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terça-feira, 21 de junho de 2011

Todo o Chico Buarque rolando aí

Por obra e graça do Instituto Tom Jobim está agora disponível na internet toda a musicografia de Chico Buarque. Para ouvir, ler e deleitar-se.
No site do mesma instituição já era possível aceder à obra do seu mentor, António Carlos (Tom) Jobim.
Uma boa prenda para todos os amantes de música brasileira.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Parabéns pra você...


nesta data querida/ muitas felicidades/muitos anos de vida...

Pixinguinha morreu vítima de um enfarto, em 17 de fevereiro de 1973. E com ele se foi parte da alma musical brasileira. Nascido Alfredo da Rocha Vianna Jr., em 23 de abril de 1897, Pixinguinha é que se pode chamar de o genial criador da música brasileira.

Ele não era “só” um virtuoso da flauta. Era um compositor de rara genialidade, maestro e um arranjador como poucos no universo musical tupiniquim (e desse mundão de meu Deus). Arrajou os principais sucessos da então chamada época de ouro da música popular brasileira, orquestrando de marchas de carnaval a choros.Era um estudioso sempre à procura de novos elementos que dessem à musica brasileira uma linguagem própria e diferenciada.

Criou o que hoje são as bases da música brasileira. Foi inovador ao fundir a então incipiente música popular brasileira aos ritmos africanos, à música negra americana e europeia. Foi de suas entranhas que nasceu a genuína música brasileira.

Só lamento seu esquecimento pelos brazucas. Foi assim no seu centenário de vida e é agora. A tal Beyoncé até hoje ocupa vasto espaço em toda a mídia tupiniquim, que não se cansa de papagaiar os seus “atributos” de cantora depois de ter abocanhado 6 Grammys. De Pixinguinha nem uma linha, nem uma palavra, nem um imagem, nem uma nota musical sequer. Aos olhos do brasileiro ele nunca existiu.

Sarava!, Pixinguinha.



terça-feira, 27 de outubro de 2009

Aline Calixto, o novo sabor do samba

aline calixto _ clave do sul O que há de novo na MPB? Musicalmente, nada de novo no Reino Tupiniquim. Apenas promessas. E de promessas o purgatório está cheio. O que realmente tem aparecido de novidades são as “inhas”: meninas bonitinhas, musiquinhas redondinhas, letrinhas quadradinhas e artistas fominhas (tipo multifacetadas - aliás, elas adoram usar esta maldita expressão durante as entrevistas para os globais Jô Soares e Serginho Não Sei O Que Das Coves). Mas tudo tem uma exceção. E essa exceção chama-se Aline Calixto, que há muito deixou de ser uma promessa pra se tornar uma grata realidade.

Graças ao bom Deus, Aline não é a dita artista multifacetada. Tem coisas próprias sim, mas também grava e recria outros bons compositores. Carioca de nascimento e mineira de criação (onde vive há mais de 20 anos – tem hoje 27), Aline trouxe novo sabor, brilho e frescor ao samba.

Nascida para o samba em Vicosa (MG) e consagrada na Lapa (RJ), ela sabe como ninguém a receita exata de como fundir o samba carioca ao das rodas mineiras, com ingredientes que vão desde os mais tradicionais, como compositores do calibre de Ataulfo Alves, Geraldo Pereira, Monarco e Nelson Sargento, com o sangue novo (e bom) dos mineiros Rodrigo Santiago, Toninho Geraes, Toninho Nascimento, Affonsinho e Renegado. Seu disco bem que poderia ser chamado de “Sabores”. Tem gosto original. Não é aquela mesmice de um prato requentado servido à la carte pela poderosa industria fonográfica. Enfim, é um disco para paladares exigentes.

Para aqueles que realmente gostam de novidades na MPB, Aline Calixto é o que de melhor surgiu em Pindorama nos últimos anos. O resto são coisinhas que o tempo se encarregará de esquecê-las. Para saber mais: site, blogue, MySpace e Twitter. Como se vê, ela também é uma verdadeira WEB 2.0. Saravá!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

DocLisboa regressa amanhã

O maior festival português de cinema e referência no documentário a nível mundial regressa às salas de Lisboa entre 15 e 25/X.

Da 7.ª edição do DocLisboa destaco, à vol d'oiseau, a ante-estreia da última provocação de Michael Moore (Capitalism: a love story), documentários sobre a bola (p.e., Garrincha, alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade), bola e resistência (Futebol de causas, de Ricardo Antunes Martins), fotografia, memória e resistência (48, de Susana Sousa Dias) e música (o samba em Saravah, de Pierre Barouh).

