terça-feira, 13 de novembro de 2007

La démocratie, c'est ferme ta gueule!

Em directo da Universidade de Rennes, bloqueada há uma semana por uma minoria de lunáticos autoritários. Ontem houve um referendo em que mais de 3000 estudantes votaram claramente (61,82% contra 36,9%) pelo desbloqueio. Mas parece que não chega, porque hoje de manhã há um grupo armado com bastões e matracas que continua a impedir o acesso às aulas. Vai em francês, porque o surrealismo a que esta situação chegou não tem tradução:

Il avait l'air peut-être un peu étonné de soi-même après l'avoir dit (parce que oui, il l'a dit): "Je pense que le vote à scrutin secret n'est pas démocratique". Il était un peu étonné de le dire pour la première fois, comme ça, sans concessions. Après, il a réexaminé son raisonnement, ainsi que son étonnement, et il a trouvé que c'était le raisonnement qui était bon, que finalement il n'avait pas à s'en étonner. Et il s'est étonné une deuxième fois. Il a donc continué. Il a donné de la suite à ses idées: "oui, le vote à scrutin secret n'est pas démocratique. Ce vote qu'on dit démocratique n'est pas démocratique. Ce vote où l'on propose à tous les étudiants de voter n'est pas démocratique. Ce vote que les étudiants ont demandé majoritairement en assemblée n'est pas démocratique. Ce vote où chacun peut prendre une décision individuellement, librement, en conscience, n'est pas démocratique. Ce vote où tout le monde est en parfaite égalité devant les autres, où, pendant un petit moment, il n'y a pas de militants, ni d'apolitiques, ni de partis, ni d'indépendants, ni de bloqueurs, ni d'anti-bloqueurs, n'est pas démocratique. Ce vote, où l'on peut compter exactement le nombre de voix et on peut surveiller avec indépendance ce décompte, n'est pas démocratique. Ce vote où il n'y a pas de huis-clos dans la décision (où le huis-clos a été divisé jusqu'à sa portion indivisible, celle de l'individu), où l'anonimat est garanti contre les pressions d'autrui, qui qu'il soit et quel que soit son pouvoir, cela n'est pas démocratique. Ce vote, qui historiquement a permis au peuple sans capital, au peuple analphabet, aux femmes, aux jeunes, de choisir en égalité avec tout les autres — propriétaires, hommes, alphabetisés, pères de famille —, n'est pas démocratique. "Finalement", a-t-il vu venir la conclusion de l'intérieur de son cerveau (parce qu'il l'a vu venir, cette conclusion), "ce qui est démocratique c'est qu'un nombre réduit de personnes bloque les décisions prises par un nombre élargi de personnes. Ce qui est démocratique c'est qu'un nombre encore plus réduit de personnes dise "ferme ta gueule!" à la majorité qui a voté pour qu'un nombre encore plus élargi de personnes puisse voter. "Ce qui est démocratique", a-t-il enfin déduit, ravi de son raisonnement, "c'est de ne pas l'être"!

Ça passe ou ça casse (qu'é como quem diz: ou vai ou racha)

Estamos em plena época de Greves em França (por aqui é quase sazonal). Neste momento são os regimes especiais de reforma na SNCF (os caminhos-de-ferro franceses) que estão no centro do conflito. Mas o conflito pode alargar-se às Universidades que protestam contra a reforma do ensino superior (aprovada em pleno Agosto), com os estudantes a querem apanhar a boleia da greve da SNCF. Está criado o clima para a generalização da conflitualidade social. Sarkozy, provavelmente, tem aqui o conflito que mais deseja. Foi eleito com base na imagem de austeridade, e de intransigência, e pode agora provar que é o que diz ser. A esquerda, e em particular os sindicatos deveriam ter bem presentes que revindicações irrealistas, e injustas (ou pelo menos vistas como tal pela opinião pública) são uma benção para Sarkozy. A capacidade de mobilização dos sindicatos em França conseguiu no passado fazer grandes greves e obter cedências dos governos (particularmente de Chirac em 1995), no entanto nunca foram parceiros activos na elaboração de reformas. Conicidência ou, não raramente a esquerda esteve no poder desde o princípio da V República. Sarkozy sabe disso, e o sentimento dos franceses em relação às greves é sobretudo de saturação, em particular no que toca a regimes especiais - que são previlégios de classe profissionais específicas. No entanto Sarkozy também é um homem que faz concessões, geralmente dissimuladas (ver o artigo já linkado ali acima), porque é um político que governa sobretudo e acima de tudo para as sondagens. E neste momento a sua popularidade está em baixa, tal como a popularidade das revindicações dos grevistas. Vamos ver para que lado é que quebra. Enfim, à suivre...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Black: um filme para quem gosta de Bollywood

