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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ler -

Depois de um regresso algo frouxo, o Câmara Clara, de ontem, sobre a leitura infanto-juvenil resultou em aceso debate entre Isabel Alçada e Francisco José Viegas.
A representante do Plano Nacional de Leitura apresentou uma visão confusamente instrumental e burocrática da leitura, que passou tantou pela fisiologia (cientistas, médicos e enfermeiros, maravilhados com o PNL) como por somas fabulosas dos efeitos da política do Governo (1 milhão de crianças a ler e todos os dias e 1 hora por dia!).
Confesso que esta perspectiva me congela a parte do cérebro que era suposto a leitura desenvolver. Claro que ter um PNL é bom, e ninguém duvidará da urgência de aumentar os níveis de literacia, mas para ler o quê e porquê?
E foi aqui que Francisco José Viegas esteve em grande forma, quando insistiu que ler não é uma experiência uniforme (ler um jornal desportivo, não é o mesmo que ler um romance), nem uma simples competência de juntar letras para delas extrair um significado, e, sobretudo, quando reforçou a ideia de que a Escola não deve transmitir essa noção de processo em que tudo se equivale, mas antes valorizar o cânone literário.
É difícil crer que a leitura se desenvolva por degraus evolutivos, numa equação que vai do mais ligeiro para o mais complexo, e ainda mais difícil é crer no «socialismo» do Plano. No final a sua intenção niveladora, acabará por acentuar as desigualdades e se «não esticar a corda» à literatura, milhares de alunos não poderão por ela subir, aí sim, a mais elevados patamares académicos, profissionais e pessoais.
Imagem: Magritte- La lectrice soumise, 1928.

sábado, 10 de março de 2007

Num mundo perfeito

Num mundo perfeito não haveria bons selvagens, nem bons nem maus, não haveria selvagens. Num mundo perfeito a escola não seria centrada no aluno, não seria centrada em coisa nenhuma, num mundo perfeito nem sequer se colocaria a questão de saber em que é centrada a escola. Num mundo perfeito os alunos iriam à escola, iriam apenas à escola, saberiam o significado das palavras "disciplina" e "autoridade", e receberiam por isso as suas recompensas. Num mundo perfeito perfeito não haveria mestres em "ciências pedagógicas", essas teorias que conduzem apenas e só à criação de crianças-monstros de mimos e egoísmo. Num mundo perfeito não haveria técnicos do ministério da educação com apenas uma vaga "recordação teórica" da escola, não haveria técnicos no ministério da educação de todo. Haveria apenas uma hierarquia e uma cadeia de comando. Num mundo perfeito a média de agressões nas escolas não seria baixa, seria zero. Num mundo perfeito os alunos seriam todos bem comportados, e alunos bem comportados não agridem os professores, num mundo perfeito os professores também não agrediriam os alunos, porque a isso se chamaria "castigos corporais" e não "agressão" (e de qualquer modo, sendo todos os alunos bem comportados, não seria necessário). Num mundo perfeito os alunos bem comportados iriam à escola para absorver os conhecimentos debitados pelos professores, os programas seriam ditados pela cadeia de comandos do ministério da educação. Num mundo perfeito um ou dois sábios - não mais - por encomenda do ministério da educação elaborariam os programas escolares, que os professores debitariam para os alunos bem comportados, estes conscientes do seu papel de receptáculo de matérias aceitá-lo-iam sem questionar. Num mundo perfeito perguntar-se-ia a Vasco Graça Moura qual a terminologia linguística a adoptar, este do alto da sua sapiência diria de sua justiça e a sua terminologia seria adoptada como a única gramática possível, seria assim "A" gramática simplesmente, e seria "A" gramática que os alunos bem-comportados absorveriam educadamente nas escolas. Num mundo perfeito não haveria debates, muito menos polémicas sobre a TLEBS, ou sobre qualquer outro assunto, a cadeia de comando do ministério da educação trataria de informar os professores sobre as verdades a debitar aos alunos, não haveria debates, muito menos polémicas sobre quaisquer conteúdos dos programas, isso seria uma inútil perda de tempo. Num mundo perfeito, de alunos bem comportados, não haveriam várias verdades, verdades relativas, mas uma só verdade, absoluta. Num mundo perfeito os alunos bem comportados sairiam assim da escola preparados para a vida, cheios das verdades que depois lhes permitiriam executar competemente as suas tarefas profissionais.

Não sei muito bem se é este o mundo perfeito que desejaria Francisco José Viegas, já que das suas posições vagas e ambíguas, levemente demagógicas não se percebe se tem algumas propostas concretas, mas do pouco que se vê é essa a sensação que (me) fica. Só que a puta da realidade teima em dizer-nos que o mundo não é perfeito, é uma chatice de facto, mas é assim mesmo... E pior ainda, há quem já tenha tentado por este mundo perfeito em prática, e ao que parece os resultados não foram lá muito bons.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Ainda a violência na escola

O Francisco José Viegas teve a simpatia de colocar no seu Origem das Espécies uma parte da posta que eu havia escrito há uns dias em comentário a um texto curto seu sobre a violência nas escolas. Fê-lo sem qualquer comentário, sob o título "Médias baixas". Talvez com isso Francisco José Viegas queira mobilizar a ironia a seu favor, mas para ilustrar o meu argumento de cariz mais quantitativo, avanço aqui com um pequeno exemplo.

