segunda-feira, 19 de março de 2007

Como a argumentação neo-liberal justifica a existência de um sistema nacional de saúde

"Era o que mais faltava que hospitais privados não pudessem decidir, dentro das suas portas, que intervenções médicas estão dispostos a fazer."

Adolfo Mesquita Nunes, no "Arte da Fuga".

domingo, 18 de março de 2007

Peões por Lisboa - Propostas concretas (V) - pensar a cidade

Retomo a série «Peões por Lisboa» para divulgar uma iniciativa do Fórum Cidadania Lisboa, a que se juntaram especialistas como Helena Roseta, Nuno Teotónio Pereira, Filipe Lopes (Associação Ofícios do Património e da Reabilitação Urbana), Guilherme Alves Coelho, Luís Coimbra e este vosso peão de serviço.
O governo está interessado em vender 6 espaços emblemáticos de Lisboa: Liceu Machado de Castro, Docapesca, Quartel de Infantaria 1 (Forte Conde de Lippe), Hosp. D. Estefânia, IPO e Penitenciária (EPL). O debate foi suscitado por associações e cidadãos interessados em pensar a cidade e por 3 razões imediatas: 1) a relevância desses espaços na dinâmica urbana (como diz o texto, mais que jóias, são dedos do património urbano alfacinha); 2) a necessidade de equacionar a ocupação destes espaços no quadro de planos urbanísticos pré-existentes e segundo uma lógica que articule habitação, terciário privado, com serviços públicos relevantes, espaços verdes, etc.; 3) em consequência dos 2 anteriores, a necessidade da venda de património deste teor levar o Estado central a auscultar interlocutores locais válidos e a aproveitar a discussão pública do tema.
Do debate gerado e dos contributos recolhidos pelo Fórum resultou um «Manifesto de cidadãos por Lisboa», que o Público publicou hoje com o título «Seis casos, cinco ministérios, um só destino?». É uma página inteira (Local, p.28). Que tais ideias possam ajudar a repensarmos as nossas cidades.
Nb: na imagem vê-se um cortejo republicano a Camões subindo a Rua do Carmo (AFML).

E agora uma coisa que realmente me chateia a mim também


Nos jornais franceses e até estrangeiros tomou-se o hábito de falar de Sarko e de Ségo (aos quais veio juntar-se Bayrou). Ora, isso é profundamente injusto. Dum lado, os senhores têm direito ao nome de família, enquanto a senhora, a tal que quer se presidente, fica com o diminitivo do seu nomezinho. E porque não Nico, Ségo (e François, ou para os amantes de poesia Francisco ou Paco) ? Isso não é mais um exemplo – cuidado aqui vai sair um palavrão – da dominação masculina, mesmo desenvolvida duma forma inconsciente?
Para uma análise desse fenómeno, pode se ler o artigo no Le Monde de mais um sociólogo francês, François de Singly.

sábado, 17 de março de 2007

E agora uma coisa que realmente me chateia

Reduzido à net, gosto muito de saber que o Sporting ganhou ao Porto. Mas, agora que os cronistas desportivos têm a mania que são escritores e subordinam os textos a metáforas e a teses,

(um exemplo:

"Alguém ficou surpreendido com o golo de Tello? Com a flecha venenosa que partiu da besta disparada por «Guilherme» Tello? Ao minuto 71, o Sporting regressou de corpo e alma, com propriedade, à disputa do ceptro nacional. Porque teve atitude. Porque teve classe. Porque resistiu à pressão dos grandes momentos e superou-se continuamente, frente ao um F.C. Porto progressivamente ofensivo mas nada acutilante. Enfim, tudo se resume à transcendência do espírito de sobrevivência")

talvez ganhe a literatura. Mas quando se lê a crónica do jogo não se percebe patavina do que aconteceu dentro do campo.