Ultimamente tenho visto muitos filmes de Bollywood, e estou a tornar-me completamente fã. Não que os filmes de Bollywood sejam necessariamente melhores dos que os de Hollywood (não são piores de certeza), ou melhores do que os filmes ocidentais que costumo ver, mas pelo menos um mau filme exótico é melhor do que um filme apenas mau. Dito isto, tenho visto alguns filmes Bollywoodescos muito bons. Não são apenas comédias românticas com muitas danças e cantorias, se bem que isso seja uma parte importante. Aliás é interessante que, para os cineastas indianos, danças e cantorias não são de todo incompatíveis com temas politicamente sensíveis como os conflitos fronteiriços com o Paquistão, a independência de Cachemira, ou o terrorismo. Suponho que qualquer ocidental as veria como mutamente exclusivas. Como é óvio o cinema indiano tem um olhar diferente do ocidental, mas por óbvio que seja vale a pena descobrir.
O melhor filme indiano que vi até agora foi o "Black" (apesar de não ter nem danças nem cantorias). É uma adaptação da biografia de Hellen Keller (pessoalmente, acho que é um dos mais notáveis seres humanos de que já ouvi falar). Black está longe de ser um remake de "The Miracle Worker". Excepto algumas referências em jeito de citação, os dois filmes têm pouco a ver. Logo aí se vê a diferença de olhar entre do cinema indiano e do cinema ocidental. Há, em particular dois aspectos, que num filme ocidental, sobretudo de Hollywood, seriam tabu. A mistificação a que são votados, no cinema ocidental, os heróis faz com que as suas fraquezas humanas sejam eliminadas, uma forma de desumanização portanto. Um aspecto é o romantismo/sexualidade da personagem principal. Como se pode imaginar ter uma vida sentimental e sexual para uma pessoa cega, surda e muda, mesmo Hellen Keller, não é evidente. Em "Black" o assunto não é evitado (contrariamente a "The Miracle Worker"), o personagem de Annie Sullivan - a professora que fez Hellen Keller sair do seu isolamento e que a ensinou a comunicar - é um homem. A relação que se establece entre Michelle - a Hellen Keller em "Black" - e o seu professor, vai evoluindo ao longo do filme, torna-se ambígua, e essa ambiguidade torna-se insustentável, mas o amor é impossível. Não somente o assunto é abordado como é absolutamente central no filme. O outro assunto que não é tabu é a relação de Michelle com a irmã. A posição que ocupa na família uma criança com dificuldades é sempre complicada de gerir, sobretudo a relação com os irmãos. Uma personagem como Michelle/Hellen Keller, que, sendo cega, surda e muda, exige muita dedicação e ao mesmo tempo, com todo o seu sucesso, desperta admiração, respeito e afecto, gera ciúmes na irmã, é inevitável. Um filme ocidental jamais focaria este problema, "Black" não lhe passa ao lado.
Mas há mais diferenças. Algo muito frequente nos filmes de Bollywood que já vi, mas particularmente bem conseguido em "Black" é o uso dos cenários como parte da realização, da composição da imagem. Como se se filmasse teatro, mas bem. O final também não é nada mau. Os papéis da aluna cega, surda e muda, e o professor que a consegue pôr em contacto com o mundo invertem-se, num golpe que tem tanto de ingenuidade tocante como de genial.
E para finalizar um palavra sobre Amitabh Bachchan, também conhecido por Big B. Actor maior de Bollywood (quem já entrou num video club indiano sabe-o), já foi um jovem actor de charme, galã. Envelheceu bem, tipo Paul Newman ou Marlon Brando, e faz tão bem um General austero e patriótico num conflito com o Paquistão como faz um incorrigível folião que já passou dos sessenta (lamento mas ainda não consigo fixar os títulos dos filmes em Hindi). Em "Black" faz o papel do professor/Annie Sullivan de forma - sem exagerar nas palavras - magistral. Em qualquer lado do mundo Amitabh Bachchan é um actor fabuloso, entre os melhores dos melhores.

Adenda (9/11/2010): Dois leitores chamam a atenção na caixa dos comentários para a designação de mudo que uso no post, e têm toda a razão. Mudo é quem não pode, por incapacidade, falar de todo, os surdos - como é o caso dos personagens destes filmes - podem falar (i.e. oralizar) se tiverem o treino que a fala requer num surdo. Surdo-mudo em geral - e no caso deste post em particular - é um atalho de linguagem pouco rigoroso, na realidade trata-se de surdos que não oralizam. Aqui fica o esclarecimento, com o meu pedido de desculpas.

P.S. - Para quem quiser saber mais coisas sobre o cinema indiano e asiático em geral aconselha-se este artigo que descobri aqui j há uns tempitos

Há dias assim



Há dias assim. Podemos andar cansados, preocupados, atarefados, saudosos, mas encaramos tudo com um sorriso nos lábios.

