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sexta-feira, 6 de julho de 2007

Cosmopolitismo: Os Libaneses e as Sanduíches

Uma nota prévia: Como já foi referido algures aqui no Peão, Cosmopolitismo e Multiculturalismo não são a mesma coisa (encontrei uma boa explicação da diferença aqui). Eu próprio confundi os dois em posts anteriores, fica aqui o esclarecimento, entre um e outro prefiro sem hesitações o Cosmopolitismo. O Cosmopolitismo cria pontes onde o Multiculturalismo ergue barreiras. Aliás, até mais do que pelo Cosmopolitismo sou mesmo é pela Misturas, pela Miscigenação.

E nas minhas deambulações (sobretudo por Paris, mas não só) cheguei à conclusão que o Cosmopolitsmo começa pelo estômago, ou se quiserem pelas papilas gustativas. Não conheço maneira mais fácil de começar a criar pontes entre comunidades do que a gastronomia. Veja-se o exemplo das Sanduíches Libanesas no Quartier Latin. Há várias casas que se dedicam ao negócio, mas a mais aconselhável é "Au Vieux Cèdre" (187 rue St. Jacques, ou 2 rue Blainville). Como quem não quer a coisa as sandes são baratinhas. Kefta ou Mahkaneke, ou melhor ainda Chiche Taouk (frango marinado em alho e lima), enrolado em pão tipo pita com salada e molho, e para quem quiser - o que é definitavamente uma boa ideia - um complemento de batata à la Libanaise. A sandes é depois tostada tipo panini - uma delícia! Em momentos de não rara simpatia o cliente tem o direito a um chá libanês - com menta e tomilho e mais alguns ingredientes, estamos em negociações para obter a receita - oferta da casa para compensar a espera (que é, em média, de 3m42s). Há ainda sobremesas como a irresitível Balohria, à base de flor de laranjeira. "Au Vieux Cèdre" é também um local de encontro com um pouco, por pouco que seja, da cultura libanesa, pelo menos a música, que toca em permanência. Mas pode ser também um ponto de contacto com a vida política do Líbano. Durante a Guerra do ano passado fez-se circular muita informação sobre as acções de solideriedade para com o Líbano decorridas em França, e blogues libaneses. Rentemente o "Au Vieux Cèdre" lançou uma nova sanduíche, a Fajita. E agora pergunta o leitor: Fajita? Mas isso não é mexicano? E responde este vosso bloguer: é mexicano, mas numa sandes libanesa é daqui (e aperta o lóbulo da orelha direita entre o polegar e o indicador), uma maravilha!

Sendo a concorrência na área das sanduíches libanesas díficil, uma outra família de libaneses decidiu diversificar. Abriram o "Pains, Salades et Fantesies" (22 rue Gay Lussac, mesmo ao pé do Jardin du Luxembourg). O nome diz tudo quanto ao tipo de comida que servem. Não se pode é dizer que seja um tipo de gastronomia calssificável pelos padrões canónicos. Não é libanês, nem francês, nem outra qualquer etnicidade, é uma misturada, e da boa. Paninis de salmão fumado, ou frango, ou vegetariano à base de beringela. Saladas "Californianas" ou de marisco, ou "Tropical". Uma variedade de escolha apreciável, e a confecção muito boa (só é pena ser tudo muito saudável). Nas sobremesas é absoulutamente imperdível o "Fraicheur", iogurte natural, com folhas e menta e passas. Tudo isto num ambiente muito tranquilo onde se ouve um Jazz muito "select" a décibeis reduzidos, numa decoração neo-eco soft vegi-friendly e onde se podem ler jornais escritos em árabe. Os preços são mais do que acessiveis, e o serviço é rápido (excepto quando a clientela bcbg exagera na especificações pós-modernas da condimentação; é um risco real), a degustação essa convém que seja lenta e "sur place".

