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segunda-feira, 7 de maio de 2007

Boa pergunta; e agora?

Nota prévia: Este post começou a ser escrito com a ideia de ir para a caixa de comentários a este outro post do Hugo, mas no fim resolvi postá-lo aqui mesmo.

A contestação não pode ter a culpa de tudo, e muito menos da derrota de Ségolène. Até porque na minha opinião não foi uma derrota da esquerda foi uma vitória da direita.
Vale a pena lembrar, Hugo, que há contestação para além dos sindicatos. Tomemos o exemplo da investigação, nos últmos 2-3 houve uma imensa contestação às politicas de cortes orçamentais na investigação. Quando os investigadoes estavam nas ruas a direita teve uma forte derrota eleitoral, nas regionais, e o governo de Raffarin caiu, em parte devido à impopularidade do governo por causa da investigação. Dessa contestação nas rua nasceu um colectivo, o Sauvons la Recherche que fez os seus estados gerais e tem tentado contribuir com propostas concretas para a politica de investigação. Elaboraram inúmeros documentos nesse sentido, incluindo propostas de reformas profundas do sistema de investigação francês. Foi esse movimento também que conseguiu pôr um travão aos cortes orçamentais na investigação desejados pelo governo da direita. A Ségolène aproveitou, e bem, o investimento na investigação e no conhecimento para o seu projecto eleitoral, e teve o apoio à segunda volta do "Sauvons la Recherche". Foi um movimento de contestação que deu bons frutos e que trouxe força à esquerda, e particularmente a Ségolène Royal.
Outro exemplo, o CPE, foi um movimento ao qual os sindicatos e a esquerda se associaram, mas foram levados a reboque pelos estudantes. Foi um movimento dinamizado pelos estudantes e que levou a uma grande mobilização, levou à retirada do dito CPE, e quase à queda do governo. Pôs o problema da precaridade no centro do debate político (com os problema que isso possa trazer, mas não é essa a questão), foi um factor de descridibilização da direita e de mobilização da esquerda.
Já comentei há pouco tempo os tumúltos das banlieues, que apesar de serem apenas (e infelizmente) acções violentas avulsas, foram um movimento de contestação que pôs o problema da integração também no centro do debate político. Sem estes movimentos de contestação a esquerda teria aparecido muito enfraquecida nestas eleições, e o resultado teria sido pior.

Como explicar então a vitória da direita? Ségolène Royal fez, na minha opinião, o melhor que um candidato de esquerda poderia ter feito. Teve a melhor conjuntura possível à segunda volta, o apoio implícito de Bayrou, o apoio explícito de toda a esquerda à esquerda do PSF, e o apelo de Le Pen à abstensão. Fez ainda, na minha opinião um bom debate no frente-a-frente televisivo com Sarkozy. Ainda assim Sarkozy ganhou com 53%. A campanha eleitoral foi esclarecedora, ficou bem claro para todos quais eram as duas alternativas, os dois projectos presentes à segunda volta. A taxa de participação foi elevadíssima à primeira como à segunda volta. Para mim só há uma explicação possível: Sarkozy ganhou porque a maioria dos franceses são de direita, ponto-final. A maioria dos franceses não quer políticas sociais, a maioria dos franceses não quer mais integração, a maioria dos franceses gosta de personagens como De Gaulle e Napoleão, a maioria dos franceses gosta de um discruso securitário e de repressão poicial, a maioria dos franceses não gosta de imigração, provavelmente com uma dose de chauvinismo e xenofobia q.b. pelo meio, a maioria dos franceses não vê a educação e o conhecimento como prioridades. A escolha pela via da confrontação e da instabilidade social (que aliás já começou, foram precisas apenas duas horas), foi uma escolha democrática, feita por um eleitorado maioritariamente de direita. E isto não é por culpa da contestação à esquerda, pelo contrário. Repare-se que os números da vitória de Sarkozy são muito semelhantes aos da vitória de Chirac em 1995, que em 2002 a direita foi à segunda volta com a extrema direita, que na V Républica o único presidente de esquerda (se esquerda se lhe pode chamar) foi François Mitterand. A única maneira da esquerda ganhar em França hoje em dia é deixar de ser esquerda (o que não seria uma vitória da esquerda), não há Blairismo que nos safe.

E quanto ao descaramento de Strauss-Khan, a quem se junta Laurent Fabius, dizer descaramento é dizer pouco. Não só não estão bem posicionados para falar em renovação, são homens - diz-se por aqui Elefantes - do aparelho do partido de há muitos anos, como foram derrotados de forma clara dentro do próprio PSF à partida para estas presidencias, por eleições directas. Pior ainda, vir puxar o tapete a Ségolène Royal na própria noite das eleições em directo na televisão, para além de revelar falta de carácter, dá desde já um importante contributo à derrota eleitoral do PSF nas eleições legislativas do mês que vem. Se qualquer um dos dois tivesse sido candidato do PS às presidencias provavelmente teriamos tido François Bayrou contra Sarkozy na segunda volta. O primeiro passo para a renovação é pôr os Elefantes na gaveta.

domingo, 6 de maio de 2007

O resultado das eleições francesas segundo Camões

Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá donde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a desengana;

Cá, neste labirinto, onde a nobreza,
Com esforço e saber pedindo vão
Às portas da cobiça e da vileza;

Cá neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!


Soneto 120, Luís Vaz de Camões

sexta-feira, 4 de maio de 2007

C'est sure qu'on ne va pas s'ennuyer!

"plutôt la barbarie que l'ennui", é lindissima a citação de Théophile Gaultier que nos trouxe a vallera (ali mais abaixo, via George Steiner). Não sei se a vallera estava a pensar nas eleições francesas, mas "l'ennui" faz-me pensar em Chirac.

