sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Crónica animada do neo-liberalismo actual...

... poderia ser o título desta peça do Circo Ripopolo, que é de estrondo!

Nota importante: quando clicar no link, não maximize o ecrã, deixei-o estar no tamanho em que ele aparece.

Boris Yefimov, o cartoonista das estepes (1900-2008)


Um dos cartoonistas mais relevantes da actualidade, Boris Yefimov, faleceu ontem, aos 108 anos. Polaco, filho de sapateiro judeu, refugiou-se em Kiev após a invasão alemã, tendo depois rumado a Moscovo, onde assentou arraiais. Aí fez uma longa carreira como caricaturista no jornal soviético Izvestia. As suas relações com Estaline, que 'caricaturou' amiúde, foram ambíguas, tanto pessoalmente como politicamente. Ficaram célebres as suas demolidoras caricaturas anti-nazis, de que aqui vos deixo uma, bem gostosa.

Descobridora de que Coca-Cola mata espermatozóides ganha Ig Nobel

ignobel A geneticista americana Deborah Anderson levou o prêmio de Química do Ig Nobel 2008 ao comprovar que a Coca-Cola é um eficiente espermicida. Mas na mesma categoria, uma equipe de investigadores taiwaneses dividiu o prêmio por chegar a resultado completamente oposto. Ou seja: de que o refrigerante não funciona como contraceptivo. Segundo a americana, métodos diferentes utilizados nas pesquisas explicam a contradição. O Ig Nobel foi criado em 1991 pela revista de humor Annals of Improbable Research . O troféu tem como objetivo contemplar pesquisas que "não deveriam ter sido feitas e que não podem ou não devem ser repetidas". Só são premiadas investigações verdadeiras e que tenham sido publicadas. Mais.

Quem fica ao pé do lume é que se aquece

Este provérbio popular ilustra ainda, penosamente, uma prática frequente entre quem lida com a coisa pública por cá. O recente caso das casas municipais de Lisboa atribuídas de modo discriccionário é disso exemplo. Este segredo de polichinelo tem pelo menos 20 anos, mas só agora teve honras de manchete e acompanhamento em vários media. Mais vale tarde que nunca. Aparentemente, começou como arma de arremesso contra a recandidatura de Santana Lopes a Lisboa, mas depressa se espalhou generosamente por várias vereações, atingindo deste modo a vereadora Ana Sara Brito, por ter beneficiado pessoalmente por esta prática quando era vereadora no mandato de Abecasis (parece que foi sob essa presidência que tudo começou).
Em post anterior, apoiara a decisão de se criar um regulamento para acabar com este esquema opaco e discriccionário, ignorando que a procissão ainda ia no adro. Aliás, a ex-vereadora Nogueira Pinto propusera isso mesmo em 2004 e foi ignorada!
Estão em causa c. de 4 mil fogos, que deveriam ter sido aproveitados para estancar a sangria populacional e a sua polarização crescente entre ricos e pobres (condomínios de luxo vs. bairros sociais) e para trazer mais receitas, mas que, ao invés, eram arrendados a amigos por valores irrisórios. As casas construídas pela EPUL obedeciam a regulamentos e visavam obter lucro (quanto a más gestões da empresa, isso é outra história), por isso, é ainda mais gritante esta dualidade de critérios.
Mas a elite por cá tem as costas quentes. Os jeitinhos ainda são recursos comuns e tolerados, e predomina uma concepção patrimonial da coisa pública numa parte significativa daqueles que passam pelo Estado, ou seja, o bem público é gerido de acordo com as vontades e humores de quem manda. É uma lógica de Ancien Régime, para nos relembrar como ainda são as nossas elites: conservadoras, monolíticas, contíguas e ávaras de privilégios.
Rui Tavares avançou aqui propostas interessantes (passíveis de compatibilizar com a proposta municipal, que privilegiará arrendamento para jovens e idosos), Fernanda Câncio aborda o caso no DN de hoje, de que respigo esta passagem certeira: "O que está em causa, e não será de mais repeti-lo, é o que de pior existe em qualquer administração pública - a opacidade, o favorecimento discriccionário, a assunção dos bens públicos como propriedade de «quem está» e o seu tráfico entre escolhidos".
Oxalá este caso seja sintoma de maior exigência democrática, de transparência, regulamentação e igualdade de oportunidades. E que, de caminho, se passe duma política remendista de habitação social para uma efectiva política social de habitação e de fruição da cidade, de ordenamento e planeamento urbanísticos para já, e não para daqui a 30 anos. É que é hoje e aqui que vivemos. Em 2040, não saberemos se ainda cá estamos. Deixem o amanhã e as megalomanias para os astrólogos.
PS: não percam o «Inimigo Público» de hoje e o seu dossiê "Casas camarárias já vinham com máquina de lavar cunhas". São 3 páginas de bom humor.

