terça-feira, 17 de abril de 2007

Street-level analysis

«(...) mesmo se todas as políticas fossem as correctas, nenhum iluminado, nenhum "novo Marquês", mudaria o país por decreto. O problema reside, como sempre, nos portugueses e na sua cultura de dependência e mão estendida, de fé no desenrasca e de preguiça face ao trabalho árduo e rigoroso. Aí o Governo só pode actuar pelo exemplo. Ora no que a tal toca...»

Estas são as palavras finais do editorial de José Manuel Fernandes do "Público" de hoje. O tom diz tudo: qual conversa de café ou de taxista, é a vitória do "achismo", do senso comum, da generalização vaga e fácil que é antitética de uma análise séria. Mas isto se calhar era pedir demais.

Act17 - «Não vi o livro, mas li o filme»

Aqui, para ver o programa completo e lista de participantes, mas também lá vai estar a Peão Vallera na quinta-feira, 19 de Abril, às 16.30h com o título Citizen Slade: Velvet Goldmine de Todd Haynes e Citizen Kane de Orson Welles.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Está demonstrado cientificamente: os humanos têm motivações igualitárias

Talvez o título do post esteja algo exagerado, ou talvez não (pequena provocação para animar o debate). Um grupo de investigadores americanos publicou na revista Nature a semana passada um artigo científico em que tentam abordar as motivações humanas para o comportamento cooperativo. Para quem quiser ler o dito artigo, pode ir ao lado b deste blogue. Para estudar a questão os investigadores elaboraram um jogo em que os jogadores são recompensados em dinheiro pelos seu comportamento. Já tinha sido demonstrado com este tipo de abordagem que os individos tendem a adoptar comportamentos cooperativos, e quem não adopta comportamentos cooperativos é punido pelos restantes jogadores. Os jogos são concebidos de modo a que isso seja possível. Simplesmente não foi possível determinar anteriormente se as motivações eram egoistas (porque os comportamentos cooperativos eram recompensados indirectamente ao melhorar os rendimentos da comunidade) ou por puro altruismo, ou seja um real desejo de igualitarismo. Neste trabalho o jogo não recompensa o comportamento cooperativo, os jogadores podem melhorar o piorar os rendimentos dos outros, e tanto um como outro comportamento têm custos para o individuo. Os rendimentos iniciais são distribuidos aleatoriamente por um computador, e os jogadores sabem os ganhos uns dos outros. Observou-se que sistematicamente os jogadores tendem a retirar rendimentos aos que têm mais ganhos e tendem a dar aos que têm menos ganhos. Isto mesmo perdendo dinheiro ao fazê-lo. Note-se que este comportamento é tão mais acentuado quanto maiores são as desigualdades. O artigo consegue excluir uma série de motivações possíveis: sentimentos pessoais (um jogador não sabe quem são os outros), retaliação (os mesmos jogadores não se encontram duas vezes), inexperiência (o comportamento mantém-se ao longo do tempo) ou tentativa de agradar ao observador (são dadas várias alternativas de escolha ao jogador, ele não sabe o que "é esperado" de si). Este estudo detecta também que o simples facto de um indivduo ter mais rendimentos do que a média, desperta nos outros emoções negativas.
Os autores concluem que os individuos têm uma motivação genuinamente altrutista, uma vontade de igualitarismo, para adoptar comportamentos cooperativos.

The evidence here indicates that social inequality arouses negative emotions that motivate both the reduction and augmentation of others' incomes. This finding supports research that indicates humans are strongly influenced by egalitarian preferences. Furthermore, the results distinguish between models of inequality aversion: models that specify which players' incomes will be altered for egalitarian reasons capture subject behaviour better than models that do not. Finally, the results are also consistent with the punishment of non-contributors and the reward of contributors in public good games. Although concerns for equality are clearly not the only motive for human behaviour in these contexts, our results suggest that egalitarian motives may underlie strong reciprocity and, thus, play an important role in the maintenance of cooperation.


A caixa dos comentários está aberta para quem quiser contestar este artigo (de preferência depois de o ter lido).

Mais debate no 'lado b'

Para os que achavam depois do posta anterior do Renato e da minha réplica que as coisas no debate aqui no 'Peão' resvalaram para um local algures entre o impenetrável e o aborrecido, aproveito para chamar a atenção para a posta do Carlos Leone sobre determinismos no 'lado b' do blogue.

domingo, 15 de abril de 2007

Exploração

A propósito dos comentários a esta pergunta (dois posts mais abaixo), gostaria de apresentar uma citação interessante sobre o conceito de exploração. Não me parece que este conceito se tenha tornado arcaico e impróprio para a análise do actual estado do capitalismo. Alguns neo-marxistas como Nico Poulantzas e Olin Wright, continuam a utilizá-lo com pertinência. Aliás, este último estabelece uma distinção interessante entre opressão económica exploradora e não-exploradora.

A exploração económica é uma forma específica de opressão económica caracterizada por um tipo especial de mecanismo através do qual o bem-estar dos exploradores se prende com as privações dos explorados através de uma relação de causalidade. Na exploração, o bem-estar material dos exploradores depende causalmente da capacidade destes para se apropriarem do fruto do trabalho dos explorados. O bem-estar do explorador depende, por conseguinte, do esforço do explorado, e não apenas das privações por este último sofridas.
Numa opressão económica de tipo não-explorador, não se verifica qualquer transferência do fruto do trabalho do oprimido para o opressor; o bem-estar do opressor depende, não do esforço do oprimido, mas antes da exclusão deste no que refere ao acesso a certos recursos. Em ambas as situações, as desigualdades em questão entroncam na propriedade e no controlo dos recursos produtivos.

E. Olin Wright (1994), “Análise de classes, história
e emancipação”, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº40.

O Pós-Modernismo de Sócrates e Aristóteles

Uma versão de filosofia antiga à la Quentin Tarantino.
Republic Dogs, By Nathaniel Daw


(...) Aristotle: [Draws a gun, fires a shot into the air, and points it at Alcibiades] Interrupt me again, motherfucker. Interrupt me again. Nobody's trading with anybody. This is my allegory.
[Alcibiades gestures submission.]
Aristotle: [Putting away gun.] So as the philosopher king, it would be my duty to keep seditious literature out of the city
-- Socrates: I got it. I understand.
Aristotle: Shut up, motherfucker, how can you understand my perfect city when I haven't explained it yet?
Socrates: No, dickhead, not that, I understand what you were saying before, about perfection. It's all about forms.
Aristotle: Forms?
Socrates: Yeah, motherfucker, forms. Like, something don't have to physically exist for it to be perfect; it exists as the perfect ideal, the perfect form, beyond mortal comprehension.
Alcibiades: Socrates, you're supposed to pour your libations on the ground, not drink them till you're talking like a crazy Bacchae bitch.
Socrates: Normally, I'd be pouring libations with your spinal fluid right now, but since I'm feeling at peace with the universe I'll try to enlighten your sorry ass instead. Imagine there's this dark, underground cave. (...)

sábado, 14 de abril de 2007

Pergunta do dia

Haverá alguma economia política de esquerda que seja verdadeiramente progressista?

Attica! Attica!


"A Dog Day Afternoon" (1975), um filme magistral de Sidney Lumet, vale bem a pena ver e rever. Baseado em factos reais, o filme relata (reconstitui? reconstroi?) uma tentativa de assalto a um banco ocorrida em Manhattam, no Verão de 1972. Os assaltantes, completamente amadores, deixam a situação escapar-se-lhes do controlo e num ápice vêem-se encurraldos entre polícias, televisões e populares, com uma dezena de reféns entre as mãos. Sonny Wortzik, o protagonista, num desempenho fabuloso de Al Pacino (ainda fresco do Actors Studio), não pode deixar de gerar simpatia. Gera simpatia da parte dos reféns, dos populares, provavelmente dos polícias, e seguramente do espectador. Destaca-se a cena mais citada do filme, em que se materializa essa simpatia, quando Sonny grita no passeio fente ao Banco "Attica! Attica!" (uma referência a isto), e que pode ver-se no excerto do YouTube ali em cima. Muito bem realizado, especialmente bem filmados os exteriores, em que as cenas de maior tensão trazem inapelavelmente os nervos à flor da pele. Mas o que me ficou mesmo foi o personagem Sonny Wortzik, o seu drama psicológico, uma interessante reflexão sobre a natureza humana (como muitas outras, mas bem conseguida). Aliás todos os personagens são interessantes, com boas interpretações, e sobretudo, como convém, são demasiado não-sei-o-quê para serem credíveis enquanto personagens reais.
P.S. - Como seria de esperar, John Wojtowicz, em cuja história "Dog Day Afternoon" se baseia não gostou do filme.