Hoje é assim, amanhã veremos. Até lá, enjoy.

domingo, 11 de novembro de 2007

89º aniversário sobre o armistício

O Fernando Martins tem um excelente texto no seu blogue, O Desconcertante, sobre a I Guerra Mundial.
V. texto do Zèd A Memória de Verdun (ou os soldados não gostam de planícies III)

Os soldados não gostam de planícies IV (ou a memória de Ypres)











sábado, 10 de novembro de 2007

A palavra aos munícipes: Lisboa também já tem orçamento participativo

Em boa hora a Câmara Municipal de Lisboa abriu portas ao orçamento participativo, permitindo que uma parte do seu orçamento seja discutida com os munícipes, associações voluntárias e presidentes de junta de freguesia.
A 1.ª das 3 sessões decorreu ontem, no auditório da Biblioteca Municipal de Telheiras, e nela estiveram todos os vereadores e o edil, perante uma plateia completa.
Também lá estive e participei, até pela colaboração que tenho dado (desde o início de 2007) em torno de propostas para uma melhor Lisboa: vd. contributos do Fórum Cidadania Lisboa (2 artigos saídos no jornal Público) e as Propostas por Lisboa do blogue Peão, acolhidas pelo projecto Lisboa Ideal (e que confirmo já estarem em linha no site da Associação Alkantara: vd. «Peões por Lisboa: propostas para a cidade»).
Na sessão, fiz 4 propostas, que aqui divulgo numa versão melhorada e que já encaminhei para a caixa de sugestões do orçamento participativo (lisboacontaconsigo@cm-lisboa.pt):
1) devolver a cidade aos cidadãos, reduzindo as barreiras causadas pelas grandes vias rodoviárias e pelo mau aproveitamento do espaço público: dei o exemplo concreto do isolamento do bairro de Telheiras face ao Lumiar, com o fosso originado pelo Eixo Norte-Sul e Av. Padre Cruz. Parto do pressuposto da necessidade de melhorar a ligação e circulação entre as partes contíguas nesta zona da cidade (Telheiras e Lumiar novo e antigo), para facilitar o usufruto (via acesso por marcha pedonal) de vários equipamentos colectivos aí existentes: a escola secundária, o mercado, a junta de freguesia e as finanças do Lumiar; o Parque do Monteiro-Mor, o cemitério e os museus do Traje e Teatro no Lumiar antigo; e a zona residencial e campo de jogos em Telheiras. Assim, na Av. Pe. Cruz (e no desvio para esta que sai do Eixo N-S) deviam-se fazer várias passadeiras para cortar o efeito de grande via rápida com que hoje é encarada a Av. Pe. Cruz. Também pensei em passagens subterrâneas, e falei em passagens aéreas, mas estas não são boa ideia, sobretudo para quem tem bicicletas, compras e carrinhos para transporte de crianças.
Além destas passadeiras, devia-se ajardinar os espaços que funcionaram como estaleiro de obras do viaduto recém-inaugurado (frente ao mercado e do outro lado da Pe. Cruz) e criar ligações entre o Alto da Faia e o Lumiar antigo, ou seja, um corredor que permita às pessoas irem directamente para o Parque do Monteiro-Mor e o cemitério pela parte baixa do Alto da Faia e pela zona do Lumiar defronte ao mercado (passando por debaixo do viaduto do Eixo N-S desde o baixo do Alto da Faia e acompanhando o muro do cemitério até à entrada do Monteiro-Mor).
Ademais, a própria Av. Pe. Cruz devia ser desnivelada, ou seja, passar em túnel até próximo do Estádio de Alvalade, pois o ruído do trânsito é muito elevado e é a melhor solução para acabar com aquele fosso na malha urbana. Existe esse projecto na CML, devia ser pensado para o futuro, não chega pôr barreiras anti-ruído no Eixo Norte-Sul.
2) o Arquivo Histórico da CML, o 2.º ou 3.º mais importante do país, faz 5 anos que está fechado, para vergonha e prejuízo da cidade e da olissipografia. Propus que se recuperasse um dos muitos palácios da CML para albergar temporariamente o mesmo, pois não faz sentido ter que esperar +5/10 anos até estar construído o edifício central projectado para o Vale de St. António. Tb. discordo que a Hemeroteca possa vir então a ser fechada, pois tem funcionado bem no B.º Alto, que é um bairro que deve manter a memória e vivência enquanto lugar de debate e reflexão culturais. E as Galveias não deverão ser só para exposições e lançamentos, devendo manter a valência de biblioteca, pois ali serve muitos leitores.
3) as piscinas municipais de Lisboa, chegado Agosto, passam a funcionar aos soluços: mesmo este ano aconteceu mais do que uma vez ter que andar a saltitar de piscina em piscina, pois uma fechava num dia, a outra só abria de tarde, etc., não havendo informação disponível para todo o mês em cada piscina (falo de 1 folha A4) e tendo os responsáveis que andar a telefonar de uns para os outros. Há que melhorar este bom serviço que a cidade tem, sobretudo num período como Agosto: é que nem toda a gente tem férias nesse mês.
4) a Quinta de N.ª Sr.ª da Paz (ao Lumiar antigo) devia ser recuperada para Museu da Criança e do Brinquedo, tal como sugerido há vários anos em pareceres técnicos municipais, fazendo desse espaço um pólo dinamizador duma zona com muita população jovem, incluindo muitos casais jovens com crianças.
Houve mais propostas, doutros munícipes, nomeadamente recuperar os espaços verdes da Ameixoeira e fiscalizar as obras para conter a especulação imobiliária; facilitar a criação de casas de fado na Mouraria através da isenção de taxas municipais, pois o bairro está muito inóspito (é verdade, precisa dum plano de recuperação urgente). E, claro, falou-se muito do estado de acentuada degradação da maioria das escolas municipais. Este é um ponto consensual para todos, mas de tão gritante devia fazer parte do orçamento ordinário. Sob pena de vir a absorver todo o orçamento participativo e, nesse caso, estas sessões não serviriam para nada.
Tanto quanto percebi, o orçamento participativo só tem 13 milhões de euros. Será, decerto, uma migalha num orçamento global que ainda não foi divulgado. Ainda assim, é necessário começar por algum lado. Para ser aperfeiçoado é necessário que os cidadãos pressionem para que haja mais sessões e maior fatia orçamental em discussão. E que os políticos se apercebam que 3 sessões são insuficientes; devia haver uma por cada bairro mais populoso, para que o debate fosse mais representativo, abrangente e participado.
As próximas sessões serão no Fórum Lisboa (12/11) e no cinema S. Jorge (a 14), sempre das 18h às 20h30. Apareçam e digam de vossa justiça, ficamos todos a ganhar.
Nb: na imagem, entrada do palácio da Quinta de N.ª Sr.ª da Paz.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Homossexualidade, Genética e Darwinismo

