...a grelha de análise esquerda-direita que o meu post dali de baixo transporta é bastante antiquada. A diferença entre esquerda-direita já não é um muro (e há quem pense que em França a diferença esquerda-direita explica muitas vezes mal as diferenças políticas, muito atravessadas pela questão do jacobinismo). Há um voto volátil, o Bayrou por exemplo é um político-http/ptbv (protocolo de transferência de boletins de votos). E portanto tudo pode acontecer. O que nos lixa é que o Sarkozy é um hacker filha da mãe.
Já agora: Vital Moreira diz que a campanha de Ségolène Royal foi pouco convincente. Não concordo. Apesar de a ter achado errática nalgumas propostas, sobretudo ao início (e de não concordar com várias delas), Ségolène conseguiu arrancar na parte final da campanha, centrando-se nas propostas centrais do seu "pacto presidencial", subindo bem acima do que previam as sondagens no início da campanha. Ségolène tem um estilo mediático que pode não agradar a muitos à esquerda — mas é difícil ver qual seria o outro candidato da área socialista a conseguir chegar ao resultado que ela atingiu. E o estilo, pelos vistos, não afastou os votos da extrema-esquerda e dos comunistas, logo à primeira volta.
Sei que não é o caso de Vital Moreira, mas é bom lembrar que com Ségolène há uma exigência que não existe com outros candidatos. Sarkozy, por exemplo, está livre da acusação de pouco convincente. Mas trata-se duma "convincência", convenhamos, um tanto xenófoba e um tanto hipócrita.
Allez Ségolène, allez.
segunda-feira, 23 de abril de 2007
Por outro lado...
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andre
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17:03
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Labels: Eleições França, Ségolène Royal
Leituras
«É o mesmo com os livros. Que buscamos em milhões de páginas? Continuamos esperançosamente a voltar as páginas.»Imagem: Vanessa Bell - Interior with the artist's daughter, c. 1935.
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Anónimo
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17:02
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Escolhe o teu esquerdista preferido - O epílogo
Olivier Besancenot (Ligue Communiste Révolutionnaire) 4,11%
Marie-George Buffet (Parti Communiste Français) 1,94%
Dominique Voynet (Les Verts) 1,57%
Arlette Laguiller (Lutte Ouvrière) 1,34%
José Bové (Altermundialista) 1,32%
Gérard Schivardi (Parti des Travailleurs) 0,34%
A haver um vencedor terá que ser Olivier Besancenot, que voltou a apresentar-se, e foi o único que manteve os mesmos níveis de votação (o rapaz, carteiro de profissão, faz-me mesmo lembrar o Francisco Louçã dos tempos do PSR, mas em mais descontraido). Todos os outros pioraram a sua votação, ou do candidato do mesmo partido, de 2002. José Bové não é "herdeiro" de nenhuma das candidaturas de 2002, mas também não se saiu nada bem.
Em 2002 as votações tinham sido:
Olivier Besancenot (Ligue Communiste Révolutionnaire) 4,25%
Robert Hue (Parti communiste français) 3,37%
Noël Mamère (Les Verts) 5,25%
Arlette Laguiller (Lutte Ouvrière) 5,72%
Daniel Gluckstein (Parti des travailleurs) 0,47%
José Bové foi o único que na noite eleitoral se referiu ao falhanço de uma candidatura unitária à esquerda nestas eleições, e de como estes resultados foram uma derrota de todos. Num momento de extrema lucidez apelidou as votações obtidas pelos candidatos à esquerda do PSF de "desperdício eleitoral" (gâchis électoral). Efectivamente acabaram todos sem honra nem glória (excepto Besancenot) a assumir as suas derrotas e a queixar-se do voto útil, e todos (incluindo Besancenot) a apelar ao voto em Ségolène Royal sem qualquer margem de manobra para reivindicações, sem quaisquer hipóteses de poderem ser parte de um projecto com reais possibilidades de ganhar as eleições.
Embora seja um mero exercício teórico, porventura fútil, é interessante imaginar qual teria sido o cenário eleitoral ontem com uma candidatura de convergência à esquerda dos socialistas. Provavelmente o voto útil não teria funcionado tanto em favor de Royal como funcionou, o eventual candidato dessa esquerda estaria agora a ser tão assediado como o está a ser o centrista François Bayrou. Não é seguro, pelo contrário, que esse fosse um cenário favorável a Ségolène Royal. Ironicamente a fragmentação da esquerda que foi a causa do desastre para Lionel Jospin há cinco anos, talvez dê uma grande ajuda a Ségolène Royal desta vez.
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Zèd
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15:27
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Mais notas sobre as eleições francesas
A noite eleitoral começou ontem, para mim, com tons de franco optimismo, para acabar em tons de semi-depressão. Diz ali o Hugo que desta vez não houve grandes surpresas. Talvez seja verdade, se o termo de comparação forem as sondagens (a bulimia das sondagens, que quanto mais tentam tornar previsível o voto, de certa maneira mais o tornam incompreensível). Mas não deixa de ser surpreendente que, somados os votos da esquerda "clássica" (do PS para a esquerda), estes atinjam apenas cerca de 36% do total, talvez o pior resultado de sempre. E isto depois de 5 anos na oposição, de 5 anos de governo Chirac-Sarkozy, de 12 anos de presidência Chirac... Bem sei que houve muita gente de esquerda que votou em Bayrou, mas mesmo assim...
A meio da noite eleitoral (ver a France 2 foi também deprimente, com uma total ausência de informação sobre os resultados reais e uma total ausência de convidados que fizessem análise política em vez de campanha) já era claro que o maior vencedor da primeira volta seria Sarkozy. A estratégia de ir buscar votos à extrema direita resultou em pleno (quase um milhão de votos a menos para Le Pen). E é-lhe agora mais fácil virar ao centro, onde está uma clientela clássica dos gaullistas, e seduzi-lo. É preciso no entanto ver o que faz Bayrou, porque teve muito, muito voto e porque se o que ele disse na campanha sobre Sarkozy é para valer, será pouca a margem para um apoio explícito. Mas, em qualquer caso, a tarefa de Ségolène para ganhar vai ser hercúlea, vai ser peneloponaica (fazer à esquerda e desfazer ao centro e vice-versa...). Desse ponto de vista, caro Hugo, a quadratura do círculo não tem nada a ver com os sindicatos e os comunistas. É saber como ganhar, muito simplesmente.
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andre
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09:15
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Propostas aceitam-se
Para mostrar que não me é indiferente a questão do desemprego dos licenciados, estou disposto a encetar uma discussão mais a sério sobre ela. Na semana passada houve muito barulho sobre este ponto, mas ninguém forneceu medidas para a resolver...
A caixa de comentários aqui em baixo está aberta a quem quiser oferecer medidas para que resolver o problema da mão-de-obra qualificada (ali deve ler-se: medidas credíveis e exequíveis. Mas isso depois fica para a discussão). Se o problema é tão grande e preocupação das pessoas enorme, então a vontade de o resolver deve ser bem intensa, e a imaginação colocada em prática mais vasta ainda.
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Hugo Mendes
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domingo, 22 de abril de 2007
Notas sobre as eleições francesas
A primeira volta das eleições francesas não trouxe, felizmente, grandes supresas. À distância, alguns comentários:
1. A França deu uma verdadeira lição de participação democrática. Os números dos que foram votar (à volta dos 85%) são impressionantes.
2. Le Pen foi derrotado. Convincentemente derrotado. Este não pode deixar de ser um dos elementos mais positivos deste escrutínio.
3. Ségolène centrou o seu discurso em torno da ideia de "confiança". Se ganhar as eleições, os franceses bem vão precisar de confiança se quiserem fazer reformas que confiram coerência ao regime e as instituições de política económica. O problema em muitas áreas do funcionamento da economia francesa não é facto de ser excessivamente rígida, mas de ser incoerente, e de as complementaridades instituicionais de que depende um bom desempenho macroeconómico funcionarem mal. Perante esta incoerência que é resultado da multiplicação de corporativismos tanto no sector público como no sector privado, há duas saídas. Uma, a da liberalização. Essa será a saída de Sarkozy, mas é improvável que ele consiga liberalizar coerentemente a economia perante a constante ameaça de conflitualidade social. A outra é a da coordenação das instituições, em particular as que sustêm o funcionamento do mercado de trabalho. O PS e Ségolène estarão, em teoria, em melhor posição para negociar com os sindicatos uma reforma do mercado de trabalho que acabe com a multiplicação irracional de contratos laborais que alimentam a dualização - e obviamente, o aumento das desigualdades - entre os insiders e os outsiders. Isto não é a mesma coisa que acabar com a precaridade, como erradamente Ségolène disse ("mettre fin aux insécurités et aux précarités"). A segurança do sector público de antigamente vai, tem de acabar, e não vale a pena medir a segurança laboral futura a partir dessa referência. O que deve ser feito é o que a esquerda historicamente sempre procurou fazer: redistribuir os riscos no mercado de trabalho, neste caso criando protecções inteligentes para o sector exportador, que é o que alimenta qualquer economia globalizada (e em particular o sector público, convém não esquecer) e que é o que mais sofre(rá) de incerteza crónica. Era muito importante que os sindicatos do sector público percebessem isto e fossem capazes de redistribuir os riscos entre o público e o privado, coordenando as suas políticas de aumento dos salários com um eventual Governo socialista e auxiliando este na criação de emprego e crescimento macroeconómico - de forma a provar que a liberalização, mais ou menos brutal, não é a única saída. Reformar o sistema de relações laborais e as instituições de mercado de trabalho é dos desafios mais importantes que o futuro governo terá pela frente. Vamos ver como é que os sindicatos se portam. No caso de esse ser um governo-presidência socialista, era bom que deixassem de lado os delírios "transformacionistas" e a lógica da "resistência"- que não levam a lado absolutamente nenhum, senão ao fraco desempenho macroeconómico, desemprego elevado e ao aumento das desigualdades - para colaborarem inteligentemente para uma mudança que conferisse mais atenção aos que mais dependem do funcionamento do mercado - porque é este o público, e não a mítica "classe operária" que já não existe (ver o ponto 5.), a que esquerda contemporânea deve prestar atenção, porque é o que mais (vai) precisa(r) de protecção em função da crescente globalização das trocas mercantis.