Pois caro Hugo, se Sarkozy ganhar como é mais que certo que ganhe acho que não vamos ter propriamente uma presidência à Chirac. Se Sarkozy ganhar como é mais que certo que ganhe, ninguém pode dizer que não sabia ao que vinha. Pelo modo com decorreu a campanha eleitoral ficou bem claro para todos o que está em jogo. Ficou bem claro, sobretudo depois do debate de quarta-feira, em que consistem os dois projectos que se apresentam à segunda volta das eleições, e as diferenças entre eles. Se Sarkozy ganhar é porque os franceses o querem, é assim a democracia. Claro que podemos sempre questionar a democracia, e devemos. A democracia é tão questionável como outra coisa qualquer.

Pois caro Hugo, se a contestação é boa ou má? Muitas das grandes conquistas da democracia conseguiram-se na rua, não nas urnas. Na história francesa não há muitos bons exemplos de movimentos reformistas vindos de dentro do sistema político. Já mudanças progressistas profundas como consequência de revoluções ou de convulsões sociais há uns quantos.

Sarkozy vai ser eleito, é quase certo. Podemos começar a contar os dias até rebentar o primeiro movimento de contestação. A única dúvida é saber se vão ser os sindicatos, as banlieues, os sans-papiers, os investigadores, os estudantes, ou...

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Um/a Senhor/a debate

O debate entre Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy que acabou há pouco, foi antes demais (na minha humilde opinião) um debate político como há muito não via. Valeu bem a pena perder o Milão - Man U. De ambos os lados candidatos bem preparados para o debate, com a lição bem estudada. De um lado e de outro dois programas completamente diferentes. Discutiu-se muita política (e muita economia), apresentaram-se muitas propostas concretas. Discutiu-se por vezes de uma forma cordial, por vezes de forma bem veemente. De um lado e de outro como seria de esperar uma boa dose de demagogia. Mas também de um lado e de outro o posicionamento ideológico perfeitamente assumido de forma clara, sem dissimulações. Ficaram bem patentes as diferenças entre um e outro em quase tudo, e parece-me que dos dois lados consiguiram fazer passar a sua mensagem. E ambos foram muito convincentes no papel do político de acção, com um projecto, com a capacidade e a vontade de o pôr em prática (qualquer um deles será nesse aspecto bem diferente de Chirac). Sarkozy conseguiu ser um pouco mais claro, e com um discurso mais sintético, Royal apresentou-se mais bem preparada em dossier específicos como a educação e o ambiente. Desde o início Ségolène Royal passou ao ataque, por vezes forçou a entrada no debate de assuntos que lhe são favoráveis (como a investigação), o que nem sempre correu bem, daí talvez um discurso menos claro que Sarkozy por querer falar de muitas coisas. Nicolas Sarkozy defendeu-se sempre, ou quase sempre, bem nunca perdeu o sua calma (contrariamente a algumas expectativas).
Curiosamente, o momento que marcou o debate, provavelmente a imagem que vai ser repetida ad nauseum, é a de Ségolène Royal indignada (não sei se foi uma indignação premeditada, mas foi mais convincente do que Royal costuma ser). Ségolène Royal indignou-se com a utilização demagógica por parte de Sarkozy do direito à educação das crianças deficientes, quando foi o governo do qual Sarkozy faz parte que extinguiu um programa criado por Royal enquanto ministra precisamente para integrar as crianças deficientes na escola pública. Ségolène conseguiu, quanto a mim, dar a imagem de que se indignou por uma causa justa contra uma manipulação demagógica. Se é um só momento que decide um debate então esse momento pode ter sido favorável a Ségolène Royal. Mas seria lamantável reduzir um debate de elevado nível político a apenas esse momento.

Ségolène Royal vs Nicolas Sarkozy (1993)


Hoje à noite veremos se mudou muita coisa nestes últimos 14 anos.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Só pode ser coincidência...(II)

Na semana antes das eleições são estas as capas de dois dos principais periódicos franceses, cuja "publicidade" está afixada pelo país todo. A foto é quase a mesma, a pergunta é quase a mesma, a mensagem é exactamente a mesma.


Nota: Para mais coincidências leia-se o comentário do "bacalhau sardinha assada" ali em baixo.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Só pode ser coincidência...

O dia de hoje (quinta) tem sido uma sequência de acontecimentos "bizarros" a propósito do debate entre Ségolène Royal e François Bayrou. Royal, num acto que me parece de grande inteligência e democraticidade, propôs um debate público com Bayrou. Um debate para discutir o posicionamento do terceiro candidato mais votado na primeira volta. Esse debate pode servir para establecer pontes entre os dois, eventualmente um apoio de Bayrou, com o mérito de ser feito de forma aberta e transparente, e não nas costas dos eleitores. Há acordo entre Bayrou e Royal para o debate, e aí começam as coisas esquisitas. Primeiro Royal propôs um encontro sexta-feira, por ocasião de um forum com a imprensa regional, Bayrou aceitou, é o sindicato da imprensa regional que recusa o debate. Ségolène Royal e Bayrou chegam novamente a acordo para um debate na televisão, sábado no Canal +, mas é a direcção do Canal + quem anula o debate, por indicação do Conselho Superior do Audiovisual. Estranha esta situação em que os intervenientes estão de acordo para que se faça o debate e são os media quem impede que ele se realize. Obviamente que é a Sarkozy que este debate não interessa nada. Não é de agora que Sarkozy tem uma grande inluência nos media, e do lado dos socialistas já surgiram acusações de pressões sobre os media para que não haja debate Royal - Bayrou. Se isso é verdade é um tiro no pé (digo eu...), ou então estariamos numa situação muito grave para uma democracia se o debate acabasse por não se realizar.