REUNIÃO URGENTE

Tenho uma reunião urgente na segunda.

E a França vai entrar em recessão técnica muito em breve, por causa da crise financeira. Embora o governo, como lhe compete, recuse falar em recessão.

Ninguém está a salvo (nem de reuniões urgentes nem de recessões nem de palavras, mesmo recusando-as).

Álvaro de Campos está entre as minhas leituras obrigatórias -- é mais uma coisa urgente para fazer, entre a obliteração de dois bilhetes, um de autocarro e o outro de metro.

Boa sexta-feira de manhã para todos.

Debate entre os papagaios Palin e Biden não fará qualquer diferença

Para quem esperava por gafes, o debate entre os candidatos à vice-presidência dos EUA também foi frustrante. Tanto Biden como Palin evitaram o confronto direto e mais quente. Na verdade, foram meros papagaios a repetir as propostas e ataques de seus respectivos candidatos à presidência. Biden se portou como um perfeito cavalheiro ao deixar a sua arrogância de lado. Mostrou estar bem preparado com serenidade. Do outro lado, viu-se uma Pitbull de Batom bem mancinha, mas mais segura e mais ensaiada também. Em suma: pelo desempenho de ontem, ambos não deverão fazer qualquer diferença na escolha do eleitor americano. Entretanto, uma sondagem da CNN, realizada logo após o debate, deu vitória a Biden com 51%, contra 36% de Palin, números bem próximos dos obtidos por Obama e McCain.

Foto: Reuters

Chega de saudade

Este post da Cláudia sobre saudosismos «salazarentos» por parte de instituições do Estado, levou-me a outro momento nacional das férias em que conheci Guimarães.
Visitei o centro histórico (o largo dos anúncios de cervejas durante os campeonatos de futebol, na vida real está deserto, sem esplanadas, ou multidões a brindar, mas a desolação das cidades portuguesas não tem, aqui, lugar) e o complexo arquitectónico formado pelo castelo e Paço Ducal.
Depois da visita ao Paço decidi, erradamente, comprar um livrinho/folheto explicativo que pelo aspecto gráfico me pareceu bem. Foi quando o li que comecei a ficar confusa. A prosa de Barroso da Fonte, designa Guimarães de «Altar da Pátria» e o sítio dos monumentos como «Colina Sagrada». Lá, viveram Duques magníficos, cheios de «ensejos» e «sonhos» e «Santas Duquesas», sempre os «melhores representantes da coroa Portuguesa», e toda a história do Paço vai sendo narrada neste estilo, até que nas «breves notas sobre o restauro», o saudosismo sobe mesmo de tom e inicia com o deslumbramento de Salazar ao visitar ao «Colina Sagrada» e de como depois do restauro «Salazar discursou do alto do castelo para muitos milhares de Portugueses que enchiam o campo de S. Mamede (onde diz a tradição se travou a decisiva Batalha com o mesmo nome)».
Já muito baralhada, pensei ter comprado um folheto comemorativo das Festas Centenárias de Guimarães, de 1940, portanto, mas a edição era de 1993. Depois, ocorreu-me que seria de uma inflamada editora vimaranense, mas era do IPPAR. Instituição que até mandou traduzir o dito texto, certamente para que a mensagem se possa espalhar em várias línguas, noutros países.
Agora que se pode ficar a perceber que o IPPAR não tem qualquer critério nas suas publicações, pode, e sabe-se lá como serão outros livros de divulgação de outros monumentos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Massacre de estudantes faz 40 anos. Mas México continua calado.

Detenidos_octubre_1968

Quarenta anos depois do massacre da Praça Três Cultura, ou Tlatelolco, que deixou dezenas de estudantes mortos, o governo do México ainda não respondeu quem ordenou a matança. A Anistia Internacional divulgou uma nota pedindo às autoridades mexicanas um maior empenho nas investigações para esclarecer definitivamente "questões inquietantes que permanecem sem resposta". Quatro décadas depois, ainda não há sequer consenso sobre o número de mortos. Naquela altura, o governo afirmou que “apenas” 30 pessoas morreram. Mas organizações internacionais e correspondentes estrangeiros que testemunharam os acontecimentos dizem ter contado mais de 300 cadáveres. O massacre ocorreu dias antes dos Jogos de Verão da Cidade do México, em 2 de outubro de 1968. Por volta das 18h, policiais, militares e homens à paisana rodearam a praça e abriram fogo contra os manifestantes, utilizando veículos armados, tanques de guerra e armas pesadas.