4. Pelo que ouvi dos (e li sobre os) discursos de Sarkozy e Ségolène, as referências à Europa foram, se não nulas, muitíssimo escassas. Ouvi-los falar da "República" e da "Nação" francesa como se a França não fizesse parte de um dos maiores espaços económicos do mundo (e como se não ganhasse ao fazer dele parte), e com o qual partilha, pelo menos idealmente, um conjunto de valores e princípios civilizacionais e políticos é estranho e negativo. Depois admiram-se com coisas do género como o que aconteceu no referendo ao Tratado Constitucional Europeu em 2005.
5. O PCF já foi o maior partido comunista da Europa Ocidental. Hoje, a sua candidata, Marie-George Buffet, recebeu, pela informação que tenho agora, cerca de 1,9% dos votos. Os números dizem tudo da sua decadência eleitoral - mais do que justa face à sua bancarrota ideológica. Infelizmente, a influência de elementos afectos ao partido à frente de várias instituições francesas, para além dos problemas de efectiva representatividade que coloca, continua a comprometer o desempenho dessas instituições e a capacidade destas em participar do tão badalado rassemblement que ambos os candidatos mencionam. Enquanto continuar a haver esta fractura de representação (entre membros de instituições e os seus líderes), por um lado, e problemas sérios de coordenação de dinâmica política (entre os líderes das instituições e os representantes do poder político, sobretudo o executivo), por outro, as reformas que todos anseiam levar a cabo ficam, estrutural e organizacionalmente, bastante comprometidas - dado que o poder de "veto" das instituições estará, nesses casos, praticamente assegurado. (aliás, este diagnóstico relativo à discrepância entre o peso eleitoral do PC e o seu poder no interior de certas instituições, corpos profissionais ou movimentos podia ser aplicado a muitas situações em Portugal. Um deles é claramente este.)
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Hugo Mendes
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23:16
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Labels: complementaridades institucionais, Eleições França, Partido Comunista Francês, Partido Socialista Francês, Sarkozy, Ségolène Royal, Sindicatos
Literatura em estado líquido
Acreditam alguns islâmicos, creio que do Sudão, que se um sábio copiar determinadas suras do Livro e, se depois, mergulhar esse papel em água para que a tinta se dilua, obterá uma bebida com poderes curativos.
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Anónimo
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22:53
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Labels: Amélie Nothomb, Bret Easton Ellis, David Lodge, Dia do Livro, J. D. Salinger, Javier Marías, livros, Marguerite Duras, Paul Auster, Raymond Carver, S. Joao da Cruz, Tom Wolfe
À espera de Mme. Royal
Entretanto de salientar que já diversos dos candidatos de esquerda manifestaram já o seu apoio a Ségolène Royal na segunda volta: Voynet (e outros mebros dos Verdes), a candiadata comunista Marie-Geogre Buffet, e - surpresa das surpresas - a mais empedrenida das extremas-esquerdas Arlette Larguiller da Lute Ouvrière. Todos apelaram de forma clara ao voto em Royal, e provavelmente seguir-se-ão outros como José Bové. Se a fidelidade partidária conta alguma coisa, a coisa está a correr bem a Ségolène Royal. Falta saber o que fará o centrista Bayrou que teve 18% dos votos.
Adenda: O altermundialista José Bové e Besancenot da LCR (que obteve mais de 4%) também já apelaram ao voto em Royal, ou melhor dizendo apelaram ao voto contra Sarkozy na segunda volta. Ainda ninguém declarou o seu apoio a Sarkozy.
Ah, Ségolène Royal também já falou, e falou bem (nada de especial a assinalar).
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Zèd
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20:23
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Labels: Eleições França, presidenciais francesas
Surpresa: Não há supresas.
Sarkozy - 29 a 30%
Royal - 25 a 26%
Bayrou - 18 a 19%
Le Pen - 10,5 a 11,5%
A taxa de participação atingiu um nível histórico, ultrapassou os 85%. Talvez a única surpresa seja a baixa votação de Le Pen. Seria de esperar que baixasse, mas uma quebra de mais de 5% em relação a 2002 é enorme (uma boa notícia, portanto). Os "pequenos" candidatos de esquerda tiveram também votações miseráveis.
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Zèd
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19:03
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'Ganda' cena
Atenção! Espalhem a notícia! Corações começam a palpitar, trocam-se os primeiros SMS, combinam-se os pontos de encontro, preparam-se as mochilas e as tendas. Não dá para a acreditar, o trio maravilha vai juntar-se em Portugal num mega Festival. Vai ser super 'boeda' demais!
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Renato Carmo
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10:05
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Labels: festival infantil
sábado, 21 de abril de 2007
Prioridades
It is better to have a permanent income than to be fascinating.
Oscar Wilde, The Model Millionaire (1912)
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Hugo Mendes
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19:36
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Labels: Oscar Wilde
A short story about a country (from the point of view of a political psychologist)
«- O Governo pretende fazer X. Perante a défice de A que temos, X é uma meta ambiciosa, mas essencial, não achas?
- Oh, A...então e o problema B?
- Então, mas espera...A é absolutamente essencial, é um problema que toca mais de metade da população, os mais pobres que, senão atingirmos X, irão continuar de certeza pobres para o resto da vida. O problema B é um problema de menor dimensão, relativamente ao qual já algumas coisas estão a ser feitas, e que terá toda a probabilidade de ser resolvido nos próximos anos, com a expansão da economia no sentido da procura dessas pessoas. Verdadeiramente importante é atacar A. A esquerda devia valorizar isso, não?
- A verdadeira esquerda não se contenta com isso. Isso são migalhas. Quando vocês querem atingir a meta X, nós propomos X+1; quando vocês querem a meta Y, nos colocamos a meta Y+1. Isso sim, é ser exigente e crítico.
- E ser verdadeiramente de esquerda é isso? Cada vez que um governo de esquerda propõe uma coisa, dizeres que isto não chega, ou que o problema é outro?
- Sim, claro, nunca me deixo apanhar.
- Então mas tudo se resume a isso? A não te "deixares apanhar"? Portanto, se o país precisa de política X, e mesmo que, pessoalmente, até reconheças, tu vais acabar por dizer que isso ou não chega ou que esquece alguém, mesmo que para isso tenhas que criticar uma política absolutamente essencial, e mesmo que isso acabe por contribuir, eventualmente, para um insucesso relativo da política?
- Sim, é isso mesmo, porque eu não sou dos teus, eu não me defino politicamente como um dos teus.
- Dos "meus"?
- Sim, porque eu me identifico com os fracos e oprimidos, tu és um burguês que pactua e beneficia do modo como este mundo é.
- Ah, percebi: então tu, por te definires como próximo dos fracos e oprimidos, vais sempre recusar, ou achar por definição insuficiente, qualquer política que melhore objectivamente a sua condição, só porque é proposta por alguém que, segundo a tua concepção, não se "identifica" com eles e não os "representa" realmente, é isso? E isto, imagino, para preservares a tua identidade política: para não te deixares associar, ou direi mesmo, contaminar pelos "meus"...Não achas que isto é hipocrisia?
- Espera lá....o que é que é hipocrisia?
- Colocares a defesa da tua identidade política à frente da defesa dos fracos e oprimidos...Porque é isso que está em causa aqui: mesmo que reconheças que esta proposta seja imprescindível para eles, o teu apoio a ela violaria o teu princípio de apoiares algo que não é proposto por um dos "teus"...
- Eu só acho que essa medida dá-lhes pouco. Isso são migalhas. É preciso ser exigente e querer melhor para eles.
- Eu também quero. Mas devias saber que, quando o elevador sobe, antes de chegar ao 10º andar, tem de passar primeiro pelo 5.º, e antes de chegar ao 5.º tem mesmo de sair do rés-do-chão!