Andava a blogosfera lusa há uns meses a debater entusiasticamente o sexo anal - a estimada Patrícia Lança teve a cortesia de abrir as hostilidades (a propósito, o que é feito de Patrícia Lança?) - quando um anónimo deixou na caixa de comentários de um post do Womenage A Trois esta pérola:

Safo...... anda tudo muito anal
Estes amantes do sexo anal / homosexualidade até da a impressão que pretendem fazer crer que a homosexualidade é tão normal como a heterosexualidade. Tragédia.
Se fosse assim tão normal, 50% da população seria homossexual ou por outro lado a espécie comportava em si os genes da própria extinção.
As estatísticas desmentem esmagadoramente a perspectiva de normalidade.


(na realidade isto é apenas um pequeno excerto, há muito mais sumo na dita caixa de comentários)

Este tipo de argumento pseudo-científico ouve-se amiúde em conversas de Café, e vale a pena rebater. A pérola do Anónimo merece-me vários comentários:
- Ambas as palavras Homossexualidade e Heterossexualidade se escrevem com dois 'Ss'.
- Falar de Homossexualidade e sexo anal como se fossem a mesma coisa leva-me a pensar que o dito Anónimo não está muito familiarizado com a anatomia feminina. Caro Anónimo, se por mero acaso estiver a ler estas linhas aqui vai uma informação que lhe pode eventualmente ser útil: As mulheres também têm ânus, o que torna possível a prática do sexo anal heterossexual.
- Confesso que não percebi de onde saiem aqueles 50%. Quererá o anónimo dizer que tudo o que não existe em pelo menos 50% da população não é normal? Suponho que as estatísticas demonstram então que ser loiro de olhos azuis não é normal. Seguindo o raciocínio do anónimo "não venham cá dizer que ter olhos azuis e cabelos louros é tão normal como ser moreno de olhos castanhos, porque se fosse então 50% da população seria loura de olhos azuis".

