quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tu rostro mañana

Tu rostro mañana, o último romance de Javier Marías que se estende por três volumes - Fiebre y lança, Baile y sueño, Veneno y sombra y adiós - acompanhou-me durante boa parte de 2010 – começou por ser uma leitura de verão, atravessou o outono e chegou ao inverno. O seu tom melancólico e agreste é mais adequado a estações com chuva e vento cortante do que à época balnear. Javier Marias retoma a voz da personagem donde saiu uma das novelas que o tornou conhecido nos anos 80 - Todas las almas, um retrato irónico do ambiente académico britânico no qual foi professor. O jogo ficcional autobiográfico – levando quem lê a acreditar que a voz narrativa é a mesma do autor, mas as circunstâncias não são necessariamente as mesmas – desenvolve-se e complexifica-se em Tu rostro mañana, romance em que o narrador se confronta com a narrativa da memória do pai que, tal como o pai do escritor, o conhecido filósofo Julián Marías, foi preso e proibido de ensinar pelos vencedores da guerra civil de Espanha, por causa da traição de um amigo. Tal como nas suas novelas mais celebradas - Coração tão branco e Amanhã na batalha pensa em mim, algumas citações de Shakespeare iluminam as histórias contadas, num tempo em que as palavras correntes parecem insuficientes para decifrar a tragédia das pessoas comuns.

Ao contrário das suas novelas fulgurantes, o leitor não é atirado para a narrativa por um enigma cuja explicação é prometida e a sua atenção captada a cada página por fórmulas encantatórias, personagens marcantes e observações agudas. O leitor de Javier Marías terá de fazer um esforço maior para seguir as deambulações e digressões do narrador pela história e actualidade de Espanha e do Reino Unido, por um vaivém entre História e literatura, universidade inglesas e serviços de espionagem, guerra civil de Espanha e a actual luta dos Estados europeus e dos Estados Unidos contas as ameaças ao seu poder. Tu rostro mañana é uma meditação sobre a traição, sobre a forma como a vida de uma pessoa depende de confiar nas pessoas certas e da sua vida ser contada com as palavras certas. O romancista cria uma ficção que é uma metáfora do próprio exercício ficcional ao inventar um narrador recrutado, através da rede académica, para um serviço ultra-secreto britânico de agentes cujo papel é serem «intérpretes de vidas». Ou seja, decifram as máscaras de personagens públicas, lendo nelas a sua ficção e a sua verdade. O jogo entre verdade e ficção é jogado com saborosa ironia por Javier Marias ao colocar, em epílogo, depois dos agradecimentos e dos posfácios, alguns relatórios de «intérpretes de vida» sobre Berlusconi, Michael Caine e Diana de Gales.

Depois de se ter afirmado como um escritor de sucesso na Espanha dos anos 80 e 90 que se orgulhava de separar literatura e política e se mostrava um brilhante pintor da nova e velha vida privada dos espanhóis, Javíer Marías escreve um romance que é uma falsa obra de chegada. Pois o que ele faz é cruzar caminhos percorridos, com novos caminhos, questionando o presente face à traumática memória da guerra civil espanhola, a relação da vida privada com a vida pública, o combate ao terrorismo pelos Estados democráticos com a prática de tortura por esses Estados.