Adenda: O Conselho Superior do Audiovisual negou ter dado qualquer indicação ao Canal + para que o debate não se realizasse, a inteira responsabilidade é do próprio Canal +. Entretanto há de novo acordo entre Bayrou e Royal, e um outro canal de televisão para um debate sábado à tarde, vamos a ver se se mantém...

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Escolhe o teu esquerdista preferido - O epílogo

No concurso "Escolhe o teu esquerdista preferido", evento paralelo às eleições presidenciais francesas a coisa não correu muito bem aos candidatos.

Olivier Besancenot (Ligue Communiste Révolutionnaire) 4,11%
Marie-George Buffet (Parti Communiste Français) 1,94%
Dominique Voynet (Les Verts) 1,57%
Arlette Laguiller (Lutte Ouvrière) 1,34%
José Bové (Altermundialista) 1,32%
Gérard Schivardi (Parti des Travailleurs) 0,34%

A haver um vencedor terá que ser Olivier Besancenot, que voltou a apresentar-se, e foi o único que manteve os mesmos níveis de votação (o rapaz, carteiro de profissão, faz-me mesmo lembrar o Francisco Louçã dos tempos do PSR, mas em mais descontraido). Todos os outros pioraram a sua votação, ou do candidato do mesmo partido, de 2002. José Bové não é "herdeiro" de nenhuma das candidaturas de 2002, mas também não se saiu nada bem.

Em 2002 as votações tinham sido:
Olivier Besancenot (Ligue Communiste Révolutionnaire) 4,25%
Robert Hue (Parti communiste français) 3,37%
Noël Mamère (Les Verts) 5,25%
Arlette Laguiller (Lutte Ouvrière) 5,72%
Daniel Gluckstein (Parti des travailleurs) 0,47%

José Bové foi o único que na noite eleitoral se referiu ao falhanço de uma candidatura unitária à esquerda nestas eleições, e de como estes resultados foram uma derrota de todos. Num momento de extrema lucidez apelidou as votações obtidas pelos candidatos à esquerda do PSF de "desperdício eleitoral" (gâchis électoral). Efectivamente acabaram todos sem honra nem glória (excepto Besancenot) a assumir as suas derrotas e a queixar-se do voto útil, e todos (incluindo Besancenot) a apelar ao voto em Ségolène Royal sem qualquer margem de manobra para reivindicações, sem quaisquer hipóteses de poderem ser parte de um projecto com reais possibilidades de ganhar as eleições.

Embora seja um mero exercício teórico, porventura fútil, é interessante imaginar qual teria sido o cenário eleitoral ontem com uma candidatura de convergência à esquerda dos socialistas. Provavelmente o voto útil não teria funcionado tanto em favor de Royal como funcionou, o eventual candidato dessa esquerda estaria agora a ser tão assediado como o está a ser o centrista François Bayrou. Não é seguro, pelo contrário, que esse fosse um cenário favorável a Ségolène Royal. Ironicamente a fragmentação da esquerda que foi a causa do desastre para Lionel Jospin há cinco anos, talvez dê uma grande ajuda a Ségolène Royal desta vez.

domingo, 22 de abril de 2007

À espera de Mme. Royal

São 21:24 e Ségolène Royal ainda não fez a sua comunicação ao país, que estava inicalmente prevista para as 20:45. Deve estar a re-escrever o seu discurso em reposta à alocoção de Sarkozy, que foi um tudo-nada demagógico e falou de um novo sonho francês (diz que é uma espécie de sonho americano, mas à francesa)

Entretanto de salientar que já diversos dos candidatos de esquerda manifestaram já o seu apoio a Ségolène Royal na segunda volta: Voynet (e outros mebros dos Verdes), a candiadata comunista Marie-Geogre Buffet, e - surpresa das surpresas - a mais empedrenida das extremas-esquerdas Arlette Larguiller da Lute Ouvrière. Todos apelaram de forma clara ao voto em Royal, e provavelmente seguir-se-ão outros como José Bové. Se a fidelidade partidária conta alguma coisa, a coisa está a correr bem a Ségolène Royal. Falta saber o que fará o centrista Bayrou que teve 18% dos votos.

Adenda: O altermundialista José Bové e Besancenot da LCR (que obteve mais de 4%) também já apelaram ao voto em Royal, ou melhor dizendo apelaram ao voto contra Sarkozy na segunda volta. Ainda ninguém declarou o seu apoio a Sarkozy.
Ah, Ségolène Royal também já falou, e falou bem (nada de especial a assinalar).

Surpresa: Não há supresas.

Segundo as primeiras estimativas dos resultados nas presidenviais francesas, Nicolas Sarkozy e Ségolene Royal passam à segunda volta. Parece que desta vez as sondagens não se enganaram.