Falta um certo arrojo ao Arroja

Sem querer entrar em polémica com o Victor, eu acho que as teses do Arroja sobre as razões do crescimento económico do Estado Novo até são pouco arrojadas. É que não basta dizer que havia uma "grande abertura da economia [do regime] ao exterior" (ponto 9 do decálogo). É preciso acrescentar a gestão liberal que o regime sempre fez dos mercados com que estabeleceu, digamos assim, relações comerciais privilegiadas, como era o caso de Angola ou Moçambique. É que, se não se acrescenta isto, a natureza da abertura da economia do regime de que Arroja fala fica completamente sem se perceber .

Noto a mesma falta de rigor no ponto 5. A expressão "padrões muito elevados no sistema de educação", se lida apressadamente por um leitor mais maldoso, pode fazer pensar que o autor se estava a referir aos padrões elevados de analfabetismo da população em geral. E não está: como todos sabemos, ele estava só a pensar nas boas famílias.

No mesmo ponto, é incompreensível a ausência de uma referência à política de mobilidade e internacionalização dos professores portugueses promovida pelo regime. Quantos foram os professores dos liceus e das universidades que foram, então, gentilmente convidados a combater o seu imobilismo provinciano e a sair para o estrangeiro? Se não se diz isto, o argumento de Arroja, que é bom e é subtil, resulta incompleto.

Por fim, parece-me que falta ao decálogo um 11° ponto fundamental (mas deixaria de ser um decálogo se Arroja o incluísse, pelo que aqui tem desculpa a falta de arrojo): então e a prudente política de informação desenvolvida pelo regime de Salazar? Uma política que como é sabido, foi marcada por uma tal determinação em servir o interesse nacional que, e apenas quando tal se revelava estritamente necessário, chegava ao ponto de silenciar as vozes da imprensa e da oposição? O senhor Arroja talvez respondesse a isto que a política de informação do Estado Novo nada tem a ver com o seu crescimento económico. Talvez. Mas aqui deveria entrar um argumento contra-factual: imagine-se o Estado Novo sem a política de informação coerente que adoptou (eu sei que é difícil, mas tente-se, em benefício do argumento). Haveria o perigo de as sábias políticas económicas do regime serem discutidas democraticamente, o que, possivelmente (mas eu de economia não percebo nada), seria prejudicial ao crescimento económico. Mais grave ainda seriam os efeitos sobre a memória do regime salazarista: o professor Arroja, por exemplo, que aparentemente só guardou a visão do regime que vem nos manuais de leitura da Terceira Classe, talvez ficasse a saber um pouco mais sobre o assunto.

