sábado, 15 de janeiro de 2011

A Intifada do Jasmin (e a Wikileaks)

Segundo a Wikipédia, a Revolução do Jasmin é também conhecida pela "Revolta Sidi Bouzid" ou "Intifada de Sidi Bouzid". E porque não a "Intifada do Jasmin"? Intifada é um levantamento popular, e esta é-o na mais genunina das formas. Mas, por trágica que seja - e é - a morte de Mohamed Bouazizi, há algo de poético nesta revolta que começa pelo acto desesperado de um homem que se imola pelo fogo e acaba na queda da ditadura de Ben Ali. Se esta revolta se vai transformar em revolução é o que vamos ver nos próximos tempos. E já agora uma pequena questão acessória que me parece interessante: Qual a importância das revelações da Wikileaks sobre o regime de Ben Ali no desencadear desta revolta? Há pouco ouvi Mansouria Mokhefi (especialista em política do Margrébe) na BFM TV referir que as revelações da Wikileaks foram largamente retomadas pela blogosfera tunisina. Haverá uma ligação entre as duas coisas?

A revolução de jasmin

Foi preciso quase um mês de luta para derrubar 23 anos de ditadura na Tunísia. Caiu com dezenas de mortes, mas de modo pacífico pelo lado do povo. A luta foi por coisas simples: pão, trabalho, habitação, liberdade. O ditador, Ben Ali, fugiu e foi-se refugiar na Arábia Saudita. Onde é que já vimos isto?

Agora, o primeiro-ministro (e actual presidente interino) anunciou eleições dentro de meio ano.

Para o Magrebe e o mundo, é uma boa notícia. Os povos árabes têm aqui um bom motivo de esperança. Já os seus líderes têm um bom motivo de reflexão. Esta mesma opinião é avançada por estudiosos árabes. Melhor ainda; subscrevemos por baixo.

PS: para quem gosta de paralelismos, que tal pensar nesta frase dum manifestante: «Have you ever seeen!? A president who treats is people like idiots!!!».

Mistérios de Lisboa - o livro

O filme Mistérios de Lisboa de Raul Ruiz conduziu-me para as páginas de Mistérios de Lisboa, o romance de Camilo Castelo Branco. A adaptação do livro acentua os aspectos fantásticos e oníricos que estão mais presentes neste título do que noutros, mas não de uma forma evidente. Menos fantástico do que o filme, o livro consegue ter um enredo mais mirabolante, personagens mais trágicas e um negrume com laivos de humor.

Na polémica tradicional entre «camilianos e «queirosianos», Camilo é por vezes apresentado como um autor passional contra um Eça de Queirós «cerebral». O que não é exacto, pois os primeiros e grandes romances de Eça, O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio são bastante passionais, romances de amores funestos onde se mata ou morre por excesso de amor ou de crueldade. A grande diferença é que as personagens de Eça – mesmo as mais trabalhadas como o padre Amaro ou a criada Juliana – dão um corpo a tipos sociais. Sabemos donde eles vêm e quando caem a sua trajectória é em grande parte explicada por razões sociológicas e psicológicas. A origem de muitas personagens de Camilo é obscura e pode sempre surpreender-nos. E a vida das personagens está sujeita a constantes mudanças interiores e exteriores. A qualquer momento podem enriquecer, cair na miséria, apaixonar-se, naufragar, mudar de nome e de profissão, converter-se ou perder-se. Eça pretende ser «objetivo», realista, na análise dos males da sociedade. Camilo usa a sua imaginação prodigiosa para exprimir os tormentos de múltiplas personagens indissociáveis de um mal estar social. Eça coloca-se acima das suas personagens. Camilo declara que as conhece do inferno – o que é metafórico – ou da prisão – o que foi por vezes factual.

Mistérios de Lisboa foi publicado em 1853, aos 29 anos, pelo autor que escreveria, em 1862, Coração, Cabeça e Estômago. A obra de 1953 é um expoente da fase do coração, que é uma das suas imagens recorrentes: «A suprema desgraça é o coração grande, a riqueza dos brios, o instinto do sublime, quando estes generosos sentimentos, esterilizados no embrião da pobreza, são como se não existissem.» (Livro Segundo, Capítulo II); «O que devia decidi-lo não eram os conselhos paternais do velho ministro de Luís XVIII; mas o coração, motor despótico de todas as molas da máquina humana, esse sim.» (Quarto, XII).

Eça podia, inicialmente, achar que era mais moderno do que Camilo por estar mais a par da filosofia, da política e da civilização europeia do seu tempo. Hoje sabemos que a modernidade de ambos está na suspeição precursora das verdades inquestionáveis acerca do homem e do seu papel na sociedade. Declara o padre Dinis, personagem de Mistérios..., à volta da qual se desenvolvem todos os enredos: «- Quem sou!...Duquesa, essa pergunta é-me feita há mais de cinquenta anos, tenho-me consultado para responder a ela, e nunca respondi ao meu próprio desejo de saber quem sou…» (Quarto, X). E interroga-se Alberto Magalhães, um dos nomes de uma personagem que finta sempre o destino até à tragédia final: «Quem eu sou? Pergunte-o à sociedade, e adopte a explicação que mais lhe convenha. Se me obriga a responder, por mim, digo-lhe que sou um misto de virtudes e de crimes.» (Quarto, XX)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Se isto é lealdade institucional, ou «cooperação estratégica», vou ali e já venho...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

São naturais mas com mãozinha humana cada vez mais notória...

... e quem o diz são os próprios cientistas:

«O planeta está mais vulnerável». Quase mil desastres naturais, 295 mil mortos, 100 mil milhões de prejuízos. O ano de 2010 foi um dos piores das últimas três décadas.

(entrevista da geógrafa Maria José Roxo a Ricardo Garcia)



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Blasfémia: quando o Papa está do nosso lado isso é?

Evolução positiva da Igreja católica? Atrasos na conciliação entre vontade da maioria e direitos das minorias? Lição irónica de que religião e livre pensamento não têm que ser incompatíveis? Sinal dos tempos?
Formule a sua própria opinião lendo «Papa condena ataques a cristãos e pede ao Paquistão que revogue lei da blasfémia». Eu cá voto tripla...