Sarkozy - 29 a 30%
Royal - 25 a 26%
Bayrou - 18 a 19%
Le Pen - 10,5 a 11,5%

A taxa de participação atingiu um nível histórico, ultrapassou os 85%. Talvez a única surpresa seja a baixa votação de Le Pen. Seria de esperar que baixasse, mas uma quebra de mais de 5% em relação a 2002 é enorme (uma boa notícia, portanto). Os "pequenos" candidatos de esquerda tiveram também votações miseráveis.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Nicolas - how far can you go? - Sarkozy

Acreditem que até faço um esforço para não escreveu muito sobre Sarkozy, mas não é fácil, ele consegue sempre ir um bocadinho mais longe. Desta vez o homem decidiu falar sobre Genética, eu não podia deixar de escrever aqui qualquer coisa (disclaimer: sou geneticista de profissão). Acreditem também que não considero Sarkozy como fascista ou sequer próximo da extrema-direita. De direita, sim, uma direita autoritária, nacionalista, e que por estratégia eleitoral decidiu conquistar o eleitorado de Le Pen, mas isso não faz dele fascista. Talvez por isso, esta recente gafe da Genética seja bastante preocupante.
Numa longa entrevista dada ao filósofo Michel Onfray, para a revista "Philosophie Magazine", Sarkozy afirmou que a pedofilia é inata, e que os suicídios de jovens se devem a uma fragilidade genética (pode ler-se o excerto relevante da entrevista aqui). Claro que é algo dito no meio de uma conversa (algo crispada, conforme Onfray conta no seu próprio blog), talvez até retirada do seu contexto, mas é por isso mesmo muito reveladora. Não sendo uma tomada de posição política, refectida e programada, é uma gafe que certamente não estava nos apenas nos planos, mas por ser assim "expontânea", "natural" é mais que provavelmente aquilo que Sarkozy realmente pensa. Na sua visão das coisas o ser humano está geneticamente predestinado, determinado, condenado a ser pedófilo ou suicida, logo à nascença, está nos genes. Levanta-se logo a questão de saber o que mais acha Sarkozy ser determinado geneticamente; a agressividade?, a delinquência?, a criminalidade?, a inteligência?, e achará Sarkozy que esses determinantes genéticos são diferentes em "raças" diferentes?
A discordância não é, da minha parte, ideológica, é científica. Não recuso a priori que uma qualquer característica humana tenha uma forte componente genética por convicção ideológica. Simplesmente não há evidência científica nenhuma de que o suicídio ou a pedofilia sejam determinados geneticamente, pelo contrário tudo indica que o ambiente seja muito mais determinante. Se e quando houver alguma evidência em favor das causas genéticas a discussão pode e deve existir, no plano científico. Como seria de esperar as declarações de Sarkozy foram condenadas por diversos cientistas. Quando um candidato à presidência faz uma afirmação destas, está a trazer para o plano político uma questão que nem sequer foi resolvida no plano científico. Quando o faz sem qualquer suporte científico (bem pelo contrário), apenas por pura profissão de fé, está a revelar apenas uma coisa: preconceito.
Nunca esquecendo que foi Sarkozy quem lançou um projecto de lei que entre outras coisas preconizou a detecção de potenciais delinquentes a partir dos três anos (!), nunca esquecendo que Sarkozy tem uma visão racial dos problemas da banlieue - terá confidenciado a Thuram (ainda ele) que quem provoca disturbios nas banlieues são os negros e os árabes -, e é agora Sarkozy quem defende o determinismo genético, começa a traçar-se uma imagem muito inquietante do candidato à presidência.
Hoje em dia as novas teorias eugénicas já não se manifestam pela defesa da pureza e superioridade da raça (energúmenos neo-nazis à parte), mas por uma permanente justificação genética para todas as diferenças entre os individuos, sob uma capa pseudo-científica mais refinada. No fundo, a diferença não é assim tão grande.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Police par tout, Justice nul part (II)

Relativamente aos tumúltos da semana passada na Gare du Nord ficou no ar questão "como é que da interpelação de um passageiro sem bilhete se passa a uma situação de motim generalizado?". Já agora pode ver-se o depoimento do passageiro em questão, Angelo Hoekelet. Como seria de esperar é bastante diferente da versão oficial, e mesmo sem atribuir mais credibilade a esse depoimento do que às outras versões, mas simplesmente comparando-as, percebe-se talvez algumas coisas. Um detalhe importante em que as várias versões convergem é que os confrontos começaram imediatamente no momento da detenção de Angelo Hoekelet. O que leva um certo número de passageiros do metro a envolver-se numa confrontação com a Polícia quando vêm um individuo violento ser detido? A explicação rápida (talvez demasiado) que ouvi a um francês foi simplesmente que vendo um negro ser preso os outros negros ou banlieusards utentes do metro vieram em seu auxílio. Para além levemente racista (no mínimo) não cola muito com a realidade. Interpelações como esta são frequentes, se fosse por simples solidariedade de cor haveria motins todas as semanas. Imaginar que numa situação "normal", em que há um clima de confiança nos agentes da autoridade, e estes cumprem exemplarmente a sua função, os transeuntes vão defender um infractor apanhado em flagrante delito simplesmente porque ele é negro, é absurdo. Além de absurdo não coincide com os testemunhos de quem presenciou os acontecimentos. Pode até ter havido solidariedade de banlieusards para com Angelo Hoekelet pelo facto dele ser negro, e isso ter desencadeado os confrontos, mas não se trata da tal situação "normal". Há pelo menos dois factores que, na minha opinião, são cruciais: uma intrevenção violenta da Polícia durante e depois da interpelação de Hoekelet, e um clima de desconfiança dos jovens da banlieue em relação à Polícia.

Na detenção de Angelo Hoekelet, é referido por vários testunhos, é usada foça excessiva. Segundo o próprio talvez por razões fúteis, como razões pessoais por parte dos fiscais do metro (que alegadamente até eram conhecidos). Talvez tenha sido uma operação de controlo que se descontrolou, e os primeiros intervenientes perderam mão na situação. Mas é depois desse primeiro momento que a situação se agrava (segundo os mesmos testemunhos), porque, quando se impunha um apelo à calma, há várias investidas da Polícia de Choque (os CRS) perfeitamente desproporcionadas. E aqui não se trata de um simples acontecimento que foge do controlo, é a execução de um plano elaborado para este tipo de situações que faz parte de uma política de repressão da violência, com o nome sugestivo de Vigipirate. Ou seja, é a aplicação no terreno de uma vontade política, numa de lógica responder a estas situações de uma forma repressiva, com demonstrações de força. O resultado prático foi o desencadear uma resposta violenta por parte de grupos de jovens que se encontravam na Gare du Nord. A vontade política vem de quem foi o ministro das polícias nos últimos anos, Nicolas Sarkozy.