Além disso, haverá um ciclo de histórias de amor (afinal, não são coutada da ficção), uma homenagem ao norte-americano Jonas Mekas e uma retrospectiva sobre o documentário pós-jugoslavo.
Para quem estiver interessado em dar uma olhada na programação pode ver «Filmes de A a Z» ou a ordenação por dias aqui.

Talvez por os organizadores do DocLisboa terem rompido com a RTP, pretextando não promover o evento, o canal 2 programou para esta semana um documentário sobre a vida e a obra do arq.º Nuno Teotónio Pereira (sáb., 21h).

Uma útil lista de festivais de cinema em Lisboa no ano 2009/2010 pode ser vista aqui.

E prontos, pessoal, aqui fica um cheirinho do que aí vem...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Carmen Miranda, ícone pioneiro da cultura de massas

Celebram-se hoje os 100 anos do nascimento da cantora e dançarina Carmen Miranda, ícone brasileiro divulgado em todo o mundo.
De seu nome civil Maria do Carmo Miranda da Cunha, nasceu numa aldeia minhota, filha de lavadeira e barbeiro, e cresceu no Rio de Janeiro, onde foi alcunhada de Carmen pelo gosto do seu pai por óperas. Aí ganhou o gosto e, também, o talento pelo canto, enquanto trabalhava como empregada de comércio (a sua irmã Olinda foi decisiva, e o canto atraía clientes).
A sua carreira começa com convites para cantar no teatro e na rádio cariocas, em 1929. O êxito é imediato, devido à sua imagem alegre e electrizante, plena de requebros e um misto de graciosidade e malícia hipnotizante. Passa para o suporte disco, popularizando-se rapidamente, com sambas e outras canções fáceis de reter e o seu jeito simples e animado de cantar. Em 1930 grava «Taí (pra você gostar de mim)», e ascende a maior fenómeno popular no Brasil, com mais de 35 mil cópias vendidas (a média era 10 mil).
Em 1939, monsieur Broadway convida-a para uma estadia no país da cultura de massas. Aí fica ano e meio, dando mais de 2 espectáculos por dia, numa agenda carregada de manhã à noite. Aguenta com gosto, mas também com barbitúricos, de que se tornará dependente. No curto regresso ao Brasil, tem uma recepção popular, mas muitos consideram-na «americanizada». Voltará aos EUA, para uma estadia mais prolongada (1942-53), agora em Hollywood, onde participa em 13 filmes, e em variados programas da rádio, tv, teatro, casinos e clubes nocturnos.
Em 1939, interpreta no filme Banana da terra aquela que será uma das suas canções mais conhecidas, «O que é que a bahiana tem?». Em 1943, e no contexto de aliança entre EUA e Brasil contra as potências do Eixo, arrancam uma série de iniciativas culturais de aproximação, de que o filme disneyano The gang's all here é um dos ícones, com Pato Donald ao lado do seu congénere brasileiro Zé Carioca, numa animação complementada com o meddle «Aquarela do Brasil»/ «Tico tico no fubá» e a presença de Carmen Miranda, em boneco animado e ao vivo.
Em 1944, é a vez da canção preferida dos americanos, «Mamãe eu quero», em Four jills in a jeep. Em 1947, será a vez de «Tico tico no fubá», no filme Copacabana, composição de Zequinha de Abreu. No ano anterior, tornara-se na artista mais bem paga de Hollywood.
Nos EUA, contracena com alguns dos actores mais conhecidos, como Groucho Marx, Dean Martin, Jerry Lewis, em filmes musicais e afins, onde por vezes tem que vestir 'peles' equivocadas, como as de mexicana, rumbeira, etc..
Após a sua morte precoce, por ataque cardíaco fulminante (1955), a divulgação não cessa. Desde logo, no seu velório, onde compareceram 60 mil pessoas. No ano seguinte, lança-se o Museu Carmen Miranda, no Rio de Janeiro, só inaugurado em 1976. Em 1972, Elis Regina canta em sua homenagem o enredo do desfile da Escola de Samba Império Serrano, escola vencedora nessa edição. Por ocasião da presente efeméride, foi lançado um site específico, Carmen Miranda, que tem muita informação útil e organizada. Uma boa iniciativa.
Além das fontes já citadas, baseei-me ainda numa reportagem de Anabela Mota Ribeiro («Morreu com um espelho na mão, sozinha no seu quarto», Pública, 8-2), que, por sua vez, entrevista o biógrafo Ruy Castro.
Na imagem, video antológico Carmen Miranda - Brazilian Career Medley.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A desigualdade segundo Gilberto Gil

