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quinta-feira, 1 de maio de 2008

Continuo a ler o Blasfémias na esperança de ver um dia João Miranda a justificar uma afirmação

(assim em jeito de epígrafe) "... a esperança é a última a morrer" - adágio popular

E por falar em erro metodológico, João Miranda que é um excelente bloguer conhecido pela sua prosa clara, concisa, directa e objectiva comete sistematicamente um erro metodológico: omite sempre qualquer argumento que possa justificar as afirmações acertivas que faz amiúde. Assim é bem mais fácil ser claro conciso, directo e objectivo. Por exemplo seu acabasse aqui o post seria um post à João Miranda, mas não, vou dar dois exemplos:

A propósito da ministra da defesa espanhola que passa revista às tropas grávida, João Miranda acha que só pode tratar-se de usar a imagem de uma mulher como bibelot. E se alguém achar que se calhar a dita ministra até foi nomeada para o cargo por ser competente João Miranda diz que pode até ser mas continua a ser um bibelots. Mas porquê um bibelot? Porque sim! Quando se faz uma afirmação dessas deve ter-se uma boa razão, não? Sim, e João Miranda tem seguramente uma boa razão, mas se perdesse tempo a explicar deixaria de ser claro, directo, conciso e objectivo, e isso é que não pode ser. E ademais uma mulher só pode ser um bibelot, é tão Lapalaciano que nem é preciso justificar. É preciso explicar?

E volta à carga com o 25 de Abril, em resposta a este texto de Rui Tavares (por sinal das coisas mais hilariantes que li nos últimos tempos). Para João Miranda o 25 de Abril é tão responsável pela universalização das pensões, do sistema nacional de saúde, das férias pagas, como pelo aparecimento do iô-iô, do cubo mágico e das cassetes do Tomás Taveira. Umas e outras apareceram depois do 25 de Abril, e portanto umas são tão consequência do 25 de Abril como outras. O elo causal, a relação causa-efeito não dizem nada a João Miranda. Que tenha havido leis (como refere Rui Tavares) que tornaram tornado possíveis as férias pagas, ou as pensões, que se tenham feito reformas do serviço nacional de saúde, e já agora do sistema de ensino, não lhe diz nada. Que eu saiba não houve lei nenhuma que implementasse o iô-iô nem o cubo mágico, e muito menos foram direitos consagrados na Constituição de 1976. Leis e Constituição que não seriam possíveis sem o 25 de Abril (digo eu). João Miranda afirma apenas que o 25 de Abril não criou riqueza. Terá João Miranda algum estudo que permita afirmar uma coisa dessas? Não, mas isso não o impede de fugir para a frente. João Miranda afirma ainda, categoricamente, que no exemplo da mortalidade infantil essa já tinha começado a diminuir antes, portanto a evolução dos últimos 30 anos não tem nada a ver com o 25 de Abril, vem de trás. É óbvio (pelo menos para João Miranda) que sem o 25 de Abril a evolução teria sido exactamente a mesma. Porquê? Porque sim!

Aliás isto até desencadeou uma conversa curiosa entre umas vozes na minha cabeça*:
- Sabes?, o 25 de Abril não teve nada a ver com a descida da mortalidade infantil.
- Não? Então como é que se explica esta descida nos últimos 30 anos.
- É uma dinâmica que começou antes, em 1970 já se morria muito menos que em 1940.
- Quem é que disse isso?
- O João Miranda.
- Ah!, se é o João Miranda que diz, deve ser verdade.
- Mas pensando bem em 1910 já se morria muito menos do que em 1830, portanto a I República também não fez nada.
- E o mesmo é verdade para a alfabetização.
- E na realidade em 1830 estava tudo muito melhor que em 1650.
- Portanto os liberais também não nos trouxeram nada, já vinha de trás.
- E a bem dizer em 1650 estava-se muito melhor do que em 1500.
- Eu sempre achei que a Restauração tinha sido um desastre, não tinha trazido nada de bom.
- Mas em 1500 já se vivia muito melhor do que em 1390.
- Portanto não foi a chegada à Índia que nos veio trazer melhorias.
- Claro que não, já vinha de trás.
- Mas espera lá, voltando ao 25 de Abril, o 25 de Abril trouxe-nos melhorias, ou não?
- ... o João Miranda diz que não?
- E a democracia? E a universalização dos serviços públicos, que eram só para alguns? Isso só veio depois.
- Mas a dinâmica já vem de trás, mesmo sem 25 de Abril tudo isso teria acontecido.
- Ai é?
- Claro que é! A ala liberal, as conversas em família, e o caraças..., o regime estava em mudança, era inevitável.
- É verdade! Agora percebo! Até o próprio 25 de Abril teria acontecido naturalmente, mesmo que não tivesse havido 25 de Abril.
- Mais, o 25 de Abril ACONTECEU de facto sem 25 de Abril. Se vires bem o Movimento das Forças Armadas e o Movimento dos capitães começaram a conspirar antes do 25 de Abril, prepararam e executaram o golpe de estado antes do 25 de Abril.
- Coisa que, aliás, jamais teria acontecido depois do 25 de Abril.
- Ora depois do 25 de Abril todos os passos que vinham sendo dados no sentido de fazer para a transição para um regime democrático foram abruptamente interrompidos.
- E o mesmo e passou com a Guerra d'África.
- Depois do 25 de Abril é que nunca mais se avançou na direcção da Democracia.
- É verdade...
-O 25 de Abril e a Democracia só foram possíveis graças ao antigo regime.
-Genial esse João Miranda.