Prémios ou patentes?

Lembram-se da discussão - iniciada pelo Zèd - em torno da importância (ou falta dela) das patentes e a estrutura de incentivos à inovação na descoberta e produção de novos medicamentos? Foi há mais de 2 meses aqui no "Peão".
Agora, descobri por acaso um artigo muito interessante de Joseph Stiglitz sobre esta questão.

Um excerto:

There is an alternative way of financing and incentivizing research that, at least in some instances, could do a far better job than patents, both in directing innovation and ensuring that the benefits of that knowledge are enjoyed as widely as possible: a medical prize fund that would reward those who discover cures and vaccines. Since governments already pay the cost of much drug research directly or indirectly, through prescription benefits, they could finance the prize fund, which would award the biggest prizes for developers of treatments or preventions for costly diseases affecting hundreds of millions of people.

Contos e estórias de encantar, para miúdos e graúdos!!

Para aqueles pais que gostam tanto dos seus filhotes que até lhes dão descanso (mútuo), aqui fica uma dica maravilhosa, meus amigos...
Avózinhas alentejanas a contarem estórias dos outros tempos. Aquelas estórias tradicionais, sobre bichos e pessoas, o bem e o mal. Aquelas estórias que nos emaravilhavam e faziam pedir por mais.
Agora já não há desculpas: tudo no Memoriamedia. Um projecto oficial que junta universidade pública, MC e FCG. Não percam tempo. Viva a petizada!
Se gostardes daqui a uns dias vem aí mais, agora para os pais se recordarem dos seus tempos de infância!


Quero sair do impasse...

... e entrar no admirável mundo novo das declarações electrónicas!

Quando em Janeiro de 2005 mudei de casa para um empreendimento novo, entre o final do Eixo Norte-Sul e a Avenida Padre Cruz, na freguesia do Lumiar, a minha rua não tinha nome. A morada que os CTT aconselhavam era: Impasse A2, à Rua Frederico George. Nos meses seguintes, telefonei e enviei mails à Divisão de Toponímia da CML a perguntar quando davam nome à minha rua. Passado quase um ano, fomos informados, também pelos CTT, que a designação definitiva era Rua Francisco da Conceição Silva. Porém, até hoje, não foi colocada qualquer placa toponímica no local (estamos à espera da campanha eleitoral?).
Há uns dias tentei declarar o IRS pela Internet. Quando pedi a senha, surgiu-me uma mensagem que inicialmente não percebi. Algo como: a morada que introduziu não corresponde à sua morada fiscal, dirija-se à sua Repartição de Finanças. Ora eu, logo em Janeiro de 2005, tinha mudado o meu domicílio fiscal para o 11.º Bairro (Lumiar). A morada que tinha inserido no formulário electrónico estava correcta!
Abreviando: para as Finanças a minha morada continua a ser "Impasse A2, à Rua Frederico George". A CML nunca informou as Finanças da atribuição de nome à minha rua ou as Finanças numa actualizaram a morada dos contribuintes que aqui moram. No microsoft office é tão fácil ("localizar", "substituir todos"). Será que a base de dados das Finanças não dispõe dessa funcionalidade?
O que me parece absolutamente lamentável e absurdo é não haver comunicação entre a Divisão de Toponímia da CML e as Finanças (apenas os CTT parecem estar bem informados). Pelos vistos é suposto que seja eu, contribuinte, a deslocar-me à Repartição de Finanças do Lumiar para informar que quase um ano depois de aqui residir sai do impasse (para efeitos postais) mas, passados dois anos, continuo num impasse para efeitos fiscais. Logo, excluída de todas as potencialidades da Sociedade da Informação.
Moral da história: devemos ganhar competências informacionais (fazer reclamações/sugestões por mail; utilizar os serviços on-line; preencher a declaração do IRS através da Internet) para perceber quão longe estamos de uma eficiente Administração/Governo electrónicos.

A minha rua, com nome próprio, no Lisboa Interactiva.

O que dá jogar (mal) à defesa

Lido no 'Público' on-line:

O secretário-geral do PS, José Sócrates, rejeitou sexta-feira as acusações de dirigir um Governo de direita, apontando as leis do aborto, da procriação médica assistida e da paridade como exemplos de políticas de esquerda.
Num plenário com os militantes do PS de Leiria e num discurso sem novidades, José Sócrates considerou que estas leis “marcam a diferença entre o centro-esquerda e o centro-direita”, rejeitando assim as críticas feitas pelos partidos à esquerda do PS.


Involuntariamente, José Sócrates caiu na teia argumentativa que motiva a maioria das críticas à esquerda do PS. Mas José Sócrates, malgré lui, não tem razão - e está a ser injusto com o seu próprio governo. Não é só na "política da vida" que o PS tem estado, razoavelmente bem, à esquerda. Há muitas outras áreas e medidas que podem e devem ser defendidas como, pelo menos moderadamente, progressistas e redistributivas - e que tendem a ser vistas por muitos como intervenções meramente "tecnocráticas", mas que não são (a das convergência das reformas entre o público e o privado, que referi e expliquei rapidamente ontem porquê, é uma delas - e que muitos olham, injustamente, como o "início do fim do Estado social"). Um dia destes volto a isto, porque no meio da tecnocracia, das percentagens e outras coisas chatas que desmotivam os que acham que a verdadeira política está necessariamente nas revistas académicas de social and political theory, esconde-se muitas vezes filosofia e economia política de esquerda. É preciso é ir lá ao fundo, destilá-la e apresentá-la, justificadamente, como tal.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Compensa...

















Seminário de Medicina Tradicional Chinesa

Hoje parece ser o dia das novidades...

Aconselho vivamente a participação num Seminário Prático de Medicina Tradicional Chinesa que irá decorrer em Lisboa nos próximos dias 28, 29 e 30 de Abril.
Trata-se de uma excelente oportunidade para conhecerem um dos poucos ocidentais formado de raiz pela Universidade de Nanjing em Medicina Tradicional Chinesa, totalizando 12 anos de estudo na República Popular da China.

Clique no cartaz em baixo para mais detalhes.


O livro da semana

Será que todos nós (indivíduos e/ou colectivos) temos 'agência', isto é, será que todos nós temos a mesma capacidade para agir no mundo? Ou será que uns são mais 'agentes' do que outros? Será que isto varia de cultura para cultura, de sociedade para sociedade? Ou será que a variação é ínfima e que tudo se resume a uma questão de estilo?

Clicando na figura em baixo, você estará a um passo de aprender o que é que o ESTUDO MINUCIOSO DA MANEIRA COMO AS PESSOAS FALAM E INTERAGEM UMAS COM AS OUTRAS nos pode dizer sobre estas questões.
Este é sem sombra de dúvidas o grande livro (italiano) da semana...

A blogofrase da semana

A alternativa era esperar, mas a vida está feita para que se espere pela morte, não pelos mortos.

Eduardo Basto no Terra Habitada

Até amanhã camaradas

E já que estou teatral e em maré de elogios, também gostaria de lembrar que hoje foi o último dia de Odete Santos no Parlamento, de quem espero que ficha biográfica na Assembleia não contenha emendas. Espero, igualmente, continuar a vê-la em intervenções públicas que até podem ser a propósito e a despropósito conforme nos habituou.