Mistérios de Lisboa - o filme

Mistérios de Lisboa foi um dos filmes que marcou 2010 e será uma série de televisão a marcar 2011. O realizador chileno Raul Ruiz, que chega a este filme após um longo e marcante percurso no território fantástico, dá a conhecer Camilo Castelo Branco a muitos estrangeiros e permite aos portugueses vê-lo de um outro ângulo. Em primeiro lugar porque o romance que adapta não é o clássico Amor de Perdição, dado nas escolas portuguesas e objecto, pelo menos, de três adaptações cinematográficas, mas a obra de juventude de Camilo, escrita aos 29 anos, Mistérios de Lisboa. É um Camilo fascinado pelo seu poder de criar um universo povoado de personagens em ebulição, um Camilo que escreve mais com a imaginação do que, como fará mais tarde, com a memória de uma vida atribulada. Camilo narra uma memória imaginada que podia ser, na expressão de Camões, um «sonho imaginado», tão rocambolescas são as peripécias, tão insólitas são as personagens ou tão inesperadas as reviravoltas do enredo. A transposição do livro para cinema sublinha o filão onírico, insinuando que toda a história poderá ser um sonho do narrador, um menino que inicialmente é filho de pai incógnito, ou uma ficção que a criança constrói num teatro com personagens de papel.

Mas se o teatro é uma referência deste filme, como o é dos filmes de Manoel Oliveira inspirados pela obra e vida de Camilo Castelo Branco - Amor de Perdição e Francisca -, Raul Ruiz envereda por caminhos muito diferentes de Oliveira. O centenário realizador português, nessa fase camiliana pretendia um regresso aos primórdios do cinema declarando que este era apenas «teatro filmado», recorrendo por sistema ao plano fixo e pondo os actores a recitar textos, do modo mais imóvel e lento possível. Ruiz segue outro impulso primitivo neste filme, o de regresso às assombrações da lanterna mágica, lembrando que no início o cinema era luzes e sombras em movimento. As personagens são compostas de mudança – de palavras, de gestos, de corpos, de situação social. A nossa perspectiva sobre elas muda quase todos os minutos e a câmara está sintonizada com um mundo em permanente transformação, movendo-se com elegância, precisão e subtileza.

O filme possui um naipe de bons actores – alguns obrigados a interpretar as várias vidas de uma só personagem – e uma fotografia tão sensível às sombras de alguns cenários interiores como à beleza intensa de cenários exteriores localizados em Sintra ou no Alentejo. Trunfos na manga de um filme mágico que faz dos mistérios encenados no quarto de uma criança os mistérios de Lisboa e do mundo.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Democratizar a cultura em Portugal é preciso...

... e o próximo passo devia ser o da aprovação duma Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, pois falta a merecida consagração político-jurídica do papel central destes institutos da democracia e centros polivalentes de cultura.
A proposta é do Bloco de Esquerda, mas, independentemente da sua proveniência político-partidária, o que conta é que a iniciativa representa um consenso progressista, donde, vai ao encontro duma larga base de apoio.
Ademais, o projecto de lei que lhe subjaz é de grande rigor, exigência e qualidade. Recomendo a sua leitura, pois está, de facto, muito bem elaborado.
Para quem quiser saber mais detalhes, pode ir amanhã à audição pública no parlamento (aud.º da Casa Amarela, às 11h). O projecto de lei 468-XI, da Criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, será apresentado pelo líder da bancada parlamentar, José Manuel Pureza, e pela deputada Catarina Martins, especialista na área cultural. Na sessão estarão presentes os peritos Maria José Moura e Henrique Barreto Nunes, bem como representantes da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas.
A ser aprovada esta iniciativa, estaremos perante o fecho duma aventura iniciada há mais de 1/4 de século, em meados dos anos 1980, uma faceta de que a democracia se pode orgulhar.

Agenda cultural

O início do ano é sempre um tempo mais ou menos penoso, excepto quando se preenche a agenda nova e se começa a programar o que fazer. A minha agenda já tem um círculo à volta do dia 5 de Maio - Paolo Conte no CCB.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Uma boa proposta, agora só falta aprová-la e assegurar retribuição pelo trabalho

Malangatana Valente Ngweny (1936-2011)

Faleceu ontem Malangatana, um dos mais conhecidos e admirados pintores moçambicanos.

Para quem o quiser revisitar em Portugal, estão actualmente patentes duas mostras com obras dele: «Novos Sonhos a Preto e Branco», na Casa da Cerca, em Almada, com desenhos inéditos; e «As Áfricas de Pancho Guedes», no Mercado de Santa Clara, junto à Feira da Ladra, em Lisboa.

Obituário a ler em «O pintor da identidade moçambicana», por Sérgio C. Andrade.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Debatendo a construção da cidade

Em boa hora surge este Colóquio Políticas de Habitação e Construção Informal (14/I, ISCTE-IUL, aud.º B203, Edifício II).

O referido evento inclui ainda a exibição de documentários na Casa da Achada (vd. o programa).

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Agora a sério...

Já está disponível de forma universal e gratuita a legislação portuguesa publicada em Diário do Governo / Diário da República desde 5/X/1910. Uma coisa inimaginável ainda há poucos anos. Mais, passaria despercebido se não fôssemos nós, sempre na vanguarda do serviço público internético-blogosférico-ufa.
É uma ferramenta única para estudiosos e demais masoquistas desta pátria. É favor conferir aqui.
Parece que, afinal,  o dvd de baixo fica só para coleccionadores. Ainda assim, valeu a informação especial para esse nicho tão simpático de cidadãos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Você não vai querer perder!

Um dvd histórico que não pode deixar de adquirir, mesmo que já tenha passado o Natal e o subsídio de férias, para alguma coisa serve o crédito ao consumo...

Falo-vos do dvd Diário da República 2000-2009!!!

Além do mais, tem desconto de 50% sobre o preço. Simplesmente imperdível.

Do que é que está à espera?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Dez filmes de 2010

Os dez melhores filmes que vi em 2010 foram:

Lola, de Brillante Mendonza;

O laço branco, de Michael Haneke;

O Escritor Fantasma, de Roman Polanski;

Dos homens e dos Deuses, de Xavier Beauvois;
Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz;

Inside Job, de Charles Ferguson;
Líbano, de Shmulik Maoz;

Facebook, de David Fincher;
O Mágico, de Sylvian Chomet

Nota: não consegui ver o Filme do Desassossego, de João Botelho. Gostei muitíssimo, e só não os incluí na lista porque não me deu na mona, de Shutler Island, de Scorsese, e Gigante, do promissor Adrián Biniez. A Origem, de Christopher Nolan, parte de uma ideia genial e o resultado fica muito abaixo das suas potencialidades. Achei piada a Histórias da Idade de Ouro (em romeno «Amintiri din época de aur»), de Christian Mungiu, Whatever Works, de Woody Allen, Greenberg, de Noah Baumbach.