Em relação ao clima de desconfiança por parte dos jovens das banlieues relativamente à Polícia, é um facto que se tem vindo a detriorar como consequência destas políticas repressivas. Duvido que as relações entre uns e outros alguma vez tenham sido boas, mas agora é de alguns representantes de polícias que vêm sinais de preocupação e apelos ao diálogo. Por exemplo o sindicato de polícias SGP-FO, fez um inquérito em 2005 para o qual obteve cerca de 5000 respostas; 76% dos polícias inquiridos acham a relação com as populações se detrioraram nos últimos anos, e 90% acham que a relação com os jovens se degradou (fonte Metro, edição impressa). São os próprios polícias que reconhecem um agravamento da situação. Acrescente-se ainda que com Nicolas Sarkozy se acabou com a Polícia de proximidade, que tinha por objectivo garantir uma boa relação com as populações.

Parece-me óbvio que as causas primeiras da violência urbana são sociais, e não a política de segurança. Há os problemas de integração e as condições socio-económicas em que se vive nas Cités (e como se chamam por aqui os Guetos dos subúrbios, de onde vem a violência), que podem explicar as causas do fenómeno. Mas uma política repressiva, que é discriminatória, e aponta os que já são excluidos como sendo os inimigos, é pura provocação. E é atear o rastilho de um barril de pólvora que está à espera de explodir. Nicolas Sarkozy como Presidente não vai resolver os problemas socio-económicos (é coisa que nem o preocupa) e vai aumentar ainda mais a repressão. Se for eleito é só contar os dias até que algo muito maior do que a Gare du Nord ou os tumúltos de Novembro 2005 rebente.


Nota: o título do post Police par tout, Justice nul part é um slogan antigo (Maio de 68?) que foi recuperado expontaneamente na Gare du Nord terça-feira passada, segundo os relatos foi gritado com frequência durante as investidas dos CRS (Polícia de Choque).

sexta-feira, 30 de março de 2007

Pois

Pour Eurostat, le taux de chômage français en février serait de 8,8 % et non 8,4 %.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Police par tout, Justice nul part (I)

A ironia de Daniel Oliveira é mais que certeira. Está bem à vista, pelo que tem acontecido nas últimas semanas, o que será a França se Sarkozy for eleito. O que foi feito em termos de integração das minorias e dos imigrantes ao longo das últimas décadas está em risco, senão mesmo já afectado. Esta é a situação que resulta de 5 anos de Nicolas Sarkozy como Ministro do Interior, que tutela a Polícia e a Imigração.

Primeiro foram os incidentes num infantário do 19° bairro de Paris, quando Polícia resolveu prender os pais de crianças escolarizadas, imigrantes em situação irregular, à saída do infantário 20 de Março passado. No caso foi uma família chinesa, ao fim do dia quando os pais vão buscar as crianças foram interpelados pela Polícia que não hesitou em usar a força, segundo os testemunhos claramente excessiva. Gerou-se uma escaramuça quando os pais das outras crianças e responsáveis do infantário vieram em auxílio dos imigrantes detidos, a Polícia utilizou então gás lacrimogéneo atingindo inclusivamente crianças. Dois dias depois a directora do infantário chegou mesmo a ser detida por várias horas, como se fosse um delinquente. Refira-se que em França um "imigrante em situação irregular" e um "imigrante clandestino" não é a mesma coisa, e em particular imigrantes com crianças escolarizadas têm um certo número de direitos a ser respeitados. A actuação da Polícia, sobre todos os pontos de vista, é claramente excessiva.

Depois foram os tumultos na Gare du Nord terça-feira. A simples ocorrência dos tumultos é já por si só uma demonstração do falhanço da actual política de segurança. Independentemente do tipo de política posto em prática o objectivo é evitar estas situações, quando ocorrem tumultos desta natureza demonstra-se que é uma política ineficaz, não funciona. Olhando com um pouco mais de atenção vê-se que esta política é parte do problema e não da solução (volto esta questão no próximo post). Tudo começa porque um passageiro é interpelado por não ter título de transporte válido, e reage violentamente. Ocorre-me a pergunta: "Como é que da interpelação de um passageiro sem bilhete e violento se passa para tumultos generalizados?". O actual ministro do interior, François Baroin, que substituiu Sarkozy na véspera (Sarkozy deixou o cargo para se dedicar à campanha eleitoral, como se não andasse já em campanha há 5 anos) vem logo dizer que se trata de um imigrante clandestino, com mais de 20 ocorrências por violência no seu cadastro. Quando ocorreram os tumultos de 2005 iniciados pela morte de Zyed e Bouna electrocutados quando fugiam à Polícia a primeira versão oficial (não sei se alguma vez desmentida) também era que se tratava de delinquentes apanhados em flagrante, era falso afinal, Zyed e Bouna regressavam a casa depois de terem ido jogar à bola. O novo ministro está em consonância com essas velhas práticas, a primeira versão oficial é falsa, o dito passageiro em infracção não é imigrante ilegal, está em situação regular e toda a sua família tem inclusivamente cidadania francesa, e embora tenha cadastro, é muito menos grave do que diz o ministro (7 ocorrências por pequenos furtos, e a maioria com mais de 10 anos). Mas mesmo que fosse verdade, em que é que isso justifica os tumultos? A questão mantém-se, como é que a interpelação de um passageiro sem bilhete degenera em tumulto?