A Dúvida

Talvez ainda sob o efeito das explicações do nosso Primeiro Ministro, fui ver a Dúvida ao Teatro Maria Matos. É uma peça muitíssimo bem construida, cujo texto nos remete para uma profunda reflexão sobre a natureza humana, sobre as relações de poder, sobre o crime e sobre o castigo. A cenografia (João Mendes Ribeiro) acompanha visualmente a trama de um modo bastante sensível; a encenação (Ana Luísa Guimarães) é rigorosa, como deve ser num colégio católico dos anos 60; a música (Bernardo Sassetti) envolve-nos no clima de inquietação que se vai instalando e por fim, um magnífico trabalho de actores (Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo) que merecidamente receberam os aplausos entusiásticos de uma sala a abarrotar.
Finalmente, só mais uma nota para Diogo Infante, excelente profissional, actor e director de um teatro que conseguiu reanimar, transformando-o num espaço cultural, em todas as suas vertentes.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Só mais uma achega

Lá atrás falava por que motivo devíamos evitar os falsos purismos em toda esta história do "diploma Sócrates". Era por isto - a resposta à pergunta: será possível "realizar um processo de equivalências sem a entrega prévia de um certificado com as disciplinas feitas noutra instituição?" é esta, nas palavras do Rui Pena Pires:

É legal e é possível, faz-se todos os dias e é aconselhável que se faça, instruir um processo com base em declarações sob compromisso de honra, condicionando a efectividade das conclusões do processo à futura comprovação dessas declarações. Faz-se em processos de transferências, entre instituições como entre planos de estudos, nas equivalências Erasmus, em candidaturas a ciclos de estudos subsequentes à licenciatura ou, como previsto nos respectivos regulamentos, nos concursos de bolsas FCT. Entre outras situações.

Entre parênteses

Dado que há uma "discordância" de política editorial aqui no Peão relativamente ao local da colocação de textos :), eu venho alertar os leitores para a posta do Carlos Leone no "lado b" do Peão, muito pertinente nos tempos que correm sobre o que podem ou não podem as ordens profissionais. É que assim não fica ali perdida :)

Entre «rounds»

A descarada campanha contra Sócrates chegou hoje a um momento de pausa.
Depois de tudo tentado, ver a sondagem com que a TVI abriu o noticiário ou as vacuidades de Fernandes e Sarsfield na ERC é revelador da seriedade da «classe jornalística» (aliás em agitação pela mais que justa condenação do Público por uma pseudo-notícia caluniosa sobre o Sporting, que só peca por tardia e insuficiente).
A conferência de imprensa de Mendes foi pífia, a Esquerda já se afasta do assunto, resta saber que mais patranhas falta sacar do esgoto de onde veio esta «investigação». (Curiosamente surgida no jornal da Sonae a seguir ao insucesso da OPA sobre a PT por causa da CGD, se pensarmos do mesmo modo que os jornalistas de serviço...)
A próxima semana deve ainda trazer mais alguma coisa, mas as eleições do PP, a crise do Benfica e o desinteresse do grande público por questões processuais em geral irão provavelmente extinguir o caso.
Mesmo que assim seja, é evidente que o «estado de graça» de Sócrates terminou, justamente quando surgiram propostas no sentido de responsabilizar os jornalistas. E, agora que o Governo é acusado por não reagir rápido e por pressionar, por deixar andar e por ser uma central de informações apenas preocupado com a imagem, ou seja, por tudo e pelo seu contrário, será preciso escolher uma via própria. A presidência da UE pode ajudar ou complicar, dependerá da capacidade de resposta de Sócrates e do PS. Mas provavelmente tudo dependerá do que se quiser fazer com a segunda metade do mandato, agora que a Imprensa já não pode ser acusada de favorecimento.

Reformas

Título do "Diário Económico":

Pensionistas do Estado recebem o triplo

É por isso que a convergência* entre os regimes de aposentação da Caixa Geral de Aposentações e da Segurança Social - i.e., entre as regras do regime público e do privado - é, por muito estranho que pareça à primeira vista, uma medida progressista e redistributiva.
Temos que saber se queremos um Estado que estruture e reproduza as desigualdades (alimentando dualizações inaceitáveis e injustificáveis) ou um Estado que lute contra elas.

*Desde Janeiro de 2006, a idade legal para a reforma dos funcionários públicos (60 anos), bem como os anos de serviço necessários para obter a pensão completa (36 anos) começou a aproximar-se gradualmente (ao ritmo de seis meses por ano), até 2015, do que é exigido aos pensionistas da Segurança Social (65 anos de idade e 40 de serviço).

Omissões

A propósito da não-conspiração movida a bitoque que o Hugo aqui linkou, uma nota.
Ontem foi noticiado que no iraque a Al-Qaeda utiliza de forma sistemática crianças com deficiência mental como bombistas suicidas. Quem o diz é a ONU.
Até agora, em blogs e em media tradicionais, mal dei por interesse no caso. Será por essa prática sistemática ser a violação de direito humanos de que acusam tantas vezes «o Ocidente» a pretexto de casos pontuais infinitamente menos graves?
Não estou, claro, a defender o pasquim «P» e muito menos o seu director. Estou só a constatar o silêncio dos profissionais da indignação.

Os méritos da análise comparativa

Aqui. Mas eu juro que não é uma conspiração contra o "Público".

Explicações

José Sócrates já se explicou ontem ao país. Agora, falta o mais importante: o SLB e Fernando Santos. Vão ter que se explicar ao país e o país exige uma explicação.

Deixem o homem explicar

O desempenho dos jornalistas, José Alberto Carvalho e Maria Flor Pedroso, deixou, hoje à noite, muito a desejar. É verdade que a sua tarefa não era fácil. Depois do silêncio - provavelmente demasiado longo - de Sócrates, todo o país estava de olhos postos na TV, e nenhum deles queria ficar na história como o "jornalista-que-estendeu-a-passadeira-vermelha-ao-primeiro-ministro" numa entrevista onde estava em avaliação muito mais do que o balanço de dois anos de governo.
Na parte relativa à Universidade Independente, a coisa não foi particularmente má: deixaram José Sócrates falar (para aqueles que acham que ele não respondeu a todas as suspeitas, então é porque contra suspeitas baseadas em insinuações fáceis que atacam directamente a honra pessoal, então a vítima não pode fazer muito mais jurar a pés juntos que "isso é, obviamente, mentira". Como é lógico, no fim deste exercício ficamos basicamente no mesmo sítio de onde começámos: a insinuação vale o que vale, e o desmentido vale o que vale. Acredita quem quiser, no que quiser. Para aqueles que, depois disto, acham que ele é um aldrabão, então o estrago está feito).
Mas foi na parte relativa ao desempenho económico que a agressividade jornalística veio ao de cima, e José Alberto Carvalho fez lembrar os saudosos tempos de Manuela Moura Guedes, conhecida por tentar intimidar o seu adversário, perdão, entrevistado, não o deixando falar. O problema, aqui, é que José Sócrates precisava mesmo de falar, de explicar, pedagogicamente, com calma e por A mais B porque é que o desempenho da economia é o que é, porque é que é muito difícil ser de outra forma, e porque não vale a pena estar aqui a pedir a política da varinha mágica. Mas os jornalistas não estavam interessados em saber porque é que coisas são como são, ou porque é muito difícil serem de forma bastante diferente: se calhar porque não percebiam a explicação, que estava ao nível da cadeira de 1º ano de macroeconomia (se Sócrates pedir uma equivalência, ainda lha dão). Ora, obrigá-lo a fazer promessas milagrosas de números de crescimento e de redução de desemprego sem ter minimamente em conta a fragilidade estrutural da nossa economia, o ponto de partida conjuntural deste governo há 2 anos atrás, e de como é difícil conseguir um crescimento à base das exportações (ou seja, não é o crescimento insuflado pela procura interna) enquanto se procede à redução do défice que foi efectuada não é muito sério.
Pode ser um display de agressividade e pode lavar algumas consciências, mas não é bom jornalismo, quanto mais não seja porque demonstra ignorância de alguns factos básicos.

É normal ser mau professor

Para Sócrates 1º Ministro é corrente e é normal os professores universitários publicarem as notas muito tempo depois da época de exames. É normal os alunos ficarem meses a fio à espera dos seus resultados. É normal que em pleno período de férias (Agosto), no qual se regista uma ausência generalizada dos alunos na instituição, os docentes tenham a bondade de finalmente lançar as ditas notas. Bem, resta perguntar se vão ser esses os critérios a valorizar na avaliação dos professores. Afinal, o mérito é uma anormalidade. Valorize-se então a normalidade!