Há algo que me perturba quando os artistas de verdadeiro talento são capazes de emprestar beleza ao que de belo não tem nada. Acho mal! Sou frontalmente contra, e devia ser proibido. Era preciso um Idanov para tratar do assunto. O Gilberto Gil, sendo um grande artista, é useiro e veseiro nestas prevaricções. Veja-se por exemplo o tema "A Novidade" (pode ouvir-se ali em baixo), o poema é dele. Um/a gajo/a ouve isto e fica a pensar: "...lindo!, é lindo!". Ou seja a desigualdade social é linda! A guerra entre ricos e pobres é linda. Repare-se:"Ó, mundo tão desigual / Tudo é tão desigual / Ó, de um lado este carnaval / Do outro a fome total", e depois canta aquilo com guitarrinha em ritmo de samba-reaggae, e arranjo tropicalista, como se falasse da coincidência mais feliz do mundo. E eu pergunto: Onde anda a escola urbano-depressiva? Onde anda o negativismo constitutivo? Onde anda o pessimismo sistémico? Sei lá, não se arranja pelo menos um faduncho? Temos que levar com esta alegria incorrigível? Eu acho mal! Sou contra!
Pode ler-se a letra completa, e umas notas do Gilberto Gil sobre a estória deste poema aqui.


P.S. - Lifelogger rocks! Thanx Shyz!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O Grémio Lisbonense merece o Rossio

O Grémio Lisbonense, associação sociocultural centenária, foi despejada esta 6.ª feira da sede onde estava desde 1842, sito na R. dos Sapateiros, 226, 1.º. Da sua varanda por cima do Arco do Bandeira tinha-se uma das mais belas vistas de Lisboa: sobre o Rossio e a cidade de todos nós.
Na ocasião, a polícia agrediu à bastonada sócios e simpatizantes da agremiação que apenas estavam a manifestar o seu descontentamento pela injusta acção de despejo (depoimentos aqui, aqui e aqui; imagens na Tvnet), permitindo à Amnistia Internacional aumentar a sua colecção de cromos sobre a violência policial no país.
O Grémio foi fundado por maçons, tal como o seu nome original deixa adivinhar: Academia Fraternal Harmónica.
O blogue FozIber refere que o Grémio esteve ligado às célebres Conferências do Casino (1871), onde Antero de Quental apresentou o demolidor «Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos». Após a conferência de Eça de Queirós a iniciativa foi proibida pelo governo e o Casino encerrado pela polícia (hélas!, cá está ela outra vez). Ainda sobre a história que o Grémio entrecruzou, e sobre o bem comum, vd. o texto de Rui Tavares hoje no Público, «Público mau, privado bom».
Recentemente, o Grémio recolocara-se entre os espaços culturais de referência, combinando formação em fotografia e artes com lançamentos de livros e revistas, concertos de chorinho, tango, música de dança, etc., tudo num salão de festas único, o tal com vista sobre o Rossio, com o soalho coalhado pela luz esmaecida da cidade. Tinha um auditório heterogéneo, combinando um público de bairro que lá ia jogar bilhar, beber um copo, ver tv ou cortar o cabelo no barbeiro centenário, com jovens vindos de todo o lado para a boémia, turistas e imigrantes brasileiros que iam ouvir e dançar o chorinho brasileiro, um dos géneros musicais mais alegres e boémios do mundo, com um toque luso. Foi assim que descobri os Roda de Choro de Lisboa e, indirectamente, o grande mestre Raul de Barros. E os fabulosos Farra Fanfarra, banda de música de festa a la Kusturica.
Era já um ex-libris da boémia lisboeta e um exemplo de como as associações populares podem ter um papel relevante na revitalização urbana, mesmo em bairros desertificados como a Baixa.
Por tudo isso, fora reconhecido como instituição de utilidade pública pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). O irónico disto tudo é o Grémio ter sido despejado depois de tal reconhecimento. Mas a CML, como lhe competia, não se alheou do caso e agora também participa nas reuniões com o senhorio para tentar desbloquear a situação. Há quem diga que o senhorio quis despejar o Grémio para ali instalar um hotel de charme, aquele contrapõe que era para arrendar. Mas se assim era, porque não arrendá-lo ao Grémio? Por se querer um valor demasiado elevado, leia-se especulativo? Enquanto instituição de utilidade pública, o Grémio deveria ter direito de preferência, fosse para arrendamento ou compra.
Portugal merece um espaço assim: podeis assinar a petição «Contra o despejo do Grémio», para o Grémio ter mais força quando for a próxima reunião conjunta com a CML e o senhorio, já esta 4.ª feira. Ou, então, fazei-vos sócios, como eu. A cooperativa cultural Crew Hassan está a apoiar o Grémio e tem na sua sede uma cópia impressa da petição. Também era importante o Grémio ter o apoio público da Confederação Portuguesa de Colectividades de Cultura e Recreio, sendo sua associada.
O Grémio merece o Rossio de todos nós. E Lisboa precisa de espaços como este para se revitalizar. Valem mais do que não sei quantos planos megalómanos.