Polícia sem lei, de Werner Herzog;

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Aproveitai agora, que se desculpa, e Boas Entradas em 2011!!!


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Não serve de consolo mas serve para meditar

Para não se pensar que é exclusivo da tugalândia e que é coisa pontual:

Mino [Carta] fundou as revistas Veja e Isto É [...]. Foi eleito Jornalista do Ano pelos correspondentes estrangeiros em 2006.
É um veterano e não se cansa de lançar farpas ao espírito da imprensa hoje dominante. «Em nenhum lugar do mundo civilizado os media em geral se colocam todos de um lado, como no Brasil. Os media brasileiros são um instrumento na mão de uma minoria favorecida. Estão nas mãos de quatro famílias.» E as críticas não param aqui. «A imprensa brasileira é muito ruim, as pessoas não sabem escrever. Frequente uma escola de jornalismo no Brasil: são péssimas.»
A tradição da imprensa em bloco vem de longe, diz: «Quando Getúlio Vargas se elegeu em 1950 e criou a Petrobras, os media brasileiros postaram-se em bloco contra ele, que acabou por se suicidar em 1954. Depois os media lutaram em bloco contra a candidatura de Juscelino Kubitschek. Quando Jânio Quadros renunciou em 1961 advogaram a intervenção militar, para impedir a posse de Goulart. E no golpe de 1964 pediram aos militares para intervir.»
Nenhum jornal lutou contra ditadura?
«Nenhum, zero. Quem teve um papel foi a pequena imprensa, dita alternativa, que resistiu. Depois houve a revista Veja, que dirigi a partir de 1968 e da qual saí em 1976 por exigência do Presidente Geisel. Eu pedira um empréstimo à Caixa Económica Federal para a revista, e a Caixa negou porque o ditador de plantão exigia a minha cabeça. Tenho essa grande honra.»
Hoje a tradição da imprensa de «servir a elite» continua: «Eles querem um país de 20 milhões e uma democracia sem povo».

(entrevista a Alexandra Lucas Coelho)

Que falta de chá medonha, credo!

A gestão do BPN, agora criticada por Cavaco Silva, foi entregue à Caixa Geral de Depósitos, após a nacionalização do banco, há dois anos. Faria de Oliveira, o presidente da Caixa, nomeou então dois administradores do banco público para a liderança do BPN, Francisco Bandeira e Norberto Rosa. Tanto Faria de Oliveira como Norberto Rosa fazem parte da comissão de honra da candidatura presidencial de Cavaco Silva. [notícia da RTP]

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tu rostro mañana

Tu rostro mañana, o último romance de Javier Marías que se estende por três volumes - Fiebre y lança, Baile y sueño, Veneno y sombra y adiós - acompanhou-me durante boa parte de 2010 – começou por ser uma leitura de verão, atravessou o outono e chegou ao inverno. O seu tom melancólico e agreste é mais adequado a estações com chuva e vento cortante do que à época balnear. Javier Marias retoma a voz da personagem donde saiu uma das novelas que o tornou conhecido nos anos 80 - Todas las almas, um retrato irónico do ambiente académico britânico no qual foi professor. O jogo ficcional autobiográfico – levando quem lê a acreditar que a voz narrativa é a mesma do autor, mas as circunstâncias não são necessariamente as mesmas – desenvolve-se e complexifica-se em Tu rostro mañana, romance em que o narrador se confronta com a narrativa da memória do pai que, tal como o pai do escritor, o conhecido filósofo Julián Marías, foi preso e proibido de ensinar pelos vencedores da guerra civil de Espanha, por causa da traição de um amigo. Tal como nas suas novelas mais celebradas - Coração tão branco e Amanhã na batalha pensa em mim, algumas citações de Shakespeare iluminam as histórias contadas, num tempo em que as palavras correntes parecem insuficientes para decifrar a tragédia das pessoas comuns.

Ao contrário das suas novelas fulgurantes, o leitor não é atirado para a narrativa por um enigma cuja explicação é prometida e a sua atenção captada a cada página por fórmulas encantatórias, personagens marcantes e observações agudas. O leitor de Javier Marías terá de fazer um esforço maior para seguir as deambulações e digressões do narrador pela história e actualidade de Espanha e do Reino Unido, por um vaivém entre História e literatura, universidade inglesas e serviços de espionagem, guerra civil de Espanha e a actual luta dos Estados europeus e dos Estados Unidos contas as ameaças ao seu poder. Tu rostro mañana é uma meditação sobre a traição, sobre a forma como a vida de uma pessoa depende de confiar nas pessoas certas e da sua vida ser contada com as palavras certas. O romancista cria uma ficção que é uma metáfora do próprio exercício ficcional ao inventar um narrador recrutado, através da rede académica, para um serviço ultra-secreto britânico de agentes cujo papel é serem «intérpretes de vidas». Ou seja, decifram as máscaras de personagens públicas, lendo nelas a sua ficção e a sua verdade. O jogo entre verdade e ficção é jogado com saborosa ironia por Javier Marias ao colocar, em epílogo, depois dos agradecimentos e dos posfácios, alguns relatórios de «intérpretes de vida» sobre Berlusconi, Michael Caine e Diana de Gales.

Depois de se ter afirmado como um escritor de sucesso na Espanha dos anos 80 e 90 que se orgulhava de separar literatura e política e se mostrava um brilhante pintor da nova e velha vida privada dos espanhóis, Javíer Marías escreve um romance que é uma falsa obra de chegada. Pois o que ele faz é cruzar caminhos percorridos, com novos caminhos, questionando o presente face à traumática memória da guerra civil espanhola, a relação da vida privada com a vida pública, o combate ao terrorismo pelos Estados democráticos com a prática de tortura por esses Estados.

O Pai Natal de Portugal, Boliqueime e Ilhas

Afinal, o Pai Natal existe! E não só existe como vive na Tugalândia, para gáudio dos seus residentes!!

Desde há umas semanas para cá que se vem confirmando: o presidente Cavaco Silva é só coisas boas para todos os seus compatriotas. Está a chover? Não faz mal, rega a horta. Faz frio? Ajuda a manter a pele do rosto esticadinha. E por aí fora.

Hoje foi a vez do seu frente-a-frente com Manuel Alegre, na RTP1. E, novamente, se viu o senhor-tudo-de-bom-peace-and-love.