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Nicolas - how far can you go? - Sarkozy

Acreditem que até faço um esforço para não escreveu muito sobre Sarkozy, mas não é fácil, ele consegue sempre ir um bocadinho mais longe. Desta vez o homem decidiu falar sobre Genética, eu não podia deixar de escrever aqui qualquer coisa (disclaimer: sou geneticista de profissão). Acreditem também que não considero Sarkozy como fascista ou sequer próximo da extrema-direita. De direita, sim, uma direita autoritária, nacionalista, e que por estratégia eleitoral decidiu conquistar o eleitorado de Le Pen, mas isso não faz dele fascista. Talvez por isso, esta recente gafe da Genética seja bastante preocupante.
Numa longa entrevista dada ao filósofo Michel Onfray, para a revista "Philosophie Magazine", Sarkozy afirmou que a pedofilia é inata, e que os suicídios de jovens se devem a uma fragilidade genética (pode ler-se o excerto relevante da entrevista aqui). Claro que é algo dito no meio de uma conversa (algo crispada, conforme Onfray conta no seu próprio blog), talvez até retirada do seu contexto, mas é por isso mesmo muito reveladora. Não sendo uma tomada de posição política, refectida e programada, é uma gafe que certamente não estava nos apenas nos planos, mas por ser assim "expontânea", "natural" é mais que provavelmente aquilo que Sarkozy realmente pensa. Na sua visão das coisas o ser humano está geneticamente predestinado, determinado, condenado a ser pedófilo ou suicida, logo à nascença, está nos genes. Levanta-se logo a questão de saber o que mais acha Sarkozy ser determinado geneticamente; a agressividade?, a delinquência?, a criminalidade?, a inteligência?, e achará Sarkozy que esses determinantes genéticos são diferentes em "raças" diferentes?
A discordância não é, da minha parte, ideológica, é científica. Não recuso a priori que uma qualquer característica humana tenha uma forte componente genética por convicção ideológica. Simplesmente não há evidência científica nenhuma de que o suicídio ou a pedofilia sejam determinados geneticamente, pelo contrário tudo indica que o ambiente seja muito mais determinante. Se e quando houver alguma evidência em favor das causas genéticas a discussão pode e deve existir, no plano científico. Como seria de esperar as declarações de Sarkozy foram condenadas por diversos cientistas. Quando um candidato à presidência faz uma afirmação destas, está a trazer para o plano político uma questão que nem sequer foi resolvida no plano científico. Quando o faz sem qualquer suporte científico (bem pelo contrário), apenas por pura profissão de fé, está a revelar apenas uma coisa: preconceito.
Nunca esquecendo que foi Sarkozy quem lançou um projecto de lei que entre outras coisas preconizou a detecção de potenciais delinquentes a partir dos três anos (!), nunca esquecendo que Sarkozy tem uma visão racial dos problemas da banlieue - terá confidenciado a Thuram (ainda ele) que quem provoca disturbios nas banlieues são os negros e os árabes -, e é agora Sarkozy quem defende o determinismo genético, começa a traçar-se uma imagem muito inquietante do candidato à presidência.
Hoje em dia as novas teorias eugénicas já não se manifestam pela defesa da pureza e superioridade da raça (energúmenos neo-nazis à parte), mas por uma permanente justificação genética para todas as diferenças entre os individuos, sob uma capa pseudo-científica mais refinada. No fundo, a diferença não é assim tão grande.

Triste mas previsível

Por falar em "jornalismo", o post de hoje de Medeiros Ferreira no Bichos-Carpinteiros faz pensar que, mesmo sem a baixeza usada no afastamento de Mário Mesquita do Público, o novo DN não vai por bom caminho. E o blog não parece apropriado para alguns dos melhores artigos da imprensa portuguesa.

Sobre a universidade, as "ideias", e os diplomas etc.

«Há qualquer coisa no ideal universitário que o torna difícil de explicar, apesar de ser tão simples. O ideal universitário são as ideias. Ideias sobre como são as coisas, sobre como funcionam, sobre como deveriam funcionar, ideias sobre ideias. Algumas dessas ideias são conhecimento, outra são comentário, outras criatividade, a maior parte delas um pouco disso tudo. Mas é difícil explicar aos alunos, ou até ao resto da sociedade, que dentro daquelas paredes (metafóricas: pode ser cá fora, na esplanada, no trabalho de campo, na visita de estudo) essas ideias devem ter precedência sobre tudo o resto. Se os alunos querem um diploma e os pais pagam por um bom emprego, não é fácil dizer-lhes que por agora a única coisa importante é o que escreveram alguns mortos de há mais de cem anos, ou como se comporta a partícula x, ou que interpretação dar à arte de y. Só depois de ganhar verdadeiro interesse ou paixão por tais coisas chega a altura de se poder começar a tratar de notas, de diplomas e de empregos (...)»

Estas são palavras do Rui Tavares, escritas num artigo do "Público" ontem. O Miguel Vale de Almeida transcreveu-as e adicionou: "Nunca esquecer isto quando se é bombardeado pelo actual ar do tempo em relação à universidade. Nem que se tenha que tapar os ouvidos, dizer a alta voz "lá-lá-lá-lá" e ouvir interiormente este mantra".

Esta é uma discussão muito importante nos tempos que correm. Idealmente, eu não discordo do Rui, mas porque entre as ideias e os contrangimentos da realidade vai sempre um fosso sempre excessivamente grande, discordo do implícito desprezo - que não deixa de ser o que está realmente dito nas entrelinhas - pelas notas, pelos diplomas e pelos empregos. É que, inversamente, parece não ser fácil para a grande maioria dos pais e dos alunos explicar aos professores universitários que, primeiro, está a perspectiva de terem um futuro onde o diploma que passaram anos a tirar conte efectivamente para a realização de um percurso profissional decente e minimamente adequado às suas expectativas. E, infelizmente, para a maioria estas não passam pelo conhecimento do que "escreveram alguns mortos de há mais de cem anos, ou como se comporta a partícula x, ou que interpretação dar à arte de y" - doa o que doer aos professores unversitários. Tapar os ouvidos, como aconselha Vale de Almeida, não resulta em absolutamente nada - a não ser a dar razão àqueles que acham que os professores universitários, self-professed autistas, "não vivem neste mundo".

Não que o desemprego de licenciados seja a catástrofe nacional que por vezes se pinta, ou que universidade seja a única responsável pelos potenciais desajustes entre o titre e o post. Não é, e não é disso que se trata. O problema é que o que o discurso do Rui tem aquele travo amargo da intemporalidade, como se o pudéssemos manter independentemente do contexto, e como se fosse indiferente estarmos no século XIII, no XVIII ou no XXI. Mas ter as "ideias" como a única ou a grande prioridade da universidade é esquecer que, entretanto, o mundo, e sobretudo a economia, mudou - e que a universidade ocupa, e vai ocupar cada vez mais, uma posição de formação de profissionais nas mais variadas áreas. O problema é confundir esta função crescente da universidade - o que para mim representa uma grande vantagem do nosso presente e futuro em relação ao passado - com a ideia de que esta vai ser a única função da universidade. Isto é falso, e é fácil ver porquê. Nunca, no futuro, teremos tanta gente a fazer investigação, tanta gente entregue o mais possível às "ideias" e ao conhecimento desinteressado. Simplesmente, isso não vai acontecer ao mesmo nível de ensino que no passado.
E se isto representa um déclassement relativo dos professores universitários, convém não esquecer o outro lado: o do upgrade cognitivo e social de uma larga fatia da população que dantes não passava do ensino primário ou secundário (que era, obviamente, and please don't sweep it under the carpet, o que permitia à universidade e os seus profissionais dedicarem-se às "ideias" e desprezar a função social e profissional dos diplomas: quando apenas ensinamos as elites, podemos dar-nos ao luxo de esquecer o mundo lá fora e de considerarmos a mera questão "para que é que 'isso' - a nota, o diploma, etc. - serve?" verdadeiramente secundária). E este upgrade é, parece-me, muito, mas muito mais importante que qualquer "corporativismo do universal" (para citar essa expressao particularmente feliz de Bourdieu: ou direi infeliz, dado que ele considerava-o um ideal merecedor de defesa a todo o custo).