Não vale a pena exagerar, há soluções para a crise que são menos dolorosas


Capa desta semana do Siné Hebdo (publicação dirigida por um dos cartoonistas preferidos do Peão)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Palin e Biden têm muita piada (seria cômico se não fosse trágico)

burro Com toda esta crise financeira a rondar o mundo, nada melhor do que ter dois candidatos à vice-presidência dos EUA brincalhões, para desanuviar nossas cabeças apreensivas e nos fazer rir às pencas. Em sua primeira entrevista à TV ABC, a senhora Palin afirmou ser especialista em política externa só porque poderia ver a Rússia de sua casa (no Alasca). Em outra entrevista à CBS, já no meio da atual crise, ela elogiou McCain por “defender a regulamentação dos mercados capitais”. "Mas McCain é contra a regulamentação. Daria pra você me citar alguma medida que ele tenha tomado para regular a economia", perguntou a jornalista super-curiosa. E Palin sem pensar um minuto sequer (tenho lá as minhas dúvidas se ela de fato é um ser pensante) lascou esta na cara da pobre jornalista: “Vou verificar e te falo depois". Já o vice de Obama não deixa por menos. Depois de pedir pra que um senador paraplégico ficasse de pé durante o seu discurso, Joe Biden se mostrou um profundo conhecedor de história americana contemporânea ao afirmar, na semana passada, que “Roosevelt foi à TV acalmar o mercado em 1929”. Até aí, tudo bem não fosse pequenos detalhes. Ah, esses malditos detalhes! Em 1929, não havia ainda a TV e muito menos Roosevelt era presidente. Mais aqui e aqui.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A ideologia no seu melhor (ou pior)

Le capitalisme financier n'est pas seulement anglo-saxon. Il est universel et a de beaux jours devant lui, tout simplement parce qu'il n'est pas une création arbitraire, comme pouvait l'être un système de type soviétique. Ce capitalisme-là est l'expression d'innombrables processus spontanés créés pour répondre aux besoins des êtres humains. Il remplit deux fonctions fondamentales : orienter les ressources d'épargne vers les activités où elles obtiennent la plus forte rentabilité et prendre en charge les risques de la manière la plus efficace. Certes, le capitalisme financier ne peut pas remplir ces fonctions de manière parfaite, parce que l'information ne peut jamais être parfaite. Mais il les remplit mieux que n'importe quel autre système imaginable.

Les difficultés actuelles ne sont en rien une manifestation de la faillite de ce système. En effet, la crise financière est essentiellement une crise de l'interventionnisme étatique. Elle résulte en particulier de l'extraordinaire instabilité de la politique monétaire américaine au début du XXIe siècle, politique monétaire qui n'est évidemment pas contrôlée par le marché, mais décidée arbitrairement par des autorités publiques.

Pour que ce capitalisme financier prenne fin, il faudrait ou bien que tout le système financier soit étatisé - ce qui est exclu - ou qu'il explose parce qu'il constituerait un système incohérent, ce qui n'est pas le cas. Sur le long terme, la crise actuelle apparaîtra comme un simple accident de parcours qui aura peut-être permis de liquider les entreprises financières les plus mal gérées et d'inciter les autres à mieux évaluer les risques. La plus grande menace vient du renforcement probable des réglementations.


E isso mesmo camarada! Para acabar com a crise, devemos acabar com a regulação dos Estados. E isso, mesmo se os mercados não conseguem entendê-lo : porque é que Wall Street esta em cada quando o congresso não aprova o Plano Paulson. Se o mercado (quem é esse?) fosse inteligente e realmente liberal, ele devia receber essa recusa (com a ajuda dos mais liberais dos republicanos) com champagne.

PS : o autor do texto citado chama-se Pascal Salin. Segundo me dizem é um dos economistas mais liberais por terras francesas.

Uma pergunta ingénua

Ao certo, o que é que um especulador faz de produtivo e útil para a sociedade?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ministro culpa a democracia pelo desmatamento da Amazônia

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) denunciam que o desmatamento da Amazônia brasileira mais que dobrou em agosto na comparação com o mês anterior. Foram mais de 756 quilômetros quadrados de floresta derrubada. Segundo o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, as responsáveis por este novo aumento da área desmatada são as campanhas eleitorais municipais (???). De certo, estão a usar todas essas árvores pra produzirem cartilhas de suas respectivas campanhas, não é senhor ministro?. Vai ser democrata assim no raio que o parta. Mais...