quinta-feira, 17 de maio de 2007

La Démocratie du Sandwich

Nota prévia: este post provavelmente é compreensível apenas para os padeçam ou tenham padecido de uma patologia denominada Seinfeldependência, ou requer no mínimo que estejam familiarizados com esse síndrome.
A Boulangerie Moderne (16 rue des Fossés de Saint Jacques, 5émé arrondissement, na realidade é na place de l'Estrapade) é uma padaria em Paris, que se dedica principalmente a vender sanduíches ao almoço. Escrevo este post porque a Boulangerie Moderne é verdeiramente o oposto do The Soup Nazi. Sendo rigoroso, em Sein-Language é a versão Bizarro World do Soup Nazi (mais sobre o Bizarro World aqui).
No Soup Nazi (também tem direito a uma entrada na Wikipedia) para que o serviço se faça de forma ordeira e eficaz o Chef estabelece uma série de regras draconianas a que os clientes têm de se submeter: respeitar a fila, fazer a encomenda de forma expedicta quando chega a sua vez, avançar para a caixa depois de fazer a encomenda, ter o dinheiro pronto etc... Quem não respeita estas regras é severamente punido. Na Boulangerie Moderne é totalmente o oposto. Não são excelentes sopas que se vendem, são magníficas sanuíches (e.g. Sicilian Poulet). As regras de conduta para um serviço ordeiro e eficaz não são ditadas pelo Chef antipático e autoritário, logo à partido porque não há um Chef antipático e autoritário mas três simpatissímas senhoras a atender os clientes. As regras de conduta existem mas não estão escritas em lado nenhum, é um código ético tacitamente aceite pelos clientes (quase todos habitués): 1) entra-se pela porta à direita, ou faz-se fila no exterior se for caso disso; 2) mais ou menos depois de se ter passado um metro da porta virá uma das senhoras solicitamente perguntar ao cliente o que deseja, é nesse momento deve ser feita a encomenda; 3) o pagamento é feito logo após a ecomenda; 4) caso seja necessário esperar que a sanduíche seja aquecida, o que é quase sempre o caso, e é neste ponto que podem ocorrer mais perturbações à ordem pública devido à escassez de espaço (a padaria é sobre o comprido, basicamente um corredor estreitinho de uma porta à outra), há um mini balcão do lado da janela, mais parece um parapeito, ao qual o cliente se deve encostar enquanto espera que a sua sandes esteja pronta, se o balcão estiver completamente ocupado a solução de recurso é encontrar um cantinho na esquina junto à caixa; 5) uma vez servido o cliente deve sair o mais rapidamente e graciosamente possível, sem pisar os demais clientes.

Nunca ninguém foi punido por desrespeitar estas regras. Muito menos as simpáticas senhoras ao balcão alguma vez fizeram reparos quanto à conduta dos clientes. O mais que pode acontecer é a quem entra pela porta da esquerda não ser servido porque a sua vez nunca chega. Não que isso seja intencional mas por uma simples falta de referencial (é o que se chama a coacção passiva). Claro que por exemplo uns jovens turistas alemães, que não estejam familiarizados com o código de conduta, terão tendência a colocar um sem-número de questões antes fazer a sua encomenda, e colocar-se no meio do corredor enquanto esperam pelas suas sanduíches, impedindo o normal fluxo dos demais utentes do serviço. A prática corrente neste tipo de situações é a da mais pura tolerância, espera-se pacientemente que os prevaricadores abandonem o local, depois de servidos, para que a vida regresse à normalidade. Há também uma prática instituida de tolerância relativamente aos compradores-de-baguetes-à-hora-de-almoço, considera-se razoável que passem à frente de toda a gente na fila e saiam rapidamente, por vezes tolera-se até que entrem pela porta da esquerda. No final de contas chega-se à conclusão que na versão Bizarro World do Soup Nazi a coisa funciona também de forma ordeira e eficaz, a qualidade do serviço e do produto são excelentes, e porventura a experiência é mais agradável (bizzarre...).

P.S. - Depois de escrever isto assalta-me uma dúvida: o título do post não deveria ser antes "L'Anarchie de la Sandwich"?