domingo, 10 de fevereiro de 2008

Em busca do Peidoque perdido

Este post é um post relativamente triste. Quero dizer começa com o triste acontecimento, ocorrido há alguns meses, do fecho do melhor restaurante de Paris (pelo menos daqueles que conheço, que são alguns): o mítico, o lendário, o inigualável, o fantástico, o único, o etc... "Le P'tit Canon". Se o leitor nunca ouviu falar é porque não conhece Paris. O "Le P'tit Canon" ficava ali para o 14éme, mas fechou. Duvido que tenha ido à falência, aquilo estava sempre cheio e até passei pela vergonha de lá levar um amigo vindo expressamente de Portugal e não haver mesa, outra vez tive que esperar no bar até que vagasse uma mesa, e ofereceram-me um kir pela espera (gente educada é outra coisa). Provavelmente mudaram-se para outra freguesia, talvez para um quartier mais fino, um espaço mais amplo, e eu sem saber onde (solicitam-se informações sobre o novo paradeiro). O "Le P'tit Canon" era, e provavelmente ainda é, um restaurante onde se podia comer a verdadeira boa cozinha francesa. Não é cá nada dessas nouvelles cuisines tipo saladinhas-não-sei-das-quantas com molho-não-sei-que-mais, nada disso. Era um escargots de Bourgougne em entrada, depois um confit de canard, ou um cassoulet, ou um pot au feu, enfim comida a sério. E quanto ao vinho (qu'isto é um post sobre vinhos, não sei se já repararam...), pois o vinho era o melhor, uma carta excelente, imensa escolha, e até a decoração era toda feita com elementos ligados ao vinho. A carta de vinho, a bem dizer, nunca lhe pus os olhos em cima porque o patrão era um tipo com a noção das responsabilidades: a gente escolhia o que ia comer, pedia-lhe um vinho em conformidade, e ele fazia o seu trabalho. No dia seguinte a única coisa que nos lembrávamos que era mesmo muito bom (daí alguma dificuldade em lembrar-me quais são os melhores vinhos franceses que já bebi).
Quando o restaurante abriu com outra gerência, tive um acesso de irracionalidade e pensei que se calhar era só uma remodelação do décor, mas continuava a ser o "Le P'tit Canon". Mais irracional ainda, pensei que talvez o novo restaurante fosse tão bom como o "Le P'tit Canon". Fui lá jantar.
Deparei com um restaurante bonzinho, quer dizer, correcto, enfim... O décor a atirar para o pseudo-aristocrático (toda a amibiência um pouco pretenciosa), umas cadeiras versalhescas, uma alcatifa a imitar o salões de chá da rive droite, e imensos empregados. Duvido que tenha viabilidade económica. Para jantar pedi uma coisa levezita, tipo uma salda ou um peixinho, nem me lembro. Não se preocupe o leitor, aquilo foi uma coisa que me deu naquele dia, mas passou depressa, já estou completamente recomposto. E resolvi que, como vinho, um Chinon iria bem. A empregada, que era muito simpática e competente, diz-me (o diálogo foi em francês, mas eu traduzo para simplificar a coisa) "Estou a ver que quer assim uma coisa ligeira, olhe, tenho um Pays d'Oc que chegou hoje e é muito bom". A minha primeira expressão deve ter sido algo estranha. Ela não fala português, portanto não pode perceber que a sonoridade Pays d'Oc em português faz pensar em "peidoque", o que é no mínimo estranho para nome de vinho. Eu por educação e por desejo de experimentar novos vinhos disse que sim. E de facto o vinho era bom, e na gama do Chinon, ligeiro, fruité. Se não estou em erro era um Merlot. Agora o problema foi tentar encontrar mais garrafas de Pays d'Oc. Eu vi logo que aquilo dava um post de "Vinhos ao Domingo", e vai daí tentei arranjar mais uma garrafita para testar. Não tive sorte nenhuma. Até que, fazendo umas pesquisas, me apercebi que o Pays d'Oc não é uma região demarcada, produtora de vinhos, mas uma região muito mais ampla que corresponde basicamente ao sul de França (com algumas excepções, como os franceses bem gostam, só para complicar) que se chama também Occitanie, e que corresponde ao que se chama correntemente o Midi (termo geográfico vago, utilizado só para complicar ainda mais). Acontece que no Pays d'Oc há mais que muitas regiões demarcadas que produzem vinho. Resumindo, bebi um vinho que era levezito oriundo do sul de França, o que pode parecer inverosímil, mas era um bom vinho, o que é bastante mais credível, presumivelmente um Merlot. Toda esta informação pode parecer desconexa, vaga, incompleta, e eventualmente inútil para quem quiser alguma informação concreta sobre bons vinhos franceses. Pelo facto as minhas mais sinceras desculpas, eu próprio gostaria de ter informações mais precisas.

2 comments:

Manolo Piriz disse...

Zèd, o texto por si só esta deliciosamente inebriante, como um bom vinho deve ser. Tim-Tim.

Zèd disse...

A bem dizer, eu próprio estava um pouco inebriado quando escrevi o post. Tim-Tim