A eficiência da ineficiência


Esse post da Cláudia relembrou-me um debate que há nesse blogue. Um estranho liberal (porque escrever num blogue liberal e repetir a propaganda do SNI parece-me paradoxal…mas aqui não é o problema e os defensores do dogma liberal já restabeleceram a ordem) iniciou uma série de posts sobre os presumidos sucessos económicos do Estado Novo. Nem vale a pena repetir o que outros já escreveram, tirando as bases desse discurso pseudo-histórico. Só fico por uma parte do racioncínio que, parece-me mas posso enganar-me, não foi discutida : a probidade e a eficácia dos servidores de Estado naquele período (Os factores 2, 3 e 4 do « novo » decálogo do Estado Novo 2. Em parte como resultado deste exemplo, uma cultura prevalecente na sociedade em que o cumprimento dos contratos (por vezes baseados na mera palavra dada) e, geralmente de todos os compromissos, se tornava uma questão de honra pessoal. 3. Funcionamento exemplar das instituições do Estado, como a justiça e a administração fiscal. 4. Elevado sentido de Estado por parte das pessoas que serviam o Estado quer nos postos da governação quer nos principais postos da administração pública. Tratava-se, em geral, de pessoas com elevado espírito público, que visavam servir o Estado e a comunidade, e não servirem-se do Estado e da comunidade - e que frequentemente o faziam com sacrifício dos seus próprios interesses pessoais).
Se o Estado Novo inspirou confiança a alguém foi aos médios e grandes proprietários rurais, aos industriais, aos comerciantes, aos financeiros, etc., etc. A grande maioria da população, ela, viveu no medo, na desconfiança e na vontade de escapar ao Estado e aos seus protegidos (fugindo por exemplo clandestinamente para França). Donde vinha a confiança dos primeiros ? Eles podiam quebrar os contratos como queriam, deixar de pagar os empregados e, melhor, impor a inexistência de contratos deixando os assalariados (rurais ou industriais) sem protecção. Sem sindicatos, com operários reprimidos à menor desobediência, com um sistema corporativa que era uma fraude como escreveu Philippe Schmitter, com tribunais do trabalho defendendo o patronato, é verdade que os empresários podiam ter confiança no Estado. Isso não há dúvida. E com a repressão do movimento operário, sem sindicatos, com salários que aumentavam menos depressa que a produtividade dos trabalhadores (a não ser no fim dos anos 60 quando o patronato, por culpa da emigração, teve que aumentar os salários), e sem Estado Providência, o tal sucesso económico do Estado Novo não é nada de extraordinário. Eficiência económica é juntar crescimento da riqueza, democracia e bem-estar para toda a população, como aconteceu no mesmo período além-Pireneus.
Quanto à dita eficiência e exemplaridade dos servidores do Estado no regime salazarista é um mito tão falso como as proezas do Stakhanov. Com uma censura que cortava qualquer artigo que apontava uma mais pequena disfunção da administração pública (por exemplo no livro do João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha há o caso de um desastre de avião que foi censurado, isso podia ser uma fonte de desprestígio para o Estado), com uma polícia política que podia perseguir qualquer pessoa que pudesse levar à cabo uma investigação crítica sobre a administração pública, essa inefiência não era conhecida do público que só podia ler uma narrativa distorcida da situação portuguesa. Mas estudos, nomeadamente aqueles baseados em arquivos públicos ou trabalhos de antropologia, mostram como o Estado Salazarista era inefiente, lento, cheio de corrupção (como se poder ler nos trabalhos do Howard Wiarda ou do José Cutileiro).
E essa ineficácia não era uma anomalia. Era uma das chaves do poder de Salazar. Salazar não precisava dum Estado eficiente, dum sistema que funcionava correctamente. Pelo contrário. O que ele queria era manter-se no poder. E isso passava pela existência de fracções antagonistas que, combatendo-se umas contra as outras, pediam a arbitragem do presidente do Conselho que ficava assim no centro do sistema e tornava-se indispensável. Quantos ministérios ou organismos não mantinham guerrilhas administrativas e burocráticas inúteis que se traduziram por inacção, superposições de competências e, por consequência, despesas acrescidas. Quantos ministérios ou organismos preferiram não fazer nada e resolver alguns problemas para não mudar as suas rotinas burocráticas. Quantos funcionários não se serviram das posições que ocupavam para ganhar uns (muitos) tostões à custa dos Portugueses que tinham que preencher toneladas de impressos burocráticos ?

Balancetes

Cartoon de GoRRo

Afinal era tudo tanga!

