quinta-feira, 12 de junho de 2008

40 anos de “Beggars Banquet” e “Jumping Jack Flash”

Esta é a capa original que os Stones queriam. Mas....
foram vencidos pela gravadora que optou por esta.

O
ano de 1968 foi muito fértil para a música pop internacional. Depois do lançamento do “Their Satanic Majesties Request” (1967) - uma frustrada viagem de Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Bill Wyman e Charlie Watts ao psicodelismo -, os Rolling Stones lançam, em 1968, o LP “Beggars Banquet”, um dos grandes discos que completam 40 anos neste 2008, junto com o single “Jumping Jack Flash(veja aqui o vídeo).


Bibiana Aído Almagro: a ministra blogueira de Zapatero

Ela tem apenas 31 anos, um blog (que ela mesma atualiza), um canal no YouTube, uma conta no Flickr e seu perfil no Twitter. Falo da andaluza Bibiana Aído Almagro, Ministra da Igualdade do governo Zapatero. Na blogosfera espanhola, é conhecida como a ministra 2.0, uma alusão às ferramentas de web 2.0, de rede e comunicação social. Taí uma idéia que deveria ser copiada pelos políticos e administradores públicos. É uma maneira bem eficiente de reduzir a distância entre o Estado e o cidadão e atenuar o mofo de seus gabinetes intransponíveis.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Uma noite nas marchas

Este domingo fui assistir ao concurso das marchas populares de Lisboa, que se realiza num pavilhão fechado, antes do desfile na Avenida. É um primeiro momento de avaliação pelo júri.
Num Pavilhão Atlântico quase lotado era já a 3.ª (e última) noite de competição. O ambiente era de corropio e barulheira popular (portanto, não havia a tal tosse convulsa dos concertos de música clássica cá do burgo), com petizes e graúdos dos vários bairros da cidade, e uns quantos paraquedistas de fora, como a Cinha Jardim, que era a madrinha «da Linha» da marcha de Alfama. O elemento feminino predominava na audiência, mas não no palco. Também havia as incontornáveis pipocas, algodão doce e queijadas de Sintra, além do stock líquido cá fora e do speaker assim a dar pró-Feira Popular.
Desfilaram então 7 das 20 marchas a concurso.
S. Vicente vinha com o melhor guarda-roupa, inovador, simples, atractivo, com umas sombrinhas alegres a substituir os pesadões arcos convencionais. A letra e melodia também eram boas. Pena é que não tenha aproveitado para referir o seu santo Vicente, pois ele é que é o padroeiro de Lisboa, o que poucos sabem, e pese a relevância do St.º António, que já é referido por muitas outras marchas.
O Lumiar tinha uma canção com boa melodia, daquelas que ficam no ouvido, mas pouco mais.
O Beato também inovou, com o toque de percussão ao jeito da música de corte suspendendo o canto e os metais do «cavalinho». O pior era a decoração dos arcos e roupas, um quanto kitsch.
Benfica aproveitou para evocar a actriz Beatriz Costa e a sua 'costela' saloia, o que é apropriado.
O grande momento veio quase no fim, a representação de Alfama e a verificação se tinha traquejo para ser novamente a favorita. Parece que sim, a julgar pela coreografia, onde foi, de longe, a que revelou mais desenvoltura, variedade e risco. E, também, a atestar pelo apoio do público: mal a marcha desapareceu atrás do pano, o pavilhão encolheu para metade. Os seus apoiantes haviam saído, apesar do pedido do apresentador - a noite já ia longa, os assentos eram desconfortáveis e muita gente pegava cedo ao trabalho no dia seguinte.
As marchas alfacinhas são um dos "50 melhores eventos europeus", segundo a estrutura organizadora, a EGEAC.
Fernando Pessoa (120.º aniv.º natalício), Padre António Vieira (IV centenário do seu nascimento), a Chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil (bicentenário) e o Ano Europeu do Diálogo Intercultural foram os temas propostos (além do inevitável de Lisboa), mas que as colectividades pouco agarraram durante esta sessão. Sobre o Ano Europeu do Diálogo Intercultural vale a pena ver este vídeo feito pela EGEAC. As sardinhas estão cada vez melhores...
Amanhã à noite é o momento final: o desfile na Avenida. Antes disso, é tempo de arraial nos bairros históricos da cidade. Iééé, Lisboa é que é!!! Iééé, Lisboa é que é!!!
Nb: +inf. aqui; imagem de Alfama 2007 retirada daqui.

Se isto é a terceira via, venha depressa a quarta...

Com mais de dez anos dos Trabalhistas no poder, as desigualdades e a pobreza no Reino Unido aumentaram.

Terra Alerta: a vez dos produtos tradicionais

O programa «Terra Alerta» de hoje é dedicado à salvaguarda de variedades de certos produtos agrícolas em vias de desaparecimento em Portugal. Vem inserido no «Jornal da Noite» da SIC e é um programa de reportagens sobre ambiente e sustentabilidade da responsabilidade da jornalista Carla Castelo.
Irá abordar a actuação da associação «Colher para Semear», que se dedica a preservar sementes de frutas e legumes que se cultiva(ra)m no país, algumas das quais pouco conhecidas e parte em vias de desaparecimento. A um desses produtos, as cherovias, já me referi neste aqui, num post antigo. Para quem quiser comentar há este blogue específico.
ADENDA: o programa não foi hoje para o ar, por causa da futebolomania e dos camionistas, que entupiram o telejornal (será transmitido na próxima 4.ª; quem não puder acompanhar na hora, pode sempre ver os vídeos e os textos no site do programa).