Alguns exemplos. Quanto à crítica de Alegre de que é cúmplice do projecto de direita de esvaziamento do Estado social em Portugal, Cavaco riposta que ele não está a destruir o Estado social e que o oponente anda a enganar os nativos nesse particular. Se lhe perguntam se é a favor das taxas moderadoras, responde que é a favor duma saúde pública de qualidade para todos. Sobre o BPN e a promiscuidade entre política e negócios, o problema é a actual administração do banco que não fez uma recuperação rápida, à inglesa. Em suma, é tudo ao lado.

Não sei se uma atitude assim seria aceitável em países com debates incisivos, como os EUA, o Reino Unido ou o Brasil. Parece que por cá ainda vale. É a mística dos sempre-em-pé, de que é feito também o Pai Natal. Pois claro. Então não vai aparecendo, um bocadinho todos os anos, para não se cansar muito? Ai os votos, os votos. Meus ricos sofás de Belém...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A História da África, da UNESCO, está agora acessível na Internet

É um mega-projecto, iniciado em 1964 e envolvendo centenas de cientistas sob a égide da ONU. Agora, as quase 10 mil páginas dos seus 8 volumes podem ser descarregadas gratuitamente no site da UNESCO, havendo uma versão em língua portuguesa. Boas leituras!

Aonde pode chegar a deriva de extrema-direita: asilados homossexuais obrigados a «teste falométrico» na República Checa

Informação detalhada sobre este caso em post de Pedro Ferreira. Simplesmente preocupante. Passos que se repetem, tal como há c. de um século atrás.

A propósito da construção do conformismo pelos media

Esses (colunistas e economistas [que apregoam a ladaínha da austeridade assimétrica]) são apenas meia dúzia, Daniel [Oliveira].
São sempre os mesmos e insistem... insistem... até ao esgotamento. Fazem fé que, pela via do esgotamento, a espiral de conformismo seja transversal a toda a sociedade. Aí comem a presa.
Dá a parecer que são muitos, mas não são. São sempre os mesmos e têm os grupos económicos que dominam a sociedade do seu lado.
Uma coisa é certa: Portugal vai guinar à direita.

Rui F

Cuidado com os prefixos telefónicos 707

É uma burla pelos fios a todos os contribuintes incautos e vem contada no site da Associação Portuguesa de Direito do Consumo.
Vale a pena ler, para evitar grossas despesas inesperadas.
É que também inclui contactos telefónicos de entidades públicas...

domingo, 26 de dezembro de 2010

A sociedade aberta e a WikiLeaks

As reacções contraditórias e paradoxais que o caso WikiLeaks tem provocado podiam ter como mote o título do livro escrito por Karl Popper durante a II Grande Guerra: A Sociedade Aberta e os seus Inimigos. Para uns, Assange é um inimigo declarado dos Estados Unidos e, por consequência, da «sociedade aberta». Para outros, os inimigos da sociedade aberta são os EUA quando consideram Assange um alvo a abater (no sentido figurado e até no sentido literal).

Ressalvo que nem só a língua portuguesa é «muito traiçoeira». A «sociedade aberta» de Popper, se bem me lembro, não era um sinónimo de «sociedade transparente». Era no fundamental uma sociedade capaz de corrigir os seus erros e de responder a problemas imprevisíveis. Uma sociedade deste tipo tem de ter liberdade de informação e de crítica. Não há dúvidas que de que os cidadãos norte-americanos gozam de maior liberdade do que os russos, os chineses ou os iranianos. Mas as tão incensadas instituições liberais dos Estados Unidos não foram capazes nem de prevenir nem corrigir os erros crassos que estiveram na origem da crise financeira de 2008 e são expostos de forma tão clara no filme Inside Job.

A mim interessam-me menos as intenções de Assange do que as questões que a WikiLeaks levanta, que são de tipo diverso e facilmente confundível. Uma das questões mais falada respeita ao secretismo que rodeia os relatórios diplomáticos correntes, cuja divulgação tem levado diplomatas encartados a corar, a empalidecer ou a engasgar-se. Não serei eu a menosprezar a vergonha humana, mas parece-me óbvio que a divulgação de um relatório de uma agência de rating com consequências nos juros da dívida pública de um país causa mais abalos sociais do que todos os relatórios diplomáticos até agora divulgados pela WikiLeaks. Quantas empresas é que já faliram por causa das «inconfidências» da WikiLeaks, quantos salários foram cortados,etc? A pergunta que me coloco é: por que é que os relatórios diplomáticos correntes não hão-de ser públicos? Desse modo algumas percepções erradas ou discutíveis podiam ser corrigidas ou discutidas. É claro que os diplomatas escreveriam de um modo mais sóbrio e neutro. Em vez de lermos que Luís Amado devia ser «acarinhado» provavelmente leríamos que devia ser «apoiado» o que, em Portugal como nos Estados Unidos, seria óptimo para uns e péssimo para outros. Os relatórios agora divulgados já foram escritos a pensar em leitores futuros – o diplomata que comparou Putin e Medvedev a Batman e Robin deve ter imaginado o sorriso de um historiador daqui a cinquenta anos e deve ter estremecido com os risos dos jornalistas e dos seus colegas diplomatas russos. Uma das consequências da divulgação de relatórios diplomáticos controversos seria uma maior discussão pública sobre questões internacionais e, provavelmente, a transferência de diplomatas contestados. Mas isso sempre se fez. Far-se-ia apenas com maior transparência.

Outro tipo de questões, mais grave, refere-se à divulgação de informação relacionada com operações militares. Todas as forças armadas – quer as norte-americanas quer as dos atenienses da Grécia antiga cujos generais eram eleitos – têm o dever de não divulgar informação que ponha em risco a vida dos combatentes. Algumas pessoas podem considerar que é seu dever divulgar informação acerca de operações militares que descambam em massacres, corrupção, utilização de verbas militares para financiar o narcotráfico; ou informações que revelam a falsidade dos pressupostos legitimadores da guerra – se a WikiLeaks existisse em 2003, não teria prestado um excelente serviço se mostrasse, quando se preparava a invasão do Iraque, provas de que Saddam Husseim não possuía as célebres «armas de destruição maciça»? As pessoas responsáveis por fugas de informação acerca de operações militares devem ter um julgamento justo e é isso que se deve exigir para o soldado Manning que está há meses preso «preventivamente». A comunicação social está obcecada por Assange, mas o grande herói ou vilão é o soldado Manning. Foi ele quem meteu a cabeça na boca do lobo. Temos o direito de saber as suas razões.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Tati visto pelo cineasta de Belleville rendez-vous

Um encontro feliz, baseado num argumento inédito de Tati e que resulta num filme de animação elogiado pela crítica. Intitula-se O mágico, é realizado por Sylvain Chomet e estreou nos cinemas portugueses. Let's look at the trailer? Então, resta-nos agradecer a vossa atenção e desejar-vos Boas Festas e Feliz Natal!!!