Eu admito que não seja deliberado, mas este tipo de platonismos tem sempre o risco de resvalar para um elitismo, à esquerda, particularmente desnecessário e perverso.

Obviamente

João Pinto e Castro lembra-nos o essencial no (pseudo-)affair "Sócrates":

«O problema das campanhas de calúnias é que é praticamente inútil desmontá-las uma a uma, porque, não tendo a grande maioria das pessoas paciência para acompanhar o detalhe do que está em discussão, fica assegurado o efeito de abalar a honorabilidade do visado.»

P.S. - Sobre o "jornalismo" do P, também vale a pena ler isto.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Não tenha medo de ser livre, puxe a sua cabeça cá para fora...


Se precisar de ajuda, junte-se a nós: clique no boneco...

Escândalos

Agora que já há decisão (enfim…) sobre a Independente, é possível recapitular os temas quentes recentes.
Antes era a polícia centralizada, agora é o jornalismo em perigo.
Antes era as contratações governamentais, agora é a UnI.
Pelo meio o tabaco e sua lei não fizeram fumegar gente suficiente, a Páscoa e sua «operação» mataram como de costume e o futebol arrasta-se, com Simão a mostrar como se faz.
Mas tudo serve para lamentar este horrível governo, só falta mesmo suspirar pelo retorno de Santana e Portas (faltará?).
Curiosamente, no caso da UnI não dei por ninguém notar que o diploma de Sócrates foi aceite por uma universidade pública para efeitos de MBA (ou lá o que foi), o que deveria constituir também motivo de investigação, a avaliar pela já adquirida (pelos jornais) impropriedade das equivalências de disciplinas e, consequentemente., invalidade do grau de licenciado. Será porque não são mesmo nada poucos os jornalistas que, sem sequer um diploma, qualquer que seja, se reciclam em professores de comunicação social com «pós-graduações» à pressa?
(Não é exactamente novidade, o actual programa de reconhecimento do saber adquirido no trabalho.)
Não pode ser, seria um escândalo, ainda por cima sem que ninguém ligado às universidades onde isso se faz dissesse alguma coisa…
CL
PS – Mas os escândalos fazem mossa! Já pelo menos uma pessoa minha amiga deixou de ler o Público à conta deste «jornalismo». We’re all in the gutter, but some of us are looking at the stars, como dizia Wilde.

Assente a Poeira...

Agora que já assentou um pouco a poeira do concurso dos "Grandes Portugueses" vale a pena voltar ao assunto. Não para discutir o significado dos resultados e da "vitória" de Salazar, como argumentou e bem Pedro Magalhães, os resultados não permitem concluir coisa nenhuma sobre o que os portugueses pensam sobre o que quer que seja.

O que vale a pena discutir, na minha opinião, é o péssimo serviço prestado pela RTP. Seria já um mau serviço fosse qual fosse o canal televisão - sim porque qualquer canal de televisão tem ou deve ter um mínimo de obrigações deontológicas -, pior ainda sendo uma estação pública, sustentada com dinheiro do orçamento de estado. Talvez seja até um bom ponto de partida para debater quais são as obrigações éticas a que deve estar vinculada uma emissora de televisão. E antes venham com o argumento pseudo-liberal que as audiências é que mandam, que a televisão apenas dá aos espectadores aquilo que os espectadores querem ver, é talvez bom relembrar este livro. De Sir Karl Popper, o filósofo preferido dos nossos neo-liberais de serviço, com John Condry: "Televisão: Um perigo para a Democracia" (1994) editado em português pela gradiva.

England's dreaming

A propósito dos marinheiros britânicos já em solo UK...

Sex Pistols
Never Mind the Bollocks Here's the Sex... (1977)

God Save The Queen

God save the Queen
the fascist regime,
they made you a moron
a potential H-bomb.
God save the Queen
she ain't no human being.
There is no future
in England's dreaming
Don't be told what you want
Don't be told what you need.
There's no future
there's no future
there's no future for you
God save the Queen
we mean it man
we love our queen
God saves
God save the Queen
'cos tourists are money
and our figurehead
is not what she seems
Oh God save history
God save your mad parade
Oh Lord God have mercy
all crimes are paid.
When there's no future
how can there be sin
we're the flowersin the dustbin
we're the poison
in your human machine
we're the future
you're future
God save the Queen
we mean it man
we love our queen
God saves
God save the Queen
we mean it man
there is no future
in England's dreaming
No future
no future for you
no future for me

segunda-feira, 9 de abril de 2007

O cartoon na idade da matraca

Faleceu anteontem o cartoonista Johnny Hart, famoso autor de tiras cómicas. Hart, que nasceu próximo de N. Iorque em 1931, ficou conhecido por 2 séries de banda-desenhada, B.C. (em português A.C. [Antes de Cristo]) e The wizard of Id (O mago de Id).
B.C. surgiu em 1958 e decorre na Idade da Pedra. A série The wizard of Id foi criada em 1964 e gira em torno de um rei despótico que governa num reino 'medieval' imaginário. Em ambos prevalece a fina ironia sobre a lógica da matraca, ou piadas anacrónicas, misturando aspectos actuais com contextos antigos.
Nb: notícia aqui; +inf. e tiras aqui.

Maneta

maneta | adj. e s. 2 gén.
de man por mão
adj. e s. 2 gén.,
que ou pessoa a quem falta um braço, ou que tem uma das mãos cortada ou lesa.



Será que hoje, por volta da 18:00, a Universidade Independente vai pró maneta?

Cartaz e autocolante

A imagem que ilustra este post é a de um pequeno autocolante espalhado em locais públicos (uma apragem de autocarro, no caso). Não sei se haverá alguma rábula dos Gato Fedorento a seu respeito, mas merece algumas notas:
1)Se tiver direito a gozação, terá de ser mantido o original, como os «gatos» notaram a respeito do cartaz com que gozaram;
2) Esse cartaz (tenho as minhas dúvidas a respeito deste autocolante) não estava fora da lei, pelo que a destruição de que foi alvo ainda antes de o cartaz «fedorento» surgir foi um acto anti-democrático, mesmo que ninguém o lamente (e além de anti-democrático, frequente em todas as campanhas, tristemente);
3) Destruir propaganda política e deixar que humoristas (ou futebolistas, etc.) façam a luta política por nós é contraproducente (os gato fedorento não aceitaram que os incluíssem nesse debate, e muito bem);
4) Muito bem fizeram em retirar o sue cartaz, sem quererem ser excepção à lei (esquisita, no mínimo) e sem lamechices nem se mascararem de activistas políticos aptrocinados por partidos - o que daria cabo da piada, uma das melhores dos últimos tempos, e reduziria o combate político a piadas;
5) e agora resta saber o que fazer com este autocolante.

Posted by Picasa

À espera de um editor português



The Truth About Markets: Why Some Countries are Rich and Others Remain Poor, de John Kay (2004, Penguin Books, 496 páginas)

domingo, 8 de abril de 2007

Será possível...

...ter um diploma na hora?
Sim, agora, já é! Simplificámos a sua vida, graças aos bons empenhos de instituições de vanguarda.
Diga adeus à burocracia dos trabalhos, testes, exames e ida às aulas.
Destinado especialmente a todos os que levam uma vida apressada e não têm tempo a perder.
Modernização das instituições: sempre a pensar em si e nos seus. O futuro nas suas mãos, ao alcance dum clic


Ai Jesus! (porque hoje é domingo de Páscoa)

E não é que já estamos em quarto lugar?!?! E nas meias-finais da Taça?!?! O homem é um fenómeno do outro mundo! VIVA JESUS!

