
Volto ao debate sobre os transgénicos aqui no Peão, dando sequência a
um outro post do Manolo. Este post, correndo o risco de ser uma seca, pretende ser um pouco mais técnico. Fala-se muito (debate-se pouco) de transgénicos ou Organismos Genticamente Modificados (OGM). A primeira questão que me parece importante discutir, e que me parece muito confusa para muita gente é: O que é um transgénico?
Por definição um transgénico é um organismo no qual se inseriu informação genética de outro organismo. Tome-se o milho transgénico por exemplo: o milho é sensível a uma praga que é a broca do milho, uma lagarta, mas há uma bactéria que produz uma toxina que mata a broca, vai daí isola-se o gene da toxina da bactéria para o introduzir no milho, e têm-se o milho transgénico. Há outros exemplos de transgénicos, como os ratinhos de laboratório. Virtualmente todos os estudos de genética de ratinhos - que é o modelo de laboratório mais próximo do humano, e logo aquele com mais interesse directo para a investigação relacionada com a medicina - são feitos com transgénicos. O desenvolvimento desta tecnologia deu até direito ao prémio Nobel da Medicina a três investigadores este ano.
Qual é então o problema dos transgénicos? Haverá algum problema intrínseco à criação de transgénicos? Alguns dirão que será uma forma de criar monstros genéticos, que estamos a brincar com as leis da natureza. Parece-me que é o caso dos Verdes Eufémios, e é seguramente o caso de quem faz campanhas usando como sloogan as supostas "Frankenfoods". Isso é uma argumentação que fica algures o místico e o religioso. Não tenho nada contra os místicos, ou os religiosos, mas num estado laico não podem impôr essa visão aos outros, nem muito menos ao quadro legal. O que é a Ciência afinal, senão brincar com as leis da natureza?
No caso da agricultura não há nada de fundamentalmente novo na utilização dos transgénicos que não existisse já, excepto que o progresso é muito mais rápido. Pelos métodos tradicionais também se poderia produzir estirpes resistentes à broca. A diferença é que pelos métodos tradicionais de cultivo e selecção ter-se-ia que esperar que o acaso produzisse o tal milho resistente, o que demoraria provavelmente séculos. Usando os transgénicos podemos conceber e produzir esse milho nós mesmos. Se temos o conhecimento científico que nos permite fazê-lo porque não benificiar dele? Poder-se-á dizer que é diferente porque se está a introduzir no milho um gene novo de que ele não dispõe. No entanto pelo processo de selecção tradicional acontece exactamente o mesmo. Simplesmente o novo gene ou genes são gerados por mutações aleatórias, e por isso demora muito mais tempo, mas pode até dar-se o caso de no fim se obter um milho que produz uma toxina que o torna resitente à broca, como se fosse um OGM. Para além da perda de tempo, não vejo qual seja a diferença. Os OGMs podem ser até, em teoria, uma maneira de viabilizar cultivares tradicionais que hoje são pouco rentáveis economicamente. Os transgénicos têm o potencial para diversificar as variedades que se utilizam hoje em dia na agricultura.
E se introduzir genes é um processo pouco "natural" o que dizer das enxertias, ou dos fertilizantes químicos, ou dos pesticidas? Claro que podemos recear que um milho que produz uma toxina contra a broca possa ser nocivo para o consumo humano. Obviamente que é uma receio mais que legítimo, mas o problema aí não é do tansgénico em si, mas de cada transgénico em particular. E cada OGM terá que ser avaliado, numa base caso-a-caso, para determinar se constitui um risco para a saúde. Os regulamentos já existem, e são draconianos (o que tem efeitos perversos, mas isso fica para outro post). Tal como no caso dos pesticidas ou fertilizantes, a resposta é a mesma: regulamentação e fiscalização. Outro receio que existe é o da poluição genética, é um receio potencial, mas até hoje, e que eu saiba apenas teórico, não há evidências de que a poluição genética ocorra de facto. E não me parece nada surpreendente, basta lembrar que é no interesse dos produtores de sementes transgénicas (grandes multinacionais) que os OGMs sejam completamente estéreis, para obrigar os agricultores a comprar sementes todos os anos.
Não me parece que haja nada de fundamentalmente errado com os OGMs, algo que seja intrínseco à natureza do próprio transgénico. O que há, isso sim, são muitos problemas, no que respeita ao uso de transgénicos na agricultura, que são o resultado de uma má utilização de uma tecnologia com o potencial de ser benéfica. É um pouco como os medicamentos: à partida servem para curar doenças, e no entanto as farmacêuticas, para proteger os seus monopólios, processam os países do terceiro mundo que produzem genéricos. Não me parece que isso seja uma boa razão para os Verdes Eufémios começarem a destruir indiscriminadamente fábricas de medicamentos.
O problema não é dos transgénicos em si, mas do mau uso que se faz deles. A solução como para muitos casos, é a regulamentação e a fiscalização, é necessário sobretudo que o poder político não se demita do seu dever, e não deixe tudo no poder do mercado.