Habitantes de Lesbos não querem ser lésbicos: querem ser lésbicos.

Moradores da ilha de Lesbos (Grécia) entraram na
Justiça para impedir que a palavra lésbica seja usada
como sinônimo de mulheres homossexuais.
Querem
que “lésbico” designe apenas uma região
geográfica. Pasmado com tal absurdo, prefiro deter-me
com a poesia de Safo.


Mais...




Imagem capturada aqui

A uma mulher amada

(Tradução: Décio Pignatari)

Ditosa que ao teu lado por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem , às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto
um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no
transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma
nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E
pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro... eu tremo.

Desigualdades Socio-Económicas na Saúde (em 22 países europeus)

A revista New England Journal of Medecine (a revista médica internacional mais cotada nos rankings de publicações científicas) acaba de publicar um estudo de saúde pública em que analisa o impacto das desigualdades socio-económicas na saúde. Foram estudados 22 países europeus, e o principal indicador utilizado foi a taxa de mortalidade.
Não é muito surpreendente que o estudo conclua que os grupos mais desfavorecidos tenham maiores taxas de mortalidade. Nunca é demais repeti-lo: a pobreza mata. No entanto o estudo vai mais além, e é isso que é mais interessante, no estudo das causas destas desigualdades. A primeira conclusão é que as desigualdades socio-económicas têm um impacto muito diferente na mortalidade consoante os países. Assim na Suécia e na Grã-Bretanha (i.e. Inglaterra e Gales, a Escócia não faz parte do estudo) são os países onde as desigualdades menos impacto têm na mortalidade. Curiosamente são países onde existe um sistema de saúde público e universal. No polo oposto, é em países do leste da Europa e Báltico que é maior a diferença na mortalidade entre grupos socio-económicos.
Este estudo analisa vários factores que podem contribuir para o impacto das desigualdades nas taxas de mortalidade (e.g. alcoolismo, tabagismo, obesidade). Desses factores a análise feita determina que um dos factores que mais peso tem é o acesso a cuidados de saúde, daí a necessidade de um sistema de saúde universal. O que me parece também bastante relevante, é que a consciência para os problemas de saúde aparece também como um factor determinante. Ou seja capacidade das pessoas diagnosticarem os seus próprios problemas de saúde (o "self-acessement") é menor nos grupos mais desfavorecidos, e isso causa uma maior taxa de mortalidade nestes grupos. Quer isto dizer que é uma questão de educação. As populações mais desfavorecidas parecem não ter consciência dos seus próprios problemas de saúde, e talvez procurem menos os cuidados médicos quando deles precisam. Os outros factores analisados parecem ter pouco peso, no que respeita às desigualdades.
No caso de Portugal, é dos países onde são detectadas maiores desigualdades em termos de educação e de rendimentos. É também dos países onde as desigualdades socio-económicas têm uma maior correlação com a obesidade (especialmente nas mulheres), mas por outro lado é dos raros países onde existe uma correlação negativa com o tabagismo (os mais pobres fumam menos, especialmente as mulheres). Finalmente em Portugal, apesar das desigualdades nos rendimentos e na educação, as desigualdades socio-económicas têm um impacto relativamente reduzido na mortalidade comparado com outros paíes (anda lá pelo meio da tabela). Talvez o sistema de saúde português não seja tão mau quanto isso, e consiga atenuar o impacto das desigualdades socio-económicas na saúde.

AU AU AU AU

Vai aqui uma sublime canção para ilustrar o post do Daniel. Aproveito a oportunidade para dedicar a mesma música a S. Ex.ª o Sr. PR, Prof. Anibal Cavaco Silva, um homem que não consegue se livrar das amarras do passado.

Mutantes - Vida de Cachorro

terça-feira, 10 de junho de 2008

Cartas na mesa...

...é o nome do novo programa de entrevistas da jornalista Constança Cunha e Sá, nas noites de 3.ª na TVI. Hoje foi a vez de Manuel Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP.
Foi uma boa entrevista, sem espalhafato decibélico, onde se sabia bem quem era o entrevistado (ao contrário do que sucede noutros canais), com tempo para falar, perguntas difíceis e respostas estimulantes. O início estendeu-se um pouco na paralisação dos camionistas, embora seja o tema do dia, mas depois houve tempo para se abordarem várias questões mais relevantes.
Valeu a pena. A ver vamos se o programa consegue manter a abertura para caras que, regra geral, têm pouco espaço na tv, pese a sua relevância social, e que, quando aparecem, é 'à molhada', nos tais mega-debates políticos.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A gaffe «puro sangue» do nosso PR

Em declarações aos media, o PR Cavaco Silva disse hoje que não queria comentar a actualidade política, porque "hoje só quero sublinhar o dia da raça..." [pausa para 'pensar'] "... de Camões, de Portugal".
Vamos lá contar as gaffes: já não há «dia da raça», isso era no tempo do «Botas». E não, hoje ainda não é 10 de Junho, há que esperar ainda um pouquinho, tanta ansiedade para quê?
Enfim, lapsus linguae em forma de gaffes estivais, ou fixações a mais no 10 de Junho?
Em homenagem, aqui fica uma colecção de raças para o nosso PR.
Nb: imagem retirada daqui.