Eu não tenho aqui à mão neste momento dados para fazer as contas exactas sobre a realidade portugues de modo a comparar o risco de um cidadão sofrer uma agressão na rua com o risco de um aluno ou professor ser dela vítima dentro da escola, mas deixo um número relativo à realidade francesa, e que é suficiente para nos dar uma ideia da proporção destes fenómenos*. Os dados são relativos ao "longínquo" ano de 1993, mas isso não interessa muito para o caso: nesse ano, foram recenseados 1.993 casos de agressão (o número de casos é idêntico ao ano em causa, mas as coincidências têm destas coisas) entre alunos, para cerca de uma população estudantil de cerca de 14 milhões; e 3.673 casos de agressão a professores e pessoal não-docente - embora este número esteja inflacionado, dado que são incluídos nesta categoria os actos perpetrados contra as infra-estruturas (por exemplo, roubo de material) - para um total de 1.100.000 pessoas.
Fazendo as contas, vemos que a probabilidade de um aluno ser alvo de agressão na escola é de 0.014%, e de um profissional da educação é de 0,4% (número, repito, altamente inflacionado pelo motivo atrás exposto).
Ora, qual era, nesse ano, a probabilidade de uma pessoa ser agredida fora da escola, enquanto simples transeunte? O valor comparável relativo aos delitos cometidos fora da escola era de 6,5% (naquele ano, foram contados 3.703.000 delitos numa população de 57 milhões de franceses). Podemos ver que a probabilidade de um aluno ou professor ser alvo de uma agressão ou delito fora da escola é muitíssimo superior à probabilidade de ser vítima dentro do espaço escolar.

Eu vou procurar os dados mais recentes relativos à realidade portuguesa, mas não há motivo nenhum para pensar que as ordens de grandeza sejam muito diferentes entre França e Portugal - e se existe diferença, provavelmente joga a favor das nossas escolas: o risco de ser agredido dentro de uma escola em Portugal será ainda mais baixo do que o que se passa(va) em França.

*Estes números estão citados no artigo de Éric Debarbieux, "La violence à l'école", publicado em L'École. L'État des Savoirs, dirigido por Agnès Van Zanten, Paris: La Découverte & Syros, 2000, pp.399-406.

segunda-feira, 5 de março de 2007

O bom demagogo

Francisco José Viegas pertence àquele grupo de pessoas que acha que a culpa da violência na escola é das "ciências da educação" e das suas "novas pedagogias", e em particular da ideia de "escola centrada no aluno". Devo dizer desde já que não sou nem porte-parole das primeiras nem fã (dos excessos) das segundas. Mas atribuir o problema da indisciplina e da violência - que são coisas diferentes, atenção - às alterações na pedagogia releva da mais profunda demagogia e do mais simples desconhecimento do inevitável impacto das mutações trazidas pelo crescimento da população escolar nas relações pedagógicas.
Não é preciso ser empenhado militante da causa para perceber que a "escola centrada no aluno" é uma inevitável e necessária banalidade: significa que deixou de se ver o aluno como um depositário passivo dos conteúdos de aprendizagem e que é preciso motivá-lo - e necessariamente atender às suas prévias motivações, ou falta delas - para aprender. A escola dos "bons velhos tempos" de Francisco José Viegas era - para fazer uma pequena trocar de esterótipos - frequentada pelos héritiers ou pelos boursiers, cuja cumplicidade apriorística com o saber escolar permitia-lhes aprender, passe o exagero, quase por osmose. Hoje, essa escola desapareceu. Não se inculca "«disciplina», «autoridade» e «recompensa»" porque "sim", como se a relação pedagógica não fosse isso mesmo, uma relação, que depende do comportamento dos dois lados, e independentemente das consequências do exercício da autoridade, em particular para o percurso escolar do aluno. Achar que podemos simplesmente voltar ao autoritarismo do antigamente é uma ideia tão oca como demagoga. Gostemos ou não das "novas pedagogias", elas são provavelmente "estratégias de sobrevivência" de um corpo docente procurando encontrar formas de lidar com populações que não valorizam e não aceitam a escola como os colegas de carteira de Francisco José Viegas. Essas "estratégias de sobrevivência" são suficientemente boas para o ensino e para a aprendizagem? Se calhar não, e não duvido que possa haver muito a melhorar neste aspecto. Mas continuar a enredar o debate sobre educação em torno das pedagogias é chover no molhado e completamente inútil, seja à esquerda ou à direita. O que pode fazer hoje a diferença não é uma enésima reforma pedagógica, mas a mudança de filosofia ao nível dos objectivos da educação e das regras de gestão das escolas e das carreiras. Isto já é polémico que chegue. A conversa do "bom selvagem" ou do "mau selvagem" não serve aqui senão para criar ruído.

P.S. - Francisco José Viegas evoca a "média (oficial) de duas agressões por dia nas escolas portuguesas", como, sem dizê-lo assumidamente, se este fosse um número alto. Este é outra questão onde a demagogia abunda. Imaginemos que este número oficial peca por escasso. Se quiserem, multipliquem-no por 3, 5, ou 10. Continuará a ser um número baixo. Baixo se tivermos em conta a quantidade de pessoas que interage na escola todos os dias: somando os quase 1.700.000 estudantes (do nível pré-escolar ao ensino secundário, considerando os ensinos público e privado) aos cerca de 160 mil professores e 80 mil funcionários, são quase 2 milhões de pessoas, praticamente um quinto da população nacional, que convive nas cerca de 12.500 escolas do país -, o número de actos de violência por ano é surpreendentemente baixo. E é baixo quando comparado com os números de actos violentos cometidos fora da escolas, que funcionam de facto como dispositivos institucionais bastante eficazes de gestão de massas populacionais muito heterogéneas do ponto de vista etário, estatutário, socio-económico, e em algumas situações, étnico.