmente tão limitado e fala-se ainda hoje tanto. Será que é pelas grandes manifs? Fui procurar, e de facto a maior manif de sempre jamais realizada em França (diz que) foi em Maio de 68, a 30 de Maio mais precisamente. Hélas foi uma manif de direita, nos Champs Elysées, contra o estudantes que manifestavam no Quartier Latin (ver vídeo). Terá sido uma grande vitória política? Em Junho de 68, na sequência dos acontecimentos de Maio, de Gaulle convocou eleições que se saldaram por uma vitória clara da direita, subindo largamente a votação em relação às eleições anteriores. Terá sido uma vitória política a longo prazo? O único presidente francês de esquerda, depois de 68, foi François Mitterand, que não é propriamente o preferido dos soixantehuitards, enquanto que presidentes de direita foram cinco. Quanto aos governos o panorama não foi muito diferente. Terá sido o nascimento de um novo projecto político? Um não, uma data deles, a fragmentação da esquerda, sobretudo à esquerda do PSF, começou com o Maio de 68, com fenómenos tipo Arletre Laguiler e similares, e continua até hoje. Entre outras proezas conseguiram levar Le Pen à segunda volta das presidenciais de 2002 (curiosamente a Frente Nacional só é fundada em 1972). Terá sido o nascimento de uma nova consciência política? Talvez a daquela esquerda que não gosta do poder, que esperam fazer oposição até que os governos de direita (eleitos) ponham em prática uma política de esquerda. Até Sarkozy na campanha eleitoral do ano passado culpou a geração do Maio de 68 pelos males da França (espantoso, já que a dita geração nunca esteve no poder) e conseguiu ainda assim ganhar as eleições.

P.S. - Por favor não me digam que foi uma vitória moral, que se conseguiu chamar a atenção, que foi giro, etc...

11 comments:

Shyznogud disse...

Eis a tão aguardada provocação, hein?
Naturalmente que cada um dos outros citados terá a sua opinião sobre o assunto mas, e muito resumidamente porque ando com a vida complicada, comecemos pelo mais óbvio: não é o Maio francês em si que, queiras ou não, conta, mas sim o "estandarte" em q ele se transformou. No fundo quando se fala em "Maio de 68" aglutinam-se muitos outros movimentos e acontecimentos contemporâneos, em várias partes do mundo, alguns deles sem aquilo que, para mim, é o mais importante e que perdura, ou seja, a capacidade da(s) sociedade(s) serem contaminadas por ideias libertárias... cuja herança se enquistou, de forma mais ou menos profunda, e q perdura.

Joana Lopes disse...

Pois eis que surge esta simpática provocação...

Podia dizer que faço minhas as palavras da Shyznogud, mas seria demasiado fácil e óbvio.

Já tinha jurado a mim mesma que não provocaria mais indigestões com textos opinitativos sobre Maio 68, nas prometo tentar responder no Brumas amanhã ou depois...

Victor disse...

Acho que ha uma pequena (grande) redução nessa apresentação de maio de 68. Maio de 68 foi sobretudo o mais grande movimento grevista do mundo operario francês no século 20. Houve greves, manifestações, ocupações de fabricas, acordos com o governo, etc., etc. Reduzir Maio a manifestações e barricados no quartier latin é muito redutor. mas afinal é uma provocação...

Manolo Piriz disse...

Salve, Zèd.


De alguma forma, o maio de 68 quebra um longo jejum de contra-revolução com o esmagamento da onda revolucionário de 17-23. Infelizmente, os partidos e movimentos de esquerda não souberam tirar proveito daquela situação. Ao contrário. Colocaram-se contra. É o caso, por exemplo, do PCF e da CGT, que só se limitaram a denunciar aqueles acontecimentos como manifestações de inspiração pequeno-burguesa e inconsequente dos “filhinhos de papais” que desprezavam os trabalhadores . Chegaram até a acusar os estudantes de estarem a serviço do governo e da polícia. Acho que esse foi o grande erro de avaliação do PCF naquele momento.

Lamentavelmente, o que faltou à esquerda organizada sobrou à direita: a capacidade de capitalizar pra si a fragilidade de um movimento, que ativava para todos os lados, mas que primava pela falta de organização e, sequer, tinha uma unidade e coerência no seu discurso. E foi exatamente ai que entrou o presidente francês. De Gaulle percebeu isso rapidinho e não perdeu tempo. Depois de conceder alguns benefícios trabalhistas, usou e abusou do seu “discurso do medo”. Foi isso que lhe deu força política necessária para reverter a situação. Mas nem tudo foi perdido. Se maio de 68 foi incapaz de realizar uma mudança política-ideológica profunda, contribuiu sobremaneira para as transformações de comportamento, costumes e artísticas, que de certa maneira sobrevivem até os dias de hoje.

Ana Matos Pires disse...

Bem, Zèd, pequena provocação o tanas, então o P.S.... provocador do caraças ;-)

Zèd disse...

Tendes todos razão. Quero dizer, acho que o Maio de 68 falhou politicamente, no sentido em que não conseguiu levar a esquerda ao poder, em França. Mas conseguiu outras mudanças. Vou esperar pelo texto da Joana Lopes antes de dizer mais.

Oh Ana,
Foi uma provocação pequinininhazita, e no no dizer da Joana Lopes, "simpática".

Anónimo disse...

O Zed não sabe mesmo do que está a falar e tem uma visão da história enviezada e distorcida. O Maio 68 mudou o mundo, criou o esdado social em França e depois noutros paíse, transformou as mentalidades, comportamentos e rlações laborais, derrubou os muros entre o Estado e a comunidade, etc., etc. As manifestações em toda a França,a greve geral e os acordos de Grenelle foram os alicerces do modelo social que começou a ser implementado em França e noutros paíse. O Maio de 68 foi, objectivamente, um abanão na pasmaceira do séc. XX
jcasimiro

F. Penim Redondo disse...

Comecei hoje a publicação no meu blog DOTeCOMe de uma cronologia dos anos 60 que pretende repor o equilíbrio quanto à sobrevalorização do Maio de 68 neste ano do seu quadragésimo aniversário.

Razões sentimentais e desígnios políticos, que passam pelo regresso a um passado mítico, explicam os exageros actuais sobre o Maio de 68, desenquadrando-o da década em que se insere e atribuindo-lhe a autoria de mudanças que lhe eram anteriores.

Do mesmo passo omitem-se as consequências catastróficas que, no plano político, resultaram dos "espontaneismos" inconsequentes que tanto reconfortam hoje os orfãos das utopias.

Se é verdade que Sarkozy não poderia ter divorciado e casado de novo sem o Maio de 68 também podemos perguntar se ele teria chegado a ser eleito sem o susto burguês do Maio de 68.

Filipe Moura disse...

Belo texto, Zèd.

Joana Lopes disse...

Zèd,
Já está
http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2008/05/maio-esquerda.html

Agora que venham os comentáios.

Shyznogud disse...

E tens aqui mais este, Zé, straight to the point:

http://aterceiranoite.wordpress.com/2008/05/07/o-fundo-e-a-questao/