É a bondade do mercado a funcionar II

Passamos a vida a levar com campanhas de "sensibilização" alertando para a importância de uma alimentação saudável. Talvez o problema não seja falta de sensibilidade. Uma alimentação saudável custa caro, e cada vez mais caro (pelo menos em França a fruta e os legumes são os que mais têm encarecido). O poder de compra, esse está em baixa, e a correlação entre a má nutrição e a pobreza é fortíssima.

domingo, 8 de junho de 2008

A cultura imaterial como recurso para o desenvolvimento local

Está em preparação uma rede de conteúdos em 9 concelhos alentejanos visando a salvaguarda do património cultural imaterial da região. A iniciativa é da Direcção Regional de Cultura do Alentejo, terá uma entidade central de concentração das memórias sociais e prevê a criação dos seguintes espaços:
>Casa da décima e do verso improvisado (Alcácer do Sal, dedicado à poesia popular/tradicional e ao improviso);
>centro do tapete (Arraiolos, vocacionado para o estudo dos têxteis do Alentejo);
>núcleo museológico dos modos de construir e da arquitectura tradicional (Avis);
>Casa da Fala (Barrancos, para preservar o dialecto barranquenho e à dialectologia);
>arquivo de história oral (Baleizão, dedicado à memória social);
>Casa do Teatro Tradicional (Borba);
>Casa da Viola Campaniça e do Baldão (Ourique, dedicada ao tradicional canto de improviso local e ao único instrumento de cordas alentejano);
>Casa do Cante (Serpa/Cuba, dedicado a este canto coral tradicional);
>Jardim do Mundo (Portel, que permitirá o conhecimento do território, das paisagens e das identidades do Alentejo).
A ideia é que cada uma daquelas unidades possa depois criar uma rede sectorial, para dinamizar e potenciar outras tradições, técnicas e produtos da região, como no caso da Casa do Tapete, que deverá articular uma rede que inclua os bordados de Nisa, as tapeçarias de Portalegre, as rendas de nós da Trindade e as mantas de Reguengos de Monsaraz e Mértola.
O coordenador deste projecto é Paulo Lima, que publicou recentemente o livro O fado operário no Alentejo - séculos XIX e XX. Esta rede primária estará conectada a um Centro de Articulação de Conteúdos (o Centro Michel Giacometti, a instalar em local a definir do Alentejo Central), o qual terá como funções a articulação de conteúdos, a gestão do Centro de Documentação Digital e a sensibilização para uma boa prática de conservação de arquivos do património imaterial.
Ainda segundo Paulo Lima, está previsto o desenvolvimento duma rede de encontros científicos, a articular com um conjunto de festivais temáticos (Monsaraz, Marvão, etc.) ou pequenos projectos emergentes, como é o caso dos cantos iberoamericanos de improviso em Alcácer do Sal, que "podem ter relevância para o turismo cultural". Outros projectos almejados são a construção de conteúdos multimédia para sítios e monumentos de interesse patrimonial (caso dos castelos de Amieira do Tejo e Campo Maior, da Torre do Salvador e do Castro da Cola), para a culinária do Alentejo, para os produtos agro-florestais e a paisagem.
Esta iniciativa baseia-se na Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, adoptada em X/2003 (32.ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO), que foi aprovada pelo Estado português em I/2008. Nela ficou consagrado a promoção do Património Cultural Imaterial, entendido como "um conhecimento que é recreado constantemente pelas comunidades e grupos em função do contexto em que vivem, da sua interacção com a natureza e com a sua historia" e que inclui os usos, representações, expressões, conhecimentos e técnicas, instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais colectivos. Tal convenção teve como finalidade incutir um sentimento de identidade e continuidade pelo respeito da diversidade cultural e da criatividade humana.
Este é um projecto exemplar de como o desenvolvimento local e regional pode e deve contar com a consolidação duma política cultural, entendida numa perspectiva transversal, que abranja a economia, a formação, etc.
Fonte:
*ZACARIAS, Maria Antónia, "Alentejo vai cartografar e preservar o seu vasto património cultural imaterial", Público, 8/VI/2008, p.29.
Nb: imagem do Grupo Coral e Etnográfico do Ateneu Mourense retirada daqui.

Um copinho de tinto diário dá saúde

Isto que era voz corrente, vox populi, foi agora confirmado por um estudo saído na reconhecida revista académica PloS ONE, já aqui referida pelo Zèd (+inf. no artigo "Um copo de vinho tinto é o segredo para manter um coração jovem", de Teresa Firmino, Público, 6/VI/2008, p.8-P2).
Vem este estudo juntar-se à famosa teoria do «paradoxo francês», do vinho como 'antídoto' das gorduras do queijo na dieta francesa.
Aproveitando a boleia desta notícia, aqui vos deixo também a dica dum portal onde se pode escolher um bom vinho português consoante a ocasião (convívio, quotidiano, "para impressionar", etc.) e o tipo refeição que tenhamos em perspectiva. É no Infovini, onde há muito mais informação útil, designadamente sobre as castas e as regiões vitivinícolas.