Mas o mais interessante é a aquela parte "a espécie comportava em si os genes da própria extinção". Vamos por partes.
Primeiro: Qual é o problema, do ponto de vista moral, de comportar o genes da sua própria extinção? Estamos obrigados moralmente por uma razão qualquer a contribuir para o sucesso evolutivo da espécie humana? Seremos todos obrigados a ter filhos quer queriamos quer não? Se é esse o caso, então não são só os homossexuais que estão em falta, mas todos quantos decidem não se procriar, padres e freiras incluidos. Mesmo se fosse verdade que genes causadores da homossexualidade conduziriam a espécie para a extinção (já lá vou), isso não faz da homossexualidade nem mais nem menos condenável do ponto de vista moral. Uma coisa nada tem a ver com a outra.
Segundo: Apesar de não acrescentar nada, nem a favor nem contra a aceitação da homossexualidade, mas só para chatear quem usa este tipo de argumentos devo dizer que a frase "a espécie comportava em si os genes da própria extinção" do ponto de vista Darwiniano está errada. Claro que numa abordagem simplista e superficial pode parecer óbvio que genes causadores da homossexualidade deveriam ser eliminados pela selecção natural, mas aí o problema é da abordagem simplista e superficial. Ele há pessoas que se dedicam a estudar estas coisas mais aprofundadamente e chegaram à conclusão que há várias explicações possíveis para uma componente genética da homossexualidade compatíveis com a teoria darwiniana da evolução. (Pequeno à parte - Nunca é demais dizê-lo: seguramente que a homossexualidade não é determinada estritamente por factores genéticos, mas tem uma componente genética. Há indicações de que factores hereditários predispõem para a homossexualidade, tal como há evidências que factores ambientais/sociais contribuem para a homossexualidade. O mais plausível é que seja o resultado de uma conjugação dos genes e do ambiente).

E o resto do post é mesmo só para quem gosta dos detalhes técnicos. Aqui vão algumas explicações possíveis para a existência de genes da homossexualidade, compatíveis com o darwinismo:
1) Os mesmos genes que predispõe homens para a homossexualidade fazem com que as mulheres sejam mais férteis. Assim esses genes embora reduzam a fertilidade dos homens mantém-se na população porque aumentam a fertilidade das mulheres, e assim não são eliminados pela selecção natural. Este artigo apresenta evidências neste sentido. O recíproco também é válido para a homossexualidade feminina.
2) O altruísmo familiar. Se os homossexuais fizerem com que os familiares próximos, particularmente irmãos, tenham mais filhos, indirectamente favorecem a selecção dos seus próprios genes, uma vez que partilham uma grande parte dos seus genes com os familiares próximos.
3) Uma variante de um gene pode predispor para a homossexualidade quando o indivíduo é homozigótico mas aumentar a fertilidade ou sobrevivência quando é heterozigótico (homozigótico é quando um indivíduo herda duas cópias iguais do gene, uma do pai e outra da mãe, e heterozigótico quando herda dos pais variantes diferentes do mesmo gene). O exemplo clássico deste caso é o da Anemia Falciforme: os homozigóticos para o gene mutado da hemoglobina são anémicos, mas os heterozigóticos são resitentes à malária, mais do que os individuos portadores apenas da hemoglobina comum. Em regiões com forte incidência de malária os gene mutante é favorecido mesmo que seja fatal para os homozigóticos.

Para mais sobre o assunto ler este e este artigos (infelizmente o texto completo é só para assinantes).

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Darwin no Jardim


O Jardim Botânico faz anos: 129, no dia 11 de Novembro. A ocasião será festejada com várias actividades. A destacar, e em colaboração com o D. Maria, a peça/percurso Darwin no jardim, não só por ser um trabalho conjunto entre instituições, mas também porque literatura e jardins vão sempre bem.
Imagem: Albertus Seba (1665-1736) - Curiosity cabinet.




terça-feira, 6 de novembro de 2007

A Memória de Verdun (ou os soldados não gostam de planícies III)

Se há um sítio onde a memória da Guerra se materializa, se torna palpável, tangível, é em Verdun. Em Verdun, quem nunca fez a Guerra tem uma imagem muito concreta do que possa ser. A Batalha de Verdun foi das mais longas e das mais sangrentas da História. Durou dez meses, morreram mais de 300 mil soldados (quatro ou cinco vezes o número de soldados americanos mortos em toda a Guerra do Vietname). No fim da batalha, dez meses e 300 mil homens mais tarde, as posições ocupadas eram as mesmas do início. A expressão "carne para canhão" ganha outro significado, um significado profundamente humano. São quilómetros planícies ligeiramente acidentadas, povoados ainda de trincheiras e fortes. Difícil é não imaginar soldados entrincehirados, sob uma chuva de Obuses. O trabalho de memória no local está muito bem feito, são vários os memoriais e monumentos, e muitas as referências a locais que por uma ou outra razão foram importantes no desenrolar dos acontecimentos, sempre bem indicados. Leva algum tempo a ver tudo o que há para ver (eu não conseguiu, terei que voltar), mas isso também é necessário para perceber a dimensão da Batalha.
Diz a máxima (de Estaline?) que uma morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística. Em Verdun foram 300 mil tragédias, não há volta a dar.