- Isso é só conversa, são desculpas para não fazer mais.
- Ah, claro. Tens alguma proposta a fazer, alguma política alternativa?
- Por exemplo, podíamos fazer K, que seria verdadeiramente de esquerda.
- Ah, portanto saltar directamente para o 10.º andar sem passar pelos andares de baixo! Tu achas que isso faz algum sentido, que isso é verdadeiramente possível?
- Só não implantas porque não queres, tu e os teus amigos capitalistas.
- Portanto tudo se resume a isso, a falta de vontade e de bondade, não é?
- Não só, mas também por incompetência.
- É espantoso como passas lições de correctude moral e julgamentos sobre a maior ou menor capacidade para concretizar coisas quando a tua identidade política se define precisamente por não sujar as mãos, por te distinguires sempre dos que, por obrigação, são, passe o pleonasmo, obrigados a fazê-lo.
- Não vejo onde esteja a incoerência.
- Aqui não existe nenhuma. Isto é totalmente previsível; estamos afinal de contas no domínio do incentivo à irresponsabilidade: como sabes que nunca terás obrigações para nada, podes propor ou prometer este mundo e o próximo. A única incoerência ficou "congelada" lá atrás, mas é bem real: é que colocas a defesa da tua identidade política à frente do bem-estar dos que dizes defender.
- Estás a desconversar.
- Não, não, estou mesmo no ponto-chave da conversa. Mas admito que uma vez colocada esta questão a nu, a conversa futura fique bem mais difícil.»
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Hugo Mendes
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15:57
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NO FUTURE "pretty vacant drew a laugh from the listener, and then drove it back down the listener's throat"
Há uns dias postei a letra da música God save the Queen dos Sex Pistols, a propósito da libertação dos marinheiros britânicos.So stop your cheap comment
Cos we know what we feel
We're pretty pretty vacant
We're pretty pretty vay-cunt
And we don't care
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vallera
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02:18
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Antecipação ao delírio inauguracionista
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Daniel Melo
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00:02
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Labels: Câmara Municipal de Lisboa, cartoonista GoRRo, humor
Boas pedaladas aos ciclistas!
Por falar em blogues, temos aí novos ciclistas, disfarçados de ladrões de bicicletas, e parece que bem preparados para pedaladas de maratona. Boas pedaladas!
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Daniel Melo
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00:01
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Labels: blogues, Ladrões de bicicletas
sexta-feira, 20 de abril de 2007
A minha elite é melhor do que a tua
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Renato Carmo
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23:24
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Labels: Bloco de Esquerda, governo, Novas Oportunidades
Será assim tão dificil?
No início da semana eu ficava irritado. Agora acho que fico simplesmente triste. Triste por ver pessoas inteligentes escrever coisas como o Miguel Vale de Almeida, que insiste no discurso que esta "vergonhosa" campanha é "elitista", que se baseia na "ideologia dos doutores" e que quer promover a "ideologia capitalista do sucesso".
Miguel, vamos lá deixar os palavrões caros de lado: para quê tanto exagero quando falha tão redondamente o alvo? Não vê que não está em causa transformar ninguém em "doutor" (e se estivesse, qual era o problema?)? Apenas se pretende que o/as miúdo/as adquiram, pelo menos, a escolaridade mínima...Não vê que não se pretende catapultar ninguém para a estratosfera do turbocapitalismo de sucesso? Apenas se pretende garantir os recursos mínimos para o futuro de pessoas que sem eles ficarão entregues ao emprego precário ou ao desemprego crónico...Será que é assim tão difícil compreender este esforço? Será que não compreende o valor de uma certificação quando não se tem nenhuma? Será que não compreende a importância de transmitir a estes jovens a ideia precisamente de que eles podem e devem ambicionar ter algum sucesso na vida, para contrariar o fatalismo crónico que transportam de casa para a escola, e da escola para casa, que marca a sua existência quotidiana, que lhes limita fatalmente os horizontes desde criança?...
Sim, Miguel, estes jovens precisam mais do que ninguém de uma certificação e mais do que ninguém da confiança mínima que podem ter algum sucesso na vida. É disso mesmo que eles precisam. Porque tudo o resto na existência deles os puxa para baixo. Achar o contrário, achar que isso do "doutor" é um luxo, é apenas e só projectar a sua visão do mundo na "análise" (?) deste problema; e achar que isto é conversa delirante do "elitismo" e da "autocracia socialista" é a mais completa indiferença mascarada de preocupação por estas pessoas.
Há alturas em que eu perco esperança na lucidez das pessoas, na razão humana. Isto, felizmente, passa.
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Hugo Mendes
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22:20
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Eu gostava de ter escrito isto
«(...) Na verdade, suspeito que por detrás dessa conversa de "todas as profissões são dignas" (quando ninguém diz o contrário) muitas vezes se esconde o desejo das pessoas que têm trabalhos interessantes terem outras pessoas dispostas a fazer (felizes e contentes) os trabalhos "chatos" para elas.»
Ler o post integral do Miguel Madeira aqui.
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Hugo Mendes
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18:13
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Labels: Novas Oportunidades, qualificações
Estudo e independência
Há duas coisas que compensam: estudar e ser independente. Ainda não abdiquei nem de uma nem de outra e recomendo-as a todas as pessoas com que me cruzo. O conhecimento e a liberdade alimentam-se mutuamente.____
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Cláudia Castelo
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17:51
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Labels: conhecimento, liberdade
A tale of two posters
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Hugo Mendes
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16:52
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Labels: Bloco de Esquerda, governo, Novas Oportunidades, qualificações
Política da campanha
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Renato Carmo
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14:52
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E isto não é um insulto para os empregados de mesa?
O Daniel Oliveira considera a campanha do programa Novas Oportunidades é "ofensiva para quem trabalha em profissões tão dignas como quaisquer outras e que se esforça para cumprir os seus deveres profissionais". O que pensará agora desta campanha do BE? Não é ela igualmente ofensiva para as mesmas profissões, pelas mesmíssimas razões?Há contudo uma diferença entre as duas campanhas: A do Governo tem como objectivo melhorar as qualificações daqueles que se encontram numa situação desprivilegiada, para que possam melhorar a sua situação profissional e por consequência o nível de vida - i.e. menos desigualdes -, a campanha do BE faz eco das reivindicações de quem tinha a expectativa de se encontrar numa situação privilegiada mas não está - i.e. mais desigualdades.
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Zèd
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12:28
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Para que serve uma qualificação? (I)
1. O comentário que talvez mais vi difundido nos últimos dias em torno desta polémica da campanha do "Novas Oportunidades" reportava-se ao facto de que toda esta história da certificação reproduzir uma espécie de doença bem portuguesa de querer arranjar um “canudo” à força para mostrar ao vizinho, ou coisa do género.
Esta ideia é extremamente difundida, mas transpira senso comum preconceituoso, é verdadeiramente provinciana – quando pretende supostamente criticar o provincianismo… - e tem, infelizmente, a solidez argumentativa e empírica da esferovite. E digo infelizmente porque antes ela fosse real; bom seria que houvesse um stock considerável de qualificações. O que se passa é precisamente o inverso: é a não-objectivação dos saberes de uma larguíssima fatia da população que sabe muito mais – por aquilo que aprendeu, por vezes ao longo de muitos e muitos anos, no mercado de trabalho – do que o seu diploma de 4º classe ou 9.º ano diz.
2. Para ver o que esta situação envolve, imaginem uma economia onde as actividades informais fossem muito mais predominantes que as actividades formais. O resultado é que as trocas não seriam sancionadas pelo mercado, não seriam contabilizadas pelo Estado, e os salários seriam mais baixos, os impostos arrecadados também, as pensões idem, etc. Agora apliquem o mesmo raciocínio à educação: o que as pessoas está como que em estado eminentemente incorporado, tácito, não-codificado. Não apenas todas essas competências que o indivíduo acumulou pela experiência são, neste contexto, razoavelmente opacas para terceiros, como as pessoas correm o risco de verem o seu conhecimento real ser subavaliado por quem compra o direito a usar a sua força de trabalho. Existirá, então, um não-reconhecimento objectivo das competências do trabalhador – com reflexos potenciais, por exemplo, no seu salário ou possibilidades de progressão na carreira. Um trabalhador nestas condições está objectivamente desvalorizado. Do ponto de vista económico, isto gera um potencial subaproveitamento daquele capital humano. Do ponto de vista moral, isto é indigno (e isto responde à questão da suposta indignidade da campanha: é que esta questão não se resolve com elogios bonitos nos blogues ou noutros locais às tarefas árduas dos dedicados trabalhadores).
3. O “Novas Oportunidades” envolve um esforço para manter os jovens na escola e um esforço para fazer os adultos activos regressar a ela. Para os primeiros, incentiva-os a ficar na escola e, se pretenderem, seguir uma formação mais profissionalizante, à medida dos seus gostos e objectivos. Para os segundos, permitirá não apenas certificar os conhecimentos adquiridos ao longo da vida, mas também voltar à escola de modo a aperfeiçoar as competências que quiserem ou forem necessárias para a certificação. O programa envolve, por isso, uma componente de ensino e aprendizagem, em contextos diferentes, em benefício de jovens e adultos.