"Cancer cells are those which have forgotten how to die"

They have forgotten how to die
And so extend their killing life.
I and my tumour dearly fight.
Let's hope a double death is out.
I need to see my tumour dead
A tumour which forgets to die
But plans to murder me instead.
But I remember how to die
Though all my witnesses are dead.
But I remember what they said
Of tumours which would render them
As blind and dumb as they had been
Before the birth of that disease
Which brought the tumour into play.
The black cells will dry up and die
Or sing with joy and have their way.
They breed so quietly night and day,
You never know, they never say.
Harold Pinter

sexta-feira, 6 de abril de 2007

A caverna platónica e a suplantação da dupla cegueira: Cartas de Iwo Jima


O Barão Nishi e o general Kuribayashie são personagens que não querem ser heróis e que lutam por uma causa perdida. Há sempre qualquer coisa de fascinante nas causas perdidas, fascínio esse, que se estende a estas duas personagens, e ao realizador, Clint Eastwood.
Mais que o general Kuribayashi, o Barão Nishi funciona como um alter-ego de Eastwood neste filme.
O Barão fica cego na caverna platónica, uma arquitectura táctica militar e defensiva posta em práctica pelo general.
A cegueira é aqui usada alegoricamente para demonstrar o conhecimento. O Barão, outrora um campeão olímpico, é agora vítima da guerra e dos seus martírios. A cegueira leva-o a um conhecimento que suplanta a dupla cegueira dos que estão na caverna, ou seja, daqueles que perplexos ou indiferentes, não vêem nem querem ver.
Eastwood, com este seu projecto de guerra cinematográfica (Flags of our fathers e Letters from Iwo Jima) vem igualmente demonstrar um outro tipo de conhecimento, perante a cegueira, até agora mais ou menos vigente no cinema americano sobre a II Guerra Mundial. Neste projecto, o campo e o contra-campo de uma batalha: Iwo Jima. Um ponto de vista americano (Flags of our fathers) com um excurso sobre a guerra do pacífico como a guerra para além da libertação da Europa, e outro japonês (Letters from Iwo Jima), o da impossibilidade de um projecto de guerra contra uma potência como os Estados Unidos.
A lucidez de Clint Eastwood, propaga-se até à última imagem: um plano a partir do monte Suribachi sobre a praia e o horizonte, onde já se intui a bomba atómica. Tal, como o Barão, o realizador projecta a sua visão para além da dupla cegueira.

Jornadas nocturnas

A Páscoa é um caminho que judeus e cristãos percorrrem juntos. Em cada Pesach, os judeus revivem a noite em que Deus os libertou do Egipto; em cada Páscoa, os cristãos celebram a noite em que Cristo passou da morte à vida. Também, os islâmicos têm a sua noite sagrada: a Isra e Mi'raj, igualmente uma «viagem» de Meca para Jerusalém e daí para o céu.
Ainda bem que as noites também têm significado para todos os filhos de Abraão, um homem, que contra todas as possibilidades, um dia se pôs em marcha.
Boa jornada.
Imagem: Richard Long - A line made by walking, England 1967

Para uma semana santa

Pequenos dogmas
- fato domingueiro faz bom engenheiro
- zangam-se os padrinhos, descobrem-se as fraudes
- filho pródigo torna pelas portas dos fundos
- de pequenino se torce o grande português
- água mole também molha
- Páscoa com amêndoas, cavacos sem emenda

(c) GoRRo, 2007

Peões por Lisboa - Propostas concretas (VI) - Cidadania e Liberdade de Expressão

Voltando às propostas dos Peões por Lisboa, tomei conhecimento por este post do Arrastão da decisão da Câmara Municipal de Lisboa (CML) de mandar retirar o genial cartaz dos Gato Fedorento afixado na Rotunda (que o peão Daniel postou aqui em baixo). Parece-me do mais elementar bom-senso que mandar retirar o dito cartaz é uma "parvoice". Ainda para mais fazê-lo apenas evocando meras razões processuais, como os Gato Fedorento não serem um partido político, que é para quem o espaço está reservado. Não há nada de errado com o cartaz, mas por um espírito de zelo burocrático ordena-se que seja retirado. Choca também a total ausência da mais elementar capacidade de antecipar as repercursões desta medida, a única consequência da decisão da CML vai ser contribuir ainda mais para a já de si má imagem da própria Câmara. Não ser um partido político deveria ser uma mais-valia, quem decide manifestar-se politicamente enquanto cidadão, como fizeram os Gato Fedorento, devia ser incentivado pela CML (e por todos os orgãos de soberania) a fazê-lo e não desencorajado. Quando temos um défice de cidadania em Portugal atitudes como esta da CML são no mínimo lamentáveis.
A proposta concreta que apresento para os Peões por Lisboa é precisamente a de abrir todos os espaços destinados à propaganda política, nomeadamente os de afixação, à sociedade civil, aos cidadãos, ou grupos de cidadãos, que desejem utilizá-los.

P.S. - Já agora, não será possível, pare se contornar estas questões processuais, que um, ou melhor ainda, vários partidos políticos patrocinem o cartaz dos Gato Fedorento?

quinta-feira, 5 de abril de 2007

«Nacionalismo é parvoíce»

Para todos aqueles que não vão poder passar pela rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, aqui fica o outdoor do momento. Com a cortesia dos Gato Fedorento.

MD - edição de Abril


Neste número o dossiê da edição portuguesa é dedicado às "novas culturas urbanas" (Hip-hop, Grafitti e Rave), com textos de José Alberto Simões, Ricardo Campos e Luís Almeida Vasconcelos.

Cidadania com inteligência e humor

Vamos todos ver uma espécie de cartaz no Marquês de Pombal.
Obrigada gatos!

Posfácio c/osso (IV)

"O homem (onde o encontrei) é um abismo provisório cheio de bebida au ralenti.
O exílio (sic experiência!) é um elixir esquisito do qual eu conservo o frasco...
O sexo (ver o conto da minha vida)...
A morte não só conserta todos os defeitos de fabricação como dá dinheiro pelos colchões antigos ainda bons.
A realidade não existe. Só há amoladores de facas em rebolo.
Minha patologia de sempre: a realidade portuguesa."
Manuel da Silva Ramos
(O sol da meia-noite seguido de contos para a juventude,
Lx., Eds. D. Quixote, 2007, p. 163)

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Multiculturalismo (III) - Nas palavras de Gilberto Gil

Este Samba de Gilberto Gil basicamente resume o que penso do Multiculturalismo. Para quem quiser ouvir, já está a tocar no DJ Peão

De Bob Dylan a Bob Marley - Um Samba Provocação
Gilberto Gil (1989)

Quando Bob Dylan se tornou cristão
Fez um disco de reggae por compensação
Abandonava o povo de Israel
E a ele retornava pela contramão

Quando os povos d'África chegaram aqui
Não tinham liberdade de religião
Adotaram Senhor do Bonfim:
Tanto resistência, quanto rendição

Quando, hoje, alguns preferem condenar
O sincretismo e a miscigenação
Parece que o fazem por ignorar
Os modos caprichosos da paixão

Paixão, que habita o coração da natureza-mãe
E que desloca a história em suas mutações
Que explica o fato da Branca de Neve amar
Não a um, mas a todos os sete anões

Eu cá me ponho a meditar
Pela mania da compreensão
Ainda hoje andei tentando decifrar
Algo que li que estava escrito numa pichação
Que agora eu resolvi cantar
Neste samba em forma de refrão:

"Bob Marley morreu
Porque além de negro era judeu
Michael Jackson ainda resiste
Porque além de branco ficou triste"

436%?!

Lido no Público On-Line:

"O debate em torno dos limites salariais dos quadros do Estado reacendeu-se devido à possibilidade de Paulo Macedo, Director-geral dos Impostos, vir a abandonar o seu cargo pelo facto de auferir um salário bastante superior ao do primeiro-ministro. O líder da administração fiscal recebe cerca de 23.360 euros, enquanto José Sócrates tem um vencimento base mensal de 5360 euros."

Eu estou longe de ser especialista nestas matérias, mas, assim de repente, parece-me verdadeiramente escandaloso o salário do Director-Geral de Impostos. É que não está apenas em causa aquele ser mais elevado do que o do primeiro-ministro (que me parece muito baixo, aliás); impressionante mesmo é essa relação ser da ordem dos 436%!!!