sexta-feira, 23 de março de 2007

E por falar em vazio de ideias

Debatia-se há pouco tempo aqui no Peão a falta de ideias, no caso do governo português, e chegou-se ao consenso - pareceu-me - que o problema não era tanto o vazio de ideias, mas ausência de debate. Parece-me agora que em França, com François Bayrou - a tal supresa das sondagens que entretanto deixou de o ser - estamos perante um genuino vazio de ideias. Continua a não se conhecer a Bayrou um programa político digno desse nome, das poucas vezes que apresenta propostas concretas é uma cravo outra na ferradura. Tentando apresentar-se como centrista tenta agradar ao mesmo tempo à direita e à esquerda, ao patornato e aos trabalhadores. Mas a melhor maneira de se manter ao centro é não se comprometer nem com a direita nem com a esquerda, não se comprometer com nada nem com ninguém e dizer apenas vacuidades agradáveis ao ouvido. Por exemplo quando Jacques Chirac anunciou que não se recandidatava François Bayrou foi convidado para estar em directo no telejornal para uma reacção à decisão de Chirac. Quando interpelado sobre o seu próprio programa político Bayrou começa por dizer que "Não gosta de política de geometria variável" e continuou por ali a fora a dizendo defende a coerência, e mais, que está na vida política por valores e princípios. A jornalista não achou pertinente perguntar-lhe que valores e princípios eram esses, mas se o tivesse feito advinha-se que teria seguramente evocado os princípios da democracia e da república francesa. Outro qualquer candidato teria dito a mesma coisa e ficariamos sem saber em que é François Bayrou diferente dos outros, antes assim. Mais recentemente na sua visita ao forum dos estudantes Bayrou avançou com a ideia de criar um ministério específico para lidar com as expectativas da sociedade francesa, é uma excelente maneira de não apresentar as suas propostas para ir de encontro a essas expectativas, mas fico na intrigado sobre qual seria o nome a dar a esse ministério; Ministéria das Expectativas da Socidade Francesa?, Ministério da Escuta dos Anseios da Sociedade Francesa?, ou Minisitério do Diz-me o Que Queres Mas De Momento Não Tenho Nenhuma Proposta Concreta Para Resolver o Teu Problema Mas Vou Pensar no Teu Caso? Seria realmente uma inovação no sistema político.
Pessoalmente também acho que a intenção de voto em François Bayrou é volátil, aliás nas ultimas sondagens já começou a descer (pelo menos nas sondagens de quatro institutos: IFOP, IPSOS, BVA e CSA - ver no excelente site de sondagens do Le Monde). Parece-me perfeitamente natural que os eleitores indecisos neste momento confundam ainda Bayrou com a sua indecisão, tem tudo a ver. Mais ainda quando as há uma forte polarização das duas principais candidaturas, Nicolas Sarkozy à direita e Ségolène Royal à esquerda, abre-se caminho para indecisos ao centro. Mas é natural que conforme diminuirem os indecisos de diminua também a votação em Bayrou. Por outro lado, se por ventura François Bayrou passa à segunda volta, seja com Nicolas Sarkozy seja com Ségolène Royal, provavelmente ganha, é a vantagem de estar ao centro.

P.S. - E é bom não esquecer que a UDF, partido de Bayrou, na Assembleia tem apoiado sitematicamente o governo da maioria de direita, na prática a UDF de centrista tem muito pouco.

sábado, 17 de março de 2007

Afinal era tudo tanga!

A questão dos "apadrinhamentos", a tal formalidade necessária para que os candidatos à presidenciais francesas se possam apresentar às eleições, e que este ano parecia poder deixar alguns fora da corrida, deu em nada. Alimentou muita imprensa, eu ainda acreditei (ingenuamente) que fosse alterar os dados, mas no fim todos reuniram as assinaturas necessárias. A única dúvida por enquanto é José Bové (apesar de tudo uma dúvida importante), mas será provavelmente confirmada segunda-feira. De resto até o representante do partido da caça e tradição se apresenta à presidenciais. No total serão 11 ou 12 candidatos.
Houve na última semana uma mudança de estratégia dos grandes partidos, no que toca aos apadrinhamentos. Inicialmente tanto a UMP de Sarkozy como o PSF de Ségolène Royal tinham colocado pressão sobre os eleitos dos seus partidos para não patrocinarem outras candidaturas. Esta semana veio primeiro Sarkozy a público afirmar que se iria bater pessoalmente para que Le Pen (Frente Nacional) e Besancenot (Liga Comunista Revolucionária) se pudesem candidatar, François Holande pelo PSF seguiu a mesma estratégia e retirou a pressão sobre os eleitos do seu partido viabilizando as "pequenas" candidaturas. Parece-me que tanto a UMP como o PSF estão já a tentar angariar votos para uma potencial segunda volta. Tanto para Sarkozy como para Ségolène o perigo não vem dos "pequenos candidatos" mas de François Bayrou. Convém não hostilizar agora os pequenos, que podem dar votos na segunda volta.
Assim na escolha do esquerdista preferido há muita diversidade na oferta, como convém: Marie-George Buffet (Partido Comunista), Olivier Besancenot (Liga Comunista Revolucionária), Arlette Laguiller (Luta Operária), Gérard Schivardi (Partido dos Trabalhadores), Dominique Voynet (Verdes) e provavelmente José Bové.