4. Mas agora imaginemos que o “Novas Oportunidades” não envolvia um esforço para manter os jovens na escola e um esforço para fazer os adultos activos regressar ao seu espaço. Imaginemos, então, que não existe a oportunidade efectiva de uns e outros melhorarem as suas competências; de ganharem mais confiança e eficiência no exercício das suas tarefas (presentes e/ou futuras); de se tornarem trabalhadores mais produtivos; de conhecerem outros trabalhadores e, via a concretização de interfaces entre a escola e as empresas, potenciais futuros empregadores, etc. Imaginemos, assim, na pior das hipóteses, que a certificação não envolve aprendizagem individual ou colectiva de nenhuma espécie: técnico-cognitiva, cultural, social, etc.. Seria como se, num dado guichet, entrasse o portfolio no qual o indivíduo lista as suas competências individuais e saísse, do outro lado da porta-giratória, o certificado. Mas, mesmo nesse caso limite, a certificação seria muito importante.
5. Porquê? Porque o mercado de trabalho está longe de funcionar de forma perfeita e concorrencial, estando antes repleto de incertezas e de incompletudes informacionais: um trabalhador que passou anos e anos no mercado de trabalho mas que não tem qualquer certificado dos seus conhecimentos terá dificuldade em “dizer” ao seu potencial empregador o que sabe; simetricamente, este terá sempre dificuldade em avaliar as competências do primeiro. (claro, há o CV. Mas a informação lá contida pode não reduzir muito a incerteza do potencial empregador e, na medida que funciona enquanto certificador da experiência, o CV tem limitações. Um certificado escolar é um documento muito mais universal). Para um mercado funcionar relativamente bem, tem que haver um ajuste decente entre a oferta e a procura; se o empregador A pretende comprar a força de trabalho do tipo X, e o trabalhador B só tem competência do tipo Z, então este desajuste é nefasto para os dois. É um bocado como comprar “gato-por-lebre”. No caso de A ter efectivamente contratado B apesar das dúvidas que tinha, o desajuste em causa pode provocar ineficácia desnecessária e levar mesmo a que a relação laboral seja terminada (mas isto depende das leis laborais, etc.) sem que nenhum deles tenha ganho muita coisa com o seu estabelecimento, etc.
6. Um certificado reduz a incerteza e emite um sinal do trabalhador para o empregador, diminuindo o estabelecimento de ligações laborais construídas sobre equívocos e faltas de informação. O que para o raciocínio preconceituoso não passa da “aquisição de um canudo”, para os indivíduos que certificam o seu saber trata-se de um “comportamento racional de investimento” no seu futuro, e para os empregadores uma garantia mínima dos saberes e competência na posse do trabalhador. Por isso, a existência de certificações - credíveis, claro - interessa tanto ao capital como ao trabalho.
7. Noutro dia volto a este tema, mas de outro ângulo de análise, menos devedor da economia e mais da ciência política e da história, e aí vou necessitar de vários posts. Passo a passo, espero mostrar porque é que a construção de um sistema de produção e certificação de saberes e competências profissionais eficaz e reconhecido é essencial para conseguirmos construir uma economia não apenas mais moderna, mas sobretudo menos dualizada e inigualitária. E mostrar também porque é que o projecto da esquerda passa de forma tão crucial por aqui (e não apenas, ou nem tanto, a nível nacional, pela multiplicação de pós-pós-doc's).
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Hugo Mendes
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04:50
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Os peões também têm cartaz!
É verdade, amiguinhos, também fizemos o nosso posterzito, um pouco a correr, confesso, um bocado no desenrasca, vero, mas a vida é mesmo assim.A propósito, hoje foi dia de debate sobre o Parque Mayer na Ordem dos Arquitectos. As conclusões estão aqui e vão no sentido daquilo que já avançáramos. A arq.ª Ana Tostões diz que está farta de escrever cartas para a CML a pedir a salvaguarda do cinema Capitólio, mas que até hoje têm feito orelhas de mercador. Acho injusto esta hipótese: então não se está mesmo a ver que se trata de poupança, neste caso em selos?
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Daniel Melo
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Multiculturalismos literários (e cinematográficos)
Nove anos depois, em 2006, outra indiana ganha o Booker, Kiran Desai, nascida em Nova Deli, residente nos Estados Unidos, filha de Anita Desai, três vezes nomeada para o mesmo prémio. O livro chama-se The inheritance of loss e foi já traduzido para português (A herança do vazio. Porto Editora), história intimista, também com uma incursão política que ofendeu o Nepal.
O destaque, agora, vai para Abha Dawesar de Nova Deli, a viver em Nova Iorque que causou sensação no Salão do Livro de Paris, com o título Babyji, já lançado no nosso país pela Asa, cujo enredo segue as descobertas (homo)sexuais de uma adolescente indiana e já foi classificado como muito à la Philip Roth.
E toda esta introdução para falar da até agora minha favorita, Jumpa Lahiri, nascida em Londres e criada nos Estados Unidos. Tem um belíssimo livro de contos The interpreter of maladies (O intérprete de enfermidades. D. Quixote), Prémio Pulitzer em 2000 e um romance The Namesake (O Bom Nome. D. Quixote), adaptado ao cinema, já este ano, pela também indiana Mira Nair (em exibição, mas eu ainda não vi). Talvez por ser a «menos» indiana de todas, a escritora tem procurado nestes livros reflectir sobre a identidade daqueles que vivem num país que funciona em simultâneo como país de origem e de acolhimento. As personagens debatem-se com o que os pais indianos neles projectam: a perpetuação da cultura de origem a milhares de quilómetros de distância, e a sua própria vivência num país onde nasceram. Esse conflito é, sobretudo, realçado no que diz respeito aos hábitos alimentares e à escolha de uma noiva/o, como se o corte, ou pelo contrário, o prolongamento com as raízes passasse pelos sabores originais e pela formação de um novo núcleo familiar. Acho as questões muito interessantes: quantos serão precisos a comer o quê e a apaixonar-se por quem para que se mantenha uma identidade? E será mesmo aí que reside o nosso sentimento de pertença a um lugar?
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Anónimo
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quinta-feira, 19 de abril de 2007
Momento maldoso do dia
Claro que há sempre mais uma hipótese para intepretar a crítica ao conteúdo dos cartazes da campanha do "Novas Oportunidades", somada ao cartaz do BE de hoje alertando para o desemprego dos licenciados: é que estes, os que perfazem o stock de potencial votantes no BE, estão tão preocupados com a sua situação laboral presente que não estão nada interessados em que mais população se qualifique. Isso, logicamente, geraria concorrência. Estaríamos perante, basicamente, uma forma daquilo a que os sociólogos chamam "fechamento social".
Eu não vou ao ponto de dizer isto a sério. Mas o mero facto de esta concomitância ocorrer devia levar certas pessoas a pensar nos dois efeitos. Nem que seja pelo valor da ironia. É que, às vezes, quando as pessoas são cegas e surdas os argumentos e às estatísticas, é o poder da ironia, sobretudo quando esta é amarga, que lhes mostra a realidade.
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Hugo Mendes
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À espera de um editor português II
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Hugo Mendes
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Momento intimista do dia
Ainda dizem que as ciências sociais só servem para confirmar o que as pessoas já sabem. Se assim fosse, não era preciso chegarmos, nesta discussão, ao ponto a que chegámos.
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Hugo Mendes
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Luta de classes
Não há nada como o movimento dialógico das palavras e do pensamento. Na resposta ao André e no comentário que fiz ao João (a partir do post dele mais abaixo), cheguei à conclusão que de facto estamos perante uma ironia interessante.
A luta de classes não morreu, não. O que os regimes modernos fazem é a "tradução democrática da luta de classes", como dizia o recentemente falecido (no dia 31 de Dezembro de 2006) Lipset. Perante o manifesto político que representa o cartaz do BE no contexto da actual discussão, o giro é mesmo ver a demonstração claríssima que (fracção de) classe o BE representa. Garanto-vos que não são os mais desfavorecidos. Deve ser isto a que chamam "desvios de direita".
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Hugo Mendes
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E eles a insistirem nos dez milhões de Cristianos Ronaldo
O Hugo já o referiu aqui. A contra-campanha que o Bloco de Esquerda colocou nas ruas é um exercício demagógico direccionado às elites mais qualificadas, afinal o grosso dos seus eleitores.
Mas o problema nem reside aí. O obsceno, é o BE fingir não perceber - ou, na melhor das hipóteses, não perceber de facto - que o programa "Novas Oportunidades" se dirige aos menos qualificados dos portugueses: os agora adultos que abandonaram a escola muito cedo, e os jovens que se sentem pouco motivados para continuar o seu percurso escolar.
A motivação do programa é só uma: mais qualificação pode significar melhor qualidade de vida. Quem não acredita nisto, é tontinho.