Parece-me sensato que, na administração pública, ninguém deva ganhar mais do que o Primeiro-Ministro - que, repito, devia ver o seu salário substancialmente aumentado.

O homem novo venezuelano



Será que Chavez quer tornar o Estado venezuelano num Estado totalitário? Pelo menos, segundo o discurso citado pelo Daniel Oliveira (citando a Folha de São Paulo), parece. Homem novo, higiene, etc... Isso só lembra os piores momentos da história.

terça-feira, 3 de abril de 2007

"Troquei minha tese pelo tesão"...

"Mamãe, mas que fato importante,
eu me apaixonei pelo meu informante
"..

Para antropólogos e não só. Tudo gira à volta da antropologia, ou não. Fantástico! Uma delícia...
E ainda por cima, talvez o 1.º videoclip em língua portuguesa no DJ Peão...
Plus, estreamos o marcador «Antropologia»! Mais para quê? Tudo na ponta do seu clic.

Sinal de Alerta

Fui ver Sinal de Alerta, que é um grande filme, e justifica em pleno os prémios que arrecadou. É uma raw picture da vida da underclass escocesa, a provar que em tempos de big brother e de câmaras de vídeovigilância em cada esquina, as questões-chave da existência são ainda as mesmas: o amor - ou a falta dele, seja na versão agape ou na eros -, a existência ou perda de entes queridos, o reconhecimento pelos outros, ou pela "sociedade".
O filme está cheio de pormenores deliciosos, e a cereja em cima do bolo é quando na cena final começa a tocar uma melódica cover - não sei por que banda - de "Love Will Tear Us Apart", dos Joy Division. No final do filme, estas palavras fazem todo um outro sentido:

When routine bites hard, and ambitions are low
And resentment rides high, but emotions won't grow
And we're changing our ways, taking different roads
Then love, love will tear us apart again

Why is the bedroom so cold? You've turned away on your side
Is my timing that flawed - our respect run so dry?
Yet there's still this appeal that we've kept through our lives
Love, love will tear us apart again

You cry out in your sleep - all my failings expose
There's a taste in my mouth, as desperation takes hold
Just that something so good just can't function no more
When love, love will tear us apart again.

P.S. - No DJ Peão coloquei um clip desta música.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Massificação sem democratização, eis a questão


A propósito deste estudo referido pelo DN de hoje, que identifica uma forte correlação entre a qualificação dos pais e o ingresso dos estudantes do ensino superior nos cursos mais prestigiosos do ponto de vista social e económico, gostaria de relembrar uma das conclusões de um trabalho em que participei sobre as tendências reprodutoras (conforme o significado atribuído por Bourdieu e Passeron) deste sistema de ensino. O curioso desta investigação é de que na altura em que o inquérito nacional foi aplicado (1997), não tinhamos a mínima expectativa de que uma teoria social sobre o sistema de ensino francês, eleborada nos anos 60, ainda fizesse um tremendo sentido na sociedade portuguesa, mais de 30 anos depois.

«[Em Portugal] a lógica reprodutora continua a verificar-se, na medida em que o campo escolar, enquanto regulador da competição social, actua como um mecanismo de selecção social. Neste campo, as diferentes classes e grupos sociais agem em função dos seus recursos e competências, dos seus horizontes sociais e expectativas de status. Ora, o que se nota é que existem grupos sociais que tiram maior proveito deste jogo, na medida em que possuem recursos e capacidades adquiridas que lhes facultam uma inscrição no campo mais vantajosa, com beneficios em termos de capitais escolares e simbólicos».
[Balsa, Casimiro et al (2001), O perfil dos estudantes do ensino superior. Desigualdades e diferenciação, Lisboa, Edições Colibri]

Justiça

O caso da UnI, que também aqui gera tantas postas, é um bom exemplo de como o mau funcionamento da Justiça portuguesa (e respondendo agora a uma pergunta do Hugo) atrofia a vida pública - e não apenas a económica, a política, ou outra - e gera inequidades em série.
Quem fechou (se fechar...) a UnI foi a TV. Os tribunais e a polícia já seguiam aquilo há anos, mas o ministro só actuou (e com que demora) quando a TV lá foi. A Internacional (acho que é assim, nem conhecia esta), forçada a mudar a designação por não ser universidade, também faz figura de peneira a tapar o Sol: esta situação é geral no privado, e o público (o modelo para o privado, depois de ainda mais degradado) também não se recomenda. Mas claro que um ministro que pertence à carreira e a ela voltará não tem liberdade nem poder para actuar.
Quem teria essa capacidade seria o sistema de Justiça. Mas o corporativismo judicial, que já nos deu sentenças tão edificantes como as produzidas a propósito das enormidades escritas por A. Barreto sobre um ministro da Cultura de governos socialistas anteriores, trata agora de si e da sua sobrevivência. Infelizmente, sem uma justiça capaz de corrigir os abusos da lei, em Portugal muito mais numerosos que as más leis, nem o ensino, nem a investigação, nem (para voltar a temas de outros posts) a economia ou o emprego vão melhorar decisivamente. Por isso, a UnI (e todas as outras, insisto) mostra bem como a Justiça é muito mais importante para as reformas políticas do que qualquer outro subsector: de Esquerda ou de Direita, o destino de qualquer reforma democrática em qualquer área depende da sua aplicação e efectiva conformidade à lei, e disso não se cuida.
Casos para verificar isto não faltam, suponho que para breve a decisão da Assembleia da República sobre a creditação de lobbyistas dê novos materiais para reflexão...
Entretanto, lá vamos comentando o CV de Sócrates, como se alguém tivesse votado nele por causa do curso ou do MBA, por ter demorado no primeiro ou por ter sido «o melhor da turma» no segundo...
CL
PS - É preciso não saber o que é dar aulas, ou ter muita má-vontade, para fingir que não é normal dar notas com datas de Domingos, feriados, etc. Mais a mais sendo-se Reitor.

Cinemateca júnior

Costumo apontar a Cinemateca Portuguesa como um mau exemplo de funcionalismo público e, se não tanto no que diz respeito à preservação e conservação, já bastante pior no que à divulgação concerne. Passa sempre os mesmo filmes, e mesmo quando propõe ciclos, neles conseguem «caber» os mesmíssimos títulos já vistos avulso. Estas projecções mensais são, geralmente, acompanhadas por uma tentativa de exposição logo à entrada, em que se destaca a invulgar quantidade de fita-cola e as cartolinas desbotadas. Ainda dentro da divulgação, ou da falta dela, nota-se a inexistência de conferências, cursos livres, debates, lançamentos de livros e de um serviço educativo.
Felizmente, e já a partir do mês de Abril, dia 21, posso deixar de vociferar contra esta última ausência, porque será inaugurada no espaço do Salão Foz, a Cinemateca Júnior: com exposição permanente, exposição interactiva (espero que sem a habitual fita-cola) e programação adequada a um público até os 18 anos.

Numa altura em que se assiste a uma crescente infantilização no gosto cinematográfico (até quase à entrada na faculdade os adolescentes/jovens continuam a ir ver À procura de Nemo e suas variantes quase em exclusivo), e a um progressivo desconhecimento da história do cinema (os adolescentes/jovens só muito vagamente sabem, ou não sabem de todo quem é o Charlot), uma Cinemateca Júnior, a funcionar nos moldes adequados, parece-me um serviço educativo e cultural valioso.


UnI labora 7 dias por semana!

Sempre na vanguarda da excelência, soube-se recentemente que a UnI trabalha 7 dias por semana. Não que a sua sobriedade o tenha revelado, mas sim o aturado esforço da imprensa de investigação. A sobriedade sempre foi uma prova de classe. Estamos todos de parabéns.