sábado, 8 de setembro de 2007

O espólio tropicalista*

Foi na paralisia da bossa nova e a alienação da jovem guarda [1] que surge em São Paulo a Tropicália (1967 - 69), movimento que agregava não só a música, mas também as artes plásticas de Hélio Oiticica, o cinema de Glauber Rocha e o teatro, com montagens dirigidas por Zé Celso Martinez. Tendo como protagonistas a musicalidade de Gilberto Gil e Caetano Veloso (mais a irreverência de Tom Zé e Os Mutantes), a poesia de Torquato Neto e José Carlos Capenam e a genialidade do maestro Rogério Duprat nos arranjos , os tropicalistas se opõem frontalmente à proposta de MPB da época, que já nascia caduca, sem imaginação e com um blablablá puramente nacionalista, que infelizmente monopolizava os discursos de cantores, compositores e outros produtores culturais.

Com uma linguagem poética alegórica e uma música que não tinha pudores em misturar o erudito, o popular brasileiro e o pop rock, o tropicalismo tenta trazer à luz as contradições próprias da sociedade brasileira, mostrando o moderno e o arcaico, o nacional e o estrangeiro, o urbano e o rural, o progresso e o atraso de um Brasil que era sufocado por uma ditadura militar e uma classe média ainda enfeitiçada pela american way of life. Por isso, pagou um preço alto: foi recusado pela esquerda, desterrado pela direita e esquecido por todos os brasileiros.

Passados quase 40 anos, a crítica européia e norte-americana parecem ter descoberto na Tropícalia uma sedutora escola de vanguarda da world music (expressão criada por coincidência com o lançamento, em 1989, de Beleza Tropical, uma coletânea de MPB produzida pela gravadora de David Byrne, ex-líder do Talking Heads). Assim, músicos como Tom Zé e Os Mutantes ganham das platéias estrangeiras o reconhecimento que nunca tiveram no Brasil, um país hoje entorpecido pelo lixo musical da axé-music, do pagode meloso e nojento e do sertanejo travestido de caubói terceiro-mundista. Em suma: a jovem guarda tupiniquim não morreu e o samba sepultou a bossa. E a Tropicália? Bem, essa foi enterrada viva sem qualquer ressentimento e seu espólio é agora disputado por alguns produtores musicais europeus e norte-americanos. E Pindorama [2] acha tudo “Divino Maravilhoso” [3].
Nb: Capa do disco, gravado em 1967. Na foto aparecem em cima: Mutantes ( com o Caetano do lado da Rita Lee) e Tom Zé( à direita). Em baixo: Rogerio Duprat (segurando o penico) , Gal Costa e Capenan. Em primeiro plano, Gil, com uma foto de Torquato Neto.
_____
[1] A jovem guarda brasileira foi um movimento musical e comercial (mais comercial que artístico), liderado por Roberto Carlos, que surge em 1965 (portanto, logo depois do golpe militar), cujo maior objetivo não era a música propriamente dita, mas divulgar programas de televisão, revistas, filmes, bijuterias, vestuário, gírias produzidas nas agências de publicidade e todos os subprodutos correlatos. Musicalmente, o estilo "jovem guarda", também chamado de "iê-iê-iê" por influência do "yeah, yeah, yeah" dos Beatles, pode ser resumido como uma mistura de qualidade duvidosa do pop rock europeu, twist, bossa nova e até marchinha. Ou seja, não tem nada que se aproxime da frase de Vladimir Lênin, em seu discurso quando da tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia : "O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada".

[2]Em tupi, também significa “Terras das Palmeiras” e era o nome dado ao Brasil pelos índios tupis.