Afinal, os homos sapiens e neandertal tinham companhia

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ONU cria organismo para proteger biodiversidade

A seguir ao Painel para as Alterações Climáticas, eis um nova plataforma intergovernamental dedicado à política ambiental. Uma boa nova que se saúda! Para mais informações vd. «ONU criou um painel intergovernamental para a Biodiversidade», por Helena Geraldes

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Se o ridículo matasse...

Embalado pela campanha eleitoral, o presidente Cavaco Silva decidiu multiplicar-se em acções em prol dos pobrezinhos, indo a casamentos de sem-abrigos, lanches com idosos em lares, admoestações contra a existência de pobreza, etc.. Como o acussassem de eleitoralismo, respondeu que «a pobreza é uma preocupação sua desde o início do mandato». Sim, sim, porque os pobres também podem e devem ser competitivos, ter empreendedorismo (sobretudo os sem-abrigo, que andam dum lado para o outro todos os dias), etc. e tal.

Lembrei-me de ir ver então os seus discursos. Comecei pelo primeiro, que, a certa altura diz «Caros concidadãos»... Cá está a prova! É que concidadãos também inclui pobres e sem-abrigo. Certo?

«Penso eu de que».

Fundações nas universidades: sim ou não?

Para o catedrático António Cândido de Oliveira (Universidade do Minho), a resposta é claramente não: apesar de eventuais vantagens financeiras, perde-se a autonomia democrática, pois o conselho de curadores é de nomeação governamental. Donde, «as universidades estatais devem lutar por uma autonomia financeira dentro do quadro não-fundacional», pois o que falta é uma «lei clara da autonomia financeira», que implica «maior responsabilidade e devida prestação de contas». Ver texto integral «A autonomia das universidades e as fundações».

domingo, 19 de dezembro de 2010

ONG's reconhecidas como parceiras estratégicas para as políticas públicas de igualdade e não discriminação

O passo positivo foi dado pela Secretária de Estado da Igualdade, e procura combater certas desigualdades sociais através do fomento do «acesso igual de homens e mulheres ao mercado de trabalho e a criação de condições que permitam conciliar melhor as vidas profissional e familiar». Segundo a sua responsável, estão previstos 77 protocolos com autarquias e a execução de planos para a igualdade em c. de 100 municípios.

Aqui está uma medida que devia ser aplicada por todos os ministérios. Há muito que o não reconhecimento oficial de segmentos associativos relevantes (como as associações populares, as de base territorial, as de desenvolvimento local) tem sido um entrave à sustentabilidade em Portugal.

Carlos Pinto Coelho (1944-2010), o divulgador cultural da tv dos 90

Era conhecido como o «jornalista acontece», devido à longevidade e (relativa) visibilidade do magazine cultural da RTP2, justamente intitulado Acontece! (1994-2003).
Inesperadamente, Carlos Pinto Coelho faleceu esta semana.
Testemunho de carreira aqui.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Uma boa sugestão para o Arquivo Histórico de Lisboa

Na sequência doutras hipóteses, também aqui referidas, o Fórum Cidadania Lisboa lançou uma nova proposta para instalação do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa, que é um dos mais importantes do país e se encontra praticamente inacessível num local inadequado. Como não há dinheiro para novas instalações, é bom pensar em aproveitar o muito património existente na cidade. Oxalá haja vontade para reflectir em soluções adequadas.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amigos maiores que o pensamento...


...é o título do novo livro do Henrique Barreto Nunes, que será apresentado por Álvaro Domingues na sede da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, no Porto, na noite de 21 deste mês.
De que pode falar um “bibliotecário feliz” na obra que foi escrevendo, lentamente, ao longo da vida? De livros. Das casas dos livros. Do difícil mundo dos livros: no tempo da Ditadura, ou da ameaça dos novos suportes à coisa amada. Por aí, não veio, nem virá o mal ao mundo da palavra escrita em papel: “O códice, forma primeira do livro, apareceu no final do século II, o livro impresso existe há quase 600 anos, nunca se imprimiram tantos livros como hoje. O e-book não matará o livro. Vão coexistir, cada um ocupará o seu espaço, terá a sua função” - garante Henrique Barreto Nunes, leitor apaixonado, o autor emocionado de Amigos Maiores que o Pensamento. Os amigos são os livros, mas também (e esses maiores que o pensamento) quem escreve os livros: Federico Garcia Lorca, Manuel Maria, Tude de Sousa, João Verde, Maria Ondina Braga, Victor de Sá, Ademar Ferreira dos Santos, entre outros, que Henrique Barreto Nunes evoca. Uma despedida “do bibliotecário feliz”? Não. Claro que não. Apenas um recomeço.
Amigos Maiores que o Pensamento é oitavo título da col. Memória Perecível, da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
Henrique Barreto Nunes é vice-presidente do Conselho Cultural da Universidade do Minho e ex-director da Biblioteca Pública de Braga, onde trabalhou 32 anos. Membro da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura, colaborou no lançamento da Rede Nacional de Leitura Pública.

Ora, aqui fica uma boa surpresa! Levem um amigo, levem, que será bem partilhado o momento.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Ainda o WikiLeaks: toda a informação por país

A revelação dos célebres telegramas secretos do Departamento de Estado norte-americano, actualizada e com mapa, no El País. Apenas aditar que quem faz a selecção é um conjunto de jornalistas da imprensa de referência que se dispôs a analisar os documentos disponibilizados pela WikiLeaks (são eles The Guardian, El País, New York Times, Le Monde e Der Spiegel).

Último episódio da MANIFesta 2010 é em Lisboa

Afinal, a MANIFesta (Assembleia, Feira e Festa do Desenvolvimento Local) deste ano ainda não acabou! Lafões, de que aqui falei, foi apenas o episódio 2. A partir desta 8.ª edição passou a ter vários locais de realização. Ainda bem.

A Junta de Freguesida de Santos-o-Velho, em Lisboa, acolhe o encontro final, nos dias 29 e 30 deste mês, tendo como tema a interculturalidade e como organização anfitriã a Interculturacidade, projecto de parceria entre várias associações.

Para simplificar, chama-se a esta última sessão MANIFesta Mundo. Serão muitas as actividades, como se pode depreender do cartaz ao lado.