Os soldados não gostam de planícies I e II

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Um estranho numa terra estranha*

O título, emprestado da ficção científica, é o que melhor resume o que sentem os personagens de Kazuo Ishiguro e é essa característica que me faz seguir a sua obra.
Não que tenha saído um novo livro, mas terminei há pouco Quando éramos orfãos, (comprado, na feira, a 5 € no monte de saldos da Gradiva, que o nosso mercado editorial tem destas coisas), e, novamente, para além das memórias e da viagem (interior) do personagem, lá estava a estranheza, desta feita de um improvável detective inglês em Xangai dos anos 30, mas que também pode ser de um mordomo numa casa senhorial inglesa, no seu romance mais conhecido, Os despojos do dia, ou até de um grupo de clones, no recente Nunca me deixes.
E é o mesmo desconforto existencial que perpassa na sua narrativa, até já não haver lugar para o humano, e que engloba toda as relações sociais, da família ao emprego, mas sobretudo as relações afectivas, como se aí residisse a essência da compreensão do que é o humano, mas que está, naturalmente, vedada a personagens que se remetem para uma auto-contenção permanente.
Ignoro se este traço provém de ecos autobiográficos do escritor nascido no Japão, Nagasaqui, mas que vive em Inglaterra desde os seis anos e que tem como objectivo escrever romances internacionais e, portanto, desde logo gerados para além do que cada um consegue identificar como familiar ou próximo.
*HEINLEIN, Robert A. - Um estranho numa terra estranha. Europa-América.

domingo, 4 de novembro de 2007

Ainda Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Já que estamos em maré de citar Eça, aqui vai outra, novamente de "O Mistério da Estrada de Sintra", o tal romance execrável escrito a meias por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Desta vez é uma citação que verbaliza bem o móbil do crime que é ser-se de esquerda:

Interessava-me detidamente, e o único movimento que encontrava no meu coração - sinceramente o confesso - era o do ódio. Ódio àquela mulher, ódio inexplicável, monstruoso, como aquele que imagino ser o de um enjeitado à sociedade em que nasceu!
A distinção aristocrática, a elegância da raça daquela gentil criatura aviltava-me, enfurecia-me, revolvia no meu interior esse fermento de rebelião demagógica que todo o plebeu traz sempre escondido, como uma arma proibida, no fundo da sua alma.
Aquela mulher tinha, certamente, um espírito menos culto do que o meu, uma razão menos firme, uma vontade menos forte, um destino menos amplo. Para compensar estas depressões assistia-lhe uma superioridade repugnante, inadmissível: a que procede da casta. Um berço de luxo, uma constituição delicada, um leito de penas, a infância resguardada na sombra, entre estofos, sobre tapetes, ao som de um piano - isto basta, para que fique ridículo, miserável, desprezível ao pé dela um homem que se criou ao clarão do dia, à luz do Sol, tendo por tapetes a aspereza das montanhas, e por melodias o roncar das carvalheiras e o gemer dos pinhais!

Arroz de Favas


Sugerido pelo post anterior do Zèd (que está em Paris) lembrei-me, para os petiscos deste Domingo, daquela magnífica passagem sobre o arroz de favas descrita por Eça de Queiroz no seu livro A Cidades e as Serras.


«E pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas! ... Tentou todavia uma garfada tímida — e de novo aqueles seus olhos, que pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: - óptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!»

Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras.


Para mais ementas 'Queirozeanas' ver aqui.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O que diriam Eça de Queirós e Ramalho Ortigão dos seus velhos posts (se fossem bloggers)

O que pensamos hoje do romance que escrevemos há catorze anos?... Pensamos simplesmente - louvores a Deus! - que ele é execrável; e nenhum de nós, quer como romancista, quer como crítico, deseja, nem ao seu pior inimigo, um livro igual. Porque nele há um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quase tudo quanto um crítico lhe deveria tirar.

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão,
no Prefácio de "Mistério da Estrada de Sintra" (3ª edição)

Ares do campo

Tenho para mim que as aldeias são locais sinistros, habitadas por psicóticos. E se esta «verdade» pessoal pode ser aplicada a qualquer ponto do globo, em Portugal, onde os níveis de escolaridade continuam assustadores, as oportunidades de emprego inexistentes e as ligações geográficas difíceis (o número de autoestradas e IPs, geralmente pensado para quem vem de fora, não tem relação directa com o número de carreiras rodoviárias e/ou ferroviárias entre aldeias, vilas e cidades), sucedem-se casos como o do brutal assasinato da aldeia de Borralheira de Orjais, perto de Covilhã. Quatro «bacanos» bêbedos, matam um outro «bacano» bêbedo. Tanto o grupo dos executantes, como o executado, reunem em si, os estereotipos da aldeia: dois rapazes «brincalhões», o «tonto», o imigrante e o bêbedo.
Conseguimos, até, visualizar todo o ambiente: uma aldeia pobre, sem empregos - as chaminés industriais da Covilhã já há muito se apagaram, onde a terra entrou num pousio mais ou menos permanente, sem escola, onde não há nada, a não ser um café, onde todos bebem e bebem muito.
A partir daqui, imaginamos a violência surda com que se perseguem, que exercem uns sobre os outros, maridos bêbedos sobre mulheres embrutecidas; rapazes bêbedos e analfabetos sobre raparigas «shakirizadas» e analfabetas; famílias sobre famílias por questões passadas, presentes e futuras; patrões senhoriais sobre empregados desprotegidos; velhos bêbedos e rancorosos sobre outros velhos bêbedos e rancorosos, tudo mediado pelas únicas autoridades que conhecem, para os homens o dono do café, para as mulheres a recepcionista do centro de saúde e para todos a televisão. É natural que, de vez em quando, alguma coisa «corra mal» e acabe nas páginas dos jornais.
E por muito que tenhamos um sorriso escarninho direccionado aos pavilhões polidesportivos, aos ranchos folclóricos, ao canto coral, às bandas do coreto, às senhoras dos arraiolos e aos homens do chinquilho, já tudo parece preferível a este «pântano» alcoolizado, de onde as aldeias não conseguem emergir.
Imagem: Grant Wood - Gótico Americano, 1930.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