quarta-feira, 14 de março de 2007

O drama de Le Pen

O drama de Le Pen não será o de recolher os apadrinhamentos necessários para se candidatar às eleições presidenciais, ao que parece estas estão asseguradas e Sarkozy já demonstrou querer, se necessário, ajudar Le Pen obtê-las. O drama de Le Pen é, paradoxalmente, ter chegado à segunda volta nas eleições de 2002, e tê-lo conseguido com um resultado que põe ao mesmo tempo a fasquia demasiado alta e demasiado baixa. Demasiado alta para ser uma alternativa de poder, e demasiado baixa para ser um partido de protesto anti-sistema. Por um lado chegar à segunda volta foi o melhor resultado que Le Pen podia atingir, a partir daí já não pode subir mais, ora um dos grandes trunfos de Le Pen e da Frente Nacional foi até aqui a sua subida constante, lenta mas sólida, ao longo de mais de vinte anos. Ao chegar à segunda volta o passo seguinte é ganhar as eleições, para isso tem que apresentar um programa o que é incompatível com a sua natureza anti-sistema. As poucas e ambíguas tentativas da FN, e em particular com Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, e sua putativa sucessora, deixam expostas as fragilidades do partido: por um lado as suas propostas não são muito consistentes, por outro nem são assim tão diferentes das dos partidos de direita do "sistema". Por outro lado, "grande azar" de Le Pen foi o de ter como adversário à segunda volta Jacques Chirac, do ponte de vista de Le Pen não podia ser pior, Chirac conseguiu congregar os votos de todo o espectro político fora a extrema-direita. Se por hipótese o opositor tivera sido o socialista Jospin (o que não esteve assim tão longe de acontecer) Le Pen teria tido provavelmente uma votação muito superior aos 18% que teve contra Chirac, eu arriscaria qualquer coisa na ordem dos 30%. Teria sido um terramoto ainda maior à segunda volta do que foi a primeira. Com 30% dos votos Le Pen ter-se-ia tornado incontornável, e a FN teria a sua legitimação como partido integrante do sistema político francês. Aliás há pouco tempo um documentário televisivo revelou imagens de Le Pen pouco depois de receber a notícia de que tinha passado à segunda volta contra Chirac, e a sua expressão, contrariamente ao que seria de esperar por parte do vencedor surpresa dessa noite eleitoral, era uma cara de poucos amigos. No final de contas o melhor resultado que Le Pen poderia alguma vez alcançar tornou-se no pior resultado possível dadas as circunstâncias.
Arriscando um bocado de futurologia, este ano se não conseguir melhor do que conseguiu há cinco anos Le Pen está em maus lençóis. É impossível - tanto quanto há impossíveis em política - conseguir sequer igualar o feito de 2002. Segundo as sondagens, Le Pen não só não passa à segunda volta, não obtém o mesmo nível de votação, como nem sequer será o terceiro candidato mais votado, será provavelmente o quarto. A partir daqui parece-me improvável que a FN venha a subir no futuro, vai deixar de representar a franja dos descontentes, dos votos de protesto. Isto não quer dizer que Le Pen e a FN vão desaparecer do mapa político de um momento para o outro, o seu eleitorado é muito enraizado regionalmente e socio-economicamente, mas vai provavelmente definhar lentamente. Fica por saber para onde irão os votos, porque o eleitorado de extrema-direita existe e vai continuar a existir.

terça-feira, 6 de março de 2007

Laissez-les grandir ici!

Aproveitando a deixa do Victor (bem-vindo ao Peão!) sobre da imigração em França, fica aqui um filme que estreou esta semana nas salas de cinema em França:"Laissez-les grandir ici!"

As crianças que aparecem no filme são todas de famílias de imigrantes "sans papiers", e escolarizadas em França. O texto do filme foi escrito pelos filhos de "sans papiers" que aparecem no filme e outros nas mesmas circunstâncias, o filme é realizado por colectivo de cineastas e pelo "Réseau Education sans frontières". A história completa pode ser lida no Le Monde.
Nas eleições presidenciais que se aproximam a imigração vai ser um tema forte mais uma vez, mas não vai ser só a direita e extrema-direita a brandirem palavras de ordem nacionalistas e xenófobas, também há felizmente (digo eu) quem à esquerda exija uma verdadeira política de integração.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Presidenciais francesas: Queres ser meu padrinho? (II)

Vou desenterrar aqui uma polémica (que não chegou a sê-lo) com um outro peão, o André Belo. Foi a propósito de Le Pen poder não se candidatar às presidenciais por não conseguir reunir padrinhos suficientes (conforme o post ali mais abaixo). Escrevi há tempos um post numa altura em que o Le Pen andava a estrebuchar um bocado sobre essa história dos apadrinhamentos, e fazendo-se de vítima, colocava o ónus sobre o sistema eleitoral dizendo que não era normal que um candidato que em 2002 foi à segunda volta não pudesse apresentar-se este ano por causa de uma questão processual. Na minha opinião, o que não é normal é que Le Pen não consiga arranjar os 500 apadrinhamentos necessários. Sem estar a defender este sistema eleitoral, se Le Pen não o conseguir é antes demais uma enorme derrota política para si próprio e para a Frente Nacional, e diz bem do que são um e outro, recolhem muitos votos de protesto mas ninguém os leva a sério. O André respondeu (em francês) que essa seria receita para o desastre. E porque razão a polémica não chegou a sê-lo? Porque eu estou de acordo com o André, não obstante o que já escrevi, o que eu gostaria mesmo era de ver Le Pen derrotado nas urnas, e não na secretaria. Diga-se ainda que mais recentemente Le Pen não só não se tem queixado do sistema eleitoral como faz sigilo absoluto sobre a recolha de padrinhos, e é claro que tentar interpretar esta alteração de estratégia é especulativo mas quer-me parecer que vai conseguir apresentar-se mais uma vez às eleições.