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João Caetano
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GOLOS
O video do golo do Messi já não está disponível, o que é pena até pelo relato, hilariante. Se alguém souber de que estação de TV é aquilo, pf diga.
Quem quiser ver um golo (até vários) do mesmo nível, vá até A Causa Foi Modificada e veja o video do post «Porque razão a formação do Sporting foi sempre a melhor, e porque é que, se não tomar cuidado, assim vai deixar de ser».
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CLeone
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Peões por Lisboa - Propostas concretas - a selecção final
Já está disponível no lado b deste blogue uma selecção da rubrica «Peões por Lisboa - Propostas concretas» (vd. aqui).
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Daniel Melo
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Estes são aqueles que querem ser levados a sério
Eu já tinha dado, pela minha parte, a polémica como fechada. Mas o Bloco de Esquerda (BE) resolveu fazer um favor ao Governo, produzindo este cartaz. Deu ainda mais publicidade à iniciativa "Novas Oportunidades". Ao mesmo tempo, deu ainda mais provas de um impressionante oportunismo e de uma incrível demagogia.
Vou ser frontal q.b. naquilo que tenho para dizer. Eu não queria partidarizar o debate assim, mas vai ter que ser:
1. Comecemos por um elogio: o BE percebe o mínimo de sociologia e de comunicação política. É que o BE, partido que recebe os seus votos de uma fracção da classe média e média-alta qualificada, conhece bem os problemas dos seus votantes. No que toca à educação, os seus problemas não passam pelo drama de famílias cujos elementos têm menos que o 6.º ano, ou menos que o 9.º ano, ou o secundário incompleto; famílias cuja probabilidade dos seus filhos saírem das escola antes do 9º. ano ou antes do 12.º para engrossar o exército de reserva de mão-de-obra da construção civil é altíssima.
Não: o seu drama eventual é terem eventualmente filhos licenciados em variadíssimas áreas - algumas sem expressão de mercado particularmente relevante - que não encontraram um emprego à altura dos seus sonhos. Isto é um problema. Conheço várias pessoas nessas circunstâncias. Mas – e para colocar as coisas nas devidas proporções - o problema dramático do país não é esse. Já escrevi aqui que o desemprego da mão-de-obra qualificada em Portugal é mais baixo que a média na EU. Isto não é dizer que não existem milhares de casos individuais destes. Existem. Mas uma coisa é falar de problemas individuais, outra coisa é falar de problemas nacionais. O problema da nossa população é basicamente este: temos 3,5 milhões de activos com o secundário incompleto; 2,5 milhões e meio destes, têm o 9.º ano ou menos; destes, meio milhão tem menos de 24 anos. Estas pessoas, ao contrário dos (potenciais) votantes do BE, se nada for feito para inverter esta situação, vão ficar uma vida inteira desqualificadas perante um mercado de trabalho cada mais complicado para os que têm baixas qualificações. A prioridade política passa por intervir junto destas populações, as mais fragilizadas, sem recursos da mais vária ordem, não apenas hoje mas, e ainda mais, amanhã. Os que acham que estas coisas da educação e da formação profissional são intervenções menores, quiçá de pendor "tecnocrático", então é porque não são capazes de ligar pequenas medidas com a filosofia política. É que a justificação para acções deste tipo não é apenas económica (os que se podem dar ao luxo dirão "economicista"), ela é também ideológica: é a justificação rawlsiana de dar primeiro atenção aos mais desfavorecidos e de medir o bem-estar social pela elevação dos mínimos sociais. É "aqui" que é preciso agir primeiro e com mais energia, conferindo recursos e acesso a bens primeiros a estas pessoas. Ora, os (potenciais) votantes do BE não fazem parte desta população, mas acham que são igualmente "explorados". No que me parece ser por vezes a incapacidade de pensar comparativamente, e saber as limitações estruturais do país em que vivem, entra-se num discurso miserabilista que baralha as prioridades que para um Rawlsiano estão bem claras: "the underdogs first".
2. O BE é o partido que, em concorrência directa com o PCP – e quem percebe o mínimo de sociologia política sabe como isto influencia o seu instinto de sobrevivência - está sempre contra o nosso modelo de “baixos salários-baixas qualificações”. Muito bem. Estamos todos. Quando o Governo lança uma campanha de incentivo à qualificação da população e de certificação da experiência profissional, o que faz o BE? Pega nalguns exemplos do seu pequeno microcosmos (noutra época chamar-lhe-íamos “pequeno-burguês”) e transmite a mensagem de que “estudar não compensa”.
Escrevi várias vezes aqui que esta conversa de que os estudos não compensam é da mais pura irresponsabilidade. Bastava alguns senhores olharem para umas estatísticas para perceberem que praticamente em nenhum país da UE compensa tanto ter um curso universitário (ver o final do post). E bastava perceberem, se entrassem numa escola básica ou secundária, que o "discurso de que estudar não leva a lado nenhum" é por vezes banal junto daqueles onde é mais importante erradicá-lo: junto dos/as jovens que, oriundos na sua maioria de famílias com pouco capital económico e cultural, acham que não vale a pena continuar na escola porque, estudem o que estudarem, façam o que fizerem, vão acabar como electricistas, serralheiros ou mecânicos. É absolutamente central contrariar este discurso e mostrar-lhes que se ficarem na escola e prosseguirem a escolaridade, as suas hipóteses de não apenas de encontrarem um emprego no futuro, mas de esse emprego ser mais bem pago, mais estável e mais enriquecedor aumentam. O BE, que passa a vida a bradar contra a (real) reprodução das desigualdades perante e pela escola, em vez de ajudar numa campanha para puxar pelos/as miúdos/as e dar-lhes um algum alento e confiança no futuro, fez precisamente o oposto: reproduz e alimenta irresponsavelmente o mesmo discurso de muitos pais e alunos.
Que esses pais e esses alunos, cuja trajectória passada e “mundo-da-vida” presente contribuem para, lamentável e poderosamente, cercear as suas perspectivas de futuro, pensem como pensam e ajam como agem – desvalorizando os estudos, e no limite abandonando a escola – eu percebo. Que o BE reproduza o mesmo discurso só porque uma parte da sua constituency, altamente qualificada (e por isso a anos-luz do problema da falta de oportunidades da maioria da população portuguesa: era tão bom que conseguissem perceber isso, que faz toda a diferença neste problema), atravessa alguns problemas de inserção no mercado de trabalho; e que o BE transforme o problema transitório de uma pequena fracção da população portuguesa numa questão que não apenas se sobrepõe à tragédia nacional da ausência de qualificações da população e do abandono escolar, mas que dá precisamente os sinais errados a quem mais ganharia com o seu investimento em qualificações, isto, é algo não apenas de profundamente lamentável, mas uma verdadeira lição política, e que define o BE: define o seu público, a sua agenda de prioridades, e, permitam-me a frontalidade, a sua hipocrisia.
Com as suas posições elitistas viradas para quem já tem uma qualificação (a campanha é para quem ainda não a tem e corre o risco de nunca a vir a obter!), alimenta, pelo menos simbolicamente (e isto do ponto de vista moral, nestas coisas, conta), para a continuação das elevadas taxas de abandono escolar.
E no futuro, claro, virá a lenga-lenga de que o Governo não faz nada para aumentar a qualificação dos portugueses, e que por isso continuamos numa economia de “baixas qualificações-baixos salários”. Se isto não é hipocrisia, então digam-me o que é.
3. Eu gostava que as pessoas que têm defendido o que têm defendido nos últimos dias - e que têm um pingo de seriedade - olhassem para o seguinte quadro e lessem os seguintes parágrafos. São retirados de um estudo do Banco de Portugal, publicado no seu boletim económico em 2004, Vol.10, nº1 (pp.71-80), assinado por Pedro Portugal (que pode ser encontrado on-line: ir a www.bportugal.pt > ‘Publicações’ > ‘Boletim Económico’). Chama-se, ironicamente, “MITOS E FACTOS SOBRE O MERCADO DE TRABALHO PORTUGUÊS: A TRÁGICA FORTUNA DOS LICENCIADOS”:
«As transformações tecnológicas que ocorreram ao longo das últimas duas décadas, e que favoreceram uma procura crescente de trabalhadores qualificados, surpreendeu o mercado de trabalho português numa situação de oferta insuficiente de qualificações. Este défice de qualificações terá gerado um significativo acréscimo do prémio salarial atribuível aos trabalhadores com curso superior até ao meio da década de noventa. O hiato de salários entre os trabalhadores com e sem licenciatura ter-se-á mantido muito elevado desde esse período. Os vários estudos que estabelecem comparações internacionais dos prémios de licenciatura não divergem na conclusão de que o mercado de trabalho português apresenta prémios invulgarmente elevados. Serão, aliás, os mais elevados da União Europeia. Compreende-se que o desequilíbrio entre as competências procuradas pelos empregadores e as qualificações disponíveis no mercado de trabalho seja muito acentuada porque existe um grande desfasamento entre a proporção de licenciados em Portugal e nos restantes países da União Europeia.
(...)
Este hiato de qualificações demorará várias décadas a ser corrigido.