O “yes, we can!” de Hillay e a matemática de um possível “dream ticket”

A senhora Clinton anunciou oficialmente neste sábado a suspensão de sua campanha à Casa Branca e declarou o seu apoio à candidatura de Barack Obama. “Hoje estou com o senador Obama para dizer: sim, nós podemos!” (ouça aqui parte de seu discurso). Embora o nome da senadora seja bastante cotado no núcleo do Partido Democrata para compor chapa com o Obama (Bill é um deles), não é muito certo que isso acontecerá. Ao contrário. Mesmo garantindo que a quer (e não poderia ser diferente) “no primeiro plano” na corrida à presidência, Obama não tem deixado claro que a quer como a sua vice, limitando-se apenas em derramar um infindável leque de elogios à sua ex-rival. Vejamos, pois, os prós e contras do chamado “dream ticket”.

Apesar de ser aparentemente contraditório com os discursos de ambos, politicamente uma "chapa dos sonhos" até que faria um certo sentido. Hillary se mostrou muito eficaz onde Obama se mostrou frágil: junto aos trabalhadores brancos de menor renda, mulheres acima dos 50 anos e hispânicos.

A presença dela na chapa poderia ajudar a unificar o partido contra John McCain (que aliás está com os republicanos também divididos: o homem é muito liberal pra cabeças deles). Defensores dessa "chapa dos sonhos" dizem que somente ela seria capaz de atrair 100% do voto democrata. Fora isso, os 18 milhões de votos a ela conferidos não deixa de ser um convite bastante sedutor.

Entre os partidários de Hillary há eleitores hesitantes, principalmente as mulheres mais idosas, que, segundo sondagens, não votariam em Obama de jeito nenhum. A vice-presidência talvez seria um prêmio de consolação a quem tem se mostrado irredutível.

Se estes são supostamente os pontos favoráveis a uma “chapa dos sonhos”, há também os fatores negativos. Para o ex-presidente Jimmy Carter, isso traria à tona os aspectos indesejáveis de ambos os candidatos, que os exporia a um farto arsenal de críticas de McCain. Além dessa possibilidade, não se pode negligenciar a taxa de rejeição da senadora: mais de 40% entre todos os eleitores norte-americanos. Enfim, na matemática crua e nua da política, vejo mais vantagens do que desvantagens numa composição entre ambos, mesmo porque o candidato à presidência é Barack Obama, um homem que, em campanha, sabe como ninguém combinar a sua história pessoal, visão e talento político e carisma. Além de ser extraordinariamente inteligente ao colocar o seu projeto político.

sábado, 7 de junho de 2008

Jornalismo preguiçoso

A taxa de acidentes com ciclistas em Paris está longe de ser um dos mais prementes problemas da humanidade, mas por estes dias serve muito bem como exemplo do que é o jornalismo preguiçoso. O comissariado da Polícia de Paris lança um comunicado dando conta de um aumento de 21% dos acidentes no primeiro trimestre de 2008, comparando com o mesmo período de 2007. Logo pululam pela imprensa francesa notícias alarmistas de uma "explosão" (sic) de sinistralidade velocipédica em Paris (por exemplo aqui, aqui, aqui e até no respeitável Libération), e de caminho associa-se a coisa ao Vé'lib (iniciativa do município de Paris que disponibiliza qualquer coisa como 20 mil bicicletas de aluguer). Até que finalmente um jornalista, do rue89 (só podia...) faz o seu trabalho. Os acidentes aumentaram 21% mas a circulação em bicicleta aumentou 33% no mesmo período. Tal como em 2007 os acidentes aumentaram em 37% comparando com 2006, enquanto que a circulação em bicicleta aumentou em 70%. Ou seja, na realidade, se a taxa de acidentes aumentou muito abaixo do aumento da circulação, o risco de um ciclista ter um acidente em Paris diminuiu substancialmente nestes últimos tempos. Exactamente o contrário do que nos dizem as notícias. Seria interessante perceber porque razão o risco diminui quando aumenta a circulação, mas a discussão ainda não chegou a esse nível. Para começar seria bom que mais jornalistas aprendessem a ler números, e a colocar um mínimo de questões relevantes antes de reproduzirem comunicados de imprensa. Enfim, que aprendessem a fazer o seu trabalho.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Uma Lisboa cheia de cores e luzes

Ó Sofia, não sejas assim tão mazinha, . Nos dias de verão (ou quase), Lisboa se enche de luzes e cores, com festas e eventos artísticos/cuturais (aqui a programação) de fazer inveja a muitas outras cidades deste planeta Terra. Tem coisas pra todos os gostos e sabores, que vão desde música erudita as Marchas Populares (aqui a agenda), manifestação popular que figura entre as maiores do mundo. É só escolher um , cair na farra e pronto.

O íman-mor das manifs

Mais de 200 mil pessoas protestaram ontem em Lisboa contra a proposta governamental de revisão do Código do Trabalho (vd. notícias e imagens aqui, e tb. aqui). Segundo a PSP foram 200 mil, segundo a CGTP foram 270 mil os portugueses que desceram a Av. da Liberdade esta 5.ª feira.
O governo actual arrisca-se a ficar na história recente de Portugal como o íman-mor das manifs, tal é a adesão que despoleta. Nem tudo é mau: sempre ganha um troféu!
Nb: imagem da manif. retirada daqui.