*Não vos preocupeis, estou devidamente medicado.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Do uso da lógica II (para uma (re) leitura do excelente post do Zèd)


Do uso da Lógica

Há de facto uma curiosa coincidência entre o pensamento reaccionário e o uso bárbaro das regras do raciocínio e da lógica.

Pego na frase certeira de Miguel Vale de Almeida, retirada de um post todo ele excelente. Pensava eu, na minha inocência, que um dos pilares do adquirido civilizacional do ocidente (o tal que está ameaçado de morte pelo relativismo), era o uso da razão, herdado do iluminismo, particularmente de Descartes, isto para não ir mais atrás, até à Grécia antiga.
O uso da razão, tal como é concebido actualmente no nosso contexto particular de mundo ocidental, é indissociável das ciências empíricas e da lógica. É baseado numa observação tão objectiva quanto possível da realidade, e de um tratamento lógico da informação recolhida. Ora aí está uma das coisas mais importantes que aprendi na escola, que se aprende ainda hoje na escola, e que ouso dizer se aprende melhor hoje na escola do que há 40 ou 50 anos (falando particularmente da escola em Portugal). E quando aprendi na escola a lógica formal ficaram-me dois símbolos no espírito que nunca mais saíram: ∃ (quantificador existencial) e ∀ (quantificador universal), o primeiro quer dizer "existe pelo menos um" e o segundo "é verdade para todos". Escusado será dizer que são dois conceitos completamente diferentes, diria mesmo opostos. Por exemplo (escolhido completamente ao acaso): Se visionarmos uma aluna no YouTube a degladiar-se com uma professora por um telemóvel concluímos que ∃"aluna que luta com professora por telemóvel". Se escrevermos um texto inteiro, com base nesse acontecimento, a discutir o estado actual da educação no país, a escola, esta juventude de hoje em dia que já não é como antigamente, etc..., estamos a partir do pressuposto que ∀"aluna que luta com professora por telemóvel". ISTO É OBJECTIVAMENTE UM ERRO DE LÓGICA!
É um erro de lógica, que muita gente ainda comete (como se pôde ver nos últimos dias, semanas, meses, anos, desde sempre). Aqueles que andam para aí a bradar contra tudo e todos, anunciando o fim do mundo, sem o mínimo respeito das regras básicas da lógica, a tal nebulosa reaccionária, afinal ou não aprenderam nada na escola, ou a escola no tempo deles não ensinava tão bem quanto nos querem fazer pensar.

P.S. - Outro exemplo de utilidade prática para quem lê jornais: se ocorreu um crime violento quer dizer ∃"crime violento", falar em onda de criminalidade é mais ∀"crime violento", mais ainda se o crime for cometido por um negro ou um cigano quer dizer que ∃"negro ou cigano que comete crime" não quer dizer que ∀"crimes são cometidos por negros e ciganos" muito menos quer dizer ∀"ciganos e negros são criminosos" (curiosamente quando um crime é cometido por um branco, i.e. ∃"branco que comete crime", a mensagem que passa é ∃"alguém que comete crime", o que nos levaria a outro pressuposto da lógica: a coerência).
É uma questão de lógica, e de aplicar no quotidiano as (poucas) coisas realmente importantes que se aprende na escola.