Neste ensaio procurou-se aprofundar a análise das condições privadas de decisão de investimento num curso superior. Concluiu-se que o benefício monetário esperado da obtenção de uma licenciatura é excepcionalmente elevado, fazendo corresponder a um custo de investimento de cerca de 25 000 euros, um valor acumulado de ganhos salariais de aproximadamente 200 000 euros. A estimativa da taxa real de rentabilidade (15 por cento) excede claramente o retorno esperado de outras aplicações financeiras.
(...)
O investimento em educação gera também benefícios sociais significativos pelas externalidades positivas que desencadeia. Uma economia dotada de uma força de trabalho mais educada é também mais produtiva. De acordo com um trabalho recente da OCDE o défice de qualificações académicas em Portugal será responsável por uma quebra anual de 1.2 do produto interno bruto. Ter companheiros de trabalho qualificados também tende a aumentar a produtividade (e os salários) devido à presença de benefícios sociais da educação nas empresas.
Não se ignora que os jovens recém-licenciados defrontam presentemente dificuldades em assegurar um posto de trabalho desencadeadas pela recessão económica e pelas restrições orçamentais. Mas esta é uma situação conjuntural que não dissipa as vantagens estruturais associadas à detenção dum curso superior. Mesmo em conjunturas económicas desfavoráveis essas vantagens persistem. Em particular, os licenciados continuam a deter uma maior probabilidade de encontrar um posto de trabalho adequado, em comparação com os jovens com menos habilitações académicas».
Estas letras estão em tamanho gigante para ver se a mensagem, finalmente, passa.
P.S.1 - Podem encontrar mais dados esclarecedores aqui.
P.S.2 - Lê-se aqui que «Francisco Louçã afirmou que o BE vai «durante as próximas semanas» promover «colóquios e intervenções públicas» em defesa da qualificação e do emprego e desafiou o primeiro-ministro, José Sócrates, a debater o tema no Parlamento.«Desafiamos mais uma vez o primeiro-ministro para que no debate mensal da próxima semana debata no Parlamento a questão das qualificações e do emprego», disse, acrescentando que o BE pretende confrontar o Governo com «a inconsistência e a insensibilidade social'». "Insensibilidade social"???? O BE põe um cartaz que sobrepõe o problema de alguns milhares de privilegiados - lamento colocar as coisas assim, mas num país como o nosso ser licenciado é um privilégio (relativo, claro, como todos os privilégios) - ao problema de milhões de portugueses e vem falar de "insensibilidade social" do Governo? Mas que lata!
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Hugo Mendes
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18:13
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Al-Portugal, o norte marroquino
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Daniel Melo
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Attention! Mon sondage! Hyper-mega scientifique!
À atenção do Pedro Magalhães, cá vai mais uma sondagem sobre as presidenciais francesas. Totalmente representativa e sem margem para erro de espécie alguma.
Universo: 37 alunos que estudam língua portuguesa na Universidade de Rennes 2 (Letras e Ciências Humanas, a universidade francesa mais contestatária entre as contestatárias, onde começam todas as greves e nunca se sabe quando acabam).
Idades: entre os 18 e os 25 anos, pouco mais ou menos. A maioria vai votar pela primeira vez.
Intenções de voto à primeira volta:
A sra. [escrevo tal qual eles puseram no boletim de voto; aqui não há problemas com doutores e engenheiros] Royal (PS): 29,72% (11 intenções de voto)
O sr. Besancenot (LCR, trotskista): 18,91% (7)
o sr. Bayrou (UDF): 18,91% (7)
A sra. Buffet (PCF): 5,4% (2)
O sr. Sarkozy (UMP): 5,4% (2)
O sr. Bové (independente anti-OGM): 2,7% (1)
Abstenção: 2,7% (1)
Indecisos: 16,21% (6)
Han??? Que tal??? Nada mal, pá, han?? Ségolène tranquila, trotskistas não fossilizados em alta, o Sarkozas vai à vida, Le Pen nem vê-lo. Só vai ser preciso decidir quem vai à segunda volta, se o Bayrou se o Besancenot. Por aqui se prova que o IFOP anda a ver navios.
A coisa complica-se quando vemos o que os mesmos inquiridos respondem à pergunta,
Quem vai ganhar na segunda volta
O sr. Sarkozy: 54,05% (20)
A sra. Royal: 37,83% (14)
não sabe: 8,1% (3)
Mmmn. A minha interpretação: temos aqui um caso interessante para estudo. Uma sage (bem neurótica) combinação entre idealismo e fatalismo.
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andre
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16:35
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Separados à nascença
Messi, 2007:
Maradona, 1986:
(Via Maradona)
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João Caetano
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15:13
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Patrick Wolf
O Patrick Wolf passou do Lux, onde actuou hoje à noite de peúgas e vestimenta bizarra (aparentemente a TAP fez juz à fama e fez desaparecer temporariamente as malas do rapaz), para fazer aqui uma perninha aqui no Peão, sem passar pelo lado DJ. Aqui o tema 'Teignmouth', do álbum Wind in the Wires (2005).
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Hugo Mendes
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02:21
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quarta-feira, 18 de abril de 2007
Comportas lusitanas
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Daniel Melo
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23:59
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Ainda sobre os dez milhões de Cristianos Ronaldo
Veja-se um infantário: uma sala, dez crianças, uma educadora e uma auxiliar. Tipicamente, a educadora tem pouco mais de 30 anos, habilitações académicas superiores e iniciou a sua carreira há menos de 10 anos. A auxiliar, por seu lado, não frequentou um curso superior, tem 50 anos e há quase 20 que todas as manhãs muda fraldas. Os críticos do programa "Novas Oportunidades" - da direita à esquerda - não reconhecem à segunda a ambição de ser como a primeira.
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João Caetano
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19:00
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Serviço público
Para futuros 'rounds' sobre o tema em discussão, quem estiver interessado pode passar pelo site da European Expert Network on Economics of Education (EENEE).
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Hugo Mendes
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17:23
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Labels: economia da educação, educação, qualificações
Qualificação e mérito
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Renato Carmo
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14:44
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Labels: mérito, Novas Oportunidades, qualificações
Outros locais
Blogs que ando a ler recentemente, alguns linkados aqui em posts, mas não incluídos na barra lateral. E, pelo que já li, até mereciam.
http://kropotkine.blogspot.com, http://ainfelicidadeaoalcancedetodos.blogspot.com, http://blogoexisto.blogspot.com, http://meuserevaporei.blogspot.com.
Outros que já conheço há mais tempo: http://oacossado.blogspot.com, http://floresta-do-sul.blogspot.com, http://tristes-topicos.blogspot.com, http://psisalpicos.blogspot.com
Se os links não funcionarem a inépcia terá sido minha, não desistam.
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CLeone
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14:27
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E quantos Cristianos Ronaldos não ficaram pelo caminho?
*Em rigor não me parece que o Cristiano Ronaldo tenha realmente abandonado os estudos, a escola oficial sim, mas não os estudos. Dedicou-se (leia-se: especializou-se) desde cedo no estudo de uma actividade profissional para a qual é especialmente dotado, e foi para a Academia de Alvalade. Consta até que continua a empenhar-se obsessivamente no aperfeiçoamento das suas competências, treina compulsivamente.
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Zèd
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13:32
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Persistências
De muito longe (e sem toda a informação indispensável) esse debate sobre as “novas oportunidades” parece-me também surreal mas, infelizmente, representativo dos arcaísmos persistentes da sociedade portuguesa. Parece que sobre o que toca à formação escolar das classes populares, qualquer que seja o regime, a história repete-se. A honra dos sem-estudos que agora alguns defendem assemelha-se aos discursos sobre os analfabetos do tempo do Estado Novo (os pobres honrados na boca dos salazaristas). Na altura, alguns proclamavam que não se devia obrigar os analfabetos a ler e a escrever porque eles, lá no fundo, tinham uma certa inteligência e as campanhas de alfabetização eram “classistas” e hostilizavam os pobres.
A inutilidade da formação profissional dos trabalhadores também assemelha-se à reacção de certos fragmentos da elite quando se iniciou o Instituto de Formação profissional nos anos 60. Mais uma vez dizia-se que essa política não era necessária.
Mas o que sempre houve atrás desses discursos foi uma vontade de fechamento social das elites (que de forma estranha não desdenham mandar os filhos deles à escola e à universidade : porque será?) e uma vontade de manter os salários baixos. Porque essas coisas da formação profissional podem sempre implicar aumentos de salários! E esses trabalhos que todos dizem dever ser respeitados não dão, na maioria das vezes, direito à ordenados “respeitáveis”. Por isso, tal como o Zed, não compreendo que pessoas que vêem da esquerda comungam com ideias reaccionárias defendendo uma hierarquia natural e imutável da sociedade.
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Victor
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10:49
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Para o Tribunal Constitucional, já!
«...Continua a discussão sobre a campanha "este é o não-sei-quantos que não acabou os estudos". Ainda ninguém sugeriu que ela deveria pura e simplesmente ser retirada e apresentado um pedido de desculpas pelos responsáveis. Que eu saiba o classismo - e então oficial! - também está implicitamente proibido no artº 13º da Constituição. E já algum jornal confrontou os responsáveis?»