A morte aberta


«A ligação entre a morte e a comunidade é algo que os próprios minhotos sublinham repetidamente. Comentários como "ricos ou pobres, aqui somos todos iguais; acabamos todos no mesmo lugar" ou "nisto, pelo menos, somos todos o mesmo", são reacções padrão que escutamos sempre que o assunto da morte é aflorado ou sempre que passa um funeral.

É este também o significado do estado "aberto" da casa dos familiares do morto, que mantém as suas portas abertas durante os três dias de velório. (...) No contexto do enterro a "abertura" deve ser compreendida de um modo semelhante àquele que é utilizado para qualificar as pessoas. Por exemplo, quando um minhoto diz que alguém é um homem aberto, está a sugerir que o indivíduo em causa é sociável, aberto à sociedade».

João de Pina-Cabral, Filhos de Adão, Filhas de Eva. A visão do mundo camponesa no Alto Minho.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A democracia também passa pela memória pública

A Lei da memória histórica foi hoje aprovada pelo parlamento espanhol. É uma lei de grande alcance histórico e político. Mais detalhes aqui.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O problema dos transgénicos não é ecológico, nem de saúde pública, é económico

Para concluir o post sobre transgénicos que escrevi há tempos, deixo aqui uma citação, da autoria de José Feijó. José Feijó, para além de um dos melhores professores que tive, é neste momento um dos mais bem sucedidos investigadores em Biologia Vegetal em Portugal, e tem vindo a público várias vezes no debate sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). Esta citação consta de uma carta ao director, enviada ao director do jornal Público, há uns tempitos largos, e publicada naquele jornal.

"Saúdo por fim o seu editorial de J. Manuel Fernandes, que reputo de sensato e lúcido. Algumas pequenas correcções: as variedades trangénicas JÁ PASSAM POR TESTES DRACONIANOS para serem aprovados. Este é aliás um argumento circular já que, onde a priori se vê vantagem para o consumidor, foi um método usado e abusado pelos lobbies das multinacionais para arredarem deste mercado todo o tipo de "start-ups" e pequenas companhias. Este tipo de tecnologia é uma verdadeira apologia do "small is beautifull": vários laboratórios nacionais com menos de 10 pessoas produziram já variedades de plantas transgénicas. Apesar de terem a ver com espécies que nos dizem culturalmente respeito (oliveira, amendoeira, castanheiro, videira, etc.) e resolverem problemas concretos, nenhuma delas verá (provavelmente) algum dia os circuitos comerciais, já que as exigências de testes e verificações são incomportáveis para todos quantos estejam fora das grandes multinacionais. Desta forma, um controlo de qualidade draconiano, que poderá ser visto como um benefício, tem-se traduzida as mais das vezes no esmagamento de iniciativas de adaptação e melhoramento local, que sistematicamente leva a que apenas variedades de elevado lucro sejam lançadas no mercado. E o mais curioso é que grande parte destes testes e verificações não têm qualquer justificação em face dos riscos (por enquanto mínimos) das plantas transgénicas."

Ou seja, quando temos os governos pressionados por uma opinião pública que não está devidamente informada, mas que é bombardeada com desinformação temos a receita para o desastre. Por uma lado a pressão da opinião pública leva a que os governos imponham um controlo rigoroso sobre os OGMs, por outro impede que esses mesmo governos dêem, por exemplo, incentivos - subsídios, porque não? - a pequenas "start-ups" que podem fazer um bom uso da tecnologia das OGM (bom uso leia-se: serviço público). Assim os governos intervêm em força onde devem intervir com moderação e não intervêm de todo onde devem intervir para incentivar. As grandes multinacionais agradecem.
No post anterior comparei os OGMs às Farmacêuticas que processam os países do "terceiro mundo" por produzirem genéricos. Os dois fenómenos parecem-me ter bastantes paralelos: O mercado é livre e autoregula-se segundo o dogma neo-liberal, conquanto o monopólio esteja salvaguardado por uma patente.