ADENDA: esta é uma versão actualizada, acolhendo as rectificações sugeridas por Mário Alves em comentário a este post, e que inclui nova data de realização (donde, não ligar à que vem no cartaz).

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O mega-evento por que todos ansiávamos

Wikileaks e a ironia da História.

O Wikileaks não faz mais, afinal, do que pôr em prática a transparência diplomática que defendiam os "Pais Fundadores" dos Estados Unidos da América. Sim, Washington, Franklin e companhia proposeram instaurar uma diplomacia nova transparente, digna de uma Democracia, por oposição ao segredo diplomático que achavam ser coisa de monarquia europeia. Consideravam mesmo que as tramoias feitas no segredo das embaixadas eram a causa dos confiltos que devastavam a Europa. Nas palavras de Benjamin Franklin "Nunca assinar em segredo algo de que se viesse a envergonhar quando fosse tornado público". Vale a pena ler o artigo de opinião de Aurélian Colson, no Le Monde.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vaivém entre lendas e factos, ou da utilidade do historiador

O elogio vai para o trabalho desenvolvido pelo historiador Joel Cleto em torno da análise das lendas sobre a identidade nortenha, em especial da portuense.

O pretexto é a recente publicação do seu livro Lendas do Porto, uma recolha de crónicas saídas na revista O Tripeiro e que tem a chancela da QuidNovi.

Para mais informação vd. este texto de Jorge Marmelo ou o blogue do próprio autor, Caminho das Estrelas.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O caso WikiLeaks

Muito se tem falado do caso WikiLeaks, despoletado pela perseguição política e/ou policial movida pelo governo dos EUA ao seu líder, Julian Assange. Seja qual for a nossa opinião sobre a 'cruzada' deste, a verdade é que é obra um tipo disponibilizar o acesso a 250 mil páginas na Internet sem ter nada a ver com sexo e, no fim, ainda ser suspeito de crime de «sexo-surpresa». Dá para acreditar em tamanha ironia e confusão? Com uma agente secreta?! Não se terão enganado na designação?

Mudando de agulha, que aquela blague é inspirada no Governo Sombra, a situação descarrilou para uma polémica informação secreta vs. liberdade de expressão, quando apenas se devia ter fixado no debate sobre os limites da primeira.

Anterior revelação sobre as guerras do Iraque e Afeganistão pareceu-me mais relevante, pois revelou nódoas graves que, em vez de serem limpas, tinham sido tapadas (houve ainda outras divulgações úteis, como a de descarga de lixo tóxico na costa africana). No presente caso, a maioria da documentação é rebarbativa, ou seja, permite aceder a um perspectiva crua duma diplomacia bem crua como é a dos EUA: nada de novo, portanto. Felizmente que isso não é tudo. Além da conversa de chancelaria (pontuada por declarações desbragadas de diplomatas), há algumas revelações úteis: violações de direitos humanos, ambientais e de soberania doutros países, uma lista de locais importantes para a segurança nacional dos EUA que inclui sítios intrigantes como uma fábrica de penincilina algures num país nórdico (terei lido bem?), documentos sobre jogo sujo de multinacionais, entre outras coisas que podem ser pontuais mas ajudam a desocultar pressões e manobras indevidas. Uma forma de travar o livre curso destas passa necessariamente pela ameaça da opinião pública poder vir a saber e isso poder servir para condenação/ penalização, simbólica, jurídica ou outra. Sejam quais forem as reservas, é inegável que parte destas fugas de informação servem para fazer serviço público, para todo o mundo.

Infelizmente a coisa não se fica por aqui. Assange e a WikiLeaks não têm só um lado positivo. Comecemos por um excesso de Assange: diz que faz jornalismo livre. É falso: quem faz jornalismo são os jornais de referência que aceitaram tratar a informação em bruto que aquele lhes fornece (The Guardian, El País, New York Times, Le Monde, Der Spiegel), sem esquecerem a salvaguarda da segurança de pessoas, assim dando crédito à informação divulgada.

Mas o principal erro de Assange e da WikiLeaks é defenderem a transparência absoluta, aparentemente apenas para os países democráticos (EUA à cabeça), pois as suas fontes nunca são de ditaduras. Ora, essa transparência absoluta, a realizar-se, acabaria com qualquer diplomacia, com qualquer negociação. É uma ingenuidade. E acaba por ter um efeito boomerangue, incentivando a redobrados cuidados com os segredos diplomáticos. Nos países democráticos, não nos outros, aparentemente sem interesse para a WikiLeaks.

Aos ataques dos EUA e de opinion makers, respondem os defensores de Assange e da transparência absoluta com hacktivism, petições, protestos na rua e, brevemente, com novos sites de revelação de segredos políticos, como o OpeanLeaks. Moda passageira ou tendência para ficar?

Dos vários textos que li sobre o tema, destaco quatro, os de Vítor Malheiros, Miguel Gaspar, Eduardo Cintra Torres e Jorge Almeida Fernandes, ainda que não concorde com tudo o que cada um diz. Aliás, a minha perspectiva é uma certa combinação desses olhares.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Uma cimeira com imerecida pouca visibilidade

Quando se trata de conversações internacionais sobre alterações climáticas, aquecimento global e política ambiental planetária, toda a luz é pouca.
Para mais informações é favor espreitar o site da Cimeira de Cancún da ONU e esta notícia.
ADENDA: felizmente houve acordo - fixou-se em 2º celsius o limite para a subida da temperatura média global até ao fim do século e aprovou-se um Fundo Verde Climático para os países em desenvolvimento.

Para quem estiver pelo Minho...

Ora aqui está uma daquelas mostras que fazem as delícias de miúdos e graúdos: Brinquedos Antigos - a produção industrial de brinquedos em Portugal.

Para quem estiver pelo Minho, não tem desculpas!
Sobre a colecção e o  coleccionador que 'abastece' a mostra, Victor Martins, pode consultar-se esta brochura.

Local:  Póvoa de Lanhoso, galeria do Theatro Club
Período: 4/XII/2010 a 9/I/2011

Horário:  terça a sexta-feira (9h-12h, 14h-17h) e sábados e domingos (15h-18h)

O Jogo da Politica Moderna! (agora em Braga)

Terá lugar na próxima sexta-feira, dia 10 de Dezembro, a abertura da exposição «O Jogo da Politica Moderna!» – Desenho Humorístico e Caricatura na I República. 
A exposição tem início pelas 17h30, na Galeria do Salão Medieval, no edifício da Reitoria da Universidade do Minho, no Largo do Paço, em Braga. A iniciativa é organizada pela Câmara Municipal de Lisboa e apresentada em Braga pelo Conselho Cultural da Universidade do Minho.
A abertura, em sessão pública de entrada livre, ficará a cargo do Prof. Doutor Fernando Machado, do Instituto de Letras e Ciências Humanas, responsável pela respectiva contextualização do evento.
Nb: +inf. sobre a mostra, que já esteve em Lisboa, aqui.