Miguel Vale de Almeida, n'Os Tempos que Correm
O Zèd dizia, lá atrás, que à distância, esta polémica lhe parecia surreal. Eu confesso que, depois do que tenho visto, já nada me espanta. Mas esta ideia de que a campanha do 'Novas Oportunidades' é "inconstitucional" está, para já, no topo das coisas inacreditáveis que para aí tenho lido (e falo de pessoas por quem tenho estima intelectual).
O 'classismo' de todos os dias, reproduzido no mercado de trabalho, tão brutal como invisível, esse, não interessa. O que interessa mesmo é que, quando alguém alerta para o problema para melhor lutar contra ele, ah, aí não, o 'classismo' tem de ser encoberto, escondido...
Não sei se o Zèd concorda com esta co-optação, mas o que ele escreveu é bom demais para ficar ali escondido na caixa de comentários:
"Que o discurso do pobre mas honrado venha de uma direita reaccionária não me espanta, mas que venha da esquerda que se quer igualitária é que já me surpreende mais. Esse romantismo "da gente que trabalha uma vida inteira" é apenas um equívoco, é contra isso que a esquerda deveria lutar. Qual é a dignidade ou a honra de se trabalhar uma vida inteira, mal pago, sem sequer ter usufruido de um dos direitos fundamentais que assiste a um cidadão: o direito à educação? O que é que deve ser valorizado pela esquerda?"
Desta - do Miguel Vale de Almeida - e doutras contribuições para o debate, eu retenho pelo menos duas coisas:
- que o síndroma do "politicamente correcto" está longe de se resumir às questões "culturais".
- que os gostam de protestar tantas vezes contra a indiferença da "esquerda caviar" são os que mais desvalorizam o que de mais valioso os trabalhadores não-qualificados podem adquirir e fazer toda a diferença no seu percurso profissional. Ai, uma qualificação, um diploma, que coisa tão 'rasteira'!
P.S. - Já agora gostava de saber se as pessoas se apercebem que dizer que tudo se resume a "arranjar o canudo" revela um reaccionarismo não apenas impressionante como, sobretudo, perigoso, porque mascarado de radicalismo progressista; e gostava de fazer um estudo para ver a correlação entre os que reproduzem este discurso e o seu grau de escolaridade. Talvez se concluísse que os que devem o seu estatuto profissional e/ou social, em grande medida, à posse do dito gostam particularmente de fazer uso do argumento do "canudo".
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Hugo Mendes
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03:20
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terça-feira, 17 de abril de 2007
Novas oportunidades: padeiros e canalizadores com altas qualificações
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Daniel Melo
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22:38
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Labels: gajos, humor, Novas Oportunidades
Não há (havia) nada de particularmente especial em Norris Hall
Não é especialmente conceituada, nem desconhecida. Tem vinte e seis mil estudantes e a equipa de futebol é a sua imagem mais difundida. Virginia Tech é uma universidade como tantas outras nos EUA. E Cho Seung-Hui não era um estudante diferente. Aparentava algumas dificuldades de inserção na vida social do campus, dizem. Sim, como milhares de outros. Uns dias mais, outros dias menos. É esta regularidade, este sentido de normalidade que nos faz perguntar "Porquê". Por muitas páginas que se escrevam e imagens que se difundam, nunca saberemos de facto responder. Embora acreditemos que sim.
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João Caetano
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Dez milhões de Cristianos Ronaldo (*)
Não é uma ideia peregrina, pelo contrário. Mas não deixa de ser fantástico constatar que há quem pense, de facto, que o percurso de sucesso do Cristiano Ronaldo é multiplicável por dez milhões. Assim, como que por osmose. É a chamada "geração espontânea de sucesso" e a Real Academia Sueca já se prepara para lhe atribuir o Nobel da Economia.
(*) Obrigado, Hugo, pelo excelente post.
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João Caetano
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21:30
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Labels: Novas Oportunidades, qualificações
Caro Rui,
Li o teu artigo no "Público" de hoje. Fico desiludido que à esquerda as pessoas tenham estas opiniões e aproveitem pequenas coisas que possam merecer discórdia legítima (quem está no cartaz, em que posição, em que sítio) para atacar o núcleo de uma medida que é absolutamente necessária para o país.
Reconhecendo apesar de tudo a "boa vontade" que subjaz à realização da campanha, escreves que "a campanha tem um fundo pernicioso que vale a pena comentar". Qual é ele?
"Poderia começar-se por considerar que ela é contaminada por uma cultura que usa a celebridade como medida de todas as coisas. Nessa cultura, os estudos aparecem como meramente instrumentais na obtenção do "sucesso", como para as crianças a sopa é apenas a provação a que são forçadas pelos pais para poder chegar à sobremesa. O pior, como sabe qualquer pai ou mãe, é que as crianças são rápidas a arranjar contra-exemplos. Então que tal o Cristiano Ronaldo que não acabou os estudos (e vai ser o jogador de futebol mais bem pago do mundo)? E o José Saramago que não acabou os estudos (e é só o Prémio Nobel da Literatura)?"
Rui, tu criticas a estratégia de comunicação mas, agora sinceramente: achas que se fosse alguém não conhecido alguém olhava para o cartaz? Imagina que era um trabalhador anónimo, e um slogan do género “Não desistas, fica na escola” (ou outro do género). Achas que a campanha tinha algum impacto? A resposta parece-me óbvia. O Pedro Abrunhosa está lá porque todos o conhecem, e é o facto de ser uma celebridade que pode emprestar força à mensagem. É só isso. Não vale a pena extrapolar e começar com moralismos do género que a celebridade é “a medida de todas as coisas”. Quanto aos contra-exemplos, eles existem claro. Mas é precisamente por isso que a campanha existe – já chega o que as crianças pensam e dizem sobre os Cristianos Ronaldo deste mundo. É preciso mostrar-lhes que esses casos são excepções. E era mais interessante e útil que as pessoas que sabem que eles não passam de excepções – como tu sabes – sublinhassem essa mensagem.
Escreves ainda que: "No nosso tempo e no nosso país o que não falta é gente que acabou os estudos e que desempenha trabalhos mal pagos e mal considerados. Há-os às dezenas em cada call-center, essa espécie de manjedouras onde são despejados depois da universidade e trabalham à comissão pela venda de cartões de crédito. Inevitavelmente, esta falsa promessa de sucesso através dos estudos é para eles uma memória amarga".
Talvez seja verdade para alguns, mas então o que fazer? Teria sido melhor que eles tivessem abandonado a escola antes para trabalhar em empregos porventura mais exigentes fisicamente (eu sou daqueles que considera um avanço "civilizacional" ter que pegar num telefone num call center em vez de carregar pedregulhos de 40 quilos na construção civil)? Ou, mesmo que fosse para fazer o mesmo emprego, para ficar toda a vida sem um nível de escolaridade que lhes permitisse ter outros horizontes, concretizáveis se calhar não no par de anos a seguir a terminar o 12.º, mas no futuro próximo? Atenção: tu dás o exemplo relativo às pessoas que acabaram a universidade e trabalham num call-center, mas o público desta medida não é esse (admito que te tenhas enganado, mas esse lapso pode mostrar o teu preconceito subliminar quanto à relativa irrelevância da melhoria das qualificações em geral, falemos de que nível de ensino for). Como já escrevi várias vezes neste blogue, as nossas elites (da qual eu e tu fazemos parte) preocupam-se com o desemprego (ou sub-emprego) qualificado como se fosse uma tragédia nacional - quando a verdadeira tragédia nacional é o abandono escolar em vários momentos precoces do ensino secundário. A modernização progressiva da economia será capaz de absorver muitos que hoje trabalham em call-centers, porque as suas qualificações permitem-lhes ter outros horizontes. Não hoje, não amanhã, mas num futuro próximo. E falo da maioria, não de todos (e tu sabes como é fácil fazer reportagens sobre esta questão a partir de um grupo de pessoas que não representa a maioria). Isto não é wishful thinking; é o que se passa, com um grau elevado de probabilidade, em qualquer economia moderna. Se olhares mais para as estatísticas e menos para os casos que conhecerás pessoalmente, verás que tenho razão. Inversamente, a modernização progressiva da economia deixará para trás os que não têm o 9.º ou o 12.º. Eles ficarão muito mais expostos ao desemprego, e os seus salários sofrerão uma pressão enorme. A precariedade, que eu sei que te preocupa, encontrará neles os primeiros alvos. A mensagem que passas, apoiando-se em alguns factos reais hoje (e todas as teses erradas têm um elemento de verdade, precisamos é de saber avaliar a sua relevância, empírica e normativamente), é a errada para o futuro. Era isso que era preciso que as pessoas percebessem e interiozassem. Dizer ou passar a imagem implícita que estudar não compensa é dar o sinal errado, porque é contribuir para que as pessoas não valorizem o elemento mais valioso na construção do seu percurso profissional. Eu gostava que reflectisses sobre isso.