A questão dos "apadrinhamentos", a tal formalidade necessária para que os candidatos à presidenciais francesas se possam apresentar às eleições, e que este ano parecia poder deixar alguns fora da corrida, deu em nada. Alimentou muita imprensa, eu ainda acreditei (ingenuamente) que fosse alterar os dados, mas no fim todos reuniram as assinaturas necessárias. A única dúvida por enquanto é José Bové (apesar de tudo uma dúvida importante), mas será provavelmente confirmada segunda-feira. De resto até o representante do partido da caça e tradição se apresenta à presidenciais. No total serão 11 ou 12 candidatos.
Houve na última semana uma mudança de estratégia dos grandes partidos, no que toca aos apadrinhamentos. Inicialmente tanto a UMP de Sarkozy como o PSF de Ségolène Royal tinham colocado pressão sobre os eleitos dos seus partidos para não patrocinarem outras candidaturas. Esta semana veio primeiro Sarkozy a público afirmar que se iria bater pessoalmente para que Le Pen (Frente Nacional) e Besancenot (Liga Comunista Revolucionária) se pudesem candidatar, François Holande pelo PSF seguiu a mesma estratégia e retirou a pressão sobre os eleitos do seu partido viabilizando as "pequenas" candidaturas. Parece-me que tanto a UMP como o PSF estão já a tentar angariar votos para uma potencial segunda volta. Tanto para Sarkozy como para Ségolène o perigo não vem dos "pequenos candidatos" mas de François Bayrou. Convém não hostilizar agora os pequenos, que podem dar votos na segunda volta.
Assim na escolha do esquerdista preferido há muita diversidade na oferta, como convém: Marie-George Buffet (Partido Comunista), Olivier Besancenot (Liga Comunista Revolucionária), Arlette Laguiller (Luta Operária), Gérard Schivardi (Partido dos Trabalhadores), Dominique Voynet (Verdes) e provavelmente José Bové.

sexta-feira, 16 de março de 2007

A blogofrase da semana

Escola, fome e doutores

Uma notícia que corria ontem na comunicação social relatava o problema da fome nas escolas. Para alguns alunos, sobretudo os das zonas mais periféricas (não me refiro somente ao interior do país), a única refeição condigna que tomam durante o dia é fornecida pela escola. Pode questionar-se a qualidade do serviço prestado por muitas escolas, e a responsabilidade de algumas autarquias que não têm tido como prioridade política a alimentação e nutrição infantil. No entanto, não é esse o objectivo deste post. Estas notícias revelam que nos sectores mais pobres da sociedade portuguesa a escola tem uma função básica que está para além da sua função primordial. Questiono-me se os índices de abandono escolar não seriam ainda mais volumosos e precoces se as escolas não garantissem estes serviços básicos à população estudantil. Obviamente que não se pode pedir às escolas que resolvam o problema da pobreza e da subnutrição das crianças. Como também não se pode exigir à escola que ela resolva só por si o problema do abandono escolar. Em zonas consideráveis do país o abandono escolar não resulta somente da ineficácia pedagógica e representa muito mais do que um problema (já de si grave) de sub-qualificação.
A nossa sociedade é das mais assimétricas da Europa e, por isso, requer respostas políticas diferenciadoras. Por exemplo, analisar o problema do abandono escolar em alternativa à questão do desperdício de capital humano qualificado, não me parece fazer muito sentido. São problemas muito distintos e que extravasam em larga medida o âmbito das medidas de qualificação. Mas são dois problemas graves! Portugal precisa de pessoas mais qualificadas ao nível do ensino secundário e ensino médio, mas também necessita de rendibilizar todos os recursos humanos altamente qualificados que tem à disposição. Precisa de apostar na democratização do ensino de modo a torná-lo cada vez mais independente da origem de classe dos alunos. Mas também necessita de apostar em nichos de excelência que valorizem o mérito, a criatividade e a atitude crítica. Para tal são imprescindíveis políticas a diferentes velocidades, como já referi noutro post. E, sobretudo, são fundamentais medidas transversais que, por exemplo, não encarem a escola e as condições de formação que esta presta (desde o básico até ao superior) como, simultaneamente, a causa e a consequência de quase tudo o que tem a ver com a falta ou com o excesso de qualificação.

