domingo, 7 de outubro de 2007

Vai trabalhar Madiran!

Na minha senda diletante na busca de outros vinhos franceses, para além da dialética Bordeaux Bourgogne, deparei-me com alguns problemas de ordem metodológica. O primeiro foi o de encontrar uma maneira eficaz de encontrar bons vinhos que não inteiramente determinada pelo acaso. A ideia mais óbiva que me ocorreu foi a de ir a restaurantes com amigos franceses conhecedores da matéria, e seguir os seus conselhos. Sem dúvida que deste modo consegui beber bons vinhos anundantes vezes. No entanto esta abordagem apresenta um pequeno inconveniente: vá-se lá saber porquê, no dia seguinte não me consigo lembrar do nome do vinho (não raras vezes nem lembro sequer de ter saído do restaurante). Continuo com esta abordagem mas sem gende sucesso, pelo que decidi adoptar abordagens complementares. Por exemplo, comprar vinho no super-mercado. Tem uma vantagem, que é a de ficar imenso tempo a olhar para a garrafeira antes de escolher, o que dá um ar de intelectual e de profundo conhecedor de vinhos, é óptimo para impressionar desconhecidas. Não é muito eficaz no que toca a conhecer vinhos, sobretudo quando a decisão final se baseia no aspecto visual da garrafa, é quase como escolher ao acaso.
Não me lembro como, andava eu a tentar lidar com estas limitações metodológicas e dei por mim a abrir um garrafa de um vinho que me era inteiramente desconhecido, o Madiran. Tendo o cuidado de não exagerar nas minhas palavras, é de longe o meu favorito dos vinhos franceses. Eu que sou um gajo que gosta de vinhos encorpaditos, mas tenho um problema ideológico com o Bordeaux industrial (vide post anterior). Na realidade não é só ideológico, o Bordeaux industrial até é relativamente mau, e hoje em dia é difícil encontrar um Bordeaux que não seja industrial. O Madiran é encorpado, robusto, vinho com personalidade, é como um bom Bordeaux sem ser Bordeaux. Na minha grelha de classificação leva cinco pontos na escala de Bordeaux, mas ainda leva dois pontitos na escala de Bourgogne. Apesar do corpo tem um aroma, mais a dar para os frutos vermelhos que é bem agradável. Tem um defeito que os apreciadores do vinho até costumam considerar como uma qualidade: é um vinho preguiçoso. Faz tudo devagar, leva algum tempo a envelhecer, aconselha-se vivamente as garrafas com mais de quatro anos para evitar decepções. Também é um vinho que leva tempo a respirar, é bom abrir a garrafa com antecedência, pelo menos uma horita. Quem não tem tempo para uma refeição pausada, longa, com conversa à mistura, é melhor não a acompanhar com um Madiran. A vantagem deste vinho é que, talvez por não ser um vinho muito comercial, está sistematicamente sub-valorizado. Encontram-se facilmente boas garrafas, com mais de 5 anos por menos de 7 euros. É um vinho que acompanha bem refeições ricas, como carnes grelhadas, assados, guisados, cozidos, estufados, bacalhau no forno, etc... (dentro do "etc..." cabe quase tudo, excepto sardinha assada num restaurante de praia em pleno Verão).
Graças aos ofícios de uma clube de amadores do vinho vieram-me parar às mãos duas excelentes garrafas (as indicações são do dito clube):
- Chateau des Crouseilles 2002 (Cepagens: Tannat 60%, Cabernet Franc 40%): Envelhecido em cascos de carvalho 24 meses. Cor brilhante, púpura, reflexos vermelhos. Aroma a cássis, pimenta, cravo-da-Índia, alcaçuz e baunilha. Taninos pujantes. Servir a 17°, com guizados, magret de canard, carne de vaca ou porco, caça ou quiejos.
- Arte Bénédicte 2000 (Cepagens: Tannat 70%, Cabernet Franc 25%, Cabernet Sauvignon 5%): Envelhecido de 10 a 14 meses em cascos de Carvalho. Cor vermelha rubi, reflexos negros. Nariz rico (sic) em frutos vermelhos, amoras, alcaçuz, especiaria, taninos grossos, final abaunilhado. Servir com daube (uma espécie de chanfana de vaca, receita provençal), aves, queijo. Guardar 5-10 anos.

3 comments:

Daniel Melo disse...

Infelizmente por cá não há Madirin, pelo menos nas feiras de vinhos...
Agora é esperar pela tua próxima visita ;)
Ficamo-nos, por ora, pela vinhaça espanhola, da Galiza a Rioja..

Zèd disse...

Por acaso é verdade que não se encontram muitos vinhos franceses em Portugal (nem queijos), e é uma pena...

Manolo Piriz disse...

Zèd, não sou profundo conhecedor de vinhos (aliás de bebida alguma: bebo-as simplesmente), mas creio que a sua primeira abordagem é bem sedutora para um iniciante (só na investigação, é claro). Acho que vou adotá-la em meus futuros estudos. Ah, pra me precaver, vou gravar o encontro.