Police par tout, Justice nul part (II)

Relativamente aos tumúltos da semana passada na Gare du Nord ficou no ar questão "como é que da interpelação de um passageiro sem bilhete se passa a uma situação de motim generalizado?". Já agora pode ver-se o depoimento do passageiro em questão, Angelo Hoekelet. Como seria de esperar é bastante diferente da versão oficial, e mesmo sem atribuir mais credibilade a esse depoimento do que às outras versões, mas simplesmente comparando-as, percebe-se talvez algumas coisas. Um detalhe importante em que as várias versões convergem é que os confrontos começaram imediatamente no momento da detenção de Angelo Hoekelet. O que leva um certo número de passageiros do metro a envolver-se numa confrontação com a Polícia quando vêm um individuo violento ser detido? A explicação rápida (talvez demasiado) que ouvi a um francês foi simplesmente que vendo um negro ser preso os outros negros ou banlieusards utentes do metro vieram em seu auxílio. Para além levemente racista (no mínimo) não cola muito com a realidade. Interpelações como esta são frequentes, se fosse por simples solidariedade de cor haveria motins todas as semanas. Imaginar que numa situação "normal", em que há um clima de confiança nos agentes da autoridade, e estes cumprem exemplarmente a sua função, os transeuntes vão defender um infractor apanhado em flagrante delito simplesmente porque ele é negro, é absurdo. Além de absurdo não coincide com os testemunhos de quem presenciou os acontecimentos. Pode até ter havido solidariedade de banlieusards para com Angelo Hoekelet pelo facto dele ser negro, e isso ter desencadeado os confrontos, mas não se trata da tal situação "normal". Há pelo menos dois factores que, na minha opinião, são cruciais: uma intrevenção violenta da Polícia durante e depois da interpelação de Hoekelet, e um clima de desconfiança dos jovens da banlieue em relação à Polícia.

Na detenção de Angelo Hoekelet, é referido por vários testunhos, é usada foça excessiva. Segundo o próprio talvez por razões fúteis, como razões pessoais por parte dos fiscais do metro (que alegadamente até eram conhecidos). Talvez tenha sido uma operação de controlo que se descontrolou, e os primeiros intervenientes perderam mão na situação. Mas é depois desse primeiro momento que a situação se agrava (segundo os mesmos testemunhos), porque, quando se impunha um apelo à calma, há várias investidas da Polícia de Choque (os CRS) perfeitamente desproporcionadas. E aqui não se trata de um simples acontecimento que foge do controlo, é a execução de um plano elaborado para este tipo de situações que faz parte de uma política de repressão da violência, com o nome sugestivo de Vigipirate. Ou seja, é a aplicação no terreno de uma vontade política, numa de lógica responder a estas situações de uma forma repressiva, com demonstrações de força. O resultado prático foi o desencadear uma resposta violenta por parte de grupos de jovens que se encontravam na Gare du Nord. A vontade política vem de quem foi o ministro das polícias nos últimos anos, Nicolas Sarkozy.

Em relação ao clima de desconfiança por parte dos jovens das banlieues relativamente à Polícia, é um facto que se tem vindo a detriorar como consequência destas políticas repressivas. Duvido que as relações entre uns e outros alguma vez tenham sido boas, mas agora é de alguns representantes de polícias que vêm sinais de preocupação e apelos ao diálogo. Por exemplo o sindicato de polícias SGP-FO, fez um inquérito em 2005 para o qual obteve cerca de 5000 respostas; 76% dos polícias inquiridos acham a relação com as populações se detrioraram nos últimos anos, e 90% acham que a relação com os jovens se degradou (fonte Metro, edição impressa). São os próprios polícias que reconhecem um agravamento da situação. Acrescente-se ainda que com Nicolas Sarkozy se acabou com a Polícia de proximidade, que tinha por objectivo garantir uma boa relação com as populações.

Parece-me óbvio que as causas primeiras da violência urbana são sociais, e não a política de segurança. Há os problemas de integração e as condições socio-económicas em que se vive nas Cités (e como se chamam por aqui os Guetos dos subúrbios, de onde vem a violência), que podem explicar as causas do fenómeno. Mas uma política repressiva, que é discriminatória, e aponta os que já são excluidos como sendo os inimigos, é pura provocação. E é atear o rastilho de um barril de pólvora que está à espera de explodir. Nicolas Sarkozy como Presidente não vai resolver os problemas socio-económicos (é coisa que nem o preocupa) e vai aumentar ainda mais a repressão. Se for eleito é só contar os dias até que algo muito maior do que a Gare du Nord ou os tumúltos de Novembro 2005 rebente.


Nota: o título do post Police par tout, Justice nul part é um slogan antigo (Maio de 68?) que foi recuperado expontaneamente na Gare du Nord terça-feira passada, segundo os relatos foi gritado com frequência durante as investidas dos CRS (Polícia de Choque).

domingo, 1 de abril de 2007

Ó sôtor, ele esforçou-se

Vem de fonte fidedigna: o Centro de Certificação de São Bento classificou o PM como um indivíduo com muita experiência e, por isso, merecedor de títalo.
No caso, de Professor Doutor.
Em engenharias espaciais.

Ele dá o exemplo

Já é oficial: o PM dá o exemplo e candidata-se ao pugama Novas Oportunidades.

Uma verdade inconveniente

Enquanto todos aguardam a libertaçao dos 15 elementos da marina britânica capturados há mais de uma semana pela Guarda Revolucionária Iraniana - e enquanto todos se legitimamente preocupam pelo bem-estar dos reféns, é altura de reflectir como as forças aliadas, e em muito particular os EUA em Guantánamo, tratam os elementos que mantêm presos. Ronan Bennett, no The Guardian da passada sexta-feira, coloca o dedo na ferida.

"It's right that the government and media should be concerned about the treatment the 15 captured marines and sailors are receiving in Iran. Faye Turney's letters bear the marks of coercion, while parading the prisoners in front of TV cameras was demeaning. But the outrage expressed by ministers and leader writers is curious given the recent record of the "coalition of the willing" on the way it deals with prisoners.
Turney may have been "forced to wear the hijab", as the Daily Mail noted with fury, but so far as we know she has not been forced into an orange jumpsuit. Her comrades have not been shackled, blindfolded, forced into excruciating physical contortions for long periods, or denied liquids and food. As far as we know they have not had the Bible spat on, torn up or urinated on in front of their faces. They have not had electrodes attached to their genitals or been set on by attack dogs.
They have not been hung from a forklift truck and photographed for the amusement of their captors. They have not been pictured naked and smeared in their own excrement.
They have not been bundled into a CIA-chartered plane and secretly "rendered" to a basement prison in a country where torturers are experienced and free to do their worst. (...)"

Posfácio c/osso (III)

"Vivi quase trinta anos afastado do país. Foi a minha sorte. Se cá tivesse ficado, hoje estava morto. Ou calvo e barrigudo e com uma caterva de filhos. Ou talvez com uma perna de alumínio...
Hoje tenho saudades da França. Das suas mulheres, dos seus vinhos, dos seus poetas suicidários, dos seus escritores extravagantes. Jean-Pierre Brisset escreveu um livro volumoso para provar que o homem provém da rã...
Os Franceses ensinaram-me uma coisa: deve-se viver a vida até às borras. E acreditar-se no que se faz."
Manuel da Silva Ramos
(O sol da meia-noite seguido de contos para a juventude,
Lx., Pubs. D. Quixote, 2007, p. 164)

La France d'après

A França de Sarkozy não é somente uma França cheia de CRS.
Como se lê num dos últimos discursos do candidato UMP, é também uma França que não consegue olhar honestamente o seu passado (nomeadamente o seu passado colonial), que continua a culpabilizar o seu principal aliado e continua a imaginar-se como uma excepção no mundo, o que lhe permite esconder os piores horrores.

Se o ridículo pagasse imposto...

“Fomos um milhão e 500 mil portugueses que dissemos não a esta lei. Mas se a nós juntarmos mais um por nascer por cada voto nosso, teremos seguramente mais de três milhões de portugueses”, afirmou Isilda Pegado, em nome dos movimentos do “não”.

A causa do "não" à IVG é uma causa legítima. Acontece que, no passado dia 11 de Fevereiro, perdeu. Mas os seus representantes não perderam apenas o referendo; perderam de certeza o sentido do ridículo. Será que Isilda Pegado consegue perceber o alcance do que disse?