Debater as cidades

Neste blogue temos vindo a debater os problemas da cidade de Lisboa numa perspectiva abrangente, não só articulando as diferentes propostas sectoriais como pensando a cidade com experiências e comparações com outras cidades.
Vem este prolegómeno a propósito de 2 encontros que decorrerão esta 6.ª feira.
Começo pela Conferência Internacional A cidade é de todos, que começa às 17h no ISCTE e se prolonga pelo sábado inteiro. O subtítulo é «Democracia, integração e urbanismo», e por ele se organizam os 4 painéis. Aqui reside um 1.º ponto a favor, que é o da abertura e articulação de temáticas importantes para se pensar a cidade.
Um dos aspectos a focar será o do orçamento participativo e planeamento urbano, a partir de experiências modelares como a do Belo Horizonte. Por cá tais experiências começam também a difundir-se, e chegou agora a hora de reflectir a questão: será no Encontro Nacional Orçamento Participativo, em S. Brás de Alportel e por iniciativa do município local. Contará com Boaventura Sousa Santos, Jorge Wemans, Teresa Cunha, entre outros. O programa vem aqui e só é de lamentar que não refira todos os participantes.
A 1.ª iniciativa é da Esquerda Unitária Europeia/ Esquerda Verda Nórdica e do Bloco de Esquerda e, como se vê, teve a preocupação de suscitar um debate público combinando políticos e/ou especialistas nas áreas abarcadas pelo evento. Estarão presentes estudiosos como Isabel Guerra, Nuno Portas, João Seixas, João Teixeira Lopes, Pedro Soares, Giovanni Allegretti, Jordi Borja, Léon Krier, Tariq Ramadan, etc.. O programa completo vem aqui. Nele será focado a questão da imigração à luz dos casos francês e britânico.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Crítica construtiva; o mito e a fraude

Nota prévia: Lamentavelmente o texto que se segue não é baseado em factos verídicos, e qualquer semelhança com locais, situações ou personagens reais é infelizmente uma coincidência

A cena ocorre durante o julgamento de José da Silva, acusado de homicídio. O Ministério Público não conseguiu apresentar testemunhas ou provas materiais do crime, no entanto baseando-se num presumível móbil, numa série de provas circunstanciais e conjecturas elaboradas construiu uma sólida acusação. João da Silva, testemunha, passível de fornecer um alibi ao acusado, é chamado a depor. Segue-se o interrogatório por parte de Manuel da Silva, delegado do Ministério Público, a João da Silva.
...
MP - Então o Sr. João da Silva encontrava-se com o Sr. José da Silva no dia em que ocorreu o crime?
JS - É verdade.
- À hora do crime?
- Exactamente.
- A 300 kilómetros do local onde se deu o homicídio?
- É isso mesmo.
- O que quer dizer que o sr. José da Silva não pode ter cometido o homicídio...
- Parece-me evidente.
- Portanto na sua opinião a acusação da polícia é falsa?
- Logicamente que sim.
- Então diga-me só uma coisa: quem é que cometeu o crime?
- Hmm !?!?! Isso eu não sei...
- Como assim? Se o sr. João da Silva diz que não foi o sr. José da Silva tem que nos dizer quem foi.
- Mas eu não sei quem foi, sei apenas que não pode ter sido o sr. José da Silva, mais nada!
- O sr. João da Silva não está a fazer uma crítica construtiva, assim sendo não podemos levar em conta o seu testemunho.
- ...
- Sim, porque o sr. João da Silva limita-se a criticar, a pôr em causa a seriedade dos que com a sua dedicação conseguiram os elementos para acusar o sr. José da Silva, não é verdade?
- Não, eu limito-me a confirmar o alibi do sr. José da Silva...
- Mas não propõe nenhuma alternativa séria e credível. Eu pergunto apenas: senão é o sr. José da Silva o homicida então quem é?
- Mas não me compete a mim responder a essa pergunta, eu sou apenas uma testemunha...
- Não compete a si? Então compete a quem?
- Bem..., à polícia.
- Ah! Quando a polícia faz o seu trabalho o sr. João da Silva critica-o, mas quando lhe perguntamos se tem alguma explicação alternativa, não é a si que lhe compete responder, mas é à polícia. É isso?
- É isso, exactamente.
- Portanto o sr. João da Silva recusa-se a fazer um crítica construtiva.
- Eu sou apenas uma testemunha...
- Meretíssimo sr. Juíz António da Silva, o Ministério Público solicita que o testemunho do sr. João da Silva seja retirado dos autos, e não seja considerado para efeitos deste julgamento, devido à recusa intransigente por parte da testemunha em fazer uma crítica construtiva.