Ler -

Depois de um regresso algo frouxo, o Câmara Clara, de ontem, sobre a leitura infanto-juvenil resultou em aceso debate entre Isabel Alçada e Francisco José Viegas.
A representante do Plano Nacional de Leitura apresentou uma visão confusamente instrumental e burocrática da leitura, que passou tantou pela fisiologia (cientistas, médicos e enfermeiros, maravilhados com o PNL) como por somas fabulosas dos efeitos da política do Governo (1 milhão de crianças a ler e todos os dias e 1 hora por dia!).
Confesso que esta perspectiva me congela a parte do cérebro que era suposto a leitura desenvolver. Claro que ter um PNL é bom, e ninguém duvidará da urgência de aumentar os níveis de literacia, mas para ler o quê e porquê?
E foi aqui que Francisco José Viegas esteve em grande forma, quando insistiu que ler não é uma experiência uniforme (ler um jornal desportivo, não é o mesmo que ler um romance), nem uma simples competência de juntar letras para delas extrair um significado, e, sobretudo, quando reforçou a ideia de que a Escola não deve transmitir essa noção de processo em que tudo se equivale, mas antes valorizar o cânone literário.
É difícil crer que a leitura se desenvolva por degraus evolutivos, numa equação que vai do mais ligeiro para o mais complexo, e ainda mais difícil é crer no «socialismo» do Plano. No final a sua intenção niveladora, acabará por acentuar as desigualdades e se «não esticar a corda» à literatura, milhares de alunos não poderão por ela subir, aí sim, a mais elevados patamares académicos, profissionais e pessoais.
Imagem: Magritte- La lectrice soumise, 1928.

Não sei se dá para rir, se para chorar...

No fim deste vídeo ouve-se uma piada de uma ironia brutal que não me sai da cabeça. Hoje têm ainda mais menos piada do que antes. É mais ou menos assim:

Dois velhos camaradas de partido encontram-se, e diz um para o outro:
- Afinal, tudo aquilo que nos contaram sobre o comunismo era mentira.
Ao que o outro responde:
- Mas isso nem é o pior. O pior é que tudo o que nos contaram sobre o capitalismo era verdade.

O “sim” dá uma surra na elite. E o Equador aprova nova Constituição.

rafael correaSegundo as primeiras sondagens, o projeto da nova Constituição do Equador foi aprovado por aproximadamente 70% dos eleitores no referendo realizado hoje, resultado que fortalece sobremaneira o presidente Rafael Correa e dá a ele carta branca pra promover as mudanças sociais e econômicas fundamentais ao país, carcomido por uma elite política corrupta e neoliberal. Com a aprovação do novo texto constitucional, os equatorianos iniciarão um regime de transição no qual uma comissão regulará as atividades do Estado até a realização de eleições gerais, inclusive para a Presidência, previstas para o início do ano que vem. Entre as mudanças aprovadas, destaco estas:

Propriedade - Além da propriedade pública e privada, o Estado deverá garantir o direito à propriedade comunitária, associativa, cooperativa e mista. O novo texto constitucional dá poderes ao Estado de expropriar terras não produtivas para a reforma agrária e os latifúndios serão proibidos.

Economia - A substituição da "economia de mercado" pela "economia social". Ou seja, caberá ao Estado o controle de setores considerados estratégicos, como o petróleo, mineração, telecomunicações, água e agricultura. Neste caso, o Banco Central deixará de ser autônomo e a política monetária será regulamentada pelo Poder Executivo.

Aborto - O direito à mulher de decidir quantos filhos pretende ter. Apesar de não despenalizar o aborto, o texto deixa brechas para a interrupção da gravidez.

União civil homossexual - A aprovação da união civil entre os homossexuais, com os mesmos direitos dos matrimônios heterossexuais.

Drogas - O uso de drogas passará a ser tratado como uma questão de saúde pública, não mais como ato criminoso. Qualquer tipo de punição aos usuários de drogas está proibido. Mais...

domingo, 28 de setembro de 2008

Rain Drops Keep Falling On My Head

sábado, 27 de setembro de 2008

Cash for Trash

Paul Newman (1925 - 2008)

HELP!!!! É o Bush em ritmo de Beatles...