Regionalização: debates a norte

Um ciclo de debates sobre a regionalização inicia-se a 18 deste mês, por iniciativa do município portuense. A moderação cabe ao edil Rui Rio, que votou contra o «sim» no referendo específico de 1998, mas que agora se diz disponível para ser convencido a mudar de opinião.
Na sessão inaugural tercerão armas Alberto de Castro, António Figueiredo e Ernâni Lopes. Nos meses posteriores, será a vez de Lobo Xavier, Miguel Cadilhe, João Cravinho, Vital Moreira, Freitas do Amaral, António Costa (pres. CML), Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Rangel. A defender o «sim» estará Arlindo Cunha, Luís Valente de Oliveira e Mário Rui Silva. Pelo «não» ripostará Artur Santos Silva, Daniel Proença de Carvalho e Rui Vilar.
É uma boa ocasião para se reforçar um debate essencial e merecedor de mais espaço, pese o défice notório de diversidade de quadrantes políticos e intelectuais. Já aqui tinha falado nesta abertura de Rui Rio, que pode ter a ver com o desejo de se tricandidatar à câmara do Porto ou com a necessidade de se fortalecer enquanto político nacional, preparando eventuais voos mais altos (presidência do PSD, daqui a um ano ou mais tarde?).
Fonte: RODRIGUES, Aníbal (2008), "Rui Rio quer retomar debate sobre regiões", Público, 3/VI, p. 7.
Nb: imagem retirada daqui.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

François Fetjö (1909-2008), precursor da história do comunismo leste-europeu

No mesmo dia em que faleceu o músico Bo Diddley morreu também o historiador húngaro-francês François Fetjö.
Foi um dos primeiros a criticar o estalinismo, ainda no início dos anos 1930, tendo escrito uma obra de referência sobre o comunismo na Europa de Leste, intitulado As democracias populares (v. o. de 1952, edição portuguesa de 1975). O último 'tomo' desta obra foi La fin des démocraties populaires (1992).
No ínicio do seu percurso intelectual, Fetjö fora comunista, tendo co-fundado um círculo de estudos marxistas na Budapeste universitária, acto pelo qual foi preso pelo regime pró-fascista romeno. Nessa altura rompe com o comunismo, por acreditar que os comunistas alemães tinham recebido instruções de Moscovo para se associarem aos nazis contra os sociais-democratas. Posteriormente, torna-se social-democrata, co-fundando a revista Szép Szo, que criticará tanto o fascismo como o estalinismo. Nas vésperas da II Guerra Mundial, foge para França, onde se torna membro da resistência antifascista.
No pós-guerra foi correspondente da France Presse para a Europa de Leste e professor no Institut d'Études Politiques (anos 70 e 80), tendo convivido com intelectuais como Camus, Aron e Morin, e polemizado com Malraux e Sartre. Após a queda do Muro de Berlim defendeu uma espécie de Plano Marshall aplicado ao países do ex-Pacto de Varsóvia.
Fontes:
*"François Fetjö", BiblioMonde, 2008.
*KULAKOWSKA, Elisabeth (1992), "François Fejtö (avec la collaboration d'Ewa Kulesza-Mietkowski): La fin des démocraties populaires. Les chemins du post-communisme [recensão crítica]", Vingtième Siècle, n.º 36 (X-XII), p. 106/7.
*QUEIRÓS, Luís Miguel, "François Fetjö (1909-2008): um pioneiro da história do comunismo na Europa de Leste", Público, 3/VI/2008, p. 21.
*PORBASE.

Cidades criativas

No Ípsilon, de sexta-feira passada, vem um interessante artigo sobre cidades criativas, leia-se «atractivas, culturalmente significativas, capazes de integrar a diferença, tecnologicamente avançadas, criativas».
A par dos exemplos clássicos como Londres ou Nova Iorque, surgem outras locais que se conseguiram reinventar como Berlim, Barcelona, Bilbau ou Glasgow (notaram como duas dessas cidades são espanholas?).
O estado iraquiano das cidades portuguesas já todos conhecemos, e o artigo lança até uma pequena, mas tão verdadeira explicação para isso: «Ou seja, a cultura em Portugal, em grande medida, ainda é um microcosmo, divorciado da realidade sociológica. Ainda não se interiorizou, verdadeiramente, que é factor potencial de desenvolvimento. É quase sempre encarada como problema e não como fazendo parte da solução».
Imagem: L. S. Lowry- Town Centre, 1960.

Ao Meio-Dia...

Entrei num novo projecto com o Hugo Mendes. É verdade... quem diria. Chama-se Pensamento do Meio-Dia, passem por lá.

Alterações Climáticas, se dúvidas houvessem...

