A contestação não pode ter a culpa de tudo, e muito menos da derrota de Ségolène. Até porque na minha opinião não foi uma derrota da esquerda foi uma vitória da direita.
Vale a pena lembrar, Hugo, que há contestação para além dos sindicatos. Tomemos o exemplo da investigação, nos últmos 2-3 houve uma imensa contestação às politicas de cortes orçamentais na investigação. Quando os investigadoes estavam nas ruas a direita teve uma forte derrota eleitoral, nas regionais, e o governo de Raffarin caiu, em parte devido à impopularidade do governo por causa da investigação. Dessa contestação nas rua nasceu um colectivo, o Sauvons la Recherche que fez os seus estados gerais e tem tentado contribuir com propostas concretas para a politica de investigação. Elaboraram inúmeros documentos nesse sentido, incluindo propostas de reformas profundas do sistema de investigação francês. Foi esse movimento também que conseguiu pôr um travão aos cortes orçamentais na investigação desejados pelo governo da direita. A Ségolène aproveitou, e bem, o investimento na investigação e no conhecimento para o seu projecto eleitoral, e teve o apoio à segunda volta do "Sauvons la Recherche". Foi um movimento de contestação que deu bons frutos e que trouxe força à esquerda, e particularmente a Ségolène Royal.
Outro exemplo, o CPE, foi um movimento ao qual os sindicatos e a esquerda se associaram, mas foram levados a reboque pelos estudantes. Foi um movimento dinamizado pelos estudantes e que levou a uma grande mobilização, levou à retirada do dito CPE, e quase à queda do governo. Pôs o problema da precaridade no centro do debate político (com os problema que isso possa trazer, mas não é essa a questão), foi um factor de descridibilização da direita e de mobilização da esquerda.
Já comentei há pouco tempo os tumúltos das banlieues, que apesar de serem apenas (e infelizmente) acções violentas avulsas, foram um movimento de contestação que pôs o problema da integração também no centro do debate político. Sem estes movimentos de contestação a esquerda teria aparecido muito enfraquecida nestas eleições, e o resultado teria sido pior.
Como explicar então a vitória da direita? Ségolène Royal fez, na minha opinião, o melhor que um candidato de esquerda poderia ter feito. Teve a melhor conjuntura possível à segunda volta, o apoio implícito de Bayrou, o apoio explícito de toda a esquerda à esquerda do PSF, e o apelo de Le Pen à abstensão. Fez ainda, na minha opinião um bom debate no frente-a-frente televisivo com Sarkozy. Ainda assim Sarkozy ganhou com 53%. A campanha eleitoral foi esclarecedora, ficou bem claro para todos quais eram as duas alternativas, os dois projectos presentes à segunda volta. A taxa de participação foi elevadíssima à primeira como à segunda volta. Para mim só há uma explicação possível: Sarkozy ganhou porque a maioria dos franceses são de direita, ponto-final. A maioria dos franceses não quer políticas sociais, a maioria dos franceses não quer mais integração, a maioria dos franceses gosta de personagens como De Gaulle e Napoleão, a maioria dos franceses gosta de um discruso securitário e de repressão poicial, a maioria dos franceses não gosta de imigração, provavelmente com uma dose de chauvinismo e xenofobia q.b. pelo meio, a maioria dos franceses não vê a educação e o conhecimento como prioridades. A escolha pela via da confrontação e da instabilidade social (que aliás já começou, foram precisas apenas duas horas), foi uma escolha democrática, feita por um eleitorado maioritariamente de direita. E isto não é por culpa da contestação à esquerda, pelo contrário. Repare-se que os números da vitória de Sarkozy são muito semelhantes aos da vitória de Chirac em 1995, que em 2002 a direita foi à segunda volta com a extrema direita, que na V Républica o único presidente de esquerda (se esquerda se lhe pode chamar) foi François Mitterand. A única maneira da esquerda ganhar em França hoje em dia é deixar de ser esquerda (o que não seria uma vitória da esquerda), não há Blairismo que nos safe.
E quanto ao descaramento de Strauss-Khan, a quem se junta Laurent Fabius, dizer descaramento é dizer pouco. Não só não estão bem posicionados para falar em renovação, são homens - diz-se por aqui Elefantes - do aparelho do partido de há muitos anos, como foram derrotados de forma clara dentro do próprio PSF à partida para estas presidencias, por eleições directas. Pior ainda, vir puxar o tapete a Ségolène Royal na própria noite das eleições em directo na televisão, para além de revelar falta de carácter, dá desde já um importante contributo à derrota eleitoral do PSF nas eleições legislativas do mês que vem. Se qualquer um dos dois tivesse sido candidato do PS às presidencias provavelmente teriamos tido François Bayrou contra Sarkozy na segunda volta. O primeiro passo para a renovação é pôr os Elefantes na gaveta.