No centenário da morte de Leão Tolstoi


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Como salvar a democracia? Fechar as televisões e ir para o café debater

Reflexões críticas sobre o modelo de desenvolvimento e a sustentabilidade a nível planetário. Alguns bons exemplos:
1) Eurobarómetro refere que 64% dos europeus inquiridos não crêem que a tecnologia consiga travar as alterações climáticas e o aquecimento global, impôndo-se repensar o respectivo modo de vida
2) relatório britânico «Prosperidade sem crescimento?» (2008) e criação do índice de felicidade
3) artigo na revista Nature do economista Peter Victor (Univ. Toronto), «Questionando o crescimento económico» (é também autor do livro Managing without growth: slower by design, not disaster, 2008)
4) entrevista ao jornalista francês Hervé Kempf, do diário Le Monde, autor dos livros Como os ricos destroem o planeta (2007) e Para salvar o planeta livrem-se do capitalismo (2009)
5) a opinião do filósofo Viriato Soromenho Marques.

Valeu a pena a pressão internacional

ADENDA: afinal, foi precipitada esta notícia, induzida em erro pelo comportamento inaceitável das autoridades iranianas. A pressão vai ter que se manter para que este caso possa acabar em bem.

Para debelar a crescente economia paralela basta pedir facturas de tudo

Meia marcha-atrás

«Governo aprova resolução que proíbe excepções aos cortes salariais»

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Inside Job/A Verdade da Crise

Inside Job – A Verdade da Crise, um documentário de Charles Ferguson sobre a crise financeira de 2008 é de visão obrigatória para compreender o dinheiro e os tempos que correm. O título original parece-me ambíguo: tanto pode dizer respeito aos autores morais da crise económico-financeira que levantou a cabeça em 2008 e pode regressar em breve – gente de «dentro», do sistema financeiro, e não membros de qualquer «eixo do mal» - como ao próprio autor do documentário. Charles Ferguson conhece «por dentro» o mal de que fala. Como podem ver aqui, doutorou-se no MIT, foi consultor da Casa Branca e do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, deu aulas no MIT e na Universidade de Berkley, entre muitos outros itens de um curriculum vitae admirável. O que explica que tantos administradores, capitalistas, políticos e professores universitários tenham aceitado ser entrevistados para o filme, alguns deixando registado para as câmaras o seu arrependimento e/ou embaraço.

O estilo de Charles Ferguson é o oposto do de Michael Moore em Capitalismo – Uma história de amor, mas talvez mais eficaz. Moore usa a câmara como um canhão - Ferguson como um bisturi; Moore é um corpo omnipresente no seu filme, ao qual algumas pessoas reagem como se vissem godzilla - Ferguson é o «homem invisível», alguém que está atrás da câmara e pediu a voz de Matt Damon emprestada. O resultado é um massacre da ordem económico-financeira vigente «com punhos de renda». Só o estilo sóbrio, rigoroso, permite seguir sem distracção um filme baseado em teses brutais. A actual ordem económico-financeira está nas mãos de psicopatas. Literalmente, de psicopatas cujas decisões são tomadas sob o estímulo das mesmas zonas do cérebro que explicam a toxicodependência. As agências de rating que determinam o valor de acções e obrigações são tão irresponsáveis como inimputáveis e, quando levadas a tribunal por erros crassos, defendem-se dizendo que os seus juízos são apenas «opiniões». As medidas de Obama para reformar o sistema financeiro foram gotas de água e os grandes responsáveis pela crise de 2008 continuam a ocupar lugares de poder, nas grandes empresas e instituições financeiras, no círculo de poder e aconselhamento da Casa Branca.

O primeiro documentário mostrava um comboio a avançar sobre os espectadores. Inside Job mostra como a vida dos espectadores está ameaçada pelo destino dos produtos tóxicos financeiros. O filme reforça a ideia da necessidade de um novo senso comum económico baseado no máximo bem-estar de todos e não no máximo lucro de alguns, novo senso para o qual o manifesto «Por uma nova economia» dá um contributo assinalável.

Inside Job - look the trailer and watch the movie

O cinema na República

A mostra «Cinema em Portugal - os primeiros anos» franqueia amanhã as portas do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa. A autoria é de Teresa Barreto Borges, Teresa Parreia e Tiago Baptista.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

SOS Racismo festeja 20 anos

E tem festa em grande!

Será uma mera coincidência?

1 - Como explica o próprio presidente da Islândia, Olafur Grimsson, na sequência da crise o seu país "deixou os bancos falir", (contrariamente a outros, como a Irlanda).
2 - Islândia sai da recessão.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

É só uma imagem de tranquilidade para momentos difíceis


Entre as cidades e a serra: um seminário que conclui um projecto

O seminário - cujo nome completo ajuda a perceber do que se vai falar (Entre as Cidades e a Serra: Mobilidade, Capital Social e Associativismo no Interior Algarvio) - é organizado pelo CIES-IUL e decorre durante a tarde de 14/XII (14h-18h, sala C103, Ed. II, ISCTE-IUL).

Este seminário conclui um projecto de investigação dirigido pelo Renato Carmo e em que também colaborei, calcorreando montes e barrocais, entrevistando associativistas e analisando centenas de folhas de transcrições, entre outras coisas.

Os resultados serão apresentados por nós e por Manuela Mendes e Sofia Santos, e depois comentados por António Firmino da Costa e João Ferrão.

Mais informações no site do projecto, Fórum Local- Associativismo e desenvolvimento local.