Há poucas semanas a revista Nature noticiava que as calotes da Groenlândia estão a derreter. Não é que haja o perigo de virem a derreter no futuro se não forem tomadas medidas, já está a acontecer. Nos últimos quatro anos a camada de gelo da Groenlândia perdeu em média, em cada Verão, 150 biliões de toneladas de água a mais do que ganhou em cada Inverno. Podem ler esta notícia no lado b do Peão.
Mais recentemente a mesma Nature (by the way, a mais prestigiada revista científica internacional) publicou um artigo científico de um grupo de investigadores de vários países, liderada por Cynthia Rosenzweig, da NASA. Este grupo analisou, por métodos estatísticos, as alterações ambientais, nos sistemas físicos e biológicos, observadas em todo o planeta desde 1970 até 2004. Por sistemas físicos entende-se o encolher dos glaciares, o derreter das camadas geladas, estratificação da temperatura da água, alterações no picos fluviais primaveris devidos ao desgelo, erosão costeira, etc..., por sistemas biológicos entende-se alterações de fenómenos sazonais, como a floração de plantas, ou migração de animais, ciclos reprodutivos, ou distribuição geográfica das espécies. Os investigadores compararam essas alterações com os registos das temperaturas para o mesmo período. Todas as alterações observadas são correlacionadas com o aumento da temperatura. Ou seja é o aumento da temperatura que está a provocar essas alterações. Mas mais importante ainda, este artigo conclui que: As alterações observadas não são compatíveis com uma simples variação climática natural. Em conjunto com o 4° relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, a conclusão é que as alterações climáticas, e consequentes alterações ambientais, que já estão a acontecer, são causadas pela acção do homem. O CO2 e os gases de Efeito de Estufa, são os principais candidatos a causadores do aquecimento*. Este artigo também pode ser lido no lado b, na íntegra.
O que eu gostava agora era que os neo-liberais de serviço da blogosfera, que se dedicam a desacreditar o aquecimento global, para além de postarem coisas destas, que até são cómicas, empregassem um pouco do seu tempo a ler o artigo de que falo, e me apontassem as suas incorrecções científicas. Seria talvez um debate interessante.

*Este estudo permite mesmo excluir, ou minimizar o efeito de algumas acções humanas, como o uso da terra por ex., como sendo responsáveis pelo aquecimento, diminuindo o leque de causas possíveis.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Konstandinos Kavafis

Ofereceram-me um poema. Tão bonito, o presente e o poema:
Für Hildegard Kittel
Ítaca
Quando a saíres a caminho da ida para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poséidon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poséidon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de Verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que pares em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás-de compreender o que significam Ítacas.
(A tradução portuguesa é da Relógio D'Água)

E do que sei, agora, de Kavafis (1863-1933), poeta grego reconhecido na meia-idade e que era, ao mesmo tempo cosmopolita e recluso, heterossexual e homossexual, ele também oferecia aos seus amigos os poemas... em folhas impressas.

Ufa! Barack Obama é o candidato democrata à presidência dos EUA. Agora só falta o “sim” de Hillary pra que ambos derrotem McCain.

(A propósito da Amy) To Zèd with luv

Let us put our trust in the eternal spirit which destroys and annihilates only because it is the unsearchable and eternally creative source of all life. The passion for destruction is also a creative passion!
Michael Bakunin: Reaction In Germany (1842).
Há uma triologia de Tom Stoppard intitulada The Coast of Utopia, onde Bakunin é uma das personagens mais interessantes.
Seguem duas quotes de Bakunin anti-marxistas:
"They [the Marxists] maintain that only a dictatorship—their dictatorship, of course—can create the will of the people, while our answer to this is: No dictatorship can have any other aim but that of self-perpetuation, and it can beget only slavery in the people tolerating it; freedom can be created only by freedom, that is, by a universal rebellion on the part of the people and free organization of the toiling masses from the bottom up." (...) anarchism or freedom is the aim, while the state and dictatorship is the means, and so, in order to free the masses, they have first to be enslaved.
Mikhail Bakunin, Statism and Anarchism

terça-feira, 3 de junho de 2008

Cabo Verde, três décadas depois da independência. Número especial da revista "Direito e Cidadania"

Cabo Verde é o país convidado da Feira do Livro que ainda decorre em Lisboa nestes primeiros dias de Junho. Amanhã, dia 04 de Junho, teremos a apresentação pública do III Número especial da Revista “Direito e Cidadania”, dedicado ao tema de Cabo Verde, 30 anos depois...
O número especial homenageia Abílio Duarte, combatente, intelectual e compositor e reúne estudos e depoimentos de 19 personalidades cabo-verdianas sobre o Estado de direito e a democracia, a economia, a cultura, a educação, a saúde, a justiça e a diáspora.
Jorge Carlos Fonseca, o director da Revista e presidente do prestigiado Instituto de Ciências Jurídicas e Sociais de Cabo Verde (ICJS) tinha esperanças de apresentar este número especial em 2005, por ocasião das comemorações dos 30 anos de independência mas, nem todas as pessoas convidadas a colaborar cumpriram os prazos ou mesmo enviaram os textos prometidos. O número aí está pois, podemos contar com a mesma persistência e esforço pessoal com que Jorge Carlos Fonseca tem assegurado a publicação regular da revista “Direito e Cidadania”, o que é um facto assinalável porque, em Cabo Verde, as revistas especializadas raramente sobrevivem por muito tempo e com a qualidade que é reconhecida à referida publicação. A apresentação pública deste número especial será às 18:30, no Pavilhão da Feira e é de se esperar um debate animado, depois das palavras dos oradores convidados.
Não fossem Cabo Verde, a sua Independência e tudo o que se lhe seguiu- temas que sempre apaixonam cabo-verdianos, imigrantes e todos nós.

Feira do livro

Para não repetir, leiam aqui. É que a minha opinião é a mesma e o Eduardo Pitta escreve melhor.

Parabéns


O blog que todos temos nos favoritos faz hoje dois anos.

Muitos parabéns às founding mothers e à prodigal offspring!