Do blablablá dos beatos da direita ao papagaio-de-pirata (ou acima de tudo um desafio e uma paixão brasileira)

Sem concorrente em toda a América Latina, a Fifa não teve escolha se não a de decretar o Brasil como sede da Copa do Mundo de Futebol em 2014 (a segunda, pois a primeira foi em l950). Resta saber agora de como a burocracia corrupta e ineficiente do país vai se valer disso. Eu não tenho dúvida alguma de como isso se dará. Mesmo antes do parecer final da entidade máxima do futebol mundial, se falava por aqui de projetos faraônicos, como a construção de vários estádios, hotéis, aeroportos e et cetera e tal (quando apenas reformas e adaptações bastam). Proposta que atiça a voracidade de muitos políticos populistas e de empreiteiras que esperam com isso faturar em cima do dinheiro público, que deverá jorrar abundantemente a exemplo do que aconteceu com a organização dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro

O orçamento para o Pan do Rio saiu de controle devido à má administração e, principalmente, à corrupção endêmica, tornando o preço final para o contribuinte brasileiro cerca de oito vezes mais caro que as estimativas iniciais, passando de 409 milhões de reais (quase 162 milhões de euros) para 3,7 bilhões (aproximadamente 1,5 bilhão de euros). Apesar das várias denúncias, até o momento nenhuma investigação foi feita. E com a Copa não será diferente, mesmo porque é tradição tupiniquim o futebol, a política populista e as falcatruas andarem juntos. E de mãos dadas como eternos enamorados.

Apesar disto, não sou contra o Brasil sediar a Copa, pois não podemos sacrificar o cachorro por ter pulgas. E neste caso, são bem gordas as danadas. A contrário. Gosto de futebol e desejaria ver (como a maioria dos brasileiros) uma Copa em Terras Brasilis. Sou, na verdade, contra o velho discurso da esquerda jurássica que ainda acha que futebol é o ópio do povo; ou daquele eterno blablablá de beato da direita civilizada para quem esse dinheiro deveria ser gasto com ações sociaiscomo se isso fosse capaz de resolver os profundos problemas da sociedade brasileira; ou o ufanismo ridículo de que o Brasil é o campeão antecipado.

Mesmo sabendo sobre o seu potencial para desperdícios e corrupção, o Brasil pode e deve sim sediar esse evento futebolístico com competência. Mas que o faça com dignidade, ética, rigor do poder público na fiscalização e, acima de tudo, dentro de suas possibilidades financeiras. E que venha a Copa-2014! OLÉ.

PS: E não é que a farra com o dinheiro público começou. A comitiva brasileira foi pra Zurique composta por 10 governadores, cinco prefeitos de capitais, vários ministros de Estado e o Presidente da República. Entre os ministros, estava a do Turismo, Marta Suplicy (sim, aquela que durante o caos aéreo disse para os usuários relaxarem e gozarem), que não podia ver uma emissora de TV entrevistar o presidente Lula para ficar com a cabeça sobre seus ombros como uma autêntica papagaio-de-pirata.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Nos sentámos a chorar*

Sobre a mais recente beatificação massiva do Vaticano só se pode considerar que é um ataque directo a um país que está efectivamente a separar as águas estatais das espirituais, entre dois Estado laicos podia ser considerado uma declaração de guerra. Não deixa, contudo, de ser penoso ver que a Igreja a qualquer perda de poder temporal reaja sempre com ofensivas cheias de rancor contra os «culpados» que vai enumerando numa lista que já tem alguns séculos e que se pode enunciar mais ou menos por esta ordem: a Reforma; a Revolução Francesa; a Maçonaria; a Revolução Industrial; o Marxismo; o Capitalismo. Todos estes processos históricos geraram, então, golpes profundos no status quo católico e que podem ser sumarizados nalguns pontos como a emergência das dinâmicas urbanas; alteração dos modelos familiares; a modificação de relações profissionais; o feminismo.
A Igreja, de tanto atacar, feriu-se, perdeu-se, parece incapaz de reflectir sobre si própria, e, sobre a suas origens que são urbanas, que vão contra uma série de constrangimentos sociais e de leis morais, sobre as propostas iniciais de renovação e libertação do ser humano, sobretudo do que está mais desprotegido e longe do poder. E enquanto mais não fizer que promover uns beatos fascistas à espera de um milagre de retorno a um Franquismo global, «junto aos rios da Babilónia nos sentámos a chorar».
*Salmo 137 - Salmo colectivo de súplica, no âmbito do exílio do povo hebreu na Babilónia.