Terminas escrevendo que: "Ao apresentar o estudo como mero instrumento da profissão, a profissão como mero instrumento do sucesso, e o sucesso medido pela cultura de celebridade, acabamos a degradar tanto o conhecimento como o trabalho e a realização pessoal".
Mas, Rui, essas pessoas não são o público dessa campanha. As que gostam de estudar e se realizam pelo brio e pelo drive intelectual-profissional não precisam dela. Ainda bem que eles existem. Mas o público desta campanha é aquele que acha que não vale a pena estar na escola porque, acham eles, estudar não vale a pena, porque aconteça o que acontecer, eles vão acabar como serralheiros, mecânicos, seguranças, ou empregados da construção civil. A campanha pretende mostrar que eles podem fugir a esse quase-destino sociológico se souberem valorizar aquilo que deve ser valorizado. E se o fizerem, se tiverem qualificações que lhes permitam ter outros horizontes e oportunidades profissionais, mais probabilidades têm de fazer algo que gostam - ou que possam vir a gostar.
Que esses jovens, a partir das fronteiras do seu "mundo-da-vida", não compreendam isso, eu percebo. Que pessoas inteligentes que passaram a vida a estudar e que devem em larguíssima medida o que são hoje a esse capital acumulado não percebam, isso já me deixa deveras espantado.
Por fim, o que prova ainda esta polémica em torno da iniciativa (e da campanha) "Novas Oportunidades"? A minha hipótese é que as elites não percebem que quando se fala para jovens que estão a ponderar sair da escola no fim do segundo período e a acabar o 9.º ano sequer, os códigos e o conteúdo da mensagem tem de ser diferente. Que tu ou muitas outras pessoas que escrevem nos jornais, altamente qualificadas e habituadas a pensar, escrever, e manipular símbolos e livros todos os dias, achem a campanha ridícula, acaba por ser (infelizmente) natural. É que ela não foi feita para ti nem para os outros intelectuais do nosso país.
Seu ;),
Hugo
P.S. - "Até pode ser que o governo tenha uma imbatível estratégia de comunicação. Mas se assim for, fica por explicar como é que o próprio governo põe nas ruas uma campanha sobre a importância de acabar os estudos no auge de uma polémica sobre os estudos do Primeiro-Ministro". As campanhas, com todos os prazos e custos humanos e financeiros, demoram tempo a planear, e não podem ser suspensas assim de um dia para o outro sem razão de maior. Era o que faltava suspendê-la pelo caso em questão.
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Hugo Mendes
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Labels: Novas Oportunidades, qualificações, Rui Tavares
Sobre as "Novas Oportunidades" ou o síndroma do DIY Economics
A iniciativa "Novas Oportunidades" ameaça-se transformar numa comédia de erros de interpretação - por parte sobretudo de quem não precisa delas. O artigo de Vitor Malheiros hoje no "Público" é a prova de que as pessoas não percebem a raiz do problema, não percebem o que está em causa e continuam a viver, pensar e escrever a partir de histórias que ouviram em criança em vez de perder uns minutos a olhar para umas estatísticas e a perceber que o que dizem está ancorado no senso comum.
Primeiro é história do sacristão que é despedido da paróquia por não saber ler. Uma vez na cidade, consegue montar uma tabacaria e garantir alguma prosperidade económica.
Esta uma história é sem dúvida muito bonita - mas Vítor Malheiros tem formação científica suficiente para saber que as políticas públicas não se fazem de histórias que se contam às crianças antes de adormecer mas fazem-se sustentadas em estudos empíricos onde a componente quantitativa é central. A primeira pergunta que devemos fazer é: quantas pessoas tiveram a "trajectória de sucesso" do nosso sacristão? Se a sua expressão estatística for residual, então ela não serve de muito. O sucesso económico individual e nacional não se fazem de (a)casos individuais, mas de políticas e instituições credíveis e eficazes. Segunda: se o sacristão soubesse ler e escrever, não podia ter tido logo de antemão uma trajectória que lhe permitisse ter um emprego mais seguro e mais bem pago? E assim por diante.
A moral de se achar que esta história tem algum valor para orientada a tomada de decisão política é de que as pessoas - e falo de pessoas qualificadas que sabem que a política não vive propriamente de ideias que caem do céu ou que se baseiam na história do familiar de A ou do vizinho de B - não se informam mínima e devidamente antes de fazer um julgamento sério.
2. "A história tem várias morais e uma delas pode ser que nem a formação escolar é uma garantia de sucesso nem o empreendedorismo se aprende na escola."
Que sentido é que esta crítica faz quando precisamenteo o objectivo do programa é certificar as qualificações que se aprenderam FORA DA ESCOLA? Para além disso, os conhecimentos que o programa vai permitir aos alunos aprender, se necessitarem e/ou quiserem, terão um cariz eminentemente profissionalizante, facilitando a sua inserção presente e futura no mercado de trabalho.
3. Vitor Malheiros afirma ainda que "o desprezo pelo trabalho manual (que em Portugal é sempre visto como "não qualificado" ainda que o não seja), o desprezo pela manipulação material e a ideia de que a qualificação apenas existe nas profissões de "manipuladores de símbolos", a ideia de que a casta profissional a que se pertence é mais importante do que a competência que se possui no seu trabalho. São preconceitos que explicam em grande parte o atraso português".
Na medida em que é verdade que em Portugal existe um desprezo pelo trabalho manual, o que o "Novas Oportunidades" pretende é precisamente valorizar, ou mais propriamente, dar valor de mercado a esse trabalho manual. É que valorizar o trabalho manual não é dizer muito bem dele nos jornais, nas conversas de café e nas histórias para adormecer as crianças. É certificá-lo e, com isso, emitir sinais aos empregadores que aquela pessoa que possui o certificado de qualificações X, está em condições de cumprir a tarefa Y. Não estamos aqui na dimensão romântica da valorização do trabalho A ou B; estamos a tratar de questões essenciais da forma como funciona - ou não funciona - o mercado de trabalho; e quando este não funciona, os mais prejudicados são aqueles que, tendo experiência acumulada e não a tendo certificada, têm menos oportunidades para singrar no mercado de trabalho. É isto a que chamam "desvalorizar" o trabalho manual? Desvalorizado já ele está hoje na ausência da sua certificação!
4. "A campanha é, finalmente, tanto mais tonta quanto a formação escolar pouco ou nada garante em termos de emprego".
O que se pretende exactamente dizer com isto de "garantir" emprego? Se a formação escolar não "garante" emprego, ela coloca as pessoas numa posição muito mais favorável perante o mercado de trabalho. Isto é inequívoco e já mostrei isto várias vezes aqui no blogue (por exemplo, aqui).
Pelo contrário: a não formação escolar garante, essa sim, a permanência ao longo da vida em empregos mal pagos e - perante a queda do valor de mercado do trabalho não-qualificado em economias da OCDE - crescentemente instáveis. Ela aumenta a exposição dos trabalhadores ao desemprego. Esconder este facto não é apenas ignorância: é também irresponsabilidade das elites.
Dito isto, e porque as pessoas parecem não perceber para que serve uma uma qualificação, parece-me que é importante voltar ao ponto zero da discussão. Fá-lo-ei brevemente. A maioria das pessoas que pensam e escrevem coisas semelhantes às de Vitor Malheiros parece ter saltado este ponto essencial do problema. E enchido o lugar vago com o senso comum do costume, algo semelhante ao que John Kay chama de DIY (Do It Yourself) Economics: "the false propositions which people who have not studied economics know instinctively to be true".
A única coisa que me deixa tranquilo é que o (in)sucesso do programa não se medirá pela opinião que a nossa intelligentsia tem dele.
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Hugo Mendes
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17:05
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Labels: José Vitor Malheiros, Novas Oportunidades, qualificações
Insulto?
Lido num 'take' da Lusa:
O socialista Manuel Alegre criticou hoje a campanha de promoção televisiva do programa do Governo "Novas Oportunidades", considerando que insulta os trabalhadores com poucos estudos e as profissões que exigem menos habilitações literárias.
Eu pensava que o insulto era as pessoas com menos habilitações literárias terem que ficar a vida toda em empregos cuja dignidade não está em causa, mas que não lhes permitem imaginar outros horizontes de segurança, bem-estar, e realização pessoal. Dar-lhes uma nova oportunidade é o melhor que fazermos por eles. E isto implica ir para além de uma postura miserabilista.
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Hugo Mendes
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16:48
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Labels: Manuel Alegre, Novas Oportunidades, qualificações
Feminismo ou Feminismo?
Por Inês Meneses (aka Fuckitall), no 5dias.
Ora aqui está um debate interessante para um blogue feminista. O feminismo deve lutar contra a exploração de uma imagem sexualizada da mulher ou lutar pela exploração de uma imagem sexualizada do homem? (na publicidade, por exemplo)
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Zèd
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09:08
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A marcha da Humanidade
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Daniel Melo
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02:17
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Labels: cartoonista Johnny Hart (1931-2007), humor, patentes

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