Na imagem vemos a Shyza a soprar as velas (deveriam ser apenas duas velas, mas o Peão resolveu colocar lá uma panóplia sabendo de antemão do portentoso fôlego da aniversariante)

O rock 'n' roll perde todo o seu bomp, ba-bomp-bomp, bomp, bomp: ficou muda a guitarra retangular de Bo Diddley (1928 – 2008)


Bo Diddley, um dos pioneiros do rock 'n' roll, morreu ontem, aos 79 anos. Ao lado de Chuck Berry e Little Richard, Diddley fez parte de um grupo pioneiro de artistas negros que atravessaram a fronteira da divisão racial norte-americana para criar música que agradava ao público branco e por ele era imitada. Mesmo com poucos sucessos, Bo Diddley é um dos músicos que mais influenciaram o blues, o rock e o rap. A sua marca registrada é uma guitarra em formato retangular. O ritmo de sua "batida Bo Diddley" (bomp, ba-bomp-bomp, bomp, bomp), forneceu uma base rítmica poderosa ao rock'n'roll e foi “chupada” por várias gerações de roqueiros: desde Elvis Presley a Bon Jovi. Keith Richards, Ron Woods e Richie Sambora participaram das gravações de alguns de seus discos. O próprio Diddley tocou em bandas como The Clash e The Grateful Dead. Veja aqui um vídeo de 1960 e aqui ele tocando com Tom Petty.

Convergências à esquerda: abrir o debate, em tempo de pré-campanhas...

Esta noite há festa-comício em prol duma alternativa de esquerda, contra as desigualdades e a injustiça sociais e pela paz. Tem como novidade uma inédita convergência de vontades à esquerda, entre socialistas da corrente de Manuel Alegre, bloquistas, católicos progressistas, renovadores comunistas e independentes, incluindo o MIC.
Como se refere no Apelo Abril e Maio agora aqui: «Os que nos juntamos neste apelo, vindos de sensibilidades e experiências diferentes, partilhamos os valores essenciais da esquerda em nome dessa exigência. É tempo de buscar os diálogos abertos e o sentido de responsabilidade democrática que têm de se impor contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade».
Subscrevem o documento políticos como Helena Roseta, Francisco Louçã, Carlos Brito e Luís Fazenda, professores universitários como António Nóvoa, Isabel Allegro Magalhães, Luís Moita, José Reis, João Teixeira Lopes e Elísio Estanque, sindicalistas como Ulisses Garrido, entre muitos outros.
Virá aí uma alternativa de esquerda, incluindo uma candidatura presidencial frentista capaz de remover o cavaquismo mumificado? Logo se verá...
ADENDA- em baixo listo as notícias do Público com as reacções à iniciativa, além da entrevista de Louçã ao Portugal Diário, na qual sugere Alegre como candidato presidencial das esquerdas em 2010:
*"Na última fila", 8/VI, 16h55.
*BOTELHO, Leonete, MAGALHÃES, Paulo, "A casa política de Manuel Alegre é o Partido Socialista [trecho da entrevista do ministro dos Assuntos Parlamentares Augusto Santos Silva ao programa tv Diga Lá Excelência]", 8/VI, p.18/9.
*ALMEIDA, São José, BOTELHO, Leonete, "PS não pune Alegre por causa do comício", 5/VI, p.6.
*ALVAREZ, Luciano (com LUSA), "O PCP e a esquerda preocupada e falante", 4/VI, p.8.
*ALMEIDA, São José, "Manuel Alegre garante muitos socialistas na festa de esquerda", 3/VI, 12h49 [p.6].
*PÚBLICO/LUSA, "Direcção do PS acusa Manuel Alegre de participar num comício «contra o partido» promovido pelo Bloco", 1/VI.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A maior fadista viva lança hoje um novo álbum

Só agora soube, por isso já não vou poder ir, ainda assim aqui fica a informação:

«Chegou então a hora de Aldina se contar mulher, mulheres. Terá sido a imagem no espelho a exigi-lo, e ela que nunca se viu desacompanhada? Ou foi Aldina quem quis contar as mulheres que nessa imagem, a seu lado, reconhecia? Segredou-lhe o espelho o título do terceiro disco? Assim - Deverá chamar-se "MULHERES AO ESPELHO" e haverá nele a voz de uma segunda mulher, de uma grande poeta nossa. Calar-se-ão a guitarra, a viola e a tua voz, para que seja o poema "MÃE", de Maria do Rosário Pedreira, a selar, com a gravidade sublime da poesia, este novo disco de ti, minha querida fadista de corpo inteiro!» (Maria João Seixas, Jan. 2008)
Mulheres ao Espelho será lançado no próximo dia 2 de Junho, pelas 21h30, na Casa Fernando Pessoa. Haverá uma mulher a cantar, os músicos que a acompanham, os que com ela colaboraram (no passado, no presente), e uma plateia que fará de espelho das emoções vertidas para o "estrado". A entrada é livre, como sempre, e como sempre limitada à capacidade da sala. Não se atrase.»
Organização:
Casa Fernando Pessoa
Câmara Municipal de Lisboa
R. Coelho da Rocha, n.º 16
Nb: imagem retirada daqui; biografia aqui.