[3]Música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com produção musical de Rogério Duprat, gravada pela Gal Costa, em 1969. “Atenção ao dobrar uma esquina/ Uma alegria, atenção menina/ Você vem, quantos anos você tem?/ Atenção, precisa ter olhos firmes/ Pra este sol, para esta escuridão/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte/ Atenção para a estrofe e pro refrão/ Pro palavrão, para a palavra de ordem/ Atenção para o samba exaltação/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte/ Atenção para as janelas no alto/ Atenção ao pisar o asfalto, o mangue/ Atenção para o sangue sobre o chão/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte”.

*Manolo Piriz

OUVIDOS UNI-VOS







Recebo o CD "Ouvidos Uni-vos" o mais recente trabalho de Luiz Tatit.
Este músico paulista mora ali pelos lados da Vila Ida, muito perto da Vila Madalena, a “Vila Madá”, bairro boémio da cidade muito frequentado pelos universitários.

Nada mais paulista do que a capa do CD, uma colagem de vários rostos anónimos. Ou o refrão de uma das músicas que nos lembra a Marginal do Tietê e a poluição, a grande marca da paisagem urbana e da vida dos paulistas:
(…)
Vi nas asinhas
De um pernilongo
Lama do rio
Rio do mal
Nem bem entrou na cidade
Virou marginal
(…)
Rio Tietê,
Nosso E.T.
Cadê?
Melhor esconder
(…)
[1]

O músico continua a brindar-nos com o seu gostinho especial em juntar o tom do universo infantil às coisas que também tocam os adultos:
Eu ando tão dodói
Mas tão dodói
Que quando ando dói
Quando não ando dói
Meu corpo todo dói
Tendão dói
Dedão dói
Pomo-de-adão dói
Ouvido dói
Libido dói
Fígado dói
Até meu dom dói
Pois quando canto
Não importa o tom dói
[2]

Além da parceria, Luiz Tatit também presta homenagem a Itamar Assumpção (1949-2003), o músico da poesia urbana de São Paulo que trouxe o “som do porão da cidade”:
Bem mais que um tipo de rock
pura assunção de Sampop
(…)
Rock de breque, rock de breque
Toque de mestre Assumpção
Tente entender numa boa
Sol de São Paulo é garoa
Cara em São Paulo é coroa
Praia é balcão
(…)
Nobre missão de Sampop
Entra em acção desentope
Ouvidos uni-vos
Num grande orelhão
[3]
Escutem a senha
Que vem lá da Penha
Com breque de pé e de mão
[4].

O ritmo nordestino da maior cidade brasileira está presente n´ “O Baião do Tomás”[5] e o “Baião de Quatro Toques”[6].
Também oiço a voz límpida, de passarinho, da Ná Ozetti em “Minta”[7]. Diz o próprio Tatit que ela é a “voz que não pode faltar”.

Ouvidos oiçai.

[1] "Tietê", de Luiz Tatit.
[2] “Dodói”, de Luiz Tatit e Itamar Assumpção
[3] No Brasil, em geral, as cabines telefónicas têm o engraçado formato de uma orelha humana.
[4] "Rock de Breque", de Luiz Tatit
[5] "Baião do Tomás", de Chico Saraiva e Luiz Tatit
[6] "Baião de Quatro Toques", de Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit
[7] "Minta", de Ricardo Breim/Luiz Tatit

terça-feira, 3 de abril de 2007

"Troquei minha tese pelo tesão"...

"Mamãe, mas que fato importante,
eu me apaixonei pelo meu informante
"..

Para antropólogos e não só. Tudo gira à volta da antropologia, ou não. Fantástico! Uma delícia...
E ainda por cima, talvez o 1.º videoclip em língua portuguesa no DJ Peão...
Plus, estreamos o marcador «Antropologia»! Mais para quê? Tudo na ponta do seu clic.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

DJ Peão: Si Belle, Cibelle


Dos novos talentos da música brasileira surgidos nos últimos anos Cibelle é sem dúvida minha favorita. Mistura Samba-Rock e Samba-Reaggae com música electrónica, e é claro Bossa-Nova. Tem uma excelente voz, é fantástica ao vivo, e é diferente do tudo o resto. Faz parte também dos artistas que usam a internet, e outras "modernices" para contruir a sua imagem, veja-se o seu site. Em cima fica o vídeo de "Explendor", meu tema preferido do álbum "The Shine of Dried Electric Leaves", mas é de certo modo atípico, é tocado exclusivamente em acústico. Para quem quiser mais Cibelle pode ver este vídeo no YouTube em que Cibelle canta "London London" de Caetano Veloso em dueto com Devendra Banhart (em trajos vitorianos), ou ainda o tema "Só sei viver no Samba" do álbum "Cibelle" que fica aqui em baixo.