Falar de blogues

Hoje, às 19H, na Livraria Almedina, vão estar em discussão os blogues temáticos. No debate participam Pedro Mexia (Estado Civil), José Nunes (Foram-se os Anéis), Leonel Vicente (Memória Virtual ) e Daniel Melo (Não Apaguem a Memória *).
A iniciativa é organizada por José Carlos Abrantes e pela Almedina.
Dizem os organizadores: "Uma das vocações dos blogues é a de poderem desenvolver um tema e darem um contributo específico, muitas vezes personalizado. A variedade temática é uma das riquezas da blogosfera".
________
*E o «Peão» não vai à Almedina? É muito melhor que um blogue temático, é multi-temático! Toda a riqueza da blogosfera num só blogue. :) :) :)

Educação e liberdade

Por falar em apostas - eu pago um copo a quem me disser quem escreveu estas linhas:

"A educação ou a aprendizagem não são aqueles métodos organizados (...) que obrigam os jovens ao seu conhecimento durante umas horas determinadas, sentados em carteiras alinhadas (...). Este tipo de educação, dominante em todo o mundo, constitui um sistema contrário à liberdade. O ensino obrigatório de que se vangloriam os países cada vez que o podem aplicar é um dos métodos de opressão e privação de liberdade, uma anulação imposta às capacidades do Homem, e (...) contra as opções do mesmo. É uma acção ditatorial, que mata a liberdade, que limita o seu livre arbítrio, a sua [capacidade de] reacção e o seu aperfeiçoamento. Obrigar um ser humano a aprender um programa escolar não é outra coisa senão uma acção ditatorial. Impor determinadas matérias de aprendizagem é o mesmo que impor um método ditatorial".

a) Martin Luther King, Jr.;
b) Ivan Illich;
c) Muammar Khadafi;
d) Raoul Vaneigem.

Vá lá, não vale abusar da cábula da Wikipédia. Respostas aqui mesmo, na caixa de comentários.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Eu devia era ter apostado

Deixem-me lá só fazer mais uma pequena provocação.

Há uns dias numa das minhas "diatribes" contra os sindicatos escrevi:

"Os sindicatos bradam contra os baixos salários? Eu também. Quem não clama? Então se querem ser levados a sério, eles que ajudem naquilo que podem, enquanto parceiros institucionais que são, que é mobilizar jovens e adultos para regressar à escola, certificarem a sua experiência e melhorarem as suas qualificações."

Li agora no "P on-line":

O Governo e os parceiros sociais subscreveram hoje um acordo para a reforma da formação profissional, o qual não contou com a subscrição da CGTP.

E mais não digo para já - a não ser que esta questão é tão, mas tão importante para o país.

Porque Cristiano Ronaldo é um dos melhores do mundo



Vejam a trajectória da bola, e porque é que ela é indefensável. É preciso treino, muito treino para conseguir fazer isto.

Do peão ao debate do MD


Hotel Memória


Há os que escrevem. E depois há os escritores. E depois há ainda os excelentes escritores. Eu sou suspeito, mas diria que o João Tordo inclui-se indubitavelmente no grupo dos terceiros. O Hotel Memória (edição da Quidnovi) é apresentado hoje na FNAC Chiado, às 18h30, por Helena Vasconcelos.

