A iniciativa "Novas Oportunidades" ameaça-se transformar numa comédia de erros de interpretação - por parte sobretudo de quem não precisa delas. O artigo de Vitor Malheiros hoje no "Público" é a prova de que as pessoas não percebem a raiz do problema, não percebem o que está em causa e continuam a viver, pensar e escrever a partir de histórias que ouviram em criança em vez de perder uns minutos a olhar para umas estatísticas e a perceber que o que dizem está ancorado no senso comum.
Primeiro é história do sacristão que é despedido da paróquia por não saber ler. Uma vez na cidade, consegue montar uma tabacaria e garantir alguma prosperidade económica.
Esta uma história é sem dúvida muito bonita - mas Vítor Malheiros tem formação científica suficiente para saber que as políticas públicas não se fazem de histórias que se contam às crianças antes de adormecer mas fazem-se sustentadas em estudos empíricos onde a componente quantitativa é central. A primeira pergunta que devemos fazer é: quantas pessoas tiveram a "trajectória de sucesso" do nosso sacristão? Se a sua expressão estatística for residual, então ela não serve de muito. O sucesso económico individual e nacional não se fazem de (a)casos individuais, mas de políticas e instituições credíveis e eficazes. Segunda: se o sacristão soubesse ler e escrever, não podia ter tido logo de antemão uma trajectória que lhe permitisse ter um emprego mais seguro e mais bem pago? E assim por diante.
A moral de se achar que esta história tem algum valor para orientada a tomada de decisão política é de que as pessoas - e falo de pessoas qualificadas que sabem que a política não vive propriamente de ideias que caem do céu ou que se baseiam na história do familiar de A ou do vizinho de B - não se informam mínima e devidamente antes de fazer um julgamento sério.
2. "A história tem várias morais e uma delas pode ser que nem a formação escolar é uma garantia de sucesso nem o empreendedorismo se aprende na escola."
Que sentido é que esta crítica faz quando precisamenteo o objectivo do programa é certificar as qualificações que se aprenderam FORA DA ESCOLA? Para além disso, os conhecimentos que o programa vai permitir aos alunos aprender, se necessitarem e/ou quiserem, terão um cariz eminentemente profissionalizante, facilitando a sua inserção presente e futura no mercado de trabalho.
3. Vitor Malheiros afirma ainda que "o desprezo pelo trabalho manual (que em Portugal é sempre visto como "não qualificado" ainda que o não seja), o desprezo pela manipulação material e a ideia de que a qualificação apenas existe nas profissões de "manipuladores de símbolos", a ideia de que a casta profissional a que se pertence é mais importante do que a competência que se possui no seu trabalho. São preconceitos que explicam em grande parte o atraso português".
Na medida em que é verdade que em Portugal existe um desprezo pelo trabalho manual, o que o "Novas Oportunidades" pretende é precisamente valorizar, ou mais propriamente, dar valor de mercado a esse trabalho manual. É que valorizar o trabalho manual não é dizer muito bem dele nos jornais, nas conversas de café e nas histórias para adormecer as crianças. É certificá-lo e, com isso, emitir sinais aos empregadores que aquela pessoa que possui o certificado de qualificações X, está em condições de cumprir a tarefa Y. Não estamos aqui na dimensão romântica da valorização do trabalho A ou B; estamos a tratar de questões essenciais da forma como funciona - ou não funciona - o mercado de trabalho; e quando este não funciona, os mais prejudicados são aqueles que, tendo experiência acumulada e não a tendo certificada, têm menos oportunidades para singrar no mercado de trabalho. É isto a que chamam "desvalorizar" o trabalho manual? Desvalorizado já ele está hoje na ausência da sua certificação!
4. "A campanha é, finalmente, tanto mais tonta quanto a formação escolar pouco ou nada garante em termos de emprego".
O que se pretende exactamente dizer com isto de "garantir" emprego? Se a formação escolar não "garante" emprego, ela coloca as pessoas numa posição muito mais favorável perante o mercado de trabalho. Isto é inequívoco e já mostrei isto várias vezes aqui no blogue (por exemplo, aqui).
Pelo contrário: a não formação escolar garante, essa sim, a permanência ao longo da vida em empregos mal pagos e - perante a queda do valor de mercado do trabalho não-qualificado em economias da OCDE - crescentemente instáveis. Ela aumenta a exposição dos trabalhadores ao desemprego. Esconder este facto não é apenas ignorância: é também irresponsabilidade das elites.
Dito isto, e porque as pessoas parecem não perceber para que serve uma uma qualificação, parece-me que é importante voltar ao ponto zero da discussão. Fá-lo-ei brevemente. A maioria das pessoas que pensam e escrevem coisas semelhantes às de Vitor Malheiros parece ter saltado este ponto essencial do problema. E enchido o lugar vago com o senso comum do costume, algo semelhante ao que John Kay chama de DIY (Do It Yourself) Economics: "the false propositions which people who have not studied economics know instinctively to be true".
A única coisa que me deixa tranquilo é que o (in)sucesso do programa não se medirá pela opinião que a nossa intelligentsia tem dele.
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terça-feira, 17 de abril de 2007
Sobre as "Novas Oportunidades" ou o síndroma do DIY Economics
Posted by
Hugo Mendes
at
17:05
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Labels: José Vitor Malheiros, Novas Oportunidades, qualificações
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