Sustentabilidade implica remover o centralismo estatal

«Lisboa pode ser competitiva na sua qualidade de vida»: entrevista de João Seixas a Teresa de Sousa
PS: por feliz coincidência, também falaremos da questão da organização político-administrativa, entre outras coisas, em próximo seminário referido no post seguinte.


domingo, 5 de dezembro de 2010

A Rede Social

A Rede Social/The Social Network é o último filme de David Fincher, que persegue o enigma biográfico de Mark Zuckerberg, o qual aos 19 anos criou o Facebook e tornou-se bilionário. Várias pessoas, incluindo o próprio realizador (ver aqui) têm comparado o filme ao Citizen Kane. É claro que o cidadão Zuckerberg, como Kane, se torna um homem poderoso e controverso. Mas alcança o sucesso económico sem mostrar qualquer interesse na política, na arte, ou na opinião pública. Citizen Kane traça o percurso completo de uma personagem que, no momento da sua morte, recorda a sua infância e o que nela perdeu, insubstituível por qualquer riqueza ou poder. Na Rede Social, não sabemos a vida de Zuckerbger antes de chegar a Harvard, nem o que lhe vai acontecer. Zuckerberg é um meteoro em movimento que incendeia as personagens com que se cruza, leva algumas a acompanhá-lo e entra em colisão com outras. O filme de David Fincher é movido por alguns dos «pecados capitais» analisados em Seven (1995) – principalmente o orgulho e a inveja – e a sua personagem central não tem sombra de outros – preguiçoso não é nada. Como em Fight Club (1999), Zuckerberg luta para pertencer a um clube e acaba por criar a sua própria rede virtual, à escala do mundo.

Vi A Rede Social pouco tempo depois de rever em DVD Young Mr. Lincoln de John Ford e fiquei a remoer nos paralelismos, por contraste, entre estes dois filmes sobre dois ícones da sociedade norte-americana. Lincoln, mal surge no alpendre de uma casa de campo e no filme, é reconhecido por duas crianças que lhe sorriem e o reconhecem como uma espécie de «messias»; Zuckerberg começa por ser mandado à fava pela namorada e passa o tempo todo a tentar, sem conseguir, recompor-se do facto. Lincoln é um solitário adoptado por uma família típica norte-americana; Zuckerberg é o solitário rebelde que não é adoptado por ninguém e cuja obra é utilizada por todos. Lincoln é um advogado que salva dois inocentes de uma pena de morte e é reconhecido como um justo, levando para a política uma ideia de justiça. Zuckerberg é um réu, acusado por ex-amigos de ter pilhado ideias e traído lealdades. A perspectiva acerca da justiça não tem sido focada nas análises sobre o filme. Mas A Rede Social mostra como se entrelaçam os laços da amizade, as relações sociais, as conexões do Facebook e as teias de justiça.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Para uma nova economia: petição da Comissão Nacional Justiça e Paz

Petição para uma nova economia - uma tomada de posição pública

Apresentamos esta tomada de posição pública no momento em que acaba de ser aprovada a política orçamental para 2011. Como todos reconhecem, as medidas adoptadas têm carácter recessivo. Mesmo que no curto prazo, permitissem conter a especulação financeira sobre a dívida externa e as necessidades de financiamento do Estado e da economia portuguesa, tal política, só por si, não abriria caminho ao indispensável processo de mudanças estruturais de que o País carece para alcançar um desenvolvimento humano e sustentável a prazo. Importa responder no curto prazo visando e construindo o longo prazo. 
Reconhecemos que é necessária e urgente uma mudança profunda no paradigma da economia nacional, mas também europeia e mundial. Estamos todos envolvidos na busca de soluções. Os economistas em particular têm a responsabilidade de contribuir para encontrar respostas para os desafios da transição que marcam o mundo contemporâneo e, de modo particular, o nosso País. 
A crise tem carácter sistémico e dimensão global, com contornos específicos na Zona Euro, traduzindo-se em maior pobreza, desemprego, crescentes desigualdades de riqueza e rendimento, baixa propensão ao investimento e fraco dinamismo da produção.

Comissão Nacional Justiça e Paz

(continuação da petição)

Nb: o Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz lançou recentemente um blogue de reflexão e debate intitulado A Areia dos Dias, que conta com a colaboração de economistas conceituados como Manuela Silva e Mário Murteira, entre outros.

Portugueses de 1.ª, portugueses de 2.ª, etc... (no país das excepções e do chico-espertismo)

d'Orfeu em festa numa cidade de associações

São 15 anos duma organização cujo mote é «a criação de sinergias através do modelo associativo».

Desta associação falámos em post anterior, a propósito de um dos vários festivais que organiza, o OuTonalidades.
Os outros são o Gesto Orelhudo, festival internacional performativo de música e humor, o Festim - festival intermunicipal de músicas do mundo, e o Rio Povo, espectáculo feito por 400 músicos e actores de 20 associações, «celebrando e recontextualizando as tradições da zona», como assinala Mário Lopes em «d'Orfeu Associação Cultural: tudo começou com quatro irmãos em busca de mais música».
Águeda e os seus artistas estão de parabéns.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mostra dos 40 anos da CGTP

No âmbito das comemorações dos seus 40 anos, a CGTP abre hoje uma exposição comemorativa no Largo Camões, em Lisboa.
Uma coisa em grande, que se estenda até ao dia 11.
Aí está uma boa iniciativa: divulgar o que foi feito pelo sindicalismo, através de material documental entretanto recuperado, tratado e analisado. E enquadrado artisticamente, claro!
Para quem quiser obter mais informações sobre a preservação da memória sindical pode folhear a revista Cultura, da CGTP.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Desenvolvimento local faz 30 anos em Mértola

É verdade, o Projecto Integrado de Mértola já está a celebrar 30 anos e é hoje um caso de desenvolvimento local bem sucedido.
Ainda que se possa discutir as suas limitações, é indiscutível o muito que foi feito em tão pouco tempo recorrendo em grande medida a recursos endógenos do concelho, como salienta Jorge Revez, presidente da Associação de Defesa do Património de Mértola, ela própria resultante do referido projecto.
O programa comemorativo incluiu a realização de um seminário sobre «Património e Desenvolvimento Local» e uma tarde cultural.

Do Tejo a Monsanto, há muito para apreciar

É hoje inaugurada a rota da biodiversidade de Lisboa. São 14 km com 18 pontos de interesse assinalados para se poder apreciar a fauna e flora, entre a zona ribeirinha e o Parque de Monsanto. A pé ou de bicicleta. Toda a informação na ponta de um clique. Clic!
PS: era escusado terem posto nas imagens que ilustram a página desta rota um bufo nival: duvido que alguém que vá fazer este caminho esteja disposto a ir para Monsanto de noite, de rabo para o ar, à espera dum destes espécimes, se é que por lá existem. Também o flamingo é um bocado forçado, deixem isso para outros concelhos, tipo Alcochete e Montijo. Vá lá, não queiram ficar com tudo!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

1 de Dezembro, dia da restauração da dependência nacional

Histórias tristes de desperdício de recursos