O drama de Le Pen

O drama de Le Pen não será o de recolher os apadrinhamentos necessários para se candidatar às eleições presidenciais, ao que parece estas estão asseguradas e Sarkozy já demonstrou querer, se necessário, ajudar Le Pen obtê-las. O drama de Le Pen é, paradoxalmente, ter chegado à segunda volta nas eleições de 2002, e tê-lo conseguido com um resultado que põe ao mesmo tempo a fasquia demasiado alta e demasiado baixa. Demasiado alta para ser uma alternativa de poder, e demasiado baixa para ser um partido de protesto anti-sistema. Por um lado chegar à segunda volta foi o melhor resultado que Le Pen podia atingir, a partir daí já não pode subir mais, ora um dos grandes trunfos de Le Pen e da Frente Nacional foi até aqui a sua subida constante, lenta mas sólida, ao longo de mais de vinte anos. Ao chegar à segunda volta o passo seguinte é ganhar as eleições, para isso tem que apresentar um programa o que é incompatível com a sua natureza anti-sistema. As poucas e ambíguas tentativas da FN, e em particular com Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, e sua putativa sucessora, deixam expostas as fragilidades do partido: por um lado as suas propostas não são muito consistentes, por outro nem são assim tão diferentes das dos partidos de direita do "sistema". Por outro lado, "grande azar" de Le Pen foi o de ter como adversário à segunda volta Jacques Chirac, do ponte de vista de Le Pen não podia ser pior, Chirac conseguiu congregar os votos de todo o espectro político fora a extrema-direita. Se por hipótese o opositor tivera sido o socialista Jospin (o que não esteve assim tão longe de acontecer) Le Pen teria tido provavelmente uma votação muito superior aos 18% que teve contra Chirac, eu arriscaria qualquer coisa na ordem dos 30%. Teria sido um terramoto ainda maior à segunda volta do que foi a primeira. Com 30% dos votos Le Pen ter-se-ia tornado incontornável, e a FN teria a sua legitimação como partido integrante do sistema político francês. Aliás há pouco tempo um documentário televisivo revelou imagens de Le Pen pouco depois de receber a notícia de que tinha passado à segunda volta contra Chirac, e a sua expressão, contrariamente ao que seria de esperar por parte do vencedor surpresa dessa noite eleitoral, era uma cara de poucos amigos. No final de contas o melhor resultado que Le Pen poderia alguma vez alcançar tornou-se no pior resultado possível dadas as circunstâncias.
Arriscando um bocado de futurologia, este ano se não conseguir melhor do que conseguiu há cinco anos Le Pen está em maus lençóis. É impossível - tanto quanto há impossíveis em política - conseguir sequer igualar o feito de 2002. Segundo as sondagens, Le Pen não só não passa à segunda volta, não obtém o mesmo nível de votação, como nem sequer será o terceiro candidato mais votado, será provavelmente o quarto. A partir daqui parece-me improvável que a FN venha a subir no futuro, vai deixar de representar a franja dos descontentes, dos votos de protesto. Isto não quer dizer que Le Pen e a FN vão desaparecer do mapa político de um momento para o outro, o seu eleitorado é muito enraizado regionalmente e socio-economicamente, mas vai provavelmente definhar lentamente. Fica por saber para onde irão os votos, porque o eleitorado de extrema-direita existe e vai continuar a existir.

insónias na blogosfera

As insónias são tramadas. Antigamente, quando não conseguia dormir, ligava a televisão. Agora vou para o PC e dou uma olhadela nos blogues. Deparei-me com um post num blogue que costumo ler com interesse quando tenho tempo: womenageatrois
Depois de ter lido atentamente o post, os seus links e comentários, decidi ir ao site do assunto em questão. Entrei.. Gostaria que o Baudrillard o tivesse visto antes de morrer (se calhar viu..). Nunca me tinha deparado, desta forma, com o conceito de hiperrealidade. Segundo as cartas dos clientes do site, as bonecas são mesmo even better than the real thing. Cliquei nos products e surgiram imagens curiosíssimas, como o Flat back torso que faz lembrar o filme Boxing Helena. Além deste torso suigeneris, surge ainda um outro: o Realdoll torso, que obviamente está em saldo.
Queria concluir este post, mas sinceramente faltam-me as palavras. Espero que compreendam.
Fiquei, no entanto, com uma dúvida: o que fazer na próxima insónia? ligar a tv ou o PC?