Se Le Pen tem dificuldades em reunir apadrinhamentos, outros naturalmente têm ainda mais. A tal profusão de esquerdistas, de Arlette Larguiller (essa que corre para a sua sexta candidatura) a José Bové vão ter problemas para conseguir formalizar as suas candidaturas. Isto para já cria logo um problema: que leitura fazer das sondagens? (a propósito, quem quiser informações detalhadas sobre sondagens, o Le Monde tem um excelente site com resultados de vários institutos, dos últimos 4 ou 5 meses) Apesar de tudo os "pequenos candidatos" somam no seu conjunto qualquer coisa como 15% das intenções de voto, e Le Pen outros tantos. Se estes candidatos não estiverem no boletim de voto, quem vai beneficiar com isso? É uma quantidade apreciável de eleitores e pode alterar bastante o equilíbrio de forças entre os candidatos dos grandes partidos. Eu vejo duas possibilidades diametralmente opostas. No quadro mais simples beneficia o candidato do grande partido da mesma área política, Sarkozy à direita e Ségolène à esquerda. Provavelmente o PSF e a UMP estão a contar com este cenário, mas parece-me demasiado fácil, se os votos nos "pequenos" candidatos são votos de protesto dificilmente podem beneficiar os grandes partidos, em particular numa primeira volta. Se estes votos são genuinamente votos de protesto, então é possível que se transformem em abstenção, o que objectivamente beneficia o campo político contrário, a Sarkozy beneficia da abstenção à esquerda como Ségolène beneficia da abstenção à direita. À esquerda pode ainda um ou dois dos esquerdistas conseguirem apresentar-se e recolher os votos de todos quantos não o conseguiram. A escolha do esquerdista preferido torna-se muito fácil, e pode até gerar uma surpresa nos resultados. Há ainda um factor - não sendo especialista não sei se tem algum suporte empírico - mas pelo menos em teoria pode revelar-se um tiro no pé para Ségolène e/ou Sarkozy. Passo a explicar: se os "pequenos" candidatos não se apresentarem à primeira volta, e daí resultar a abstenção dos que neles pretendiam votar, o que acontece a esses votos na segunda volta? Dito de outra maneira, será que quem se absteve na primeira volta terá maior probabilidade de se abster? E será que quem optou por um voto de protesto na primeira volta opta por um voto realista na segunda? Se for este o caso, então a Sarkozy e Ségolène, interessar-lhes-ia viabilizar as "pequenas" candidaturas da sua área política para beneficiar do seu apoio à segunda volta, mas não é isso que estão a fazer.

Adenda: Le Pen admitiu hoje que ainda não ter os apdrinhamentos necessários para concorrer às eleições, e lançou um "apelo solene" (sic) aos eleitos para que o apoiem.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Presidenciais francesas: Queres ser meu padrinho? (I)

No que resta deste mês de Fevereiro a atenção de quem segue as presidenciais aqui em França vai estar voltada para formalização das candidaturas, podem estar guardas algumas surpresas. Isto porque o sistema eleitoral francês tem uma particularidade muito sui generis, para além da recolha de assinaturas de cidadãos, é necessário aos candidatos recolherem 500 parainages - literalmente: apadrinhamentos - ou seja assinaturas 500 eleitos, que são todos os detentores de qualquer cargo político obtido por eleição directa, desde senadores a deputados à assembleia municipal, e existem 48000 em França. Mas não podem ser quaisquer 500 eleitos, têm que estar distribuídos pelo país segundo uma série de regras algo complicadas. Esta exigência favorece, surpresa das surpresas, os candidatos apoiados pelos grandes partidos. Mesmo num universo de 48000 eleitos muito poucos partidos têm 500 distribuídos pelo país segundo as regras. Até hoje este sistema não impediu que se tivessem apresentado às eleições inúmeros candidatos de pequenos partidos (Jospin que o diga), normalmente os candidatos de pequenos partidos socorrem-se de "apadrinhamentos" de eleitos dos grandes partidos que permanecem sob sigilo. Este ano essa prática acabou, para a ajudar à festa a lista de "padrinhos" de cada candidato será tornada pública. No plano dos princípios, esta prática faz todo o sentido, se uma das competências atribuídas aos eleitos pelo quadro legal e constitucional francês é a de apadrinhar candidatos à presidência da república, os eleitores têm o direito de saber quem é que os seus eleitos apadrinham. Mas palpita-em que a principal motivação desta alteração não é uma questão de princípios, mas sim um puro pragmatismo político. A partir do momento em que os eleitos são responsabilizados pelo seu apadrinhamento vão pensar duas vezes antes do fazerem, e acresce ainda que tanto na UMP como no PSF foram dadas instruções pelas direcções dos partidos para que os seus eleitos não apoiassem candidatos de outros partidos. Resumindo e concluindo, para além de Nicolas Sarkozy (UMP), Ségolène Royal (PSF), François Bayrou (UDF) e Marie-George Buffet (PCF, candidata comunista a quem as sondagens não dão mais de 3%) não há certezas sobre quem se vai efectivamente apresentar-se às eleições. Repararam que Le Pen não faz parte da short list? Fica para outro post. Do outro lado do espectro quem está na dúvida quanto à escolha do seu esquerdista favorito também não sabe muito bem com que linhas se vai coser.

curta: Ségolène Royal fez há uma semana uma série de promessas que ninguém sabe muito bem quem as vai pagar caso seja eleita, como vai sendo hábito Sarkozy não se quis ficar atrás.