3ª e última conferência do divã: desigualdades e desenvolvimento


Para ler a informação detalhada é favor clicar na imagem.

domingo, 1 de junho de 2008

Não tenho paciência para Amy Winehouse, Britney Spears e afins

Eu não queria, mas não resisto. Hoje é domingo e, escrevendo, deveria escrever sobre vinhos (ando para escrever sobre o Languedoc, mas vai ter que ficar para a próxima). Tratando-se de Wine-House, abre-se uma excepção, e aqui vai disto. Claro que quem vai a um concerto de Amy Winehouse deve saber ao que vai, não tem desculpa. Eu não fui, e se vier cantar aqui por estas bandas vai ser sem mim. Um CD de estúdio chega perfeitamente. A moça até tem uma voz interessante, diria mesmo uma boa voz, e tem sobretudo um repertório muito bom. Gosto bastante das músicas que canta, mas isso, mérito a quem é devido, é graças ao talento de compositores, letristas, orquestradores, produtores e músicos. Desconheço se Amy se dedica a alguma destas actividades, mas duvido. Óbvio é que a moça tem talento (como diz, e bem, o Manolo) para a auto-destruição, e para isso é que já não tenho paciência. Que se vá auto-destruir para casa, em privado. Mas pelos vistos há quem goste do espectáculo. Pior ainda, há quem idolatre a auto-destruição, e provavelmente há até quem tenha também muita peninha, que coitadinha a mocinha até sofre muito, pobrezinha. Eu não tenho paciência, mas se outros têm, enfim, paciência... assim seja.

Agora, que venham comparar Amy Winehouse a Nina Simone, ou Billie Holliday, isso é que já é um ultraje. Nem é preciso comparar biografias (talvez Simone e Holliday tenham tido vidas muito mais duras, e verdadeiros dramas pessoais que possam justificar o sofrimento, mas nunca fizeram do sofrimento um espectáculo, mesmo que faça hoje parte da lenda, mas não vamos por aí). Atente-se à música: quando Amy Winehouse fizer metade do que fizeram Nina Simone ou Billie Holliday - i.e. quando gravar metade da discografia, com metade da qualidade, e que exerça metade da influência sobre as gerações de músicos futuras - então aceito a comparação, e podemos conversar. Enquanto esperamos, e vamos esperar muito, porque afinal a carreira de Amy Winehouse está apenas no começo (embora esteja provavelmente já no fim), fica uma faixa de Nina Simone ao vivo, para amostra. A música é boa, mas Nina Simone habituou-nos a melhor, a qualidade da gravação é sofrível, mas dá para ver o que era Nina Simone ao vivo. Oiçam, e julguem por vós.



Mas o pior, o que me tira do sério mesmo é chavões do tipo "Genialidade sem excesso? Não temos". Claro que quando se procura o excesso, e se idolatra o excesso, e se confunde excesso com génio, é normal pensar que não há génio sem excesso. Puro engano. Dou apenas o meu exemplo preferido: Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O Jazz moderno tal como o conhecemos hoje é o resultado da revolução formal que foi o BeBop, e o BeBop foi 90% o resultado da parceria entre Gillespie e Parker. Parker é muito mais conhecido do que Gillespie (para os que não se lembram é o trompetista das bochechas enormes). Parker morreu novo, com excesso de álcool, excesso de drogas, batia na mulher, e mais uma série de excessos. Dir-se-ia que o excesso faz parte do génio. Mas que tem tudo isso a ver com música? Rigorosamente nada. E pouco importa que tenha sido Gillespie o teórico do BeBop, quem desenvolveu os novos formalismos, progressões de acordes, relações acorde-escala, e outras miudezas (essas sim, relacionadas com música). Gillespie não foi propriamente um homem de excessos, e teve uma carreira que durou uns cinquentas anos, coisa pouca afinal. Os excessos de Parker serão sempre o Ícone. Chama-se a isso confundir o essencial com o acessório.

P.S. - Razão tem o Luís Rainha.
P.P.S. - Sobre Gillespie já escrevi aqui e aqui.

Pôr gasolina é dar de comer a uns quantos 'sócios'

Começou hoje o boicote às gasolineiras, em protesto pela excessiva margem de lucro que nos esportulam. O boicote prolonga-se até 3.ª feira. Mais inf. aqui, aqui ou aqui (este sobre um boicote selectivo, apenas à Galp, por ser a empresa que supostamente condiciona os preços). Sobre como poupar energia e listagem dos melhores preços vd. aqui.
(c) cartoon de GoRRo, 2008

Quem foi ver Amy Winehouse viu Amy Winehouse

Rumores deste lado do Atlântico dão conta de que a apresentação da britânica Amy Winehouse, no Rock in Rio Lisboa, foi decepcionante por uma série de coisas somadas. Mas se decepciona com ela quem não a conhece. Seus shows são à sua imagem e semelhança: imprevisíveis e de alto risco. Apesar de ser uma excelente cantora de estúdio (claro que não sem antes levar à loucura os seus produtores Salaam Remi e Mark Ronson e músicos), Amy não é a pessoa mais indicada para realizar bons concertos ao ar livre, pois sempre se apresenta (quando se apresenta), no mínimo, totalmente bêbada e muitas vezes lixada e completamente fora de controle. Para quem passou três dias consumindo um coquetel composto por vodca, uísque, ecstasy, medicamento para cavalos e cocaína até que ela estava (pelo que vi no YouTube) bem comportada ontem. Quase uma tímida normalista. Em outras palavras, quem foi ver Amy Winehouse viu Amy Winehouse, essa adoráveldesordeira”, que lamentavelmente tem um puta instinto de autodestruição.